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Dois universos se colidindo após um jogo

O Inferninho Trabalho Sujo desta sexta-feira começou mais tarde do que o normal porque assistimos ao jogo do Brasil na Copa do Mundo e só depois da vitória sobre a seleção do Haiti, quase meia-noite, que começamos nossos trabalhos, primeiro com a surpreendente Outra Banda no Fim do Mundo. O grupo liderado por Otávio Malta na guitarra e vocal conta com dois integrantes da banda Orfeu Menino – o baterista Tommy Coelho, que assume a guitarra solo na Outra Banda e o baixista João Chão -, mas a sonoridade passa longe do groove da banda liderada por Luíza Villa. Malta conduz seu grupo, que ainda conta com Méqui Lovin na bateria, para a seara do rock duro, quando o hard rock encontra o rock progressivo sem que necessariamente soe nu metal – na verdade, não há um traço de sentimento em suas canções, soando essencialmente racional e direto. O vocal assertivo e as letras sem arestas de Otávio levam a banda para um território habitado por bandas tão diferentes quanto Rush, Primus e Audioslave, sem que soe derivativo ou nostálgico. Vale salientar como o baixista virtuose João Chão quase transforma seu instrumento na terceira guitarra do grupo, sem precisar segurar a base e fazendo solos no meio das músicas. Showzão.

Depois foi a vez da Café Preto Sem Açúcar subir o palco e deixar seu amálgama de MPB dramática e rock burlesco tomar conta da Porta Maldita. A performática vocalista Clarice “Kaiá” Garcia toma conta da apresentação e além do vocal divide-se entre a escaleta, a gaita e percussões, sempre incitando o público e puxando todos os olhos para si, enquanto o resto da banda – formada por João na guitarra, Xablau no baixo, Pedroso nos teclados e Abaporu na bateria – a acompanha por vezes discreta, por vezes intensa. A natureza circense da banda foi coroada no bis, quando eles encerraram sua apresentação tocando o tema do Castelo Rá-Tim-Bum da TV Cultura.

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Inferninho Trabalho Sujo apresenta Outra Banda no Fim do Mundo e Café Preto Sem Açúcar @ Porta Maldita (19.6)

Você já sabe onde vai assistir ao próximo jogo do Brasil na Copa? Eu e Arthur estaremos esperando vocês ali na Porta Maldita quando faremos mais uma edição do Inferninho Trabalho Sujo, desta vez com as bandas Outra Banda no Fim do Mundo e Café Preto Sem Açúcar. A casa abre a partir das 20h, a transmissão do jogo começa às 21h30, as bandas tocam logo depois que o jogo acabar e eu sigo discotecando madrugada afora. Os ingressos já estão à venda, vamos lá?

Quando a turnê de despedida vira um disco quádruplo

É claro que a turnê de despedida de Gilberto Gil dos grandes palcos iria virar disco ao vivo – é uma tradição em sua carreira fonográfica mostrar como seus álbuns se transformam em shows e como voltam como discos ao vivo logo em seguida. Mas ninguém esperava que a histórica turnê, que aconteceu entre os dias 15 de março de 2025 e 28 de março de 2026, virasse um disco quádruplo, que começa a ser revelado ao público a partir da próxima sexta-feira, quando Gil completa 84 anos. As outras três partes serão lançadas aos poucos até novembro, quando os quatro volumes se transformam em uma caixa quádrupla de discos de vinil lançada pelo selo Três Selos Rocinante. O primeiro volume traz exatamente a primeira safra de músicas do show, só que em gravações em locais diferentes – e esta primeira parte da noite, ao contrário das seguintes, não contavam com participações especiais no palco, que devem começar a aparecer em disco a partir do volume 2, que ainda não tem data definida. Veja o repertório do primeiro volume abaixo:  

