Minha coluna desta semana do Caderno 2 é sobre um boato – que seria melhor se continuasse como boato mesmo…
David Bowie está bem?
O dia em que a terra vai parar
Na semana passada, estive em um evento no exterior em que me encontrei com alguns jornalistas estrangeiros. Entre os pares europeus, um consenso sobre uma notícia que ainda não foi publicada em lugar nenhum. “Parece que David Bowie está morrendo”, disse um deles, expressão triste no rosto. Outros dois confirmaram o rumor, olhares desolados de fãs chocados, e um deles citou um recente especial feito pelo semanário inglês NME aparentemente sem motivos sobre o compositor, talvez um dos nomes mais importantes da cultura do século 20.
Se sua importância é assunto para discussão, sua dimensão não é. Bowie é um dos artistas mais conhecidos do mundo e sua influência – não só musical – pode ser sentida até hoje.
De Lady Gaga a reality shows passando pelas contínuas reinvenções a que qualquer artista deve se submeter: tudo isso é culpa de David Bowie (que além de tudo é um dos dez melhores compositores ingleses do século). Nomes como Iggy Pop e os Stooges, Lou Reed e o Velvet Underground, o Kraftwerk e Brian Eno seriam bem menos conhecidos caso David não tivesse aparecido em suas vidas e os puxado para cima.
Bizarro, portanto, que a sua possível morte esteja sendo cochichada. “É uma espécie de respeito”, disse um dos presentes. “A imprensa inglesa, por mais estranho que possa parecer, às vezes tem disso.”
Mas o que impressiona mesmo é o fato de não haver nenhuma referência online sobre isso. Embora haja algumas citações sobre suas condições de saúde – Bowie não viveu uma vida de santo -, pouco se fala sobre sua condição cardíaca. Ele teria sofrido um ataque do coração em 2004, após um show na Alemanha, quando cancelou sua turnê europeia e foi submetido a uma cirurgia para desobstruir uma artéria – apenas a cirurgia foi confirmada oficialmente.
E nunca mais gravou discos. Seu último álbum de inéditas (A Reality) é de 2003 e a partir disso o compositor se limitou a organizar sua discografia, em várias compilações e lançamentos de shows do passado em novos formatos. Sua produção mais recente limita-se à participação em shows (tocou com Arcade Fire, David Gilmour e Alicia Keys) e discos (TV on the Radio, Scarlett Johansson), além de poucas aparições públicas, quase sempre para receber prêmios.
É louvável que um artista de tal proporção consiga manter tamanho sigilo em relação a um problema de saúde tão grave, ainda mais numa época em que se parece saber tudo sobre todos. Mesmo que não esteja doente, pouco se sabe sobre sua vida há pelo menos cinco anos. Fechou-se em reclusão drástica, justamente um dos artistas que mais transformaram sua vida em palco.
Também é curioso – e irônico – que Bowie repita a trajetória de seu mais famoso personagem, Ziggy Stardust, o astro alienígena andrógino que veio para a Terra alertar sobre o risco que o planeta corria – e que morreu vítima dos humanos, como uma espécie de Klaatu (o protagonista do clássico sci-fi O Dia em Que a Terra Parou, de 1951) do rock.
Tomara que seja só boato e que Bowie fique com a gente por mais vinte, trinta anos. Ele merece, nós também.
Taí o que eu fui fazer na Nova Zelândia: visitar a Weta Digital, o estúdio que o Peter Jackson construiu em seu país para colocá-lo no mapa.
Direto do futuro
No estúdio de ‘Avatar’, dá para se ter uma ideia de como serão feitos os filmes amanhã
Na semana passada, estive no futuro. Literalmente, pois estava 15 horas à frente do fuso horário brasileiro, e metaforicamente, já que fui visitar as entranhas do estúdio Weta Digital, o complexo de efeitos especiais criado pelo diretor Peter Jackson em Wellington, capital de seu país de origem, a Nova Zelândia.
E além de conversar com parte da equipe que transformou uma ideia que James Cameron teve nos anos 90 no filme que mais faturou dinheiro no mundo (outro Blu-ray de Avatar chega às lojas em duas semanas), pude ver que, mais do que simplesmente criar épico atrás de épico, o estúdio neozelandês já faz, hoje, o cinema do futuro.
“Acho que Avatar abre uma porta para que as pessoas contem histórias que não poderiam ser contadas de outra forma”, explica o produtor do filme de James Cameron, o norte-americano Jon Landau. “Há um erro conceitual sobre o que tentamos fazer, acham que estamos querendo nos livrar dos atores. Mas é o contrário: queremos preservá-los para que eles façam coisas que não poderiam fazer antes”.
Landau, que trabalhou com o Weta apenas em Avatar e não pertence ao estúdio, obviamente puxa a sardinha para o filme que produziu, mas o que foi realizado no filme de Cameron é só mais um degrau na escalada tecnológica proposta pelo estúdio de Jackson. Desde sua criação, o Weta concentra esforços em criar ambientes virtuais que não sejam percebidos como tal pelo público. Foi assim com a Terra Média de O Senhor dos Anéis e com o início do século 20 gerado artificialmente em King Kong.
“Antes trabalhávamos com alguns personagens específicos, como os dinossauros de Jurassic Park”, conta o norte-americano Joe Letteri, supervisor dos efeitos especiais do estúdio e pioneiro em computação gráfica ao criar os répteis gigantes do filme de Spielberg. “Naquela época, apenas criávamos um ser digital e tínhamos de encaixá-lo no filme. Agora criamos o ambiente, um planeta, um universo inteiro digitalmente.”
E não se trata apenas do universo visto no filme. Enquanto entrevisto Landau, uma demonstração de como funciona a captura de movimento dos atores é realizada – e quem se interessa por efeitos especiais já deve ter visto cenas em que o ator veste uma roupa engraçada, cheia de pontos de referências cujos movimentos serão traduzidos digitalmente em uma imagem gerada por computador.
Há câmeras por todos os lados (até no teto) e um dos funcionários do estúdio usa uma “ câmera” portátil para acompanhar de perto os atores. Essa câmera vem entre aspas porque ela, na verdade, não é uma câmera de verdade: é um aparelho virtual.
Produção virtual. Hein? Explico: uma vez que os movimentos físicos são captados por todas as câmeras espalhadas pelo cômodo, James Cameron resolveu fazer o mesmo com seu próprio instrumento de trabalho. Assim, a câmera virtual não filma de verdade, mas seus movimentos (no caso, os do diretor) são registrados por todas as lentes que estão ao redor e esses movimentos são traduzidos para a tela. Monitores ao redor da sala mostram os atores já inseridos no cenário virtual, em vez da antiga tela verde que obrigava atores e diretores a imaginar cenários e personagens digitais. Esse processo foi batizado de produção virtual.
