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Uma das primeiras versões de “Norwegian Wood”

Em mais um aperitivo da caixa do Rubber Soul que está vindo aí, os Beatles acabam de compartilhar mais um rascunho de um clássico, quando gravaram, pela segunda vez, “Norwegian Wood (This Bird Has Flown)”, uma das primeiras composições de John Lennon a falar de amor sem precisar ser romântica. Mas o foco desta versão vai para a cítara tocada por George Harrison, que entrou para a história da música pop na versão definitiva da música e que nesta versão recém-lançada o mostra ainda pegando o jeito do instrumento indiano que conheceu nas gravações do filme Help! naquele mesmo 1965. Mais uma joia.

Ouça abaixo:  

Como se fosse feito pra hoje

Corre pro estádio do Palmeiras que o Jamiroquai voltou pro Brasil depois de quinze anos sem pisar por aqui – e como nunca tinha visto um show dos caras, lá estava debaixo da chuva vê-los puxar um bailão daqueles que, mesmo com o mesmíssimo repertório de todos os shows (incluindo apenas “High Times”, que não tocavam desde 2018), não deixou ninguém parado. A empolgação da banda segue precisa, com músicos esmerilhando seus instrumentos (em especial o tecladista Matt Johnson e o baixista Paul Turner, todos da segunda fase da banda, além do percussionista brasileiro Fabio de Oliveira, que entrou no ano passado e teve seu momento “terrinha” por sugestão dos companheiros de grupo) e esticando cada música vários minutos além da duração original, mas o holofote obviamente cai sobre o vocalista Jay Kay que conta com os mesmos pique, disposição e elasticidade do início de carreira – além da voz intacta, trocas de figurino e dancinhas que contagiavam o público, ele ainda autografou várias capas de discos entregue pelos fãs (inclusive enquanto cantava!). O foco da banda ficou em seu disco de 1996 (Traveling Without Moving), passando por números dos discos de 2001 (A Funk Odyssey) e 2005 (Dynamite), além de passagens por músicas únicas do disco Synkronized e The Return of the Space Cowboy. Antes de encerrar o show – sem bis – com um versão mais sossegada de “Virtual Insanity”, o vocalista aproveitou o momento para falar sobre a crise política que o mundo atravessa hoje, comentando sobre como a canção parece ser mais sobre os dias atuais do que sobre a época em que foi escrita, no meio dos anos 90. Mas o mesmo pode ser dito sobre a própria banda, que fez todo mundo se esbaldar de dançar e, mesmo que o estádio estivesse longe de estar cheio, a empolgação era a regra.

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Não existe ninguém como Tom Zé

Tom Zé é patrimônio nacional. Não importa que o gênio quase nonagenário esqueça trechos das próprias letras, confunda a própria banda, arraste-se em longos devaneios sem rumo, esqueça-se onde está ou queira ir embora pra casa antes da hora. Seu valor pra nossa cultura é inestimável justamente por isso: ele nunca se conformou, nunca se ajoelhou pra quem paga a conta, nunca fez concessões, nem se autocensurou por motivo algum. Sempre fez o que e como quis e, como todos que embarcam nessa aventura no Brasil, pagou um preço por isso. Mas mesmo assim sua energia vital é emblemática e está no palco, um de seus principais lares e centro de comunhão com o público. E assim ele esteve em sua apresentação no Auditório Simon Bolívar do Memorial da América Latina neste domingo, dentro do palco paralelo do festival Coala, que acontecia lá fora e, justamente por isso, demorou para encher, com o público entrando até a metade do show. Acompanhado da banda que o segue desde a volta da pandemia (o guitarrista Daniel Maia, a tecladista e vocalista Cristina Carneiro, o baixista Felipe Alves, o baterista Fábio Alves e a vocalista Andreia Dias), ele seguiu o roteiro até o que seria a metade do show, quando anunciou que iria embora e retornou algumas vezes à pitoresca canção que compôs em homenagem ao marsupial que batiza o evento de MPB (diferente da música que fez recentemente sobre a Casa de Francisca, que celebra o local), antes de passar por seus inevitáveis hits – “Tô”, “Hein”, “Menina Amanhã de Manhã” e “Augusta, Angélica e Consolação” – e desandar a conversar sobre qualquer coisa com os dois lados da plateia do auditório. E o público foi entregue ao Tom Zé bruto, sem filtros, intenso e autêntico como poucos artistas brasileiros conseguem ser – e é um privilégio gigantesco poder vê-lo assim, às vésperas de completar 90 anos. Não existe ninguém como Tom Zé.

