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Tem que melhorar…

Antes de falar sobre The Life and Death of Jeremy Bentham, episódio da semana passada de Lost, vamos às vias de fato sobre essa quinta temporada: quanta encheção de lingüiça! Tudo bem, todo episódio tem uma ou duas cenas realmente boas, mas enquanto isso somos arrastados por uma história que ou parece não ter sentido ou que poderia ser resolvida sem gastar tantos episódios. Com a chegada dos Oceanic 5 (cadê o Aaron?) na ilha maluca no episódio 316, parecia que The Life and Death… seria desses momentos de Lost em que tudo se redesenha em um único programa, afinal, veríamos o que Locke falou para que aqueles que conseguiram fugir da ilha resolvessem voltar. E mais: como ele morreu? O que o levou a se matar? Por que ele teria se rebatizado de Jeremy Bentham?

Quando o novo nome de John Locke veio à tona, uma série de teorias começaram a surgir, comparando o contraste entre o Locke e o Bentham original. Será que o careca teria deixado de ser bonzinho e assumido uma postura mais libertária e arrogante como seu novo pseudônimo? O que ele teria feito na ilha que lhe fez optar por uma mudança tão radical que inclui o próprio nome? E logo depois do início do episódio, todo o mistério é desfeito em uma frase, quando Charles Widmore entrega documentos e cartões de crédito para Locke iniciar sua jornada para convencer Jack, Kate, Hurley, Sayid e Sun a voltarem à ilha, citando que do mesmo jeito que seus pais tinham senso de humor ao batizá-lo de Locke, ele assim o fez ao rebatizá-lo.

Simples, não? Simples e PALHA. Locke sequer deve saber quem foi o Bentham original ao mesmo tempo em que pergunto-me o que mudaria caso Widmore o batizasse de “John Doe” (o “fulano de tal” dos americanos) ou o deixasse com seu mesmo nome – e a única resposta que me vem é “nada”. Da mesma forma, assistimos lentamente o careca maluco visitar cada um dos Oceanic Six (menos Sun, pois havia prometido a Jin que não a procuraria) em diferentes cidades do planeta. E o que Locke poderia ter dito a eles a ponto de todos concordassem a voltar à ilha? Alguma ameaça? Um novo ponto de vista sobre todo o acidente, a mudança da ilha e o resgate? Uma novo discurso, menos carola e mais cético?

Que nada: assistimos ao mesmo Locke de sempre vir com os mesmos papinhos de quando ele estava na ilha. “Você tem que voltar” em diferentes variações, com direito às conversas mais íntimas que ele já teve com os mesmos personagens. Mas é um sentimentalismo vazio, oco, que não convence nem o telespectador, quanto mais os carinhas que devem voltar. Sem sucesso, ele resolve se matar.

Hein? O Locke? Aquele personagem que passou pelos piores bocados do seriado, que comeu o pão que o diabo amassou a vida inteira, resolve se matar porque não conseguiu convencer os outros a voltarem à ilha? Widmore não foi tão convincente assim e o principal motivo de ele querer voltar para a ilha (o fato de ele não ter mais nada a perder, como Kate esbraveja) também pode ser um motivo para ele nunca mais querer voltar para lá. Na jornada de Locke, poucos pontos são verdadeiramente importantes para o seriado, como o fato de ele descobrir que sua ex-mulher Helen havia morrido (será? Quem a matou? Ben? Ou ele só forjou sua morte para que Locke tivesse motivos para não ficar fora da ilha?) e a morte de Abbadon (que também pode ter sido forjada, pois logo após ele ser baleado, Locke assume o volante do carro e se envolve num acidente que o leva para… o mesmo hospital que Jack trabalha).

Além disso ainda reencontramos Walt, cada vez mais gigante. Se os produtores não quiserem que o Walt na temporada do ano que vem não seja um negão do porte de um jogador de basquete (ou do Mr. Eko? Hmmmm), é melhor filmarem logos suas cenas, porque ele só convenceu que ainda é um moleque porque Locke conversou com ele na cadeira de rodas.

(Sobre a teoria que Abbadon seria Walt velho, o fato de Abbadon ter morrido – se é que foi – não invalida a possibilidade de ele ter se tornado o ajudante de Widmore. Afinal, uma vez morto no presente, ele pode crescer e voltar no tempo para assumir o papel do procurador sinistro.)

E então temos a cena do suicídio de Locke, cheia de alegorias religiosas – Locke de branco, pendura sua forca em uma cruz de madeira e abre os braços antes de pular, para ser interrompido por Ben todo de preto, que, pouco depois de salvá-lo, mata-o como seu próprio Judas. Junte isso ao fato da ressurreição de Locke ter acontecido três dias depois de sua morte e, pronto, temos a confirmação de que ele é o personal Jesus da série.

Ou ao menos é assim que Widmore e Ben querem que ele pense – e nós também.

Porque a picuinha Widmore x Ben continua completamente alheia à história principal. “A ilha é minha” contra “ele mudou as regras” não ajuda a gente a saber quem é mocinho e quem é bandido nessa história. Lost vem conduzindo a trama pra que nós entendamos que não tem mocinho nessa história, por mais legal e fala mansa que Charles tenha sido no episódio passado. Mas a facilidade em encontrar o endereço de Ms. Hawking e a tranqüilidade com que ele o passou para Desmond insinuam que ele pode estar do lado da Dharma e de Eloise. Mas lembre-se que esse é o mesmo sujeito que botou um avião cheio de cadáveres no fundo do mar e que mandou mercenários num cargueiro matar geral na ilha.

Mas o grande momento do episódio, pra mim, foi mostrado quase na surdina – e de cara. A primeira cena nos revelou que o avião pousou na ilha – e não apenas desapareceu – e o pouso não parece ter sido tranqüilo (ou a pista não estava pronto). Ao mesmo tempo, eles não pousaram na ilha principal – e sim na ilha menor, onde está localizada a estação Hidra. E a primeira cena do episódio da semana passada mostrava um novo personagem Caesar vasculhando a estação como quem procura algo… e acha. Além de folhear uma Life com um monstro do mar carregando uma moça desmaiada, ele acha uma pasta com uma série de documentos a respeito da ilha – um deles é um mapa semelhante ao que já vimos na série e o outro é uma espécie de fluxograma que intercala “tempo real”, “tempo imaginário” e outras linhas do tempo. Logo depois, ele encontra uma arma, que esconde de outra nova personagem, Ilana. Não duvide se os dois estiverem no esquema de alguém – ou de alguéns. Caesar pode ter sido enviado por Widmore, já que chegou no vôo em cima da hora, enquanto Ilana pode ser uma agente de Ben, já que trouxe Sayid. Ainda descobrimos que o piloto e uma mulher fugiram em uma das canoas que estavam na praia – tudo leva a crer que a mulher seja Sun, mas é mais provável que seja uma aeromoça. Afinal, a aeromoça do primeiro vôo sumiu pra morar com os Outros. No fim das contas, o susto de Lapidus no episódio 316 era falso – e ele sempre soube no que estava envolvido. Não só ele, mas vários funcionários da Ajira Airways e a Oceanic Airlines (será que as empresas são de propriedade de algum conhecido nosso?). E não duvide: quando Sawyer, Juliette e companhia remavam num barquinho, certamente é Lapidus e sua companheira quem atiravam neles, na outra canoa.

Mas eles não estavam no tempo da Rousseau? Em 1988? E Jack, Kate e Hurley não foram parar no tempo da Kombi novinha, também conhecido como anos 70? Onde – ou melhor, quando – tá todo mundo?

Saberemos hoje, em La Fleur, quando, aparentemente, voltaremos à ilha e, se Jacob quiser, a quinta temporada deixa a competição como ano mais enfadonho da série depois da terceira safra de episódios. Tomara!

Mais quinta temporada de Lost:

  • Lost: 316
  • Lost: This Place is Death
  • Lost: The Little Prince
  • Lost: Jughead
  • Lost: Because You Left e The Lie
  • O futuro dos filmes de super-herói

    É agora: Watchmen estréia sexta que vem. Um lado da história já conhecemos bem – a campanha de marketing tentacular, a importância do quadrinho original tanto para o formato quanto para a linguagem, a longa saga de tentar adaptar a série pessimista para o cinema, as pragas rogadas por Alan Moore. O fã ou está com o coração na garganta ou com a pulga atrás na orelha, já sabe das mudanças mais drásticas no roteiro, o que fizeram com a história paralela do Cargueiro Negro, como representarão o Dr. Manhattan na tela. O trailer definitivo segue sendo martelado funebremente – sua música-tema trocada de “The End Is the Beginning Is the End” dos Smashing Pumpkins (usada como tema de Batman & Robin, de 97) por “Angel” do Massive Attack tira o tom irônico de usa primeira aparição para dar o clima sombrio e depressivo da história original.