“O interessante é que, se um ator espirra durante uma tomada perfeita ou se alguém passa por trás da cena sem que o diretor perceba, ela não se perde”, conta o argentino Sebastian Sylwan, responsável por toda a área tecnológica da Weta. “Assim, direção, atuação, efeitos especiais, fotografia e outras etapas da produção de um filme deixam de depender umas das outras. As pessoas me perguntam quanto tempo que demora a pós-produção de nossos filmes. Eu respondo que demoram o mesmo tempo que a própria produção!” Letteri emenda: “Fazer filmes está virando um processo cada vez mais não-linear”.
A captura de imagens dos atores vai além do movimento corporal. Outra inovação também proposta por Cameron e executada pelo estúdio foi a criação de um capacete com uma haste que ficava logo em frente ao rosto dos atores. O que parece um microfone é, na verdade, um conjunto de câmeras para captar expressões faciais, depois traduzidas em computação gráfica graças ao trabalho da equipe do neo-zelandês Mark Sagar, coordenador de projetos especiais.
“Nos dedicamos a estudar o rosto humano e aprendemos que qualquer pequeno músculo pode mudar toda a expressão do ator”, conta Sagar. “E assim criamos uma gama de movimentos musculares que usamos como um alfabeto ou notas musicais – basta juntar determinados movimentos e criamos uma expressão completamente nova” , explica enquanto mostra, no computador, a gama de expressões dos personagens de Avatar.
“Esse mesmo tipo de tecnologia pode tornar um ator mais jovem, mais alto, mais magro e mais velho do que ele realmente é” , continua Landau. “Não acho que funcionaria colocar Will Smith para reviver o personagem Dirty Harry mais novo – mas é possível que o próprio Clint Eastwood reviva seu personagem como se ainda estivesse nos anos 70. É uma forma de preservar o trabalho do ator.”
Pé no chão
Mas nem tudo é virtual no mundo da Weta – e boa parte dos efeitos tem um pé no mundo real. Principalmente os objetos usados em cena, feitos na Weta Workshop, dirigida pelo neozelandês Richard Tayor, um dos fundadores do estúdio. O clima dentro da oficina é quase militar tamanho o sigilo. Taylor explica que a pesquisa feita para criar armas e veículos – tanto dos alienígenas aborígines quanto dos seres humanos do futuro – é extensa a ponto de incluir a criação de coisas que não serão nem vistas no filme – como toda a hierarquia tribal dos Na’Vi, o ciclo de vida das plantas de Pandora e até os cigarros -vendidos com prescrição médica – fumados pelo personagem de Sigourney Weaver.
Toda a pesquisa não foi em vão: além de servir como base para futuras continuações, ela tornou quase instantânea a criação da Pandorapedia, enciclopédia do universo de Avatar, um dos extras do novo Blu-ray. Os protótipos são criados primeiro como ilustrações e depois como objetos. Então, são escaneados para serem usados nos filmes. No enorme galpão, é possível ver um jipe usado do filme Distrito 9, o tanque em que os Na’Vi são postos em estado de suspensão, um pedaço de parede de prédio escalado por King Kong, tudo em tamanho real.
Pele boa
Além destas peças, outros detalhes vêm do mundo não-virtual, como as texturas de pele produzidas pela equipe do diretor de arte Gino Acevedo. “Escaneamos a pele de quase todo mundo que trabalha aqui” , brinca. “Se dispensávamos alguém, dizíamos para que a pessoa tomasse a dispensa como um elogio, pois a pele dela era perfeita demais para ser usada.”
Outras áreas são puramente virtuais, como toda a floresta de Pandora, concebida a partir de esboços feitos por Cameron. O supervisor de animação David Clayton fala da criação de mais de cinco mil plantas diferentes, muitas delas que não são nem vistas com detalhes no filme, mas que tiveram toda sua biologia desenvolvida virtualmente. E ele mostra as diversas camadas criadas para dar credibilidade a uma selva totalmente imaginária.
Petabytes
Para processar todos esses dados, os estúdios Weta têm um data center robusto, que processa nada menos que 15 petabytes de informação – ou 15 milhões de gigabytes. Só Avatar consumiu dois destes 15 petabytes. Parece muito (e é), mas fica pequeno se compararmos aos 24 petabytes gerenciados diariamente pelo Google.
E embora o lançamento das continuações de Avatar esteja distante (Avatar 2 e 3 devem ser lançados em 2014 e 2015, respectivamente), Landau já cogita alguns desafios que veremos a seguir. “É hora de aprendermos a colocar todo esse universo debaixo d’água. Veremos muitas cenas subaquáticas e teremos mais desafios envolvendo tecnologia e ciência para tornar toda a ação crível.” Letteri atualmente trabalha na adaptação das histórias do personagem de quadrinhos belga Tintin para o cinema ao lado de Steven Spielberg (que dirige) e Peter Jackson (que produz) e já cogita seu novo desafio: ir além dos 24 quadros por segundo, a fronteira do movimento no cinema.
Entrevista: Joe Letteri, supervisor dos efeitos especiais do Weta Digital
Em termos técnicos, como comparar o primeiro filme em que você trabalhou com efeitos especiais, Jurassic Park, com Avatar?
Os efeitos de Jurassic Park levaram mais de um ano para serem feitos, e são apenas 50 cenas. Hoje, faríamos este mesmo trabalho em menos de uma semana. Sendo ainda mais específico: acho que o meu iPhone hoje é mais avançado tecnicamente do que se juntássemos todos os computadores usados para fazer Jurassic Park.
Sendo assim, seu trabalho também é mais um desafio técnico do que artístico.
Com certeza, porque quando você tenta tornar algo crível, começa a ter de lidar com a ciência por trás daquilo – o motivo da pele ter certa aparência sob determinada luz, como os músculos se comportam. É inevitável que chegue um ponto em que tem de lidar com matemática, física e a capacidade de processamento dos computadores.
Como você sabe que a cena terminou, uma vez que dá para acrescentar camadas e mais mais camadas a ela?
Dá para saber quando terminar, mesmo porque tudo é planejado com antecedência. Mas normalmente estamos mais preocupados com o impacto emocional da cena do que com o visual. Quando atingimos o que queremos que o público sinta, é a hora de parar.
Os desafios tecnológicos tiram o seu sono?
Pelo contrário. É muito comum tentar coisas ainda mais difíceis apenas pelo prazer de fazer algo que ninguém nunca fez. Isso quase sempre quer dizer mais trabalho, mais esforço, mas eu sou continuamente estimulado por isso. Há tanto para aprender e é tão divertido ao mesmo tempo. Trabalhamos muito com paixão por aqui, por isso sempre tentamos descobrir o que é que as pessoas com quem trabalhamos gostam, de verdade. Por mais estranho que possa parecer o interesse, aquilo pode ser usado para melhorar o trabalho – e sempre melhora. E temos sorte de trabalhar com diretores como Steven (Spielberg), Peter (Jackson) e Jim (Cameron).
Uma vez que vocês criaram o ambiente de Avatar, será mais fácil fazer as continuações que Cameron tem em mente?
Sim, mas sabemos que não vamos nos contentar em simplesmente fazer uma nova história no mesmo ambiente. Então, provavelmente iremos nos lançar em novos desafios. É importante não ficarmos estagnados.
