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Lost: LaFleur

AAAAAAH! Esse tipo de sensação causada que logo no início do episódio LeFleur é o que faz Lost ser o que é. Mais do que as intricadas conexões, citações de cultura pop, o elemento TV global, a cultura da adivinhação e a gama de conspirações (e referências a outras conspirações), é a capacidade de chocar o espectador – e provocar ainda mais o fã – com enigmas mais densos e de proporções épicas. Retomamos a linha do tempo esquizofrênica quando um flash fez Sawyer e companhia voltar no tempo ainda mais para uma época em que o poço em que Locke se enfiou sequer existia. Logo depois de constatar que corda que tentava puxar estava enterrada no chão, Sawyer pergunta-se sobre em que época foi parar até ser cortado por Miles, que pede para observar algo que indica que eles estão muito no passado.

Confesso que temi por um dinossauro.

Mas o que a câmera mostrou, em toda sua glória vista por um ângulo (ah vá!) misterioso, foi uma estátua giganteca que, aparentemente, explica o gigantesco pé de quatro dedos que Sayid avistou no início da série. Virada de costas, ela claramente não é humana – e inevitável puxar o cordão de referências egípcias que já foram citadas ou deixadas no ar pela série. Logo os fãs estava tornando-se especialistas-relâmpago em Egito antigo, citando nomes mitológicos e artigos da Wikipedia que linkem com a série. Olha essa, de Vítor Rodrigues, leitor do Teorias Lost:

Primeiro, não vou falar teoria nenhuma. Acho que o mais legal é fazer compilações de informações concretas que foram passadas no seriado (e que passam desapercebidas), e deixar sempre as teorias e afins para a galera discutir nos comentários.

Enfim, essa temporada aflorou mais essa coisa relacionada a cultura egípcia. Mas na temporada passada isso já havia sido visto. Como os hieroglífos na porta em que Ben abre para “invocar” o monstro. E nessa temporada, vimos as pequenas referências, já citadas por vocês, o Ankh de Paul, desenho de Hurley, mais hieroglífos no muro do templo e a possível semelhança da estátua com o deus Anúbis.

Enfim, pelos hieroglífos espalhados nas coisas antigas da ilha e a semelhança da estátua com a imagem do Anubis, a gente pode sentir que tem alguma relação da ilha com o Egito.

A peça nova que eu percebi, foi no momento da morte de Charlotte. Ela começa a citar várias coisas que não são delírios (apesar de parecerem). Ela cita o poço, que estava em uma época antiga da ilha, fala sobre as coisas dela com a mãe dela, Faraday… E fala em um momento “eu sei mais sobre a antiga Cartago do que o próprio Aníbal”. Aí é que veio a junção de muita coisa. Cartago é uma cidade antiga que fica hoje onde é a Tunísia! Local de saída da ilha. (E Aníbal foi um imperador, rei, algo assim).

Se os flashes que ela teve faziam parte de delírios e informações sobre a ilha, é provável que a ilha tenha um passado ligado mesmo a Cartago/Tunísia e isso explicaria sua relação com a saída da ilha ser lá.

Outra coisa bacana que encaixa aí é que Cartago tinha muita coisa cultural absorvida do Egito. Daí a entrada talvez da escrita, elementos culturais como deuses, conceito de morte e tal…

Enfim estes são os três pontos chaves que quando ligados parecem fazer muito sentido:

1- Charlote delirando na historia da ilha citar Cartago;
2- As escrituras e referências culturais (estatua Anúbis) da ilha, sugerindo ligação com Egito;
3- Saída da ilha ser a Tunísia;

Enfim, de concreto, e baseado no que a gente viu, é só isso que dá pra dizer, algo como “aí tem coisa”. Mas a partir daí, já da pra pensar em muitas teorias.

– A ilha sempre se moveu. Será que houve uma época em que ela ficou ali pelo Mediterrâneo. As embarcações, o comércio e as disputas eram muitas ali. Possivelmente, alguém descobriria a ilha e iria guardá-la a todo custo (talvez Cartago tenha achado, ou o próprio Egito).
– Será que a ilha já esteve dentro de um continente em terra firme, e só depois que foi movida é que foi parar no meio do oceano e virou ilha. Sendo esse continente inicial a África, ali pela Tunísia? (essa acho pouco provável)
– O Ankh é relacionado a vida após a morte, ou até mesmo a vida eterna (são significados semelhantes). Tal qual o Deus Anúbis esta relacionado ao mundo dos mortos. Será que os egípcios encontraram a ilha, viram que tinha poderes de Cura, ou até reviver os mortos e a partir daí consideraram ela um lugar sagrado, onde as pessoas podem viver pra sempre? Ou só os especiais revivem (Locke, Christian) ou vivem pra sempre (Alpert)? Faria sentido eles fazerem uma estátua gigante de Anúbis por isso.
– E levando em conta essas coisas, será que Jacob vem do Black Rock, ou foi o cara lá das antigas do Egito/Tunísia que achou a ilha e vem cuidado dela desde então?

Só não consigo pensar aonde que o monstro entra nisso.

Foda, não? Curto pacas o Teorias Lost (que é inclusive de onde surrupio os links pro Justin.tv pra ver ao vivo – crédito dado, rapeize) por isso – ele usa o elemento colaborativo e cooperativo para, mais do que acompanhar, “jogar” Lost. Mas a minha teoria favorita inclui a estátua que representa esta senhora aqui:

Vamos à Wikipedia?

Taweret

In Egyptian mythology, Taweret (also spelt Taurt, Tuat, Taueret, Tuart, Ta-weret, Tawaret, and Taueret, and in Greek, Θουέρις “Thoeris” and Toeris). Her name means (one) who is great. When paired with another deity, she became the demon-wife of Apep, the original god of evil. Since Apep was viewed as residing below the horizon, and only present at night, evil during the day then was envisaged as being a result of Taweret’s maleficence.

As the counterpart of Apep, who was always below the horizon, Taweret was seen as being the northern sky, the constellation roughly covering the area of present-day Draco, which always lies above the horizon. Thus Taweret was known as mistress of the horizon, and was depicted as such on the ceiling of the tomb of Seti I in the Valley of the Kings.

In their art, Taweret was depicted as a composite of all the things the Egyptians feared, the major part of her being hippopotamus, since this is what the constellation most resembled, with the arms and legs of a lioness, and with the back of a crocodile. On occasion, later, rather than having a crocodile back, she was seen as having a separate, small crocodile resting on her back, which was thus interpreted as Sobek, the crocodile-god, and said to be her consort.

Early during the Old Kingdom, the Egyptians came to see female hippopotamuses as less aggressive than the males, and began to view their aggression only as one of protecting their young and being good mothers, particularly since it is the males that are territorially aggressive. Consequently, Taweret became seen, very early in Egyptian history, as a deity of protection in pregnancy and childbirth. Pregnant women wore amulets with her name or likeness to protect their pregnancies. Her image could also be found on knives made from hippopotamus ivory, which would be used as wands in rituals to drive evil spirits away from mothers and children.

In most subsequent depictions, Taweret was depicted with features of a pregnant woman. In a composite addition to the animal-compound she was also seen with pendulous breasts, a full pregnant abdomen, and long, straight human hair on her head.

As a protector, she often was shown with one arm resting on the sa symbol, which symbolized protection, and on occasion she carried an ankh, the symbol of life, or a knife, which would be used to threaten evil spirits.

As such a protector, Taweret also was given titles reflecting a more positive nature, including Opet (also spelt Ipet, Apet, and Ipy), meaning harem, and Reret (also spelt Rert, Reret, seen as the offspring of Nut)

As the hippopotamus was associated with the Nile, these more positive ideas of Taweret allowed her to be seen as a goddess of the annual flooding of the Nile and the bountiful harvest that it brought. Ultimately, although only a household deity, since she was still considered the consort of Apep, Taweret was seen as one who protected against evil by restraining it.

When Set fell from grace in the Egyptian pantheon, as a result of being favoured by the (xenophobically) hated Hyksos rulers, he gradually took over the position of Apep, as the god of evil. With this change away from Apep, Taweret became seen only as the concubine of Set. She was seen as concubine rather than wife, as Set already was married to the extremely different goddess, Nephthys, to whom no parallels could be drawn. It then was said that Taweret had been an evil goddess, but changed her ways and held Set back on a chain.

As the goddess of motherhood, Taweret was eventually assimilated into the identity of Mut, the great-mother goddess.

E tudo isso só com a aparição de uma imagem, hehehe.

O resto do episódio foi de Sawyer – e de seu intérprete, Josh Holloway. Com roteiro escrito para explorar as melhores qualidades do ator, LeFleur foi uma homenagem da série ao ator e ao personagem, dando-lhe finalmente a oportunidade de renascimento que tanto buscava. O episódio ainda apresentou mais uma personagem (fãs de 24 Horas sorriem) e colocou mais um parto na contagem de 2009 (é o quinto?). Ao mesmo tempo, introduziu ao segundo ato da terceira temporada, que diz respeito especialmente à Iniciativa Dharma. Se vai ser o assunto dominante até o final desta etapa, não sabemos – mas é fato que os próximos episódios finalmente responderão às clássicas perguntas do segundo escalão sobre a série, que dizem respeito à Dharma. Não aprenderemos nenhuma novidade sobre a ilha em si, mas sim sobre quem pode estudá-la durante os anos 70. E o episódio fechou com um grande momento da tag “novela das oito” do seriado – o misto de paixão e negação que permeia os dramas românticos de Lost.

Pra finalizar, voltou ao Vítor, que, no início de seu comentário, faz a seguinte ressalva:

Acho que o mais legal é fazer compilações de informações concretas que foram passadas no seriado (e que passam desapercebidas), e deixar sempre as teorias e afins para a galera discutir nos comentários.

Com certeza. O meio é a mensagem.

***

Mais quinta temporada de Lost:

  • Lost: The Life and Death of Jeremy Bentham
  • Lost: 316
  • Lost: This Place is Death
  • Lost: The Little Prince
  • Lost: Jughead
  • Lost: Because You Left e The Lie
  • Parece que eles estão apenas começando a aparecer…

    E já que voltamos a Watchmen, o filme está bem na bilheteria, mas longe do resultado que previa o estúdio e isso fez com apressassem o lançamento do DVD complementar ao filme em uma semana – Os Contos do Cargueiro Negro (a história em quadrinhos dentro da história em quadrinhos) virou um desenho animado com voz do ator Gerard Butler (“THIS IS SPARTA!”) e seu DVD ainda contará com o minidocumentário fake Under the Hood, em que a biografia de Hollis Mason – o Coruja original – é recapitulada em entrevistas e imagens de época, como um programa de TV.

