Assisti semana passada – e é tudo isso mesmo.
Foi com ceticismo que interrompi minhas férias por três horas, na semana passada, ao entrar em uma sala de cinema nos EUA para assistir ao filme sobre o Facebook. Líder nas bilheterias daquele fim de semana, A Rede Social também recebeu aplausos e elogios de quase todas as publicações norte-americanas – citar uma lista só com os veículos que lhe deram cotação máxima em suas avaliações enumera nomes que vão de carros-chefe da indústria como Hollywood Reporter e Variety a revistas como Time, Rolling Stone e New Yorker e jornais como Washington Post, Wall Street Journal e Los Angeles Times.
Para completar, o filme reúne um time exemplar: dirigido por um dos melhores cineastas de sua geração (David Fincher, de Clube da Luta e Zodíaco), escrito pelo mesmo Aaron Sorkin que deu ao mundo West Wing (o seriado sobre a Casa Branca que spoilou a realidade ao antever a eleição de Barack Obama) e protagonizado por Jesse Eisenberg (herói dos melhores hits discretos de 2009, Zombieland e Adventureland), além do cantor Justin Timberlake e dos bons novatos Andrew Garfield e Armie Hammer. Enquanto escrevo, surgem notícias apontando o filme como forte candidato ao Oscar de 2011. Mas como o excesso de expectativa costuma ser fatal para qualquer obra, fui sem esperar nada.
E me impressionei. A Rede Social, que chega aos cinemas brasileiros no início de dezembro, é o filme mais importante de 2010. E antes que os cinéfilos venham atirar pedras, vale lembrar que “mais importante” não é sinônimo de “melhor” (este posto continua com Um Homem Sério, dos Irmãos Coen). A Rede Social é o filme mais importante do ano por fazer que Hollywood saia do casulo sem assunto em que se fechou no início do século, quando preferiu recriar universos mitológicos – seja de super-heróis ou de livros clássicos – para voltar a falar de algo que faça sentido para a vida de seu público, reassumindo um papel que já foi seu mas que, nos últimos dez anos, foi substituído pela TV.
Mas não é irônico que, para isso acontecer, o cinema norte-americano tenha de falar da criação de um site de internet?
Não. E não apenas pelo tema do filme ser um site com meio bilhão de cadastrados, mas pelo fato de o cinema finalmente reconhecer a importância do meio digital para a história contemporânea. Hackers eram tratados como seres mágicos, prontos para quebrar barreiras de segurança sempre que o herói do filme, frequentemente avesso às novas tecnologia, se via diante de um computador.
Mas se antes isso era exceção, agora não é mais: vivemos em um mundo digital e é ridículo pensar que a única obra cinematográfica feita sobre este universo seja um filme feito para a televisão (Piratas do Vale do Silício, de 1999, sobre a rusga de Bill Gates e Steve Jobs).
A Rede Social parte do princípio de que o Facebook é tão importante hoje quanto os jornais foram no tempo em que Cidadão Kane foi feito por Orson Welles – a comparação é do próprio Fincher, que chama o filme de “o Cidadão Kane da geração John Hughes” – e para entender as motivações por trás desta nova mídia, foi preciso entrar na mente de seu criador. Mas ao contrário de Welles, que pintou seu William Randolph Hearst (o Kane original) com tons amarronzados de jornalismo barato, Fincher preferiu fixar-se no paradoxo de que a ferramenta mais popular de interação em tempos de internet ter sido criada por um hacker antissocial.
Juntos, diretor, roteirista e ator criam um Zuckerberg frio, robótico, ríspido, automático; um ser humano falho, mas uma máquina de programar – e programar tudo. E, como havia feito em Zodíaco, prefere não desvendar o mistério, apenas ampliá-lo. Quando o filme termina ao som de “Baby You’re a Rich Man” dos Beatles, com Zuckerberg dando reload em uma página do Facebook, sabe-se tanto sobre o Cidadão Zuck quanto se sabia antes do início do filme.
E não pense que A Rede Social é um caso isolado. Um filme sobre o Google já está sendo produzido e não duvide que, em breve, possamos assistir à vida de Steve Jobs no cinema. Com Tom Hanks, como sugeriu minha mulher ao final da sessão, no papel do pai da Apple.
Minha coluna no Caderno 2 voltou das férias ontem.
Uma música só para você
A solução do Belle & Sebastian
Ícones do indie rock desde seu primeiro álbum – If You”re Feeling Sinister, e lá se vão 12 anos desde seu lançamento -, o grupo escocês Belle & Sebastian acaba de soltar mais um disco no mercado. Write About Love é seu sétimo lançamento (sem contar os EPs) e, numa época em que qualquer disco pode ser baixado e ouvido com apenas uma busca no Google, a banda inventou uma forma interessante de fazer com que seus fãs comprassem a versão física – o CD – de seu novo álbum.
Muito já foi dito sobre este assunto: uma vez que a música perdeu seu valor comercial ao se tornar facilmente encontrada para download online, como os artistas podem fazer que seus fãs voltem a pagar por música? A primeira resposta já virou lugar-comum: o fã paga para ver o show (que abre uma discussão enorme sobre o que acontece com o artista que não faz apresentações ao vivo, mas isso é outra conversa).
Outros vieram propor mais soluções radicais. Já é clássico o exemplo do Radiohead, que liberou seu In Rainbows para download gratuito e propôs que os fãs pagassem quanto queriam para ter o disco (mesmo que não pagassem nada). A banda Nine Inch Nails transformou seu disco Year Zero em uma plataforma com diferentes versões para download. Quem quisesse ouvir o disco, podia baixá-lo gratuitamente. Se a opção fosse baixar o disco com uma qualidade sonora superior, havia um preço. Outra versão vinha com faixas extras, a um preço maior.
O baterista da banda, Josh Freeze, inspirado neste plano, lançou um disco em que ofertava várias versões com preços diferentes – e as opções mais caras incluíam desde um telefonema pessoal do músico para o fã em agradecimento à compra até um show particular feito para quem pagasse o valor máximo que ele pedia,US$ 20 mil.
O Belle & Sebastian, que se apresenta no Brasil no início de novembro, foi além e acaba de lançar uma promoção junto de seu novo disco que é simples e convincente o suficiente para fazer seus fãs comprarem o pedaço de plástico com as músicas gravadas. Cada cópia de Write About Love vem com um código único que, ao ser digitado no site da banda, permite que o fã participe de uma promoção.
Nela, a banda pede para que o fã escreva em 300 palavras porque o Belle & Sebastian deveria gravar uma música sobre ele mesmo. Quem conseguir convencer os escoceses ganha um senhor prêmio: a banda vai para a cidade do fã, passa uma tarde com ele para, depois, ouvir uma música composta sobre ele. Simples, não? E ainda há quem se pergunte sobre como ganhar dinheiro com música em tempos digitais…
Minha coluna para o Caderno 2 que eu fiz antes de sair de férias…
A arte de recombinar
Remix: Parte da cultura popular
“Tudo é remix”, diz o diretor nova-iorquino Kirby Ferguson no título da série de minidocumentários que lançou online nesta semana, Everything Is a Remix. “O ato de remixar sempre fez parte da cultura popular, independentemente do tipo de tecnologia usada”, explica o diretor no site do projeto, everythingisaremix.info. “Mas coletar material, combiná-los e transformá-los são ações que fazem parte de qualquer nível de criação.”
