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Chicão: CAT

Encerrando a programação de música em maio no Centro da Terra nesta terça-feira, temos outra apresentação do pianista Chicão, que depois de dividir o palco com André Abujamra na semana passada, agora volta com seu projeto solo chamado de Chicão Acústique Trio – ou, como ele prefere encurtar, CAT. Ao lado da cantora Marcela Helena e do percussionista Nicolas Farias, ele mostra suas próprias composições, que começou a expor depois que fez sua temporada no teatro em novembro de 2023, com esta formação mínima e precisa. O espetáculo começa pontualmente às 20h e os ingressos estão à venda pelo site do Centro da Terra.

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Dois discos num só

A menos de um mês do lançamento de seu terceiro álbum, Olivia Rodrigo revelou nesta terça os títulos das músicas e um pequeno detalhe sobre seu novo disco – ele tem dupla personalidade! Na verdade, You Seem Pretty Sad for a Girl So in Love revela-se vintage como toda a tradição pop que ela vem afagando desde que começou a falar do disco e divide-se em duas metades como bem quer o conceito de álbum, forjado numa época em que os discos tinham dois lados e que a duração de cada metade não passava muito além dos 20 minutos. E como vários antes dela, Olivia aproveita essa divisão conceitual para mostrar que o título do disco carrega duas metades distintas: o lado A chama-se Girl So In Love (Garota Tão Apaixonada), que abre com a “Drop Dead” que lançou como primeiro single, e o lado B chama-se You Seem Pretty Sad (Você Parece Bem Triste), abrindo com o segundo single, revelado semana passada, “The Cure”. Assim, o título – Você Parece Bem Triste para uma Garota Tão Apaixonada – não é só um estado de espírito único, mas partes distintas de um processo – e isso se reflete também no título das músicas: “Honey bee”, “U + Me = <3” e “My Way” no lado A, “What’s Wrong With Me”, “Less” e “Cigarette Smoke” no lado B.

Distopia periférica

Acontecimento – título da temporada que o trio formado no Rio de Janeiro Crizin da Z.O. apresentou às segundas-feiras deste maio no Centro da Terra – também é uma boa forma de descrever a última noite dessa safra de apresentações ao vivo. Cris Onofre, Danilo Machado e Marcelo Fiedler acresceram à sua formação um segundo percussionista (Gênesis Chagas, baterista da banda carioca Cidade Partida) para receber Juçara Marçal, que ativou sua faceta Delta Estácio Blues, com aparelhos eletrônicos e afeita aos beats pesados e ao tambozão funk que movimenta a parede de ruído erguida pela banda. Foi demais vê-la entrando na zona oeste do Rio de Janeiro do som da banda, ela mesma nascida em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, e deixando aflorar todo groove contagiante do funk com o peso e a distorção elétrica dos efeitos à disposição, ao mesmo tempo que fazia o grupo entrar no modo distopia que filtra seu segundo álbum, fundindo sonoridades e temáticas no mesmo clima apocalíptico, que ainda colocou os anfitriões da temporada para enveredar por “Sem Cais”, que Juçara compôs com Kiko Dinucci e Negro Léo, numa versão inacreditável. Chave de ouro.

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E o melhor show do C6Fest de 2026 foi o de Cameron Winter

O melhor show do C6Fest 2026 foi a cereja da edição – e o melhor show do ano até agora. O líder do Geese, Cameron Winter, foi um dos nomes mais festejados quando anunciado e um dos primeiros a esgotar os ingressos do festival, além de ter ingressos disputados mesmo após terem sumido do mapa. Lógico que o fator “banda da vez” é um dos elementos cruciais para esse sucesso, uma vez que seu Geese está surfando uma comoção parecida com o que, em outras épocas, surfaram bandas tão diferentes quanto os Sex Pistols, o Nirvana e os Strokes, causando êxtase em seus contemporâneos de geração e desconfiança de quem não entendia todo aquele ímpeto. Some isso ao fato de que a carreira solo de Cameron é simultânea à carreira da banda e uma coisa não briga com a outra, só soma. E que em sua versão solo reduz seu trabalho a piano e voz. Lógico que o fator geracional é imprescindível: nascido em março de 2004, ele tem parcos 24 anos e sua banda é a primeira banda da geração Z a ganhar tanto hype, fazendo seus contemporâneos se reconhecerem em suas letras, música e atitude. Mas, mais do que isso, ele tem farta bagagem musical – tanto técnica quanto de repertório – e nem no Geese nem solo soa parecido com algo específico, misturando referências de forma virtuosa. Enquanto no Geese ele repassa a história do rock virando-a do avesso, sozinho ao piano vai no nascedouro da canção americana de câmara, aquele período entre a Broadway e o Brill Building, e mergulha como seu instrumento e voz – e que voz! – como se descortinar um labirinto sentimental no próprio espelho. Sem dirigir uma palavra ao público – a não ser um “obrigado” em portugues no final -, ele fez todos se silenciar e muitos se debulhar em lágrimas enquanto passeava por canções longas, épicas e sentimentais. De tirar o fôlego.