    Originalmente, cada um dos três primeiros capítulos de Under the Hood – a autobiografia de Mason – vinham ao final das três primeira edições de Watchmen em quadrinhos. E como caiu na rede é peixe, já vazou tanto o torrent do Cargueiro Negro (que tem 26 minutos) quanto o do Under the Hood (que tem 38). Além desses, o DVD ainda conta com outros extras, como uma cena não usada no filme (The Two Bernies, que confronta os dois personagens quase figurantes que habitam a esquina-símbolo da HQ em Nova York, o dono da banca de jornal e o leitor, ambos Bernie), uma entrevista com Zack Snyder, um documentariozinho chamado The Books of Watchmen e algo chamado de A First Look at the Green Lantern (será?). Não me agradeçam – agradeçam ao Danilo, que passou da hora de fazer seu próprio blog. E eu acho que já havia linkado o trailer do Black Freighter aqui, mas em todo caso…

    E aqui tem um outro preview, com algumas entrevistas:

    Mas não achei nenhuma imagem do Under the Hood.

    Resta saber como andará o filme durante o ano. Porque há uma versão de três horas e dez minutos do filme pronta para ser lançada em DVD, mas Snyder prometeu que se o filme fosse bem na estréia, ele poderia voltar aos cinemas, na versão ainda mais longa, no meio do ano, data em que o DVD do filme deve ser lançado (e imagina a quantidade de extras que viriam neste). E há quem ache que Watchmen pode tornar-se cult – o fato do filme estar fazendo muita gente buscar o quadrinho original pode fazer com que estas mesmas pessoas queiram rever o filme para compará-lo a HQ. Fora que no próximo mês e meio, nenhum filme tão grande vai ser lançado no cinema – até maio, quando teremos, quase na seqüência um do outro, Wolverine, Anjos e Demônios, Jornada nas Estrelas, O Exterminador do Futuro 4 e o Up da Pixar. E como a caixinha de surpresas de Snyper parece nunca ter esvaziado, não duvide se ele lançar ainda mais coisa com a grife Watchmen até o fim do ano… E não estou falando em merchandising…

    Isso sem contar o Watchmen Motion Comics, que está saindo em DVD em tem CINCO HORAS:

    E se você tá achando que Watchmen é febre, já aviso: o transformação de Alan Moore em ícone pop só está começando. Agora que as grandes publicações vão começar a tratá-lo com a seriedade que ele merece.

    Vamos falar a verdade – o Radiohead só passou a existir a partir do segundo semestre de 1997, quando OK Computer definiu uma fronteira ainda inconsciente. Ali terminava a carreira de uma banda do terceiro escalão da geração britpop, que se esforçava para suprir a lacuna deixada pelo U2 à medida em que Bono e companhia mergulhavam na dance music. Mesmo com algumas boas faixas em The Bends, o Radiohead era menos do que nota de rodapé na história do rock, fadado a ser lembrado mais por “Creep” do que por faixas infinitamente superiores, como “High and Dry”, “Fake Plastic Trees” ou “Just”. Até que, em um disco, mudaram completamente a abordagem de sua música, sua própria noção de importância e a consciência de perspectiva histórica. OK Computer era uma coleção de faixas que soavam tão inquietas quanto clássicos do rock, devendo tanto ao stress existencialista da geração X e à paranóia consumista dos anos 90 quanto aos discos solo dos Beatles e os discos certos do rock progressivo. E toda poeira retrô que pairava sobre as canções do último álbum da história do rock soa setentista ao mesmo tempo em que flutua pós-moderna, como se letra e música fossem atiradas à ausência de gravidade e humanidade de uma etapa cinzenta a seguir. Imagine o estado da banda ao conduzir versões com 14 minutos de uma “Paranoid Android” ainda não gravada para o público da primeira turnê americana de Alanis Morrissette, de quem foram o show de abertura.

    Mal sabíamos como aquele OK Computer seria definitivo: surrupiada de Douglas Adams, a frase funcionava como um epitáfio para o mundo pop como o conhecíamos, de artistas inatingíveis, canções que soam como hinos, discos para serem ouvidos de cabo a rabo, a indústria fonográfica em particular e o mercado de entretenimento como um todo. Tudo começaria a ruir naquele semestre. Ao mesmo tempo em que as letras da banda pareciam concretizar-se, novas estradas digitais eram erguidas. A ausência de resistência do título não era apenas um último suspiro, uma trégua final – também anunciava o início de novas regras no jogo do pop. Afinal, o computador não era apenas a caixa cinzenta de plástico que passaria a nos conectar através de uma rede neurológica planetária artificial, mas também cada um de seus usuários. Ao ceder ao computador, a banda estava encerrando também o ciclo de relação da banda com o ouvinte passivo, afinal, a partir dali ele também inseriria dados na equação do sucesso de determinado artista que iam além da simples compra de ingressos ou de discos.

    O próprio Radiohead foi cobaia desta nova realidade ao ver o disco posterior a OK Computer aparecer online antes de ter sido lançado. Quatro anos após ter subido degraus consideráveis em importância no mundo pop graças a um único disco, o Radiohead armava a contagem regressiva para o lançamento de um disco que a indústria esperava ser campeão de vendas com notícias que diziam que o disco seria hermético e experimental. E a expectativa aumentava quando gravações com as novas faixas tocadas em shows começaram a aparecer na internet –que culminou com o próprio vazamento de Kid A quase dois meses antes de seu lançamento oficial. Aquela novidade era uma prática que já vinha acontecendo com artistas menores, mas, com a chegada do Radiohead ao primeiro escalão do pop, abriu as possibilidades de ver a internet como vilã, ao minar as possibilidades de um artista de grande porte vender ainda mais discos. O resultado foi um esgar inicial à complexidade e densidade das canções, avessas ao classicismo de OK Computer, que rendeu notícias anunciando a morte prematura do disco. Mas foi o tempo necessário para o público digerir o álbum e seu conceito antipop para que Kid A, contrariando todas expectativas, se tornasse um dos discos mais vendidos do ano 2000 no mundo inteiro.

    Com Kid A, o grupo virou as costas para o que havia pregado em OK Computer e partiu para o que mais havia de vanguarda na época. Lembro da Wire, bíblia da música experimental, estampar Thom Yorke em sua capa com um misto de admiração e culpa, pois a banda de rock mais popular do planeta tinha levado para seu aguardado disco parte do universo de exploração e experimentos endeusados pela revista. A música mais “fácil” de Kid A não ajudava muito, ao criar um neologismo que fundia idiotice com discothéque, numa crítica nada sutil à pista de dança. Pesado e de poucos amigos, Kid A é um salto no escuro tão radical quanto os álbuns negros do Prince e do Metallica – embora não tenha errado tanto quanto o primeiro nem acertado tanto quanto o último. Em seu quarto disco, o Radiohead tinha deixado de ser uma banda pop aspirando o Olimpo para assumir a expressão de uma esfinge, uma Mona Lisa de olhos tortos que ri de/com/para algo – e você não sabe do quê.

    Os discos seguintes continuaram a trilha, abrindo-a para os lados. Amnesiac é o lado B de Kid A e o disco ao vivo I Might Be Wrong compila as músicas dos discos anteriores que poderiam ter feito o sucessor de OK Computer um disco palatável – mas desimportante por ser muito parecido. Com Hail to the Thief, eles ampliam ainda mais suas discussões ao assumir posições políticas ao mesmo tempo em que costuram o experimentalismo com sua maior qualidade, as canções.

    Sete anos depois do abismo Kid A, o grupo dá um passo ainda mais ousado – talvez até mesmo que o de OK Computer. Tudo estaria resolvido em menos de um mês. Em setembro de 2007, pouco se falava sobre o próximo disco do Radiohead e no mês seguinte a banda dominava o imaginário mundial. Começou com o mínimo de barulho num site chamado www.radiohead7lp.com, que computava uma contagem regressiva para alguma coisa. Sim, era o sétimo disco do Radiohead que estava para ser lançado, mas logo a própria banda vinha em seu site para dizer que não tinha nada a ver com aquela contagem regressiva. Em alguns posts anteriores, o grupo apenas lançava mensagens enigmáticas, criptografadas – uma delas foi traduzida como sendo MARCH WAX, o que levava a crer que o próximo disco da banda sairia apenas em vinil, seis meses depois.

    Ou não. Eis que o tal cronômetro chegou ao zero, revelando a frase – THE MOST GIGANTIC LYING HOAX OF ALL TIME (O MAIS GIGANTE E MENTIROSO BOATO DE TODOS OS TEMPOS, tudo em caixa alta mesmo) linkada a um vídeo do YouTube, que nos fazia cair no clipe de “Never Gonna Give You Up”, de Rick Astley, num primeiríssimo Rick Roll’d em larga escala. Ao mesmo tempo, o próprio site da banda revelava a seguinte mensagem:

    “Hello everyone.
    Well, the new album is finished, and it’s coming out in 10 days;
    We’ve called it In Rainbows.
    Love from us all.
    Jonny”

    Dali você era redirecionado para o site InRainbows.com, que escreveria uma nova página na história do capitalismo. No momento em que você optava por comprar o álbum, o site lhe oferecia a opção de escolher o preço que queria pagar. Não era simples altruísmo: assim, o que o Radiohead admitia era o fato de que, uma vez feito, o disco já estava lançado – pagaria quem se dispusesse a faze-lo. Mais do que ter o preço avaliado pelo comprador – o que é um conceito inovador em si –, In Rainbows foi dado de graça. Quem quisesse, poderia pagar pela comodidade de receber, além das dez faixas disponibilizadas em MP3, um pacote com o disco em vinil em edição especial, que ainda incluía um disco extra. Calibrando suas faixas com um bitrate específico (160 – ao contrário dos 320, 192 ou 128 que são usados como padrões), eles logo dominavam a rede com o mesmo disco em milhões de HDs diferentes. Ao contrário do vazamento involuntário, que pode pular uma das etapas do processo de produção do disco e vir com algo menos (títulos definitivos, masterização, ordem das músicas, etc.), In Rainbows chegou inteiro e ao mesmo tempo para todo seu público – e exatamente como queriam seus autores. Em um fim de semana, o sétimo disco do Radiohead deixava de ser uma conspiração decodificada por fãs para se tornar um novo paradigma para a cultura pop.