Quais são os desafios tecnológicos para o futuro? O 3D já parece ter sido assimilado…
Uma das próximas coisas que já é possível fazer é aumentar a quantidade de quadros por segundo, mas isso não é um desafio técnico e, sim, artístico. O cinema usa 24 quadros por segundo para criar a ilusão de movimento, mas tecnicamente é possível ir muito além disso. E aí entra o desafio criativo: o que fazer com esse nível de detalhe do movimento. E como é uma escolha estilística, acho que é preciso muita experimentação para se ter uma ideia do que fazer com essa nova técnica. É como o 3D, de certa forma, pois abre uma nova dimensão na forma de perceber o filme. Será que isso é melhor para cenas mais lentas ou mais rápidas? Para suspender a narrativa ou para torná-la mais ágil? Ainda estamos testando isso e não é claro como iremos usar esse novo recurso. Atualmente, nosso desafio é fazer que todas essas novidades que fizemos nos últimos anos tornem-se mais integradas umas às outras, principalmente para que os diretores e atores possam ter uma resposta mais rápida em relação àquilo que estão fazendo.
A Weta Digital desenvolve vários softwares para solucionar problemas propostos por vocês mesmos. Eles irão ao mercado?
Começamos a publicar nossos softwares agora mesmo. O primeiro deles é o Mari, ferramenta que usamos para dar cores, iluminação e textura para os nossos modelos virtuais. Ele está começando a ser vendido por uma empresa londrina chamada Foundry, mas leva a nossa marca, Weta Digital.
Como você vê a relação entre cinema e videogame?
Games e filmes são duas mídias diferentes. Uma funciona em relação a uma experiência pela qual as pessoas podem descobrir seu rumo por ela e ter sua própria história, a outra diz respeito a contar uma história. Entendo a relação entre ambas, mas prefiro fazer que o público acompanhe a história que estou contando. E ambas usam a mesma tecnologia de base, por isso eu sei do que está acontecendo nessa área. Mas não acompanho games, não tenho tempo!
Mas você não acha que as pessoas irão querer fazer seus próprios filmes, como já jogam, hoje, suas partidas de videogame?
Não. Não acho que as pessoas queiram isso. Elas querem ver histórias. Veja quantas pessoas têm caneta e quantas querem escrever um livro.
Máquina do tempo
A influência dos efeitos especiais na história do cinema
Como o cinema é uma das expressões culturais mais dependente de aparelhos e equipamentos, muitos de seus avanços artísticos quase sempre estiveram atrelados a inovações técnicas. Experimentos de linguagem (como closes, cortes de cena, zoom) e novidades tecnológicas (som, cor, câmeras digitais, 3d) ajudaram a moldar a narrativa cinematográfica como a conhecemos hoje e, em muitos casos, histórias futuristas tiveram de ser contadas para justificar inovações. A história dos efeitos especiais na sétima arte se confunde com a própria história dos filmes de ficção científica.
Avatar é apenas o filho caçula de uma linhagem que conta com representantes tão diferentes quanto o dinossauro Gertie (do animador Wilson McCay) e o Jornada nas Estrelas de J.J. Abrams – de filmes que criavam uma fantasia de futuro para executar, na prática, o futuro do cinema. A abaixo lado reúne alguns dos grandes nomes que fizeram parte dessa história.
1902
Viagem à Lua
Além de cineasta, o francês Georges Méliès era mágico. E usou truques como a superposição de imagens para criar ilusões.
1933
King Kong
Ápice da carreira do primeiro grande mestre dos efeitos especiais, Wills O’Brien, um dos inventores do stop-motion, usado até hoje.
1956
O Planeta Proibido
Primeiro filme com trilha sonora totalmente eletrônica marca a estreia de um robô no cinema
1968
2001
Primeiro a usar em grande escala a técnica da projeção frontal, em que cenários e atores eram superpostos ao mesmo tempo em que se filmava.
1977
Guerra nas Estrelas
Introduziu a fotografia de movimento controlado, técnica que mistura miniaturas a cenas reais filmadas lentamente.
Contatos Imediatos do Terceiro Grau
Douglas Trumbull, que trabalhou em Guerra nas Estrelas, deu vida a naves espaciais com o mesmo processo de fotografia, mas em espaços abertos.
1991
Exterminador do Futuro 2
James Cameron investiu pesado em efeitos especiais e, pela primeira vez, usou cenas de atores com imagens criadas por computador.
1993
Parque dos Dinossauros
Spielberg usa computação gráfica para criar os seres pré-históricos e estabelece novo padrão de efeitos especiais.
E a minha coluna de domingo no Caderno 2 foi sobre funk carioca e Grand Theft Auto.
Justiça global
Um funk carioca no GTA
No início da semana passada, a 3ª Vara Cível de Barueri, em São Paulo, decidiu que as vendas da versão de um dos games mais populares do mundo, o polêmico Grand Theft Auto (GTA), deveriam ser suspensas em todo o planeta. A decisão foi tomada após a acusação de que uma música usada como trilha sonora da expansão Episodes from Sin City, o funk carioca Bota o Dedinho pro Alto, não tinha autorização para ser usada no jogo.
A desenvolvedora do jogo, a nova-iorquina Rockstar, já se manifestou dizendo que ainda não foi notificada sobre o ocorrido, mas que assim que isso aconteçer, irá recorrer. A empresa diz que obteve a autorização para usar a música, mas a assinatura no contrato de cessão de direitos autorais não bate com a de seu autor, que recorreu à Justiça para suspender a comercialização do jogo, bem como para exigir uma indenização financeira.
O episódio ilustra bem como ainda estamos na infância de um mundo inteiramente conectado, graças à internet. Anos atrás, dificilmente um jogo global incluiria uma música brasileira que não fosse licenciada por uma gravadora multinacional. Mas, graças à rede, os criadores do jogo não apenas puderam conhecer o funk carioca como pedir a autorização para seu uso. Da mesma forma, a suspensão de um produto de alcance global a pedido da justiça de um país que não fosse seu produtor – ainda mais de um game – seria apenas risível.
Não mais. As duas situações – o funk carioca em um videogame e a decisão judicial brasileira – fazem parte de um novo cenário mundial que desrespeita fronteiras geográficas por definição. E, com isso, legislações nacionais vão ficando obsoletas, ultrapassadas ou conflitantes. Resta saber se chegaremos a um consenso – e se este consenso será uma constituição planetária. Mas, por enquanto, isto é apenas especulação.
Bilu!
O alienígena da voz fininha
Uma reportagem feita com um suposto alienígena no interior de Minas Gerais tornou-se uma das sensações da internet brasileira. Com uma vozinha ridícula em português, o “ET”, autodenominado “Bilu” (sério) é questionado se tem alguma mensagem para nós. Sua resposta já pode ser considerada um clássico de 2010: “Apenas que… busquem conhecimento”.
