
No último dia do mês passado, Bruce Springsteen deu início à sua nova turnê pelos Estados Unidos e escolheu a dedo a cidade inicial: a mesma Minneapolis que viu no primeiro mês deste ano, agentes da milícia de Donald Trump contra imigrantes matar dois inocentes sem nenhum motivo. Bruce, que tornou-se um dos artistas mais ativos contra o atual presidente dos EUA, não apenas participou de protestos e lançou uma música contra a infame ICE (“Streets of Minneapolis”), como transformou sua nova turnê numa contínua manifestação contra o déspota estadunidense. Batizada de Land of Hope and Dreams, a turnê conta com o ex-Rage Against the Machine Tom Morello (outro forte antagonista de Trump no mundo da música) como show de abertura e, em sua primeira noite, fez várias versões para músicas alheias, como sua reverência à Patti Smith (em “Because the Night”), e outras que confrontam o belicismo dos EUA, como “Chimes of Freedom” de Bob Dylan e “War” dos Temptations, que abriu a noite. Mas o ápice do show foi quando chamou Morello ao palco para celebrar o músico nativo mais importante daquela cidade, ao tocar “Purple Rain” do Prince pela primeira vez em dez anos. “Para o maestro!”, cumprimentou o público ao entoar os primeiros acordes em sua guitarra. Emocionante
Assista abaixo: Continue

Falei outro dia do novo grupo pernambucano Mayara Iara Dimitria e elas liberaram em primeira mão para o Trabalho Sujo a íntegra da live que gravaram no Estúdio Casona, no Recife. Entre a psicodelia, o experimental e o indie rock, o trio formado por Iara Adeodato (guitarra), Mayara (synth) e Dimitria (bateria) é o primeiro lançamento do novo selo Precarian Tapes, do Benke Ferraz, guitarrista dos Boogarins. Elas já estão marcando mais shows e devem começar a rodar pelo Brasil em breve…
Confira abaixo: Continue

Houve um período entre os anos 80 e os anos 90, no final do século passado, que a música pop que dominava as paradas de sucesso pelo mundo começava a parecer cada vez mais artificial e distante da vida das pessoas, fazendo com que vários novos artistas buscassem outro tipo de som para fugir dos clichês que dominavam as rádios da época – e nessas buscas, encontravam outros artistas iniciantes com as mesmas frustrações. Antes do indie inglês explodir no britpop, aquela cena musical buscava expandir suas fronteiras misturando melodia e ruído, algo sintetizado na clássica fita C86, que revelou uma nova safra de bandas britânicas em 1986 que, mais tarde, mudaria o pop daquela ilha. E entre nomes como o Primal Scream, os Pastels, os Soup Dragons, os Shop Assistants e o McCarthy (a semente do Stereolab), estava o Wedding Present, que três anos depois lançaria o clássico álbum Bizarro. Na época deste disco, o baixista da banda, Keith Gregory, foi para os EUA e voltou com alguns discos de bandas desconhecidas e escolheu a música “Box Elder”, de uma delas para incluir em seus shows. A faixa era uma das músicas do primeiro lançamento de uma banda completamente desconhecida, o EP Slay Tracks (1933-1969), de um grupo chamado Pavement. A versão chamou atenção do histórico radialista inglês John Peel, que, curioso como só ele, foi atrás da tal banda e ajudou-a a ser mais conhecida para além de seu grupo de amigos em Nova York. A versão do Wedding Present para “Box Elder” depois foi incluída na edição em CD do disco Bizarro e muitos achavam que, quando o Pavement começou a chamar atenção do público em seu país, eles é que estavam tocando uma música da banda inglesa. Para lembrar esse impulso inicial a uma das bandas mais importantes do indie rock, o Wedding Present voltou a incluir a faixa do Pavement no repertório da turnê que acabou de começar a fazer pelos Estados Unidos.
Assista abaixo, quando emendam “Box Elder” com sua ótima “Kennedy”, no show que fizeram na quarta passada, em Cambridge: Continue