    Mas há outro que desconhecemos: e quem não sabe o que é Watchmen? Com uma campanha publicitária e detalhes de produção tão dispostos a conquistar o fã na base da overdose de superlativos, o que ela diz para quem não conhece o que é a história original? Quem são os Watchmen? O que é tão importante na história dessa graphic novel? Quais são os poderes desses super-heróis? Nixon? Vietnã? Marte? Um herói chamado Comediante? E o que esse cara com a máscara de teste de tinta de psicólogo faz? E esse cara de azul? Quantos eles são? E “buuuuum”, explosão em câmera lenta… “Kkkk-prrrr-BFFFFF!!!”, outra explosão em câmera lenta… O broche amarelo com a carinha sorridente. E o tic-tac do relógio.

    E só.

    Estou curioso para saber como as resenhas/sinopses genéricas que optarem por fugir do “aclamada graphic novel é adaptada pelo mesmo diretor de 300” tentarão explicar porque um filme que mostra o que a existência de super-heróis de verdade poderia fazer com o mundo – psicológica e politicamente -, cogitando o uso de superpoderes como armas imperialistas mais poderosas do que a bomba atômica, é um dos filmes mais importantes de 2009 (além de esperar as resenhas catedráticas da crítica de cineclube, difamando o filme como uma experiência mais sonora do que visual ou mental).

    Porque por mais que a pseudosseriedade dos atuais filmes de super-herói funcione apenas como qualquer conversa fiada para justificar a porradaria distribuída por marmanjos usando collan, Watchmen conta com uma pequena e crucial diferença: quase zero porradaria. E por mais que o visual do filme seja fiel ao desenho de Dave Gibbons, convenhamos – Watchmen não é Watchmen por causa de seu traço. Gibbons é minucioso e clássico, um desenhista à altura de seu roteirista. Mas o grande salto proporcionado por Watchmen é narrativo e esse mérito é todo de Alan Moore. O quadrinho até há pouco era considerável impossível de ser filmado justamente devido ao seu vai-e-vem de histórias paralelas e diferentes linguagens num mesmo volume. E elas são histórias densas e complexas, cabeçudas e sentimentais ao mesmo tempo, que ocorrem quase sempre do ponto de vista interiorizado de um dos seis personagens principais ou em longos diálogos entre dois deles.

    Por outro lado, estamos em uma época em que um filme como o Batman do ano passado causa indignação por não ter sido indicado para o Oscar de melhor filme – o que, com aquela voz grossa ridícula do Batman, seria o mesmo que jogar o prêmio da academia no lixo de vez. O filme de Nolan é denso e épico, mas é uma experiência sensorial acéfala – de planos aéreos, perseguições de carro e até um caminhão dando cambalhota. Até a história do Homem de Ferro, que cria um protótipo de sua armadura numa caverna no meio da Ásia Central, parece mais crível e convincente do que Batman – The Dark Knight.

    E é aí que pode estar o trunfo de Watchmen. Tá certo que boa parte da expectativa em relação ao filme não existia na época dos quadrinhos – Gibbons e Moore eram nomes de peso na Inglaterra, mas quando lançaram a recriação dos personagens da Charlton no formato minissérie eram relativamente novatos na DC. E pegaram o mundo de quadrinhos de assalto – a ponto de sair da esfera dos fãs tradicionais e terem o respaldo de novos leitores.

    Eis o salto que Watchmen pode dar no cinema. Ao trazer uma boa história em vez de um bom personagem para a telona, podem estar trazendo um novo nível de maturidade para um público treinado a sorrir com explosões. E assim, poderíamos estar saindo da era de reapresentação dos mitos do século 20 para a nova era e começar a explorar as grandes sagas, que, inevitavelmente, trarão novos leitores a clássicos de quadrinhos festejados apenas pelo circuito interno dos fãs, colecionadores e gente maluca o suficiente para escrever, ler e assistir histórias sobre super seres humanos fantasiados capazes de feitos impossíveis.

    Lost: 316

    “Nós não vamos para Guam, vamos?”

    Paragrafinho básico pra quem não chegou a essa altura da temporada se ligar que o papo aqui não é com ele e zarpar o olhar pra outras bandas do saite se não quiser ser devidamente spoilerado. Se você ainda não viu o sexto episódio da quinta temporada de Lost, chamado 316, pode dar no pé para não correr o risco de ler sobre o que não quer.

    316 foi, sem dúvida, o episódio desta temporada que mais fez referência à própria série. Desde a abertura enigmática, que recriava a primeira cena da primeira temporada, à expectativa antes do novo avião levantar vôo, várias cenas e detalhes amarravam o episódio à narrativa de Lost mais do que à sua mitologia. Desta forma, vimos Jack acordar mais uma vez na ilha, sem saber onde estava, ao mesmo tempo em que a cena do aeroporto passava uma enorme sensação de deja vu – Sayid chegando algemado como Kate no primeiro vôo, Hurley levando um estojo de violão para nos lembrar de Charlie e todo o jogo de reconhecimento dos novos/velhos passageiros. O sexto episódio da temporada sublinhou um ponto específico: além da mitologia que existe por trás dos segredos de Lost, há outra mitologia em curso – a do próprio seriado e de seus personagens, que, como lembram seus produtores, contam uma história mais importante do que todo o mistério envolto na ilha.

    Já a mitologia clássica não foi esquecida e surgiu ameaçadora, grandiosa e encantadora ao mesmo tempo, quando descemos a escada espiral da igreja em que Ms. Hawking conversava com Ben para sermos apresentados à mítica estação Dharma fora da ilha, a Estação Farol. O porão da igreja é um verdadeiro altar para a mitologia da série: computadores dos anos 70 por todos os lados, um quadro negro cheio de fórmulas e equações, no chão uma imagem do planeta Terra visto do pólo norte e, por toda a sala, um enorme pêndulo balançava entre os personagens. Didaticamente, Hawking explica que a ilha foi descoberta quase por acaso – ou matematicamente? -, embora sua localização fosse difícil de ser precisada, até que “um cara muito esperto” criou aquela estação e conseguiu encontrá-la. Junto com a explicação vem uma foto do exército datada de 1954, o que nos explica que os uniformes militares vestidos pelos Outros em Jughead podem ter sido desses primeiros exploradores da ilha.

    Passada essa cena, o episódio caiu na pseudocorreria que vem dando a tônica da série esse ano – e todo o blablablá sobre os Ocean Six terem que voltar para a ilha, porque Locke disse que eles tinham que voltar, nhenhenhem e coisa e tal. É incrível como essa parte de Lost tem sido pior que previsível, mas enfadonha. Como já havia dito, os problemas parecem apontar complexidades que podem comprometer a pressa dos personagens na história mas sempre são solucionados em duas cenas, às vezes nem isso, basta uma simples citação. Dessa vez, o lenga-lenga envolveu Jack e o cadáver de Locke, primeiro com um bilhete-suicida que John deixou ao doutor Sheppard (transtornando-o com a informação que o careca havia se matado – mas isso não tava na notícia do recorte de jornal?) e depois com o papo do corpo de Locke ter de viajar usando os sapatos do pai de Jack (tirados da cartola, ou melhor, da mala de um personagem tirado da cartola, o avô de Jack). Tudo mal costurado.

    Mas cabe uma ressalva sobre os sapatos. Sapatos fazem parte da mitologia de Lost, embora de uma forma quase subliminar. Vamos rebobinar para a primeira cena da primeira temporada (a mesma reencenada em 316) e veja em quem a câmera foca logo depois que Jack sai correndo pela selva:

    Perceba também a importância que o sapato de Charlie tem para a câmera logo depois que ele mergulha em busca da estação Espelho, no final da terceira temporada (depois dos 3:30):

    Quando Locke e Sawyer entram no Black Rock, John pergunta se James não vai se calçar; quando o personagem de Rodrigo Santoro, Paulo, aparece morto, Sawyer vê seu tênis pendurado em uma árvore; Locke tirou os sapatos antes de descer a escotilha e Kate tentava tirar os sapatos de alguém no primeiro episódio da série – fora os onipresentes calçados brancos das aparições fantasmagóricas do pai de Jack, Christian. Os Outros não usam sapatos. Fora a estátua, que é só um pé com quatro dedos. Pode ser uma gracinha feita para encucar os outros, pode ser uma espécie de assinatura visual de um dos diretores, mas em se tratando de Lost, pode ter a ver com todo o sentido da história (lembre-se que Dorothy, a protagonista de uma das obras mais sampleadas em Lost, O Mágico de Oz, herdou os sapatos da bruxa que ela matou sem querer).

    Voltando a Los Angeles, a história dos Oceanic Six se mostra uma grande falácia – aí cabe a leitura marxista do 18 Brumário de Luís Bonaparte (que diz que “a história acontece a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”) – ao permitir que eles consigam voltar à ilha sem o grupo estar definido. Tudo bem, Lapidus e Ben podem estar envolvidos, mas por que Aaron não voltou? E Desmond? E a Penny?

