Por Alexandre Matias - Jornalismo arte desde 1995.

Final apoteótico

O encerramento da temporada Cosmofonias de Romulo Alexis nesta segunda-feira no Centro da Terra foi apoteótico, quando chamou seu compadre Wagner Ramos, que, com Romulo, forma o duo Rádio Diáspora, para uma versão intensa dessa formação, chamada de Ensemble Cachaça!, que contou ainda com o trombone de Allan Abbadia, o contrabaixo de Clara Bastos, a voz e o berimbau de Paola Ribeiro e o sax de Stefani Souza. O sexteto partiu de momentos soturnos e silenciosos para picos de estridência e dissonância, quando timbres graves e agudos se encontravam canalizados pelo trompete e bateria do duo proponente do encontro, com direito a instrumntos de sopro desmontados para buscar novas sonoridades e um berimbau tocado com arco, além da voz livre e espacial de Paola. A última de quatro intensas noites de improviso e exploração musical foi um encerramento desnorteador.

Assista a um trecho aqui.

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Quando entrevistei Renato Russo

O doutor Ricardo Tacioli, velho companheiro de aventuras do tempo em que fazíamos Ciências Sociais na Unicamp e tateávamos o mundo do jornalismo e da produção cultural, reativou seu célebre site de entrevistas sobre música brasileira e para inaugurar essa nova fase desenterrou um dos meus primeiros trabalhos profissionais, quando, há exatos 30 anos, entrevistava Renato Russo, um dos grandes nomes da música pop brasileira e uma das primeiras referências que tive no mundo da música. Nascido em Brasília, cresci numa cidade sem tradições que, a partir do surgimento do Legião Urbana, começou a desenvolver um orgulho candango inédito que persiste até hoje – e tive a oportunidade de viver essa transformação em primeira mão, indo a dois shows históricos da carreira da banda: o lançamento de seu segundo disco em 1986 (que foi o primeiro show que fui na vida) e o último que eles fizeram na cidade no ano seguinte (que terminou num quebra-quebra generalizado e com a banda amaldiçoada por seus fãs). Sete anos depois, comecei minha carreira entrevistando nomes conhecidos para um jornal que fizemos na faculdade que foi a minha porta de entrada para o jornalismo em si, quando comecei a sugerir pautas para o Diário do Povo, o jornal da cidade, e entre as primeiras entrevistas que fiz está essa que fiz com Renato logo depois do show que a banda fez na cidade vizinha de Valinhos. A entrevista seria publicada em uma revista impressa que idealizava com o doutor Tacioli, mas acabou tendo trechos publicados na matéria que fiz para o Diário sobre o primeiro disco solo de Renato, The Stonewall Celebration Concert, e depois em versão extendida para a Folha de São Paulo, cinco anos após a morte de Russo, que aconteceu em 1996. Ricardo trombou com a transcrição original da entrevista e me perguntou se gostaria de cedê-la para a nova fase de seu site, que volta à ativa depois de quase uma década no limbo digital, e a visita àquela madrugada de outono de 1994 também me proporcionou uma viagem no tempo que me conectou de volta aos meus primeiros dias de carreira. A íntegra do papo está lá no Gafieiras, confere lá.

Dentro de Marina

Entre uma peça musical e um show encenado, Sofia Botelho e Ernani Sanchez entraram no imaginário de (e sobre) Marina Lima no espetáculo Eu, Marina que fizeram nesta terça-feira no Centro da Terra. Não era só o desfile de seus grandes sucessos, impregnados em nosso subconsciente, mas também um mergulho nesta personagem-autora que tanto encantou e confundiu o pop do fim do século passado. Transitando entre a MPB, a música pop e o R&B, Marina também abriu uma caixa de Pandora de sensações que vieram junto com as transformações comportamentais do Brasil que saía de uma ditadura militar, explorando tabus e fronteiras de forma difusa e discreta e assim atingiu diferentes ambientes musicais, todos explorados pela dupla de atores transformados em músicos – seja o programa de auditório, o karaokê ou o luau na beira da praia, passando pela poesia musicada e o canto falado e pela sempre presente sugestão sexual de um pop ambíguo. Ao explorar estes universos paralelos – usando recursos cênicos como figurino, iluminação, atuação e a quebra da quarta parede -, Eu, Marina reforça a importância de homenagear uma artista única em nossa cultura. A questão é que como Sofia está grávida – e prestes a parir – uma próxima sessão desta celebração vai ficar fora do ar por alguns meses…

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Sofia Botelho + Ernani Sanchez: Eu, Marina

Maior prazer receber os atores Sofia Botelho e Ernani Sanchez para um desafio musical chamado Eu, Marina, em que os dois viajam pelo repertório e pelo legado de Marina Lima para compor uma apresentação musical que mistura canções, crônicas sobre a história da cantora e dos autores com poemas de Eduardo Galeano, Ana Cristina César e Angélica Freitas para explorar este universo musical. O espetáculo acontece nesta terça-feira, começa pontualmente às 20h e os ingressos podem ser comprados na bilheteria e no site do Centro da Terra.

