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Desfragmentando partículas de som

O encontro entre a dupla Test e a cantora Paola Ribeiro parecia uma contradição frontal ou um acerto infalível – e felizmente o barulho extremo da dupla de pós-metal sobrepôs-se como uma camada apocalíptica e tensa na canção desconstruída da vocalista que, acompanhada da bandaça que lhe ajudou a erguer Circus, seu ótimo disco de estreia (parte deles velhos conhecidos do Test), materializou a segunda opção como matriz de uma nova sonoridade, ainda em construção, durante essa sexta-feira, no Sesc 14 Bis. Além de João e Barata do Test e de Paola, o palco ainda contava com as presenças dos dois integrantes da Rádio Diáspora (os sopros de Rômulo Alexis e a bateria de Wagner Ramos), os eletrônicos de Podeserdesligado, a guitarra de Kiko Dinucci e o baixo de Marcelo Cabral, todos jogando no modo hard. A big band de noise começou num improviso comum para depois cair na faixa mais recente de Paola (“Furtacor”) que foi emendada com “Eles Voltam”, do Disco Normal, do Test, e inaugurar a primeira dobradinha da noite, quando João e Kiko duelaram suas guitarras em cantos extremos do palco. Outros duetos surgiram no decorrer da noite, contraponto inevitavelmente as baterias de Barata e Ramos e, num dos grandes momentos da noite, o trompete de Rômulo com a voz de Paola, que vieram para a frente do palco e optaram por solarem sem microfones. Depois Paola solou com seu berimbau amplificado e tocado com um arco para retomar as passagens pelos repertórios respectivos, alternando momentos como a turbulenta “Fama/Fome” do Test com a explosão de “A Fenda e o Corte”, de Paola, com a banda testando os limites do ruído como se acelerassem fissões das partículas de som ao vibrá-las e acelerá-las cada vez mais. A apresentação durou menos de uma hora, duração perfeita para o atordoo sonoro e conceitual que conseguiram atravessar, mas funcionou apenas como um reconhecimento mútuo para caminhos que podem explorar se começarem a compor em conjunto. Voltaram um bis cirúrgico, tocando “Faca da Palavra” que estará no próximo disco de KIko Dinucci e que abre o disco que Paola lançou ano passado. Pesado e promissor.

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Fiona Apple está vindo…

Fiona Apple, que não está nas redes sociais, pediu pra uma amiga publicar um vídeo pra dar notícias, dizer que ela tá tentando escrever sobre o momento que estamos vivendo, mas que a “barreira infinita de horrores” sobre a qual quer falar também é a mesma que a impede de ser mais criativa – e avisa que, quando puder, terá novidades vindo aí.

Assista abaixo:  

Fabiana Cozza ♥ Alcione

É longo e vale ver inteiro o depoimento emocionado da grande Fabiana Cozza sobre o encontro com sua mestra Alcione na abertura da exposição Com Amor, Alcione, idealizada pelo Centro Cultural Vale Maranhão e aberta nesta quarta-feira no Museu das Favelas de São Paulo. Ao cantar com uma de suas maiores inspirações, Cozza voltou a publicar um vídeo reforçando a importância daquele momento, em que pode ultrapassar diversas questões atuais para reforçar sua paixão pela música e pela identidade cultural brasileira. Depois do depoimento dá pra ver trechos do encontro, tanto das duas cantando juntas quanto de Fabiana declarando sua admiração à sua luz artística. Bonito demais. A exposição segue no Museu até o dia 6 de dezembro.

Assista abaixo:  

Uma coletânea e um filme de Negro Leo

Eis que Negro Leo reaparece em dose dupla. Primeiro quando o selo inglês Hive Mind anuncia uma coletânea – em um disco duplo! – de sua carreira chamada de White Elephant, que reúne vinte e sete (!) faixas de treze lançamentos diferentes feitos pelo bardo do absurdo (ou “cosmic joker”, como os gringos preferem chamar) entre 2012 e 2024, em parceria com o incansável selo carioca Quintavant. E depois ele acaba de anunciar o lançamento do filme que fez em parceria com outro ás, este das câmeras, Gregorio Gananian (que fez Inaudito, sobre o lendário guitarrista Lanny Gordin). Aquele Que Viu o Abismo, a distopia brasileira que ganhou o prêmio de Melhor Filme na Mostra Olhos Livres da 27ª Mostra de Cinema de Tiradentes, tem sua estreia marcada para o fim deste mês, dia 30 de julho, nos cinemas brasileiros. Veja o cartaz e um teaser do filme abaixo:  