#tomze #auditoriosimonbolivar #memorialdaamericalatina #trabalhosujo2026shows 215

Uma banda única na história do rock progressivo

O Violeta de Outono voltou mais uma vez ao palco do Sesc Pompeia e a seu disco de estreia ao mesmo tempo, quando, neste sábado, o trio revisitou, com sua formação clássica, o disco homônimo desta banda única na história do rock progressivo. Nascido numa época em que o gênero estava fora de moda, o grupo liderado pelo guitarrista e vocalista Fabio Golfetti absorvia influências do pós-punk dos anos 80 e da psicodelia dos anos 60 numa época em que o gênero musical mais ouvido no Brasil era docilmente chamado de pop rock. O Violeta surgiu quando a cena musical paulistana começou a responder ao rock ensolarado, adolescente, risonho e praiano que começou a ser feito no Rio de Janeiro no início dos anos 80. O trio – cuja formação no show era a clássica com o baixista Angelo Pastorello e o baterista Claudio Souza, além de contar com o filho de Fabio, Gabriel Golfetti nos teclados e vocais em algumas músicas – surgiu ao mesmo tempo em que bandas como RPM, Titãs, Ira!, Ultraje a Rigor e toda a geração que nasceu em discos da Baratos Afins e trouxe elementos inexistentes no rock daquele período, como o pessimismo, a sensação de fim de mundo, o ar noturno e guitarras pesadas, ecoando artistas ingleses da mesma época. E assim o Violeta trouxe mais uma vez para o palco do Sesc Pompeia sua psicodelia melancólica, com solos de guitarra melífluos e dramáticos, letras introspectivas e existencialistas, baixos cavalgados e bateria metronômica. Para expandir a duração do show para além da meia hora do disco original, o grupo de Golfetti optou por versões de músicas alheias, tocando pela primeira vez ao vivo a versão que fizeram para a música “Jesus Come Back to Earth” de Arnaldo Baptista e duas músicas do primeiro disco do Pink Floyd, “Chapter 24” (que entrará em um disco inglês feito em tributo ao fundador do grupo, Syd Barrett) e “Astronome Domine”, que encerrou a apresentação no final do bis – além de tocar sua já clássica versão para “Tomorrow Never Knows”, dos Beatles, que encerra o álbum e encerrou a primeira parte do show. Que banda!

#violetadeoutono #sescpompeia #trabalhosujo2026shows 214

Lemonheads ♥ Almir Sater

Alguém poderia imaginar uma colaboração entre os Lemonheads de Evan Dando e Almir Sater? Pois é justamente esta parceria entre a banda de Boston nos EUA e o violeiro do pantanal brasileiro que abre os trabalhos do próximo disco do grupo, Townesville, um disco dedicado à obra de Townes Van Zandt, ídolo country do roqueiro dos EUA que veio morar no Brasil, e que será lançado no aniversário de quarenta anos de sua morte, que aconteceu no primeiro dia do ano de 1997. A faixa “Rake” é uma balada country crua, quase um folk acústico pesado, que ganha uma sutileza e uma carga histórica com o brasileiro trazendo o detalhismo de seu instrumento para a canção. A conexão de Dando com a música brasileira vem de sua esposa Antonia Teixeira, filha do músico Renato Teixeira, que também foi casada com o irmão caçula de Almir, Rodrigo Sater, e apresentou a clássica música caipira ao roqueiro gringo. E pelo jeito tem clipe vindo aí…

Ouça abaixo:  

Duas vertentes de rock

O Inferninho Trabalho Sujo desta sexta-feira começou com um pé no pós-punk e outro na eletrônica, quando Leo Stroka trouxe seu Real No Ficción pela primeira vez para o palco da festa, que aconteceu no Picles. O clima gótico apocalíptico tiinha timbres sintéticos oitentista e um excelente jogo de guitarras, quando João Manoel e Rapha Carapia traziam referências de rock progressivo nos anos 80, noise, punk-funk e rock lisérgico, uma mistura aparentemente contraditória que funcionava de forma impressionante, deixando aquele clima dark wave perfeito para as canções ao mesmo tempo lúgubres e dançantes de Leo, que disparava bases eletrônicas enquanto cantava com seu vocal grave e distorcido, tudo sobre a bateria precisa de João Pedro Dentello.

Depois foi a vez de GG di Martino fazer seu show de despedida do Brasil, trazendo suas referências sessentistas e setentistas com um rock enxuto e de forte influência nova-iorquina, que passeava pela Factory de Andy Warhol, o Max’s Kansas City e ao CBGB’s, ecoando glam rock, protopunk e punk clássico, com o vocalista deixando sua verve classuda à flor da pele, enquanto era acompanhado por dois integrantes da apresentação anterior, com o Raphael Carapia deixando sua guitarra sessentista abraçar as referências de Detroit (como Stooges, MC5 e Alice Cooper – os dois primeiros citados literalmente durante a apresentação), enquanto João Manoel, guitarrista do Real No Ficcion, assumia a bateria com a pressão rock exigida por aquele tipo de apresentação, que ainda contava com a presença sutil mas decisiva da baixista Fernanda Minillo. “Ouçam Velvet Underground!”, disse GG ao final da apresentação, como um último conselho antes de sair do Brasil.