    Sobre esta, é bem capaz que ela tenha sido a tal “ponta solta” que Ben disse que iria “atar” após o encontro revelador com Eloise Hawking. Após a morte de sua filha – que, já descobrimos, é filha adotiva -, Ben jurou acertar as contas com Widmore a la Código de Hamurabi, matando a filha do inglês, justamente Penny. Mas ao ligar para Jack de uma marina – após já termos visto a família de Desmond a bordo de um barco várias vezes – e completamente surrado, Ben nos induz a acreditar que ele tenha apanhado na tentativa frustrada de matar Penny – mas quem desossou o frango? Mais uma pergunta solta no ar.

    Junto com a própria não-aparição de Aaron, vem outra: por que Kate pede para Jack não lhe perguntar sobre o moleque? Quem o levou? Ou será que Kate o deixou com alguém? A cena ainda funcionou como deixa para um convincente beijo entre o casal protagonista, que até hoje só tinham soltado algumas faíscas, sem ir fundo (como a própria Kate já tinha ido com Sawyer). E, opa-peraê-caceta, siga meu raciocínio:

    Mais tarde, no vôo 316 da Ajira Airways, os Oceanic Five (quedê o Aaron?) dão as caras e cada um deles recria um personagem na versão anterior do vôo, o 815 da Oceanic. E do mesmo modo que Sayid é o preso escoltado e Hurley leva um violão, alguém poderia fazer as vezes de Claire – a grávida do vôo original. E se um imita o outro, não duvide se Kate tiver engravidado de Jack naquela cena.

    No avião, nos encontramos com Frank Lapidus, barbeado e fazendo uma observação para Jack que foi a melhor frase do episódio – “Não estamos indo para Guam, estamos?”, pergunta após reconhecer os passageiros. Além dele, temos duas aeromoças, Jack, Hurley, Saiyd e uma agente federal, Kate, Sun, Ben (lendo Ulysses, de James Joyce, cujo último capítulo chama-se Penelope) e um novato chamado Caesar – todos os outros assentos foram comprados por Hurley.

    O fato após mais trivialidades e frases ditas ao léu, Jack leu o bilhetinho de Locke, o avião balançou e – bum – tá lá o corpo estendido no chão logo após o olho abrir em extremo closeup. E a primeira cena é recriada quase na íntegra, sendo que Jack encontra Hurley e Kate num rio, e não em uma praia. O avião? Vai saber. Os outros que estavam no avião? Ninguém sabe. E os outros Outros? Esses, menos ainda.

    A única resposta que surge vem na forma de uma velha conhecida em plena forma: a kombosa azul da Dharma. Lustrada, novinha, ela parece ter acabado de sair da concessionária, mesmo tendo todo jeitão de anos 70. E de dentro dela surge outro velho conhecido, mas vestindo algo improvável: num macacão cáqui também da Dharma, o coreano Jin aponta a arma para os três e começa a esboçar um sorriso quando os reconhece – e o episódio acaba.

    Fato 1: a história dos Oceanic Six terminou e graças a deus não temos mais que ouvir aquele papo furado todo de “ter que voltar pra iha” – o próximo episódio, cujo personagem principal é John Locke, deve encerrar essa conversa de uma vez por todas. Fato 2: vamos começar a ver e entender a história da Iniciativa Dharma, o que pode ajudar e muito essa temporada a melhorar. Até aqui, a impressão é que essa primeira leva de episódios serviu para ajudar o público a se acostumar com a noção de viagem no tempo que dá o tom esse ano e para dar uma colher de sopa em que quisesse começar a assistir a série agora, sem ter que assistir tudo que já saiu até hoje. São engrenagens que passam a rodar mais devagar, para uma rápida manutenção. O problema é que ela tem que retomar o ritmo incial, senão para.

    E eu tou na torcida pra não parar.

    Mais quinta temporada de Lost:

  • Lost: This Place is Death
  • Lost: The Little Prince
  • Lost: Jughead
  • Lost: Because You Left e The Lie
  • Quando conhecemos metade da história

    Uou. O último gole de uísque dado pelo Almirante Adama após autorizar o recém-reintegrado chefe Tyrol a utilizar a gosma com nanorrobôs cylon para recuperar a carcaça decadente da velha Galactica funcionou também como um gole de uísque televisivo, uma talagada de álcool forte transmitida em raios catódicos rasgando os neurônios como se pudesse desopilar a torrente de informação que foi No Exit, episódio da sexta passada da fase final de Battlestar Galactica. Tudo culpa da publicidade, que nos deixou anestesiados em relação a frases de efeito e não nos preparou quando os primeiros teasers do episódio anunciavam que “Você saberá a verdade”. Mais do que um chavão para atrair a audiência, a chamada do sexto capítulo da última parte da série deveria ser enfatizada para refletir melhor o teor das revelações. Mas antes de falarmos delas, vamos a duas informações periféricas que em outros episódios teriam importância central, mas devido às duas tramas principais de No Exit, foram sussurradas timidamente, como notas de rodapé.

    Em ambas, um Adama e uma líder que morre. A tal “dying leader” profetizada nas escrituras de Pítia sempre foi associada à personagem de Mary McDonnell, a presidente Laura Roslin, que, pela metade da série, descobre-se vítima de um câncer terminal. Ao se ver nas profecias místicas, Roslin cresce como autoridade e figura-materna perante a humanidade e seu personagem ganha contornos densos e teatrais. Mas desde o episódio anterior a No Exit, descobrimos que há outra líder enfrentando seus últimos dias: a própria Galactica astronave de combate, que foi diagnosticada com uma enorme rachadura em seu casco que revelou-se uma das muitas cicatrizes de um problema estrutural. Ao ver a nave com que guiou o restante da humanidade de volta à Terra caindo aos pedaços, o Almirante Adama primeiro cede à resistência pessoal de ter um cylon como mecânico-chefe e devolve ao chefe Tyrol seu antigo cargo. Mas depois de proibir o uso de tecnologia cylon para recuperar os ferimentos da nave, o velho comandante acaba cedendo e entregando sua “garota”, como ele mesmo se refere à nave, aos cuidados e medicamentos de seu antigo inimigo.

    Na nave Colonial I, Roslin se recompõe da chacina que exterminou o conselho presidencial e, percebendo que seus dias estão no fim, passa o bastão para o filho de Bill Adama, Lee, que gagueja mas não titubeia em assumir o cargo de vice-presidente. Pontos para a atuação de Jamie Bamber, que desde que largou o uniforme militar para assumir o papel político conseguiu deixar a fragilidade dramática em segundo plano, mostrando-se cada vez mais seguro no papel – ainda mais se lembrarmos que ele sempre é confrontado com os dois melhores atores da série, McDonnell e Edward James Olmos, que interpreta seu pai.

    Como disse, essas duas histórias seriam suficientes para tecer um bom episódio de Battlestar Galactica, ainda se fizermos o paralelos entre as ajudas que a nave e Laura receberam – seu câncer foi aplacado devido a substâncias encontradas no organismo dos cylons. Mas No Exit não foi apenas um bom episódio – foi a primeira parte da explicação final sobre os principais enigmas do seriado. Ela foi dada por dois personagens: Ellen Tigh, a misteriosa quinta cylon, ressurge na nave da ressurreição logo após seu próprio marido sacrificá-la, ainda em Nova Caprica e passa a discutir seu papel com o cylon de número 1 (Harry Dean Stanton, em sua melhor atuação em toda série), e Sam Anders, que após ser baleado na cabeça, começa a lembrar de uma série de memórias que haviam sido deletadas no passado.

    Sam nos guia pelo lado racional da história e começa a lembrar-se da origem dos chamados Final Five, os cylons que não haviam sido revelados até o final da terceira temporada. Quatro deles recobram parte de suas consciências ao mesmo tempo, em plena Battlestar Galactica, quando ouvem, de dentro de sua cabeça, uma versão para “All Along the Watchtower”, de Bob Dylan. E todos são personagens com fácil acesso ao comando da frota: o assistente de Adama, Saul Tigh, o piloto Sam Anders, a assistente da presidente Tory Foster e o mecânico-chefe Galen Tyrol. Todos, ao chegar a uma Terra devastada pelo apocalipse nuclear, têm lembranças vívidas de que viveram naquele planeta, há mais de dois mil anos. É neste momento em que Saul lembra-se de quem era o quinto cylon – sua própria mulher, Ellen, a quem, ironia das ironias, tragédia das tragédias, envenenou ao descobrir que ela colaborava com os robôs (antes de ele mesmo descobrir-se um cylon).