Nigéria Futebol Clube em ascensão

Mais uma noite daquelas no Sesc Pompeia, quando tanto a programação do teatro e da comedoria são eventos maiúsculos. E se o teatro via a consagração solo do baiano Giovani Cidreira, a comedoria assistia à provocação ampla e intensa do coletivo Nigéria Futebol Clube, mostrando que não é à toa que é uma das principais novas da cidade. Com a plateia lotada (tanto quantitativamente quanto em termos de quem-é-quem na cena indie paulistana), o grupo transformou sua apresentação em uma performance para além dos gêneros musicais, começando com a agressividade pós-punk que caracteriza sua primeira fase, com direito ao baterista Raphael “PH” Conceição saindo de seu instrumento para tocar em frente ao público, enquanto o guitarrista Rodrigo Silva e o baixista Eduardo Lengui não deixavam ninguém parado – público fazendo roda de pogo inclusive nos momentos mais tranquilos da apresentação. Depois entraram em sua nova fase, que estão batizando de “ambient jazz” (talvez título de um futuro álbum), quando receberam o guitarrista do D’Artagnan Não Mora Mais Aqui Derick Barbosa assumindo o trompete e a flautista e vocalista Satiê em um transe psicodélico e depois receber a MC Juh Cruz para fechar a noite em grande estilo. Se nada atrapalhar este percurso em ascensão, o Nigéria voa longe.

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A voz arrebatadora de Giovani Cidreira

Giovani Cidreira fez bonito nesta quinta-feira no teatro do Sesc Pompeia, quando lançou seu disco ao vivo Coração Disparado. Como no álbum, o baiano subiu ao palco sozinho com o violão, um teclado discreto e alguns efeitos para mostrar suas próprias canções – entre clássicos pessoais e músicas inéditas – num disco que teve direção de Rodrigo Gorky e participação especial de Benke Ferraz, dos Boogarins, que desta vez foi substituído pelo discreto João “Irmãozinho” Vítor, que entrou pela metade da apresentação para criar uma nova camada musical à sombra do violão expansivo e da voz arrebatadora de Cidreira, que, como de praxe, desatou a conversar entre as canções. Num dado momento, ao comemorar a chegada das festas de São João, fez troça com a plateia que pareceu não se animar com a novidade (até que Felipe Vaqueiro, na plateia, avisou que os paulistanos chamam estas comemorações de festa junina e não apenas de São João, como no nordeste), e aproveitou para falar da influência dos festejos desta temporada em sua formação – e o que era uma desculpa para mostrar sua versão para “Timidez”, do grupo cearense de forró Cavalo de Pau (que está no disco recém-lançado), serviu para que ele improvisasse uma inacreditável versão a capella para “Pau de Arara” de Luiz Gonzaga. Logo em seguida, pediu vaias para duas bandas – Legião Urbana e Los Hermanos – para cantar uma música da qual fosse mais vaiada. Calhou de ser o quarteto carioca, de quem Giovani cantou uma bela versão para “Último Romance” (quando esqueceu a palavra “sufoco” e inventou um tal “suflego” entre risos), coroando uma apresentação belíssima.

#giovanicidreira #sescpompeia #trabalhosujo2026shows 146

Alicia Keys segue cantando o novo hino de Nova York

A vitória dos Knicks no campeonato estadunidense de basquetebol no fim de semana passado está transformando um hit de quase vinte anos em um novo hino da maior cidade daquele país – e sua voz-chefe segue cantando-a, como aconteceu nesta quinta-feira, num show que Alicia Keys deu ao ar livre no parque City Hall. Cercada dos jogadores do time de basquete e do atual prefeito da cidade Zohran Mamdani, ela, como fez após a vitória do time no show de encerramento do festival de cinema Tribeca, começou puxando “New York State of Mind”, de Billy Joel, ao piano para em seguida engatar sua clássica “Empire State Of Mind”, cantada a plenos pulmões por todos os presentes.

Veja abaixo:  

Bob Dylan cantando “I Shall Be Released” em 2026… em vídeo!

Na semana passada, Bob Dylan desenterrou o hino “I Shall Be Released” ao apresentar-se na cidade de Eugene 18 anos depois de tocá-lo pela última vez – sorte que alguém conseguiu levar um gravador para registrar esse momento. O show em Los Angeles, na terça passada, teve um gostinho ainda melhor pois, além de voltar a tocar uma das músicas mais importantes de seu repertório (e não são poucas, sabemos!), conseguimos ter o registro em vídeo deste momento (apesar do baixista Tony Garnier se mexer logo no começo da música e ficar exatamente na frente de Dylan, sentado ao piano).

