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Texto

Krautrock

Texto velho, do ano 2000. Mas ainda vale.

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Na Alemanha pós-guerra, a cultura nacional foi massacrada pelas soviética e americana como uma forma de aniquilar qualquer indício de retorno do nazismo. Logo as rádios e televisões bombardeavam música americana como começariam a fazer pelo resto do planeta. Mas ao contrário dos outros países, que viram sua música pátria aos poucos fundir-se com o novo padrão musical, a cultura alemã não conseguiu sobreviver em termos de cultura pop. Os poucos artistas locais que faziam sucesso eram pálidas imitações de sucessos estrangeiros.

Até que um grupo de estudantes sentiram o clamor da idade ao mesmo tempo em que os tempos estavam mudando. O ano era o histórico 1968 e os tremores sentidos nas paragens alemãs vieram justamente da arte. Seguindo uma tendência de teatro extremo que quebrava todas as convenções cênicas, incluindo até automutilação e morte no palco, este grupo de jovens se viram presos pelo mesmo tipo de música que seus pares americanos e ingleses. Com bagagem intelectual da faculdade e permissão para criar, os primeiros representantes do chamado krautrock deglutiram os Beatles, os Stooges, Ornette Coleman, o Pink Floyd de Syd Barrett, o Velvet Underground e James Brown ao mesmo tempo, fundindo-os em forma de jam sessions intermináveis baseadas no ritmo, que tornava-se cada vez mais marcial e intenso. Pioneiros na música eletrônica, eles a usaram como principal ferramenta de manipulação sonora. E criaram uma música cujo legado se extende à medida que o tempo passa.

Por muito tempo, o krautrock era visto como apenas um apelido para as bandas de rock progressivo da Alemanha. Não está errado, embora induza ao erro. Como os ingleses que inventaram o prog rock, os alemães eram jovens músicos que encontraram uma forma de explorar as fronteiras da música auxiliados pela técnica. Mas enquanto na Inglaterra sonhavam com a Idade Média e com solos gigantescos, na Alemanha os principais nomes do krautrock deixavam o ritmo tomar conta. Vindo da música negra (Can), da experimental (Faust), da eletrônica (Neu!), do rock de Detroit (Ash Ra Tempel), do free jazz (Cluster), da psicodelia (Amon Düul II) ou simplesmente de máquinas (Kraftwerk) o ritmo é fator fundamental na caracterização do krautrock. Usando-o como fio condutor por experimentações sonoras diversas, o rock alemão do começo dos anos 70 transformavam o ritmo numa porta para uma quarta dimensão musical, onde não importa quanto tempo dura uma canção e sim o transe que o ouvinte é submetido.

A influência do krautrock na cena pop mundial é muito maior que notória. Tanto subgêneros inteiros da música eletrônica (trance, ambient, techno, house, drum’n’bass, technopop) quanto as “novas formas” de criação e gravação propostas pelo pós-rock são quase que inteiramente criados do nada por estes alemães esquisitos. A lógica do sampler nasceu dele, quando a máquina sequer existia, com o baixista Holger Czukay, do Can, fazendo malabarismos e maravilhas com dois microfones e dois gravadores. New wave (Talking Heads, Pere Ubu, Devo) e pós-punk (Fall, PiL, Gang of Four, Suicide, toda a cena no wave nova-iorquina) procuraram discos de kraut para inspiração. A fuga das formas de gravação tradicionais antecipou o que diferentes bandas como Sebadoh, New Order, Pavement e Butthole Surfers acabaram fazendo.

Foram explorados os limites do barulho, da música étnica, da performance cênica, do som eletrônico, da sonoplastia e do improviso. O próprio rap só sobreviveu porque Afrika Bambaataa foi um dos primeiros a mostrar o ritmo dos alemães às massas, abrindo os limites do que pode ser música para o infinito na música popular mundial. Sem contar o Stereolab, que deve os sistemas circulatório e motor ao rock hipnótico dos germânicos. E David Bowie, que dedicou os anos punk à descoberta do mantra eletrônico do gênero morando em Berlim, onde compôs a trilogia Low/ “Heroes”/ Lodger. Sonic Youth, as bandas da gravadora Flying Nun, Stone Roses, Mouse on Mars, Spacemen 3, My Bloody Valentine, Aphex Twin, Brian Eno, Cabaret Voltaire, Mercury Rev, Throbbing Gristle, toda cena shoegazer, Bardo Pond – nomes de alto calibre devem e mostram respeito ao rock alemão do começo dos anos 70. É um espectro grande suficiente para ser conhecido.

Mas mesmo ganhando popularidade por diferentes campos da música, o krautrock ainda é um segredo para o ouvido popular. Talvez seja ainda por um bom tempo. O universo de ritmo e experimentação desencadeado por esta geração de músicos é grande o suficiente para que o termo seja um equivalente à música erudita alemã, o krautrock como uma legião de cérebros que fazem às vezes de um Beethoven moderno, descendente do Bach da música eletrônica, Karlheinz Stockhausen. O tempo não dirá – ele já diz

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Eu tenho outro texto sobre o Can em algum lugar, mas não tou achando… Mas achei um sobre Kraftwerk, quando eles tocaram pela primeira vez no Brasil, em 98. Vai na seqüência.

Piratas no Caribe

Little Joy
Clash @ São Paulo
29 de janeiro de 2009


Little Joy – “Keep Me in Mind”

Os piratas do Caribe não eram de lá. Europeus, os saqueadores que desestabilizaram a economia e a política de seu continente nos século 16 e 17 trabalhavam em alto mar e na costa da África, quase sempre pilhando navios que voltavam das colônias do Novo Mundo cheio de riquezas para suas coroas colonizadoras. O Caribe, com seu excelente clima e inúmeras ilhotas inexistentes nos mapas da época, por outro lado, era um refúgio perfeito para o descanso de piratas de diferentes origens, que reuniam-se nos arquipélagos tropicais para recarregar as baterias antes de voltar à rotina de saques e destruição.

E se vale a velha metáfora da banda de rock como navio pirata – eternizada pelos Rolling Stones, mas que está na essência de qualquer grupo, aquela sensação de caos e tumulto aliada à excitação de chutar tudo para o alto -, o Little Joy é o encontro de alguns piratas num desses entrepostos caribenhos para alguns meses de descanso, longe do trabalho. Piratas de férias, Rodrigo Amarante e Fabrizio Moretti deixaram as naus de seus grupos principais para juntarem-se a outras almas perdidas na noite tropical e deixar a festa rolar à luz da lua e da fogueira.


Little Joy – “No One’s Better Sake”

Tá certo que Moretti (brasileiríssimo, sotaque largado incluso) pode ser o capitão da empreitada e que Binki Shapiro traga uma inesperada graça indie para a corja de bucaneros do roque, mas todo o brilho do Little Joy ao vivo vem de Amarante. Longe da responsabilidade de ser um Hermano, Rodrigo está completamente à vontade no papel de guitarrista de um projeto paralelo. E por mais que a banda soe um pouco Strokes aqui ou um tantinho indie demais quando Binki assume o vocal (ela esconde-se entre a timidez de duas bateristas-vocalistas, Maureen Tucker e Georgia Hubley), é sua voz preguiçosa e arrastada e sua guitarra dedilhada quem dão personalidade ao Little Joy – e ele é onipresente, quando menos se espera lá está o timbre de voz meio bêbado ou a indefectível guitarrinha trôpega.

Tranqüila, a banda toca como se estivesse na casa de um dos integrantes e trata o público – composto essencialmente fãs do Los Hermanos e, provavelmente, pelos mesmos fãs que foram no dia anterior – como se fossem um deles. O clima de cumplicidade é constante e a cada intervalo entre as músicas eles trocam gracinhas e carinhos – “amanhã às cinco horas eu estou na sua casa, hein Juliana”, avisava Moretti, que ainda chamou São Paulo de “cidade maravilhosa”.


Little Joy – “This Time Tomorrow”

Além da íntegra do disco de estréia, a banda ainda tocou duas versões de músicas alheias, que, sem querer, acabam mapeando musicalmente sua área de atuação. “Walking Back to Happiness”, um dos hits da mãe de Binki, Helen Shapiro, vem do tempo em que a Inglaterra desconhecia os Beatles e aspirava por um pop comportado, sério e quase europeu continental – da mesma importância que a surf music californiana e dos ritmos latinos (bossa nova inclusa) que flertaram com as paradas de sucesso antes dos Beatles reinventarem a roda. “This Time Tomorrow”, cover de Kinks que Fabrizio arriscou-se no vocal, data de 1970, o ano em que os Beatles partem para a história – e lembrando que essa é uma das três faixas do Kinks que fazem parte da trilha sonora do filme indie Viagem a Darjeeling, vemos uma história contada sem a presença dos Beatles, em que o rock florescesse ao lado de outros gêneros musicais sem necessariamente se impor como protagonista central.


Little Joy – “Walking Back to Happiness”

Eis a praia do Little Joy. Flertam com a surf music e com o folk, com o indie rock e com ritmos latinos – a vaibe é aquela que se espreguiça na rede, sem pressa, escondendo os olhos do sol – como se fossem uma banda de rock, mas só os instrumentos e a formação é propriamente rock. Fora um riff numa introdução aqui ou um solinho maroto acolá, o que se ouve é música pop tocada com guitarras. E, o principal, sem dar-se a menor importância. O desleixo e sossego com que tocam a apresentação contagiam quem se dispõe a entrar na onda da banda. Se ela tem alguma importância? Quem se importa com isso? Curte aí…


Little Joy – “Brand New Start”

Lost: Jughead

Bombando

Ok, começou pra valer – e se você não tiver assistido o terceiro episódio da nova safra de Lost, sai fora, porque daqui pra baixo o assunto é só pra quem já está alinhado com o resto do seriado. Como eu tinha dito, os dois primeiros capítulos que inauguraram a nova fase da história dos passageiros do vôo 815 funcionaram como um imenso “previously on Lost”, feito para caso algum louco se disponha a começar a assistir a história agora sem ver nada antes ter algum chão onde pisar. As duas cenas principais do episódio duplo mostram o cientista Chang em contato com propriedades até então desconhecidas da ilha maluca e a cientista Ms. Hawking fazendo cálculos e projeções para determinar onde a maldita ilha pode voltar a aparecer. Unidas pela frase “Deus nos acuda”, dita em timbre solene pelos dois personagens bissextos em suas respectivas cenas, elas nos ajudam a entender que o ano do seriado será racional e paranóico, frio, calculista, mas à beira de um ataque de nervos. Jughead, o episódio de quarta passada, foi a confirmação que este é o tom de Lost em 2009.