Na minha coluna no Caderno 2 desta semana, falo novamente sobre o filme do Facebook, não sobre ele propriamente, e sim sobre uma mensagem que está embutida em seus minutos…
O MP3 e ‘A Rede Social’
O dilema digital para as massas
A Rede Social, novo filme de David Fincher (o mesmo diretor de Clube da Luta e Zodíaco), conta a história de como o site Facebook foi criado – e entra em seu terceiro fim de semana de exibição nos EUA correndo o risco de manter-se como líder das bilheterias desde sua estreia. O resultado pode surpreender quem crê que, para ter um bom desempenho comercial na telona, basta adaptar uma história em quadrinhos, enchê-la de efeitos especiais e exibi-la em 3D.
A Rede Social não tem nada disso: dispõe-se a contar como um gênio antissocial inventou uma ferramenta de socialização digital que tornou-se o maior site do mundo. Denso, frio e devagar quase parando, o filme é o oposto do que se espera de um sucesso hollywoodiano, mas o nome dos envolvidos ajuda a entender o porquê do sucesso – além de Fincher, o filme é escrito pelo mesmo Aaron Sorkin da série West Wing e protagonizado pelos novos galãs Jesse Eisenberg e Andrew Garfield (que fará o novo Homem-Aranha), além do cantor pop Justin Timberlake.
E Justin é o assunto da coluna de hoje. Nem preciso entrar nos méritos de sua atuação (que é boa, mesmo que ele venha da música e não do cinema), mas sim no personagem vivido pelo popstar em A Rede Social. Ele faz as vezes de Sean Parker, cofundador do Napster, o software de compartilhamento de arquivos online que virou a indústria musical – e, em seguida, a do entretenimento como um todo – do avesso.
Em certa passagem do filme, que só estreia no Brasil em dezembro, ele conversa com o personagem de Eisenberg (que vive o criador do Facebook, Mark Zuckerberg) sobre o potencial da rede social criada por ele. E, no meio do papo, cita que, embora todos envolvidos no Napster tenham sido processados e que o software tenha causado a fúria da indústria fonográfica, ele sim, mudou a forma como consumimos música. E pergunta, ironicamente, se alguém ainda entra em lojas de discos para comprar CD.
A ironia se desdobra ao lembrarmos que Justin é um dos principais vendedores de disco da mesma indústria que foi estilhaçada pelo MP3, formato de arquivo que o Napster estabeleceu como padrão para a música no início do século 21. Mas não deixa de ser importante que este tema venha a ser uma das principais questões discutidas – entre outras, bem mais severas – em um dos filmes que, certamente, será um dos mais vistos em 2010. E, como o próprio Mark após o papo com Sean, pode fazer o grande público pensar um tanto sobre este assunto.
Assisti semana passada – e é tudo isso mesmo.
Foi com ceticismo que interrompi minhas férias por três horas, na semana passada, ao entrar em uma sala de cinema nos EUA para assistir ao filme sobre o Facebook. Líder nas bilheterias daquele fim de semana, A Rede Social também recebeu aplausos e elogios de quase todas as publicações norte-americanas – citar uma lista só com os veículos que lhe deram cotação máxima em suas avaliações enumera nomes que vão de carros-chefe da indústria como Hollywood Reporter e Variety a revistas como Time, Rolling Stone e New Yorker e jornais como Washington Post, Wall Street Journal e Los Angeles Times.
Para completar, o filme reúne um time exemplar: dirigido por um dos melhores cineastas de sua geração (David Fincher, de Clube da Luta e Zodíaco), escrito pelo mesmo Aaron Sorkin que deu ao mundo West Wing (o seriado sobre a Casa Branca que spoilou a realidade ao antever a eleição de Barack Obama) e protagonizado por Jesse Eisenberg (herói dos melhores hits discretos de 2009, Zombieland e Adventureland), além do cantor Justin Timberlake e dos bons novatos Andrew Garfield e Armie Hammer. Enquanto escrevo, surgem notícias apontando o filme como forte candidato ao Oscar de 2011. Mas como o excesso de expectativa costuma ser fatal para qualquer obra, fui sem esperar nada.
E me impressionei. A Rede Social, que chega aos cinemas brasileiros no início de dezembro, é o filme mais importante de 2010. E antes que os cinéfilos venham atirar pedras, vale lembrar que “mais importante” não é sinônimo de “melhor” (este posto continua com Um Homem Sério, dos Irmãos Coen). A Rede Social é o filme mais importante do ano por fazer que Hollywood saia do casulo sem assunto em que se fechou no início do século, quando preferiu recriar universos mitológicos – seja de super-heróis ou de livros clássicos – para voltar a falar de algo que faça sentido para a vida de seu público, reassumindo um papel que já foi seu mas que, nos últimos dez anos, foi substituído pela TV.
Mas não é irônico que, para isso acontecer, o cinema norte-americano tenha de falar da criação de um site de internet?
Não. E não apenas pelo tema do filme ser um site com meio bilhão de cadastrados, mas pelo fato de o cinema finalmente reconhecer a importância do meio digital para a história contemporânea. Hackers eram tratados como seres mágicos, prontos para quebrar barreiras de segurança sempre que o herói do filme, frequentemente avesso às novas tecnologia, se via diante de um computador.
Mas se antes isso era exceção, agora não é mais: vivemos em um mundo digital e é ridículo pensar que a única obra cinematográfica feita sobre este universo seja um filme feito para a televisão (Piratas do Vale do Silício, de 1999, sobre a rusga de Bill Gates e Steve Jobs).
A Rede Social parte do princípio de que o Facebook é tão importante hoje quanto os jornais foram no tempo em que Cidadão Kane foi feito por Orson Welles – a comparação é do próprio Fincher, que chama o filme de “o Cidadão Kane da geração John Hughes” – e para entender as motivações por trás desta nova mídia, foi preciso entrar na mente de seu criador. Mas ao contrário de Welles, que pintou seu William Randolph Hearst (o Kane original) com tons amarronzados de jornalismo barato, Fincher preferiu fixar-se no paradoxo de que a ferramenta mais popular de interação em tempos de internet ter sido criada por um hacker antissocial.
Juntos, diretor, roteirista e ator criam um Zuckerberg frio, robótico, ríspido, automático; um ser humano falho, mas uma máquina de programar – e programar tudo. E, como havia feito em Zodíaco, prefere não desvendar o mistério, apenas ampliá-lo. Quando o filme termina ao som de “Baby You’re a Rich Man” dos Beatles, com Zuckerberg dando reload em uma página do Facebook, sabe-se tanto sobre o Cidadão Zuck quanto se sabia antes do início do filme.
E não pense que A Rede Social é um caso isolado. Um filme sobre o Google já está sendo produzido e não duvide que, em breve, possamos assistir à vida de Steve Jobs no cinema. Com Tom Hanks, como sugeriu minha mulher ao final da sessão, no papel do pai da Apple.
Minha coluna no Caderno 2 voltou das férias ontem.
Uma música só para você
A solução do Belle & Sebastian
Ícones do indie rock desde seu primeiro álbum – If You”re Feeling Sinister, e lá se vão 12 anos desde seu lançamento -, o grupo escocês Belle & Sebastian acaba de soltar mais um disco no mercado. Write About Love é seu sétimo lançamento (sem contar os EPs) e, numa época em que qualquer disco pode ser baixado e ouvido com apenas uma busca no Google, a banda inventou uma forma interessante de fazer com que seus fãs comprassem a versão física – o CD – de seu novo álbum.