    Sam explica que os cinco cylons reinventaram a tecnologia de ressurreição ainda na Terra e que, prevendo o apocalipse-robô, preparam-se para cair fora caso aconteça algo – é quando as bombas começam a explodir e eles reencarnam em novos corpos colocados em uma nave na órbita do planeta. Tendo visto seu próprio planeta destruído, eles rumam às doze colônias – o sistema solar dos protagonistas de Battlestar Galactica – para avisar sobre os riscos de se criar inteligência artificial. Mas sem a tecnologia dos saltos intergaláticos, eles levam 2 mil anos – sempre se ressurgindo – para chegar e chegaram atrasados, pois a guerra entre humanos e cylons já havia começado. Mas isso nunca é contado de forma linear ou racional – Sam lembra sempre em ondas, misturando memórias com alucinações, delírios febris e a sensação de poder esquecer de algo que lembrou-se subitamente, entrecortado por baforadas de fumaça do rabugento Dr. Cottle, sempre mais preocupado com a saúde de seu paciente do que por revelações místicas (cabe abrir um parêntese para a participação do ator John Hodgman no papel do neurocirurgião que opera Sam – além de ator, Hodgman também é comediante embora seja mais conhecido pelo papel de “PC guy” nas clássicas propagandas da Apple. Sua participação, no entanto, é insípida e não acrescenta nada ao seriado, tirando o fato de que Hodgman é notório fã de Battlestar).

    Do outro lado do universo, vemos Ellen recobrar suas memórias após renascer 18 meses antes da ação que acontece em Galactica, quando Tigh a envenenou em Nova Caprica. Durante esse um ano e meio assistimos a um diálogo quase arquetípico entre criador e criatura – que nos conta a segunda parte da saga narrada por Sam. Quando os cinco cylons chegam às dozes colônias, o próprio número 1, o primeiro cylon de aparência humana (ou, no jargão da série, o primeiro “skinjob”), os assassina e os faz renascer com suas memórias apagadas, para que possam assistir à destruição da humanidade de camarote e os coloca em diferentes planetas. Só que algo fez com que os cinco sobrevivessem ao primeiro ataque massivo e pudessem, sem ter consciência, se reencontrar na própria astronave de combate Galactica. E depois reprogramou os cylons restantes para não lembrarem que eles existiam – daí o fato de ele ter “encaixotado” a linha do número 3, D’Anna (pois ela lembrou dos “final five”).

    Mas essa história é contada no meio de um debate rude entre Ellen e John Cavil, o nome de batismo do cylon número 1, que recusa sua humanidade. Segue um discurso instantaneamente clássico, pronto para entrar no bastião das frases de efeito da ficção científica filmada, em que John lamenta aspirar à perfeição da máquina ao mesmo tempo em que está preso ao corpo limitado do ser humano, num texto que mistura ironia, nerdismo, poesia e senso de epicidade, resumido em uma frase emblemática: “Eu quero ver raios gama, quero ouvir raios X, quero sentir o cheiro da matéria escura”. É muita referência pop embutida em uma frase dita quase como choro manhoso, sem o menor senso de ridículo, ao mesmo tempo em que avança o discurso final do replicante Roy Batty (Rutger Hauer, em Blade Runner) alguns passos adiante e encerra um discurso que lamentava perceber uma supernova com o equipamento sensitivo humano.

    Toda ênfase do discurso de Cavil é aplacada pela calma de Ellen. A forma como Ellen reage à reclamação de Cavil traz uma nova – e densa – psicologia para o seriado. Afinal, ela é a figura materna, a cientista cujo trabalho foi crucial para a existência dos seres que hoje tentam exterminar os humanos por considerá-los erros. E não consegue se encantar com a vontade da criatura que inventou querer tudo, mais, melhor, mais rápido.

    Mas todos os habitantes da Terra eram cylons? O que deu início à guerra que dizimou a vida no planeta? E as profecias de Kobol? E Starbuck, o que – ou quem – é ela? Ainda foi citado o nome de um novo cylon, o oitavo, aumentando aí o número de skinjobs para o mítico 13 e tornando ainda mais complexo o jogo de quem-é-quem. Chamado de Daniel, o novo cylon teria sido um dos criadores dos skinjobs, como os final five (final six, então?) e que ele teria tendências artísticas. Ao lembrar que a própria Starbuck também pintava, não demorou para surgirem especulações de que ela seria Daniel num corpo de mulher. Ou que poderia ser o pai dela, até hoje não referido na série. Ou um dos personagens de Caprica, a nova série do universo BSG que estreará no ano que vem e se passa 50 anos antes dos acontecimentos do seriado principal. Ou todas alternativas ao mesmo tempo. Mas tanto faz.

    Porque, diferente de Lost, Battlestar Galactica não é apenas um jogo em que o espectador é convidado a especular – e sim um palco. Um tabuleiro em que diferentes facetas da humanidade são confrontadas umas às outras sempre em situações limite, quase sempre colocando em risco a vida de muitas pessoas ou do resto da humanidade. Toda mitologia e elementos religiosos ou icônicos disponíveis no seriado estão ali para aumentar o espectro de certezas e dúvidas de nossos personagens. E aos poucos parecemos chegar à conclusão de que essa vai ser a separação cogitada para homens e cylons – não o material de que eles são feitos, mas justamente sua natureza espiritual, em que, aparentemente, ser humano representa uma evolução em relação ao robô, e não o oposto, como dizem as máquinas.

    So say we all.

    Hora da mitologia acontecer!


    É uma navinha ali do lado dos pássaros? Ou é uma ilha decolando?

    De novo aquele paragrafinho que só serve pra tanger o povo que não quer saber do que tá rolando em Lost porque não viu o último episódio da temporada atual. Deu tempo de se ligar que, se você não quer saber o que anda acontecendo na série zarpar desse post – porque a partir daqui, parto do pressuposto que você já assistiu ao capítulo da semana passada, This Place is Death.

    Então, como eu já havia previsto, tudo indica que estamos chegando ao fim da primeira metade desta temporada. E não estou falando só da contagem numérica, não. Quem não está gostando do 2009 de Lost porque acha que o papo dos Oceanic Six voltarem para a ilha tá se tornando uma tremenda enrolação, pode comemorar – Jack e Sun terminaram o episódio passado sendo apresentados para a misteriosa Ms. Hawking, que disse que, mesmo os seis não estando lá, já dava pra dar um jeito – e voltar para onde não deviam ter saído.

    Porque essa historinha só não é a pior subtrama no seriado pois já tivemos a história de Nikki e Paulo e a loooonga estada de Jack, Sawyer e Kate presos em celas Dharma. Mas nestes dois casos, os produtores não sabiam quanto tempo duraria a série e nem que rumo ela levaria, por isso, dá-se um desconto. Mas essa história do Ben reunir os Oceanic Six de um jeito ou de outro, tem sido contada de uma forma muito meia-boca: alguém está querendo tirar Aaron de Kate – ah, esse alguém é o Ben; Sayid não está respirando – ah, não, ele está respirando sim; Hurley foi preso – ah, conseguiram um mandato para soltá-lo; alguém está querendo levar Sayid inconsciente – duvida que seja o Ben?; Sun vai matar Ben – ah, Ben tem como provar que Jin ainda está vivo. Pequenas histórias que poderiam injetar alguma adrenalina em Lost foram encurtadas de forma abrupta e infantil, com deixas que pareciam levar a crer que seriam esticadas por alguns episódios sendo resolvidas sem grandes problemas. O que parecia transformar Lost em uma série de ação tornou-se uma ação de mentira – por mais que carros sejam perseguidos e que correrias aconteçam por alguma pressa específica, toda a história dos Oceanic Six voltando para a ilha poderia ser resumido num mísero episódio sem tantas reviravoltas. Michael Emerson, o ator que faz Ben, talvez seja o melhor exemplo desta nova fase de Lost – elogiadíssimo por sua atuação dúbia em todas as outras temporadas, nessa ele só teve um único momento em que foi exigido, quando, no episódio passado, puxa o freio do carro para encerrar uma discussão entre Jack e Sun, como se fosse um pai que vira para o banco de trás do carro para dar um esporro nos filhos que, bagunçando tudo, atrapalham a direção.

    Já na ilha, as coisas estão BEM diferentes. Não só pelo fato dos remanescentes estarem viajando no tempo como, principalmente, por estarmos sendo apresentado a lacunas da mitologia de Lost que só conhecíamos de segunda mão. Sem dúvida, a passagem mais reveladora do episódio passado foi a cena em que Danielle Rousseau e sua equipe decidem entrar na floresta em busca da antena que transmite os famigerados números (quem está os lendo? Hurley? Toomey?). Nem vamos entrar aqui na discussão que, sem Jin ter voltado no tempo, nem a equipe entraria na floresta, nem Danielle seria impedida de entrar na caverna. O que fez a participação da equipe de Rosseau emblemática foi o fato de vermos o grupo sendo atacado pelo nosso querido monstro de fumaça (numa cena em que – gore! – um braço é decepado) e o que aconteceu logo depois do ataque. Em uma passagem curtíssima, assistimos à própria mitologia de Lost acontecendo em frente aos nossos olhos: Rosseau mirando a arma no pai de sua filha que clama para não morrer explicando que o que os atacou era um “sistema de segurança do templo” – que foi justamente como a Rosseau de 2004 se referia ao fumacê.