Porque é quando começamos a compreender uma história que foi apenas citada nos primeiros capítulos: o que está acontecendo com a ilha? Tudo bem, não precisamos de explicações propriamente científicas para descrever a situação. O próprio Faraday usou a metáfora do disco arranhado para explicar que a ilha está pulando por épocas diferentes, aparentemente sem destino estabelecido. Enquanto já entendemos que no 2007 dos Oceanic Six (sequer citados no episódio) Ben tenta trazer todos de volta para a ilha, outra enorme lacuna começa a ser preenchida e ela diz respeito às pessoas que ficaram lá.

Jughead nos leva para 1954, cinqüenta anos antes do vôo 815 cair na ilha, e para um tempo em que os Outros eram os únicos donos do pedaço. A Dharma não existia e o aparentemente imortal Richard Alpert reina absoluto, baixando o sarrafo em que se atreva a entrar lá. É para lá onde Faraday, Miles, Sawyer, Juliette, Locke e Charlotte vão, separados, confrontar-se com os Outros. Mas um deles já tinha ido para aquele ano – Daniel Faraday é recebido por uma jovem soldado chamada Ellie que o recepciona com um “você de novo?” e mais tarde é confrontado por Alpert sobre uma bomba que ele teria trazido em outra época para a ilha. Quem é essa moça? O nome dela evoca dois personagens citados pela série: o rato com que Faraday fazia suas experiências de viagem no tempo (batizado Eloise) e uma certa francesa, cujo prenome, Danielle, não pode ser encurtado como “Dani” e sim como…

E assim Ellie acompanha Faraday para desmontar a bomba que batiza o episódio. É interessante notar que Daniel, aos poucos, torna-se outro personagem: mais esperto, dinâmico, disposto, longe do Faraday assustado, ansioso e desmemoriado da temporada passada. E quando encontramos a tal bomba, Jughead está pendurada num andaime de forma que qualquer movimento brusco a faça sofrer uma queda curta o suficiente para detoná-la. Nem vamos entrar no mérito de como é que ela foi parar ali. Mas logo depois Faraday fala em enterrá-la com concreto e chumbo, o que nos cogita a possibilidade da tal energia bruta que causa as viagens do tempo vir da própria bomba. E que talvez a escotilha que Desmond tomava conta regulasse, de alguma forma, a energia vinda dela. A bomba aparece e desaparece da mesma forma – num susto. Mas é apresentada como uma imagem forte, mais um ícone emblemático para o cânone da série: uma bomba H armada a alguns centímetros do chão.

Se o episódio da semana passada não nos trouxe nada dos Oceanic Six, a ação fora da ilha ficou por conta de Penny e, principalmente, Desmond, que sabemos que tornam-se pais de uma criança chamada “Charlie” – e aqui também vale esquivar-se da possibilidade do garoto ser um dos Charles da trama antes de voltar para o passado (o roqueiro Charlie e Charles Widmore, pai de Penny – hein? Penny é mãe do próprio pai?). Ao perceber que a cena de Faraday pedindo para buscar sua mãe era uma lembrança e não um sonho, o escocês sai por Londres em busca de uma mulher que não sabe o nome. Busca por Daniel e descobre que o cientista nunca foi vinculado oficialmente a Oxford, apenas manteve suas pesquisas num quarto abandonado, sem a universidade ser avisada. E de lá conhece a história de uma mulher que, num aparente coma, foi abandonada por Faraday em meio a experiências – e fica sabendo que seu sogro, Charles Widmore, bancava as pesquisas de Daniel. Widmore encerra o papo dando a Desmond o paradeiro da mãe de Daniel (Los Angeles, onde estão os Oceanic Six), deixando a trama ainda mais entrelaçada. E tudo nos leva a crer que Ms. Hawking (cujo prenome, descobrimos através da legenda da reprise episódio The Lie, reexibido antes de Jughead, é Elloise) é a mãe de Daniel. Mas tem algo de errado aí – esse mistério me parece nada misterioso dado o histórico de Lost. Parece que tudo está entregue de bandeja: Ms. Hawking é a mãe de Faraday e a jovem Ellie em 1954. Está tudo muito fácil pra ser verdade.

Jughead também inicia a saga que talvez deva ser o centro da quinta temporada – como Locke torna-se o líder dos Outros e o que acontece para ele assumir uma nova identidade e sair da ilha (rodando a frozen donkey wheel?) em busca dos seis sobreviventes que deixaram a ilha em dezembro de 2004. O primeiro passo foi dado com um truque que o Locke do início da série nunca imaginaria – mas depois de tanto apanhar mentalmente de Ben, hoje John consegue mentir e jogar o verde para ter o que quer. E assim cita Jacob como se fosse velho conhecido ao mesmo tempo em que avisa para Alpert assistir seu nascimento, episódio que vimos na quarta temporada. As pontas vão lentamente se amarrando enquanto outras surgem discretas – aprendemos que os Outros usam o latim como língua principal e que Alpert é “velho”, num sentido muito amplo, o que nos abre a chance dos Outros existirem a talvez milênios. E a grande revelação do episódio veio quase corriqueira: Widmore era um Outro. E a aparição de Locke afirmando ser o próximo líder abalou tanto a firmeza de Alpert quanto a esperança do próprio Widmore assumir o comando – o que pode explicar toda sua obsessão com a ilha, desde o fato de não poder retornar para lá quanto a possibilidade de reencontrá-la. Assim, a disputa parece polarizada entre Widmore e Ms. Hawking, como se a briga entre o casal (pais de Faraday?) fosse o ponto de partida para o jogo de poder em que tanto os Oceanic Six quanto Benjamin Linus são apenas peões.

O que nos leva a Daniel Faraday. Quem é esse sujeito? Ele trabalhava na universidade de Oxford, mas em um quarto de limpeza, usando o cômodo para tocar pesquisas de viagem no tempo e batizou uma ratazana de laboratório com o nome de sua mãe? E por que ele estava chorando em sua primeira aparição na série? E seus problemas de memória, se foram? E a mulher em coma em Londres, qual sua relação com ele? Por que ele trabalha para Widmore?

Para mim, a pergunta central em relação a Daniel Faraday é a de época que ele veio. Desde o início da temporada passada, os cinco tripulantes do cargueiro que chegaram a ilha pareciam ser contemporâneos dos sobreviventes do acidente com o vôo 815, mas na primeira cena dessa temporada vimos Daniel Faraday em plenos anos 70, com a mesma cara e idade de hoje em dia. E em Jughead, tanto Ellie quanto Alpert indicam conhece-lo – e mais, que ele seria o responsável pela bomba colocada na ilha.

Minha teoria: Faraday era um zé-mané da Dharma que, com algum conhecimento em física, conheceu (na cena que abre o quinto ano da série) as propriedades sobrenaturais da ilha que permitem a viagem do tempo. De alguma forma, conseguiu ir para o passado e para o futuro, numa jornada que pode ou não ser crucial para o desenrolar dos fatos que deram origem a Lost. Sua importância na história do seriado ainda está para ser medida – ele pode ser tanto o responsável pela situação que deu origem ao jogo entre Charles e Elsie quanto apenas um soldado de Widmore, como Ben seria soldado de Hawking. Mas creio que ele nasceu nos anos 50 e de alguma forma conseguiu manter-se vivo viajando no tempo (lembre que “Desmond é a constante”, como ele mesmo escreveu em suas anotações). E, por isso mesmo, acho que seu amor recém-declarado por Charlotte é de outra natureza: Daniel seria irmão ou até mesmo pai da própria Charlotte, uma vez que ela nasceu na ilha.

E o episódio termina com todos viajando mais uma vez para o passado, antes mesmo da vila dos Outros ser construída. Será que em breve veremos a tripulação do navio Black Rock? Essa é uma chance muito boa para ser desperdiçada… E não duvide se um de seus passageiros for o ancestral Richard Alpert, murmurando em latim depois de dar (ou ouvir) ordens em inglês. E aí começaremos a desvendar uma história que não temos a menor referência do que pode realmente ser.

Resumindo, Lost voltou pesado. Bom pra quem gosta.

O final de Battlestar Galactica pode ser o aquecimento para a última temporada de Lost

(Re)Começou: Battlestar Galactica entrou na reta final na última sexta-feira, quando o primeiro episódio da segunda parte da quarta temporada foi exibido nos EUA. Apesar da expectativa em relação à próxima temporada de Lost, que estréia na próxima quarta, presumo que a quinta safra de episódios da ilha maluca vai ter mais enrolação do que perguntas respondidas. Já BSG, não. Sometimes a Great Notion é o primeiro de uma dezena de episódios que encerrarão o cânone clássico de Battlestar Galactica. Se voltaremos a reencontrar estes personagens e este universo, será em cenários bem diferentes do que a busca por um lugar seguro para salvar a humanidade depois que esta foi destruída pelos robôs que criou, os cylons. Portanto, a partir daqui o assunto só interessa a quem já chegou à safra final de episódios do seriado. Tomei cuidado inclusive na seleção das imagens para não revelar demais. Mas uma coisa o episódio de sexta provou: estamos começando a assistir à conclusão dramática de um marco da televisão moderna.