Rolling Stones bem de perto

Esquentando ainda mais o clima antes do lançamento de seu vigésimo quinto álbum de estúdio, Foreign Tongues, dois dos três Rolling Stones fizeram uma aparição surpresa nesta quarta-feira em Londres, na Inglaterra, quando Mick Jagger e Ronnie Wood tocaram para um público bem pequeno no St. Clement Hotel acompanhados do tecladista Matt Clifford, que toca em turnês com o grupo desde 1989. Foram apenas três canções, dois clássicos (“Dead Flowers” e “You Can’t Always Get What You Want”) e a inédita “Ringing Hollow” e depois da apresentação o grupo saudou a capital britânica com um show de drones no céu. Não foi dada nenhuma explicação sobre a ausência de Keith Richards no evento.

Veja abaixo:  

Federico Fellini e Joaquim Pedro de Andrade na Cinemateca

A partir do próximo dia 15 até o dia 26, a Cinemateca Brasileira mistura obras e biografias de Federico Fellini (1920-1993) e Joaquim Pedro de Andrade (1932-1988) em uma restrospectiva conjunta em que os filmes dos mestres italiano e brasileiro são colocados em perspectiva a partir do realismo fantástico, da autobiografia através das próprias obras e no sentido poético para se determinar a identidade cultural de seus países a partir de seus filmes. A mostra traz joias de Fellini como A Doce Vida, 8½, OS Boas Vidas e Julieta Dos Espíritos remasterizadas e tanto longas (como Macunaíma, OS Inconfidentes, O Padre E A Moça, a adaptação dos contos de Dalton Trevisan Guerra Conjugal, Vereda Tropical, e o filme sobre Oswald de Andrade O Homem Do Pau-brasil) e os curtas de Joaquim, como O Poeta do Castelo (sobre Manuel Bandeira), O Mestre de Apipucos (sobre Gilberto Freyre), O Aleijadinho, Couro De Gato, Garrincha – Alegria Do Povo, Brasília – Contradições de uma Cidade e Cinema Novo. Como sempre, as sessões na Cinemateca são gratuitas e os ingressos podem ser retirados uma hora antes de cada sessão.

Veja a programação abaixo:  

O Concreto Já Rachou – 40 anos depois

“De onde vem a atitude essencial que define a banda? Qual a razão que torna possível essa visão tão aguçada e tão permanentemente alerta? Alguns apontam a cidade base do grupo como o cenário de influência: é o quartel-general, metrópole/província; esconderijo. Brasília. A capital tão desconhecida de tantos brasileiros e tão familiar aos quatro rudes plebeus: a elite soberana, o poder exposto, os disfarces aceitos, a miséria e a intuição.” Assim Renato Russo apresentava, há quarenta anos, o primeiro registro oficial de uma das principais bandas de sua geração e um dos marcos da produção fonográfica brasiliense, o disco O Concreto Já Rachou da Plebe Rude, que comemora este aniversário em grande estilo. A banda reuniu-se com o produtor do disco, o paralama Herbert Vianna, para recriar sua música mais memorável, o hit “Até Quando Esperar?”, cuja regravação também contou com a presença do músico Jaque Morelenbaum, que gravou o marcante violoncelo da versão original. A nova versão vem junto com uma reedição do disco em vinil que ainda traz um compacto com quatro de suas músicas em versão demo (“Johnny Vai à Guerra (Outra Vez)”, “Proteção”, “Minha Renda” e “Sexo e Karatê”, provavelmente versões que já circulam no YouTube – veja abaixo), além de um faixa a faixa em vídeo com dois dos integrantes fundadores que seguem tocando a banda, o guitarrista Philippe Seabra e o baixista André “X” Mueller, que deve ser disponibilizado em breve. A banda, que ainda conta com Clemente Nascimento na atual formação (fundador de outra banda clássica do punk brasileiro, os Inocentes), além do baterista Marcelo Capucci, deve fazer shows comemorando o aniversário do disco, uma obra-prima do rock brasiliense.

Assista à nova versão de “Até Quando Esperar” abaixo, além de ver como ficou a nova versão do disco em vinil e alguns vídeos com as demo da Plebe Rude naquele período:  

Três é o número mágico!

