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Pista sentimental

Bonito ver May Manão materializar seu novo projeto solo – o trio que batizou com o próprio sobrenome – depois do fim de sua banda anterior, a Crime Caqui. Ela já havia flertado com a eletrônica lo-fi em seu outro projeto solo (a Tôrta), mas quando começou a pensar neste capítulo seguinte de sua carreira musical, chamou os compadres Beta Cardoso e Rodrigo Florentino para entrar de cabeça numa eletrônica que pudesse ter o lado mais indie da chillwave e do bedroom pop, mas que ao mesmo tempo conversasse com a música de pista, indo da emoção pesada do trip hop aos beats do drum’n’bass, com ênfase maior na house music que mais que tudo batizava o espetáculo apresentado, Drama House. Tocando sob uma obra surrealista de Felipe Milani e as luzes tensas e hipnóticas de Clara Caramez, o trio só pecou pela curta duração da noite, justificável por ainda estar traduzindo as primeiras – e belas – composições para o palco. Com uma faixa contando com a participação do cantor Centauro, May ainda pôs o público de pé em frente às cadeiras do teatro, fazendo sua pista de dança sentimental atravessar a emoção dos presentes. Agora foi!

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Manão: Drama House

Muito prazer receber no palco do Centro da Terra, a nova encarnação musical da artista May Manão, que depois da banda Crime Caqui e do projeto solo Tôrta, dá início a uma nova fase em que apresenta-se apenas com seu sobrenome. E acompanhada de Beta Cardoso (sintetizadores) e Rodrigo Florentino (nos beats e vídeos), mostra sua Drama House, entre a canção e a música eletrônica, numa apresentação que ainda tem cenografia de Felipe Milani e luz de Clara Caramez. O espetáculo começa pontualmente às 20h e os ingressos estão à venda no site do Centro da Terra.

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Uma nova dimensão a partir de um guardanapo

O que Juliana Perdigão está fazendo no Centro da Terra em sua temporada Em Caráter Experimental é de uma riqueza ímpar na cena musical contemporânea – e ela mostra que é uma artista maiúscula ao transcender a criação musical para além da música. Ao reduzir suas parcerias em duplas nesta leva de apresentações, ela primeiro transformou o teatro em uma pista de dança ao lado de Dudu Tsuda e depois transcendeu imagem e sim em um mesmo vetor criativo com a artista visual Ciça Lucchesi. Nesta segunda-feira, ela descortinou outra fronteira, desta vez estritamente musical, quando chamou outro conterrâneo mineiro – o violonista e cientista analógico Gustavo Infante, que hoje reside em Campinas – para desbravar um território emocional descoberto num pacote de guardanapos! Antes de começar a viagem, Juper explicou que ao comprar a resma de papel num mercado na Liberdade, reparou que havia, na estampa em alto relevo de cada guardanapo, um texto em ideogramas que fez sua curiosidade acionar o tradutor do Google, que revelou uma série de poemas milenares chineses da época da dinastia Sung. Daí o título da apresentação: Sung Songs, que brinca inclusive com as duas formas que a dinastia é apresentada em nosso alfabeto. Pilotando gravadores de fita cassete em que dlsparavam loops físicos, os dois pintaram uma longa onda ambient com texturas pré-gravadas, mescladas com os sopros de Juper e o violão de Gustavo, além do canto mineiro dos dois, melódico e melancólico, descrevendo situações corriqueiras e paisagens mentais que transportaram o público a uma dimensão particular, descoberta num encontro de um guardanapo com um tradutor eletrônico – e colorida pela intensidade e delicadeza luzes e vídeos derretidos por Gabriela Luiza. Uma noite mágica.