Muito já foi dito sobre este assunto: uma vez que a música perdeu seu valor comercial ao se tornar facilmente encontrada para download online, como os artistas podem fazer que seus fãs voltem a pagar por música? A primeira resposta já virou lugar-comum: o fã paga para ver o show (que abre uma discussão enorme sobre o que acontece com o artista que não faz apresentações ao vivo, mas isso é outra conversa).
Outros vieram propor mais soluções radicais. Já é clássico o exemplo do Radiohead, que liberou seu In Rainbows para download gratuito e propôs que os fãs pagassem quanto queriam para ter o disco (mesmo que não pagassem nada). A banda Nine Inch Nails transformou seu disco Year Zero em uma plataforma com diferentes versões para download. Quem quisesse ouvir o disco, podia baixá-lo gratuitamente. Se a opção fosse baixar o disco com uma qualidade sonora superior, havia um preço. Outra versão vinha com faixas extras, a um preço maior.
O baterista da banda, Josh Freeze, inspirado neste plano, lançou um disco em que ofertava várias versões com preços diferentes – e as opções mais caras incluíam desde um telefonema pessoal do músico para o fã em agradecimento à compra até um show particular feito para quem pagasse o valor máximo que ele pedia,US$ 20 mil.
O Belle & Sebastian, que se apresenta no Brasil no início de novembro, foi além e acaba de lançar uma promoção junto de seu novo disco que é simples e convincente o suficiente para fazer seus fãs comprarem o pedaço de plástico com as músicas gravadas. Cada cópia de Write About Love vem com um código único que, ao ser digitado no site da banda, permite que o fã participe de uma promoção.
Nela, a banda pede para que o fã escreva em 300 palavras porque o Belle & Sebastian deveria gravar uma música sobre ele mesmo. Quem conseguir convencer os escoceses ganha um senhor prêmio: a banda vai para a cidade do fã, passa uma tarde com ele para, depois, ouvir uma música composta sobre ele. Simples, não? E ainda há quem se pergunte sobre como ganhar dinheiro com música em tempos digitais…
Minha coluna para o Caderno 2 que eu fiz antes de sair de férias…
A arte de recombinar
Remix: Parte da cultura popular
“Tudo é remix”, diz o diretor nova-iorquino Kirby Ferguson no título da série de minidocumentários que lançou online nesta semana, Everything Is a Remix. “O ato de remixar sempre fez parte da cultura popular, independentemente do tipo de tecnologia usada”, explica o diretor no site do projeto, everythingisaremix.info. “Mas coletar material, combiná-los e transformá-los são ações que fazem parte de qualquer nível de criação.”
Mas antes que você torça o nariz achando que Ferguson está se referindo às intervenções que DJs fazem em músicas alheias, tome tento. O próprio diretor começa o primeiro capítulo de seu documentário explicando isso: o remix de músicas é só a parte mais conhecida de um evolução criativa que acompanhou a história da humanidade e, devido às leis de direitos autorais criadas durante o século 20, foi interrompido pois ficou impossível usar partes de obras alheias sem que isso significasse
pagamento ao artista original. Mas o pequeno filme conta duas situações que ocorreram no século passado que ajudaram a arte a se livrar da proibição que passou a pairar sobre o processo de criação.
Primeiro, ele cita o escritor beat William Burroughs, que, no início dos anos 60, em Paris, inventou um novo método para escrever livros. Ele datilografava páginas e páginas, depois as recortava e grudava umas nas outras, fazendo nascer, desta forma, novas palavras, frases e expressões – muitas sem sentido, mas e daí? Ferguson sai de Paris em direção a Londres, no final da mesma década, quando surge a banda Led Zeppelin. Incensada em seu país de origem, o grupo, no entanto, demorou para ser
levado a sério nos Estados Unidos porque boa parte de suas músicas “pegava emprestado” riffs, letras e melodias de clássicos do blues. Everything Is a Remix mostra as semelhanças entre velhos blues e músicas do Led Zeppelin.
E frisa que a diferença entre o que a banda de Jimmy Page fazia e o conceito de remix atual é que hoje a recombinação e recontextualização das obras quase sempre apontam quem é o autor original – ao contrário da banda inglesa. Que, por sua vez, teve trechos de suas músicas usados à exaustão por diversas bandas de hip hop – citados no filme.
O Rraurl completa treze anos neste fim de semana e devido às minhas férias (hehe, “adooooro”) não vou poder comparecer. O site é uma das melhores iniciativas tanto em relação à cena cultural brasileira quanto como veículo de comunicação nativo da era digital. Acompanhei essa história desde o começo, quando ainda era só um fanzine do Camilo e da Gaía e tive até uma coluna – de curta duração, só três edições – em que indicava treze MP3s para download por vez. Sim, treze – a idade que o Rraurl completa hoje e, justamente, o nome da minha coluna. Aproveitando o gancho, pedi pra Gaía me mandar uma lista com os treze momentos mais importantes, para ela, da história do site. É uma lista bem pessoal – e eu preferi que fosse assim. Parabéns, Rraurl! Que venham outros tantos treze anos!
1) Uma reunião com Camilo e Gil no gramado de uma rave no começo de 1997 foi o começo da história.
2) A entrada minha e do Gil na lista de emails (quem lembra disso?) chamada br-raves, também em 1997. Era lista irmã de outras do mundo, como uk-raves ou ar-raves, mas aqui era mais focado em techno, depois house. Foi importantíssimo pro site crescer, sabendo que tinha tanta gente legal tocando música e fazendo festa longe de Rio e São Paulo, e nós fizemos amigos que amamos até hoje.
3) O inesperado troféu Noite Ilustrada, pela Erika Palomino, como “melhor iniciativa da cena”. Ajudou a chamar a atenção pro site. E o troféu é lindo e enfeita minha casa até hoje.
4) O primeiro Skol Beats, no Autódromo. Lembro de ficar emocionada vendo tanta gente numa festa de música eletrônica. Mal sabia eu que a coisa ainda ia crescer muito mais que isso.
5) As festas em Brasília, onde se tocava house music de primeira e o povo dançava até de dia, num clima amistoso e simpático muito diferente do que reinava em SP na época. Coisas da br-raves.
6) As entrevistas feitas pela jornalista Jamille Pinheiro, de Belém-PA, que fez o site enxergar um outro nível de conteúdo.
7) As festas Circuito e Colors, que dominaram o mundo techno/house no começo dos anos 00 e com as quais o rraurl se envolveu muito.
8)A festa de 10 anos do rraurl, no Clash Club, com o Tittsworth, vindo de Baltimore, tocando uma mistura de booty techno com electro e rock. Até Bon Jovi tocou. Era 2007. Os puristas odiaram, a gente teve uma das noites mais divertidas da vida.