    Fumacê que, por sua vez, parece ser a origem da misteriosa doença que dizimou a equipe de Danielle. Aparentemente o bicho não apenas se movimenta por conta própria como pode manipular corpos de outras pessoas como se estivesse as possuindo. Basta lembrar que, depois do francês que teve seu braço arrancado cair na toca do monstro, ele voltou a falar normalmente, pedindo ajuda em inglês. O cara só falava francês, perdeu UM BRAÇO e não solta um gemido de dor? E logo depois vemos Robert, o pai do filho de Rousseau, agindo como se tivesse sofrido uma lavagem cerebral. Aí tem.

    Mas além de 1988, a data dos acontecimentos que envolvem os franceses, Sawyer, Juliette, Charlotte, Miles, Faraday e Locke (seis pessoas também, reparou?) estão perdidos na ilha, sofrendo na pele os efeitos da viagem no tempo. A primeira a não agüentar é Charlotte, que, antes de morrer, viaja no tempo com sua consciência, falando quase sem sentido. Mas ela estava só viajando no tempo? Como ela sabia que “this place is death”? E como ela sabia do poço que Locke entraria mais tarde? Será que ela também estava sendo usada pelo smokey? (Pensando em voz alta, dá pra encaixar um dos grupos mais populares da Motown na mitologia de Lost, hein: Smokey é o fumacinha, Robinson é a família Robinson e os Miracles – ah, isso tu pergunta pro Locke).

    A quinta temporada também vem transformando Sawyer, que, desde que pulou do helicóptero para salvar os Oceanic Six, completou sua redenção. Ele agora não é mais o picareta simpático e irônico das primeiras temporadas e cada vez mais assume o papel de herói – que Locke ou Jack sempre resistiram em aceitar. A cena em que ele vê o parto de Aaron em Little Prince conversa muito bem com a cena em que o poço desaparece sob os pés dos remanescentes, fazendo o golpista galã acreditar que Locke estivesse soterrado. Em ambos momentos, Sawyer parece ter atingido uma maturidade emocional que seu personagem não tinha antes.

    E Locke desceu para o fundo do poço onde, depois de mais uma vez sofrer na pele a queda (ô coitado), ele pode colocar a maldita Frozen Donkey Wheel no lugar. Um detalhe que tem incomodado muita gente é o fato da série ter três tipos de viagens temporais – a ilha sumiu de 2004, os remanescentes estão pulando de ano em ano aleatoriamente e outros viajam só com a consciência, sem que seu corpo seja transportado para outras épocas. Como a roda que Locke girou estava emperrada – e como os flashes de viagens do tempo estavam mais freqüentes no último episódio – é bem provável que os clarões eram produto da forma como Ben deixou a roda depois de partir da ilha. Ou seja, uma vez que Locke a colocou no lugar, aposto que não veremos mais os clarões de viagem no tempo tão cedo. As questões que ficam no ar a partir disso (inúmeras) podem ser reduzidas a duas – para onde Locke foi depois de girar a roda e onde foi parar a ilha.

    Porque Locke entrou num poço que havia sido construído muito antes da Dharma ter criado a Estação Orquídea, mas depois de cair dentro dele, voltou num tempo em que sequer o poço existia – mas a roda estava lá. Quando Ben girou a ilha, ele pulou alguns meses no futuro – e atravessou o planeta para sair do outro lado. Se a ilha estava no Oceano Pacífico em 2004, ele “furou” a Terra e foi sair na Tunísia, em 2005 (o mesmo país em que Charlotte descobriu a ossada do urso polar com o distintivo Dharma, que fez com que ela tivesse a certeza de que, ao contrário do que dizia sua mãe, a ilha realmente existira). Se Locke girou a roda num tempo muito antes da Dharma, ele pode aparecer na época do navio Black Rock – estou torcendo tanto para que esse episódio aconteça…

    E então voltamos para Los Angeles, quando entramos em uma igreja que, aparentemente, não é só uma igreja. Jack, Sun e Ben encontram-se com Desmond, que disse ter vindo procurar a mãe de Faraday, informação que Ben parecia não ter (repare na cara dele depois). Hawking é a mãe de Faraday? Ben sabe disso? Ben sabe quem é Daniel Faraday? Lost clássico: perguntas, perguntas…

    Mas respostas também. O grande barato dessa temporada está sendo justamente ver coisas que supúnhamos ou éramos induzidos a acreditar sendo descortinadas ou confirmadas com pompa. Aos poucos, os pedaços começam a se juntar – não dá pra ver ainda a imagem inteira, mas dá pra ter uma idéia do que vem por aí.

    E o que vem por aí? Acredito que um vôo de uma certa Ajira Airways. Qual é o número do vôo? Qual é o nome do episódio de hoje?

    “Well I suppose it will have to do for now. Alright! Let’s get started”

     

    ***

    Mais quinta temporada de Lost: 

    Lost: The Little Prince
    Lost: Jughead
    Lost: Because You Left e The Lie

    “Mais j’te l’ai dit, on aurait jamais dû suivre ces maudits chiffres!”

    Chegou a hora de quem não assistiu o episódio de quarta passada de Lost, The Little Prince, tirar os olhos desse naco de texto se não quiser ouvir falar de coisas que estão rolando em plena série. Sabe como é, ainda mais com todo esse vai e volta no tempo que tem determinado o ritmo desta nova temporada, saber de qualquer detalhe antes da hora pode comprometer o sabor da mistura de Além da Imaginação com realismo fantástico de novela do Dias Gomes que fazem do seriado tão popular no mundo inteiro. Então zarpa, porque a quinta temporada, em especial, não está fácil.

    É nítido como os produtores estão aos poucos nos fazendo acostumar às transições de tempo, nos obrigando a fazer alongamentos nos músculos do cérebro antes de uma possível maratona. O ritmo está aos poucos sendo assimilado e, com ele, alguns pontos de interrogação vão se transformando em exclamações, reticências ou travessões – nunca em pontos finais. A quantidade de dicas e possíveis respostas que Lost já nos sugeriu em 2009 consegue dar à série uma certa normalidade paranóica – afinal, para cada velha pergunta aparentemente respondida, surgem outras tantas, de naturezas cada vez mais diferentes.

    Será que dá pra recapitularmos o que já aprendemos até aqui? Dá pra tentar: são tantas dicas e detalhes – e tudo muito esparso, dúbio, incerto – que é inevitável esquecer algumas das pequenas revelações que nos foram feitas este ano. Mas se contarmos da aparição da jovem Danielle Rosseau para trás, a lista de certezas da quinta temporada só aumenta: Daniel Faraday sabe muito mais do que imaginamos e é financiado por Charles Widmore; este por sua vez era um Outro na ilha durante os anos 50 e conviveu com Richard Alpert e uma certa Ellie que pode ser Ms. Hawing, a velhinha que apareceu para o Desmond dizendo que ele tinha que cumprir o próprio destino – e que hoje trabalha com Ben para fazer os Oceanic Six voltarem para a ilha (e que pode ser a mãe de Faraday). Jin ainda está vivo e provavelmente pulando no tempo inconsciente junto com Locke, Sawyer e companhia. Desmond e Penny são pais de um bebê chamado Charlie, os Outros se comunicam em latim entre si; Richard Alpert é muito – muito – velho; Locke parou de andar na primeira temporada porque foi atingido por uma bala na perna naquela mesma realidade, só que num episódio deste ano; os murmúrios na selva podem ser conflitos de realidades temporais, quando a mesma pessoa habita a mesma época graças às viagens no tempo. Esse também é o destino da ilha, que não desapareceu apenas de um lugar, mas de uma época e agora está indo e voltando entre diferentes anos de forma aparentemente aleatória – e estas mudanças de tempo são sentidas de forma brusca (desmaio e sangramento no nariz) aparentemente de acordo com a quantidade de tempo em que você foi esteve na ilha, o que nos leva a crer que Charlotte e Miles tenham um longo passado nela. Dá até pra supor que a equipe francesa de Danielle Rosseau tenha morrido desta “doença”, caso, por algum motivo, tenham disparado o mecanismo de viagem do tempo da ilha.

    São apenas suposições – e outras delas surgiram com o aparecimento de novos enigmas em Lost. Uma bomba de hidrogênio, o problema do sangramento no nariz, uma nova companhia aérea, uma Sun pouco amigável, um Hurley completamente perdido, advogados, assassinos contratados, uma nova estação Dharma (fora da ilha?) e a equipe de Danielle Rosseau.