A história recomeça do ponto que havia parado: na Terra. O planeta prometido para o qual rumava a frota galática que trazia o último resquício de humanidade em todo universo não era o paraíso esperado – e sim um planeta devastado há dois mil anos por uma catástrofe nuclear. E se imaginarmos que, durante toda a série, a única esperança de seguir em frente era encontrar o tal planeta – que, no universo de BSG ganhava ares míticos – não é difícil supor que o clima de frustração se abatesse sobre os personagens.

Frustração é eufemismo. O clima do episódio de sexta era de desolação, depressão, derrota e morte. Os primeiros minutos continuavam a cena apática e triste com a qual o seriado se despediu de 2008 – o elenco andando por uma praia deserta, de areia escura, tendo as ruínas do que um dia foi Nova York como cenário e um tom azulado-cinzento fazendo as vezes de luz. E, quando voltam à nave, os personagens aos poucos começam a espalhar a sensação de luto e desespero pela nave. E. aos poucos, eles vão sucumbindo – a começar pelas figuras paternas da tripulação. De um lado, a presidente Roslin abandona os medicamentos que regulam seu câncer e o almirante Adama cede à bebida a ponto de fazer com que seu primeiro subalterno Saul aponte uma arma para sua cabeça – e de Olmos cometer sua pior atuação em toda a série (aquela boca torta me lembra o Moe dos Três Patetas).

Duas personagens, no entanto, atravessam situações que trazem outros sentimentos à tona. Aparentemente alheia ao clima inóspito no seriado, a oficial Duanna tira o dia para ser linda e feliz como nunca foi na série – e sai com Lee para um jantar filmado com cores vivas e música, que terminaria com a mesma metendo um tiro na própria cabeça depois de se despedir do marido. Starbuck, por outro lado, anda pela Terra acompanhada do cylon Leoben, filmada num tom quase em preto & branco, contraste estourado a ponto do mato filmado aparecer branco, e logo depois descobre não apenas o próprio caça que pilotava como o próprio cadáver (!?), que queimaria logo depois numa espécie de funeral viking.

Até pouco antes do episódio terminar, as duas personagens pareciam ser as possíveis candidatas ao posto de último cylon a ser revelado: Dee se mataria pois haveria uma forma de ela renascer em algum lugar (posto que ela poderia ser o último cylon e devido à sua serenidade antes do suicídio) e só isso justificaria o fato de Starbuck ter encontrado o próprio cadáver. Mas à medida em que o episódio transcorria, os quatro cylons revelados no fim da terceira temporada começam a ter visões ou recordações de uma vida que teriam levado naquele mesmo planeta desolado – primeiro Tyrrol, depois Anders e Tory logo depois. O único cylon que não havia tido uma visão de seu próprio passado na Terra era Saul Tigh, para quem foram destinados os minutos finais – em que o quinto cylon finalmente foi revelado: ELLEN TIGH!

Como assim? Então Dee se matou em vão? Se a ex-mulher de Tigh, que ele mesmo havia matado por ser uma colaboradora dos cylons (antes de perceber que ele mesmo era um cylon), então Starbuck é o quê? Depois de analisar alguns restos mortais encontrados na Terra, os cientistas da Galactica chegam à conclusão que o planeta havia sido habitado apenas por cylons (!?), que teriam fugido após o cataclisma nuclear que destruiu aquela civilização. Então quer dizer que as doze colônias que foram atacadas no início do seriado são colônias criadas por cylons? Pior: todos são cylons?

As revelações dos quatro cylons restantes não ajudam a esclarecer as coisas: eles estão vivos há dois mil anos? Então como Adama conhece Saul, por exemplo, desde que ambos tinham vinte e poucos anos? Seriam os cinco cylons finais usados como base de clones humanos que receberiam a consciência destes depois que eles morressem? Starbuck viajou no tempo? Para o passado ou para o futuro? E as profecias de Pítia, que guiaram a tripulação rumo à Terra, que foram escritas há 3.500 anos que, conforme descobrimos, equivaleria ao século XV de nossa era? Foram escritas por quem, pelos maias? E esse monte de nome grego, vem de onde?

E é engraçado ver como, na reta final, o programa tem ganhado uma respeitabilidade além do meio de ficção científica ou mesmo do mondo pop. A Salon publicou um guia para quem quiser entender a série, a Variety publicou uma longa matéria explicando, com declarações de especialistas em diferentes áreas (religiao, política, forças armadas, ciência, ética) para justificar a importância do seriado (como se ser bom não fosse suficiente), além de render coberturas aprofundadas em mídias que já vinham cobrindo o seriado (como entrevistas com intérpretes cruciais no episódio de sexta no LA Times e no Sci Fi Wire – mas o grande trunfo é da blogueira/colunista do Chicago Tribune, Maureen Ryan, que entrevistou ninguém menos que Ron D. Moore depois do episódio ir ao ar), como discussões acaloradas entre os fãs (o site Tor.com, por exemplo, colocou quatro de seus repórteres para debater o episódio mais recente, que repercutiu em inúmeros posts de blogs por aí – que, por sua vez, rendem ainda mais discussões nas áreas de comentários).

Como se a reta final de Battlestar Galactica pudesse antecipar o que vai ser a reta final de Lost. E a julgar pelos acontecimentos deste episódio de sexta, acredite: vamos ir mais fundo na esquisitice em BSG. Só esse primeiro episódio da safra final já cogitou clonagem, viagem no tempo, teletransporte, imortalidade e o dilema existencial robô sobre toda humanidade, bastiões da ficção científica que nunca haviam sido sequer citados no seriado de Ron Moore. E a falta de ação durante este Sometimes a Great Notion me lembra a ansiedade e impaciência ao subirmos em uma montanha russa – com a revelação final funcionando apenas como a sensação que temos que, a partir daí, começou.

Assistir ao final de Battlestar Galactica em tempo real – ainda mais com uma audiência globalizada – é um privilégio que pode prenunciar uma mudança drástica na forma em que encaramos o entretenimento moderno. Não estamos falando apenas de uma novela ou de uma sitcom, mas um seriado que, ao mesmo tempo em que faz comentários em diferentes níveis sobre a atualidade e a condição humana simultaneamente, questiona a própria razão de estarmos assistindo a uma história de ficção, enquanto nos apresenta possibilidades surpreendentes a cada passo. Se o final de Sopranos já havia sido um baque (literal) na expectativa do telespectador, o final de Battlestar Galactica e, por conseqüência, de Lost, concluirão um movimento que diz tanto respeito às novas formas de narrativa quanto aos temas mais importantes para a audiência e saídas econômicas para a sobrevivência em um mercado digital.

E sexta-feira temos mais um: The Disquiet that Follows My Soul. Aí faltarão apenas oito episódios para tudo acabar.

“So say we all”.

Falando disso, desenterrei esse texto aí embaixo, que escrevi quando o disco fez dez anos.

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O mundo esperava por aquele disco. Depois de tomar o mundo de assalto com canções grudentas e atitudes inesperadas, aqueles moleques pararam de excursionar e se enfurnaram no estúdio. Era o momento da verdade: pra muitos, eles não passavam de uma armação, de um golpe de marketing; pra outros, haviam esgotado sua criatividade. Até que no mês de julho do verão do amor eles desvendaram o disco que dividiria o mundo em duas partes – antes e depois de…

Não, não estamos falando de Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, apesar do parágrafo acima se encaixar perfeitamente na situação dos Beatles antes do lançamento de seu disco mais emblemático. Os moleques desta história não são quatro e sim três: Michael Diamond, Adam Horovitz e Adam Yauch, três nova-iorquinos conhecidos pelo mundo como Mike D, Ad-Rock e MCA. Os Beastie Boys têm mais em comum com os Beatles do a vizinhança na ordem alfabética.

Como os Beatles, os Beasties eram brancos invadindo um terreno negro e se apropriando deles sem impor sua brancura. Não foram apenas os primeiros rappers brancos: foram os primeiros a serem reconhecidos e festejados pela comunidade negra. Apesar de começarem como uma banda de hardcore, abraçaram o rap de brincadeira – em Cookie Puss – e descobriram, quase por acaso, o vasto campo inexplorado que era o gênero que, na época, não tinha nem dez anos de existência.

Como os Beatles, assustaram o mundo com seu comportamento iconoclasta e humor peculiar. Mas enquanto os quatro de Liverpool vinham com cabelos compridos demais para época, desconcertando jornalistas com respostas nonsense, o trio de Nova York agrediam os brancos ortodoxos ao entrarem no gênero do submundo como opção artística, chocando jornalistas com respostas malcriadas, cheias de palavrões e sexismo. Enquanto os Beatles deixavam pais de cabelos em pé ao pedirem para suas filhas segurarem suas mãos, os Beasties pediam para outras filhas segurarem outra coisa.

Misturando rap com heavy metal, eles transformaram o rap em algo realmente grande. Apesar do Run DMC ter investido na mesma fórmula em 85 e 86 (com o disco King of Rock e depois com “Walk This Way”, ao lado do Aerosmith), o som dos Beastie Boys era inteiramente calcado na fusão acima e ganhou público graças a dois pontos básicos: eram brancos e eram do contra. Logo, o que para eles era apenas o diário de suas adolescências se tornara o guia das festas colegiais pelo planeta. Seu hino era sua razão de existir: Você tem que lutar pelo direito de se divertir (“You Gotta Fight for your Right to Party”).

Licensed to Ill, lançado em novembro de 1986, foi um dos discos de estréia mais vendidos de todos os tempos e continua sendo, convertendo novas gerações ao niilismo boca-suja do início da carreira do trio. Com o sucesso do disco, produzido por um dos donos da gravadora Def Jam, Rick Rubin (que muitos achavam ser a mente por trás do sucesso do grupo), o trio entrou numa imensa turnê, que só terminaria dois anos depois. No meio do caminho, um palco decorado com um pênis gigante inflável e garotas enjauladas, vários hotéis destruídos, processos e protestos, uma briga feia com os tablóides ingleses, palavrões, festas e orgias, cerveja, drogas, provocação, barulho e muita confusão. Era o espírito de excesso do rock numa banda de rap.