Que beleza de aniversário! A festa de três anos do Inferninho Trabalho Sujo foi intensa e emocionante com a presença de duas atrações que estão ligadas à história da festa que comecei no Picles no meio de 2023. Dinho Almeida, dos Boogarins, voltou ao palco do sobrado caótico de Pinheiros dois anos depois de ter subido ali no primeiro aniversário da festa com sua banda, induzindo todos em uma sessão intensa de libertação e cura. Desta vez sozinho com sua guitarra, ele submeteu o público a uma sessão de mesma intensidade, só que agora individual e, diferente do que fez com os Boogarins, verbal. E ao fazer isso, ele transformou sua apresentação em um confessionário emotivo em que falou de sua relação com a música, da centralidade da música em sua vida desde pequeno, do papel de sua família ao dar a base que ele precisava para tornar-se o mestre da psicodelia brasileira que se tornou. Acanhado e saindo de uma gripe (que parece que pegou São Paulo inteira), ele entregou-se de corpo e alma para o público e, além das canções apaixonadas, vocais emotivos e sua guitarra cheia de eco de seu recém-lançado EP Dias Fora Almeida, e também visitou músicas de sua banda (“Sombrou Dúvida”, “6000 Dias” e “Chuva dos Olhos”), além de “Nilo” da excelente dupla Guaxe, que criou com o líder dos supercordas Pedro Bonifrate em 2019. “Eu juro que eu entreguei meu coração pra vocês, moçada”, disse ele depois do bis. A gente sabe – e agradece.

Depois Ottopapi voltou ao palco do Inferninho Trabalho Sujo pela terceira vez, logo depois da turnê de dez dias e sete shows que acabou de fazer com o próprio Dinho Almeida. A versão enxuta do seu grupo (que além de trazer o próprio Otto por vezes na guitarra, seu irmão Yann Dardenne no baixo, Thales Castanheira na guitarra solo, o mundo vídeo Gael Sorkin na firme bateria kraut e Danilera no synth) voltou ainda mais enfurecida após essa breve mas intensa série de shows e isso estava explícito neste no show, quando deixaram a vibe Velvet Underground fase Doug Yule misturar-se com a eletricidade dos B-52’s, principalmente quando Thales ficava sozinho na guitarra, pendendo para a surf music e para os Pixies. À frente de todos, o dono da banda se entregava para o público com suas letras que misturam o nonsense e o literal como faz o melhor rock. O público respondeu à altura com rodas de pogo, cantando junto músicas que acabaram de ser lançadas e todos completamente entregues à urgência zoeira de canções que grudam desde a primeira audição. E palmas para a performance do Danilo durante “Perdi o Controle”! Depois foi só deixar a pista correr solta comigo e com a Fran até o final da madrugada gelada de sexta!

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Inferninho Trabalho Sujo 3 anos! Apresentando Ottopapi e Dinho Almeida (Boogarins) @ Picles (8.7)

Três anos de Inferninho Trabalho Sujo! Há três anos idealizei uma festa para acompanhar a crescente cena musical que começava a ferver no pós-pandemia paulistano e pelo resto do Brasil e quando os caras do Picles me chamaram pra discotecar lá no início de 2023, sabia que ela tinha que começar por lá, sendo também a inspiração para seu nome. De lá pra cá, o Inferninho Trabalho Sujo espalhou-se por outras casas de show de São Paulo, teve edições fora da cidade e já recebeu mais de cem bandas e artistas novos – e não apenas da nova geração – em quase cem festas nestes três anos, além de dar origem ao festival Chama, sempre acompanhando o crescimento e a profusão desta nova safra de bandas que lentamente está mudando o cenário independente brasileiro. E nesta edição comemorativa tenho o prazer de receber dois ícones de épocas diferentes desta mesma cena: o elétrico Ottopapi, que depois de azeitar seu Seloki Records saiu numa enfurecida carreira solo no ano passado que é puro rock’n’roll, e o onírico Dinho Almeida, boogarinho velho de guerra que aos poucos vasculha sua carreira solo em composições emotivas e intimistas. A festa acontece na próxima quarta, véspera de feriado, e depois dos shows fecho a noite ao lado da minha comadre de discotecagem no Inferninho desde a primeira hora, discotecando comigo na festa desde a primeríssima edição há três anos, sempre fazendo corações e quadris derreterem com nosso beats e refrães. Vai ser quente e os ingressos já estão à venda!

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