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Sesc Vila Mariana @ São Paulo
4 de novembro de 2022

Essa sexta-feira foi especial. Dia 4 de novembro de 2022 não foi apenas a primeira sexta-feira em anos que pudemos suspirar aliviados, mas também a data que o Mestre Ambrósio escolheu para retomar as atividades. Não é exagero dizer que é uma das voltas à atividade mais importantes da música brasileira recente. Mais do que um dos principais faróis do movimento que fez com que Recife voltasse ao mapa do mainstream brasileiro, o grupo pernambucano também é um dos principais responsáveis pela revalorização da cultura popular do país – aquela que não vende discos nem toca nas rádios, nem gera plays ou likes pela internet.

É uma cultura, como o próprio Siba explicou durante o primeiro show da volta, que aconteceu no Sesc Vila Mariana, que mantém-se viva a despeito de ter sobrevivido apenas com as sobras da riqueza que entregou ao país. Uma cultura que mistura linguagens, símbolos e etnias que normalmente são associadas ao oposto do conceito de progresso (esse “progresso” destruidor que normalizou uma figura tão abjeta quanto o futuro-ex-presidente), mas que, em sua essência, são a maior vanguarda cultural já produzida por aqui. Para além do mangue beat, o Mestre Ambrósio fez renascer o orgulho ao redor destas manifestações tão rica e vê-los de volta ao palco, vinte anos depois da separação que aconteceu no início do século, mantendo a mesma formação e energia que sempre mantiveram foi de encher os olhos.

Siba, Maurício Bade, Helder Vasconcelos, Sergio Cassinado, Eder O Rocha e Mazinho Lima estavam melhores do que nunca e estão retomando uma carreira que certamente correrá o Brasil num momento em que o país tanto precisa disso. O show foi emocionante em muitas camadas e, apesar dos ingressos já terem se esgotado, vale dar uma passada um pouco antes do show começar por lá, sempre tem algum ingresso que sobra… Não irá se arrepender – isso é história sendo feita.

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Alan Moore é Lula

O bruxo Alan Moore escreveu uma extensa carta para os brasileiros explicando porque ele é a favor de Lula nesta eleição de 2022. Abaixo, a tradução que fiz para seu texto e a carta original, em inglês.

Caro Brasil,

Estamos gastando rapidamente nossas últimas chances de salvar o planeta e seus povos. Nosso mundo está mudando, mais rápido que jamais mudou e forçando-nos a adaptar mais rapidamente se iremos sobreviver. De uma sociedade caçadora-coletora à agricultura, da agricultura à indústria, da indústria ao que quer esteja tomando forma agora – esta nova condição para a qual não temos um nome ainda – a humanidade já se deparou com esses tipos de mudanças monumentais anteriormente, embora não com frequência. Estas transições não são causadas por forças políticas, mas pelos irrefreáveis movimentos da maré da história e da tecnologia, que é uma maré em que podemos guiar nossos veículos para nossa vantagem ou sermos naufragados por ela. A Terra está mudando, mudando pela necessidade de se tornar um lugar novo, e apenas nos resta mudar com ela ou então abrir mão para sempre da biosfera que nos sustenta. A maioria das pessoas, acredito, sabe disso em seus corações e pode sentir isso em seus estômagos.

E assim, ao longo dos últimos cinco anos e pouco, vimos através de todo o globo uma ressurreição feroz das ideias político-econômicas que exatamente nos levaram a essa situação obviamente desastrosa no princípio. A escancarada agressividade desse avanço da extrema-direita me parece tão à força, e ainda assim tão desconectada de qualquer realidade, que só pode ter nascida do desespero; o medo histérico sentido por aqueles que estão mais bem-posicionados nas estruturas de poder do velho mundo, e que sabem que o novo mundo pode, em última instância, não ter mais lugar para eles. Temendo suas próprias existências e pela existência de uma visão de mundo que os beneficia, eles entupiram o palco mundial nesta última meia-década com personagens de pantomima barulhentos, exagerados e grotescos, para os quais nenhum ato é tão corrupto ou desumano e nenhuma linha de argumentação é descaradamente absurda.

Desavergonhadamente monstruosos, eles têm perseguido minorias raciais e religiosas, ou seus povos originários, ou os pobres, ou as mulheres, ou pessoas de outras sexualidades, ou todos estes citados. Durante a pandemia ainda em andamento, eles colocaram seus posicionamentos políticos e suas doutrinas financeiras à frente da segurança de suas populações, presidindo centenas de milhares de mortes potencialmente desnecessárias; centenas de milhares de famílias e comunidades devastadas. Com suas nações em chamas ou inundadas ou em seca, eles insistiram que as mudanças climáticas eram um boato da esquerda para incomodar a indústria e rotularam ativistas ambientais e sociais como terroristas. Adotando o estilo circense-fascista do italiano Silvio Berlusconi, nós tivemos o perigoso teatro de insurreição de Donald Trump nos EUA, as desgraças arruinadoras de Boris Johnson e seus reservas no Reino (ainda) Unido. E, é claro, o Brasil tem Jair Bolsonaro.

Apesar de nós do Hemisfério Norte obviamente contribuirmos muito além da nossa cota de figuras políticas horrendas para a situação do mundo, não conheço ninguém com uma grama de consciência e compaixão que não se indigne com o que Bolsonaro, ao assumir o cargo na onda de Trump, fez com seu grande e lindo país, além do que ele continua a fazer com o nosso relativamente pequeno e ainda belo planeta. Assistimos com desespero enquanto, rezando pela mesmo hinário de sua inspiração norte-americana, Bolsonaro atacou os povos indígenas do Brasil, os seus homossexuais e os direitos de suas mulheres de fazer aborto de forma segura, alimentando um incontrolável incêndio de ódio como uma distração para suas agendas sociais e econômicas, enquanto ao mesmo tempo inundava sua cultura com armas. O vimos se gabar de seu jeito de lidar com a pandemia jorrando sua idiotice contra vacinas, e também observamos a expansão dos cemitérios improvisados; aquelas covas lado a lado no solo cinza com flores mortas e marcações de tinta trazendo gotas de cor.

Também vimos como ele respondeu à proposta de novas leis ambientais internacionais ao simplesmente aumentar a sua devastação suicida das florestas tropicais, asfixiando nossa atmosfera comum com a queima de florestas, desalojando ou matando pessoas que viveram nestas regiões por gerações, aparentemente em conluio ou fazendo vista grossa para o assassinato de jornalistas que investigavam a brutalidade dessa limpeza étnica. Uma respeitada revista científica britânica da qual sou assinante, New Scientist, recentemente descreveu as próximas eleições como potencialmente o ponto crítico sem volta na batalha de vida ou morte de nossa espécie contra a catástrofe climática que nós mesmos engenhamos. Dito de maneira simples, ou Jair Bolsonaro continua, lucrativamente, a satisfazer os interesses corporativos dos que o apoiam, ou nossos netos terão o que comer e respirar. É uma coisa ou outra.

Como anarquista, existem pouquíssimos líderes políticos que eu seria completamente capaz de tolerar, e ainda mais endossar, mas por tudo que soube e li a respeito, Luiz da Silva, Lula, parece ser um desses raros indivíduos. Suas políticas parecem ser justas, humanas e concretizáveis e, pelo que entendi, ele se comprometeu a reverter muitas das decisões desastrosas de Bolsonaro. Consertar o estrago destes últimos cinco anos certamente não será fácil nem barato, e da Silva poderá estar herdando um cenário político terrivelmente desfigurado. No mínimo, contudo, desta distância ele parece ser um candidato que reconhece que a humanidade está atravessando uma de suas pouco frequentes transformações sísmicas e percebe que precisamos mudar a forma como vivemos se quisermos continuar vivos. Ele me parece ser um político comprometido com o futuro, com seu trabalho honesto e com suas possibilidades justas e maravilhosas, e é melhor que a batida e devastadora agonia de morte de um passado insustentável.

A próxima eleição no Brasil se encontra equilibrada sobre o fio de uma navalha e, pelo que discuti acima, o mundo inteiro está à sua mercê. Se você alguma vez gostou de algum dos meus trabalhos ou sentiu alguma empatia pelas por suas tendências humanitárias, então, por favor, saia e vote por um futuro próprio para os seres humanos, por um mundo que seja mais que uma latrinas dourada para corporações e suas marionetes.

Vamos deixar as injustiças dos últimos cinco anos, ou talvez dos últimos cinco séculos, no passado.

Com amor e com confiança,
De seu amigo,

Alan Moore

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Domingo suspenso

O Estado de Suspensão aconteceu num domingo maravilhoso, que abriu com o transe noise puxado pelo grande Marcelo Cabral. Ao lado de Guilherme Held e de Maria Beraldo, ele visitou seu Motor em formato elétrico, começando os trabalhos na Casa Natura Musical com uma parede de ruído em que equilibrava suas delicadas canções.