Mas chegou uma hora em que toda farra cansou. O contrato com a gravadora deles não os interessava e a Capitol pagou a multa para tê-los em seu elenco. Perseguidos pela mídia – atrás de declarações bombásticas -, pela direito – atrás de seus pescoços – e pelo público – atrás de mais ultraje e festa -, pediram água e tempo pra descansar. Saíram de Nova York e foram pra Los Angeles, só pra curtir. Sem compromissos ou cobranças, aproveitaram o sol californiano para renovar as baterias. Enquanto relaxavam, pensavam como poderiam voltar a fazer barulho sem as encrencas que haviam se metido. Até que Matt Dike, produtor do rapper angeleno Tone Loc, lhes entregou a chave – dentro de uma fita.

Na fita, dois DJs locais, John King e Mike Simpson, desfilavam canções compostas apenas de pedaços de músicas alheias. Como os Beastie Boys, John e Mike – os Dust Brothers – eram branquelos com dois pés no suíngue negro e tinham uma reputação que ascendia à medida que tocavam em festas de faculdade. E com apenas duas músicas, que mais tarde se tornariam “Hey Ladies” e “Car Thief”, eles acederam a lâmpada sobre a cabeça dos três MCs. Qual foi a surpresa ao ver seus três ídolos entrando em seu estúdio: “Gostamos disso, podemos cantar por cima?”, perguntaram aos dois. King e Simpson se olharam, reconheceram o sorriso preso no olhar um do outro e viraram ao mesmo tempo para os três com um “claro!” dentro de uma risada. Eram fãs dos Beastie Boys e trabalhar com eles era como trabalhar com, bem, os Beatles.

Ali começava Paul’s Boutique. Ao perceberem a afinidade com os Dust Brothers, o disco ia saindo quase naturalmente: os Beasties cantavam e sugeriam paisagens sonoras aos DJs que sugeriam imagens aos Beasties. Um processo de colaboração mútua nos estúdios mais caros de Los Angeles, supervisionado pelo futuro George Martin do trio, o brasileiro Mario Caldato Jr., entre partidas de pingue-pongue, fliperama e sinuca – tudo por conta da gravadora. Ao mesmo tempo em que tentavam se livrar da imagem de sexistas retrógrados que haviam passado erroneamente pra todo seu público, levantavam os pilares de seu império cool que regeria parte dos anos 90.

De todos os discos que se pretenderam a alcançar o título de “novo Sgt. Pepper’s”, Paul’s Boutique é quem chega mais perto do disco clássico dos Beatles. As referências cuspidas pelos Beasties e pelos Dust Brothers são um leque de contracultura tão amplo quanto o do disco de 1967, só que com mais minúcia e informação, como pediam os novos tempos. E o fato de ambos haverem sido lançados nos verões do amor de suas gerações – os Beatles lançaram na nascente do movimento hippie, os Beasties na aurora das raves – não é uma mera coincidência.

Ambos discos são festas memoráveis, cheias de gente conhecida. Como os Beatles na capa de Pepper, os Beastie cantavam e sampleavam celebridades de diversas fontes diferentes, criando um novo cânone a ser seguido. Mas ao contrário de Pepper, Paul’s Boutique não começa com uma festa, nem com a banda fingindo ser uma outra banda (no caso dos Beatles, a Banda do Clube dos Corações Solitários do Sargento Pimenta). Começa manso, com apenas o teclado de “Loran Dance”, do funkeiro Idris Muhammad, sob uma homenagem a todas as garotas do mundo – do Brooklin, da França, orientais, brasileiras, suíças, italianas, jamaicanas, dançarinas de topless e aeromoças voando por todo o planeta. Cool e suave, “All the Girls”, precede a típica apresentação rapper que é “Shake Your Rump”. Todo o hard rock foi limado do primeiro plano e o que ouvimos é o velho funk sendo retrabalhado com as músicas do comecinho do rap, enquanto o grupo marca sua volta em grande estilo, disparando referências das mais diferentes: Afrika Bambaataa, passos de discoteca, a família Dó-Re-Mi, bairros de Nova York, Bob Marley, talk shows, Funky 4 + 1, Led Zeppelin, Sugarhill Gang e Fred Flintstone. “Eu sou Mike D e voltei dos mortos”, canta o MC desmistificando um boato que explicaria a demora para o segundo disco ser lançado, “fiz outro disco porque queriam mais disso”. Ad-Rock emenda explicando a vida conturbada do sucesso, “correndo da lei, da imprensa e dos pais”.

O vento que abre “One of These Days” do Pink Floyd, a percussão de “Momma Miss America” (tocada por Paul McCartney) e a guitarra de David Bromberg (em “Sharon”) constróem a base para “Johnny Ryall”, a história de um mendigo que acha que foi um astro do rockabilly, que “bebe onde está deitado, coberto de moscas” e que “diz que escreveu Blue Suede Shoes”. Citando “Helter Skelter”, dos Beatles; “Night Train”, de James Brown; e “Maggie’s Farm”, de Bob Dylan, “Johnny Ryall” desacelera o ritmo das canções e mostra que os Beastie Boys estão em outra fase.

O primeiro grande momento do disco, “Eggman”, nasce da introdução de “Superfly”, de Curtis Mayfield, e, usando uma série de referências a ovos (“quem veio primeiro, o ovo ou a galinha?”, “Humpty Dumpty era um grande ovo/ Estava brincando no muro e quebrou sua perna”, “O ovo, símbolo da vida”, “Quando eu falo em dúzia você sabe do que eu estou falando”) contam a história de um de seus passatempos favoritos durante as gravações: jogar ovos nas pessoas. A base, um funk pesado e firme construído sobre músicas dos outros, pode ser entendido como um dos primeiros big beats a serem gravados, influência declarada dos Chemical Brothers e de Fatboy Slim. Ao final, um achado: casando os temas do filme Tubarão e Psicose, os Dust Brothers criam um desfecho memorável para a faixa.

“High-Plains Drifter” tirou seu título de um velho Western com Clint Eastwood e sua letra a la Easy Rider (que conta a história de um sujeito atravessando os Estados Unidos de carro, sendo preso e solto logo depois) contrasta com o clima lento e soturno da base, que mistura “These Shoes”, dos Eagles, com “Put Your Love (In My Tender Care)”, da Fatback Band. O rap lento tem o clima oposto ao rap hippie do De La Soul e não é difícil descobrir que os pais do trip hop – Massive Attack e Portishead, principalmente – beberam desta fonte.

“Sounds of Science” pela primeira vez na história, trata o rap como uma ciência. “Aí vamos nós derramando ciência por todo lado (…)/ Expandindo os horizontes e os parâmetros/ Expandindo as rimas de MCs amadores idiotas”. Citando Galileu, Benjamin Franklin, Isaac Newton, Einstein, eles cantam sobre “um grau de MC que não se aprende na faculdade”. A primeira parte, quase uma canção infantil, é apimentada com os blips de “Walk from Regio’s”, da trilha sonora de Shaft, de Isaac Hayes. A segunda, rouba a bateria de Ringo Starr da faixa-título de Pepper e a base de “The End”, dos Beatles, para acelerar o andamento: “Tenho ciência pra qualquer ocasião/ Postulando teoremas e formulando equações”.

“3-Minute Rule”, outro pré-trip hop, não tem uma história, foi improvisada no estúdio, deixando os três à vontade para falar sobre o que quiserem sobre a base de “Take the Money and Run”, da Steve Miller Band. Mike D começa gabando-se sobre sua desenvoltura com mulheres – “nunca durmo só porque o Jimmy é como um imã” – e de sua precisão – “A gramática não é perfeita, mas o timing sempre é”. MCA – na época obcecado por armas – não perde tempo: “estou com o cano no seu pescoço/ O que você vai fazer?” e começa a falar sobre suas viagens de moto e afins: “Fumo maconha (que eles chamam de “cheeba”) sim, ajuda meu cérebro/ Posso ser meio maluco mas não sou insano”. E explica-se pros pais – “Muitos pais pensam em mim como um vilão/ Estou só curtindo, como Bob Dylan”. Ad-Rock une os dois falando de motos, garotas e de comportamento errático: “Se sua vida precisa de correção não siga o meu rumo”. Interessante o tipo de abordagem que eles dão às mulheres: não são mais apenas objetos, são pessoas pra quem eles pedem desculpas e desdenham. Os garotos estão crescendo e a maturidade que se tornaria sua marca registrada no futuro dá as caras.

“Hey Ladies”, mais um big beat, mistura funks dos Commodores, Cameo, Kool & the Gang e P-Funk All-Stars numa celebração dos anos 70, e, apesar do tema principal ser mulheres, prefere falar das artimanhas da conquista do ponto de vista deles, num outro grande momento do disco. Em seguida a vinheta hillbilly “5-Piece Meal” (o banjo e a rabeca de “Shuckin’ the Corn”, de Eric Weissberg, acompanhados de gritos de caubóis e índios) antecede a pesadaça “Looking Down the Barrel of a Gun”, um rap construído sobre uma guitarra truculenta que pode ser considerado pai do chamado new metal – de Deftones a Korn -, tanto que quase foi regravado pelo Sepultura em Roots. É a faixa mais violenta do disco, citando Laranja Mecânica, Rambo, Duro de Matar, o serial killer Son of Sam e calibres 22.

A dobradinha “Car Thief”/”What Comes Around” se aproxima do final do disco em outro ancestral do Massive Attack. “Car Thief” enfileira as drogas usadas pelo trio: biscoitos de haxixe, cigarros com cocaína, ecstasy e maconha (“eu não compro, eu planto”) sobre uma base que mescla “Rien Ne Va Plus”, da Funk Factory, e “I Bet You”, do Funkadelic. A virada da batera de “Moby Dick”, do Led Zeppelin, encaixa “Car Thief” em “What Comes Around”. Num clima “aqui se faz, aqui se paga”, eles falam de garotas, skinheads, “colher o que plantar” e respeito, afinal “o teto de um homem é o chão do outro”.