Mas antes que você torça o nariz achando que Ferguson está se referindo às intervenções que DJs fazem em músicas alheias, tome tento. O próprio diretor começa o primeiro capítulo de seu documentário explicando isso: o remix de músicas é só a parte mais conhecida de um evolução criativa que acompanhou a história da humanidade e, devido às leis de direitos autorais criadas durante o século 20, foi interrompido pois ficou impossível usar partes de obras alheias sem que isso significasse
pagamento ao artista original. Mas o pequeno filme conta duas situações que ocorreram no século passado que ajudaram a arte a se livrar da proibição que passou a pairar sobre o processo de criação.
Primeiro, ele cita o escritor beat William Burroughs, que, no início dos anos 60, em Paris, inventou um novo método para escrever livros. Ele datilografava páginas e páginas, depois as recortava e grudava umas nas outras, fazendo nascer, desta forma, novas palavras, frases e expressões – muitas sem sentido, mas e daí? Ferguson sai de Paris em direção a Londres, no final da mesma década, quando surge a banda Led Zeppelin. Incensada em seu país de origem, o grupo, no entanto, demorou para ser
levado a sério nos Estados Unidos porque boa parte de suas músicas “pegava emprestado” riffs, letras e melodias de clássicos do blues. Everything Is a Remix mostra as semelhanças entre velhos blues e músicas do Led Zeppelin.
E frisa que a diferença entre o que a banda de Jimmy Page fazia e o conceito de remix atual é que hoje a recombinação e recontextualização das obras quase sempre apontam quem é o autor original – ao contrário da banda inglesa. Que, por sua vez, teve trechos de suas músicas usados à exaustão por diversas bandas de hip hop – citados no filme.
O Rraurl completa treze anos neste fim de semana e devido às minhas férias (hehe, “adooooro”) não vou poder comparecer. O site é uma das melhores iniciativas tanto em relação à cena cultural brasileira quanto como veículo de comunicação nativo da era digital. Acompanhei essa história desde o começo, quando ainda era só um fanzine do Camilo e da Gaía e tive até uma coluna – de curta duração, só três edições – em que indicava treze MP3s para download por vez. Sim, treze – a idade que o Rraurl completa hoje e, justamente, o nome da minha coluna. Aproveitando o gancho, pedi pra Gaía me mandar uma lista com os treze momentos mais importantes, para ela, da história do site. É uma lista bem pessoal – e eu preferi que fosse assim. Parabéns, Rraurl! Que venham outros tantos treze anos!
1) Uma reunião com Camilo e Gil no gramado de uma rave no começo de 1997 foi o começo da história.
2) A entrada minha e do Gil na lista de emails (quem lembra disso?) chamada br-raves, também em 1997. Era lista irmã de outras do mundo, como uk-raves ou ar-raves, mas aqui era mais focado em techno, depois house. Foi importantíssimo pro site crescer, sabendo que tinha tanta gente legal tocando música e fazendo festa longe de Rio e São Paulo, e nós fizemos amigos que amamos até hoje.
3) O inesperado troféu Noite Ilustrada, pela Erika Palomino, como “melhor iniciativa da cena”. Ajudou a chamar a atenção pro site. E o troféu é lindo e enfeita minha casa até hoje.
4) O primeiro Skol Beats, no Autódromo. Lembro de ficar emocionada vendo tanta gente numa festa de música eletrônica. Mal sabia eu que a coisa ainda ia crescer muito mais que isso.
5) As festas em Brasília, onde se tocava house music de primeira e o povo dançava até de dia, num clima amistoso e simpático muito diferente do que reinava em SP na época. Coisas da br-raves.
6) As entrevistas feitas pela jornalista Jamille Pinheiro, de Belém-PA, que fez o site enxergar um outro nível de conteúdo.
7) As festas Circuito e Colors, que dominaram o mundo techno/house no começo dos anos 00 e com as quais o rraurl se envolveu muito.
8)A festa de 10 anos do rraurl, no Clash Club, com o Tittsworth, vindo de Baltimore, tocando uma mistura de booty techno com electro e rock. Até Bon Jovi tocou. Era 2007. Os puristas odiaram, a gente teve uma das noites mais divertidas da vida.
9) A Giuliana Viscardi, minha “Emily” como a gente brinca, que apareceu para colocar ordem na casa e teve uma passagem longa pelo escritório que se transformou numa amizade que mantemos até hoje.
10) A cobertura do Coachella 2008, minha primeira (!) ida pra festival na gringa, pra ver o Justice despontar como a coisa mais empolgante da música na época.
11) A “fase Jade” no rraurl, que eu considero a melhor época do site, com ele, Marcus Brasil (hoje na Época SP – n. do Matias – o Marcus passou pelo Link, hein!), Alisson Gothz e Raphael Caffarena na redação, além dos blogs em ótimas fases do Camilo Roch), Clau Assef e João Anzolin.
12) O apoio ao núcleo Crew, que fez os leitores da facção “eletrônica de verdade” torcerem tanto o nariz mas que ajudou a gerar uma nova geração de artistas da eletrônica nacional. É muito feliz ver que o núcleo ganhou tantos apoios ao longos desses anos e que as festas continuam cheias e divertidas.
13) O fechamento do QG do rraurl para um esquema home-office e o patrocínio da SKYY Vodka, já em 2010, uma relação profissional muito bacana que esperamos ver crescer com o tempo.
Ela viu, não se conteve e eu pedi o texto, aproveitando seu entusiasmo. Annix, lá do velho continente, conta seu êxtase a assistir o novo filme do Robert Rodriguez, só pra quem lê o Trabalho Sujo. Que emoção:
Saí da sessão de Machete com a impressão de ter visto um novo clássico, daqueles que você precisa assistir de novo porque é difícil decidir qual a sua cena favorita.
E grande parte disso se deve ao elenco. De alguma forma, Rodriguez conseguiu fazer com que Robert De Niro, Steven Seagal, Don Johnson, Jeff Fahey, Jessica Alba, Lindsay Lohan, Cheech Marin e Michelle Rodriguez dessem o melhor do pior de si em papeis improváveis, com interpretações melodramáticas. E fica evidente como todos se divertiram.
Especialmente o canastrão-mestre Seagal, que ficou de fora do Buena Vista Social Club do Stallone. Mas algo me diz que ele levou a melhor, encarnando o mexicano menos mexicano já visto no cinema. Como nêmesis do renegado Machete, acaba virando um contraponto engraçado em relação ao herói sério, letal e silencioso de Danny Trejo.
E não se levar a sério é o golpe de mestre do filme. Afinal, nascido de um trailer falso feito para outro projeto, Machete tem a liberdade de ser excessivo, absurdo, cômico, sentimental, sanguinolento e empolgante, tudo ao mesmo tempo. Um filme B que não existia passou a ser uma compilação de tudo que o gênero tem de melhor: um justiceiro solitário em busca de vingança, vilões que são maus mesmo, gostosas empunhando metralhadoras, armas pesadas em abundância, explosões, carros e roupas de couro – tudo isso transportado para a fronteira com o México, onde os personagens comem tacos, bebem tequila, os homens usam bigodes e as gatas passam boa parte do tempo com pouca ou nenhuma roupa. É o clichê do clichê, mas tão bem empregado que se torna surpreendente.
E bom.
Danny Trejo pode agradecer a Robert Rodriguez pelo papel de sua vida. E pensando bem, a gente também.

