Realeza do rock

Inacreditável o show que Ron Wood fez neste domingo em São Paulo. Mais do que compensar o fato dos Rolling Stones terem lançado um bom disco novo este ano e não cair na estrada, o show que o eterno Stone fez no Espaço Unimed mostrou que sua carreira vai muito além do bom tempo em que divide palco e estúdio com Mick Jagger e Keith Richards, pinçando músicas de outras fases de sua carreira, como quando tocava com Rod Stewart nos Faces e sua própria carreira solo. Embora caçula da geração de Jagger e Richards, ele viveu o tempo em que a Inglaterra começou a respirar blues e R&B dos EUA e é diretamente influenciado pela safra de guitarristas descoberta por John Mayall em seus Bluesbreakers (notadamente Eric Clapton, Peter Green e o Mick Taylor que substituiria mais tarde nos Stones) e que passou pelos Yardbirds (além de Clapton, Jimmy Page e Jeff Beck) e, claro, seu futuro irmão mais velho Keith. Por isso o que se viu no palco da casa de shows foi uma apresentação magistral de blues rock inglês, com uma banda precisa e contida, com músicos que tocam com Ron desde os anos 70, como a cozinha formada por Willie Weeks e Andy Newmark, que o acompanhou em seu primeiro disco solo, e o tecladista Andy Wallace e o guitarrista Johnny Lee Schell. Acompanhando-o nos vocais, as espetaculares Chanel Haynes e Imelda May, que conectaram as raízes do blues à soul music dos EUA daquele período, em números clássicos como “River Deep, Mountain High” e “Chain of Fools” e lados B desta mesma safra, como “You’re So Fine” e “Remember (Walking in the Sand)”. O grupo também passeou por estandartes do blues (como “Baby What You Want Me to Do” e “Spoonful”) e sucessos dos Faces (“Flying” e “Ooh La La”), além de versões para músicas de Johnny Winter (“Show Me”) e Bob Dylan (“Seven Days”) e canções de sua carreira solo. Dos Stones, ele abriu com “It’s Only Rock’n’Roll (But I Like It)”, que marcou sua entrada no grupo, passou por “Hey Negrita”, “Country Honk” (quando chamou Mera Royle com sua rabeca) e “Can’t You Hear Me Knocking”, mas preferiu fechar o show de mais de duas horas com o hino dos Faces, “Stay with Me”, que encerrou um festival de solos impecáveis e riffs de primeira, como pede um personagem desta estatura.
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