“Shadrach” é a última faixa propriamente dita. Alicerçada em “Booty Loose”, do Sly & Family Stone, ela volta a celebrar os próprios autores, ao citar os personagens bíblicos Shadrach, Mesach e Abednego, que foram salvos do fogo pela própria fé – “Três MCs e estamos indo”. Parente direta de “Shake Your Rump”, “Shadrach” encerraria Paul’s Boutique em grande estilo, se eles não insistissem em colocar todos os melhores momentos.

Daí surge “B-boy Bouillabaisse”, logo depois de “Ask for Janice” (uma espécie de comercial de rádio para a Paul’s Boutique, uma loja que não existe), que reúne, como o lado B de Abbey Road dos Beatles, várias canções curtas – raps crus em sua maioria – numa grande caldeirada, como insinua o nome. Ela começa com a sacana, “59 Chrystie St.”, passa pela caseira “Get on the Mic” (com bateria vocal e samples do pré-rapper Lovebug Starsk), entra no funk lento de “Stop that Train”, chega ao auge no excelente tour-de-force de MCA (gravado no microfone de um capacete de piloto de guerra) em “A Year and a Day”, reduz à velocidade na pré-gangsta “Hello Brooklyn”, recupera o fôlego em “Dropping Names” e segue intacta na cavalar “Lay it On Me” e na direta “Mike on the Mic”, encerrando suas atividades na despedida que é “A.W.O.L.”, que termina sem firulas dando boa noite a Amsterdam. Não precisa ser nenhum expert pra entender porquê. No finzinho, o teclado de “All the Girls” volta pra encerrar como o disco começa.

Um épico rapper, ele mostra que o grupo estava cheio de idéias e não queria desperdiçar nenhuma delas – e falam disso o disco todo: “Minha mente está borbulhando como um poço de petróleo”, “tenho mais histórias que J.D. Salinger”, “as palavras fluem como se estivesse no Grand Canyon”, “tenho mais ações que (a companhia de advocacia) Jacob & Meyers”, “tenho mais rimas que as mangas na Jamaica”. Paul’s Boutique é repleto de informações diferentes e, mais importante, amadurece a banda à força. Talvez por isso o público não entendeu e o disco não vendeu o tanto quanto se esperava. O que foi ótimo: sem a cobrança da gravadora, eles montaram seus próprios estúdio, gravadora, revista e grife de roupas, juntando nomes tão diferentes quanto Atari Teenage Riot, Sean Lennon, Luscious Jackson e DJ Hurricane embaixo de seu teto, criando seu próprio pequeno império. E se formos prestar atenção (trip hop, big beat, ecstasy, revival dos anos 70, samples em profusão, citações fora de contexto, ecletismo, gêneros diferentes colidindo e dando origem a outros novos, o rap como cimento musical e muito mais coisas – basta caçar), vemos que o clichê “à frente de seu tempo” se encaixa como uma luva no disco. Paul’s Boutique pode não ter sido reconhecido há dez anos, quando foi lançado, mas hoje é claramente um marco. O Sgt. Pepper’s do século 21.

Calma, que isso é fake – ainda.

Daqui a pouco teremos o primeiro anúncio de uma nova série de produtos da Apple que não contará com a presença de Steve Jobs e a boataria sobre os motivos da ausência do fundador da empresa no tradicionalíssimo discurso na MacWorld em janeiro que ele teve de escrever uma carta aberta ontem explicando os motivos que obrigaram-no a se ausentar da feira esse ano:

As many of you know, I have been losing weight throughout 2008. The reason has been a mystery to me and my doctors. A few weeks ago, I decided that getting to the root cause of this and reversing it needed to become my #1 priority.

Fortunately, after further testing, my doctors think they have found the cause—a hormone imbalance that has been “robbing” me of the proteins my body needs to be healthy. Sophisticated blood tests have confirmed this diagnosis.

“Desequilíbrio de hormônios” que muita gente vem especulando ser eufemismo pra câncer, mas Jobs não toca no assunto.

Enquanto isso, cresce a boataria sobre o que pode ser o grande anúncio da empresa para 2009. As apostas incluem a ampliação do sistema de entretenimento digital que a empresa aos poucos está montando ao redor do iTunes (linkando Apple TV, locações digitais de filmes e seus portáteis numa mesma experiência), o anúncio do fim do DRM nas faixas vendidas via iTunes, servidores de mídia com conexões sem fio, a entrada da empresa na área de software online e o lançamento de um novo tablet, criado a partir do sistema operacional do iPhone.

Eu aposto em dois itens: um Mini Macbook, que seria versão da empresa para os netbooks/mininotebooks que começaram a desequilibrar o mercado em 2008, e o iPhone Nano aí em cima. O pequeno notebook já era especulado antes mesmo do lançamento do Macbook Air na Macworld em que fui no ano passado e alguns jornalistas com que conversei comentavam que o próprio Air tinha sido uma solução feita às pressas para apresentar um produto novo que combinasse a miniaturização do hardware Apple e os ataques que ecologistas fizeram à empresa. Que seria um meio-termo entre o Macbook e esse subnotebook que a empresa lançaria agora – reempacotando o produto da forma que só eles sabem fazer. Foi assim que, com o iPod e o iPhone, eles transformaram o MP3 player e o celular em itens que não eram apenas ícones de status, mas de cooleza, “mudernidade”. O iPhone Nano, que seria uma versão mais simples e mais barata para o telefone da Apple, já estaria sendo fabricado na Chinaenquanto versões fakes começam a aparecer antes mesmo do produto existir (que mundo lóki!).

Tudo isso porque a Apple está em uma bela sinuca de bico. Afinal, ela sempre se orgulhou em ser uma empresa de nicho e que esse pequeno e fiel séquito lhe garantiria o status necessário para se manter no mercado. Mas a partir do momento em que o iTunes, o iPod e o iPhone começaram a lhes dar o gostinho da popularidade global em escala massiva, a empresa parece ter gostado da brincadeira e está disposta a entrar no mercado. Afinal, por maior que seja o sucesso do iPhone, ele não chega nem perto das centenas de milhões de telefones que produzem, cada uma das cinco principais fabricantes do mercado (Nokia, LG, Samsung, Motorola e SonyEricsson). E também não custa lembrar que o sucesso do iTunes se deve à miopia administrativa do setor fonográfico. Idéias, a Apple tem. Resta saber se tem fôlego para brigar com os grandes.

Vamo facilitar?

Taí uma boa dica pra 2009 *

E aí, descansou? Eu sim – cinco dias completamente desplugados no meio do mato, alternando caminhadas, refeições, música, filmes e livros ao lado da melhor companhia do mundo, completamente zerado para começar mais um ano que promete, pra variar, ser melhor que o anterior. Alheio ao que acontecia na Faixa de Gaza, se vai rolar mesmo o lançamento de Watchmen ou como vai ser a próxima Campus Party, retomo a realidade na marra e começo os preparativos para encarar o ano novo.

OEsquema chegará ao fim de sua primeira fase em breve. A casa que estou construindo com o Bruno, o Arnaldo e o Mini, por sua natureza digital, não pressupõe necessariamente um fim em si – nem sequer sua natureza unicamente digital. Mas essa versão dos nossos quatro saites que estreou no dia 8 de agosto do ano passado não teve o nanquim aplicado por enquanto. O conteúdo propriamente dito já está valendo, mas a moldura ainda é um rascunho, um esboço. Estamos finalmente arte-finalizando OEsquema neste mês e logo estrearemos sua nova cara. Não é muito diferente dessa que vocês estão vendo, mas os detalhes estarão na cara (seria mais fácil meter um “fase beta” debaixo do logo, mas achamos besteira.

E essa não vai ser a única novidade dOEsquema no ano, fiquem certos.

Mas, por enquanto, vou acionando as novidades do meu terreno. Então segue um mashup de bula com manual de instruções do Trabalho Sujo durante 2009. Todos os dias, de segunda a sexta, funcionarão assim: pela manhã eu trago músicas e imagens. É claro que sempre pode pintar um texto, uma notinha, um post aleatório. Mas como neguinho ainda tá acordando pela manhã (independente de estar ou não no trabalho), vou deixar o clima mais na buena e exigir menAs cacetração. Então tome mixtape, trocadilho visual, gif animado, banda nova, fotojornalismo sampleado, JPG motivacional, remix, pôsteres, disco que vazou, fotos antigas, música lembrada em cima da hora, Flickr alheio, estampa de camiseta, nostalgia e novidade. Nada com horário estabelecido ou fluxo de publicação determinado – tem que vir pra ver.

Durante a tarde e a noite começam a pintar os textos, que tentarei deixar mais compactos e direto ao ponto – desde resenhas de filmes, discos, quadrinhos, livros e shows a comentários aleatórios sobre as notícias, o que acontece em São Paulo ou por onde passo. Mas é claro que não abandono os textos gigantescos – vocês sabem como eu gosto deles. Mas, uma vez que estou enfurnado cinco dias por semana em uma redação, não dá tempo de discorrer demais – daí os posts curtos. Os mais longos ficam arquivados na categoria Fora de Controle (caso você nao saiba).

E lembrando também que rolam algumas mudanças na programação semanal, ó só:

* Toda segunda-feira eu sigo linkando as matérias do Link, caderno de tecnologia e internet que edito no Estadão. Vem novidades nessa área ainda esse mês, já pra começar o ano bem.

* Vida Fodona agora é toda segunda-feira e a a partir de hoje mesmo eu já começo.

* Toda terça-feira tem os Cinco Vídeos para o Meio da Semana.

* Quarta, que era o dia original do Vida Fodona, continua com versões esporádicas do podcast. Quando der vontade, ele volta no meio da semana. Mas, junto com a quinta-feira, a quarta vira um dia de improviso. Rola o que der na telha, o que estiver rolando durante a semana, a mania da quinzena, o exorcismo que precisar.

* Sexta-feira tem o já clássico Uma Sexta-Feira, Um Mashup.

* Sábado vira dia de folga: a Mixtape de Sábado vai para o domingo e eu só apareço por aqui se me der na telha – ou quando tiver Gente Bonita.

* Domingo é dia de Palavras para o Domingo e da antiga Mixtape de sábado. Como as duas seções passarão por transformações, elas devem ganhar novos nomes e formatos, que eu defino até o domingo que vem. E também é dia do Link Eldorado, o programa que apresento com o Fabião e o Otávio as novidades do Link da segunda-feira.

Lembrando que estou no meio da retrospectiva de 2008, que a partir de janeiro sai dos discos e músicas e começa a compilar shows, livros, filmes e acontecimentos do ano passado. Além disso, vou resgatar uma seção que eu tinha no Trabalho Sujo dos tempos de papel, o Alerta – Sangue Novo, em que eu apontava o nascimento de bandas brasileiras novas (a primeira foi o Sala Especial, mas lembro de ter falado do Los Hermanos, do Butchers’ Orchestra, do Autoramas e do MQN, entre outras bandas). Fora o compromisso com o passado: além de resgatar o primeiro semestre de 2008 (que perdeu-se no transplante do Gardenal pra casa nova), vou começar a retaguear e a recategorizar tudo que ficou para trás – além de ressuscitar textos do arco da velha. Mas isso é um processo lento, longo e sem prazo definido – pois ainda incluirá todas as edições impressas do Sujo em seus tempos de coluna de jornal.

Seções fixas – como o Leitura Aleatória (que aparecia a cada dez posts – ou você não havia percebido?) e o 4:20 (que vai parar de funcionar no fim de semana) – deixam de ser tão rígidas assim. E outras surgirão no meio do caminho. Essa é mais ou menos a programação pra esse ano.

Desde o final de 2007 retomei o ritmo de postagens no Sujo a partir de uma provocação do Mr. Manson em relação à qualidade dos blogs. A alfinetada, que faz sentido, dizia que blog bom é feito por quem não tem mais nada pra fazer – na hora em que o blog virava emprego, ficava chato e sem graça. Resolvi transformar o tempo que passava na frente do computador na redação em uma forma de voltar a alimentar o Sujo, que vinha funcionando mais como um repositório de frilas, matérias, festas, debates e palestras que eu andava fazendo do que um canal com conteúdo próprio. Muito por conta do crash do Gardenal em 2005, que deletou três anos de postagens da história e, de certa forma, foi o big bang dOEsquema. Quando eu, Bruno e o Arnaldo perdemos tudo naquele blecaute digital, já começamos a conversar sobre a possibilidade de sairmos do aluguel (mesmo que o Gardenal não fosse pago) e montarmos nossa própria casa, que é OEsquema. Desde 2005 não me empolgava com o Sujo quanto no último ano – período que, além da perda dos arquivos do Sujo, ainda coincidiu com a minha estada na Trama e com a morte do meu velho carrinho, que, olhando agora em perspectiva, foi crucial para o nascimento do Vida Fodona e da Gente Bonita, minhas paixões nos últimos anos.

Mas 2008, o décimo terceiro, foi ano de retomar o Sujo, entender e inventar mecanismos de postagens e transformar o saite em mais do que uma vitrine para o meu trabalho. Hoje, ele é uma ferramenta que me ajuda a pesquisar o que está acontecendo; me obriga a me atualizar em áreas que, se eu deixasse, fugiriam do meu radar; me conecta inevitavelmente com algumas das pessoas mais legais hoje em dia e, óbvio, me diverte.

E é isso que importa. Por isso, não leve tudo tão a sério – é uma dica que serve pra qualquer hora.

E feliz 2009. Você sabe, vai ser “o” ano!

* A imagem que ilustra esse post saiu do livro/site Designing Interactions, do Bill Moggridge, um livro que acho que o Mini e o Eduf iriam adorar se dar de presente.

“Soooomewheeeeere ooover the raaaainbooow…”

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Fora todo o papo ético, econômico, legal e criativo ao redor do lançamento de In Rainbows, o disco que o Radiohead disponibilizou ao público em versão digital, há uma questão semântica que, pela banda, parece estar mais bem resolvida do que com a gente, os ouvintes. Logo depois que o disco deu as caras era muito comum ouvir as pessoas falarem que “a banda vazou o próprio disco”, como se não só em MP3 não estivesse valendo. O grupo cutucou ainda mais essa ferida ao programar o lançamento de In Rainbows em CD para o primeiro dia de 2008. De que ano é esse disco?

É claro que In Rainbows é de 2007. Mesmo se a versão física lançada pela banda chegasse para os fãs depois de janeiro, o disco tornou-se conhecido e ouvido no ano passado. O próprio Radiohead mais uma vez reforçou a datação de In Rainbows ao tocá-lo na íntegra em um show transmitido na noite de ano novo pela internet – não era uma apresentação ao vivo de um disco que ainda não existia fisicamente e sim a consolidação de um disco que existira até ali sem precisar do CD.

Em matéria de Radiohead, nenhuma novidade. O grupo foi protagonista do primeiro grande incidente envolvendo música digital, quando Kid A apareceu primeiro na internet (no Napster) e depois nas prateleiras de disco, no ano 2000. E o disco em questão não era nenhum arco-íris: Kid A é daqueles álbuns que frustram o fã por pular no abismo do experimentalismo. No holofote da expectativa, o Radiohead conectou-se com as principais vanguardas sonoras da virada do século e, quando apareceu primeiro na internet, parecia pegadinha. Muitos duvidaram se aquele era o disco de verdade, podia ser só uma gozação da banda. Não era. Kid A chocou ortodoxos, revoltou estreitos e encantou uma geração inteira de ouvintes que deixou-se levar pela viagem da banda.

Em 2007 o grupo repetiu a pegadinha, desta vez invertida. Foi indubitavelmente a banda quem avisou que o disco havia saído de sua esfera privada para a pública, algo que inevitavelmente aconteceria em alguma etapa do processo de transformação da música em uma rodela chata prateada. Entre o estúdio e a prateleira da loja, o disco passaria por inúmeras mãos – muitas delas de fãs do grupo, outras recebendo dinheiro para contrabandear o material. Qualquer um – no próprio estúdio, na fábrica de discos, na distribuidora, em qualquer etapa do marketing do novo álbum até na loja. Como sentira na pele há sete anos, o grupo sabia que era questão de o disco ficar pronto para que ele atingisse o ouvido público.

Por isso, o Radiohead foi na contramão. Preferiu ele mesmo dar o disco para os fãs, pois estes, independente de comprarem ou não o disco, iriam baixar qualquer registro inédito do grupo que parecesse ser novo material. Como já estava: todo o In Rainbows era composto por músicas que o Radiohead já trabalhava há anos e logo em que a seleção das faixas foi anunciada já era possível montar o clima do novo disco sem sequer ter o ouvido – apenas enfileirando corretamente vídeos caseiros da banda em turnê. Quando o disco de verdade apareceu (dia 10 do 10, 10 dias depois de ser anunciado, yadda yadda yadda) apenas confirmou a expectativa – e, como um efeito dominó, cópias eram feitas dos arquivos originais para armazenadores online de MP3s espalhados pela internet. Para baixar o disco, o grupo pedia o preenchimento de um minicadastro e, uma martelada doída no caixão da indústria do disco, sugeria que o público pagasse pelo disco. A provocação (ao mercado, à indústria, aos fãs, às outras bandas) era clara: “eu sei que você vai baixar o disco de qualquer jeito, mas se você quiser nos dar uma grana, não vamos achar ruim”. E pela primeira vez, podiam medir os downolads!

E, tanto em Kid A quanto em In Rainbows (mas não em Hail to the Thief, que contou com o marketing tradicional), o resultado do fato do grupo ter se beneficiado graças à internet foi consolidado com a chegada ao topo de algumas das principais paradas de discos mais vendidos pelo planeta.Tanto em 2000 quanto em 2007. Simplificando grosseiramente, os discos foram “testados” pelo consumidor antes de serem comprados. “Dados” ou “roubados”, dependendo do ponto de vista.

A gratuidade da música com a era digital é fato. Basta digitar o nome de qualquer música em programas ou buscadores específicos na internet que você vai encontrar. O mesmo pode ser dito sobre filmes, programas de TV, quadrinhos e livros, mas em escalas menores. Música, eu já disse, é o boi de piranha das transformações. É quem encabeça primeiro os tremores de mudanças sociais e, inevitavelmente, acaba sofrendo com isso. O Radiohead resolveu pagar pra ver – ou pedir pra você pagar, feito o moleque das Casas Bahia – se sentia a dor na pele.

Não sentiu – pelo contrário. Saudado como líder da nova revolução eletrônica, o grupo fez um disco irrepreensível – e idêntico ao disco esperado pelos fãs desapontados com Kid A. Convencional e correto, In Rainbows é orgânico em sua natureza e ousado na medida certa, sem exageros. E a reação dos ouvintes também foi inversa: se Kid A espantava, In Rainbows atraía. Muita gente foi ouvir Radiohead com atenção pela primeira vez graças ao marco autodeterminado pelo grupo. E, além disso, muita gente foi baixar música da internet pela primeira vez graças a In Rainbows.

É sério. Tem muita gente que vive completamente alheia à música digital e que trata o mundo de MP3, iPod e MySpace como uma alucinação coletiva ou uma grave debandada das pessoas para a ilegalidade. Com uma propaganda alarmista para tentar evitar uma crise anunciada desde os anos 90, a indústria de entretenimento conseguiu impregnar no imaginário das pessoas a idéia de que baixar conteúdo pela internet consistia em crime. Meu amigo BNegão não vai ligar se eu roubar uma anedota que aconteceu com ele que ilustra perfeitamente esta situação. Um dos primeiros artistas brasileiros a colocar seu disco inteiro para download (o ótimo Enxugando Gelo, se você não conhece, baixe agora), Bernardo recebeu um email de um fã que, morador de uma cidade pequena, não conseguia achar o tal disco para comprar. Ele nem pestanejou e retrucou o email com o link para o site do Centro de Mídia Independente, onde BNegão hospeda seu disco. Mas o sujeito do outro lado não ia baixar o disco, porque “baixar música da internet é prejudicial ao artista”. Posso estar me esquecendo de algum detalhe, mas a essência da história é essa.

É claro que há hierarquias e perfis entre os que baixam música. Há o que baixa os hits da hora usando um programa de P2P – onde também troca games e filmes – e o que fuça blogs de MP3 em busca de artistas desconhecidos. Gente que, mesmo que o artista não deixe sua música para download; liberando só o streaming, vai lá e consegue extrair o áudio na unha. Junkies por torrent que baixam discografias inteiras ou indies meticulosos que incluem até o PDF da capa na pasta de MP3s onde guarda o disco. Gente que troca arquivos via MSN ou que ripa CDs para mostrar para os amigos. São vários hábitos que já existem em relação à música digital e que, por algum motivo idiota, não os consideramos como fato. Não é mais “o que vai ser” – é o que é.

Se você mora em uma cidade com mais de um milhão de habitantes, tem grandes chances de a maioria das pessoas com fone de ouvido na rua estarem levando seus MP3-players portáteis. Com o computador migrando para o telefone celular de vez, será inevitável o dia em que teremos um só apetrecho que tire fotos, ande na internet, fale com outras pessoas e dê para ouvir música e ver filmes (eu quero o meu com isqueiro embutido). E a propalada “inclusão digital” vai estar bem melhor encaminhada…

Por enquanto, estamos exatamente no meio. E quem não usa a internet para ouvir e conhecer música é como uma pessoa que só pode ouvir rádio, mas não pode comprar discos nem fitas: a quantidade de opções, em comparação, é minúscula e você fica a mercê dos outros para ouvir o que quer.

Mas e a música vai ser de graça? “O artista vai viver do que?”, me pergunta sempre um carinha da MPB ou um roqueiro camisepreta. Perguntas ainda sem resposta, mas se você baixa arquivos por um provedor de internet é provável que este seja quem melhor sabe quem está sendo ouvido, lido, assistido. O U2 já fez a sua parte, tornando-se o Metallica dos provedores de acesso ao ameaçar processar todos os servidores que contivessem material pirata do grupo irlandês. Não me assustaria se o final dessa história viesse com um aumento no preço da assinatura à internet no provedor de qualquer um como desculpa de repassar (aham) o valor para os autores das obras. Mas me espantaria se liberassem tudo de graça – que é o único jeito de dar certo na internet atualmente. Mas aí era bem fácil que as pessoas fizessem festas de computador (as famosas Lan Parties) só pra trocar conteúdo entre si. Ou seja: controle? Esquece.

Por outro lado – e as lojas de disco? E os discos? Quanto tempo os discos durarão? Quem ainda gravará discos? Se há um par de anos o fim do CD deixava de ser uma suposição para ser uma possibilidade, hoje é fácil pensar num mundo sem discos. O artista ainda prensa o CD mesmo com a desculpa – plausível – de que o CD é seu cartão de visitas. Mas até quando? Cartões de visita no fim das contas, acabam ficando empilhados e são consultados raramente, quando não jogados fora.

Suspeito que há mais um fetiche do artista em ver sua obra concretizada em algo sólido do que disposição para vender os discos – sequer fazer com que eles sejam ouvidos. Não por falta de vontade na obra do artista, mas por falta de interesse na mídia escolhida. E se isso é visto como um problema para o artista brasileiro (mais do que para o estrangeiro, onde o disco ainda conta com uma sobrevida), eu vejo como uma solução. Sem ter que prensar, vender ou mostrar o disco, o autor poderá focar-se no que realmente sabe fazer. No caso, música.

Marketing Monstro

Cloverfield é muito mais do que parece ser…

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Me amarro nesse tipo de cinema montanha-russa. Não curto pipoca e acho um saco o povo conversando durante a sessão, mas a equação “tela gigantesca + som absurdo + enredos inverossímeis” é um dos principais motivos para eu ainda ir ao cinema – e a maioria dos filmes que me levam para a sala escura são filmes de ação. Não me leve a mal – meus cineastas favoritos ainda vivos são Cronenberg e os irmãos Coen, mas fazem filmes que cabem na tela da TV. Já épicos de som e fúria como este Cloverfield são feitos para serem assistidos no cinema. Esse tipo de cinema de ação é uma das molas-mestras de Hollywood (junto com o sistema de atores-celebridades) e é um dos principais avanços da história recente da sétima arte. A criação, à base de efeitos especiais (tanto em áudio quanto em vídeo), movimentação de câmera e proporções gigantescas, de um parque de diversões para os sentidos que gruda o espectador por toda sua duração na poltrona é, essencialmente, cinema. O filme de ação – filhote do filme policial (que trouxe o faroeste para as ruas de hoje, via Bullit, Operação França e Dirty Harry) com o blockbuster de tirar o fôlego (inventado por Spielberg e Lucas no final dos anos 70) – faz exatamente o que grandes autores do cinema se pretendiam: envolve o espectador com um ponto de vista específico para gerar visões espetaculares. Seus detratores ficam procurando pelo em ovo (atuações? Verossimilhança?) em vez de perceber que isso é acessório.

Tudo isso para dizer que recomendo pacas o monstro Cloverfield, a nova brincadeira de J.J. Abrams, o produtor de Lost. Mas tem que ver no cinema. Tratado como uma evidência de um recente ataque gigantesco à Nova York, ele começa como o registro de uma festa de despedida sendo filmada por um dos amigos de um dos protagonistas para transformar-se em uma fuga pelas ruas de uma cidade sendo destruída por um monstro gigantesco – vocês viram os trailers. Assim, sua cinematografia tem a estética amadora que é tão popular em tempos de celulares que filmam e vídeos caseiros no YouTube – com a pequena diferença que há um monstro em algum lugar destruindo tudo. Daí a correria ser prima das dos filmes de Fernando Meirelles, o pânico ser irmão dos registros das conseqüências de atentados terroristas e a tensão ser sobrinha-neta do Spielberg que dirigiu Tubarão, Contatos Imediatos do Terceiro Grau e Parque dos Dinossauros. Cloverfield é a Bruxa de Blair levado à potência de Jerry Bruckheimer. Não é à toa que as salas de cinema nos EUA estão colocando advertências para avisar gente de estômago fraco que a experiência na telona pode causar efeitos colaterais semelhantes aos de uma montanha-russa. Não é exagero – e isso é um dos grandes méritos do filme.

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Mas, peraê, Cloverfield pelo jeito não é um filme. É um teaser de algo muito maior.

(A partir daqui vou falar de acontecimentos relativos ao filme. Por isso, se você ainda não o assistiu e vai continuar lendo, corre o sério risco de descobrir coisas que não gostaria. Prometo me conter para não entregar o ouro em si, mas não dá pra discutir o que vou falar adiante sem comentar o enredo ou alguns detalhes que, se não chegam a estragar o curso da história, podem tirar a graça de algumas partes do filme. Ou seja: estamos entrando no território dos spoilers. Falando nisso, lembrei de uma história de um cara que foi traduzir um texto para um lugar onde eu trabalhava e no lugar de “spoilers ahead” [uma advertência semelhante – embora mais curta – a esta que estou fazendo aqui] o cara mandou “saqueadores adiante”, uma tradução “to the foot of the letter”. Esteja avisado, vambora. Pra não correr o risco, embace a visão até ver o flyer da Gente Bonita passada.)

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Então, você já ouviu falar em Slusho?

Se você assistiu Cloverfield, sabe que Slusho é a empresa que contratou o protagonista Rob Hawkins (o personagem de Michael Stahl-David) como vice-presidente – justo o motivo da festa de despedida que sua cunhada Lily (Jessica Lucas) organizou e que dá início às filmagens.

Mas Slusho também é uma bebida, lançada em 2005 no Japão. Uma bebida que deixa as pessoas mais felizes e causa uma estranha sensação no estômago – e cuja substância secreta é algo retirado de perfurações no oceano e referido como “néctar do leito do mar”, em seu site oficial. Site que, por sinal, é um freak show fingindo-se de nipomarketing – suas seções beiram o bizarro e personagens bonitinhos e engraçadinhos dizem frases sem sentido aparente.

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A bebida apareceu pela primeira vez em um episódio de Alias, série que também era produzida por Abrams, e já foi vista na mão do elenco de Heroes. Na ComiCon do ano passado, foram entregues várias camisetas da marca ao público. Mas quando visitamos o site da companhia que criou a bebida gelada, a Tagruato, descobrimos que eles pesquisam aceleradores do crescimento celular (?!) e que é uma companhia de perfuração oceânica que descobriu o tal néctar – que é a base da bebida de sucesso (“você não pode beber menos do que seis”, diz seu slogan).

Em paralelo, não há uma linha do tempo definida, pois o ataque do monstro na história não acontece na data da estréia do filme nos EUA (18 de janeiro de 2008) como a campanha publicitária fazia parecer. Não há registro na câmera sobre o ano dos acontecimentos – apenas o dia e mês da gravação. Dia 23 de maio, um sábado. O detalhe é que a próxima vez que esses dias coincidirão será no ano que vem! A destruição da plataforma de perfuração da Tagruaro próxima à Nova York, considerada a primeira manifestação propriamente dita do monstro na superfície (além de um dos mais recentes teasers do filme), também não tem data definida – e da mesma forma pode acontecer no futuro.

E se você já viu o filme, sabe que há uma trama paralela disfarçada de incompetência do cinegrafista. Ao começar a registrar depoimentos dos amigos de Rob para ele levar como um presente de despedida, o amigo Hud (o ator T.J. Miller) usa a mesma fita (engraçado ser uma fita em tempos de gravação digital) que Rob havia usado há pouco tempo para gravar outro evento, pessoal, que tem ligação com a história depois que o monstro ataca a cidade. Vez ou outra, a filmagem falha e vemos trechos do filme que está sendo apagado. E bem no final, a gravação do dia do ataque do monstro termina antes da fita acabar – e assistimos aos últimos minutos do vídeo original, que acontece num parque de diversões. Ao fundo dá pra ver algo vindo do céu e caindo na água. Uns disseram que poderia ser o próprio monstro vindo do espaço, outros dizem que foi um satélite da Tagruaro que acordou o bicho que estava dormindo há milênios no fundo do mar ao cair. Mas alguma coisa acontece ali.

O mesmo acontece no final dos créditos, depois de doze minutos de texto, quando é possível ouvir só um gemido que parece dizer, sussurrando, “Help us”. Mas como nerdismo pouco é bobagem, já houve quem converteu o som de trás pra frente e descobriu que o sussurro, na verdade, diz “It’s still alive!”. Fora a Overture Roar, composição exagerada que encerra o filme, que pouco a pouco vira um pequeno hit de downloads.

Além disso, o site jamieandteddy.com foi criado como um servidor para a troca de correspondências em vídeo do casal Jamie e Teddy. Mas depois de mandar um presente para Jamie, Teddy desapareceu. Em uma série de onze vídeos postados no decorrer do ano passado, Jamie reclamava da falta do namorado, até decidir abrir o presente enviado. Nele, ha uma substância rotulada de “prova número 1” que Teddy avisa para Jamie “não comer” e um celular em que seu namorado manda uma mensagem, em que dizia que aquilo não era uma brincadeira e que ele talvez ficasse um tempo sem dar notícias, para ver como sairia dali. Jamie, com raiva, come a substância e, bem, veja os vídeos. A senha para acessar ao site é “jltovesth” – mas todos eles já estão no YouTube.

Fora perfis no MySpace para os principais personagens, uma série de denúncias anônimas sobre a Tagruato, um sujeito que fala algo em russo com o personagem que filma tudo e um grupo de hackers terroristas querendo sabotar a corporação. As fotos em um dos sites oficiais do filme mostra uma imagem de uma baleia destruída na praia e um cozinheiro apresentando orgulhoso um prato indefinido. Atrás dele, um vidro enorme com um produto branco parece brilhar. Nas costas da foto, uma receita que inclui o tal “néctar do leito do mar” – só que escrita em japonês.

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Tem um certo humor Matt Groening na natureza de Slusho, pois a bebida remete a alguns episódios de seus seriados. O primeiro é o Squishee que Bart e Milhouse tomam puro (para horror de Apu, que vende do mesmo jeito) no episódio “Boy Scoutz ‘N the Hood” da quinta temporada dos Simpsons – Bart toma e a parada bate de um jeito que ele começa a falar mais rápido. E tanto aos salgadinhos Popplers e ao popular refrigerante Slurm (seu slogan é “It’s highly addictive!”) em Futurama. Enquanto os primeiros, depois de um tempo, abrem e se revelam filhotes simpáticos alienígenas, o segundo é a secreção líquida de um monstro gigante (!). Slusho pode não ser gosma de monstro, mas deixa essa idéia no ar (mesmo porque uma das personagens do filme morre um bom tempo após ser atacada – sua barriga explode. E uma das frases no site de Slusho diz que a bebida faz “sua barriga explodir de felicidade”. Que porra…).

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Além disso, temos o monstro, que até agora não foi explicado. Mas há algo humano em seu caminhar – ele se move como uma pessoa andando deitada de costas, só que com a cabeça no meio das pernas. Não ajuda muito o fato do site da Hasbro que anuncia o brinquedo não ter uma foto – e, entre as especificações, dizer que o bicho tem duas cabeças intercambiáveis… Nem que Abrams já ter dito que o monstro age como um bebê (será que tem uma mãe – clichê clássico de filme de monstro – a caminho?)…

E inevitavelmente uma seqüência para Cloverfield já está sendo especulada, mas com um twist. Em vez de uma continuação – para tentar explicar que raios está acontecendo em Nova York, o diretor já falou em uma Cloverfield: Fita B, que aconteceria em paralelo aos eventos do primeiro filme. Reeves até disse o momento em que deixou em aberto para uma seqüência, quando o cinegrafista filma outra pessoa com uma câmera na mão. Pode ser uma intersecção entre os dois filmes.

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Mas as especulações não param aí. Há quem diga que existam relações entre o monstro e a série Lost – a ilha perdida, o evento magnético que fez o vôo 815 da Oceanic cair e até o tal monstro de fumaça poderiam ter alguma relação com Cloverfield. Se alguém contestar sobre o fato da festa de Rob acontecer em 2009 e o vôo Sidney-Los Angeles ter acontecido em 2004, é bom lembrar que o tema viagem no tempo foi sugerido pelos criadores da série logo depois que a terceira temporada encerrou, com um vídeo tutorial da Dharma em que um mesmo coelho aparecia duas vezes no mesmo lugar – isso inclusive joga uma outra luz sobre os recentes episódios da série. E como não dá pra perder o bonde da história, não duvide se J.J. falar no assunto – e criar uma ponte – no próximo filme de Jornada nas Estrelas, que está sob sua supervisão. Exagero? Não custa lembrar que estamos falando do cara que agradeceu à Fundação Hanso (uma das corporações que manipularia a história de Lost) no final de Missão Impossível III, que ele dirigiu (e esse filme ainda contava com uma máquina de destruição chamada “Pé de coelho”). E se o Slusho for o que dá superpoderes aos heróis de Heroes? Não duvide que em pouco tempo haverá malucos indo assistir Cloverfield com In Rainbows no fone de ouvido (a propósito, qual a duração de ambos?).

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Todas essas pistas, dicas, teorias e sacadas de marketing vêm acontecendo desde que o primeiro trailer do filme apareceu, no meio do primeiro semestre do ano passado, quando Transformers foi lançado. Abrams pegou a lógica por trás do marketing de A Bruxa de Blair e aplicou o conceito de contexto à fábrica de hype. Não é mais simplesmente “o novo vem aí”, mas todo um universo recontextualizado a partir do tal novo que vem aí. E isso é uma das principais características do pop atual. Em busca de contexto que (n)os ajude a montar o quebra-cabeças, devotos, fãs e curiosos podem ajudar a desvendar mistérios fabricados para serem complicados. Isso hoje faz muito mais sentido do que simplesmente assistir a um filme ou ouvir um disco. Precisamos de contexto para entender o mundo em que vivemos e todo o bom marketing atual ajuda a construir este (ironicamente, isolando-nos em bolhas de conhecimento infinito, longe da chamada vida real – mas o que diabos é isso mesmo?).

Esse é um dos principais diferenciais da era em que estamos vivendo. O hype serve pra isso – pra contextualizar, pra explicar o que está ao redor da história ou do protagonista, para que não fiquemos presos a apenas um ponto de vista sobre um único assunto. Se Cloverfield tem ou não ligações com Lost, Heroes ou Jornada nas Estrelas não importa, o fato é que estamos vivendo uma época em que as mais estapafúrdias teorias de conspiração merecem um mínimo de atenção. Isso significa que estamos ficando paranóicos? Talvez.

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Philip K. Dick dizia que todos os animais têm uma certa paranóia natural que, por não ser racional, funciona como um sentido de alerta, de vigília, de estar pronto para se defender a qualquer minuto, nem que seja atacando. E que o ser humano, através do conforto que a tecnologia nos provê, perdeu esse sentido. Numa década em que as máscaras estão sendo arrancadas de um jeito ou de outro (e verdades vêm à tona quase sempre de forma agressiva), não custa nada ficar esperto e não aceitar o que lhe é vendido como certo.

Já canto essa bola há uma época: paranóia é precaução.

PS – E é gata, essa Odette Yustman…
PS 2 – Não duvido que tenham uns quatro filmes enfileirados (ou talvez… seis?)

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Laertevisão

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Outro dia o Cadu se perguntava “o que aconteceu com o Laerte?” em referência ao fato do velho cartunista ter abandonado a lógica dos três quadrinhos em sua tira diária na Ilustrada e começado a explorar os limites do formato. O processo foi deflagrado pela morte de seu filho RafaelDaniel,mas tudo indica que a fase terapêutica já passou e Laerte assimilou a nova linguagem como sua. Em vez de colocar personagens conhecidos pra repetir piadas em diferentes pontos de vista, Laerte optou pela criação, às vezes sem sentido, às vezes pesada, limitada pelo espaço de uma tira de jornal – como um tipo de cineasta ao ser confrontado com um novo formato de tela. É como se Laerte tivesse cansado de fazer A Praça é Nossa e tivesse começado a… filosofar.

Comparo essa fase atual do Laerte com a primeira viagem de ácido do Robert Crumb (aquela que fez ele criar todos seus personagens mais conhecidos), só que às avessas (assistimos à abolição do personagem, algo que o Fernando Gonzales domina de uma forma muito pessoal) e em câmera lenta. Acho que ele está indo muito além dos limites do que qualquer artista brasileiro hoje. Nenhum outro conterrâneo – nem Fernando Meirelles, nem o Kassin – está tão ligado á sua própria época e sublinhando isso em sua própria arte do que Laerte. É um privilégio lê-lo todos os dias (já era, mas isso é como assistir às gravações do Bitches Brew).

E essa lógica foi para toda obra atual dele. Das tirinhas no caderno de informática da Folha ao quadrão sobre TV na Ilustrada de domingo. Estes últimos foram reunidos no excelente Laertevisão – Coisas que Não Esqueci, em que mistura memórias muito pessoais com suas lembranças sobre a TV. Fosse o Laerte antigo, veríamos pequenos quadros de comédia de situação no Brasil dos anos 50. Mas como é este novo Laerte, há um espaço para a reflexão e a filosofia (mesmo que infantil, pura) que nos prova que somos contemporâneos de um gênio.

(Como se os Piratas do Tietê já não nos tivessem provado, mas enfim…)

PS – A Carola deu o toque, passei batido – o filho dele que morreu foi o Daniel. O Rafael ajudou ele a organizar o Laertevisão. Mau meu.