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Experimental e familiar

A terceira apresentação da temporada Cosmofonias que Romulo Alexis está realizando no Centro da Terra foi feita em parceria com o núcleo Leviatã e aconteceu nesta segunda-feira, quando o trompetista reuniu-se ao lado de Edbras Brasil, Inès Terra, Thayná Oliveira e Sarine para uma sessão de improviso intensa, que começou com momentos solo de cada um dos instrumentistas – Thayná abrindo a noite entre os sussuros e seu violoncelo, entregando para os synths e percussões de Sarine, passando para o tamborim e canto de terreiro de Edbras e as texturas improváveis da voz de Inês, além do próprio trompete do anfitrião -, culminando em uma celebração conjunta, quando timbres e tempos se encontravam e se entrelaçavam em uma cama musical ao mesmo tempo experimental e familiar.

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Ava só precisa dela mesma

Ava Rocha incendiou o Inferninho Trabalho Sujo nessa sexta-feira ao subir sozinha no palco do Picles em quase duas horas de apresentação. Ela começou só com a voz, puxando pessoas para o palco para participar de seu ritual enquanto emulava percussão e pedia palmas do público e logo foi cercada por outras pessoas – amigos, conhecidos ou não – que transformaram a apresentação solitária numa celebração coletiva, que por vezes virava puro delírio (como quando o baixista Klaus Sena subiu na batera e puxou “Joana Dark”) por outras tornava-se introspecção pura (como quando ela pegou a guitarra e fez todos cantarem seus hits como “Você Não Vai Passar” e “Transeunte Coração”). Perto do fim, ela chamou seu tecladista Vini Furquim para passar algumas músicas de seu disco mais recente Néktar, fechando uma noite histórica. E depois eu e Fran encerramos o inferno astral desta última com a discotecagem mais bizarra que fizemos nos últimos tempos. Tudo estranho, mas deu tudo certo.

Assista a um trecho aqui.

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Inferninho Trabalho Sujo apresenta Ava Rocha e Boca de Leoa

Vamos a mais uma sexta infernal, ateando chamas nos corações e mentes que abandonarem todas as expectativas ao adentrar no portal chamado Picles. E neste dia 17 vai ter ritual de descarrego, quando recebemos ninguém menos que Ava Rocha para uma celebração quente no palco do Inferninho Trabalho Sujo, logo depois de mais uma apresentação pegando fogo das queridas Boca de Leoa. E como após os shows a temperatura auemnta ainda mais, chegamos eu e a Fran despejando gasolina para transformar a pista em nossa panela de pressão alto astral. Venha e não se arrependerás – o Picles fica no número 1838 da Cardeal Arcoverde, em Pinheiros, e a primeira banda começa às 22h. Queima!

Silvio Luiz (1934-2024)