9) A Giuliana Viscardi, minha “Emily” como a gente brinca, que apareceu para colocar ordem na casa e teve uma passagem longa pelo escritório que se transformou numa amizade que mantemos até hoje.
10) A cobertura do Coachella 2008, minha primeira (!) ida pra festival na gringa, pra ver o Justice despontar como a coisa mais empolgante da música na época.
11) A “fase Jade” no rraurl, que eu considero a melhor época do site, com ele, Marcus Brasil (hoje na Época SP – n. do Matias – o Marcus passou pelo Link, hein!), Alisson Gothz e Raphael Caffarena na redação, além dos blogs em ótimas fases do Camilo Roch), Clau Assef e João Anzolin.
12) O apoio ao núcleo Crew, que fez os leitores da facção “eletrônica de verdade” torcerem tanto o nariz mas que ajudou a gerar uma nova geração de artistas da eletrônica nacional. É muito feliz ver que o núcleo ganhou tantos apoios ao longos desses anos e que as festas continuam cheias e divertidas.
13) O fechamento do QG do rraurl para um esquema home-office e o patrocínio da SKYY Vodka, já em 2010, uma relação profissional muito bacana que esperamos ver crescer com o tempo.
Ela viu, não se conteve e eu pedi o texto, aproveitando seu entusiasmo. Annix, lá do velho continente, conta seu êxtase a assistir o novo filme do Robert Rodriguez, só pra quem lê o Trabalho Sujo. Que emoção:
Saí da sessão de Machete com a impressão de ter visto um novo clássico, daqueles que você precisa assistir de novo porque é difícil decidir qual a sua cena favorita.
E grande parte disso se deve ao elenco. De alguma forma, Rodriguez conseguiu fazer com que Robert De Niro, Steven Seagal, Don Johnson, Jeff Fahey, Jessica Alba, Lindsay Lohan, Cheech Marin e Michelle Rodriguez dessem o melhor do pior de si em papeis improváveis, com interpretações melodramáticas. E fica evidente como todos se divertiram.
Especialmente o canastrão-mestre Seagal, que ficou de fora do Buena Vista Social Club do Stallone. Mas algo me diz que ele levou a melhor, encarnando o mexicano menos mexicano já visto no cinema. Como nêmesis do renegado Machete, acaba virando um contraponto engraçado em relação ao herói sério, letal e silencioso de Danny Trejo.
E não se levar a sério é o golpe de mestre do filme. Afinal, nascido de um trailer falso feito para outro projeto, Machete tem a liberdade de ser excessivo, absurdo, cômico, sentimental, sanguinolento e empolgante, tudo ao mesmo tempo. Um filme B que não existia passou a ser uma compilação de tudo que o gênero tem de melhor: um justiceiro solitário em busca de vingança, vilões que são maus mesmo, gostosas empunhando metralhadoras, armas pesadas em abundância, explosões, carros e roupas de couro – tudo isso transportado para a fronteira com o México, onde os personagens comem tacos, bebem tequila, os homens usam bigodes e as gatas passam boa parte do tempo com pouca ou nenhuma roupa. É o clichê do clichê, mas tão bem empregado que se torna surpreendente.
E bom.
Danny Trejo pode agradecer a Robert Rodriguez pelo papel de sua vida. E pensando bem, a gente também.

Fotos: Pedro Jansen, com celofane no flash, na noite de criação do Epic Shit
Cansados de resenhar discos, livros e filmes, Pedro Jansen, Renmero, Gabriel Louback e Ian Black resolveram resenhar suas próprias vidas, levando o conceito de coletivo (que repudiam) para o nível umbilical e a linguagem blog para o âmbito do portal, no site Epic Shit – que não é uma revista e nem um blog muito menos manifesto de um novo movimento cultural. Conversei com os caras na semana passada para entender que diabo eles querem com essa merda épica.
Como começou isso? Quem começou?
Renmnero: Começou em uma sexta dessas qualquer. Estávamos na casa do Ian falando sobre como seria massa trabalhar na BBC e esse tipo de coisa quando ele propôs que a gente começasse a registrar nossas vidas de uma forma diferente. Utilizando fotos e textos nossos. Uma tentativa de resgistrar a awesomeness inerente ao dia a dia – e que a maioria das pessoas ignora ou não sabe reconhecer. Eu já estava afim de fazer algo desse tipo há tempos e embarquei logo de cara.
Ian: A idéia do site vinha se formando há bastante tempo, através de conversas sobre as mais diversas coisas: games, UFC, torrent, quadrinhos, séries, filmes, animes, trabalho, internets, drogas, textos, vídeos, putarias, viagens e música. Certo dia comentei com o Jansen da vontade de fazer alguma coisa, ele ligou o Louback, eu liguei o Renmero, e marcamos de falar qualquer coisa em casa. Nesse dia estávamos viajando sobre o que seria o grande plano da BBC: documentar todo o mundo em HD – eles são dos poucos que disponibilizam coisas em 1080p no YouTube -, e nesse papo surgiu a idéia de documentar, do nosso jeito, o que sentimos sobre o momento em que vivemos, esta grande época. Daí surgiu a idéia disso acontecer em forma de um site. Definimos algumas coisas que gostaríamos de escrever, tinhamos um layout sobrando que serviu muito bem aos nossos propósitos – principalmente para a decisão de usarmos apenas fotos nossas para ilustrar os textos. Montamos uma lista de discussão, que acredito ter sido uma boa, pois através delas ficávamos falando do site, mas também servia para compartilharmos várias informações e opiniões. E o site foi saindo… e saiu.
Louback: O Ian e o Renmero são meio viciados na BBC e no trampo dos caras, conceitualmente. Eles têm catalogado o que acontece com a sociedade, deixando um registro de uma época, uma geração e um momento histórico no curso da humanidade – e tudo em HD, ainda por cima, os desgraçados. Para mim, começou quando os dois chamaram eu e Jansen para produzirmos conteúdo sobre nossa época, sobre o que vivemos, sentimos e experimentamos. se sabemos escrever, então escreveríamos. se sabemos fotografar – ainda que amadoramente -, então fotografaríamos. eu já vinha pensando muito sobre isso e não teve jeito de não cair de cabeça. abraçamos o caos na hora 🙂
Jansen: O que o Renmo e o Lou mandaram define muito bem o que a gente foi pensando nessa primeira “reunião”, em que a nossa intenção era conversar com gente parecida conosco, esse povo que tem mais de vinte e poucos anos, curte música, curte games, curte mulher, curte cinema, curte literatura, curte contracultura, curte umas “coisas diferentes”- UFC, skate depois de velho, deus, tatuagem do Megaman. Fora que, como já te vi falando muito, Matias: “que época pra se viver, hein?” são muitas as coisas que acontecem ao redor da gente e que não só chamam a atenção como marcam pra sempre essa experiência que a gente tá tendo por aqui = sampa, sp, brasil, mundo, vida?. Pra mim, começou mesmo depois da minha volta de uma viagem à terrinha. chegando lá, topei minha infância, minha adolescência, amigos da vida inteira, os caras que jogavam Magic a tarde de sábado inteira e cuja maior transgressão era beber demais aqui e acolá e fumar uns cigarros, caras que são meus irmãos e pra quem eu queria contar como é o mundo que eu vejo – não pela diferença geográfica, mas pela diferença de experiências e nunca julgando um melhor que o outro, mas contando experiências. Aí minha ideia virou: vou contar as coisas da minha vida. tanto da vez em que trombei dois amigos de bicicleta atravessando a cidade pra ir catar uma fita de N64 do outro lado da cidade, acompanhá-los e voltar pra casa deles, na outra PONTA da cidade, até o bico que recebi de uma guria, falando sobre a banda que descobri e pelo jogo que me fascinou. Acho que uma palavra que puxa o Epic Shit é “registro”. E nosso público alvo é o Arnaldo Branco.
