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Acordando com a Beyoncé…

Sem aviso, Beyoncé abriu o 4 de julho anunciando o lançamento de uma reedição de seu segundo álbum, B’Day, lançado em seu aniversário (dia 4 de setembro) há vinte anos. Mas a música escolhida – a deliciosa “Morning Dew (Donk)” (ouça abaixo), composta ao lado de Pharrell – é uma música que ficou de fora de seu disco homônimo de 2013, o que criou uma especulação automática em seus fãs de que, talvez, o dia 4 de setembro de 2026 não seja apenas o dia do lançamento de uma edição deluxe de um disco do passado. A capa do novo single segue o mesmo padrão, incluindo a mesma fonte, das capas dos primeiros singles de seus dois discos mais recentes – “Break My Body”, que abriu os trabalhos de Act I: Renaissance (2022), e “Texas Hold’Em” e “16 Carriages”, os singles simultâneos que deram o início a Act II: Cowboy Carter (2024) – compare a seguir. O que levou muitos a especular que o Act III está vindo aí – e que pode ser uma coletânea… Será?  

Confessions II na pista

Madonna estreou seu ótimo Confessions II num set ao vivo na virada da quinta pra sexta na boate Magazine, em Londres, num evento chamado de Club Confessions. A festa foi uma discotecagem comandada pelo produtor do disco – Stuart Price, o mesmo que fez o primeiro Confessions, de 2005 – em que Madonna cantou várias músicas novas ao lado da filha Lourdes, que canta desde 2022, primeiro com o nome artístico de Lolahol, para depois apresentar-se como Lola Leon, nome que usa inclusive em sua participação no novo disco da mãe, na faixa “The Test”, que também foi coescrita por ela.

Assista a trechos do set abaixo:  

Mais mudanças no show do Bob Dylan

“A pior parte de ter 80 anos é que você acha que, finalmente, você chega ao entendimento de algo que poderia ter sido alterado tudo no passado, mas isso vem numa época em que algo ainda pode ser alterado”, escreveu Bob Dylan no mês passado no New York Times, sobre passar dos 80 anos, “quando você é jovem você acha que o tempo move-se para frente, mas aos 80 você sabe que não, que ele fica parado e somos nós quem nos movemos”. Colocando em prática o que ele diz, ele segue mudando os rumos de sua atual turnê como se pudesse mexer em algo sem saber direito em quê. Na semana passada, ele despediu-se do guitarrista Doug Lancio, com quem vinha tocando desde o início da turnê de seu disco mais recente (Rough and Rowdy Ways, que batizava a turnê até dois meses atrás, quando resolveu chamá-la de Long Hot Summer Tour), e em seu lugar chamou o jazzista Julian Lage. Os fãs logo notaram que Lage não iria prosseguir no cargo pois tinha sua própria turnê marcada para começar em breve, mas antes que ele pudesse deixar o palco, Dylan tirou o outro guitarrista, Bob Britt, de cena, no início desta semana. Este, que vinha tocando com o mestre desde 2019, postou em suas redes sociais um lacônico “Sayonara Bobby” e respondeu que havia caído fora quando um fã perguntou em um comentário (publicação que Britt já deletou). E no lugar dos dois guitarristas que já não estavam mais entrou o guitarrista de Chicago Joel Paterson, que tocou com Dylan nos seus dois últimos shows desta semana. E, como em todas estas súbitas mudanças, ainda não temos informações sobre quem será a banda que o acompanhará nas datas restantes – e se outra troca de músicos poderia acontecer. Como sempre quando o assunto é Dylan, nada é claro…

Ouça abaixo gravações com trechos dos shows em que Paterson estreou na banda:  

Dave Stimson (1956-2026)

Um dos fundadores de uma das gravadoras independentes mais importantes dos EUA morreu na quarta passada, mas sua morte só foi anunciada na sexta-feira. Dave Stimson fundou a Touch & Go ainda como um fanzine em 1979 ao lado do futuro líder dos Meatman, Tesco Vee, para acompanhar a nascente cena punk que aos poucos brotava em diferentes cidades dos EUA a partir da cidade de Lansing, capital do estado de Michigan. O zine durou 17 edições (depois relançadas em um único volume, em 2010), mas em 1981, ao descobrir a banda Necros, os dois resolveram transformar a publicação numa gravadora e logo o vocalista desta banda, Corey Rusk, juntou-se aos dois no novo selo. Runk, que toca a Touch & Go até hoje foi o responsável por mudar a gravadora para Chicago em 1983, quando, além de chancelar bandas novas no fanzine, também começou a bancar discos de bandas como Big Black, Jesus Lizards, Slint e Butthole Surfers ainda nos anos 80, lançando alguns marcos em forma de disco da incipiente cena faça-você-mesmo daquele país. Se estabelecendo como selo e depois distribuidora, além dos clássicos, a gravadora também lançou artistas que são ícones recentes do indie dos EUA, como os Yeah Yeah Yeahs, Brainiac, Blonde Redhead, Delta 72, Shellac, TV on the Radio, The Ex, Silkworm, Man or Astroman?, Dirty Three, Polvo, CocoRosie, Girls Against Boys, Quasi, Urge Overkill, entre outros. Embora o mais quieto do selo, era também o mais ácido e direto deles: “Dave conseguia resumir tanto em uma frase seca e diminuta o que Tesco dizia em uma página”, lembrou Rusk ao escrever sobre a perda do amigo no Instagram do selo. “Juntos, os dois eram nossos irmãos mais velhos fodões pra nós dos Necros – que ainda estávamos no ensino médio quando os conhecemos. Eles nos colocaram na capa do fanzine, começaram o selo (que eu logo me juntei a eles pra tocá-lo) para lançar nossos discos e nos colocaram pra abrir pro Black Flag e pro DOA no clube DooBee, em Lansing, no começo de 1981. Lendas’.

Madonna conseguiu – de novo

“A pista de dança não é só um lugar, é uma fronteira”, canta Madonna na sinuosa “One Step Away”, quase no início de seu recém-lançado novo disco, Confessions II, “um espaço ritualístico onde o movimento substitui a linguagem”. E assim Madonna conseguiu se superar. Confessions II não é só o disco que prometia como põe a diva pop no topo de 2026 como pouquíssimos artistas conseguiram chegar até agora. O novo disco segue a lógica do disco original: Confessions on a Dance Floor, de 2005, que Madonna fez sob a direção do maestro dance Stuart Price, e nos deu ao mundo hits como “Hung Up”, “Sorry” e “Jump”, era seu penúltimo grande feito artístico, se levarmos em conta a gigantesca turnê The Celebration Tour (que encerrou em grande estilo na praia de Copacabana, em 2024) como sua última tour-de-force. Mas se Celebration tinha ares de turnê de despedida, Confessions II mostra que Madonna ainda tem disposição para seguir ditando rumos. Como o disco de 2005, o novo também é dirigido por Price, que transforma o disco num delicioso e forte set de pista que não deixa ninguém parado, mesmo nos momentos mais introspectivos. Nostálgico sem ser retrô, ele supera o primeiro disco ao rever a carreira de Madonna como uma celebração à dance music como um todo, abraçando diferentes gêneros – da house ao trance, do techno à disco music – como facetas de algo nada superficial, que é a louvação da pista de dança como espaço espiritual, ou, como ela coloca explica literalmente em outra canção, “dançar é amar sem palavras”. E ela observa tudo de cima, não apenas como madre superiora ou DJ de almas, mas como pioneira e fonte de luz, sem nunca esquecer que foi ali embaixo, na pista, dançando, que começou. E se lembrarmos que ela está com quase 70 anos e decidiu atingir esse topo sem abrir mão de seu território de origem (justamente a pista), esse trunfo ganha méritos louváveis, como se Paul McCartney ou os Rolling Stones (duas décadas mais velhos que ela) pudesse ter lançado discos vinte anos atrás em que se pudessem se conectar com a geração do rock do início deste século. E assim Sabrina Carpenter, Stromae e Feid aparecem como meros coadjuvantes que são e não como chancelas geracionais. Discaço.

Ouça abaixo:  

Mais Wolf Alice

O grupo inglês Wolf Alice – donos do meu disco favorito do ano passado e autores de um dos melhores shows estrangeiros do ano por aqui até agora – acaba de anunciar que irá expandir seu The Clearing em uma edição de luxo que incluirá três faixas-extras que não entraram na versão final do álbum e que serão lançadas numa edição em vinil à parte. São três faixas que serão lançadas oficialmente no dia 21 de agosto, uma delas já disponibilizada online nesta semana: a balada folk “Gospel Oak” abre o caminho das músicas novas, que ainda incluem a inédita “Hit the Sky” e uma versão para “Hammond Song”, do grupo Roches, que conta com as participações das vocalistas Julia Cumming (do grupo Sunflower Bean) e Bria Salmena (que era do Frigs).

Ouça abaixo:  

Todo o show: Courtney Barnett ao vivo no Levon Helm Studios (26.9.2025)

No dia 26 de setembro do ano passado, Courtney Barnett estava começando a dar pistas que viria com disco novo em breve, mas ao apresentar-se nos estúdios de Levon Helm, em Woodstock, fez uma apresentação em tocou várias músicas, incluindo a íntegra de todo o disco que ainda não havia nem anunciado. Meses depois do lançamento do ótimo Creature of Habit, um dos grandes discos deste ano e talvez seu melhor álbum, ela torna pública a apresentação do ano passado, deixando apenas as músicas então inéditas do novo disco no repertório que acaba de estrear em seu canal no YouTube. Bom demais.

Assista abaixo:  

New Order no Brasil!

Outra bola dentro da Balaclava, que pesca o New Order que está vindo pro Chile em novembro pra se apresentar no Primavera Fauna e garante a apresentação única do grupo inglês pelo Brasil, quando tocam no Espaço Unimed dia 25 de novembro, com abertura da banda Jovens Ateus – e os ingressos já estão à venda. Não custa lembrar que o casal Stephen Morris e Gillian Gilbert acabou de anunciar seu desligamento das apresentações ao vivo da banda por motivos de saúde e o único integrante original do grupo a vir para esta apresentação é o guitarrista e vocalista Bernard Sumner. Agora resta saber se o Primavera Sounds São Paulo, que não tem nenhum vínculo com o Primavera Fauna chilleno, pode absorver algumas de suas outras atrações, como Underworld, Hot Chip, Johnny Marr ou American Football, ou se outra produtora pode trazer esses caras em shows solos (ou em um minifestival, como aconteceu com o Indigo Fest no ano passado).

Fecho mágico

Depois de passear por territórios alheios, Gustavo Galo terminou sua temporada Um Bis no Abismo nesta quarta-feira no Centro da Terra voltando para si mesmo. Se nas apresentações anteriores reuniu grupos de camaradas para celebrar composições de outros autores – entre ídolos e compadres -, nesta última apresentação ele passeou por seu repertório solo ao lado da bandaça que o acompanha há uma década e pinçou algumas inéditas para o encerramento desta safra de shows. Agradecendo imensamente a companhia dos músicos com quem convive neste período – o guitarrista Lucas Gonçalves, o baixista e produtor (e aniversariante!) Otávio Carvalho, o saxofonista Oscar “Cuca” Ferreira e o baterista Pedro Gongom -, ele protagonizou um momento único em sua trajetória ao convidar para dividir o palco pela primeira vez a musa e comadre cuja voz veio cantando numa interferência radiofônica às vésperas do nascimento de seu primeiro filho numa história linda que contou antes de chamá-la para a apresentação. E ao lado de Ná Ozzetti não apenas cantou “Conversa com Dulcina” como a mesma “Canto em Qualquer Canto” que Galo e sua companheira ouviram através do ultrassom antes do nascimento de seu filho. Um encerramento mágico para uma temporada surpreendente.

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