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Como foi o segundo dia do C6Fest 2026: Oklou magistral, Robert Plant ancestral

O domingo do C6Fest começou com o principal erro em sua escalação, quando o Magdalena Bay tocou na área externa do Auditório Ibirapuera e Benjamin Clementine tocou na tenda. O show da dupla kitschpop – apesar de afiado – perdeu-se no som baixo e na dimensão gigante daquele palco, enquanto o pianista inglês teve que espremer um show com naipe de sopro e cordas num palco bem menor. Fora a divisão de públicos para cada palco que ficou ainda mais evidente no segundo dia do festival no Parque: o público da parte externa era mais velho e heterotop, o da a tenda era mais jovem e descolado (até nas praças de alimentação de cada palco: o hambúrguer da área externa era Z Deli, o da tenda era Patties), o que reforça ainda mais os Magdalena estarem na tenda (onde a pressão dos fãs iria deixar o show intenso) e Benjamin na arena. Logo depois os Paralamas receberam a Nação Zumbi no palco maior, quando dividiram duas músicas (“Selvagem” e “A Praieira”) no começo e outras duas (“O Calibre” e “Manguetown”) no final. Na tenda, Oklou fez o segundo melhor show da noite, apaixonada pelo público que cantava todas suas músicas. A sueca Lykke Li entrou depois e fez um show mais melancólico que dançante, pinçando a “Sozinho” (aquela!) como agrado ao país – e cantando num português ótimo! – para só no final do show ir para a pista, culminando com a inevitável “I Follow Rivers”. Penúltimo show da noite, Robert Plant fez uma apresentação memorável e está com a voz ótima. Além de cantar algumas do Led (“Four Sticks”, “Ramble On” e “Friends”), passou por músicas do Moby Grape, Los Lobos e Neil Young e fez o único show naquele palco com bis, quando primeiro dividiu os vocais com a ótima Suzi Dian em uma música do Low (“Everybody’s Song”, quando seguraram uma nota juntos por longos e heroicos segundos) para pegar todo mundo de surpresa com “Rock and Roll” – e sem deslizar. Encerrou uma noite maravilhosa, que ainda teria um posfácio inacreditável, quando Cameron Winter tocou no Auditório às onze da noite. Mas já falo sobre isso.

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Lydia Lunch na madrugada

Ainda tive disposição pra ir no meu querido Centro Cultural São Paulo pegar um gostinho da Virada Cultural, quando a monumental Lydia Lunch apresentou-se na Sala Adoniran Barbosa. “Deus foi o primeiro polícia!”, começou a noite cuspindo sua tradicional verborragia violenta, confrontando os senhores da guerra, governos, o sistema, o patriarcado e o capitalismo em fluxos de consciência transformados em textos, que guardava em um envelope que deixava junto a uma poltrona. A cada série de golpes de palavras, ela voltava para esta poltrona e folheava seu próximo ataque, enquanto o baixista Tim Dahl e o saxofonista Matt Nelson, usando muitos pedais e microfonia, adensavam o palco para cada novo esporro da matriarca do spoken-word do punk nova-iorquino. Enquanto ela falava, todos os olhos estavam grudados nela, silêncio solene que só se rompia quando ela encerrava o parágrafo da vez, voltando-se para sua poltrona. Um grito de alerta, um dedo na cara e um sermão pelo clima de fim de mundo que vivemos – todos saíram eletrizados.

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Como foi o primeiro dia do C6Fest 2026: Wolf Alice na cabeça, Xx no coração

C6Fest mais uma vez confirma sua dianteira como melhor festival em São Paulo. Finda sua quarta e mais ousada edição no fim de semana, o evento quase tirou os pés do indie rock e do neo soul que pautaram as edições anteriores, reforçando seu compromisso com a contemporaneidade do pop nos quatro palcos. Não fui nos shows da quinta e sexta e temi, como muitos, que o fim de semana fosse consagrado com uma tempestade daquelas, o que felizmente só comprometeu poucos shows (especialmente no início do sábado). Perdi Horsegirl e Amarae, mas cheguei a tempo de ver o fanfarrão do Baxter Dury mostrar sua persona sobre a base pós-punk dançante, começando bem o festival. Depois emendei com o melhor show da noite, quando meus favoritos Wolf Alice – donos do melhor disco do ano passado, The Clearing – mostraram que ainda é possível fazer rock clássico no século 21 sem soar datado ou referencial – e sua vocalista, a gigantesca Ellie Rowsell, é uma estrela perfeita deste gênero. O BaianaSystem mostrou porque é uma das melhores bandas do Brasil e foi quem soube melhor usar o telão nas costas do Auditório Ibirapuera em todo o evento, culminando com uma fala fulminante da atriz Alice Carvalho. O vocalista do National, Matt Beringer, foi comendo pelas beiradas e no meio do show se jogou no meio da plateia e foi até o fundo do público, cantando com o microfone sem fio, para encerrar com uma versão rock de “Blue Monday” do New Order. O Xx quase fechou o sábado com um show maravilhoso. Sem inéditas e vários números solo de seus integrantes, afagaram os fãs com músicas de seus três discos, cantadas às vezes em coro, outras ouvidas em silêncio (se você estivesse perto do palco). Mas o melhor momento do show foi quando o produtor Jamie Xx pegou pesado no som ao soltar seus dois números solo, transformando o palco a céu aberto numa pista de dança. A violoncelista guatemalteca Mabe Fratti fechou o sábado inaugurando o palco Lab no Auditório Ibirapuera num show aquém do resto da programação, com alguma ousadia, mas por vezes monótono – e pouco público. Mas no domingo as coisas seriam bem diferentes…

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E esse roquinho da Charli?

Pelo jeito é a regra do novo jogo de Charli XCX: depois de lançar um novo single, lance um lado B em seguida, de preferência completamente antagônico ao lado A. Foi assim com a singela “I Keep Thinking About You Every Single Day and Night”, lado B da afrontosa “Rock Music”, quando tornou público sua segunda conta no Instagram justamente para mostrar esses segundos tempos (chamada, didaticamente, de @b.sides). E agora depois de “SS26”, ela vem com o punk-pop “Playboy Bunny”, roquinho dançante ainda mais perto do gênero que batizava o single anterior. Ela vai só deixando as pistas…

Assista abaixo:  

Olivia Rodrigo: “I thought I found the antidote…”

Quem deu o segundo passo de um novo disco nesta sexta-feira foi Olivia Rodrigo, que revelou sua “The Cure” como novo degrau – para baixo – de seu vindouro terceiro disco, You Seem Pretty Sad for a Girl So in Love. E depois de filmar “Drop Dead” no Palácio de Versailles como uma princesa Disney – símbolo do pop perfeito -, ela começa a descida rumo à tristeza enunciada em seu título em uma ode folk emoldurada em um hospital dos anos 50 nos Estados Unidos, em que, fantasiada de enfermeira de publicidade, vai mostrando suas vísceras como um personagem de desenho animado num filme de terror. Ao batizar a faixa com o nome da banda de seu ídolo e agora camarada Robert Smith, ela sintoniza a melancolia agridoce do papa do gótico pop ao mesmo tempo em que acena para a geração seguinte à do Cure, imediatamente influenciada por eles, a quem ela vem tateando contato, do rock alternativo dos anos 90, soando como uma balada acústica de bandas tão diferentes quanto Smashing Pumpkins, Hole, Weezer e Foo Fighters. Resta saber se este será o disco em que ela, de uma vez, abraçará o rock, tornando-se um improvável ícone para o gênero. Mas ao final do clipe, ela revela que o hospital vintage que é o cenário do clipe é (como era o palácio do clipe anterior) uma ilusão, pisada por ela mesma ao mostrar-se sem fantasias numa casa encaixotada, como se tivesse acabado de chegar de uma mudança. Vamos ver o que ela nos mostrará a seguir…

Assista abaixo:  

Viagens eletrônicas!

Duas viagens eletrônicas nesta quinta-feira no Inferninho Trabalho Sujo no Picles. A primeira começou com a dupla Pão de Ló, formada pela dupla de cientistas malucos da Tubo de Ensaio Lorenzo Zelada e Lorena Wolthers. Lorenzo deixa a guitarra de lado para dedicar-se apenas aos synths que monta, enquanto Lorena derrama-se pelos teclados e synths, além de tocar uma guitarra com baquetas e soltar alguns vocais esporádicos. O clima psicodélico e eletrônico vem de bases techno e electro que logo são convertidas em loops hipnóticos em que efeitos sonoros deslizam para deleite da noite. Nesta sua segunda apresentação ao vivo, a dupla ainda contou com a participação de dois cúmplices: Gibaa, que tocou um theremin fabricado em casa acoplado a alguns pedais de efeitos, e Gabriel Golfetti, ex-Stratus Luna, que assumiu o baixo e efeitos para encorpar ainda mais a loucura da dupla. Trip pesada!

Depois foi a vez da também recém-formada Canaflash FX, formada por Charlie Tixier e Lello Bezerra, que funde os beats do primeiro, tocados numa MPC em chamas, e os riffs em loop do segundo, que, por mais que caiam nas raias do improviso livre, mantém-se preso ao ritmo ditado pelo beatmaker, que puxa mais pra pista de dança do que para a abstração sonora, deixando tudo muito aterrado e sacolejante. Enquanto Charles esbalda-se enfurecidamente (mas sempre com um sorriso no rosto e sem parar de dançar) na bateria eletrônica, Lello vai abrindo frases melódicas que se repetem em outras frases, abrindo parênteses musicais com outras melodias, que ecoam tanto as guitarras do Mali quanto levadas caribenhas e nordestinas, que vão ao delírio psicodélico à medida em que vai cortando o tempo e acelerando tudo com o ritmo – tocando a guitarra com as mãos e com os pés, que não param de acionar os pedais. O mais legal é ver os dois claramente se divertindo com essa parceria recém-descoberta. Delírio!

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