Então não é a reunião da produção digital de vocês, mas só um recorte. É uma revista? Vocês seguem com seus blogs originais?
Jansen: Não sei se chamaríamos de revista, porque pressupõe edições, temas… Eu sigo com meu blog original porque muito do que eu escrevo la – receitas, declarações de amor pra minha mulher… – não “cabe” no Epic Shit. Porque no meu blog original, e “pessoal”, falo sem esperar que ninguém me ouça. No Epic Shit escrevo não esperando que alguém me ouça, mas definitivamente querendo falar com alguém.
Louback: Acaba sendo um recorte mais macro, no meu caso. No meu blog, por exemplo, acabo escrevendo mais contos e crônicas. Sentia falta de publicar uma reportagem, ou histórias de pessoas. E também não sei se chamaria de revista, já que é um registro – boa opção de palavra, jansen – geral. Não tem uma temática, pautas, ou assuntos definidos. Pode ter uma crônica, um artigo, uma série de reportagens, ensaio fotográfico, um ato de uma peça ou 6 dicas para viver com sua mulher. Como disse o Jansen, nosso público alvo é o Arnaldo Branco 🙂
Renmero: Não sei se é uma revista. Na realidade nem pensamos muito em definições desse tipo. Apenas concordamos que se queríamos fazer algo, tinha que ser bem feito e direto do coração, com mandou certa vez Bill Hicks. O suporte tinha que agregar fotos, vídeos e textos com harmonia. Encerrei meu blog faz um mês e estava planejando ficar sem escrever nada por um tempo, mas aí apareceu essa idéia e senti que era das coisas que eu tinha que fazer. Tinha até comentado com o Ian que sem querer voltamos a ser “blogueiros” por acidente, não era nossa intenção voltar a blogar ou coisa assim.
Ian: Ontem o Renmero comentou: “voltamos a ser blogueiros” ao que comentei “ex-blogueiros em atividade”. Meu blog está há meses sem atualização, e preferi criar em cima de um conceito que eu venho pensando desde a época do Interney Blogs, mas que só agora coloquei em prática: projetos de conteúdo com começo, meio e fim, como são os discos, as séries, os filmes… os nomes dos projetos já escancaram isso: 365 Evenings, 123 Cassettes… gosto dessa sensação de ter projetos, e não uma única coisa, institucional… Creio que o Epic Shit vai por esse caminho, mas sem um prazo de validade.
A gente nunca para pra pensar em tecnologia quando se fala em registro de comportamento e cultura (talvez até esteja falando-se pela primeira vez agora), mas não dá pra dissociar o fim do século 19 e começo do século 20 dos livros e a segunda metade do século 20 dos discos e o século 20 inteiro dos jornais, revistas e do cinema. Eu fico pirando nisso: faz sentido escrever um livro, gravar um disco ou publicar uma revista – e só – hoje em dia?
Renmero: Não sei se é uma questão de fazer sentido. Para mim é mais de execução. Acredito que um disco sensacional consegue ser muito mais do que um simples disco, consegue atravessar barreiras entre mídias. Essa travessia constante faz parte do que somos agora, nossos escritores são consultores de tendências, analistas de conteúdo e arquitetos de informação. Viramos fãs deles por causa disso. Claro que houve o ponto inicial da obra, mas rapidamente entendemos muito mais sobre eles – até porque logo buscamos isso e ficamos desapontados se não encontramos. Aprendemos em minutos muito mais sobre nosso autores favoritos do que nossos pais conseguiriam juntar em uma vida. Muitos artistas foram crucificados pos defendiam que não importa o suporte, o que importa é sua expressão. Hoje nós já sacamos isso e aceitamos de bom grado qualquer coisa que ele produzir. De uma forma bizarra estamos mais humanos.
Jansen: Essa é uma coisa curiosa de responder porque tem umas semanas, eu “falava” disso com o Lou: vamos ver o jornalismo morrer como conhecemos hoje? vamos topar com um futuro – e aí tirando toda a ironia das projeções da ficção científica hoje serem mais “piada” que efetivamente resultado – em que as revistas serão lidas num esquema iPad e não comprando na banca? Meu receio era que, assim como em áreas voltadas pra tecnologia, surgisse uma geração de guris que manjassem muito mais dessa comunicação, senão unicamente digital, principalmente digital e que o consumo se direcionasse muito a isso e quem soubesse só escrever, sem pensar em aplicativos, interatividade e outras viagens estaria fudido e mal pago. Lou retrocou sabiamente dizendo que pessoas que sabem escrever – guardando a modéstia um tiquinho só pra não perder o argumento – sempre serão necessárias. podemos não ser os profissionais que comandarão a (r)evolução desse futuro em que o jornalismo é feito de um jeito diferente que o da “nossa época”, mas certamente estaremos enchendo o saco e derrubando umas árvores pra publicar umas coisas. É como ouvir a gravação do Knitting Factory do Jeff Buckley falando em “internet providers”. 92. Internet providers. 2010. Um disco, um livro, uma revista. Faz sentido? Sim, não, sei lá. Tô com essa coisa matutando tem um tempo, esse lance do “sei lá”, nossa geração é dona de falar issso. “E aí, está preocupado?” “sei lá”. “Como vão as coisas, tudo bem em casa?” “sei lá, tá estranho”. Uma indefinição que permeia muitos dos caminhos que a gente percorre todos os dias. E aí, nesse sentido, acho que faz sentido sim. porque a gente constrói o sentido que quer. E pra o Epic Shit, o sentido é o de registro, de deixar uma “marca”. ainda que seja um site.
Ian: Também me pego pirando nessas, mas acho que pouca gente sacou isso. Quando os blogs surgiram, e até antes disso, se pegarmos os caras do Cardosonline, era a tecnologia te permitindo desenvolver os meios, não só de produção como de veiculação… Os meios clássicos do século passado ainda servem como validação, como a oficialização de muita coisa, mas há quem prescinda disso. Eu sinto falta de uma maior exploração da convergência desses meios, tipo neguinho que é músico desenvolver um trabalho, e ao invés dele lançá-lo como disco, fazer todo um site que possa se resolver melhor que qualquer encarte – num mundo em que encarte é praticamente inexistente. Sempre vi banda no final do século passado e no começo deste reclamando de espaço, mas agora que há espaço vejo pouca gente aproveitando-o adequadamente.