Fotos: Pedro Jansen, com celofane no flash, na noite de criação do Epic Shit
Cansados de resenhar discos, livros e filmes, Pedro Jansen, Renmero, Gabriel Louback e Ian Black resolveram resenhar suas próprias vidas, levando o conceito de coletivo (que repudiam) para o nível umbilical e a linguagem blog para o âmbito do portal, no site Epic Shit – que não é uma revista e nem um blog muito menos manifesto de um novo movimento cultural. Conversei com os caras na semana passada para entender que diabo eles querem com essa merda épica.
Como começou isso? Quem começou?
Renmnero: Começou em uma sexta dessas qualquer. Estávamos na casa do Ian falando sobre como seria massa trabalhar na BBC e esse tipo de coisa quando ele propôs que a gente começasse a registrar nossas vidas de uma forma diferente. Utilizando fotos e textos nossos. Uma tentativa de resgistrar a awesomeness inerente ao dia a dia – e que a maioria das pessoas ignora ou não sabe reconhecer. Eu já estava afim de fazer algo desse tipo há tempos e embarquei logo de cara.
Ian: A idéia do site vinha se formando há bastante tempo, através de conversas sobre as mais diversas coisas: games, UFC, torrent, quadrinhos, séries, filmes, animes, trabalho, internets, drogas, textos, vídeos, putarias, viagens e música. Certo dia comentei com o Jansen da vontade de fazer alguma coisa, ele ligou o Louback, eu liguei o Renmero, e marcamos de falar qualquer coisa em casa. Nesse dia estávamos viajando sobre o que seria o grande plano da BBC: documentar todo o mundo em HD – eles são dos poucos que disponibilizam coisas em 1080p no YouTube -, e nesse papo surgiu a idéia de documentar, do nosso jeito, o que sentimos sobre o momento em que vivemos, esta grande época. Daí surgiu a idéia disso acontecer em forma de um site. Definimos algumas coisas que gostaríamos de escrever, tinhamos um layout sobrando que serviu muito bem aos nossos propósitos – principalmente para a decisão de usarmos apenas fotos nossas para ilustrar os textos. Montamos uma lista de discussão, que acredito ter sido uma boa, pois através delas ficávamos falando do site, mas também servia para compartilharmos várias informações e opiniões. E o site foi saindo… e saiu.
Louback: O Ian e o Renmero são meio viciados na BBC e no trampo dos caras, conceitualmente. Eles têm catalogado o que acontece com a sociedade, deixando um registro de uma época, uma geração e um momento histórico no curso da humanidade – e tudo em HD, ainda por cima, os desgraçados. Para mim, começou quando os dois chamaram eu e Jansen para produzirmos conteúdo sobre nossa época, sobre o que vivemos, sentimos e experimentamos. se sabemos escrever, então escreveríamos. se sabemos fotografar – ainda que amadoramente -, então fotografaríamos. eu já vinha pensando muito sobre isso e não teve jeito de não cair de cabeça. abraçamos o caos na hora 🙂
Jansen: O que o Renmo e o Lou mandaram define muito bem o que a gente foi pensando nessa primeira “reunião”, em que a nossa intenção era conversar com gente parecida conosco, esse povo que tem mais de vinte e poucos anos, curte música, curte games, curte mulher, curte cinema, curte literatura, curte contracultura, curte umas “coisas diferentes”- UFC, skate depois de velho, deus, tatuagem do Megaman. Fora que, como já te vi falando muito, Matias: “que época pra se viver, hein?” são muitas as coisas que acontecem ao redor da gente e que não só chamam a atenção como marcam pra sempre essa experiência que a gente tá tendo por aqui = sampa, sp, brasil, mundo, vida?. Pra mim, começou mesmo depois da minha volta de uma viagem à terrinha. chegando lá, topei minha infância, minha adolescência, amigos da vida inteira, os caras que jogavam Magic a tarde de sábado inteira e cuja maior transgressão era beber demais aqui e acolá e fumar uns cigarros, caras que são meus irmãos e pra quem eu queria contar como é o mundo que eu vejo – não pela diferença geográfica, mas pela diferença de experiências e nunca julgando um melhor que o outro, mas contando experiências. Aí minha ideia virou: vou contar as coisas da minha vida. tanto da vez em que trombei dois amigos de bicicleta atravessando a cidade pra ir catar uma fita de N64 do outro lado da cidade, acompanhá-los e voltar pra casa deles, na outra PONTA da cidade, até o bico que recebi de uma guria, falando sobre a banda que descobri e pelo jogo que me fascinou. Acho que uma palavra que puxa o Epic Shit é “registro”. E nosso público alvo é o Arnaldo Branco.
Então não é a reunião da produção digital de vocês, mas só um recorte. É uma revista? Vocês seguem com seus blogs originais?
Jansen: Não sei se chamaríamos de revista, porque pressupõe edições, temas… Eu sigo com meu blog original porque muito do que eu escrevo la – receitas, declarações de amor pra minha mulher… – não “cabe” no Epic Shit. Porque no meu blog original, e “pessoal”, falo sem esperar que ninguém me ouça. No Epic Shit escrevo não esperando que alguém me ouça, mas definitivamente querendo falar com alguém.
Louback: Acaba sendo um recorte mais macro, no meu caso. No meu blog, por exemplo, acabo escrevendo mais contos e crônicas. Sentia falta de publicar uma reportagem, ou histórias de pessoas. E também não sei se chamaria de revista, já que é um registro – boa opção de palavra, jansen – geral. Não tem uma temática, pautas, ou assuntos definidos. Pode ter uma crônica, um artigo, uma série de reportagens, ensaio fotográfico, um ato de uma peça ou 6 dicas para viver com sua mulher. Como disse o Jansen, nosso público alvo é o Arnaldo Branco 🙂