    Mas quanto tempo a quinta temporada vai continuar assim? De um lado, os que ficaram na ilha pulando de tempos em tempos sem saber como voltar ao ano em que pertencem. Do outro, Ben e Jack tentando reunir os Oceanic Six para voltar à ilha. Convenhamos: mais dois ou três episódios de clarões de viagem no tempo ou de recursos fracos (Hurley preso? Já tem um mandato para soltá-lo. Quem quer Aaron? Ben) para criar uma certa tensão na jornada dos O6 e mesmo com as certezas que nos foram passadas a série cairia num marasmo semelhante à quando, na terceira temporada, Jack, Sawyer e Kate foram presos pelos Outros.

    Contudo, algumas pontas já estão se fechando – a começar pelo curto prazo que Ms. Hawking passou para trazer os Oceanix Six de volta à ilha. Se levarmos em consideração que ela avisou a Ben que ele tinha 70 horas para reunir o povo durante uma noite – e que a ação do episódio passado ocorreu durante um dia e uma noite – temos menos de 50 horas (ou dois dias) para que eles consigam voltar. Alguma dúvida que isso acontecerá em breve?

    Vou além: os Oceanic Six já voltaram. No episódio passado, quando a turma de Locke e Sawyer encontrou uma canoa e, sem pestanejar, atirou-se ao mar sobre a mesma e logo depois foi perseguida por outra canoa, com direito a tiros pouco amistosos vindo logo atrás. Se lembrarmos que a primeira canoa foi encontrada ao lado de uma garrafa d’água da empresa aérea Ajira, não é difícil imaginar que Jack, Hurley, Ben, Kate e companhia voltaram para a ilha através de um vôo desta empresa. Traduzindo: não duvide ser descobrirmos em breve que quem estava atirando na canoa eram os próprios Oceanic Six (e alguém foi atingido, depois repare).

    O grande trunfo de Little Prince (cujo personagem que batiza o episódio não foi propriamente revelado) foi sua cena de encerramento, quando Danielle Rosseau e sua equipe chegam à ilha em 1988, atrás dos malditos números que estavam sendo transmitidos por rádio. Não custa lembrar que os números apareceram pela primeira vez na série justamente numa transmissão radioamadora, deixada pela própria Danielle Rosseau antes do Oceanic 815 cair. Mas quem estava transmitindo originalmente os tais números – e qual o propósito da transmissão? E por que o bote delestinha o mesmo formato do logo da Dharma?

    Dito tudo isso, é bem provável que as duas metades do elenco da série se encontrem em breve e, em poucos episódios, a quinta temporada de Lost seja reinventada do nada, deixando tanto os flashes da turma de Sawyer quanto a volta da turma de Jack no passado. Lembre-se também que Locke é uma figura central na série em 2009 – afinal, tanto ele deve voltar à ilha inconsciente (com os Oceanic Six) quanto ele deve deixar à ilha e mudar de personalidade (com os Outros). Minha teoria é que, indo em direção à Estação Orquídea, Locke irá iniciar sua transformação. Será que ele girará mais uma vez a roda que expulsou Ben da ilha no fim da quarta safra de episódios? Em que sentido? Com isso, será que Locke sairá da ilha ou será mandado para uma outra época na própria ilha?

    Independente do que irá acontecer, aposto seriamente minhas fichas nisso. As duas histórias que estamos acompanhando esse ano irão se cruzar em breve, mexendo completamente – mais uma vez – na dinâmica de Lost. Em paralelo, fomos apresentados no episódio passado à equipe de Rosseau, que deve crescer em importância, deixando inclusive alguns personagens na mitologia clássica da série. E assim teremos mais uma vez duas histórias paralelas – os Oceanic Six de volta à ilha e a história desconhecida da equipe de Rosseau (que, a propósito, chegou grávida à ilha – será que assim confirmamos que Alex não era filha de Ben?). Não duvide, no entanto, que essas duas histórias possam se cruzar entre si – e numa mesma época. O que é o mesmo que dizer que os sobreviventes da queda do vôo 815 da Oceanic Airlines irão para 1988 e presenciarão o que cogito ser o grande tema da segunda parte da temporada, a Iniciativa Dharma.

    E quer valer que a Sun não vai matar o Ben logo nas primeiras cenas do episódio de hoje porque ele vai conseguir provar para ela que Jin ainda está vivo?

    Agora sim! Sexta passada a parte final de Battlestar Galactica finalmente correspondeu às expectativas em relação ao aguardado final épico. E mesmo sem mais uma vez falar em sua mitologia central– que está sendo cada vez mais deixada para os últimos episódios mesmo – a série presenteou seus fãs com a dramática conclusão do motim iniciado no episódio anterior em uma articulação entre o oficial navegador Felix Gaeta e o vice-presidente Tom Zarek. Colocando o cisma entre humanos e cylons num limite que pôs em risco a vida de praticamente todos os personagens principais da série em um mesmo episódio – e em situações completamente diferentes –, Blood on the Scales é sangue nos olhos.


    E nesta curta hora de apresentação, vemos Saul e Adama serem capturados, Gaeta autorizar o ataque à nave de Laura Roslin, Zarek ordenar o frio assassinato de todo o conselho administrativo da frota, Lee e Starbuck encurralados, Saul e Adama anunciados como mortos, Tyrol encarando o cano de uma arma, Anders mortalmente baleado, uma execução em forma de presságio e outras duas de fato. A carga de adrenalina e a forma em que toda a ação polarizou completamente as forças em jogo no capítulo de sexta funcionou como oxigênio puro para pulmões intoxicados pelo pessimismo nos episódios anteriores.


    O principal passo dado por Blood on the Scales tenha sido o renascimento do casal real desta corte chamada Battlestar Galactica. Tanto Adama quanto Roslin passam por situações limite em que seus instintos mais básicos são confrontados com sua noção de moral. O almirante Bill deixa a patente em um discurso tenso com Gaeta, em que não há espaço para eufemismos ou cortesias. Espumando de raiva, Adama tinha tanta convicção de que voltaria ao poder quanto que não veria seus inimigos viverem muito tempo – a ponto de ordenar que Gaeta o matasse logo para não correr o risco de perder a oportunidade. Seu intérprete Edward James Olmos sabe medir exatamente o nível dramático para transformar o austero militar em um velho caubói, cuspindo palavrões e desdém sem se preocupar com o que vai acontecer a seguir.

    Laura, refugiada na nave dos cylons, recebe a notícia de que Adama estaria morto e, sem nada a perder, ressurge assustadora, grandiosa e apocalíptica numa das melhores atuações de Mary McDonnell na série. Ela reassume seu papel de líder frente até mesmo os próprios cylons, que sempre viram os humanos como menores – até assistir o que a perda de um amor pode provocar num coração humano.

    Embrenhados pela nave-mãe, o filho do almirante, Lee Adama, e a piloto Starbuck aos poucos reúnem reforços para tomar a liderança da Galactica à medida em que vão atravessando os corredores da nave em direção à sala de comando, o CIC. O papel de líder começa a tornar-se natural em Lee, cuja química de combate ao lado de Starbuck vai ser inevitavelmente traduzida em romance. Saul se une aos dois, seguido de Sharon e de uma série de outros transeuntes que vão se juntando ao grupo que estava no poder, farto do autoritarismo amador da dupla Gaeta e Zarek, que, por sua vez, torna-se cada vez mais consciente do fracasso de seu golpe. Enclausurados com o velho Adama para que ele tenha consciência dos crimes que cometeu ao se associar com os cylons (“eu amei o inimigo”, diz Adama, com escárnio), eles aos poucos percebem a fragilidade da estrutura que os manteve no poder, que desaba em câmera lenta, terminando com a execução sumária dos arquitetos do golpe. A ótima atuação de Alessandro Juliani é encerrada com uma frase sobre a coceira em sua perna perdida, pouco antes de Gaeta ser executado. A curta frase “It stopped” encerra o episódio, o senso de moral e justiça em relação ao motim e a própria vida de Gaeta, que finalmente percebe onde errou.

    Além de tirar Gaeta e Zarek de cena, Blood on the Scales ainda trouxe dois personagens de volta ao palco principal – Gaius Baltar e Romo Lampkin. O cientista canastrão parece acordar de um transe na zona coadjuvante em que passou toda essa temporado, quando se tornou uma espécie de acessório religioso usado por algumas histórias quando estas precisavam de um contraponto de tal natureza. Sua reentrada vem logo após de fazer o coro do desespero – e depois da esperança – ao lado dos cylons que assistem o renascimento de Laura Roslin. Depois, tem um sonho em que vê a morte de Bill Adama para, um pouco antes do final, ser o escolhido por Gaeta para compartilhar seus últimos momentos em vida, em que lembra quando quis ser arquiteto na infância, para construir “restaurantes com formatos de comida”. E em ambas cenas Baltar parece saber um pouco mais do que pode acontecer no futuro – muito suspeito.