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Orgânico e ultraprocessado

Juçara Marçal e Thais Nicodemo se reencontraram no palco, agora no Sesc Vila Mariana, para mostrar Dessemelhantes, disco que fizeram em dupla este ano depois de forjar o conceito em algumas apresentações ao vivo. As duas começaram a trabalhar juntas em 2018, quando fizeram o espetáculo em homenagem à cantora francesa Brigitte Fontaine ao lado de KIko Dinucci. Anos depois voltaram a se encontrar para dar corda àquele encontro com um novo repertório, desta vez contemporâneo e brasileiro. Mas o que poderia ser apenas um show convencional de piano e voz torna-se um espetáculo entre a música erudita e a música de vanguarda quando ambas investigam seus instrumentos com intervenções externas: Thaís prepara seu piano com pedras e objetos que distorçam o som das cordas, enquanto Juçara, inspirada por seu segundo disco Delta Estácio Blues, entrega-se à distorção eletrônica, alterando a própria voz ou criando camadas etéreas e sintéticas – ou como a própria Ju disse ao final do show, a Thaís com os orgânicos e ela com os ultraprocessados. Entre canções de compadres como Rodrigo Campos, Maria Beraldo, Rômulo Fróes, Guilherme Held, Eduardo Climachauska, Kauê Batista, Negro Leo, Rica Amabis e o próprio Kiko, ainda acenaram para a inspiração francesa da musa Fontaine em “Il Se Passe des Choses” e fizeram vários comentários sobre a situação política atual – desde o figurino todo em vermelho. A apresentação terminou com a música que batiza o disco, composta por Juçara e Thiago França, que veio após um pedido de bis da plateia iniciado com um coro de “olê olê olê olá, Lula, Lula”. Sintomático.

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Agoritmo: 2026 @ Porta (16.10)

Marque na agenda: a próxima Agoritmo acontece no dia 16 de outubro no Porta, mais uma vez com entrada gratuita e vamos dançar… 2026!

Veras em um novo patamar

Conferi há pouco tempo o último show do primeiro disco do Vera Fischer Era Clubber em São Paulo e nesta quinta vi o primeiro show do segundo disco do quarteto carioca, Veras II. E ao comparar discos e shows é nítida a evolução nos dois casos: se em disco, soam ainda mais pesados e dance ao mesmo tempo que no primeiro disco, no show a banda sobe tudo para este novo patamar. E no show com luzes precisas de Mau Schramm, que transformou o Sesc Avenida Paulista do início da noite numa balada de madrugada que encarna o aura da banda. No palco, as quatro carregam cada uma um elemento de sua sonoridade: a baixista Malu ergue o peso e o groove quadrado do pós-punk, a maestra eletrônica Pek0 traz os beats eletrônicos da pista de dança, os teclados de Vickluz flertam com a darkwave, o rock gótico e o tecnopop dos anos 80, enquanto Crystal é o rosto – e corpo e o carisma – desta entidade noturna não-binária, transformando as canções numa performance física em que seu rosto transfigura-se em diferentes emoções, às vezes paradoxais, em expressões faciais – ela carrega êxtase, pânico, torpor, loucura, ressaca, segredos, cansaço, alívio, gozo e delírio como se vivesse todas estas sensações ao mesmo tempo. Seu corpo, por sua vez, induz todos ao transe dance que contagiou o público que esgotou os ingressos da noite – e vestida com a camisa vermelha de Lula Presidente, ainda fez várias menções ao momento histórico que vivemos. Além de tocar todas as músicas do disco novo pela primeira vez ao vivo, a banda ainda contou com participações especialíssimas, quando trouxe primeiro Kiko Dinucci para dividir “Amor de Anjo” (e a guitarra de Kiko, ainda mais afiada por motivos de Medusa, abriu uma outra camada, entre a no wave e o noise, na sonoridade da banda), depois o produtor dos dois discos Augusto Feres subiu para tocar guitarra em “Vesúvio” e encerrando a noite com a presença da dupla Katy da Voz e as Abusadas, quando Katy e Palladino Proibida subiram no palco para transbordar ainda mais o clima quente da noite – e Crystal ficou só de biquíni na música escolhida para o encerramento, “Calcinha Gozada”. Mas o povo pediu bis e elas voltaram para o palco com os quatro convivas da noite, para uma versão barra pesadíssima da música-tema do grupo. Showzão.