Renmero: Não sei se é uma revista. Na realidade nem pensamos muito em definições desse tipo. Apenas concordamos que se queríamos fazer algo, tinha que ser bem feito e direto do coração, com mandou certa vez Bill Hicks. O suporte tinha que agregar fotos, vídeos e textos com harmonia. Encerrei meu blog faz um mês e estava planejando ficar sem escrever nada por um tempo, mas aí apareceu essa idéia e senti que era das coisas que eu tinha que fazer. Tinha até comentado com o Ian que sem querer voltamos a ser “blogueiros” por acidente, não era nossa intenção voltar a blogar ou coisa assim.
Ian: Ontem o Renmero comentou: “voltamos a ser blogueiros” ao que comentei “ex-blogueiros em atividade”. Meu blog está há meses sem atualização, e preferi criar em cima de um conceito que eu venho pensando desde a época do Interney Blogs, mas que só agora coloquei em prática: projetos de conteúdo com começo, meio e fim, como são os discos, as séries, os filmes… os nomes dos projetos já escancaram isso: 365 Evenings, 123 Cassettes… gosto dessa sensação de ter projetos, e não uma única coisa, institucional… Creio que o Epic Shit vai por esse caminho, mas sem um prazo de validade.
A gente nunca para pra pensar em tecnologia quando se fala em registro de comportamento e cultura (talvez até esteja falando-se pela primeira vez agora), mas não dá pra dissociar o fim do século 19 e começo do século 20 dos livros e a segunda metade do século 20 dos discos e o século 20 inteiro dos jornais, revistas e do cinema. Eu fico pirando nisso: faz sentido escrever um livro, gravar um disco ou publicar uma revista – e só – hoje em dia?
Renmero: Não sei se é uma questão de fazer sentido. Para mim é mais de execução. Acredito que um disco sensacional consegue ser muito mais do que um simples disco, consegue atravessar barreiras entre mídias. Essa travessia constante faz parte do que somos agora, nossos escritores são consultores de tendências, analistas de conteúdo e arquitetos de informação. Viramos fãs deles por causa disso. Claro que houve o ponto inicial da obra, mas rapidamente entendemos muito mais sobre eles – até porque logo buscamos isso e ficamos desapontados se não encontramos. Aprendemos em minutos muito mais sobre nosso autores favoritos do que nossos pais conseguiriam juntar em uma vida. Muitos artistas foram crucificados pos defendiam que não importa o suporte, o que importa é sua expressão. Hoje nós já sacamos isso e aceitamos de bom grado qualquer coisa que ele produzir. De uma forma bizarra estamos mais humanos.
Jansen: Essa é uma coisa curiosa de responder porque tem umas semanas, eu “falava” disso com o Lou: vamos ver o jornalismo morrer como conhecemos hoje? vamos topar com um futuro – e aí tirando toda a ironia das projeções da ficção científica hoje serem mais “piada” que efetivamente resultado – em que as revistas serão lidas num esquema iPad e não comprando na banca? Meu receio era que, assim como em áreas voltadas pra tecnologia, surgisse uma geração de guris que manjassem muito mais dessa comunicação, senão unicamente digital, principalmente digital e que o consumo se direcionasse muito a isso e quem soubesse só escrever, sem pensar em aplicativos, interatividade e outras viagens estaria fudido e mal pago. Lou retrocou sabiamente dizendo que pessoas que sabem escrever – guardando a modéstia um tiquinho só pra não perder o argumento – sempre serão necessárias. podemos não ser os profissionais que comandarão a (r)evolução desse futuro em que o jornalismo é feito de um jeito diferente que o da “nossa época”, mas certamente estaremos enchendo o saco e derrubando umas árvores pra publicar umas coisas. É como ouvir a gravação do Knitting Factory do Jeff Buckley falando em “internet providers”. 92. Internet providers. 2010. Um disco, um livro, uma revista. Faz sentido? Sim, não, sei lá. Tô com essa coisa matutando tem um tempo, esse lance do “sei lá”, nossa geração é dona de falar issso. “E aí, está preocupado?” “sei lá”. “Como vão as coisas, tudo bem em casa?” “sei lá, tá estranho”. Uma indefinição que permeia muitos dos caminhos que a gente percorre todos os dias. E aí, nesse sentido, acho que faz sentido sim. porque a gente constrói o sentido que quer. E pra o Epic Shit, o sentido é o de registro, de deixar uma “marca”. ainda que seja um site.
Ian: Também me pego pirando nessas, mas acho que pouca gente sacou isso. Quando os blogs surgiram, e até antes disso, se pegarmos os caras do Cardosonline, era a tecnologia te permitindo desenvolver os meios, não só de produção como de veiculação… Os meios clássicos do século passado ainda servem como validação, como a oficialização de muita coisa, mas há quem prescinda disso. Eu sinto falta de uma maior exploração da convergência desses meios, tipo neguinho que é músico desenvolver um trabalho, e ao invés dele lançá-lo como disco, fazer todo um site que possa se resolver melhor que qualquer encarte – num mundo em que encarte é praticamente inexistente. Sempre vi banda no final do século passado e no começo deste reclamando de espaço, mas agora que há espaço vejo pouca gente aproveitando-o adequadamente.
Renmero: Engraçado que meio que o trabalho de nós quatro na essência é ajudar pessoas a aproveitar esses espaços, não? tipo o que vamos fazer com os caras da Hierofante Púrpura, em que gravaremos um show instrumental deles na Praça do Por do Sol ainda esse mês e colocaremos no Epic Shit, que pareceu uma coisa tão óbvia tanto para a banda quanto para nós e que não tinha sido feito.