    Já o advogado cínico que havia defendido Baltar no final da temporada anterior voltou à cena graças ao tribunal a portas fechadas que Gaeta e Zarek submetem o velho Adama. Romo Lampkin é um personagem com jogo de cintura e boas falas, que inevitavelmente tira a pompa e o rigor do texto de Battlestar Galactica para mostrar o jogo de poder e de egos por trás das formalidades e burocracias. É através de Romo que o seriado explicita o jogo político por trás do golpe – ecoando as revoluções russa, francesa, cubana e americana ao mostrar o que acontece quando uma nação se volta contra seu próprio governo – e o ator Mark Sheppard, sem usar os óculos escuros que davam a neutralidade irônica e amoral de Romo em suas aparições anteriores, convence bem como termômetro da sanidade no espaço. Depois do próprio Adama, ele é o primeiro a perceber como a revolução contra os cylons é apenas uma artimanha de Zarek para se tornar ditador – antes mesmo do próprio Gaeta, que, mais tarde, percebeu-se usado. Sem os óculos escuros, Romo parece saltar de coadjuvante a protagonista – a direção valorizou especialmente seu olhar ao perceber que, em vez de fugir, poderia salvar o cylon Sam Anders, que terminou o episódio sangrando mortalmente, amparado em Starbuck. Será que Anders é o primeiro dos cylons finais a morrer? Que implicações isso pode ter para a série?

    Outro cylon sem querer mostrou o caminho que iremos percorrer. Rastejando nas entranhas do enorme encouraçado espacial (cuja dimensão pode ser revista especialmente em uma cena em que a nave presidencial, a Colonial I, pousa dentro de um dos hangares de Galactica), o oficial-chefe dos mecânicos Gallen Tyrol ia em direção ao sistema nervoso da nave, para impedir o salto na velocidade da luz e a inevitável debandada de toda a frota. Mas ao frustrar os planos de Zarek e Gaeta da sala de máquinas, Tyrol teve uma visão que pode determinar o futuro da série – e da nave. Não se trata de uma premonição ou revelação de características espirituais – o que vimos pelos olhos do personagem do ator Aaron Douglas foi uma enorme fissura no casco da nave, nos fazendo lembrar que, apesar de todo seu tamanho e proporção, a velha Battlestar Galactica é praticamente um museu ambulante. Já era no início da série, quando fazia sua última viagem antes dos ataques dos cylons às Doze Colônias, e hoje está muito pior.

    Não duvide, portanto, se o final de Battlestar Galactica for justamente sobre o final da própria nave – sem poder saltar de um ponto do universo para outro sob o risco de esfacelar-se no espaço, a velha nave pode estar no limite de sua resistência física, em busca de um porto seguro final para deixar humanos e cylons num mesmo planeta e, finalmente, pifar em paz.

    E semana que vem parece que ela volta. Sim, o quinto cylon. Pode mandar!

    So say we all.

    Lembram do Volume 3 do Tim Maia Racional, que apareceu do nada no ano passado? Mais um disco não-disco ressurge do baú da história graças à tal “pirataria” com aspas – e esse deixa o terceiro Tim Maia Racional minúsculo, de tão desimportante. Estou falando do disco Registros na Casa de Chico Pereira em 1958, que traz nada menos do que gravações de João Gilberto antes de ele ter gravado o compacto de Chega de Saudade – e talvez antes mesmo de participar do disco Canção do Amor Demais, considerado marco zero da bossa nova por reunir João, Tom Jobim e letras de Vinícius juntos pela primeira vez em disco. Registros foi pinçado pelo excelente Toque Musical que só por disponibilizar essa jóia já merecia ter um patrocinador que bancasse as pesquisas do autor do saite.

    Esses registros – porque nunca foram um disco, como a capinha da fita magnética na capa entrega – não são apenas uma raridade. Eles trazem uma mistura de raio X na obra que inaugurou a música brasileira moderna (os três primeiros discos de João) com bastidores do nascimento da carreira do principal músico do século 20 – é algo como se encontrassem uma fita com o Lennon num camarim do Cavern Club tocando, ao violão, “Strawberry Fields Forever”.

    Mas ao contrário do complexo de épico típico inglês, os rascunhos de um dos principais legados brasileiros ao planeta são músicas tocadas com zero pompa e com aquele calor informal que logo seria esfregado na cara do mundo como uma qualidade essencialmente brasileira. Não é um show, é um sarau na casa de um amigo – Chico Pereira era fotógrafo das capas dos discos da Elenco e além das canções em si – você pode o ouvi-lo comentando entre as faixas, às vezes acompanhando-o batucando em algum lugar. O clima é quase sempre informal: ouve-se um cachorro ao fundo de umas músicas, outras são atravessadas por risos e som de copos batendo na mesa. O som, mal gravado mas nítido o suficiente para ouvir o violão mágico como se estivesse a poucos centímetros de distância também não prejudica a voz, criando uma espécie de granulação ou sépia sonora que dão às músicas o aspecto que elas têm, o de peças de museu, itens escavados entre as ruínas da história.

    Quem passou a dica do disco foi o Ronaldo, que ainda transcreveu o trecho em que Ruy Castro comenta a estas gravações em Chega de Saudade.

    Uma das pessoas que João conhecera com Roberto Menescal e Carlinhos Lyra fora o fotógrafo da Odeon, Chico Pereira. Pela quantidade de hobbies a que Chico dispensava total dediacação – som, jazz, aviação, pesca submarina -, era difícil imaginar como lhe sobrava tempo para fazer um único clique como fotógrafo. Mesmo assim, Pereira conseguia dar conta das fotos de todas as capas da Odeon. Menescal era seu companheiro de pesca e os dois eram também irmãos em Dave Brubeck. Quando João Gilberto cantou pela primeira vez em seu apartamento, na rua Fernando Mendes, levado por Menescal, Chico experimentou a mesma sensação que tivera ao conhecer o fundo do mar. Com a vantagem de que a voz e o violão de João Gilberto podiam ser capturados. Não perdeu tempo: assestou um microfone, alimentou seu gravador Grundig com um rolo virgem e deixou-o rodar. Foi a primeira das muitas fitas que gravaria com João Gilberto em sua casa.

    Antes mesmo que o 78 de “Chega de Saudade” invadisse as rádios – antes mesmo de ter saído o disco, fitas domésticas de rolo, contendo a voz e o violão de João Gilberto já circulavam pela Zona Sul. Circulavam é força de expressão. Poucos possuíam gravadores naqueles tempos pré-cassete, o que limitava a audiência de uma fita aos amigos do dono do gravador. Uma dessas fitas tinha sido gravada pelo fotógrafo Chico Pereira, felizmente um homem cheio de amigos; outra, pelo cantor Luís Cláudio. Em quase todas João Gilberto cantava “Bim Bom”, “Hô-ba-la-lá”, “Aos pés da cruz”, “Chega de Saudade” e coisas que nunca gravaria em disco, como “Louco”, de Henrique de Almeida e Wilson Batista, e “Barquinho de Papel”, de Carlinhos Lyra.

    Não é brincadeira: é a fita demo de João Gilberto!

    Separei uma versão mais jazz (com backing vocals sugeridos) para “O Pato”, “Louco” de Wilson Batista, uma “Doralice” cantada entre risos, “Nos Braços de Isabel” (em que é possível ouvir Chico corrigindo as letras para João) e “Chão de Estrelas” (música-símbolo daquilo que a bossa nova não queria ser), ambas de Silvio Caldas, e duas das sete “Conversations”, faixas em que Chico conversa com João – em uma, ele diz que depois apaga as gravações (hehe) e na outra, eles conversam sobre o maior violonista da atualidade. Justo com quem…

    O disco você baixa aqui.


    João Gilberto – “Chão de Estrelas


    João Gilberto – “Conversando sobre ‘Chão de Estrelas‘”


    João Gilberto – “Nos Braços de Isabel


    João Gilberto – “Doralice (Reprise)


    João Gilberto – “Louco


    João Gilberto – “Conversando sobre o maior violonista da atualidade


    João Gilberto – “O Pato

    Krautrock

    Texto velho, do ano 2000. Mas ainda vale.

    ***

    Na Alemanha pós-guerra, a cultura nacional foi massacrada pelas soviética e americana como uma forma de aniquilar qualquer indício de retorno do nazismo. Logo as rádios e televisões bombardeavam música americana como começariam a fazer pelo resto do planeta. Mas ao contrário dos outros países, que viram sua música pátria aos poucos fundir-se com o novo padrão musical, a cultura alemã não conseguiu sobreviver em termos de cultura pop. Os poucos artistas locais que faziam sucesso eram pálidas imitações de sucessos estrangeiros.

