Dez anos de outro Golpe

Muito bom terminar esse outubro tenso ouvindo Douglas Germano voltar ao seu segundo disco, Golpe de Vista, único registro musical a explicitar – ainda que no título – o golpe sofrido por Dilma em 2016, que seu autor visitou neste sábado, no Bona, ao lado dos comparsas João Poleto (sax e flauta) e Henrique Araújo (bandolim e cavaquinho). Vestidos na estica, como faziam na época do lançamento do disco, os três passearam pelo repertório do álbum quase que na ordem, embora Douglas tenha optado a abrir com “Pela Madrugada” e deixar a faixa-título, que originalmente abre o álbum, para encerrar a noite. Com a nova formação, o minimalismo original do disco, gravado com violão e caixa de fósforo (à exceção das interferências de Poleto, que praticamente se pôs no álbum, como o próprio Douglas lembrou), ganhava um brilho adicional, deixando toda a percussão da noite a cargo das cordas. E para ampliar a duração da apresentação, ele voltou para músicas de seu primeiro disco, canções que já são estandartes do samba paulistano deste século (como “Damião” e “Espólio”), além de incluir a faixa de abertura do disco seguinte (o soberbo Escumalha, este sim explícito sobre a tragédia sobre a ascensão da extrema-direita no Brasil), “Agbá”, no bis, deixando no ar a possibilidade de voltar ao disco de 2019 quando este fizer dez anos. Com sambas precisos e o já tradicional bom papo de Douglas entre as canções, a última noite deste outubro histórico lavou a alma dos presentes, como se traduzisse em música o alívio que sentimos, dez anos depois do início desta derrocada que felizmente estamos deixando para trás.
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