E como fugir da manjada idéia de coletivo? Ou é um coletivo?
Renmero: Gah, odeio essa palavra. Mas é simples fugir desse estigma: é só não tentar muito, no sentido de trying too hard. Coletivos geralmente são caracterizados por discursos, manifestos e coisas do tipo. Não temos nada disso e nem pretendemos ter. Tanto que tu vês um jogando pro outro a responsabilidade de ter parido o site. Não é nossa intenção sermos reconhecidos como artistas nem levantar bandeira alguma. Estamos apenas fazendo algo que nos pareceu bom de fazer.
Jansen: Exatamente.
Ian: Endosso.
Louback: O insight de “não importa onde esteja o conteúdo, sempre será necessário quem o produza” é o Clovis Rossi. Ouvi uma entrevista dele, sobre os caminhos do jornalismo e perguntaram se ele temia que esse modelo terminasse. “Medo tem que ter as famílias Frias, Mesquita e Marinho. eles são os proprietários, eles precisam ter medo pelo modelo de negócio. Eu só escrevo. Se quiserem um texto meu em um site, eu vou escrever. se quiserem para um jornal, idem.” E também tenho viajado muito nisso, Matias. O mais bonito da sua pergunta não é a resposta, mas a própria pergunta. O mais legal é que se fizer sentido lançar só aquilo, massa. É possível. Se não fizer sentido uma banda apenas lançar um disco e fazer show e utilizar as ferramentas para uma experiência coletiva – admirável mundo novo? -, então massa, porque é possível! A graça que vejo é nisso: é possível. A produção e publicação de conteúdo, seja ele qual for, é possível a qualquer um, de qualquer jeito. E complementando Jansen, tenho conversado com alguns próximos e é um sentimento que tenho visto ser comum. De parecer que a maioria da galera está em um grande “sei lá” com relação à vida, com relação a tudo. Não sei se entra em Semiótica, Psicologia ou sei lá (HA!), mas é interessante ver como tanta gente percebe isso.
Isso eh necessariamente baseado em internet ou tem algum desdobramento offline? Exemplo: o que é mais importante pra vocês, produzir o show da banda ou registrá-lo? Ou é tudo a mesma coisa?
Renmero: Tudo a mesma coisa. Parto do princípio de que algumas coisas devem ser feitas. Esse show é algo que eu faria mesmo que fosse somente pra uma pessoa assistir. Vivemos fazendo coisas assim, que só interessam a nós e nos sastifazem. Compartilhar com outras pessoas sempre é bom, mas não é obrigatório, até porque certas coisas nem tem como. Considero o Epic Shit algo mais offline do que online. Nossas reuniões não raro duram um dia inteiro e fazemos altas merdas durante. Depois concordamos o que cada um irá fazer e publicamos. Digamos que o site é só a ponta do iceberg. O resto são nossas vidas.
Louback: Produzir o show, assisti-lo ou gravar/escrever sobre ele é tudo importante. A experiência tem sido o mais importante. É tão importante passar a tarde falando sobre as coisas que nos emocionam quanto chegar lá e escrever ou registrar. O registro acaba sendo mais de compartilhar mesmo. Se isso for para o offline – revista, rádio, show, balada, banda, música, o que for -, verei como um movimento natural.
Ian: A tagline do projeto, “abrace o caos”, tem bastante a ver com isso. Tudo o que estiver acontecendo é o principal.
E o quanto isso nao tem de “evasao de privacidade”?
Jansen: Não saquei.
Falar demais sobre a propria vida, como se isso interessasse a alguem 😛
Jansen: É como o Renmero falou bem: já convivemos com isso há uma cara e acho que o que mais protege a gente dessa coisa de se expor – sem nem pensar no interesse de alguém por isso – é que sempre miramos pra fora, nos tomamos como exemplos porque somos caras, que têm vidas, que têm minas, que têm trampos e daí… Um exemplo: no dia da reunião que pariu o Epic Shit, comentei com os guris que andava preferindo o bourbon ao scotch. Emendei que essa predileção passava longe de ser um reflexo do consumo constante de um e de outro e daí a predileção, mas que hoje, se páro pra comprar uma garrafa de uísque, levo um JD ou JB e não um Label qualquer. Não é pela coisa, não virou carne de vaca, é algo que ainda choro quando vejo o preço no super, Mas é algo que é uma experiência minha, ligado a certas histórias e apegos e isso com aquilo vira evasão de privacidade e relato de preferências. deve interessar a alguém. hehe
Louback: Do cacete, né? Murro no estômago, que a todo instante somos confrontados… Seja twiter, facebook ou nossos blogs. Tive certo receio disso também, mas a ideia – o esforço, na verdade -, é um registro do que nos permeia. No fim, claro que o assunto somos nós, nosso mundo. Tanto que uma das pirações minhas é: o que é importante escrever? Produzir um show – e registrá-lo – do Hierofante na Praça do Por do Sol, é importante para uma classe média, consumidora de Cultura, blablabla. Existe algo que seja relevante a todos? Um assunto inerente ao Homem?
Renmero: Jamais esquecer a história da arte: “look. look at me.”
Ian: Na reunião que decidimos pelo site, chegamos ao momento de perguntar qual seria o nosso público alvo: alguém mandou um “o Arnaldo Branco” – que acabou ficando no FAQ -, mas também concluímos que o melhor era não decidir por um público, e sim escrever o que desse na telha e esperar pra ver que tipo de gente vai se juntando ao redor. faz parte da experiência, do abraçar o caos…