    Até que um grupo de estudantes sentiram o clamor da idade ao mesmo tempo em que os tempos estavam mudando. O ano era o histórico 1968 e os tremores sentidos nas paragens alemãs vieram justamente da arte. Seguindo uma tendência de teatro extremo que quebrava todas as convenções cênicas, incluindo até automutilação e morte no palco, este grupo de jovens se viram presos pelo mesmo tipo de música que seus pares americanos e ingleses. Com bagagem intelectual da faculdade e permissão para criar, os primeiros representantes do chamado krautrock deglutiram os Beatles, os Stooges, Ornette Coleman, o Pink Floyd de Syd Barrett, o Velvet Underground e James Brown ao mesmo tempo, fundindo-os em forma de jam sessions intermináveis baseadas no ritmo, que tornava-se cada vez mais marcial e intenso. Pioneiros na música eletrônica, eles a usaram como principal ferramenta de manipulação sonora. E criaram uma música cujo legado se extende à medida que o tempo passa.

    Por muito tempo, o krautrock era visto como apenas um apelido para as bandas de rock progressivo da Alemanha. Não está errado, embora induza ao erro. Como os ingleses que inventaram o prog rock, os alemães eram jovens músicos que encontraram uma forma de explorar as fronteiras da música auxiliados pela técnica. Mas enquanto na Inglaterra sonhavam com a Idade Média e com solos gigantescos, na Alemanha os principais nomes do krautrock deixavam o ritmo tomar conta. Vindo da música negra (Can), da experimental (Faust), da eletrônica (Neu!), do rock de Detroit (Ash Ra Tempel), do free jazz (Cluster), da psicodelia (Amon Düul II) ou simplesmente de máquinas (Kraftwerk) o ritmo é fator fundamental na caracterização do krautrock. Usando-o como fio condutor por experimentações sonoras diversas, o rock alemão do começo dos anos 70 transformavam o ritmo numa porta para uma quarta dimensão musical, onde não importa quanto tempo dura uma canção e sim o transe que o ouvinte é submetido.

    A influência do krautrock na cena pop mundial é muito maior que notória. Tanto subgêneros inteiros da música eletrônica (trance, ambient, techno, house, drum’n’bass, technopop) quanto as “novas formas” de criação e gravação propostas pelo pós-rock são quase que inteiramente criados do nada por estes alemães esquisitos. A lógica do sampler nasceu dele, quando a máquina sequer existia, com o baixista Holger Czukay, do Can, fazendo malabarismos e maravilhas com dois microfones e dois gravadores. New wave (Talking Heads, Pere Ubu, Devo) e pós-punk (Fall, PiL, Gang of Four, Suicide, toda a cena no wave nova-iorquina) procuraram discos de kraut para inspiração. A fuga das formas de gravação tradicionais antecipou o que diferentes bandas como Sebadoh, New Order, Pavement e Butthole Surfers acabaram fazendo.

    Foram explorados os limites do barulho, da música étnica, da performance cênica, do som eletrônico, da sonoplastia e do improviso. O próprio rap só sobreviveu porque Afrika Bambaataa foi um dos primeiros a mostrar o ritmo dos alemães às massas, abrindo os limites do que pode ser música para o infinito na música popular mundial. Sem contar o Stereolab, que deve os sistemas circulatório e motor ao rock hipnótico dos germânicos. E David Bowie, que dedicou os anos punk à descoberta do mantra eletrônico do gênero morando em Berlim, onde compôs a trilogia Low/ “Heroes”/ Lodger. Sonic Youth, as bandas da gravadora Flying Nun, Stone Roses, Mouse on Mars, Spacemen 3, My Bloody Valentine, Aphex Twin, Brian Eno, Cabaret Voltaire, Mercury Rev, Throbbing Gristle, toda cena shoegazer, Bardo Pond – nomes de alto calibre devem e mostram respeito ao rock alemão do começo dos anos 70. É um espectro grande suficiente para ser conhecido.

    Mas mesmo ganhando popularidade por diferentes campos da música, o krautrock ainda é um segredo para o ouvido popular. Talvez seja ainda por um bom tempo. O universo de ritmo e experimentação desencadeado por esta geração de músicos é grande o suficiente para que o termo seja um equivalente à música erudita alemã, o krautrock como uma legião de cérebros que fazem às vezes de um Beethoven moderno, descendente do Bach da música eletrônica, Karlheinz Stockhausen. O tempo não dirá – ele já diz

    ***

    Eu tenho outro texto sobre o Can em algum lugar, mas não tou achando… Mas achei um sobre Kraftwerk, quando eles tocaram pela primeira vez no Brasil, em 98. Vai na seqüência.

    Piratas no Caribe

    Little Joy
    Clash @ São Paulo
    29 de janeiro de 2009


    Little Joy – “Keep Me in Mind”

    Os piratas do Caribe não eram de lá. Europeus, os saqueadores que desestabilizaram a economia e a política de seu continente nos século 16 e 17 trabalhavam em alto mar e na costa da África, quase sempre pilhando navios que voltavam das colônias do Novo Mundo cheio de riquezas para suas coroas colonizadoras. O Caribe, com seu excelente clima e inúmeras ilhotas inexistentes nos mapas da época, por outro lado, era um refúgio perfeito para o descanso de piratas de diferentes origens, que reuniam-se nos arquipélagos tropicais para recarregar as baterias antes de voltar à rotina de saques e destruição.

    E se vale a velha metáfora da banda de rock como navio pirata – eternizada pelos Rolling Stones, mas que está na essência de qualquer grupo, aquela sensação de caos e tumulto aliada à excitação de chutar tudo para o alto -, o Little Joy é o encontro de alguns piratas num desses entrepostos caribenhos para alguns meses de descanso, longe do trabalho. Piratas de férias, Rodrigo Amarante e Fabrizio Moretti deixaram as naus de seus grupos principais para juntarem-se a outras almas perdidas na noite tropical e deixar a festa rolar à luz da lua e da fogueira.


    Little Joy – “No One’s Better Sake”

    Tá certo que Moretti (brasileiríssimo, sotaque largado incluso) pode ser o capitão da empreitada e que Binki Shapiro traga uma inesperada graça indie para a corja de bucaneros do roque, mas todo o brilho do Little Joy ao vivo vem de Amarante. Longe da responsabilidade de ser um Hermano, Rodrigo está completamente à vontade no papel de guitarrista de um projeto paralelo. E por mais que a banda soe um pouco Strokes aqui ou um tantinho indie demais quando Binki assume o vocal (ela esconde-se entre a timidez de duas bateristas-vocalistas, Maureen Tucker e Georgia Hubley), é sua voz preguiçosa e arrastada e sua guitarra dedilhada quem dão personalidade ao Little Joy – e ele é onipresente, quando menos se espera lá está o timbre de voz meio bêbado ou a indefectível guitarrinha trôpega.

    Tranqüila, a banda toca como se estivesse na casa de um dos integrantes e trata o público – composto essencialmente fãs do Los Hermanos e, provavelmente, pelos mesmos fãs que foram no dia anterior – como se fossem um deles. O clima de cumplicidade é constante e a cada intervalo entre as músicas eles trocam gracinhas e carinhos – “amanhã às cinco horas eu estou na sua casa, hein Juliana”, avisava Moretti, que ainda chamou São Paulo de “cidade maravilhosa”.


    Little Joy – “This Time Tomorrow”

    Além da íntegra do disco de estréia, a banda ainda tocou duas versões de músicas alheias, que, sem querer, acabam mapeando musicalmente sua área de atuação. “Walking Back to Happiness”, um dos hits da mãe de Binki, Helen Shapiro, vem do tempo em que a Inglaterra desconhecia os Beatles e aspirava por um pop comportado, sério e quase europeu continental – da mesma importância que a surf music californiana e dos ritmos latinos (bossa nova inclusa) que flertaram com as paradas de sucesso antes dos Beatles reinventarem a roda. “This Time Tomorrow”, cover de Kinks que Fabrizio arriscou-se no vocal, data de 1970, o ano em que os Beatles partem para a história – e lembrando que essa é uma das três faixas do Kinks que fazem parte da trilha sonora do filme indie Viagem a Darjeeling, vemos uma história contada sem a presença dos Beatles, em que o rock florescesse ao lado de outros gêneros musicais sem necessariamente se impor como protagonista central.


    Little Joy – “Walking Back to Happiness”

    Eis a praia do Little Joy. Flertam com a surf music e com o folk, com o indie rock e com ritmos latinos – a vaibe é aquela que se espreguiça na rede, sem pressa, escondendo os olhos do sol – como se fossem uma banda de rock, mas só os instrumentos e a formação é propriamente rock. Fora um riff numa introdução aqui ou um solinho maroto acolá, o que se ouve é música pop tocada com guitarras. E, o principal, sem dar-se a menor importância. O desleixo e sossego com que tocam a apresentação contagiam quem se dispõe a entrar na onda da banda. Se ela tem alguma importância? Quem se importa com isso? Curte aí…


    Little Joy – “Brand New Start”