Vim para Brasília discotecar no Night Lab, projeto mensal realizado no antigo Touring da cidade (quem lembra?) que agora chama-se Sesi Lab e tem a curadoria de Roberta Martinelli, e calhou de me apresentar no mesmo dia da Ana Frango Elétrico, de quem acabei de ver um show impecável no Sesc Pinheiros. Mas diferente do show de São Paulo, esse foi sem banda e Ana encarou o público apenas empunhando um violão (e à frente das projeções de sua companheira Maria Cau Levy, projetando grafismos e vídeos em baixa definição num telão imenso), numa apresentação que, sabendo que estava cercada de um público fanático, trouxe várias músicas de seu próximo álbum, que ainda não tem nome nem previsão de lançamento. E mesmo sem conhecer as quatro músicas novas, o público que lotou o Sesi Lab a acompanhava deslumbrado, repetindo inclusive o refrão de “O Silêncio é o Barulho da Noite”, parceria inédita dela com Rômulo Froes e Tuca Monteiro. Mas ela não ficou só nas novidades e encantou o público com canções de seus três discos, além das mesmas versões alheias que trouxe no show que vi em São Paulo: “O Leão e o Asno” do Vovô Bebê e “Cérebro Eletrônico”, do Gilberto Gil. E embora o público cantasse tudo junto, Ana lamentava ter feito o show sozinha, exagerando que aquela era a última vez que ela tocava violão para mais de trinta pessoas. Autocrítica com excesso de modéstia, ela ficou mais tensa ainda quando acabou a bateria do violão, o que fez ela aproximar o instrumento do microfone e chegar ainda mais perto do público, que não parava de gritar. Íntimo e intenso.
#anafrangoeletrico #nightlab #sesilab #trabalhosujo2026shows 067

A Roberta Martinelli faz a curadoria do Night Lab,uma noite em que ela reúne personalidades para celebrar um tema no Sesi Lab da minha cidade, em Brasília, e me convidou para participar da 27ª edição do evento, que acontece nesta quinta-feira, 9 de abril, quando discoteco antes do show da Ana Frango Elétrico, que acontece no mesmo local. O tema da noite é alimentação e ela me desafiou a fazer um set só com músicas que falem de comida – e encaro essa com fome de fazer todo mundo dançar. A noite ainda conta com oficina sobre fermentação de bebidas e uma conversa poética com Bel Coelho e Bruna Crioula. Os ingressos já estão à venda.

Era inevitável que isso acontecesse. Ao retomar sua turnê pela Europa depois de um problema alimentar que a fez abandonar um show na Itália pela metade, a cantora espanhola fez quatro datas na capital de seu país para, a seguir, ir para Portugal – e lá, com a presença de uma das principais participações especiais de seu disco do ano passado, Lux, ela estreou, nesta quarta-feira, uma música que ainda não havia tocado ao vivo: “Memória”, que contou com a presença da própria portuguesa Carminho, com quem divide a canção. Veja só: Continue

A britânica Arlo Parks acaba de lançar seu terceiro álbum Ambiguous Desire e na rodada de divulgação do disco acabou por saudar sua conterrânea PinkPantheress ao cantar a grudenta “Stateside” (a mesma que foi causou a sensação ao ser escolhida pela patinadora norte-americana Alysa Liu para ser sua trilha sonora nas Olimpíadas de Inverno) em sua participação no programa BBC Radio 1 Live Lounge, deixando a canção suave mas sem perder seu ritmo. Ficou joia.
Assista abaixo: Continue

Fila pra pegar fila pra pegar senha pra pegar ingresso: era inevitável que o encontro de Juçara Marçal com a obra da fotógrafa e cineasta Agnès Varda no Instituto Moreira Salles iria causar uma procura gigantesca de curiosos querendo ver as conexões entre estas duas forças artísticas – e a cantora carioca reverenciou a diretora francesa, pioneira da nouvelle vague e falecida em 2019, como gesto final da exposição imperdível (que fica só até domingo, se liga) no próprio IMS, numa programação que o instituto chamou de “comentário musical”, numa esperta justificativa para contrapor autoras distintas – e semelhantes. A própria Juçara contou que teve um certo ceticismo quando recebeu o convite, mas ao mergulhar na obra de Varda, encontrou vários pontos em comum com a sua obra: a atenção ao cotidiano, o olhar voltado para o efêmero, a atenção para o oprimido e o ponto de vista aguçado sobre as conexões da África com o mundo moderno. Dividida em três partes, a apresentação começou com Juçara cantando “Poeira” (de Mariana Aydar e Nuno Ramos) e emendando-a com a sua “Odoyá” e com um ponto pra Oxum, antes de puxar duas canções de uma cantora negra francesa retratada por Vardas, Toto Bissainthe, de quem cantou “Papa Loko” e “Lamize Pa Dous”. Sempre acompanhada de seu compadre Kiko Dinucci na guitarra e da irmã Juliana Perdigão no sax e clarinete, que criavam ciclos musicais repetidos, deixando Juçara à vontade para disparar samples e soltar efeitos. Finda a primeira parte, foi exibido o curta A Ópera-Mouffe (1958) sem a participação dos músicos, que voltaram na parte em que Juçara conectou outra musa inspiradora – Brigitte Fountaine, artista tema de um espetáculo que ela faz com Kiko e a pianista Thais Nicodemo, que também trabalhou com Vardas. Nesta parte cantou o hit “Comme à La Radio” e outra chamada “Brigitte”, entremeando-as com a indefectível “Oi Cats”, do poeta carioca Tantão. E depois da exibição do documentário Os Panteras Negras (1968), ela arrematou a noite com uma sequência arrebatadora de canções brasileiras que cantam “estratégias de resistência” do povo afrodescendente no país, enfileirando uma versão absurda para “Negro Drama” dos Racionais (que ela já havia gravado com seu antigo grupo Vésper Vocal, no disco Ser Tão Paulista, em 2004), outra para “Vela no Breu” do Paulinho da Viola e arrebatando com “Batuque”, de Itamar Assumpção, que terminou com o escárnio do velho Ita à lei áurea assinada pela Princesa Isabel: “Papé!” Que noite!
#jucaramarcal #agnesvarda #kikodinucci #julianaperdigao #ims_sp #institutomoreirasalles #trabalhosujo2026shows 066