Nesta quinta-feira morreu um herói. Sílvio Luiz era mais do que um dos melhores locutores de futebol da história do Brasil, ele me ensinou, ainda moleque, a sutil diferença entre reconhecer a importância e gostar. Cresci corintiano ouvindo-o empolgar-se pelo time que era do nosso coração e sendo severo quando precisava, sem que fosse preciso cornetar ou falar mal só pela paixão de torcer, me fez entender que a isenção é uma máscara malfeita, que todo mundo sempre vai ter o seu lado, o seu favorito, o seu querido. Mas seu Silvio mostrava que a paixão não podia ser cega e que não dava pra passar pano pra ninguém. Lições morais do futebol que carrego pra vida, inclusive profissional. E seu compromisso, jornalístico (afinal, um narrador de futebol deveria considerar-se um jornalista), era com os fatos, o que o fazia não gritar gol – e sim um de seus inúmeros bordões, o “foi, foi, foi, foi, foi, foi ele!”, que lhe dava tempo para conferir o nome e o número do jogador e dar mais detalhes sobre o que tinha acabado de acontecer. E se for falar em bordão, não tem pra ninguém: “olho no lance”, “eeeeeeeeu vi!”, “acerte o seu aí que eu arredondo o meu aqui”, “no gogó da ema”, “no paaaaaaau”, “manda o sapato daí”, “pelo amor dos meus filhinhos”, “balançou o capim no fundo do gol”, “o que é que só você viu?” e “no meio da caneta”, sempre com sua voz rasgada e grave, macia e estirada, costurando palavras improvisadas na hora misturando o tom informal da conversa na arquibancada do jogo com uma crônica bem humorada e ao mesmo tempo cética, que transformou expressões clássicas como “minha nossa senhora” e “pelas barbas do profeta” em suas. Ele já estava mal e foi internado duas vezes este ano, esta última, sem volta. Mas viveu quase 90 anos intensos, sempre reconhecido pelo público de pelas torcidas – não só a do nosso time. E a notícia de sua morte ainda nos lembra que ele foi o primeiro brasileiro a veicular um palavrão na TV brasileira, quando deu o microfone a um jogador, que xingou o juiz de “filha da puta” – isso em 1953. Obrigado, mestre! Vai em paz.

Fernanda Azevedo (1976-2024)

Arrasado com a notícia da passagem da Fer. Fernanda não era só a madre superiora da produção independente brasileira, ensinando gerações e gerações sobre a necessidade de manter-se em atividade, fazendo acontecer não importe o que custasse – era também uma das melhores pessoas do mundo. Conheci naquele fim de século quando a internet era um faroeste para os desbravadores da cena indie brasileira e ela apresentava-se como terceira integrante do choque de realidade que foi a Motor Music. A produtora mineira, idealizada pelo realizador Marcos Boffa e pelo zineiro Jefferson Kaspar, encontrou na Fernanda o motor de seu título – e ela, produtora à moda antiga, que ia aprendendo enquanto fazia, espalhava a palavra daquela nova realidade musical aos quatro ventos do Brasil. “Fernanda da Motor” foi responsável por consolidar a cena indie de Belo Horizonte na virada do século ao mesmo tempo em que participou das primeiras turnês de artistas independentes para o Brasil numa época em que ninguém acreditava nisso – e começamos a nos encontrar nos shows do Superchunk, Man or Astroman?, Stereolab, Yo La Tengo, Tortoise e tantos outros que a produtora mineira trouxe ao Brasil pela primeira vez. Depois que a Motor acabou ela não parou de produzir, fossem eventos, shows ou festas que ela idealizava ou que a chamavam para trabalhar – e gerações seguintes, tanto em Minas quanto no resto do país, reconheciam sua importância e a tinha como referência. Mineiramente, como de hábito, ela nunca puxou a sardinha pra própria brasa, preferindo o estilo baixo perfil que deixava pra lá quando nos encontrávamos pessoalmente – sempre disposta a ir até o final, aprontando todas, juntando todo mundo e se esbaldando, mesmo quando estava trabalhando. Perdi a conta de quantas vezes ela me chamou pra BH seja pra discotecar, cobrir eventos ou participar de debates e toda vez que caía na capital mineira sempre dava um jeito de encontrá-la – ver a Fer era mais importante do que visitar o mercado central. A mera lembrança de seu indefectível largo sorriso sempre me causou suspiros e, agora, lágrimas – e fica pra nossa história etérea a lendária entrevista que faria com ela quando fosse escrever o livro da Motor, que ela tentou emplacar em alguns editais. Dávamos largas risadas ao imaginar quantos dias duraria essa entrevista e o que poderia ser publicado de tudo que ela contasse, lembranças que, agora, ficam conosco, como o legado de manter tudo funcionando não importa o que acontecesse. Falei com ela na segunda agora, combinando de vermos o Pavement juntos. Que mundo injusto. Saudades, mulher, você já faz falta…

Como Assim? | 17.5.2024

Nessa sexta-feira faremos mais uma apresentação do conjunto musical Como Assim? em que toco ao lado de Mateus Potumati, Pablo Miyazwa e Carlão Freitas clássicos de nossas juventudes – apresentando pela primeira vez canções em português. Mais uma vez abrimos a noite para os compadres do Earl Greys – que trazem a fina flor do pop britânico de todas as épocas – novamente no Aurora, nosso jardim de infância. A festa começa às 20h e o show da Como Assim? começa pontualmente às 21h30 – e os ingressos estão à venda neste link .