Renmero: Engraçado que meio que o trabalho de nós quatro na essência é ajudar pessoas a aproveitar esses espaços, não? tipo o que vamos fazer com os caras da Hierofante Púrpura, em que gravaremos um show instrumental deles na Praça do Por do Sol ainda esse mês e colocaremos no Epic Shit, que pareceu uma coisa tão óbvia tanto para a banda quanto para nós e que não tinha sido feito.
E como fugir da manjada idéia de coletivo? Ou é um coletivo?
Renmero: Gah, odeio essa palavra. Mas é simples fugir desse estigma: é só não tentar muito, no sentido de trying too hard. Coletivos geralmente são caracterizados por discursos, manifestos e coisas do tipo. Não temos nada disso e nem pretendemos ter. Tanto que tu vês um jogando pro outro a responsabilidade de ter parido o site. Não é nossa intenção sermos reconhecidos como artistas nem levantar bandeira alguma. Estamos apenas fazendo algo que nos pareceu bom de fazer.
Jansen: Exatamente.
Ian: Endosso.
Louback: O insight de “não importa onde esteja o conteúdo, sempre será necessário quem o produza” é o Clovis Rossi. Ouvi uma entrevista dele, sobre os caminhos do jornalismo e perguntaram se ele temia que esse modelo terminasse. “Medo tem que ter as famílias Frias, Mesquita e Marinho. eles são os proprietários, eles precisam ter medo pelo modelo de negócio. Eu só escrevo. Se quiserem um texto meu em um site, eu vou escrever. se quiserem para um jornal, idem.” E também tenho viajado muito nisso, Matias. O mais bonito da sua pergunta não é a resposta, mas a própria pergunta. O mais legal é que se fizer sentido lançar só aquilo, massa. É possível. Se não fizer sentido uma banda apenas lançar um disco e fazer show e utilizar as ferramentas para uma experiência coletiva – admirável mundo novo? -, então massa, porque é possível! A graça que vejo é nisso: é possível. A produção e publicação de conteúdo, seja ele qual for, é possível a qualquer um, de qualquer jeito. E complementando Jansen, tenho conversado com alguns próximos e é um sentimento que tenho visto ser comum. De parecer que a maioria da galera está em um grande “sei lá” com relação à vida, com relação a tudo. Não sei se entra em Semiótica, Psicologia ou sei lá (HA!), mas é interessante ver como tanta gente percebe isso.
Isso eh necessariamente baseado em internet ou tem algum desdobramento offline? Exemplo: o que é mais importante pra vocês, produzir o show da banda ou registrá-lo? Ou é tudo a mesma coisa?
Renmero: Tudo a mesma coisa. Parto do princípio de que algumas coisas devem ser feitas. Esse show é algo que eu faria mesmo que fosse somente pra uma pessoa assistir. Vivemos fazendo coisas assim, que só interessam a nós e nos sastifazem. Compartilhar com outras pessoas sempre é bom, mas não é obrigatório, até porque certas coisas nem tem como. Considero o Epic Shit algo mais offline do que online. Nossas reuniões não raro duram um dia inteiro e fazemos altas merdas durante. Depois concordamos o que cada um irá fazer e publicamos. Digamos que o site é só a ponta do iceberg. O resto são nossas vidas.
Louback: Produzir o show, assisti-lo ou gravar/escrever sobre ele é tudo importante. A experiência tem sido o mais importante. É tão importante passar a tarde falando sobre as coisas que nos emocionam quanto chegar lá e escrever ou registrar. O registro acaba sendo mais de compartilhar mesmo. Se isso for para o offline – revista, rádio, show, balada, banda, música, o que for -, verei como um movimento natural.
Ian: A tagline do projeto, “abrace o caos”, tem bastante a ver com isso. Tudo o que estiver acontecendo é o principal.
E o quanto isso nao tem de “evasao de privacidade”?
Jansen: Não saquei.
Falar demais sobre a propria vida, como se isso interessasse a alguem 😛
Jansen: É como o Renmero falou bem: já convivemos com isso há uma cara e acho que o que mais protege a gente dessa coisa de se expor – sem nem pensar no interesse de alguém por isso – é que sempre miramos pra fora, nos tomamos como exemplos porque somos caras, que têm vidas, que têm minas, que têm trampos e daí… Um exemplo: no dia da reunião que pariu o Epic Shit, comentei com os guris que andava preferindo o bourbon ao scotch. Emendei que essa predileção passava longe de ser um reflexo do consumo constante de um e de outro e daí a predileção, mas que hoje, se páro pra comprar uma garrafa de uísque, levo um JD ou JB e não um Label qualquer. Não é pela coisa, não virou carne de vaca, é algo que ainda choro quando vejo o preço no super, Mas é algo que é uma experiência minha, ligado a certas histórias e apegos e isso com aquilo vira evasão de privacidade e relato de preferências. deve interessar a alguém. hehe
Louback: Do cacete, né? Murro no estômago, que a todo instante somos confrontados… Seja twiter, facebook ou nossos blogs. Tive certo receio disso também, mas a ideia – o esforço, na verdade -, é um registro do que nos permeia. No fim, claro que o assunto somos nós, nosso mundo. Tanto que uma das pirações minhas é: o que é importante escrever? Produzir um show – e registrá-lo – do Hierofante na Praça do Por do Sol, é importante para uma classe média, consumidora de Cultura, blablabla. Existe algo que seja relevante a todos? Um assunto inerente ao Homem?
Renmero: Jamais esquecer a história da arte: “look. look at me.”
Ian: Na reunião que decidimos pelo site, chegamos ao momento de perguntar qual seria o nosso público alvo: alguém mandou um “o Arnaldo Branco” – que acabou ficando no FAQ -, mas também concluímos que o melhor era não decidir por um público, e sim escrever o que desse na telha e esperar pra ver que tipo de gente vai se juntando ao redor. faz parte da experiência, do abraçar o caos…

“Abrace o caos” eh eufemismo pra “let it be”, hein.
Ian: Faz bastante sentido. Pensei em “It’s the End of the World…” do R.E.M., mas Beatles tá mais apropriado.
Louback: Mas ó, vejo o Let it Be mais uma coisa de “deixe estar”, de passar incólume às vicissitudes dessa vida. Acho que é um caminho bacana também, de tentar contornar o furacão e trilhar um caminho mais “pacífico”. Ainda assim não conformado, mas não entrando no caos. O “abrace o caos” imagino o maluco tentando atravessar o furacão, pelo meio… de “encarar o infinito”.
Renmero: Na realidade eu acho que encaro essa expressão de uma forma diferente dos outros caras. No meu raciocínio, abraçar o caos é nada mais do que fazer o que tem que ser feito. Arcar com consequências e meter a cara. Nada aqui é pra fazer sentido mesmo, abraçar a incoerência de tudo é uma forma de se manter são. Abraçar o caos é nunca virar fã de Travis e dizer “why does it always rain on me” e tal.









