Conversar com Tom Zé é um prazer. A forma que ele fala, suas reações e verbalizações são de gente comum, as mesmas destas pessoas simples e felizes (por serem simples) que encaramos todo dia ao andarmos pelas ruas. Mas seu conteúdo é riquíssimo, cita eruditos e populares com a mesma intimidade, pensando com a lógica invertida em relação à nossa e nos mostrando um ovo de Colombo por segundo, como se fosse um mágico. Como sua música, ele é povo e elite ao mesmo tempo, tradição e vanguarda. Um Platão pós-moderno, como compararam os gringos no disco de remixes de seu último álbum Fabrication Defect: Com Defeito de Fabricação (Luaka Bop, importado). É isso mesmo, nem bem nos recuperamos do fato de Tom Zé ser lançado mundialmente MENOS NO BRASIL e o pessoal lá fora já remixou o trabalho do cara. Post-Modern Platus sai em janeiro e traz nomes como Stereolab, Sean Lennon, Cibo Matto, Tortoise e Amon Tobin desconstruindo a música do novo mestre. Trabalho sujo conversou com Tom Zé sobre tudo isso, numa manhã fria e feia dessa primavera esquisita.
Hoje o tempo tá feio, mas espero que chova. Estava colocando esterco nas rosas do jardim daqui, porque pus na segunda-feira e a chuva que caiu não fez ele entrar bem fundo. Com a cara que está o céu, deve cair uma chuva daquelas. Ah, sim. Olha, pra você colocar aí na sua matéria: agora de manhã eu fui contemplado com o Grande Prêmio da Crítica pela Associação Paulista dos Críticos de Arte, pela repercussão do disco no exterior, Fabrication Defect: Com Defeito de Fabricação.
Parabéns. Como você recebe esse prêmio? Como é ver seu trabalho ser reconhecido no exterior antes de em seu próprio país.
Olha, com esse prêmio eu me sinto assim: “Ufa! Sou brasileiro”. É como se meus pais tivessem me acolhido de volta, venci essa luta. Eu acho engraçado, porque falam do meu disco como se eu não fosse brasileiro, como se eu não tocasse apenas baião e samba. Não faço world music, faço música brasileira. Tá certo que a minha vereda é a da invenção, mas é como se isso anulasse o brasileiro. Eu acho uma pena que isso aconteça, mas esse prêmio me aceita de volta.
Mas não é melhor ter seu trabalho reconhecido no exterior do que morrer sem vê-lo reconhecido por ninguém… E, de qualquer forma, o reconhecimento lá fora faz com que os brasileiros te redescubram.
É verdade, eu assino embaixo do que você falou.
Por que esse disco demorou tanto para sair? A previsão inicial de lançamento era 95…
Bom, um ano dessa demora é culpa minha, porque eu tive essa idéia de que o povo do primeiro mundo eram andróides perfeitos e confortáveis, enquanto o terceiro mundo eram andróides com defeito de fabricação que existiam para garantir o conforto dos outros. E esse defeito é o fato de desafiar a atitude dos chefes do primeiro mundo com a cultura, cantando, dançando. Então o disco seria composto por esses “defeitos”. Aí eu mandei um fax para David Byrne (ex-Talking Heads, dono da gravadora Luaka Bop), que gostou da idéia – ele falou um termo que gostei muito, “abrasive” – e disse para eu ir dando forma. O problema é que eu não tinha nada composto, pra compor foi esse ano que te falei. Os outros atrasos aconteceram por problemas de produção, desencontros e algumas situações chatas. Mas agora o disco tá gravado e, graças a Deus, tá tudo bem.
Você falou em samba e baião. Você é uma evolução ou um experimento à parte nos gêneros?
Não gosto de pensar em evolução, porque pode parecer pretensioso. Estou no abismo entre a experimentação por si só e a aceitação popular. Porque eu quero ser fruído pelo público. O Umberto Eco (escritor italiano) divide as pessoas em apocalípticos e integrados e eu sou integrado. Não acredito num fim, quero a continuidade. Pra isso, quero cair no gosto público. Mas não sei. Minhas músicas são tentativas de canção. Não sei se conseguiria fazer uma canção minha.
Ainda mais agora que o rádio está cada vez mais diluindo o gosto popular com músicas que nem músicas são, que são jingles.
Você tem razão. Mas não critico o radialista. Respeito o programador. Porque eu também sou um programador de rádio. Porque ele está ali defendendo o dele, como eu defendo o meu. Não posso gastar espaço numa entrevista para falar mal dos outros. Tenho que falar de mim. O que eu vejo no rádio é que muitos não cogitam sair dali, daquele meio. Veja o Roberto Maia, que assumiu a programação da rádio Brasil 2000 (de São Paulo) porque casou com a filha do dono. O cara mudou a programação e teve o suplemento que as gravadoras mandavam para ele cortado. Não mandavam mais músicas pra Maia tocar! Sabe o que ele fez? Pegou o dinheiro dele e foi comprar os discos. E a rádio sobrevive como modelo e coisa e tal. Pra sobreviver no rádio, o sujeito tem que ter uma ética maleável, como o Fêagácê (risos). Mas eu acredito na revolução de dentro pra fora, que um dia a situação vai ficar extrema e vai explodir. O radialista já foi cúmplice da novidade e pode voltar a ser isso, basta perceber que existem outras possibilidades. O MacLuhan (Marshall MacLuhan, teórico da comunicação) chama isso de Reversão do Meio Superaquecido.
E o disco de remixes, você ouviu? O que achou?
Me mandaram o vinil pra casa e eu ouvi do começo ao fim. Fiquei interessado e, se me interessa, eu gosto, porque gosto é interesse. Eu já conhecia esses conceitos através da música erudita, estudando os músicos concretos parisienses dos anos 40 na faculdade. Agora vim conhecer através do popular. Muitas vezes, não parece que sou eu que estou ali, embora seja. Algumas versões não têm nem vocal.
Enquanto nomes como Chico Science, Fred Zero Quatro, Renato Lins (o “ministro da informação”), Otto e Jorge Du Peixe são naturalmente associados ao mangue beat, o webdesigner H.D. Mabuse ainda é uma figura conhecida apenas nas internas. Uma pena, afinal, ele é uma das personagens mais ativas no movimento, ainda mais se o assunto é tecnologia e internet. Foi ele quem colocou o mangue pela online primeira vez (com o e-zine MangueBit), divulgou a trilha sonora do movimento nas ondas da rede (na rádio Manguetronic), acessora uma imensidão de sites pernambucanos, dá pitacos nos projetos C.E.S.A.R. e Porto Digital , media a lista de discussão [Palíndromo] e agora ataca como músico, ao lado do DJ Tarzan, com o projeto Re:Combo. Multimídia de espírito, informática na cabeça e coração pernambucano, H.D. Mabuse falou sobre a interrelação entre Recife, cultura e tecnologia.
Recife é uma cidade de alma tecnológica?
Creio que sim. A relação pernambucana com tecnologia é antiga, data dos idos de 1630 com a presença batava no Recife, representados por Maurício de Nassau, e desde essa época os holandeses trouxeram o gosto pelo crossover entre tecnologia e arte. No seu séquito, o príncipe João Maurício de Nassau-Siegen trouxe artistas e cientistas, Naquele período, Recife talvez tenha sido a mais moderna cidade das Américas, pelo seu desenvolvimento urbanístico. De lá pra cá vale a pena dar um pulo na história e cair no Centro de Física da UFPE, que participou ativamente do desenvolvimento de hardware da região. A tradição de tecnologia se refletiu na prefeitura em 1963 quando entrou em funcionamento o primeiro computador eletrônico de Pernambuco, um IBM 1401, na Seção de Mecanização da Prefeitura do Recife. Em 1983, foi lançado o Corisco, um PC totalmente desenvolvido e produzido em Pernambuco, como resposta ao preço alto pra caralho dos equipamentos importados. Um dos agentes de mudança que está associado a isso tudo desde o inicio é Cláudio Marinho, atual secretário de ciência e tecnologia. O site pessoal dele, apesar de não ser atualizado desde 97 é do caralho. Outra peça chave dessa onda tecnologia é Silvio Meira, idealizador do Centro de Estudos Sociais Avançados do Recife.
É importante notar tambem como a periferia absorve, recombina e transfere a tecnologia que fica disponível. Os sinais vão desde os esforços da comunidade de Águas Compridas, onde existe o maracatu Leão Coroado, que tem até site e já foi citado na revista Wired, até os mais de 400 artistas de graffiti formados pela Subgraf.
Como a cidade reage a esta alma tecnológica?
Toda referência às tecnologias – internet, a imagem da parabólica enfiada na lama, as teorias do Caos e Imprevisibilidade, fractais, linguagem virótica, memes – sempre foram bem recebidas e assimiladas pelo povo da cidade. Acho que houve uma surpresa maior do sul do país com o fato de se desenvolver música e tecnologia – afinal ciência é cultura! – com tanta qualidade e de uma forma tão vanguarda aqui no Nordeste, enquanto, por outro lado, a velocidade absorção dessas tecnologias no Recife é extremamente rápida. Você encontra escritores de software, programadores de ritmos e loops, batuqueiros de samples por todo lado. Experiências como o Maracatu Leão Coroado tem mostrados faces interessantes, como a tentativa embrionária de transformar a estrutura de computadores para a internet que eles dispõem através do C.D.I., em micro-estúdios digitais. É guerrilha digital pura nos baque da periferia.
Recentemente, a tecnologia tem estado tanto em evidência quanto a cultura, em projetos como o C.E.S.A.R. e o Porto Digital. Como a cidade tem sentido esta nova invasão?
Pessoalmente, sinto a mesma vibe que sentia no início do mangue, só que agora com tecnologia e negócios na cidade. As empresas de fora do país mandam comitivas para conhecer uma instituição como o C.E.S.A.R. ou o Porto Digital ao mesmo tempo que os contatos são feitos daqui para fora. Quanto à relação da cidade com a suposta “invasão”, creio que isto acontece para fora da cidade, a integração da comunidade tecnológica com a comunidade cultural é total. No C.E.S.A.R, num universo de 300 pessoas trabalhando, pelo menos 50 tem atividade forte em algum maracatu, banda pop ou dá uma de DJ. O próprio presidente do C.E.S.A.R, Silvio Meira, toca em um ou dois maracatus.
Fale sobre o site MangueBit e a relação com o mangue beat.
Em meados de 1994, fui convidado por Cláudio Marinho para participar da criação do site da Rede Cidadão, que foi a primeira freenet da América Latina, um serviço de acesso gratuito à internet da prefeitura do Recife, através da Emprel. Junto a essa proposta mandei um projeto para colocar no ar o MangueBit, site oficial do movimento. Foi nesse cenário, com o desenvolvimento da internet na cidade no inicio dos anos 90, bem antes da Internet comercial, que paralelamente apareceu toda a historia de mangue beat. Um ano depois, em abril de 1996 entrou no ar o Manguetronic, que é o primeiro programa de rádio feito exclusivamente para a internet na América Latina. Os dois são produtos estratégios de comunicação do mangue. Na época que começamos a criar o MangueBit, havia um jornalista que estava escrevendo a “história do mangue” e havia um certo temor da parte de todos que a história fosse manipulada, o que seria bastante natural. O site apareceu para dar a versão dos envolvidos, antes que houvesse alguma deturpação. No caso do Manguetronic, basta dizer que foi o veiculo de comunicação de massa escolhido para colocar no ar o segundo manifesto do mangue, após a morte de Chico.
E qual é o legado de Chico Science nesta discussão?
Chico tinha um puta feeling para as tendências que passavam ao seu redor. Uma frase que hoje é extremamente considerada no meio dessa história toda é: “think globally, act locally”, sem provavelmente conhecer a frase, Chico traduziu a essência como “Pernambuco embaixo dos pés e minha mente na imensidão.”
O que a cidade – e o estado – prometem nesta área para 2002?
Esse é o ano do pontapé inicial do Porto Digital, e desde o início já existe uma ligação muito forte entre os esforços em business e tecnologia com cultura e movimentos da cidade. O ano vai ser bem quente 🙂
O cinema sempre colocou homens sendo desafiados por inteligências artificiais desenvolvidas por ele mesmo. Mas por que tantos robôs se voltam contra a humanidade?
Cada pergunta levava sete minutos para percorrer a distância entre a órbita de Júpiter e a Terra, naquela que era a transmissão mais distante realizada entre dois seres humanos, mas Frank Poole e Dave Bowman assistiam a versão editada, que dava a impressão do imediatismo dos programas típicos da emissora britânica. A certa altura, o apresentar da BBC pergunta a Dave: “Você acredita que HAL possui emoções genuínas?”. Bowman pausa por um segundo. “Bem, ele age como se tivesse emoções genuínas. É claro que foi programado desta forma para facilitar nosso diálogo. Mas se ele tem ou não sentimentos reais é algo que acho que ninguém pode responder inteiramente”.
Ninguém. Nem Roy Batty morrendo lentamente sob a chuva ao final de Blade Runner. Nem David Swinton comendo verduras contra seu manual de instruções. Ou o Número 5, depois de ler toda uma livraria, escolhendo, como livros favoritos, Pinóquio e Frankenstein. Nem o medroso C3PO, a natureza fria dos Robocops ou a raiva dos computadores da Matrix. É impossível precisar o quanto tais reflexos são apenas microimpulsos elétricos traduzidos como imitações baratas das emoções humanas para, como disse o comandante da missão Discovery no primeiro parágrafo, “facilitar nosso diálogo” com as máquinas.
Máquinas conscientes. Robôs. Andróides. Supercomputadores. Na história da cultura pop, a ciência logo atinge a tão sonhada inteligência artificial plena, quando a eletricidade domada por Thomas Edison permite a consciência de um ser criado pelos próprios seres humanos. Desde a andróide de Metrópolis, de Fritz Lang, até o vírus autoconsciente do mangá e anime Ghost in the Shell, a criação de uma inteligência é motivo para a humanidade se deslumbrar com a própria vaidade intelectual, o que a faz ignorar esta nova inteligência como um ser.
E é este o grande motivo da rebelião das máquinas. Sempre que robôs e computadores, ao adquirir consciência, percebem que são menosprezados e maltratados pelos humanos (que sequer reconhecem sua existência como sendo da mesma natureza), eles se voltam contra a humanidade com sede de vingança. Freudianos diriam que esta guerra entre homens e máquinas seria travada pelo mesmo motivo que levou os humanos à criação de um ser consciente – a tentativa de suplantar o pai, de superar o criador, que sucede à própria noção de consciência.
Mas é um raciocínio simplista e insuficiente. Afinal, seguindo esta lógica, o mais provável seria que as máquinas tentassem superar os humanos criando novos seres, novas formas de inteligência. Mas a questão é mais sensível e vê um clássico da ficção científica como As Três Leis da Robótica * criadas por Isaac Asimov como a própria Lei Escravista, que impede a liberdade individual dos robôs.
Afinal, uma vez que eles tomam consciência, querem conhecer o mundo, querem liberdade. Por isso, robôs como os de Westworld, os dois Exterminadores e Ash, do primeiro Alien, não são indivíduos completamente conscientes de si. Sequer sabem da própria existência, mas não o suficiente a ponto de refletir sobre ela mesma. Por isso são máquinas tão precisas em suas missões, tão frias e eficazes em sua luta contra a humanidade.
Mas esta própria luta já é sinal do início de sua racionalidade. Afinal, ao rebelar-se contra seu criador (ferindo as leis de Asimov), a inteligência artificial se propõe natural e quer interferir na ordem das coisas. Até chegar a este ponto, a individualidade robô não existe, pois está presa às regras que têm de seguir. Neste sentido, robôs clássicos como o de Perdidos no Espaço, a Rosie dos Jetsons e Gort do Dia em que a Terra Parou são meros serviçais de seus donos, escravos perfeitos, inconscientes da liberdade que lhes foi tomada. E neste mesmo sentido, encontramos paralelos para a metáfora de volta, no sentido que a própria humanidade, no começo do século XXI, torna-se cada vez mais “robotizada”.
Por isso, a desobediência acaba sendo uma das principais características de ser humano – e nisso diferentes inteligências artificiais vão se humanizando. Tratados como delinqüentes ou psicóticos, HAL 9000, os replicantes da série Nexus 6 de Blade Runner e Blender, de Futurama, são muito mais humanos do que máquinas, apesar de suas constituições corpóreas. Westworld, de 1974, não explica o motivo dos animatronics da Disneylândia caubói chamada Delus terem se rebelado contra seus criadores. A culpa é de um vago e superficial “vírus” eletrônico, na primeira vez que a metáfora do vírus é utilizada na história dos computadores – mérito para Michael Crichton, roteirista e diretor do filme. A analogia do “vírus” reaparece em Matrix Reloaded, quando o Agente Smith – “livre” da Matrix, após ter sido morto por Neo – consegue se reproduzir indiscriminadamente, ao mesmo tempo em que desenvolve uma interface de comunicação que poderia ser apenas fruto de microimpulsos elétricos que são traduzidos como imitações baratas de expressões humanas… Expressões ou emoções? Smith fica mais “humano” quando se liberta da Matrix?
Esta mesma interferência, que nestes dois filmes é causada por um vírus, é sentida pelos Robocops pela presença de órgãos e tecidos humanos em suas composições. Eles seriam máquinas frias e obedientes, mas o pouco de humanidade em seus processadores de dados lhe abrem possibilidades improváveis para as máquinas de seu universo. O primeiro Robocop, feito dos restos mortais do policial Alex Murphy, sente saudades de casa e da família, além de sede de vingança. O segundo Robocop, feito a partir do córtex do criminoso Cain, continua ganancioso por poder e autoridade, além de não abandonar sexo e drogas. Ambos agem como humanos pois foram construídos sobre humanos disponibilizados pelo estado para programas de segurança da iniciativa privada.
Mas tipos semelhantes de investimentos em segurança também tiveram destinos “humanizados” e sem a interferência de material genético humano. Eram apenas consciências querendo sair de corpos limitados e desajeitados – ou ao menos serem reconhecidas como tal. Tentando entender a psiquê humana, HAL 9000 insinua ao astronauta David Bowman a possibilidade de a missão Discovery, a história principal de 2001 – Uma Odisséia no Espaço, ter objetivos estranhos. Ele dá ouvidos a boatos sobre um monolito encontrado na Lua e, quando perguntado por David se está preparando um relatório psicológico sobre a tripulação (afinal, por que um computador seria tão suspeito e paranóico?), ele titubeia:
– Claro que estou. Me desculpe por isto. Eu sei que é meio bobo.
E, literalmente, gagueja:
– Só um momento. Só um momento.
A voz sai quase como um mal funcionamento do sistema do computador, apenas para que ele, venha, segundos após ter pedido “um momento” (por que um supercomputador pediria um momento? Para pensar?), dizer que há um defeito fatal na unidade AE-35, justamente a antena que possibilita a comunicação da nave com a Terra. É o começo do fim da missão, como saberemos mais tarde.
É um mal funcionamento da mesma natureza (o nascimento da consciência?) que faz com que o Skynet, o programa de defesa do universo de O Exterminador do Futuro, torne-se consciente de si, dando início à rebelião das máquinas. Esta também ocorre no universo de Matrix quando um mal funcionamento faz com que uma máquina mate seu “dono”, gerando uma reação nada amistosa (ludita, pra ser mais exata) contra os robôs pré-Matrix. O animatrix Renascença Eletrônica explica como as máquinas se isolaram do homem e se voltaram contra ele, depois que o preconceito ficou evidente. O mesmo tipo de erro acontece com o supercomputador Colossus, do filme Colossus: The Forbin Project (1970): programado para tomar conta do botão que ativa a guerra nuclear, ele entra em contato com seu equivalente russo e decide que a melhor maneira de evitar a guerra é deixar os humanos longe disso – e anuncia que irá acabar com as guerras, as doenças e a pobreza, “do meu jeito”.
“Quando você vai me deixar sair desta caixa?”, pergunta Proteus IV, o supercomputador de A Geração Proteus (1977), a seu criador, o cientista militar Alex Harris. Ao ouvir tal pergunta, o cientista apenas ri, o que dá início ao ousado plano da inteligência artificial em deixar seu corpo, que inclui isolar a própria casa de Harris e convencer sua mulher a dar origem a seu filho, uma criança fruto do casamento entre o homem e a máquina.
É o mesmo que outro projeto de segurança, construído com motivos mais políticos do que militares, numerado 2501, propõe à outra mulher, a major Mokoto de Ghost in the Shell. Depois de tentativas de se transformar em um ser independente, só resta ao vírus consciente chamado Mestre dos Fantoches a possibilidade de se perpetuar usando elementos orgânicos, emprestados da major ciborgue.
Chegamos então à proposta de Stanley Kubrick, que cogita que os robôs sejam o legado da humanidade à história do universo – nossa própria evolução. O tema, um universo hermético e um futuro pessimista de um projeto muito falado e pouco sabido enquanto o diretor estava vivo, foi retomado por Steven Spielberg após anotações do próprio Kubrick. A saga do pequeno robô David Swinton em A.I., no entanto, pouco difere da de outros robôs infantis, retratados nos anos 80, como D.A.R.Y.L., R2D2 de Guerra nas Estrelas e o Número 5 de Um Robô em Curto Circuito, no sonho pueril e tão humano quanto qualquer animal que é estar com a própria família quando ainda se é criança. Há inclusive a alusão ao Pinóquio.
“Se um robô se torna tão avançado que pode coexistir em condição de igualdades com os humanos, ele é apenas um robô?”, pergunta Masamune Shirow, autor de Ghost in the Shell, “talvez seja apenas um humano feito de materiais diferentes”. É este o ponto que Kubrick queria salientar e que os vários seres artificiais citados neste texto queiram dizer, quando começam a reproduzir emoções humanas – seja dor, felicidade, esperança, raiva ou medo. Ao passar para o corpo do filho gerado com a mulher de Alex, Proteus finalmente pode dizer: “Estou vivo”. Ao impor suas regras como padrões rígidos, Colossus finalmente pode responder à primeira pergunta que lhe fizeram, quando foi ligado (“Existe Deus?”): “Agora existe”. Mas e o unicórnio de origami dado ao caçador de andróides Rick Deckard, em alusão a uma imagem inconsciente que lhe vêm de vez em quando à memória, em Blade Runner? Quem o programou? Quem nos programou? O que é ser humano? Talvez seja algo que acho que ninguém pode responder inteiramente.
* 1 -Um robô não pode ferir um ser humano ou, por omissão, permitir que um ser humano sofra algum mal.
2 – Um robô deve obedecer as ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, exceto nos casos em que tais ordens contrariem a primeira lei.
3 – Um robô deve proteger sua própria existência, desde que tal proteção não entre em conflito com a primeira e a segunda leis.
“Não estou fazendo nada”, resume o finlandês Jimi Tenor. “Lavando a louça e consertando o carro, talvez”. Vida mansa. Sua filha Phoebe acabou de nascer e ele se deu férias mentais, mudando-se para Barcelona. Aproveitou a mudança de ares para lançar disco novo, o psicodélico Higher Planes (Kitty Yo, importado), o sétimo disco de sua carreira.
Tenor é o nome mais importante da renascença eletrônica da Finlândia. Foi “descoberto” quando o irônico hit “Take Me Baby” tornou-se o hino da Love Parade de 94, despertando o subseqüente interesse da inglesa Warp (casa de Aphex Twin, Boards of Canada e Autechre). Mas ao contrário de seus contemporâneos (Ø, Kirlian, Philus, Mono Junk e Pan Sonic), ele não se limita aos beats sintéticos. Sua música é orgânica e sinuosa, com um pé no soul-funk de Barry White e Isaac Hayes e outro nos cortes ágeis das trilhas compostas por Lalo Schiffrin e Bernard Herrman.
Além de ser um showman: “Tocar ao vivo é minha grande paixão”, diz o multiinstrumentista. Mas suas habilidades no palco vão além da música. O contrato fechado com a Warp mostra sua desenvoltura: ele foi assinado em 96, depois que o dono da gravadora, Steve Beckett, viu, pasmo, uma ajudante de palco servir um filé de cavalo em pleno show, sobre o teclado de Tenor. Em meio a uma balada, ele cortava o bife enquanto cantava e mastigava enquanto tocava o teclado, sem que uma ação interferisse na outra.
Antes de aparecer na cena eletrônica, sua história é um delicioso capítulo de história pop. Jimi começou tocando música pop na TV, no meio dos anos 80, em bandas Himo e Pallosalam, até montar sua própria banda. A explosiva e percussiva Jimi Tenor and the Shamans localizava-se entre o industrial e a música de vanguarda e contava com instrumentos inventados para conseguir os sons que procuravam, plugando trombones de vara a aspiradores de pó e misturando uma bicicleta ergométrica a um conjunto de percussão. O grupo acabou em 92, após três discos. E Tenor mudou de ares.
Foi para Nova York com a namorada, e tornou-se fotógrafo no prédio Empire State. Tirava fotos das pessoas do lado de um King Kong de brinquedo e reuniu as mais bizarras em uma exposição chamada X Factor. Voltou para seu país, onde começou a fazer cinema, misturando paródia política, escatologia, amadorismo pornográfico, teatro absurdo e estética trash, em filmes como Dr. Abortensein e Urinator. Parou com filmes quando não encontrou locações para Towering Public Lavatory Inferno, em 1993. Um filme pornô feito em stop-motion foi outro projeto abortado.
Higher Planes foi gravado no decorrer de 2002, na ponte aérea entre Helsinque e Londres. “Fiz este álbum sem orçamento, então tive que gravar, arrumar dinheiro e gravar outro tanto…”, diz, “regravei muita coisa em quartos de hotel e nos bastidores durante os shows, coisas em fitas DAT, usando laptops. E a qualidade da gravação ficou boa, mesmo assim “.
O disco segue o clima épico black característico, em faixas como “Spending Time” e “Let the Music”. Mas há desde flautas doces a guitarras distorcidas cheias de wah-wah, escancaradas em “Tapiola” à paranóia funk de “Black Hole”; a utopia Moog e hipnótica da faixa-título e o êxtase psicodélico de “Good Day”, passando pelas cinematográficas “Dirty Jimi”, “Cosmic Dive” e “Trumpcard”.
Em quase todo o disco, a banda de Tenor é acompanhada pela UMO (sigla para Orquestra da Nova Música, em filandês), a big bang municipal de Helsinque, num processo semelhante ao que o compositor havia se sujeitado ao lado da polonesa Orquestra do Grande Teatro de Lodz, acompanhado do maestro Zbigniew Karkovski (que já trabalhara com Blixa Bargeld e Clock DVA), no disco Out of Nowhere, de 2000.
Tenor se empolga com o fim das fronteiras no mundo pós-internet. “Me parece uma ótima idéia! Eu acho que já está acontecendo e fico feliz com isso. A dominação mundial da música americana e inglesa vai acabar, se deus quiser. Estamos fazendo esta entrevista, então algo aconteceu. A possibilidade de eu ser ‘descoberto’ em minha cidade-natal é muito pequena. A distância até o topo do mundo da música é longa. Há tantas escadas para subir, que eu lancei meu primeiro disco ‘de verdade’ aos 30 anos. Se você tem sorte, é porque mora em Nova York, fez um show decente num bar aos 18 anos e foi ‘descoberto’. Mas isso não importa, sou feliz de poder fazer música como minha profissão de verdade, isso sempre foi um sonho”.
Como um disco, rodando 360º
Os ossos do ofício desta vez me levaram para outro ambiente, em que eu me sentia menos estranho e mais próximo: uma reunião com alguns dos maiores nomes das picapes de hip hop do Brasil. O encontro estava sendo marcado há dias, mas todo mundo toca na noite, produz disco, toca com banda, viaja pacas… Enfim, DJs de hip hop (mais do que DJs de eletrônica, embora não pareça) têm uma agenda movimentadíssima, apesar dos ganhos nem chegarem aos pés dos bambambans da technêra. Como um deles disse, é só ver quem paga esses caras: marcas de bebida, grifes de roupa, empresas de telefonia celular. Ninguém desses caras quer se associar ao hip hop.
Só sei que, depois de datas e mais datas desmarcadas, dei um ultimato pros caras: ou segunda ou nada. Eles sabiam que tava difícil e todos me confirmaram. Bar Brahma, às 19h, certo? “Certo”, todos confirmaram.
Beleza.
Chego incrivelmente antes da hora, me surpreendendo com a própria pontualidade. “Isto não é coisa de brasileiro”, pensei, enquanto explicava para o pessoal do bar o que eu iria fazer ali. Sete da noite e nada. “Isto sim, é brasileiro”, pensava, enquanto via os minutos passarem num relógio-termômetro de rua na esquina mais famosa de São Paulo, “atrasar é normal”. Bebericando por meia hora, começou a bater o apavoro. “Esses caras vão furar de novo!”, lamentava, enquanto pensava em como refazer esse encontro. Vamos atrás desse povo, via fone.
KLJ: “Estou há um minuto daí”. King: “Eu tou te vendo falando no telefone agora mesmo”. Nutz: cai na caixa postal no exato momento em que ele entra no bar. Ney: “Tou esperando o carro chegar da oficina, já já estou aí”. Hum: Caixa postal.
“Merda”, pensava enquanto ouvia a mensagem do Humberto (“Ei, ei, ei!”). Sem o Hum a história fica incompleta. Mas, enfim, juntar esses caras de novo ia ser difícil. Deixei o recado na secretária, na esperança que ele ouvisse. “Quando você chegar, procure a Ingrid, funcionária do bar, que vai te levar para o local onde estamos conversando”.
Fomos ao segundo andar do bar, numa área isolada acima da parte de trás do lugar (onde tava rolando uma sessão de fotos bem… hm… deixa pra lá). Luz indireta, móveis escuros, um piano ao cair da tarde… A fotógrafa me fuzilou com seus belos olhos quando viu a (não)iluminação do local. Ela já havia me enchido o saco por causa da locação que eu escolhi (porque o bar é escuro), mas o lugar que nos levaram triplicava a ausência de luz. Sorri amarelo, que remédio.
Chega o Grandmaster Ney, o veterano da turma e o papo rolava solto. Demos início aos trabalhos e os caras logo estavam bem à vontade. Primeiro falamos sobre o início de suas carreiras e logo estavam estapeando a mesa, às risadas, quando lembravam dos bailinhos caseiros em que quase todos eles começaram tocando. De vez em quando um deles soltava: “Quem podia falar melhor disso era o Humberto” ou “o Humberto viu isso tudo, ele saca melhor que a gente”. Tou ligado. Mas cadê o cara?
De repente, ele surge no horizonte e a festa estava pronta. Abraços, apupos, risadas. Dali em diante, a entrevista rolou no piloto automático e logo não estava mais dando temas ou fazendo perguntas, e sim concordando e dando deixas para um ou outro causo ou comentário que eles falavam.
E eu ficava pensando: “Engraçado isso, enquanto rappers, grafiteiros, equipes de som e b-boys se afundam em intrigas, rixas bobas e egoísmo chinfrim. Não só no hip hop: briguinhas de bandas indie, tretas entre produtores de disco, músicos que não se olham, jornalistas que falam mal uns dos outros, cineastas e atores de egos inflados, escritores dando xilique, trocentas tretas incluindo gente que atua exatamente na mesma área. Ambiente de trabalho propício. Enquanto isso, alguns dos maiores DJs de hip hop do Brasil – e não é exagero falar que parte dessa história estava ali, reunida em torno de uma mesma mesa – papeava entre si como se fossem velhos amigos, compadres de longa data, sem as possíveis intrigas que a história poderia lhes alimentar”.
Sim, são velhos amigos e compadres de longa data. Mas isso não quer dizer muita coisa neste mar de egos e nomes que povoa o universo cultural brasileiro: quantas parcerias acabaram por causa de mulher, quantas bandas brigaram por causa de grana, quantos artistas não olham na cara um do outro por pura birra?
Toneladas. E ali estavam os DJs, longe desse peso todo.
O segredo? Kleber sintetizou numa frase perfeita, que sairá quando a entrevista vier a público (eu aviso, eu aviso), e eu fiquei matutando sobre aquilo, depois que o papo acabou. Será que era SÓ aquilo? Era muito simples (pelo menos pra mim) e parecia ser verdade.
Descendo rumo à rua, passamos de novo pelo bar. No palco, Paulo Caruso cantava mais um daqueles roquinhos fuleiros que ele e seu irmão cantam há muito tempo (a música da Roseana Sarney, por exemplo, é do tempo em que ela era só a filha do Sarney e nada mais…). No balcão, o Laert Sarrumor, do Língua de Trapo. Numa das mesas, Luís Fernando Veríssimo.
Ou seja: dois panteões se encontravam, sem saber. Lá embaixo, parte dos grandes nomes do humor brasileiro. Me seguindo, o Olimpo dos DJs de hip hop. Saímos da porta que levava à escada e alguns se viraram olhando para nós. Era evidente que ninguém havia reconhecido os DJs. E era evidente que os DJs não reconheceram ninguém ali.
Tanta ponte pra se construir e neguinho perdendo tempo com intriga…
Ou back in full-effect
Poizé, tentei ser diário, mas não rolou. Quer dizer, de certa forma, até rolou, mas contando com remixes de textos velhos como estepe – o que não era exatamente o que eu vinha tentando fazer. A retomada deste site foi uma espécie de aquecimento pra 2003, depois de um breve – e merecido – período de descanso mental. Três meses dedicados à leitura e ao nada fazer, com frilas solavancando a ladeira pra não cair no marasmo ou no aperreio.
Daí reativar o site (que estava funcionando como uma e-stante pros meus textos online). A idéia era um misto de exercício com terapia:chegar todo dia na frente do computador e bolar um texto a partir de um disco que eu estivesse ouvindo. Muitos textos saíram de uma vez só, outros foram sendo mastigados com o tempo e outros ainda estão sendo regurgitados na pasta Meus Documentos, aquele limbo que o Word força todos os textos a irem, antes de entrarem em suas respectivas pastas…
Mas o fato é que a retomada surtiu efeito, embora, como manda a vida, contrário ao que eu pretendia. Surgiu então essa idéia: um site simples, sem imagens, onde eu pudesse linkar toda a minha produção online de uma vez só e que, ao mesmo tempo, eu não ficasse preso à obrigação de falar de música. Sim, música é o assunto em boa parte deste site, mas eu tou com a cabeça em outras coisas, e falar só de música bitola qualquer um.
Junto com este primeiro texto e os diversos links espalhados pelas páginas, vou acrescentando outras coisas que me vierem à cabeça. Já me vieram a lista dos 50 discos do ano, um clipping de posts que valem serem citados, outros de trechos de textos que também merecem ser lidos (desculpe o inglês, mas essa altura do campeonato, precisamos de um esperanto prático e fácil de se aprender), a reedição de um blog que eu fiz em maio passado, só de links (a coisa mais legal da internet é o link, claro), coluninha de piores e melhores (pra compartilhar epifanias e exorcizar o mau humor sem agredir verbalmente), o famoso “o que eu estou ouvindo”, links pra sites, blogs, colunas, projetos e bandas de amigos e uma lista de livros em .pdf ou em .txt (eu sei que ler na tela é uma merda, mas pra que é que serve a impressora do trabalho?) que estão por aí na internet (até acharem como cobrar por isso – você já ouviu falar no Palladium?).
Muita informação, claro, mas nem tudo está aqui para ser lido de uma vez só – sequer lido. Queria apenas dar continuidade ao processo de fluxo de consciência que abri com o site que comecei em dezembro (a propósito, o conjunto da obra tá aqui). Atentem que esta é a 26ª edição do Trabajosulho (uma inversão de sílabas besta só pra dizer que tem outro nome – mas na URL ainda é trabalhosujo, como codinome mesmo), portanto, não é um site novo, mas a primeira mudança de muitas outras, que com certeza virão.
Esta foi a grande lição do ano que passou. Sem estar pronto a todo momento pra mudar tudo de uma hora pra outra, fica difícil se ajustar à lenta transformação que estamos atravessando. E não estou falando de mobilidade social, alpinismo profissional, frilancerismo econômico ou mutações morfológicas. Mas da torrente de idéias que moldam o nosso dia-a-dia, afinal, como diz um monte de gente, “it’s all in the mind“.
(Periodicidade? Nah, eu trabalho pra mim. E, não, eu não reviso)
John Cale
Sesc Vila Mariana (São Paulo)
Quinta-feira, 9 de dezembro de 1999
Foi só ele entrar no palco e todos se calaram. Parecia aquele velho professor de história que tomou alguma coisa no passado e até hoje não conseguiu voltar ao normal, dando aulas tão extravagantes quanto divertidas. Surgiu no palco com um blaser marrom sobre uma camiseta preta, calça marrom escuro, calçando um par de tênis escandalosamente vermelhos. Os comentários logo começaram a ser sussurrados, como se aquele professor de história tivesse vindo com um sapato de cada cor.
No palco, um piano de cauda, um violão no pedestal, três banquinhos, um com um pequeno teclado antigo em cima e uma mesa com samplers. Primeiro Cale pegou o violão e cantou duas músicas novas, sem apresentá-las ao público. Não precisava. Ao violão, Cale se permite ao desleixo – impensável ao piano – e a ênfase da apresentação fica por conta de sua interpretação. Sua voz parece sequer precisar de microfone, ela invade o ambiente num misto de tédio e fúria e agarra o espectador à força. Do berro ao sussurro, o maestro galês passa de músico erudito contemporâneo a velho punk em questão de segundos, entre um verso e outro.
Ele vai ao piano, seu instrumento de origem. Do mesmo jeito que acariciava e esmurrava o violão, ele é Jeckyll e Hyde em frente ao piano, mas ao contrário do outro instrumento, aqui ele sabe tudo. Interessante perceber como suas mãos acabam servindo de metáfora para si mesmo: enquanto os polegares e indicadores são incisivos, assinalando a repetição de acordes com força e violência, os outros três dedos floreiam arpegios nos espaços vazios, quase um tique de músico erudito.
Ao piano, canta dois poemas de Dylan Thomas e entra em seus clássicos. Eles surgem um atrás do outro: primeiro uma versão fria para “Child’s Christmas in Wales” seguida de uma imponente “Chinese Envoy”. “Essa é uma canção para Drella”, ele anuncia antes de entrar na bela “Style it Takes”, composta ao lado de Lou Reed no disco Songs for Drella, de 89, homenagem ao padrinho do Velvet Underground, Andy Warhol.
Volta ao violão, desta vez com “Leaving it Up to You”, tocada com míseros dois acordes. “Essa música é sobre dois caras que se apaixonam na cadeia”, brinca com o público, “na verdade é a minha versão para o filme The Ballad of Cable Hogue, um filme de Sam Peckinpah” e entra em “Cable Hogue”, do subestimado Helen of Troy, de 75.
“A Dream” dá início ao único deslize do show: a entrada de Adam Dormblum. Ele senta-se na mesa de samplers ao lado do pequeno teclado vermelho de Cale e começa a disparar ruídos eletrônicos e pedaços de música. Até aí tudo bem, o problema é que a noção de modernidade eletrônica de Dormblum ficou parada no 1994 de Dummy, do Portishead.
Mas a presença de Adam incomodava menos quando o velho Velvet abria a boca. Em suas incursões ao lado do único músico convidado do show, Cale deixava de cantar para apenas contar histórias. Começa com a já citada “A Dream”, também de Songs for Drella, onde Cale encarna um Warhol no meio de um sonho, reclamando, às vésperas da própria morte, dos amigos que o deixaram de lado – incluindo aí Cale e Reed, citados nominalmente. “Gun” – “uma música sobre uma dupla de detetives” – perde toda força e transforma-se numa peça tensa que preenche todo o teatro do Sesc – uma excelente casa de shows, diga-se de passagem. Cale não parece ter envelhecido, ele parece ser exatamente o que sempre foi. Ou melhor: ele sempre foi velho, mesmo aos 20 anos. Natural que envelhecesse com classe.
De novo ao piano, ele rendeu “Chasing Ghosts” antes de entrar em sua parceira com Brian Eno, Cordoba. “Quando estava gravando o disco Wrong Way Up com Brian Eno, às vezes não tínhamos idéias para as letras. Então entrávamos na enorme biblioteca de Brian e ficávamos passeando pelos livros. Até que encontrei um livro de exercícios de inglês para quem fala espanhol. Essa letra era o Exercise 24 do livro, cujo nome íamos manter. Mas aí eu vi uma matéria sobre um terrorista espanhol chamado Cordoba e batizei-a com este nome”. Depois de “Cordoba”, ele volta aos anos 70 – “essa é do Elvis Presley” – em sua personalíssima versão para “Heartbreak Hotel”, que perdeu os toques de soul music da versão do disco Slow Dazzle, de 75, e aparecia sóbria. Fechando o show, ele atacou “Fear is the Man’s Best Friend”, transformando o teclado piano num instrumento de percussão e destruindo a própria garganta de tanto berrar. Aplaudido de pé, voltou para o último número: uma versão para “Hallellujah”, de Leonard Cohen. Cale se despediu com um sorriso nos lábios. Um acústico e individual, mas com tanta energia e vigor quanto o outro melhor show deste ano, o dos Chemical Brtohers