“Abrace o caos” eh eufemismo pra “let it be”, hein.
Ian: Faz bastante sentido. Pensei em “It’s the End of the World…” do R.E.M., mas Beatles tá mais apropriado.
Louback: Mas ó, vejo o Let it Be mais uma coisa de “deixe estar”, de passar incólume às vicissitudes dessa vida. Acho que é um caminho bacana também, de tentar contornar o furacão e trilhar um caminho mais “pacífico”. Ainda assim não conformado, mas não entrando no caos. O “abrace o caos” imagino o maluco tentando atravessar o furacão, pelo meio… de “encarar o infinito”.
Renmero: Na realidade eu acho que encaro essa expressão de uma forma diferente dos outros caras. No meu raciocínio, abraçar o caos é nada mais do que fazer o que tem que ser feito. Arcar com consequências e meter a cara. Nada aqui é pra fazer sentido mesmo, abraçar a incoerência de tudo é uma forma de se manter são. Abraçar o caos é nunca virar fã de Travis e dizer “why does it always rain on me” e tal.
Grafitti global
Banksy, arte de rua e internet
Você conhece Banksy? Para mim, o grafiteiro londrino é o maior artista vivo. Suas obras começaram a aparecer nos muros da capital inglesa na virada do milênio, sempre contestando o status quo na base do contraste agressivo. De Londres, passou a grafitar muros pelo mundo, até na Faixa de Gaza. Uma busca por seu nome no Google Images dá uma boa ideia de sua tática de choque – e de sua importância.
E o principal: ninguém sabe quem é Banksy. Como é seu nome verdadeiro, seu rosto, onde mora, do que vive. Tudo é envolto em mistério.
Neste ano, ele saltou dos muros e paredes para as imagens em movimento e assina um dos principais filmes de 2010, o documentário Exit Through the Gift Shop (Saída Pela Loja de Souvenirs, em tradução livre, sem previsão de lançamento no Brasil).
No filme, ele acompanha a trajetória do documentarista francês Thierry Guetta, obcecado por filmar tudo o tempo todo a ponto de, ele mesmo, virar o objeto do documentário, que deixou de ser seu para se tornar do próprio Banksy.
O filme foi batizado de “o primeiro filme catástrofe de arte” e há uma série de especulações sobre sua natureza. Seria o filme mesmo um documentário ou é tudo armado? Thierry é quem ele diz que é? E Banksy? Mostra a própria cara mesmo?
Sem entrar no mérito do documentário, ele ressalta um ponto específico: como a arte de rua virou um movimento graças à internet. Grafites e pichações são perecíveis por natureza, mas, graças à rede, foi possível que toda uma geração de artistas se conectasse e se percebesse como parte de uma cena global. Cena que, graças à rede, tem um grande nome mundial – o próprio Banksy. Mesmo que ninguém saiba quem ele é.
Dylan explica
“No futuro, as buscas serão automáticas”
Nesta semana, o Google apresentou mais uma novidade: não é preciso mais terminar de digitar o que se busca para ver os resultados procurados. Eric Schmidt, CEO da empresa, aposta que, em pouco tempo, “as buscas serão automáticas”. O site fez um vídeo, remixando o clássico Subterranean Homesick Blues, para explicar o funcionamento do Google Instant, nome do novo sistema. Busque por “Dylan”, “Google” e “Instant” no YouTube.
O Rio Fanzine desmaterializou-se de vez nessa sexta-feira, deixando a galáxia de Gutemberg para tornar-se mero espectrograma no ciberespaço, como este que vos fala. Página central no caderno de cultura de domingo do jornal O Globo, o Rio Fanzine ocupou, desde sua criação, o pódio privilegiado de reunir todas as manifestações de cultura alternativa que cresciam ao redor do jovem pop brasileiro, que ainda usava bermudas nos anos 80. Pilotada pelos bróderes Tom Leão e Carlos Albuquerque, o Calbuque, a coluna era global e local em uma mesma tacada e a dupla trazia temperos diferentes para o jornalismo cultural da época, buscando novidades nas bandas locais e em tendências globais. Eles falam do ciclo que fecharam ao sair do papel depois de 24 anos no texto de despedida:
Quando o Rio Fanzine nasceu — sob as bênçãos da rainha Ana Maria Bahiana e os posteriores cuidados de dois dos seus súditos — a informação sobre cultura na chamada grande imprensa era reta e vinha do alto para baixo. Era natural que fosse assim. Cultura alternativa, então, nem se falava dela, salvo as pioneiras colunas de Big Boy e Nélson Motta, aqui no GLOBO.
Mas os tempos, eles já estavam mudando. O primeiro Rock in Rio tinha gerado euforia e inquietação. Os ecos punk também podiam ser ouvidos, apesar da distorção. Todo mundo queria fazer alguma coisa — formar uma banda, fazer uma festa, montar um festival, criar uma rádio de rock e até mesmo inserir um fanzine dentro das páginas de cultura de um grande jornal. A terra estava se movendo: era o underground em ebulição. Restava fazer a nossa parte, a nossa obrigação: divulgar isso.
O Rio Fanzine começou a servir, então, como duto de passagem para essa pressão. E que pressão! Tínhamos que falar de novas bandas, novas festas, novos festivais, novas rádios, novos sons e novas tendências, que nenhum assessor ou divulgador faria chegar à redação.
E assim foi. Descobrimos Planet Hemp, Skank, O Rappa, Ed Motta, Los Hermanos e Canastra, entre muitos, mas muuuitos outros. Falamos de discos, livros, filmes e quadrinhos que ninguém estava prestando atenção, numa época em que o “New Musical Express” só era encontrado em algumas poucas bancas da cidade. Detectamos (e condenamos) a presença dos pitboys na noite carioca. Abraçamos a eletrônica nos seus primórdios, mergulhamos na onda grunge, dançamos com os primeiros raps e viajamos com o dub. Falamos até que o futuro da música seria através de uma novidade chamada internet. E acreditávamos, piamente, que nosso dever, se havia algum, era tornar o underground maior.
Dito e feito. Hoje aquele underground do Rio Fanzine está por cima, está em toda a parte.
Particularmente, a coluna tem um significado especial para mim. O Trabalho Sujo, como já disse, não começou online e como o Rio Fanzine, também foi uma coluna de papel num jornal – no caso, o Diário do Povo, de Campinas, onde morei entre 1993 e 2000. Mas em 1995 eu não tinha idéia do que acontecia no jornalismo do Rio de Janeiro – O Globo raramente chegava à redação e quando isso ocorria ia para a mesa do editor-chefe. Criei o Sujo sem referência externa direta, embora tenha conseguido provar sua existência para meus superiores do jornal a partir dos cadernos Zap!, do Estadão, e do Folhateen, ambos voltados para o público adolescente. Mas o meu conceito de coluna não era etário e visava cobrir diferentes focos de uma cultura que eu via aparecendo por todos os lados.
E nessa época nem existia internet direito.
Qual foi a minha surpresa depois de alguns anos publicando o Trabalho Sujo na contracapa do caderno de cultura de segunda-feira em Campinas quando eu descubro que o Rio de Janeiro tem o seu próprio Trabalho Sujo – e que ele é dez anos mais velho que o meu. A empatia foi imediata e a conexão, literal. Na medida em que a internet se popularizava, estreitavam-se os contatos entre pessoas de mesma mentalidade e aos poucos estava trocando emails não apenas com Tom e Calbuque mas também com outros desbravadores do pop nos jornais de suas cidades (Thaís e Weaver no Pub em Fortaleza, o Abonico no Fun em Curitiba, o Ferla em Porto Alegre, Ricardo Alexandre e Tomate no Zap em São Paulo, entre outros), criando uma rede que funcionava como ponto de contato entre a cultura independente e a mainstream (o tal “trabalho sujo” que batizou este site). Logo logo eu não apenas estava publicando nas páginas do RF como passava na banca do Carmo, todo domingo, para garantir meu exemplar do Globo e acompanhar o trabalho dos caras. E, sem perceber, transformei o Trabalho Sujo numa página dupla do caderno de cultura de domingo – igualzinho ao Globo. Com algumas diferenças: eu mesmo diagramava tudo e o Sujo era preto e branco. Mas tínhamos alma de zineiro mesmo trabalhando em redações e eu inclusive fui creditado algumas vezes no RF como editor de um fanzine virtual (que era apenas a versão online da coluna no jornal).
Cabe até uma discussão sobre se o fim do Rio Fanzine tem a ver com o crescimento e popularização da internet, mas ela acaba descambando naquele velho caô sobre o futuro do jornalismo, o que vai acontecer com o jornal no papel, como os jovens se informam, quem é o público de cultura, o que é cultura, como é consumida a cultura hoje – tudo isso me dá uma enorme preguiça só de pensar… Queria só prestar minhas homenagens à dupla, um agradecimento público pelos serviços que os dois se dispuseram a fazer por todo esse tempo e um salve a todos que lamentam o fim da coluna, cariocas ou não: foi bom enquanto durou e que bom que os dois tiveram a consciência de fechar o próprio ciclo.
Não resisti e resgatei umas edições velhas do Trabalho Sujo impresso, tirei umas fotos e redimensionei pra colocar aqui no site. As fotos estão com cores diferentes não por conta da idade do papel, mas porque parte delas eu fiz de dia (as mais brancas) e a outra de noite (as amareladas). Dá uma sacada como era…