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Gang of Four no Brasil!

Uma das bandas mais importantes do pós-punk acaba de marcar mais duas passagens pelo Brasil no ano que vem, quando o Gang of Four reaparece por aqui para tocar em São Paulo (dia 13 de março, no Cine Joia em São Paulo) e dia 14 (no Cine Lido, em Curitiba). É a quarta vez que o grupo vem ao país (todas após sua volta em 2004, quando o grupo ressurgiu com a mesma formação depois do fim oficial em 1983): da primeira vez, 2006, dividiu uma improvável turnê com os Cardigans, já veio sem o baterista original, Hugo Burnham, substituído por Mark Heaney. A outra vez, em 2011, tocaram de graça no Parque do Ipiranga no festival da Cultura Inglesa, em uma das edições em que fui curador do evento. Desta vez, só o guitarrista Andy Gill e o vocalista Jon King faziam parte da formação original. A última vinda do grupo, em 2018, quando tocaram no Sesc Pompeia, já marca a fase dos anos 2010 do grupo, quando Gill seguiu tocando o grupo como único integrante original. Quase dois anos após a morte de Gill, no início de 2020, King e Burnham retomaram o grupo com o slint David Pajo na guitarra e a baixista Sara Lee, que entrou no lugar do baixista original Dave Allen ainda na primeira fase da banda, em 1981. Mas depois de alguns shows em 2021, voltaram à atividade, inclusive gravando músicas novas, em 2025, com Gail Greenwood (que tocava no Belly e no L7) no baixo e Ted Leo (líder dos Ted Leo & The Pharmacists) na guitarra. É esta formação que passa por aqui no ano que vem, numa turnê pela América do Sul que ainda tem passagens por Buenos Aires (dia 16, no Uniclub) e Santiago (18, no Metrónomo). Os ingressos já estão à venda.  

As fronteiras da imagem e do som

Depois de transformar o palco do Centro da Terra em pista de dança, Juliana Perdigão misturou música e imagem com sua comadre Ciça Lucchesi, com quem já fez várias apresentações. Mas nesta terça-feira, segunda noite de sua temporada Em Caráter Experimental, elas ressuscitaram o projeto Versom, em que ambas mesclam suas disciplinas específicas num espetáculo sinestésico de altíssimo nível. Mais do que simplesmente improvisar conjuntamente, elas apresentaram módulos de som e imagem que funcionavam, ao mesmo tempo, como clipe e canção – muitas vezes distanciando-se do formato tradicional desta última para trabalhar novas criações em durações de tempo específica, mostrando possibilidades diferentes para o casamento da música com o cinema. A imagem era projetada na tela de cinema do teatro, enquanto as duas, às vistas do público na coxia da primeira fila, iam trabalhando com seus instrumentos o que víamos na tela, que passava de fotos de São Paulo a abstrações geométricas. O ponto alto da apresentação foi quando Juper subiu ao palco para tocar “Crack pra Ninar” de Kiko Dinucci seu clarinete em frente à tela, enquanto Ciça fazia um holofote às avessas com a imagem, antes de entrar no poema “Só Com Muito Vento” de Bruna Beber e outras duas instrumentais próprias que acabaram de levar todos para uma outra dimensão. Foi incrível.

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Chrissie Hynde ♥ The Doors

E a Chrissie Hynde cantando Doors? Aconteceu neste fim de semana, quando foi transmitida a participação da eterna pretender no programa sueco På Spåret, que contava com a banda Yttling Jazz como atração musical da semana. Seu líder, o pianista Björn Yttling, que já havia trabalhado com Hynde ao produzir seu primeiro disco solo, Stockholm, de 2014, a convidou para cantar uma versão para o clássico “People Are Strange” e eu já fiquei cogitando um disco inteiro com essa colaboração – seja cantando só Doors ou músicas de outros artistas (como Belinda Carlisle, cujo hit “Heaven Is A Place On Earth” é citado no solo que Yttling faz no meio desta versão).

Assista abaixo: