Trabalho Sujo - Home

Catarinas diretos e retos

Do teatro do Sesc Pompeia pra Comedoria, onde os indies catarinas do Exclusive os Cabides lançavam seu novo EP Feliz e Triste ao Mesmo Tempo fazendo seu público chacoalhar-se com suas melodias diretas e letras simples até dizer chega. Essa qualidade linear – sem espaço pra metáforas ou harmonias complexas – é o principal trunfo do grupo, além das melodias grudentas do guitarrista e vocalista João Pretto (seu principal compositor) e dos vocais ao mesmo tempo cantados e berrados de João Pretto ao lado do primo Antônio dos Anjos. A cozinha precisa formada por Carolina Werutsky na bateria e Maitê Fontalva no baixo dá a base firme para as melodias dos vocalistas e os solos do guitarrista Eduardo “Duds” Possa brilhar. Show redondinho que mostra que a banda está mais afiada do que nunca, mas a proximidade do lançamento do disco recente não chegou a conquistar o público como fizeram as canções do ótimo álbum Coisas Estranhas, que ainda é o carro-chefe da apresentação do quinteto.

#exclusiveoscabides #sescpompeia #trabalhosujo2026shows 118

Beleza surpreendente

Teatro do Sesc Pompeia cheio para assistir à estreia ao vivo de Ramal, terceiro disco do baixista Marcelo Cabral, que assumiu a guitarra para este novo trabalho e fez seu lado compositor pesar mais para o rock do que nos discos anteriores. Gravado ao lado do baterista Biel Basile, o disco contou com pinçadas participações especiais que, na apresentação desta quinta, encorparam o trabalho para além do que a dupla fez no estúdio, primeiro ao incorporar Sophia Chablau como terceiro elemento de um novo trio – tocando guitarra e cantando, ela que já havia arregimentado Biel e Cabral para o maravilhoso Handycam que ela gravou com Felipe Vaqueiro e em seguida chamou o baixista para acompanhá-la nos shows solo que vem fazendo este ano. Depois ao convidar Fernando Catatau, que participa de apenas uma faixa de seu novo álbum (a belíssima “Tarde Azul”), aproveitou a presença do guitarrista para dividir outras duas músicas, entre elas “A Radiação da Terra” do Cidadão Instigado, logo depois de rasgar um merecido elogio à presença do cearense na música paulistana. Assim, como o próprio Ramal, seu show também engana: começa barulhento e abrupto e dá a sensação de estarmos entrando numa versão siamesa do Cortes Curtos de seu chapa Kiko Dinucci, mas, como o próprio Cortes faz em dados momentos, revela uma leveza improvável e uma beleza surpreendente (mesmo nos momentos mais rock) – e nesse sentido, cercar-se de Sophia, Biel e Catatau só reforça suas intenções. Showzaço.

#marcelocabral #sescpompeia #trabalhosujo2026shows 117

Saudades Lô Borges

A súbita morte de Lô Borges no ano passado pegou a todos de surpresa, especialmente quem o acompanhava de perto e via como sua produção havia se tornado prolífica nos últimos anos. Sempre com a mesma banda de apoio (Henrique Matheus nas guitarras, Thiago Corrêa no baixo e teclados e Robinson Matos na bateria), desde 2019 ele vinha gravando um disco de inéditas por ano e antes de partir estava fazendo seu oitavo disco em oito anos, este em homenagem ao irmão e principal parceiro de sua vida, o letrista Márcio Borges, que completou 80 anos no início de 2026. No entanto, este disco foi concluído postumamente e A Estrada, que leva este título por comparar a carreira de artista com a vida em trânsito, será lançado no dia 10 de junho, com participações de Marcos Suzano e Tavinho Moura. Antes disso, podemos ouvir seu primeiro single póstumo, “Campo Alegre KM 500 Mil”, que chega às plataformas nesta sexta-feira, em primeira mão no Trabalho Sujo e traz aquela psicodelia beatle-mineira que sempre atravessou suas canções. Saudades, Lô Borges.

Ouça abaixo:  

Lá vem a Orfeu Menino!

Eis o primeiro single da Orfeu Menino, “Imagina”, que chega às plataformas de áudio nesta sexta-feira, mas que a banda antecipou em primeira mão para o Trabalho Sujo. Há quase três anos na guerrilha da música independente, a banda conseguiu que o grande Gustavo Ruiz produzisse este primeiro single, que traduz a vibe bem brasileira da banda, misturando pop dos anos 80 com MPB dos anos 70 – esta última aprofundada na parte instrumental da segunda metade da música. “Escolhemos começar por essa música primeiro porque é uma das que a galera canta mais e depois porque é uma composição 100% coletiva, e uma das primeiras que fizemos”, explica a vocalista Luíza Villa, que lidera o grupo à frente de Pedro Abujamra (teclados), João Vaz (guitarra), João Ferrari (baixo) e Tommy Coelho (bateria). Groove suave, saca só…

Ouça abaixo:  

A última volta do Durutti Column

Um dos nomes mais influentes do pós-punk inglês não tem ataques abruptos, colagens pós-modernas ou colisões rítmicas – e sim trabalha com texturas de guitarras que mais soam hippies do que punks, dedilhados de sonho que eram o oposto do que o status quo do novo gênero pedia à época e que soaram como universos paralelos para diferentes artistas décadas seguintes – e ele está de volta. O Durutti Column do guitarrista Vince Reily é um dos produtos musicais mais notáveis de Manchester e estamos falando da mesma cidade que nos deu os Buzzcocks, o Joy Division/New Order, os Smiths, o Fall, os Stone Roses, os Happy Mondays, os Charlatans, o Verve, o Oasis e o Floating Points. Seu estilo único de tocar guitarra é a base para experiências sonoras transcendentais que fundem free jazz, folk, jazz fusion e música erudita contemporânea e inspiraram artistas tão diferentes quanto Brian Eno, Blood Orange, John Frusciante, Harry Styles e Frank Ocean. E ele está voltando para o disco depois de mais de uma década longe do estúdio devido a problemas de saúde que atravessou, contando alguns derrames. Estes o deixaram longe da guitarra para apresentações ao vivo, mas ele mantém a chama acesa ao anunciar o que pode ser o último disco de sua banda – um trio, que mantém ao lado do eterno parceiro e baixista Keir Stewart e do velho camarada percussionista Bruce Mitchell -, o álbum Renascent, anunciado nesta quarta-feira com o lançamento do single “Liars”. O disco chega aos ouvidos públicos no último dia de julho e já está em pré-venda. É o primeiro disco da banda desde o A Paean to Wilson, de 2010, e possivelmente o último disco que lançará com gravações novas, uma vez que sua saúde andaria delibitada no limite. Ouça abaixo o primeiro single e veja o nome das músicas deste próximo trabalho:  

Henry Rollins e Ian McKaye ressuscitam o disco perdido dos Cramps produzido por Alex Chilton

No fim do ano passado, Henry Rollins mencionou que estava trabalhando com Ian McKaye e começaram as especulações que dois dos maiores nomes da cultura faça-você-mesmo do punk dos Estados Unidos estavam compondo ou gravando disco. Mas o vocalista do Black Flag e da Rollins Band e o cérebro por trás do Minor Threat e do Fugazi logo desmentiram que pudessem estar fazendo algo autoral e agora a verdade vem à tona: os dois estão começando a chafurdar no extenso arquivo dos Cramps, reativando a seminal gravadora do próprio grupo, a Vengeance Records, para mostrar joias enterradas no passado da banda que finalmente verão a luz do dia. Uma das bandas mais transgressoras da história da música gravada, o grupo liderado pelo casal Lux Interior e Poison Ivy é o monstro que o rock’n’roll deveria ter sido caso não fosse cooptado pela indústria fonográfica. Embora sejam mais reconhecidos por fundar o gênero chamado psychobilly, os Cramps eram viciados em música pop que gostavam de se enfiar até o pescoço no pântano do rock sujo, causando comoções por onde passavam. O primeiro lançamento desta nova fase vem dos estúdios da gravadora Ardent, quando o líder do Big Star resolveu, ainda em 1977, produzir o primeiro disco da banda, que só seria lançado em 1980 com o título de Songs the Lord Taught Us, E na primeira sessão que fizeram no clássico estúdio de Memphis, Chilton pediu pra banda gravar várias músicas para depois escolher as que lançariam como compactos antes do lançamento do disco. E, como Rollins detalha no texto de apresentação do disco (leia abaixo), eles fizeram essas gravações que não foram lançadas à época e quase viram a luz do dia no final dos anos 80, quando Lux e Poison voltaram àquelas gravações e fizeram novos mixes para a seleção de música, que seriam lançadas como um disco voltado para os fãs chamado de Gravest Gravy. Mas, por algum motivo, o projeto foi engavetado e só agora volta a surgir para o público, quando Rollins e MacKaye começam a mostrar o que conseguiram levantar nos arquivos da banda a partir deste primeiro registro dos Cramps em estúdio, que chega ao público dia 21 de agosto e já está em pré-venda. Ouça abaixo o primeiro single deste novo álbum, “TV Set”, bem como um texto de Rollns sobre a descoberta deste disco perdido e o nome das faixass:  

Thom Yorke + Flea ♥ Marvin Gaye

Flea lançou um belo disco solo no começo do ano (chamado Honora, vale conferir) e ao passear pela Europa tocando ao vivo o novo trabalho, convidou o chapa Thom Yorke para dividir o palco no show que fez em Londres nesta terça-feira. Parceiros na banda Atom for Peace, o baixista do Red Hot Chili Peppers e o vocalista do Radiohead já quebraram o gelo de cara quando Flea convidou Thom para subir ao palco para acompanhá-lo em “Traffic Lights”, música da banda que têm juntos, logo na segunda música. O show realizado na casa Koko ainda contou com a participação de Warren Ellis (na faixa “Frailed”) e versões para músicas de Jimmy Webb (“Wichita Lineman”), Frank Ocean (“Thinkin Bout You”) e Funkadelic (“Maggot Brain”) e logo após esta última Flea chamou Thom de volta ao palco para dividir uma versão de dez minutos para a irresistível “Got to Give It Up”, do Marvin Gaye. Que delírio.

Assista abaixo:  

Música e emoção

Emocionante a estreia do novo projeto do mago Chicão Montorfano, que apresentou seu novo trio, o Chicão Acústique Trio, regido pela sigla CAT, que montou ao lado da cantora Marcela Helena e do percussionista Nicolas Farias. A apresentação começou com o músico apenas ao piano uma peça própria inspirada em Egberto Gismonti e batizada de “Gismontando”, que viu a entrada do percussionista para, finalmente, receber a vocalista num arranjo maravilhoso para “Primavera”, do José Miguel Wisnik, que transformou-se na autoral “Sininho”, que lançou na primeira parte (a única lançada) de seu primeiro disco solo, Mistura. O trio seguiu passando por mais músicas alheias, sempre entortando os originais com arranjos absurdos, primeiro “A Volta do Malandro” do Chico Buarque, seguida da estupenda “The Free Design” do grupo anglofrancês Stereolab. Depois emendou na parte autoral da noite, trazendo canções simples (como uma bossa nova de um minuto feita durante o período pandêmico para caber no único minuto de duração que os reels do Instagram permitiam à época) e mais ousadas, para depois visitar outros autores queridos, como quando entrou em “Mergulhar na Surpresa” de Maurício Pereira e emendou duas que havia tocado na semana passada com André Abujamra, desta vez sozinho ao piano, primeiro num recital de Clarice Leite e depois com sua versão para “River Man”, de Nick Drake – e as duas canções dispararam a emoção no palco que logo contagiou a plateia, vertendo lágrimas, antes de encerrar a noite com um arranjo de chorar para “O Quereres” de Caetano Veloso. Noite mágica.

#chicaoacustiquetrionocentrodaterra #chicao #cat #centrodaterra #centrodaterra2026 #trabalhosujo2026shows 116

Chicão: CAT

Encerrando a programação de música em maio no Centro da Terra nesta terça-feira, temos outra apresentação do pianista Chicão, que depois de dividir o palco com André Abujamra na semana passada, agora volta com seu projeto solo chamado de Chicão Acústique Trio – ou, como ele prefere encurtar, CAT. Ao lado da cantora Marcela Helena e do percussionista Nicolas Farias, ele mostra suas próprias composições, que começou a expor depois que fez sua temporada no teatro em novembro de 2023, com esta formação mínima e precisa. O espetáculo começa pontualmente às 20h e os ingressos estão à venda pelo site do Centro da Terra.

#chicaoacustiquetrionocentrodaterra #chicao #cat #centrodaterra #centrodaterra2026