Nesta edição, dois segundos discos: o do Planet Hemp e o do Supergrass.

Nesta eu falei do Panthalassa, disco de remix que o Bill Laswell fez com a obra de Miles Davis, o segundo disco do Garbage, entrevista com Virgulóides, disco de caridade organizado pelo Neil Young e uma explicação sobre um novo gênero chamado… big beat.

Entrevistei os três integrantes do Fellini (Jair, Thomas e Cadão) para contar a história da banda, numa época em que eles nem pensavam em voltar de verdade (depois disso, eles já voltaram e terminaram a bandas umas três vezes). Também tem a história do Black Sabbath, uma entrevista que eu fiz com o Afrika Bambaataa e o comentário sobre a demo de uma banda nova que tinha surgido no Rio, chamada Autoramas.

Disco de remix do Blur, disco póstumo do 2Pac, Curve e entrevista com Paula Toller.

Discos novos da Björk, dos Stones, do Faith No More e do Brian Eno.

Discos novos do Wilco (Summerteeth), Mestre Ambrósio, coletâneas de música eletrônica (da Ninja Tune, da Wall of Sound – só… big beat – e de disco music francesa), resenha da demo da banda campineira Astromato e entrevista com o Rumbora.

Resenha do Fantasma, do Cornelius, do Long Beach Dub All-Stars (o resto do Sublime), do Ringo e do show dos Smashing Pumpkins em São Paulo, com a entrevista que fiz com a D’Arcy.

Vanishing Point do Primal Scream, disco-tributo ao Keroauc, Coolio e a separação dos irmãos da Cavalera.

Reedição do Loaded do Velvet Underground, Being There do Wilco e o show em tributo á causa tibetana.