Um momento mágico aconteceu nesta terça-feira no Centro da Terra quando quatro novos talentos da composição brasileira entrelaçaram suas canções num espetáculo que pode batizar esse encontro coletivamente. João Menezes, Marina Nemesio, Tori e Ítallo França já atuam há tempos na música mas estão desabrochando suas carreiras individuais nesse instante: Ítallo lançou seu disco solo em 2023 (Tarde no Walkiria), Tori estreou ano passado (com seu Areia e Voz) e tanto João quanto Nemesio estão fechando suas estreias solo possivelmente para esse ano. Mas reuniram-se para tocar seus repertórios como se fossem um grupo (ou, como o título da noite anunciava, “De Banda”) e fizeram uma apresentação que não só desvenda pérolas de cada um deles, como tem os outros três como acompanhamento musical luxuoso. Todos compõem, cantam e tocam violão, mas alternam-se por outros instrumentos – João, Marina e Tori por vezes tocam percussão (quase sempre discreta), enquanto João e Ítallo alternam seus violões entre baixos e guitarras, além do conjunto de vozes que, quando soam juntas, chega perto do céu. A noite mostrou que não só os quatro são obstinados no ofício da composição e esmeram-se por orquestrar letra e música para caminhos além dos clichês da música popular, sempre tratando suas pequenas obras como ourives hiperfocados em sua artesania. E entre as canções, brincam entre si e com o público, contam causos e repassam ideias de como começar as canções, deixando o tom sério de suas canções um pouco mais informal, caseiro e familiar, flutuando entre o drama e a brincadeira ao mesmo tempo em que retomam uma tradição de laços de composição nordestina que gerou obras coletivas célebres, como a série Cantoria e os shows do Grande Encontro. Encerraram a noite com a única música que compuseram juntos e estão prontos para ir. Vai De Banda!
#itallofrancamarinanemesiotoriejoaomenezesnocentrodaterra #itallofranca #marinanemesio #tori #joaomenezes #centrodaterra #centrodaterra2026 #trabalhosujo2026shows 065

Nesta primeira terça-feira de abrimos recebemos quatro novos autores que se unem no palco como se fossem uma banda. Ou será que são uma banda? O espetáculo De Banda reúne os alagoanos Ítallo França, Marina Nemesio e João Menezes e a sergipana Tori para celebrar seus próprios repertórios individuais ao mesmo tempo em que experimentam trabalhar conjuntamente. A apresentação surgiu quase de súbito, quando, depois de passar por suas cidades-natal no fim do ano passado, Tori, Marina e Ítallo se encontraram em trio e fizeram apresentações em Maceió, Recife e Aracaju. Deu tão certo que, ao voltar para São Paulo (onde residem atualmente), convidaram um terceiro alagoano (João) para juntar-se ao time e entre violões e percussões, eles mostram este espetáculo pela primeira vez na cidade. O espetáculo começa pontualmente às 20h e os ingressos já estão à venda pelo site do Centro da Terra.
#itallofrancamarinanemesiotoriejoaomenezesnocentrodaterra #itallofranca #marinanemesio #tori #joaomenezes #centrodaterra #centrodaterra2026