    In Rainbows ainda tem outro mérito – o de mostrar que download gratuito não pressupõe pirataria, como desinformava a guerra de nervos promovida pela indústria do disco no início da década, quando insistia em jogar na internet a culpa da má gestão de seus próprios negócios nos anos 90 e trata-la como vilã. Assim, se uma incauta geração inteira baixava MP3 como se não houvesse amanhã, outra, precavida, comprava seus MP3 com medo de prejudicar seus artistas favoritos. O Radiohead deu a esta última a chance de baixar não apenas uma música, mas um disco inteiro, de um artista estabelecido – de graça, sem dor.

    O feito transformou o Radiohead em novo paradigma digital. Não apenas o universo musical, mas todos conscientes do papel da internet ouviram falar da nova estratégia da banda, que em uma semana, teve mais de um milhão de downloads só do site oficial, dominou a parada da Last.fm e apresentou-se para gente que nunca tinha sequer parado para ouvir o grupo. Além de impulsionar uma safra de artistas a adotar o formato.

    Há quem desmereça o feito como mero recurso técnico feito para distrair a atenção da essência artística – reação usada para esvaziar os efeitos de Guerra nas Estrelas ou de Dark Side of the Moon, a cor em O Mágico de Oz, a pompa de Sgt. Pepper’s, o timbre de João Gilberto, a falta de respostas em Lost ou a filosofia de araque em Matrix. Os detratores do pop desvinculam tais elementos de suas obras originais de forma a torná-los ridículos para quem acompanha o fenômeno de fora, sem perceber que é justamente esse o elemento responsável por ampliar o público para longe do nicho, rumo às massas. E por mais óbvio que pareça ter sido o salto dado por In Rainbows, ele foi crucial, pois quebrou o parâmetro linear de produção da era analógica, que inevitavelmente faria o disco ser lançado mesmo em março de 2008, caso a banda entregasse o disco à gravadora, e não ao público. A sensação de desnorteamento foi tamanha, que havia quem considerasse o lançamento digital do disco um híbrido improvável batizado de “vazamento oficial” – sem perceber a contradição no termo. Como provocação, a banda ainda marcou o lançamento oficial do CD para o primeiro dia de 2008 – como se perguntasse a quem falou em “vazamento oficial” de quando é que eles vão datar o CD, 2007 ou 2008? Endossando a provocação, o Radiohead ainda fechou um acordo com a CurrenTV de Al Gore para transmitir um show gravado no estúdio da banda no último dia de 2007. Poucas horas antes do disco chegar às prateleiras das lojas do mundo, milhares de fãs da banda em todo o planeta cantavam todas as músicas de um disco que ainda não existira fisicamente, apenas de forma digital.

    Mas o fato é que todo esse rebuliço não seria tão importante caso In Rainbows não fosse bom. Tanto que logo depois o Nine Inch Nails lançou um disco de forma ainda mais ousada – tanto em termos mercadológicos quanto em se tratando de narrativa – e ninguém mal ouviu falar do disco. Por que é ruim? Não, afinal de contas, o trabalho de Trent Reznor é sério. Mas por que não se conecta de forma tão intensa com a própria época como o do Radiohead.

    E chamar In Rainbows de um bom disco é exagerar na modéstia. In Rainbows é o melhor álbum dos anos 00.

    Pois todo experimentalismo da virada do milênio já havia sido digerido pela própria banda. Expurgando a possibilidade de se repetir ao cogitar discos de vanguarda em vez de álbuns de rock, o Radiohead aos poucos abandona a experimentação e o improviso, rumo ao artesanato cancioneiro. As texturas e timbres alienígenas de Kid A/Amnesiac surgem nas entrelinhas, nos arranjos, nos detalhes de In Rainbows – que é, essencialmente, uma continuação de OK Computer. Há uma linha de raciocínio que inclusive busca ligar ambos discos e fãs do grupo são instigados a procurar sentido em coincidências como o fato dos dois discos serem batizados com expressões com duas palavras, uma com duas letras e outra com oito. Já cogitaram até mesmo que a audição entrelaçada das faixas dos dois discos abre uma nova dimensão entre suas canções – mas o efeito é mais lúdico do que racional e poderia funcionar com quaisquer faixas dos últimos discos da banda (sinal da coesão de sua sonoridade). Mas há ainda quem veja coincidências nos detalhes – e há uma ênfase no número 10 que sugere alguma referência à linguagem binária no Código Radiohead. Além dos discos terem 10 faixas cada (OK Computer tem onze, sendo que uma, “Fitter Happier”, é um interlúdio), OK Computer e In Rainbows foram lançados com dez anos de diferença entre si – e o último lançado exatamente no dia 10 de outubro (o mês 10) de 2007. E mais: o fato do título dos discos começarem com as letras “O” e “I” também seria outro aceno ao código binário. “Down is the New Up” – parece que tem mesmo algo aí.

    Mas, principalmente, há a música – e ela se mostra a princípio hermética. In Rainbows abre fechando-se com uma rajada de beats tortos, primos da gravadora Warp, que tanto bateu no grupo no início da década. “Como posso terminar onde comecei?”, pergunta-se Yorke, sem se preocupar em nos dar as boas vindas. “15 Step” aparentemente nos guia para outro beco sem saída experimental. Mas aos 40 segundos, deixa a guitarra jazzista de Jonny Greenwood superpor-se à percussão esquizofrênica – e a de Ed O’Brien logo surge funcionando como segunda voz, junto com uma sinuosa linha de baixo e uma melodia direta e reta, oposta a seus versos de abertura. “Tudo estava bem/ O que aconteceu? O gato comeu sua língua?”, pergunta o vocalista sobre a mudez espiritual de nosso tempo. “Etc. etc./ Fatos ou o que for”. O clima apático e tenso parece dissolver-se numa melancolia pós-milênio que filtra todo o disco – um sentimento que é um vazio existencialista parente da apatia cantada por Kurt Cobain e de um blues robô, que une Kraftwerk, Daft Punk, Aphex Twin e Brian Eno numa espécie de eletrônica autoral, em que o ritmo tem mais sentido do que sensação. Mas se essa sensação oca era a mesma que causava desespero e náusea em OK Computer, em In Rainbows ela parece menos caótica e mais precisa – como se tivesse completado um ciclo (os “15 passos” seriam um programa?).

    “Bodysnatchers” segue dura e rock, com seu riff distorcido conduzindo o ritmo como um cavalo selvagem, acompanhado em seguida por toda a banda. Esta alterna entre o pique inicial (cuja letra revela seu protagonista catatônico – “pisque seus olhos/ Uma vez para ‘sim’/ Duas vezes para ‘não’/ Eu não faço idéia do que você esteja falando”) e uma clareira de ritmo, quase zen, quando uma guitarra saída de um disco do Cure ou um teclado fantasmagórico sublinha os gemidos de Yorke. “A luz apagou pra você?/ Pra mim, apagou/ É o século 21”, canta numa performance, que vai do grunhidos ao sussurro, sua voz tão solta na parte final da canção como qualquer outro instrumento da banda, tão importante à formação sonora quanto as três guitarras, os teclados ou a cozinha decidida – e é ela quem encerra a faixa repetindo “eles estão vindo!”, como se impressionada com a coesão e força da usina de som que lidera, logo depois de concluir “eu estou vivo”.

    “Nude”, conhecida pelos fãs de shows com outro título, “Big Ideas”, começa superpondo vocais, samples de corais, cordas sintéticas para criar um clima de catedral, que é logo esvaziado – deixando apenas Yorke com o baixo de Colin Greenwood e a bateria de Phil Selway, criando uma atmosfera bucólica e tranqüila (embora a letra cante que por mais que você se apronte,“sempre algo estará faltando”), em que as duas guitarras entram como se fossem uma só, alternando detalhes dedilhados como nas baladas mais hipnóticas do Velvet Underground ou as canções mais pastoris do Pink Floyd. E logo essa estrutura instrumental serve como base para as mesmas cordas, samples e vocais que abriram a canção voltarem – e quando Yorke deixa sua voz soar sem letra, há um minuto do fim, estamos ouvindo um dos trechos musicais mais bonitos de nossa época, quase uma revelação sentimental, sentimentos que só a música consegue traduzir – palavras falham.

    O disco retoma à contagem de tempo antes da bateria assumir o ritmo incessante kraut que funciona como tela em branco para três guitarras superporem dedilhados, completando-se em “Weird Fishes/Arpeggi”. Não consigo dissociar não apenas essa faixa, mas diversos momentos de In Rainbows, da descoberta do violão feita pelo Legião Urbana em seu segundo disco – até porque a própria trajetória do Radiohead ultrapassa um arquétipo vivido pelo grupo de Renato Russo, que é quando uma banda guitarreira descobre a eficácia da harmonia em detrimento do ritmo e a sutileza do instrumento acústico em contraste à histeria elétrica. “Weird Fishes” é parente bastarda de “Andréa Doria” e “Plantas Debaixo do Aquário”, as mesmas texturas instrumentais, mesma sensação de esperança disfarçada de desespero, mesma abordagem temática do mar (Andréa Doria era o nome de um barco italiano que afundou em 1956, perto de Nova York).

    De andamento quase fúnebre, “All I Need” é outra bomba-relógio – ela parece prenunciar uma música tensa e solene, quando, na verdade, é a balada mais pop que o grupo já fez; uma canção pronta para aquecer corações, escorada em um arranjo com cara de Björk: bateria minimal, piano soturno, efeitos sonoros, ecos, muitos vazios. Ela termina em “Faust Arp”, uma microcanção em que o arranjo de cordas a deixa com ar ainda mais pastoril, nickdrakeano, onde o grupo faz valer seu anglicismo.

    A linda “Reckoner” é outra música que vai sendo construída lentamente entre nossos ouvidos, cada camada de instrumento sendo disposta de forma didática, nos ajudando a ouvir o que cada um faz na banda e nos explicando sentimentalmente o que é que precisa nos afeiçoar em uma canção para que ela torne-se universal – neste caso, apenas o andamento e a melodia, todo o resto é assessório. O vocal de Thom em especial deixa a aparente psicopatia de lado e atinge seu grande momento – em especial quando, na segunda parte da faixa, canta consigo mesmo e entoa, quase em segredo, o nome do disco. “House of Cards” não deixa cair – e vai pela mesma fórmula da canção anterior nos fisgando sem pensar. Desta vez o ritmo é determinado pela guitarra, que é apenas seguida pela bateria, deixando Thom Yorke ter seu outro grande momento, cantando em tom grave, oposto ao falsete de “Reckoner”. Há tanta referência – e reverência – ao folk dos anos 70 quanto à música ambient da virada do milênio, em outra canção irretocável.

    “Jigsaw Falling Into Place” é o grande momento do disco, como se fosse uma “Paranoid Android” amadurecida em dez anos – as mudanças entre as faces da música são menos abruptas e suas diferentes caras soam complementares, não antagônicas. Ela aponta para uma certeza que toma conta do disco – de que estamos finalmente vendo as coisas do jeito que elas são. Caem as máscaras erguidas pela comunicação e aos poucos conseguimos ver quem é quem, como se o ataque de pânico de OK Computer fosse substituído por uma sabedoria cínica, algo Tyler Durden, um sociopata disposto a derrubar tudo por dentro – a princípio o tom é sóbrio:

    “Logo que você segura minha mão
    Logo que você anota o número
    Logo que as bebidas chegam
    Logo que eles tocam sua música favorita
    A mágica desaparece”

    A letra continua dissecando toda a tensão da sociedade moderna do mesmo jeito em que a banda cresce – instrumentos acústicos e vocais que cantarolam começam a ser trocados por berros, solos de guitarra e cordas dramáticas e a música ganha um volume e densidade que no início era apenas referido. A letra invade um outro país das maravilhas de Alice, de paredes que perdem forma e gatos que sorriem mas também de ruído, ritmo e câmeras de circuito fechado. “Nunca fui lá/ Só fingi que fui”, “antes que você entre em coma/ Antes que você fuja de mim”, “Pra que servem instrumentos?/ Palavras são armas de cano serrado”, Yorke nos induz ao transe dervixe inglês antes de sentenciar que o quebra-cabeças começa a fazer sentido: “As peças se encaixam/ Não há nada a ser explicado”, canta como um guru psicodélico que guia um novato em uma viagem alucinógena – mas a viagem que a banda propõe é justamente abandonar o excesso de referências que polui e superlota nossas cabeças para “desejar que o pesadelo se vá”, pois “você tem uma luz e pode senti-la”. E ele não está sendo esotérico, como dá pra perceber.

    “Videotape”, devagar quase parando, encerra o disco com a melancolia de um velho VHS, Thom Yorke vê-se póstumo ainda querendo ater-se à vida que acabou de perder (“quando eu chegar às portas do céu/ Isso estará gravado em vídeo/ Mefistófeles logo abaixo/ Tentando me puxar”), nos fazendo pensar em nostalgia e como nos apegamos mais ao passado do que ao presente. Os acordes congelados ao piano são emoldurados por ruídos e texturas, sem nunca superpor-se à canção.

    In Rainbows é um conjunto perfeito de 10 canções perfeitas. Elas conversam entre si exatamente como falam das sensações que todos sentimos nos dias de hoje – um medo opressor cuja natureza é indeterminada, a tensão de ser humano – animal ou racional? – na medida em que a civilização entra em colapso, uma sensação vazia que se sobrepõe ao excesso de tudo. São os mesmos sentimentos desenhados em OK Computer, o que muda é a relação da banda com eles – se no primeiro disco parecia espantar-se e cogitar o suicídio, neste percebe que todo o ruído e poluição é só a casca de uma pseudo-realidade – e que o que há por trás do excesso de informações e caos de consciência que distorce nossa rotina é muito simples, claro e fácil.

    Alie isso ao fato de In Rainbows não ser um disco de inéditas. Conhecidas de seu público através de shows, quase todas as faixas já haviam aparecido mais de uma vez e já tinham vídeos no YouTube, letras em sites de fã e seqüências de acordes em repositórios online de canções cifradas para violão. Não era seu ineditismo que as tornava especiais em In Rainbows – mas a forma em que elas foram dispostas, sua produção, seus arranjos, o sentido que fizeram umas juntas às outras. Uma outra leva de músicas ainda podia ter se juntado à coleção inicial mas terminou como uma espécie de conteúdo extra – o segundo disco do vinil duplo vendido através do site – mas que, quis o destino, não era In Rainbows.

    In Rainbows é um conceito fechado, uma declaração de princípios, um manifesto estético. Mais do que um disco que assumiu-se digital por natureza e copiável por definição, é uma coleção de canções que não apenas traduzem certas sensações que permeiam nosso dia a dia, como faz isso com estilo, bom gosto, senso de importância e perspectiva histórica. Uma obra que ainda faz valer a existência de um formato, a prova de que o fim do CD não pressupõe o fim do álbum. E, por tudo isso, é o disco mais importante da década.

    Nos anos 90, o Radiohead não chegou perto deste título pois seus padrões foram estabelecidos logo no início – e OK Computer teria de competir com obras-prima como Blue Lines, Nevermind, Check Your Head, Loveless, The Chronic, Screamadelica e BloodSugarSexMagick. A década seguinte também talhou seu modus operandi de cara – e, desde o início, descartou o álbum como formato. Medidos em canções, os anos 00 esvaziaram o formato álbum de diferentes formas – de bandas que movimentam-se exclusivamente por singles (como toda a geração novo rock nascida após os Strokes) a artistas que se lançam por etapas, adicionando elementos extra à medida em que envolvem o ouvinte (pense nas carreiras de Dangermouse, Jack White, Marcelo Camelo ou Nick Cave – e suas muitas camadas de apresentação ao público). Quando o Radiohead se propôs a lançar In Rainbows como o lançou, sabia onde queria estar.

    A expectativa para os shows do Radiohead no Brasil essa semana não é à toa: estamos às vésperas de assistir à maior banda do planeta hoje tocar o show da turnê do disco da década.

    ***

    O texto acima faz parte da contagem regressiva que o Marcelo Costa está fazendo para o show da banda, no Scream & Yell. Além de eu escrevendo sobre o In Rainbows, todos os outros discos da banda foram comentados: o Pablo Honey caiu na mão do Palandi, o The Bends foi para a Renata, o Tiago escreveu sobre o OK Computer, o Kid A ficou com Luís Henrique Pellanda, o Amnesiac com Marco Tomazzoni e o Hail to the Thief com o próprio Marcelo.

    A cultura do remix

    Conforme prometido ontem, segue meu capítulo do livro Para Entender a Internet, do Juliano Spyer. O livro é uma compilação digital de vários textos que buscam explicar conceitos básicos da natureza digital. Além do meu texto, o livro ainda conta com textos de Sérgio Amadeu sobre pirataria, André “Maratimba” Passamani sobre P2P, Carlos Merigo sobre propaganda, Raquel Recuero sobre redes sociais, Soninha sobre eleições e internet, Interney sobre blog, do Kazi sobre beta, Fábio Fernandes sobre cyberpunk, Cris Dias sobre capital social, Luli Radfahrer sobre mobilidade, Zé Murilo sobre ecologia digital, Felipe Fonseca sobre lixo eletrônico, Ana Brambilla sobre jornalismo colaborativo e Rodrigo Savazoni sobre exclusão digital, entre outros. Segue o meu texto abaixo, mas ele também se encontra aqui (com os devidos links para a expansão dos conceitos). O livro ainda não existe em papel, mas pode ser baixado em PDF aqui.

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    Cultura do remix

    O termo remix surgiu nos anos 70, quando produtores e DJs descobriram que era possível mexer na música depois que ela havia sido gravada. Um conceito de certa maneira novo, a pós-produção ajudou a maturidade do rock nos anos 60, quando, liderada pelos Beatles, toda uma geração se dispôs a alterar a própria obra com efeitos, superposições e modulações que podiam mudar sutil ou completamente o que havia sido registrado em estúdio. Mas o que o produtor americano Tom Mould descobriu quase sem querer que era possível aproveitar este novo recurso e aplicá-lo em um mercado ainda mais recente, o da disco music. Ele quem começou a explorar as possibilidades de uma mesma música ser esticada, às vezes por mais de dez minutos, caso fosse necessário. Ciente da novíssima habilidade dos DJs de Nova York no final dos anos 70 (que, sozinhos, começaram a grudar as músicas umas nas outras, juntando batidas semelhantes e encaixando as músicas umas nas outras), Mould percebeu que poderia ajudar a movimentação da pista de dança se fizesse discos que ajudassem o DJ – afinal, discos eram seus instrumentos. E assim foi inventando novidades como o breque instrumental no meio da música – que poderia ser usado ou para prolongar a duração da música, usando-se dois discos, ou permitir que uma nova música entrasse -, o single de 12 polegadas (com sulcos mais largos, em vez do compacto de sete) e, finalmente, o remix.

    O conceito de remix, no entanto, não podia ficar limitado à pista de dança. Afinal, ele trata de um processo que começa a reverter o detalhismo cartesiano que categorizou o mundo em compartimentos tão diferentes que parece não ter conexões entre si. Aos poucos redescobrimos pontos em comum em áreas que antes julgávamos completamente alheias umas às outras – intersecções entre arte e dinheiro, ciência e religião, paixão e lucro – que nos fazem repensar completamente o cenário em que habitamos. Estamos, como Mould no final dos anos 70, descobrindo que existem formas de facilitar a vida de cada um dos DJs do mundo – e todo mundo é um DJ em potencial. Como tal, todo ser humano edita sua própria realidade a partir de sentimentos, conceitos, princípios e valores que são, voltando à metáfora, as canções que ele quer que o resto do mundo ouça. Com os recentes avanços tecnológicos que tivemos ao final do século passado, começamos a remixar a realidade de forma mais drástica e consciente, seja no controle remoto, no uso da internet e em tudo que consumimos.

    Mais do que na música, que ainda mantém alguns setores completamente alheios ao remix, a realidade atual é completamente remixada. Entre as roupas customizadas e os carros tunados, há um sem-fim de produtos que estão sendo reinventados por seus consumidores – além de tantos outros produtos que foram feitos para ajudar as pessoas a criar, mais do que a simplesmente remixar. Se antes temíamos que a sociedade do consumo nos padronizasse e uniformizasse, estamos vendo um movimento bem diferente acontecendo hoje em dia – e a cada dia que passa, mais temos possibilidades disponíveis para alterar a nossa rotina.

    Esse processo de remisturação é o oposto do que aconteceu, voltamos à música, quando o áudio começou a ser gravado. Artistas que nunca haviam aspirado o sucesso além de sua própria comunidade aos poucos se viram transformados em pequenas celebridades, vendendo um novo tipo de som novíssimo para o público em geral pelo único fato de ser gravado. Se antes a música popular era um processo coletivo, sem duração, gênero musical ou autoria definidos, à medida em que o século 20 amanhecia, surgiram novos astros de uma música que, devido a limitações técnicas (só era possível gravar três ou quatro minutos), passava a ter um tema só e começo, meio e fim. Assim surgiu o jazz, o blues, o tango, a moda de viola, o samba, o baião, a rumba, o country e o frevo, por exemplo, gêneros musicais que eram praticados na rua por todos que, quando um Robert Johnson ou Luiz Gonzaga chegava ao estúdio, era personalizado em um músico, quase sempre “o rei do tipo de música tal”.

    Estabelecida com o advento da mesma inovação tecnológica que deu origem aos idiomas modernos, aos países, aos livros e ao jornalismo (a palavra impressa), a autoria, como todos estes conceitos anteriores, vem, no entanto, sofrendo uma drástica derrocada que acompanha os primeiros passos de uma nova consciência planetária. O meio ambiente, o capitalismo moderno e a cultura pop funcionaram como agentes cruciais no despertar dessa sensação de que todos nós somos responsáveis por todo o planeta. A internet só nos conectou. Encontrou um ambiente propício para acelerar a troca de idéias e de informação a ponto de tornar-se, em pouquíssimo tempo, no sistema nervoso da humanidade.

    Do mesmo jeito que o gênio não é alguém que veio do nada e venceu por conta de seus próprios esforços (sempre procure o contexto de onde o sujeito veio antes de comemorar a vitória da individualidade), a criatividade também não pertence a um só indivíduo. E se o século 20 consolidou o conceito de autoria graças à várias revoluções tecnológicas do fim do século anterior (a fotografia, a rotativa, o gravador de som e de imagens – basicamente invenções ligadas ao processo de registro), a revolução tecnológica que assistimos hoje é baseada em exposição, distribuição e troca. Estamos dispostos a fazer o conhecimento planetário possa se tornar acessível a todos os seres humanos e temos cada vez mais consciência disso – como do nosso papel de agente desta distribuição, atuando como um DJ que, de acordo com as “músicas” (sentimentos, conceitos, princípios e valores) que escolhe, atinge um determinado tipo de público.

    Afinal de contas, é só um filme

    Quem são esses caras? Não estou falando dos Watchmen, embora a pergunta seja cabível – e a resposta é não. Não existe um grupo de super-heróis chamado Watchmen. O termo só une os protagonistas quando somos mostrados às cenas do final dos anos 70, quando a população americana, revoltada com a polícia paramilitar que os super-heróis haviam se tornado, passa a questionar, na marra, os mascarados. E é em uma pergunta pichada nas paredes (“Quem vigia os vigilantes?”) que o nome da HQ aparece, nunca em primeiro plano, sempre com alguém passando em sua frente.

    O título Watchmen, como a própria série original – guarda uma série de sentidos paralelos. Além dos “vigilantes” da pichação, o nome também faz referência ao grupo de heróis surgido nos anos 30 e 40, os Minutemen, ao mesmo tempo em que alude à infância do jovem Jon Osterman e seu posterior entendimento da realidade. Osterman, devido a um acidente nuclear, foi transformado em energia pura para, mais tarde, se recompor e renascer como o Dr. Manhattan, o único ser (humano?) com superpoderes de fato. Filho de um relojoeiro, ele aprendeu o ofício com o pai para, depois que se transformasse num cara azul feito de luz sólida, usasse o aparelho relógio em sua metáfora sobre o tempo e o espaço – cada engrenagem posicionada exatamente no lugar onde deveria estar para que o todo funcionasse. Esse relógio metafórico é nos mostrado como a homenagem de Moore à Fortaleza da Solidão do Super-Homem – isolado, Dr. Manhattan usa a areia do deserto marciano para criar um enorme fractal tridimensional de vidro em movimento, seu próprio relógio ficcional. Assim, Moore conecta os dois sentidos do termo “Watch” – relógio e vigia – e entende os super-heróis (ou, se tirarmos a metáfora, as pessoas que mandam no resto do mundo) como engrenagens necessárias para fazer o relógio da humanidade continuar funcionando. Junte isso e temos um dos temas da série, espelhado nas engrenagens mostradas no trailer e no relógio do fim do mundo – que no filme ganha importância extra desnecessária.

    Mas eu me referia aos atores – quem são esses caras que estão nos papéis principais de Watchmen? O mais conhecido deles é Billy Crudup (quem?) que faz o filho no Peixe Grande do Burton e o guitarrista do Quase Famosos. Todos os outros são literais anônimos, sem carreira relevante em Hollywood: o Comediante é ator regular em Supernatural e Grey’s Anatomy, o papel mais memorável de Laurie é a loirinha casada com of freak no primeiro filme da dupla maconheira Harold & Kumar, o ator que faz Adrian Veidt veio do teatro, Rorschach era ator-mirim que teve a carreira revalorizada em Little Children e o segundo Coruja é o sujeito torturado por Ellen “Juno” Page em Menina.Má.com. Percebem um padrão de cultura pop de nicho nas conexões com o elenco? Acha pouco? Pois o primeiro Coruja é um namorado psicólogo da Elaine de Seinfeld, o ator que faz Dollar Bill é velho conhecido da saga Stargate e o ator que faz Moloch é ninguém menos que o mesmo sujeito que personificava Max Headroom. E para os fãs de Seinfeld há ainda uma pequena surpresa…

    Isso sem contar o excesso de referências e reencenações históricas, que ao mesmo tempo em que conta a História com H maiúsculo (o assassinato de Kennedy, Fidel e a União Soviética, o Vietnã, o homem na Lua) consagra a cultura pop como a verdadeira cultura desses tempos – Lennon, Yoko, Rockwell, a disco music e, claro, Andy Warhol. Num mundo em que super-heróis fantasiados e coloridos são alçados ao patamar de arquétipos mitológicos (e esse mundo é o nosso, não o de Watchmen), é inevitável constatar que o rock’n’roll, a música pop e o cinema dos anos 70 sejam mais importantes para o final do século 20 do que todas as seis artes tradicionais juntas. O filme peca ao não incluir quadrinhos nessa homenagem – uma das poucos referências à nona arte é quando um dos personagens explica que ele não é “um vilão de histórias em quadrinhos”.

    As referências históricas – e pop – continuam filtrando o filme por outro aspecto: Watchmen é uma festa anos 80, sem medo de ser feliz e chegar tarde no trabalho no dia seguinte. E tome amarelo-limão, rosa-choque e neons espalhados e espelhados pelos becos e poças no asfalto, fumaça que parece gelo seco, glow natural saindo das cores dos personagens e das explosões e uma trilha sonora que ousa reposicionar Tears for Fears como muzak em uma cena pra lá de ambígua. A trilha sonora é outro pequeno achado. Embora guiada pelas citações de Alan Moore (em certo sentido, ele é o discotecário do filme, mostrando que a força do DJ também é narrativa), a escolha das músicas consegue casar cenas fortes e canções manjadas criando painéis audiovisuais que são os grandes trunfos cinematográficos de Watchmen. Dylan e Hendrix soam majestáticos, grandiosos, enquanto Nena, Nat King Cole e Simon & Garfunkel transcendem seus próprios clichês e se relêem de forma quase cínica, como o quadrinho original. O único ponto fraco é a música que encerra o filme, uma versão sem graça do My Chemical Romance pra “Desolation Row”, do Dylan. Deixa aparecerem as versões reeditadas pelos fãs que alguém coloca a música original no lugar – com a maior duração possível.

    A ação, que é mínima no quadrinho, foi ampliada para dar dinâmica e fôlego ao filme, que se arrasta demais em sua primeira parte para correr demais na segunda – dá pra ver exatamente em que ponto o diretor abriu mão para desengordurar a meia hora de filme pro lançamento comercial. E as atuações – fora uma – não chegam a comprometer. Matthew Goode se esforça, se esforça, mas é um Veidt pífio, sem densidade, sem o drama necessário para o papel e sem a panca de Lex Luthor (ops) civilizado que o original tinha. O Ozymandias do filme é quase um ex-integrante de boy band que foi pro mundo dos negócios, o equivalente pop branco do Jay Z. Ele tira onda, mas não funciona.

    Outros, passam: Malin Akerman é uma Laurie OK, Crudup não é o Manhattan perfeito mas segura o papel sem parecer ridículo (o que já é um pequeno trunfo, convenhamos), Carla Gugino está bem como ex-vedete e o mashup de Javier Barden com Robert Downey Jr. que faz o comediante parece uma caricatura do personagem original – o que não soa mal. Há um subtexto que indica até que ele seria o Elvis deste universo bizarro, ao recriar a famosa foto de Elvis com Nixon – outra caricatura em movimento, no filme.

    Mas dois atores – que conduzem a história – salvam o filme. Jackie Earle Haley é um Rorschach de Método, o cara afundou no personagem e virou ele, com ou sem máscara. E Patrick Wilson faz o Bruce Wayne da vida real, cheio de rugas de preocupação e expressões de autopiedade, um cara fascinado pelo que lhe fez tornar-se um herói (pássaros, aviões, ciência) a ponto de frustrar o pai magnata. No fim, a opção por anônimos talvez tenha sido crucial para o filme, pro bem e pro mal.

    E eu não terminei de falar do filme ainda…

    O melhor filme que nunca foi feito

    “Eis uma questão que levaria uma entrevista inteira para ser respondida. Para começar, ele me fascina. Sua vida é descrita como um poema épico de ação. Sua vida sexual era digna de ser analisada por Arthur Schnitzler. É um destes raros homens que movem a história e moldam o destino de seu próprio tempo e das gerações a seguir – em um sentido muito concreto, nosso próprio mundo é fruto de Napoleão, como o mapa político e geográfico da Europa pós-guerra e o resultado da Segunda Guerra Mundial. E, claro, nunca houve um filme bom ou adequado sobre o tema. Também considero que todas as questões envolvidas são estranhamento contemporâneas – as responsabilidades e os abusos do poder, as dinâmicas da revolução social, a relação entre o indivíduo e o estado, guerra, militarismo, erc., portanto não é apenas um tributo histórico empoeirado, mas um filme sobre as questões básicas de nossa época e a de Napoleão. Mas mesmo longe destes aspectos da história, o drama completo e a força de vida de Napoleão é um assunto fantástico para uma biografia em filme. Esqueça todo o resto e tenha apenas seu envolvimento romântico com Josefina, por exemplo, e eis uma das maiores paixões obsessivas de todos os tempos”

    Napoleão foi o cálice sagrado de Stanley Kubrick, um dos muitos filmes que não conseguiu terminar antes de morrer e certamente seu maior projeto. E não é exagero quando ele explica na entrevista que deu para o livro de Joseph Gelmis, The Film Director as Superstar, citada acima, que o filme renderia uma entrevista só sobre o assunto – uma não, várias. A coleção de documentos que Kubrick tinha sobre Napoleão equivalia simplesmente à segunda maior biblioteca sobre o tema do mundo, só perdendo para a coleção do próprio governo da França. Sua obsessão com o tema era tamanha, que ele construiu um arquivo de fichas com os principais acontecimentos na vida de 50 pessoas que acompanharia em seu épico, para usa-los no caso de mexer na história do filme e saber onde cada uma daquelas pessoas estaria em determinado momento na vida de Napoleão – detalhe: o arquivo tinha 25 mil fichas! Além disso, desenvolveu todo um sistema de imagens e objetos usados filme para evitar ter de responder às mesmas perguntas mil vezes e passou a imitar o próprio estilo do Napoleão, cuspindo perguntas incessantes assim que era apresentado para qualquer pessoa e comendo todos os pratos de uma refeição (incluindo a sobremesa) ao mesmo tempo.

    Quem já folheou o mítico “Kubrick de mil reais“, o livraço de Alison Castle em que a filmografia do velho Stanley é dissecada à minúcia, já se deparou com páginas e páginas dedicadas ao projeto Napoleão, que só instigam a grandiosidade do que poderia ser o filme.

    Mas e se eu te disser que a mesma Alison Castle está preparando o lançamento de um livro das mesmas proporções do Archives só que só sobre o filme perdido? É sério. Meu medo é que venha alguém se dispondo a filmar essa história “do mesmo jeito de Kubrick”, já que até o roteiro está disponível (em PDF) há tempos. Mas foda-se isso, imagina o que não tem nesse livro… De chorar.

    Watchmen e o pessimismo para as massas

    Antes de entrar em qualquer mérito sobre Watchmen – se a adaptação é boa ou não, se o filme agrada os fãs ou conquista os leigos de quadrinhos -, a principal impressão em relação ao filme é seu tom mórbido. Mais do que paranóico ou apocalíptico, Watchmen é deprê – e esfrega isso na sua cara a cada osso que se parte ou ser vivo que explode de dentro pra fora. Zack Snyder parece disposto a nos mostrar que a realidade é bem pior do que imagina o pessimista padrão e recria, com fortes cores oitentistas, a visão ultra-realista e reacionária de Rorschach como principal ponto de vista do filme. Mais justiceiro que super-herói, a desiusão essencial de Rorschach com o resto do mundo contagia todo o filme. E sem sutileza. A cada dez ou quinze minutos uma espécie diferente de susto choca o espectador – seja a moral descendo para mostrar que o poço pode ser mais fundo, seja pedaços de corpos humanos virados do avesso.

    O pessimismo não é novidade no cenário pop. Como o próprio Comediante comenta, a Guerra do Vietnã mexeu com o imaginário vitorioso do americano. E o cinema da virada dos anos 60 para os 70 se reinventou a partir desse senso de derrota. Filmes saídos das cabeças de uma geração rock’n’roll de diretores – como Easy Rider, O Poderoso Chefão, Operação França, THX 1138, Taxi Driver, A Última Sessão de Cinema, Apocalypse Now ou American Grafitti – partiam do pressuposto que o Sonho Americano havia tornado-se um pesadelo. Logo essa frustração se refletiria em todas as facetas do cinema daquele país – Rede de Intrigas, Todos os Homens do Presidente, Chinatown, Um Estranho no Ninho, Tubarão, Dirty Harry, Halloween. Liste os melhores filmes dos anos 70 e é bem grande a possibilidade de termos poucos filmes otimistas. Até as comédias de Woody Allen e Mel Brooks e melodramas como Love Story, O Corcel Negro e O Campeão puxavam para baixo. Foi esse mesmo pessimismo que funcionou como adubo para toda uma nova geração. Punk rock, disco music, rap, literatura cyberpunk, grafitti floresceram ao lado de filmes que também não vislumbravam um futuro amigável (Blade Runner, Alien, Mad Max, Akira, O Exterminador do Futuro) – e da geração inglesa de quadrinistas revelados naquela década, a mesma que deu ao mundo Watchmen, Sandman, Batman – A Piada Mortal, Judge Dredd e Orquídea Negra.

    A queda do Muro de Berlim fez com que cinema retomasse algum ânimo e aos poucos fomos assistindo a uma diluição de um otimismo de mentira, farsesco, com um pessimismo cênico, de araque, em sucesso de bilheteria e de pieguice. Um arco formado por filmes como Ghost, O Rei Leão, A Lista de Schindler, Central do Brasil, Magnólia, Forrest Gump, A Vida é Bela e Titanic serviu de contraponto ao sorriso cínico de filmes independentes que pareciam ser felizes, mas não eram (Trainspotting, Um Sonho de Liberdade, Los Angeles Cidade Proibida, Se7en e Clube da Luta, tudo dos Coen, do Tim Burton, de Tarantino e do David Lynch). Finalmente, o cenário criado pelo atrito destas duas pontas deu origem a um cinema literalmente espetacular. Roteiro, atuação e direção são deixados em segundo plano para criar uma categoria de filmes ancorada em efeitos especiais, cenas de luta, perseguições e frases de efeito. Nascidos com Matrix, essa nova safra de filmes desta década que está chegando ao fim é justamente a que inclui este monte de adaptações de quadrinhos.

    E desde Matrix voltamos a acreditar no super-herói enquanto ícone cultural. Um formato que parecia ter dado tudo de si quando George Clooney foi o Batman naquele filme risível (que, pra mim, é o melhor dos quatro primeiros Batman – justamente porque se baseia na série tosca dos anos 90 60), mas que justamente devido à confusão – ou ausência – de sentimentos da virada do milênio conseguiu se reerguer. Primeiro com o Homem-Aranha, depois os X-Men, Hulk, Demolidor, Batman, Quarteto Fantástico, Super-Homem, Homem de Ferro e agora a lista parece não ter fim – Wolverine solo, Capitão América, Lanterna Verde, Thor, todos esses já têm filmes em andamento.

    Eis que chegamos em Watchmen, que está para as histórias em quadrinhos como Cidadão Kane está para o cinema. Durante muito tempo, a história realmente foi a melhor de todos os tempos, mas uma série de autores já a superaram (incluindo o próprio Alan Moore, mais de uma vez). O que permanece intacto é seu impacto, sua importância. Ao lado da recriação do Batman por Frank Miller em O Cavaleiro das Trevas, Watchmen reestabeleceu um novo parâmetro tanto para os quadrinhos comerciais como, principalmente, para as histórias de super-herói. E tudo bem que uma série de inovações de linguagem e formato são responsáveis por manter a importância de Watchmen intacta (como o filme de Orson Welles), mas o motivo de seu sucesso talvez passe longe disso – e tenha mais a ver com a sensação mórbida e nauseante de um apocalipse iminente.

    E é esse exatamente o motivo para o possível sucesso de Watchmen. O filme já começou a ser bombardeado pela intelligentsia da crítica de cinema ao mesmo tempo em que vem sendo louvado pelos fãs (embora haja uma série de ressalvas), aumentando ainda mais a expectativa quanto a seu lançamento oficial. Se a noite sem alma que domina o filme se conectar com o pânico paralisado da atual crise que paira sobre o planeta, pode ser que Watchmen funcione como uma enorme terapia coletiva. E faça com o filme de super-herói o que a graphic novel original fez com o quadrinho de super-herói: pendure-o algum tempo sobre o abismo da realidade e deixe-o livrar-se de seus acessórios supérfluos. Deixando brinquedos caros e efeitos especiais em segundo plano (eles não são a história, afinal de contas), Watchmen pode ajudar o público deste tipo de filme a buscar outras emoções em seu espectro sentimental. Muitos vão achar isso brochante ou caricato como o Nixon na telona mas, como o próprio filme sublinha, assim também pode ser a vida. Aprenda a lidar com isso.

    Amanhã eu continuo.

    Tem que melhorar…

    Antes de falar sobre The Life and Death of Jeremy Bentham, episódio da semana passada de Lost, vamos às vias de fato sobre essa quinta temporada: quanta encheção de lingüiça! Tudo bem, todo episódio tem uma ou duas cenas realmente boas, mas enquanto isso somos arrastados por uma história que ou parece não ter sentido ou que poderia ser resolvida sem gastar tantos episódios. Com a chegada dos Oceanic 5 (cadê o Aaron?) na ilha maluca no episódio 316, parecia que The Life and Death… seria desses momentos de Lost em que tudo se redesenha em um único programa, afinal, veríamos o que Locke falou para que aqueles que conseguiram fugir da ilha resolvessem voltar. E mais: como ele morreu? O que o levou a se matar? Por que ele teria se rebatizado de Jeremy Bentham?

    Quando o novo nome de John Locke veio à tona, uma série de teorias começaram a surgir, comparando o contraste entre o Locke e o Bentham original. Será que o careca teria deixado de ser bonzinho e assumido uma postura mais libertária e arrogante como seu novo pseudônimo? O que ele teria feito na ilha que lhe fez optar por uma mudança tão radical que inclui o próprio nome? E logo depois do início do episódio, todo o mistério é desfeito em uma frase, quando Charles Widmore entrega documentos e cartões de crédito para Locke iniciar sua jornada para convencer Jack, Kate, Hurley, Sayid e Sun a voltarem à ilha, citando que do mesmo jeito que seus pais tinham senso de humor ao batizá-lo de Locke, ele assim o fez ao rebatizá-lo.

    Simples, não? Simples e PALHA. Locke sequer deve saber quem foi o Bentham original ao mesmo tempo em que pergunto-me o que mudaria caso Widmore o batizasse de “John Doe” (o “fulano de tal” dos americanos) ou o deixasse com seu mesmo nome – e a única resposta que me vem é “nada”. Da mesma forma, assistimos lentamente o careca maluco visitar cada um dos Oceanic Six (menos Sun, pois havia prometido a Jin que não a procuraria) em diferentes cidades do planeta. E o que Locke poderia ter dito a eles a ponto de todos concordassem a voltar à ilha? Alguma ameaça? Um novo ponto de vista sobre todo o acidente, a mudança da ilha e o resgate? Uma novo discurso, menos carola e mais cético?

    Que nada: assistimos ao mesmo Locke de sempre vir com os mesmos papinhos de quando ele estava na ilha. “Você tem que voltar” em diferentes variações, com direito às conversas mais íntimas que ele já teve com os mesmos personagens. Mas é um sentimentalismo vazio, oco, que não convence nem o telespectador, quanto mais os carinhas que devem voltar. Sem sucesso, ele resolve se matar.

    Hein? O Locke? Aquele personagem que passou pelos piores bocados do seriado, que comeu o pão que o diabo amassou a vida inteira, resolve se matar porque não conseguiu convencer os outros a voltarem à ilha? Widmore não foi tão convincente assim e o principal motivo de ele querer voltar para a ilha (o fato de ele não ter mais nada a perder, como Kate esbraveja) também pode ser um motivo para ele nunca mais querer voltar para lá. Na jornada de Locke, poucos pontos são verdadeiramente importantes para o seriado, como o fato de ele descobrir que sua ex-mulher Helen havia morrido (será? Quem a matou? Ben? Ou ele só forjou sua morte para que Locke tivesse motivos para não ficar fora da ilha?) e a morte de Abbadon (que também pode ter sido forjada, pois logo após ele ser baleado, Locke assume o volante do carro e se envolve num acidente que o leva para… o mesmo hospital que Jack trabalha).

    Além disso ainda reencontramos Walt, cada vez mais gigante. Se os produtores não quiserem que o Walt na temporada do ano que vem não seja um negão do porte de um jogador de basquete (ou do Mr. Eko? Hmmmm), é melhor filmarem logos suas cenas, porque ele só convenceu que ainda é um moleque porque Locke conversou com ele na cadeira de rodas.

    (Sobre a teoria que Abbadon seria Walt velho, o fato de Abbadon ter morrido – se é que foi – não invalida a possibilidade de ele ter se tornado o ajudante de Widmore. Afinal, uma vez morto no presente, ele pode crescer e voltar no tempo para assumir o papel do procurador sinistro.)

    E então temos a cena do suicídio de Locke, cheia de alegorias religiosas – Locke de branco, pendura sua forca em uma cruz de madeira e abre os braços antes de pular, para ser interrompido por Ben todo de preto, que, pouco depois de salvá-lo, mata-o como seu próprio Judas. Junte isso ao fato da ressurreição de Locke ter acontecido três dias depois de sua morte e, pronto, temos a confirmação de que ele é o personal Jesus da série.

    Ou ao menos é assim que Widmore e Ben querem que ele pense – e nós também.

    Porque a picuinha Widmore x Ben continua completamente alheia à história principal. “A ilha é minha” contra “ele mudou as regras” não ajuda a gente a saber quem é mocinho e quem é bandido nessa história. Lost vem conduzindo a trama pra que nós entendamos que não tem mocinho nessa história, por mais legal e fala mansa que Charles tenha sido no episódio passado. Mas a facilidade em encontrar o endereço de Ms. Hawking e a tranqüilidade com que ele o passou para Desmond insinuam que ele pode estar do lado da Dharma e de Eloise. Mas lembre-se que esse é o mesmo sujeito que botou um avião cheio de cadáveres no fundo do mar e que mandou mercenários num cargueiro matar geral na ilha.

    Mas o grande momento do episódio, pra mim, foi mostrado quase na surdina – e de cara. A primeira cena nos revelou que o avião pousou na ilha – e não apenas desapareceu – e o pouso não parece ter sido tranqüilo (ou a pista não estava pronto). Ao mesmo tempo, eles não pousaram na ilha principal – e sim na ilha menor, onde está localizada a estação Hidra. E a primeira cena do episódio da semana passada mostrava um novo personagem Caesar vasculhando a estação como quem procura algo… e acha. Além de folhear uma Life com um monstro do mar carregando uma moça desmaiada, ele acha uma pasta com uma série de documentos a respeito da ilha – um deles é um mapa semelhante ao que já vimos na série e o outro é uma espécie de fluxograma que intercala “tempo real”, “tempo imaginário” e outras linhas do tempo. Logo depois, ele encontra uma arma, que esconde de outra nova personagem, Ilana. Não duvide se os dois estiverem no esquema de alguém – ou de alguéns. Caesar pode ter sido enviado por Widmore, já que chegou no vôo em cima da hora, enquanto Ilana pode ser uma agente de Ben, já que trouxe Sayid. Ainda descobrimos que o piloto e uma mulher fugiram em uma das canoas que estavam na praia – tudo leva a crer que a mulher seja Sun, mas é mais provável que seja uma aeromoça. Afinal, a aeromoça do primeiro vôo sumiu pra morar com os Outros. No fim das contas, o susto de Lapidus no episódio 316 era falso – e ele sempre soube no que estava envolvido. Não só ele, mas vários funcionários da Ajira Airways e a Oceanic Airlines (será que as empresas são de propriedade de algum conhecido nosso?). E não duvide: quando Sawyer, Juliette e companhia remavam num barquinho, certamente é Lapidus e sua companheira quem atiravam neles, na outra canoa.

    Mas eles não estavam no tempo da Rousseau? Em 1988? E Jack, Kate e Hurley não foram parar no tempo da Kombi novinha, também conhecido como anos 70? Onde – ou melhor, quando – tá todo mundo?

    Saberemos hoje, em La Fleur, quando, aparentemente, voltaremos à ilha e, se Jacob quiser, a quinta temporada deixa a competição como ano mais enfadonho da série depois da terceira safra de episódios. Tomara!

    Mais quinta temporada de Lost:

  • Lost: 316
  • Lost: This Place is Death
  • Lost: The Little Prince
  • Lost: Jughead
  • Lost: Because You Left e The Lie
  • O futuro dos filmes de super-herói

    É agora: Watchmen estréia sexta que vem. Um lado da história já conhecemos bem – a campanha de marketing tentacular, a importância do quadrinho original tanto para o formato quanto para a linguagem, a longa saga de tentar adaptar a série pessimista para o cinema, as pragas rogadas por Alan Moore. O fã ou está com o coração na garganta ou com a pulga atrás na orelha, já sabe das mudanças mais drásticas no roteiro, o que fizeram com a história paralela do Cargueiro Negro, como representarão o Dr. Manhattan na tela. O trailer definitivo segue sendo martelado funebremente – sua música-tema trocada de “The End Is the Beginning Is the End” dos Smashing Pumpkins (usada como tema de Batman & Robin, de 97) por “Angel” do Massive Attack tira o tom irônico de usa primeira aparição para dar o clima sombrio e depressivo da história original.

    Mas há outro que desconhecemos: e quem não sabe o que é Watchmen? Com uma campanha publicitária e detalhes de produção tão dispostos a conquistar o fã na base da overdose de superlativos, o que ela diz para quem não conhece o que é a história original? Quem são os Watchmen? O que é tão importante na história dessa graphic novel? Quais são os poderes desses super-heróis? Nixon? Vietnã? Marte? Um herói chamado Comediante? E o que esse cara com a máscara de teste de tinta de psicólogo faz? E esse cara de azul? Quantos eles são? E “buuuuum”, explosão em câmera lenta… “Kkkk-prrrr-BFFFFF!!!”, outra explosão em câmera lenta… O broche amarelo com a carinha sorridente. E o tic-tac do relógio.

    E só.

    Estou curioso para saber como as resenhas/sinopses genéricas que optarem por fugir do “aclamada graphic novel é adaptada pelo mesmo diretor de 300” tentarão explicar porque um filme que mostra o que a existência de super-heróis de verdade poderia fazer com o mundo – psicológica e politicamente -, cogitando o uso de superpoderes como armas imperialistas mais poderosas do que a bomba atômica, é um dos filmes mais importantes de 2009 (além de esperar as resenhas catedráticas da crítica de cineclube, difamando o filme como uma experiência mais sonora do que visual ou mental).

    Porque por mais que a pseudosseriedade dos atuais filmes de super-herói funcione apenas como qualquer conversa fiada para justificar a porradaria distribuída por marmanjos usando collan, Watchmen conta com uma pequena e crucial diferença: quase zero porradaria. E por mais que o visual do filme seja fiel ao desenho de Dave Gibbons, convenhamos – Watchmen não é Watchmen por causa de seu traço. Gibbons é minucioso e clássico, um desenhista à altura de seu roteirista. Mas o grande salto proporcionado por Watchmen é narrativo e esse mérito é todo de Alan Moore. O quadrinho até há pouco era considerável impossível de ser filmado justamente devido ao seu vai-e-vem de histórias paralelas e diferentes linguagens num mesmo volume. E elas são histórias densas e complexas, cabeçudas e sentimentais ao mesmo tempo, que ocorrem quase sempre do ponto de vista interiorizado de um dos seis personagens principais ou em longos diálogos entre dois deles.

    Por outro lado, estamos em uma época em que um filme como o Batman do ano passado causa indignação por não ter sido indicado para o Oscar de melhor filme – o que, com aquela voz grossa ridícula do Batman, seria o mesmo que jogar o prêmio da academia no lixo de vez. O filme de Nolan é denso e épico, mas é uma experiência sensorial acéfala – de planos aéreos, perseguições de carro e até um caminhão dando cambalhota. Até a história do Homem de Ferro, que cria um protótipo de sua armadura numa caverna no meio da Ásia Central, parece mais crível e convincente do que Batman – The Dark Knight.

    E é aí que pode estar o trunfo de Watchmen. Tá certo que boa parte da expectativa em relação ao filme não existia na época dos quadrinhos – Gibbons e Moore eram nomes de peso na Inglaterra, mas quando lançaram a recriação dos personagens da Charlton no formato minissérie eram relativamente novatos na DC. E pegaram o mundo de quadrinhos de assalto – a ponto de sair da esfera dos fãs tradicionais e terem o respaldo de novos leitores.

    Eis o salto que Watchmen pode dar no cinema. Ao trazer uma boa história em vez de um bom personagem para a telona, podem estar trazendo um novo nível de maturidade para um público treinado a sorrir com explosões. E assim, poderíamos estar saindo da era de reapresentação dos mitos do século 20 para a nova era e começar a explorar as grandes sagas, que, inevitavelmente, trarão novos leitores a clássicos de quadrinhos festejados apenas pelo circuito interno dos fãs, colecionadores e gente maluca o suficiente para escrever, ler e assistir histórias sobre super seres humanos fantasiados capazes de feitos impossíveis.

    Lost: 316

    “Nós não vamos para Guam, vamos?”

    Paragrafinho básico pra quem não chegou a essa altura da temporada se ligar que o papo aqui não é com ele e zarpar o olhar pra outras bandas do saite se não quiser ser devidamente spoilerado. Se você ainda não viu o sexto episódio da quinta temporada de Lost, chamado 316, pode dar no pé para não correr o risco de ler sobre o que não quer.

    316 foi, sem dúvida, o episódio desta temporada que mais fez referência à própria série. Desde a abertura enigmática, que recriava a primeira cena da primeira temporada, à expectativa antes do novo avião levantar vôo, várias cenas e detalhes amarravam o episódio à narrativa de Lost mais do que à sua mitologia. Desta forma, vimos Jack acordar mais uma vez na ilha, sem saber onde estava, ao mesmo tempo em que a cena do aeroporto passava uma enorme sensação de deja vu – Sayid chegando algemado como Kate no primeiro vôo, Hurley levando um estojo de violão para nos lembrar de Charlie e todo o jogo de reconhecimento dos novos/velhos passageiros. O sexto episódio da temporada sublinhou um ponto específico: além da mitologia que existe por trás dos segredos de Lost, há outra mitologia em curso – a do próprio seriado e de seus personagens, que, como lembram seus produtores, contam uma história mais importante do que todo o mistério envolto na ilha.

    Já a mitologia clássica não foi esquecida e surgiu ameaçadora, grandiosa e encantadora ao mesmo tempo, quando descemos a escada espiral da igreja em que Ms. Hawking conversava com Ben para sermos apresentados à mítica estação Dharma fora da ilha, a Estação Farol. O porão da igreja é um verdadeiro altar para a mitologia da série: computadores dos anos 70 por todos os lados, um quadro negro cheio de fórmulas e equações, no chão uma imagem do planeta Terra visto do pólo norte e, por toda a sala, um enorme pêndulo balançava entre os personagens. Didaticamente, Hawking explica que a ilha foi descoberta quase por acaso – ou matematicamente? -, embora sua localização fosse difícil de ser precisada, até que “um cara muito esperto” criou aquela estação e conseguiu encontrá-la. Junto com a explicação vem uma foto do exército datada de 1954, o que nos explica que os uniformes militares vestidos pelos Outros em Jughead podem ter sido desses primeiros exploradores da ilha.

    Passada essa cena, o episódio caiu na pseudocorreria que vem dando a tônica da série esse ano – e todo o blablablá sobre os Ocean Six terem que voltar para a ilha, porque Locke disse que eles tinham que voltar, nhenhenhem e coisa e tal. É incrível como essa parte de Lost tem sido pior que previsível, mas enfadonha. Como já havia dito, os problemas parecem apontar complexidades que podem comprometer a pressa dos personagens na história mas sempre são solucionados em duas cenas, às vezes nem isso, basta uma simples citação. Dessa vez, o lenga-lenga envolveu Jack e o cadáver de Locke, primeiro com um bilhete-suicida que John deixou ao doutor Sheppard (transtornando-o com a informação que o careca havia se matado – mas isso não tava na notícia do recorte de jornal?) e depois com o papo do corpo de Locke ter de viajar usando os sapatos do pai de Jack (tirados da cartola, ou melhor, da mala de um personagem tirado da cartola, o avô de Jack). Tudo mal costurado.

    Mas cabe uma ressalva sobre os sapatos. Sapatos fazem parte da mitologia de Lost, embora de uma forma quase subliminar. Vamos rebobinar para a primeira cena da primeira temporada (a mesma reencenada em 316) e veja em quem a câmera foca logo depois que Jack sai correndo pela selva:

    Perceba também a importância que o sapato de Charlie tem para a câmera logo depois que ele mergulha em busca da estação Espelho, no final da terceira temporada (depois dos 3:30):

    Quando Locke e Sawyer entram no Black Rock, John pergunta se James não vai se calçar; quando o personagem de Rodrigo Santoro, Paulo, aparece morto, Sawyer vê seu tênis pendurado em uma árvore; Locke tirou os sapatos antes de descer a escotilha e Kate tentava tirar os sapatos de alguém no primeiro episódio da série – fora os onipresentes calçados brancos das aparições fantasmagóricas do pai de Jack, Christian. Os Outros não usam sapatos. Fora a estátua, que é só um pé com quatro dedos. Pode ser uma gracinha feita para encucar os outros, pode ser uma espécie de assinatura visual de um dos diretores, mas em se tratando de Lost, pode ter a ver com todo o sentido da história (lembre-se que Dorothy, a protagonista de uma das obras mais sampleadas em Lost, O Mágico de Oz, herdou os sapatos da bruxa que ela matou sem querer).

    Voltando a Los Angeles, a história dos Oceanic Six se mostra uma grande falácia – aí cabe a leitura marxista do 18 Brumário de Luís Bonaparte (que diz que “a história acontece a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”) – ao permitir que eles consigam voltar à ilha sem o grupo estar definido. Tudo bem, Lapidus e Ben podem estar envolvidos, mas por que Aaron não voltou? E Desmond? E a Penny?

    Sobre esta, é bem capaz que ela tenha sido a tal “ponta solta” que Ben disse que iria “atar” após o encontro revelador com Eloise Hawking. Após a morte de sua filha – que, já descobrimos, é filha adotiva -, Ben jurou acertar as contas com Widmore a la Código de Hamurabi, matando a filha do inglês, justamente Penny. Mas ao ligar para Jack de uma marina – após já termos visto a família de Desmond a bordo de um barco várias vezes – e completamente surrado, Ben nos induz a acreditar que ele tenha apanhado na tentativa frustrada de matar Penny – mas quem desossou o frango? Mais uma pergunta solta no ar.

    Junto com a própria não-aparição de Aaron, vem outra: por que Kate pede para Jack não lhe perguntar sobre o moleque? Quem o levou? Ou será que Kate o deixou com alguém? A cena ainda funcionou como deixa para um convincente beijo entre o casal protagonista, que até hoje só tinham soltado algumas faíscas, sem ir fundo (como a própria Kate já tinha ido com Sawyer). E, opa-peraê-caceta, siga meu raciocínio:

    Mais tarde, no vôo 316 da Ajira Airways, os Oceanic Five (quedê o Aaron?) dão as caras e cada um deles recria um personagem na versão anterior do vôo, o 815 da Oceanic. E do mesmo modo que Sayid é o preso escoltado e Hurley leva um violão, alguém poderia fazer as vezes de Claire – a grávida do vôo original. E se um imita o outro, não duvide se Kate tiver engravidado de Jack naquela cena.

    No avião, nos encontramos com Frank Lapidus, barbeado e fazendo uma observação para Jack que foi a melhor frase do episódio – “Não estamos indo para Guam, estamos?”, pergunta após reconhecer os passageiros. Além dele, temos duas aeromoças, Jack, Hurley, Saiyd e uma agente federal, Kate, Sun, Ben (lendo Ulysses, de James Joyce, cujo último capítulo chama-se Penelope) e um novato chamado Caesar – todos os outros assentos foram comprados por Hurley.

    O fato após mais trivialidades e frases ditas ao léu, Jack leu o bilhetinho de Locke, o avião balançou e – bum – tá lá o corpo estendido no chão logo após o olho abrir em extremo closeup. E a primeira cena é recriada quase na íntegra, sendo que Jack encontra Hurley e Kate num rio, e não em uma praia. O avião? Vai saber. Os outros que estavam no avião? Ninguém sabe. E os outros Outros? Esses, menos ainda.

    A única resposta que surge vem na forma de uma velha conhecida em plena forma: a kombosa azul da Dharma. Lustrada, novinha, ela parece ter acabado de sair da concessionária, mesmo tendo todo jeitão de anos 70. E de dentro dela surge outro velho conhecido, mas vestindo algo improvável: num macacão cáqui também da Dharma, o coreano Jin aponta a arma para os três e começa a esboçar um sorriso quando os reconhece – e o episódio acaba.

    Fato 1: a história dos Oceanic Six terminou e graças a deus não temos mais que ouvir aquele papo furado todo de “ter que voltar pra iha” – o próximo episódio, cujo personagem principal é John Locke, deve encerrar essa conversa de uma vez por todas. Fato 2: vamos começar a ver e entender a história da Iniciativa Dharma, o que pode ajudar e muito essa temporada a melhorar. Até aqui, a impressão é que essa primeira leva de episódios serviu para ajudar o público a se acostumar com a noção de viagem no tempo que dá o tom esse ano e para dar uma colher de sopa em que quisesse começar a assistir a série agora, sem ter que assistir tudo que já saiu até hoje. São engrenagens que passam a rodar mais devagar, para uma rápida manutenção. O problema é que ela tem que retomar o ritmo incial, senão para.

    E eu tou na torcida pra não parar.

    Mais quinta temporada de Lost:

  • Lost: This Place is Death
  • Lost: The Little Prince
  • Lost: Jughead
  • Lost: Because You Left e The Lie