#inferninhotrabalhosujo #ggmartino #realnoficcion #picles #noitestrabalhosujo #trabalhosujo2026shows 212 e 213

Inferninho Trabalho Sujo apresenta GG Martino + No Wall Noise Band e Real No Ficción @ Picles (11.9)

Começando setembro com mais um Inferninho Trabalho Sujo à vista, desta vez no Picles, quando reúno, na próxima sexta, dia 11 de setembro, a nova banda do GG Martino – sua No Wall Noise Band – e o projeto Real No Ficción, ambos trabalhando rock pesado, pós-punk e dance music na mesma medida, enquanto eu e a Bamboloki mais uma vez nos reencontramos praquele set desmedido que há tempo não fazíamos. Quem pegar o ingresso online e chegar antes das 21h30 não paga pra entrar. Vamos nessa!

Entregues à performance

Dois dos principais hypes das cenas musicais paulistana e carioca se encontraram nesta quinta-feira na Casa Natura Musical, quando o Vera Fischer Era Clubber dividiu a noite com o Nigéria Futebol Clube. O trio de Itaquaquecetuba abriu os trabalhos em seu modo freestyle e em vez de trazer o rastro pós-punk de seu disco de estreia ou os devaneios jazzísticos de seu próximo álbum, preferiu transformar sua apresentação em instalação performática usando a música mais como fio condutor do que fim em si mesma. Assim abriram a noite para vários compadres e camaradas, que se espalharam do palco para o público durante um longo improviso instrumental que resvalava tanto no lado mais rock e punk do grupo quanto em seus devaneios psicodélicos, mas sem distinguir uma canção da outra ou um gênero do outro. Quem nunca tinha visto a banda não deve ter entendido nada (e esse parecia ser o propósito), mas seu público embarcou na viagem e em vários momentos abriram rodas de dança no meio do público.

Depois do caos do Nigéria foi a vez do quarteto carioca Vera Fischer Era Clubber despedir-se de seu primeiro disco – chamado apenas Veras I -, que, confesso, não me bateu. Mas é muito comum, especialmente em discos de estreia, que o resultado fonográfico não alcance o impacto do show e esta foi minha principal motivação para ir a esta apresentação. E valeu demais. Ao vivo, os Veras têm muito mais impacto sonoro do que em disco, sem contar o carisma irrefreável de sua frontwoman Crystal Duarte, metralhadora verborrágica que, mesmo à distância, parece enfiar o dedo na cara de cada presente, de tanta intensidade. Ao seu lado, a baixista Malu é um colosso pós-punk e carrega o volume do grupo como uma Peter Hook em transe, com baixos cavalares, sempre acompanhada das texturas oitentistas dos teclados e synths de Vick Luz e dos beats insanos de Pek0, trazendo a coesão de uma banda de rock para um projeto eletrônico que, à primeira audição, parece brincadeira, mas que no palco torna-se uma terapia catártica para toda uma geração – e por mais que Crystal seja o epicentro deste magnetismo, ela vem sobre os ombros instrumentais de suas três colegas de banda. Às vésperas do lançamento do segundo disco, chamado, curto e grosso, de Veras II (à la Led Zeppelin), o conjunto tem tudo para surfar uma onda ainda maior que a do primeiro lançamento. Tomara que tenham conseguido capturar este impacto ao vivo neste segundo volume.

#nigeriafutebolclube #verafischereraclubber #casanaturamusical #trabalhosujo2026shows 210 e 211

Todo o show: Weyes Blood com a Jules Buckley Orchestra no Royal Albert Hall, em Londres (8.9.2026)

Como parte do final da programação do BBC Proms – festival de música erudita organizado pela rádio estatal inglesa durante o verão -, o maestro inglês Jules Buckley e sua orquestra (que já tocou com Florence + The Machine, St. Vincent e outros artistas pop) voltaram à programação do evento nesta terça-feira, convidando nossa querida Natalie Mering – a Weyes Blood – para fazer uma apresentação conjunta, em que a cantora norte-americana levou suas composições – incluindo inéditas de seu próximo álbum – ao patamar orquestral. E ficou de chorar, ouça abaixo:  

Um livro sobre o primeiro disco dos Beastie Boys

Em comemoração aos 40 anos do primeiro disco dos Beastie Boys, Licensed to Ill, o jornalista norte-americano Ben Merlis, lança o livro Beastie Boys: Licensed to Ill – 40 Years em que detalha a história do surgimento deste álbum, um marco na história da música pop. É um livro de capa dura e páginas coloridas com quase 200 páginas, que reúnem mais de 200 fotos do trio durante este período, além de entrevistas com os próprios Beastie Boys e integrantes de sua turma naquela época, análise detalhada de cada faixa do disco e prefácio escrito por Prince Paul. O livro será lançado em novembro e já está em pré-venda.

Veja algumas páginas abaixo: