Orgânico e ultraprocessado

Juçara Marçal e Thais Nicodemo se reencontraram no palco, agora no Sesc Vila Mariana, para mostrar Dessemelhantes, disco que fizeram em dupla este ano depois de forjar o conceito em algumas apresentações ao vivo. As duas começaram a trabalhar juntas em 2018, quando fizeram o espetáculo em homenagem à cantora francesa Brigitte Fontaine ao lado de KIko Dinucci. Anos depois voltaram a se encontrar para dar corda àquele encontro com um novo repertório, desta vez contemporâneo e brasileiro. Mas o que poderia ser apenas um show convencional de piano e voz torna-se um espetáculo entre a música erudita e a música de vanguarda quando ambas investigam seus instrumentos com intervenções externas: Thaís prepara seu piano com pedras e objetos que distorçam o som das cordas, enquanto Juçara, inspirada por seu segundo disco Delta Estácio Blues, entrega-se à distorção eletrônica, alterando a própria voz ou criando camadas etéreas e sintéticas – ou como a própria Ju disse ao final do show, a Thaís com os orgânicos e ela com os ultraprocessados. Entre canções de compadres como Rodrigo Campos, Maria Beraldo, Rômulo Fróes, Guilherme Held, Eduardo Climachauska, Kauê Batista, Negro Leo, Rica Amabis e o próprio Kiko, ainda acenaram para a inspiração francesa da musa Fontaine em “Il Se Passe des Choses” e fizeram vários comentários sobre a situação política atual – desde o figurino todo em vermelho. A apresentação terminou com a música que batiza o disco, composta por Juçara e Thiago França, que veio após um pedido de bis da plateia iniciado com um coro de “olê olê olê olá, Lula, Lula”. Sintomático.
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