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Lembro-me como se fosse hoje: há cinco anos eu chegava do show das Rakta no festival PikNik, em Brasília (que inclusive acontece neste fim de semana), e sintonizava, como toda madrugada de segunda, no oitavo episódio de Twin Peaks. Ninguém estava preparado para o que David Lynch mostrou naquele 25 de junho de 2017. Depois de puxar um fio da meada em que a versão do mal do Agente Cooper passa por outra transformação – e por uma música gigantesca do Nine Inch Nails ao vivo -, o cineasta joga a história do entretenimento para junto da vídeo-arte, quebrando de vez a fronteira entre a televisão e a pós-modernidade. Fiquei tão impactado que assisti ao mesmo episódio pela segunda vez e escrevi um texto no blog que tinha no UOL na época ainda na madrugada, texto que reproduzo abaixo. Continue

Posso assistir mil vezes ao show que Juçara Marçal armou para transmutar para o palco seu projeto fonográfico Delta Estácio Blues que nunca vou cansar. A energia concentrada pelo quarteto formado por Juçara, Marcelo Cabral, Alana Ananias e Kiko Dinucci acerta o ouvinte sem dó numa convulsão meticulosa entre o samba, o pós-punk, o noise e a música eletrônica, neste que talvez seja o grande momento da música ao vivo no Brasil hoje. Quatro indivíduos que mal conversam com quem os assistem – só Juçara fala – mas que acertam todos os sentidos do público com a contundência que só a música pode fazer (aquele papo do Bob que dizia que “quando acerta não dói”). E não foi diferente neste sábado no Sesc Belenzinho – que bordoada boa!

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Em mais uma incursão pelo meio impresso, colaboro com uma edição especial da Rolling Stone Brasil que chega às bancas nesta semana celebrando os 40 anos do rock brasileiro dos anos 80, editada pelo compadre Pablo Miyazawa. Além de voltar ao verão de 1982, quando tudo começou no Rio de Janeiro, conversando com Evandro Mesquita, Perfeito Fortuna, Leoni, João Barone e Leo Jaime sobre o período em que o Circo Voador foi criado, a Rádio Fluminense tornou-se a primeira rádio rock do Brasil e o filme Menino do Rio espalhava a novidade carioca para o resto do Brasil, também fiz uma lista com os 80 discos mais importantes daquele período, dissecando-os um a um – além de reunir os principais hits do período em uma playlist feita para a revista. Parte do conteúdo já está online, como a reportagem sobre o verão de 1982 e a resenha sobre o primeiro disco da Blitz, mas a maioria dos textos só dá pra ler na versão impressa.

Tocante a apresentação que Nina Maia e Chica Barreto fizeram nesta terça-feira no Centro da Terra. Depois de passar por composições próprias e clássicos que as influenciaram (de Gershwin a Milton Nascimento), as duas largaram os instrumentos e convidaram Luiza Villa para encerrar a apresentação com uma belíssima versão para “Serenata do Adeus”, de Vinícius de Moraes.

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Na segunda segunda-feira de sua temporada Pocas no Centro da Terra, Kiko Dinucci visitou paisagens desconhecidas em seu próprio violão, indo do norte da África ao Japão medieval, passando pelo sertão brasileiro e por desertos na Lua, usando seu instrumento como cajado e facão, abrindo picadas e marcando caminhos. À sua cola, Gustavo Infante levava seu violão para galáxias distantes ou para viagens intracelulares, aumentando ou encolhendo timbres em gravadores de fita analógica, enquanto Maria Cau Levy explorava cores e texturas filmando obras que espalhara pelo palco, acompanhada de Karime Zaher, que fitava tudo da coxia. Uma hora tão fantasmagórica quanto espiritual e extrassensorial – tudo ao mesmo tempo.

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Mesmo que você não goste de Nicolas Cage (como assim?), vale muito ver O Peso do Talento (tradução branda para o título original, que deveria ser O Peso Insuportável do Talento Massivo), que acabou de estrear nos cinemas. É um filme sobre a carreira de um dos atores mais singulares do cinema norte-americano que explora todos os clichês relacionados ao ator, que vive ele mesmo lidando com o possível dilema de ter chegado ao fim de sua carreira. Assim, ele topa participar da festa de um bilionário que é seu fã (Pedro Pascal) e que não mede esforços para agradá-lo. O filme estica a corda do ridículo ao extremo e coloca Cage em situações constrangedoras, risíveis e inusitadas -e ele sempre se sai bem. Mas apesar da metalinguagem, não é um filme que pretende-se sério – muito pelo contrário, escancara com gosto as porteiras do cinema de ação mais fuleiro, mas faz isso pra render altas gargalhadas.

Palco digital

Emicida chega ao Fortnite nesta sexta-feira em mais um passo que o rapper ao desbravar novas fronteiras. Aproveitei o acontecimento para conversar com Benoni Hubmaier, da YB, Thiago Adamo, da Game Audio Academy, e Samuel Ferrari, do estúdio Mdois sobre a relação entre música e games para o jornal Valor Econômico. Além da reportagem (que pode ser lida aqui), ainda fiz uma entrevista só com o rapper, que atravessa um 2022 intenso, que além da volta dos shows e de sua aparição como ator no filme Medida Provisória, ainda lançará documentário e livro, sobre sua relação com os jogos.