Assista abaixo:  

Unidos pela psicodelia instrumental

Sexta-feira marca o primeiro dia de uma parceria de duas instituições do rock paulistano quando o guitarrista Edgard Scandurra inicia seu projeto em parceria com o trio instrumental Ema Stoned ao lançar a música “Cinza das Horas”, primeira colaboração dos dois, que eles antecipam em primeira mão para o Trabalho Sujo. A parceria segue no próximo domingo, quando os dois dividem a noite com o Violeta de Outono em uma apresentação na Casa Natura Musical e começam a preparar o território para o lançamento com maior fôlego, uma vez que o encontro está rendendo novas composições. Há um ano, o guitarrista do Ira! assistiu a um show da banda na Porta, em São Paulo, e ao ver o trio formado por Alê Duarte (guitarra), Elke Lamers (baixo) e Theo Charbel (bateria) em ação, lembrou das músicas instrumentais que vinha trabalhando há um tempo. “Tive um ímpeto, coisa que eu não costumo fazer, de ir falar com elas depois do show e chamei elas pra fazer um som comigo”, explica Edgard. “Eu já tinha um repertório de umas doze músicas que eu tava querendo montar uma banda pra registrar esses sons, e elas acharam interessante o convite. A gente se encontrou num estúdio na casa da Theo, começou a marcar uns ensaios e deu uma puta liga”. “Desde o primeiro encontro, tivemos uma conexão musical quase que instantânea que gerou uma troca muito rica de referências, influências e visões sonoras”, continua a guitarrista Alê Duarte. “O Edgard chegou com muitas – muitas! – ideias e abertura pra gente explorar os sons, escolher temas e criar com ele caminhos e desfechos musicais”, emenda Elke, “a música parece que tem vida própria, a gente vai só alimentando e norteando, dosando a imaginação pra ela caber num set e a gente poder tocar por aí”. ” Edgard conclui: ““Mas o que eu achei muito salutar, que pra mim é um desafio que eu amo, é que o trabalho deixou de ser as minhas músicas com elas me acompanhando pra elas ganharem um protagonismo muito grande nas composições e criamos um espírito de banda”.

Ouça abaixo:  

Godspeed You! Black Emperor no Brasil!

Mais um golaço da Balaclava: Godspeed You! Black Emperor apresenta-se em São Paulo em data única na Áudio, no dia 23 de novembro. Papas canadenses do pós-rock, são autores de duas obras-primas do gênero (os discos F#A#∞ e Lift Your Skinny Fists Like Antennas To Heaven, lançados na virada dos anos 90 para os anos 2000), e tocam pela primeira vez no Brasil toda sua carreira. Os ingressos já estão à venda.

Boneca Russa revelada

Rômulo Fróes sabe do ás que ele tem na manga e ao chamar Marcelo Cabral para produzir e arranjar seu disco recém-lançado Boneca Russa acrescentou mais uma camada de sentido a um disco feito após um divórcio. Samba-réquiem lançado cirurgicamente na quarta-feira de cinzas deste ano, o disco conta apenas com o baixista como coadjuvante, papel que eleva-se para além do protagonismo principal quando o disco se materializa ao vivo, como aconteceu nesta quarta-feira no pequeno auditório do Sesc Pinheiros. E por mais que Rômulo seja o personagem principal – embora, liricamente, sujeito oculto do disco -, ao deixar Cabral transformar seu baixo acústico em uma usina de som, colocando pedais e loops a serviço do ruído que, às camadas, verte-se em música, ele joga o holofote para o lado e guia seu disco de pesar para a inventividade sônica do compadre e, com isso, à musicalidade de seus sambas e, portanto, seu sentimento para além das letras. Tocado na ordem do disco e terminando com a música que batiza sua filha (composta quando ela nasceu), Boneca Russa ao vivo é o disco em sua natureza bruta, emoção intensa que, se no registro fonográfico fica contida, no palco se esparrama, mas sem nunca entornar. Se puder ver esse show, assista.

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