Por Alexandre Matias - Jornalismo arte desde 1995.

De volta ao Galaxie 500

Banda fundamental tanto no cânone do indie rock mundial quanto na tradição nova-iorquina de fundir melodia e ruído, o Galaxie 500 anunciou o seu primeiro lançamento em quase 30 anos. Formado pelo guitarrista e vocalista Dean Wareham, pela baixista e vocalista Naomi Yang e pelo baterista Damon Krukowski, o grupo teve uma vida curta entre os anos de 1987 e 1991, gravou três discos essenciais (Today de 1988, On Fire do ano seguinte e This is Our Music de 1990) e até hoje influencia gerações inteiras de aficionados por noise atmosférico e canções perfeitas. O novo disco, a coletânea de lados B, versões para músicas do New Order, do Velvet Underground e dos Rutles e canções arquivadas Uncollected Noise New York ’88​-​’​90 chega para o público no próximo dia 20 de setembro (e já está em pré-venda) e traz oito músicas do grupo que nunca foram lançadas, entre elas “Shout You Down” e “I Wanna Live”, que o grupo adiantou para mostrar o material que vem por aí. Ouça as novas músicas abaixo, além de ver a capa do disco e o relação com todas as 24 canções lançadas na nova coletânea:  

Uma parceria de meio século

Você sabia que o Centro da Terra agora tem uma curadoria de cinema? Pois fui assistir a um dos filmes pautados pela Chica Mendonça, a curadora das quartas-feiras, pois teria uma surpresa musical ao final. O documentário A Música Natureza de Léa Freire, de Lucas Weglinski, está entrando em circuito comercial e teve sua pré-estreia no nosso teatro num dia que muita gente ficou pra fora, pois a protagonista do documentário, compositora, arranjadora e musicista histórica que felizmente está tendo sua importância resgatada recentemente, estava presente na sessão. E não apenas na plateia, ao final da exibição, Lea Freire subiu ao palco do teatro primeiro tocando piano ao lado do baixista Fernando Brandt, mas logo passou para seu instrumento do coração, a flauta transversal, quando convidou o mestre Filó Machado para dividir o palco com os dois. O violonista foi um dos primeiros parceiros de Lea, que transita entre a música erudita, a bossa nova e o choro e transpõe barreiras entre gêneros musicais com uma leveza e graça impressionantes – e vê-la ao lado de Filó, que comemorou os 50 anos da parceria, logo após assistir a um filme que, entre outras coisas, celebrava aquele encontro foi emocionante. Então já anota aí na agenda que toda quarta-feira tem filme lá no Centro da Terra – e algumas vezes podem vir boas surpresas como a desta quarta à noite…

Assista a um trecho aqui.

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Watch out! Stop Making Sense nos cinemas brasileiros no dia 29 de agosto!

Promessa é dívida! Depois de anunciar que estrearia a versão remasterizada do clássico Stop Making Sense dos Talking Heads nos cinemas brasileiros, a O2 Filmes acaba de anunciar a data: dia 29 de agosto. Ainda não há detalhes sobre em quais cidades o filme vai ser exibido nem em quais salas de cinema, mas o anúncio original falava em transformar o filme de Jonathan Demme em um lançamento comercial, em 50 salas pelo país, diferente das parcas exibições que foram feitas no início do ano por aqui, apenas em São Paulo e no Rio de Janeiro. Em breve devem pintar mais novidades…

Clodo Ferreira (1951-2024)

Morreu nesta terça-feira, em Brasília, o cantor e compositor piauiense Clodo Ferreira, mais conhecido como parte do trio de irmãos cantores e compositores Clodo, Climério & Clésio, que tiveram composições gravadas por grandes nomes da música brasileira, como Nara Leão, Milton Nascimento, MPB-4, Ângela Maria, Ney Matogrosso, Zizi Possi, Dominguinhos, Simone, Fagner, Fafá de Belém, Elba Ramalho, Nara Leão e Rodger Rogerio, entre outros. O trio foi içado para a fama pelo cearense Ednardo quando já moravam em Brasília, cidade para onde mudaram nos anos 70. São autores de pérolas como “Revelação”, “Enquanto Engomo a Calça”, “Palha de Arroz”, “Morena”, “Corda de Aço”, “Silêncio Agrário”, “Cebola Cortada”, “Ave Coração”, entre muitas outras. Os três foram homenageados por Nara Leão na única música composta pela intérprete, “Cli-Clé-Clô”. Gravaram seis discos como um trio e depois seguiram em carreiras solo. Clodo, que era professor na UnB, é o segundo dos três a falecer, vítima de um câncer (o primeiro deles foi Clésio, que morreu em 2010). Climério segue em atividade, ainda morando em Brasília.

Smashing Pumpkins no Brasil!

Outro golaço da Balaclava! Depois de trazer o Tortoise pra tocar no Cine Joia, a gravadora indie paulistana subiu ainda mais o sarrafo ao anunciar duas datas dos Smashing Pumpkins no Brasil em novembro! O grupo liderado por Billy Corgan vem passando por uma fase de reabilitação, já tinha avisado que viria a Buenos Aires e a turnê The World is a Vampire joga luz em parte do repertório clássico da banda, com os sucessos dos anos 90, além de fazer com dois integrantes da formação original, o guitarrista James Iha e o baterista Jimmy Chamberlin. Os shows acontecem em Brasília (dia 1° de novembro, no Nilson Nelson) e em São Paulo (dia 3, no Espaço das Américas) e os ingressos começam a ser vendidos em breve – os de São Paulo começam a ser vendidos ainda esta semana, no dia 19, e os de Brasília ainda terão sua data anunciada. Resta saber se são os dois únicos shows da banda no Brasil e se haverá alguma atração de abertura nos dois shows… Quem você sugeriria para abrir para os Pumpkins?  

Aquela calma tensa

Bem bonito o espetáculo Des Chimères que Grisa e João Viegas apresentaram nesta terça-feira, no Centro da Terra. Os dois começaram os shows sozinhos, mostrando algumas músicas que compuseram juntos e outras composições de suas carreiras solo – ambos tocando teclados e guitarras (em algumas músicas), enquanto ela também tocava theremin e ele tocava o piano da casa. O clima etéreo expandiu aquela calma tensa que ia para além da canção francesa, uma das inspirações da parceria, invadindo a eletrônica e o trip hop, deixando o clima ainda mais jazzy ao contar com as presenças de Bruno Mamede no contrabaixo acústico (e também no sax) e Brandon Farmer na bateria, num show que, mesmo com clima experimental, está prontinho para navegar por outros palcos por aí…

Assista a um trecho aqui.

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Grisa + João Viegas: Des Chimères

Maior satisfação receber o encontro inédito entre Grisa e João Viegas, dois artistas em ascensão cujos diferentes trabalhos encontraram-se na paixão dos dois pela música brasileira, pelo jazz e pela canção francesa. A multiinstrumentista Grisa, que já trabalhou na Philharmonie de Paris e no Acoustic and Audio Group of The University of Edinburgh, está prestes a lançar seu primeiro disco solo, chmaado Espelho ou Geografia de Lugar Nenhum, enquanto João Viegas, que toca nas bandas indie Ombu e Raça, começou seu trabalho solo tocando beats eletrônicos – começaram a trabalhar juntos e estão lançando um primeiro single, que batiza o encontro que fazem ao vivo nesta terça-feira no Centro da Terra. misturando timbres acústicos e eletrônicos enquanto descrevem cenários sonoros surrealistas a partir de canções de seus trabalhos solo e criadas a partir desta parceria. O espetáculo Des Chimères começa pontualmente às 20h e os ingressos podem ser comprados na bilheteria e no site do Centro da Terra.

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O pós-apocalipse é agora

A primeira noite da temporada BNegron Convida, que o rapper BNegão está fazendo às segundas-feiras de julho no Centro da Terra nos apresentou ao trio carioca Dissantes, em sua primeira aparição em São Paulo. Formado pelos MCs Gilber T e Homobono (este último velho conhecido do anfitrião desde os tempos em que liderava os antigos Kamundjangos, que depois tornaram-se Los Djangos) e pelo produtor Feres disparando bases e tocando synths, o grupo surgiu durante a pandemia como uma resposta ao clima apocalíptico que vivíamos – e de alguma forma ainda vivemos – naquele período. Vestidos de trajes de segurança hospitalar e rimando letras sobre o presente pesadelo que nos assombra, o trio ainda contou com a participação de Bernardo no single latino que lançaram juntos, “Sangre de Barrio”, além de assumir as guitarras no último número da noite, com uma mistura de gêneros que deu a tônica das atrações que virão durante a temporada.

Assista a um trecho aqui.

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BNegão: BNegron convida Disstantes, Freelion e Dabliueme

Quem toma conta das segundas de julho no Centro da Terra é o mestre e compadre BNegão que aproveitou a deixa para convidar três artistas que ele vem acompanhando há um tempo na temporada BNegron Convida. Na primeira segunda-feira, dia 15, ele recebe o trio carioca Disstantes, fazendo sua primeira apresentação em São Paulo. Misturando linhas eletrônicas e sintetizadores como bases para o canto falado, o trio formado por Gilber T, Homobono e Feres lançou um single com a participação do anfitrião e se autodenomia um grupo de kraut-rap! No dia 22, Bernardo recebe o baiano Freelion, pseudônimo atual do produtor e multiinstrumentista Sandro Mascarenhas, que já tocou com artistas como Afrocidade, Majur e Léo Santana, e agora mistura pagodão baiano, música latina e reggae neste projeto que existe desde 2018. A temporada termina dia 29 com a presença de Dabliueme, produtor e poeta que mescla jazz, rap e raggamuffin com samples de músicas brasileiras de todas as épocas. BNegão estará em todos os espetáculos, que começam pontualmente às 20h e cujos ingressos podem ser comprados na bilheteria ou no site do Centro da Terra.

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Jardim Sonoro 2024: A primeira edição do primeiro festival de música de Inhotim aponta novas possibilidades para o formato

Desde que a curadoria de música do parque Inhotim, um dos grandes templos à arte contemporânea brasileira, no interior de Minas Gerais, foi criada, em abril do ano passado, o primeiro titular do cargo, o maestro carioca Leandro Oliveira vislumbra a possibilidade de realizar um grande festival que mostrasse a que veio este novo pilar do museu-parque. Importante frisar que o superlativo não necessariamente se traduziria em números – a ideia nunca foi reunir nomes pop ou grandes para gerar números para atrair possíveis patrocinadores e sim fazer jus à grandiosidade a céu aberto do jardim que fica do lado da cidade de Brumadinho. O evento aconteceu no fim de semana passada e seu título, Jardim Sonoro, acertou em cheio ao contemplar nomes radicalmente modernos e amplamente populares, reunindo artistas de diferentes nacionalidades, mas com principais atrações brasileiras. Fui convidado pela organização do evento e voltei apaixonado pelo festival.

Não pude comparecer à programação de sexta-feira (por motivos de Inferninho Trabalho Sujo), por isso perdi tanto a apresentação da saxofonista estadunidense Zoh Amba quanto a fala do escritor e músico angolano Kalaf Epalanga, mas desde a manhã de sábado, quando o segundo dia do evento começou com o encontro dos músicos Ballakée Sissoko (do Mali) e Vincent Segal (da França), o primeiro tocando um instrumento tradicional (e imperial, pois sua audição originalmente era restrita à elite que governava o país africano) chamado Corá, uma mistura de harpa com alaúde e o segundo tocando violoncelo de forma pouco ortodoxa, no palco que levava o nome da galeria que expõe as obras de Tunga no local, True Rouge. Depois foi a vez do quarteto dos EUA Joshua Abrams & Natural Information Society, que misturou instrumentos pouco convencionais – como o instrumento árabe guimbri (tocado como um baixo pelo líder do grupo), harmonium (tocado por Lisa Alvarado), clarinete baixo (a cargo de Jason Stein) e bateria (com Mikel Patrick Avery) – no palco Tamboril, em frente à majestosa árvore de mesmo nome que recebe os convidados do parque em sua praça central.

O encerramento do sábado veio na voz imortal – plácida e firme, delicada e precisa, como sempre – de nosso príncipe do samba, o mestre Paulinho da Viola, em ótima forma (e ótimo humor) como de praxe. No palco que levava o nome do penetrável Magic Square de Helio Oiticica, ele desfilou seu rosário de hits, fazendo o público, que começou a assistir ao show sentado, logo se levantasse para cantar juntos hinos de nossa música como “Eu canto samba”, “Nervos de aço”, “Roendo as unhas”, “Dança Da Solidão”, “Pecado Capital”, “Coração leviano”, “Argumento”, “Timoneiro”, “Prisma luminoso” e “Foi Um Rio Que Passou Em Minha Vida”. O sábado terminou com nova apresentação de Epalanga, desta vez discotecando, misturando músicas pop de diferentes países com pérolas da música brasileira, entre Azymuth e João Nogueira – e confesso que não esperava ouvir Luedji Luna após um remix da Feist. O fato de realizar o festival sem cobrar ingressos a mais do que a simples entrada no parque (custando 50 reais a inteira) fez o parque receber o maior número de visitantes desde o início do ano, lotando quase toda sua capacidade com quase cinco mil pessoas. Num dia frio mas ensolarado, tudo funcionou lindamente.

O Jardim Sonoro seguiu no domingo enfileirando atrações tão instigantes quanto populares, desta vez com maior ênfase à música brasileira. O terceiro dia do evento começou com o contrabaixista francês Kham Meslien tocando seu instrumento ao mesmo tempo em que disparava loops e montava suas composições em tempo real. Depois foi a vez de Juçara Marçal, Rodrigo Campos, Gui Amabis e Regis Damasceno mostrarem seus Sambas do Absurdo, aplaudidos de pé por um público que inclusive sabia cantar músicas do projeto paralelo das quatro carreiras. O fim de semana foi encerrado com uma apresentação magistral da orquestra de atabaques Aguidavi do Jêje, que deixou todos boquiabertos (como aconteceu em sua apresentação recente em São Paulo) com o terreiro instantâneo que abriu no meio do Inhotim. Tratado ainda como uma edição de teste por seus realizadores, a primeira versão do Jardim Sonoro mostrou que é possível realizar um evento tão moderno quanto pop, sem render-se à megalomania vazia dos inúmeros festivais brasileiros que nasceram depois da pandemia e enfileiram dezenas de atrações por dia apenas para inflar números e cortejar patrocinadores – assim apontando novas possibilidades para um formato que muitos acham que estagnou. E se levarmos em conta que em breve a cidade receberá um grande hotel que pode receber ainda mais turistas (diferente do número reduzido de quartos disponíveis na pequena rede hoteleira de Brumadinho), a próxima edição – que ainda não é certa, mas desejada para o ano que vem, no mesmo mês de julho que quase não chove – pode ter um público de fora ainda maior. Vida longa ao Jardim Sonoro!

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