Especial Bob Dylan, sobre a fase elétrica do sujeito no meio dos anos 60, com direito à entrevista com o Dylan na época, que consegui através da gravadora e um texto de Marcelo Nova escrito especialmente para o Sujo: Quem é Bob Dylan?

30 anos de Sgt. Pepper’s e o boato da morte de Paul McCartney.

Terror Twilight do Pavement, Wiseguys (big beat!), o disco de dub do Cidade Negra (sério, rolou isso), a demo do 4-Track Valsa (da Cecilia Giannetti) e entrevista com o Rodrigo do Grenade.

Pulp, Nação Zumbi, Ian Brown e Seahorses, uma coletânea de clipes ingleses e entrevista com Roger Eno, irmão do Brian.

30 anos de Álbum Branco, show do Man or Astroman? no Brasil, primeiro disco do Asian Dub Foundation, entrevista com a Isabel do Drugstore e demo do Crush Hi-Fi, de Piracicaba.

Os melhores discos de 1997: 1 – OK Computer, 2 – Vanishing Point, 3 – When I Was Born for the 7th Time, 4 – Homogenic, 5 – O Dia em que Faremos Contato, 6 – Dig Your Own Hole, 7 – Sobrevivendo no Inferno, 8 – I Can Hear the Heart Beating as One, 9 – Dig Me Out, 10 – Brighten the Corners… e por aí seguia.

20 anos de Paul’s Boutique, do Beastie Boys, disco do Moby, demo do Gasolines e entrevista com Humberto Gessinger.

Rancid, Superchunk e entrevista com o Mac McCaughan (do Superchunk), Deftones e Farofa Carioca (a banda do Seu Jorge).

Simpsons lançando disco e a lista dos 50 melhores do pop segundo Matt Groening, segundo disco do Dr. Dre, entrevista com Júpiter Maçã que então lançava seu primeiro disco.

A coletânea Nuggets virou uma caixa da Rhino, a cena hip hop brasileira depois de Sobrevivendo no Inferno, disco dos Walverdes e entrevista com Henry Rollins.

Sleater-Kinney, Fun Lovin’ Criminals, Little Quail, demo do MQN e entrevista com o Mark Jones, da gravadora Wall of Sound (o lar do… big beat).

25 anos de Berlin do Lou Reed, disco novo do Pin Ups, disco do Money Mark e entrevista com Chuck D, que estava lançando um livro na época.

Especial soul: a história da Motown e da Stax (lembre-se que não existia Wikipedia na época) e caixas de CDs do Al Green e da Aretha Franklin.

Retrospectiva 1998: comemorando um ano que trouxe artistas novos para a década…

…e os melhores discos de 1998: 1 – Hello Nasty, 2 – Mezzanine, 3 – Fantasma, 4 – Jurassic 5 EP, 5 – Carnaval na Obra, 6 – Deserter’s Songs, 7 – This is Hardcore, 8 – Mutations, 9 – The Miseducation of Lauryn Hill, 10 – Samba pra Burro. Em minha defesa: só fui ouvir o In the Aeroplane Over the Sea em 1999. Não tente entender visualmente, era um método muito complexo de classificação dos discos, um dia eu escaneio e mostro direito.

Beastie Boys, Scott Weiland e Boi Mamão.

A história do Kraftwerk (que vinha fazer seu primeiro show no Brasil), o acústico dos Titãs, Propellerheads (big beat!) e entrevista com Ian Brown.

Segundo disco do Black Grape, coletânea de 10 anos da Matador e entrevista com o dono da gravadora, Gerard Cosloy.

A carreira de Yoko Ono, disco novo do Ween, coletânea de Bauhaus, John Mayall e Steve Ray Vaughan e a trilha sonora de O Santo (cheia de… big beat).

Stereolab, Racionais, Metallica e 3rd Eye Blind (?!).

Disco de remixes do Primal Scream, caixa do Jam, entrevista com DJ Hum, Sugar Ray e disco solo do James Iha.

Cornershop, show à causa tibetana vira disco, Bob Dylan, Jane’s Addiction, Verve e entrevista com Lenine.

Disco de remixes do Cornelius, Sebadoh, Los Djangos, Silver Jews, entrevista com o Lariú e demo do Los Hermanos.

Disco de remixes da Björk e o novo do Guided by Voices.

Disco novo do Sonic Youth, reedição dos discos do Pussy Galore e entrevista com Edgard Scandurra.

Cobertura dos shows do Superchunk no Brasil, Pólux (a banda que reunia a Bianca ex-Leela que hoje é do Brollies & Apples e a Maryeva Madame Mim), Prince e Maxwell, coletânea da Atlantic e entrevista com os Ostras.

…e na cobertura dos shows do Superchunk eu ainda consegui que a banda segurasse o nome do Trabalho Sujo para servir de logo na página.
Editei o Sujo impresso entre 1995 e 2000. Durante esse período, ele teve vários formatos. Começou como uma coluna na contracapa do caderno de cultura de segunda e em 1996 virou uma coluna bissemanal ocupando 1/6 da página 2 do mesmo caderno. No mesmo ano, voltou a ter uma página inteira, nas edições de sábado e entre 1997 e 1999 ocupou a central do caderno de domingo. Neste último ano, voltou a ter apenas uma página, nas edições de sábado. Na época em que eu fazia o Sujo impresso, eu era editor de arte do Diário do Povo e, por este motivo, participei da criação do site do jornal em 1996 – e garanti que o Sujo tivesse uma versão online desde seu segundo ano. Foi o suficiente para que ele começasse a ser lido fora de Campinas (onde já tinha um pequeno séquito de leitores, que compravam o Diário apenas para ler a coluna) e ganhasse algum princípio de moral online, que carrego até hoje.
Na época, eu dividia o gostinho de fazer a coluna com dois outros compadres – o Serjão, que era editor de fotografia do jornal e que hoje está no Agora SP, e o Roni, um dos melhores ilustradores que conheço. Os dois são amigos com quem lamento não manter contato firme, mas são daquelas pessoas que, se encontro amanhã, parece que não vi desde ontem. Juntos, éramos uma minirredação dentro da redação – tínhamos reunião de pauta, discussões sobre o layout da página e trocávamos comentários sobre os discos que eu trazia para resenhar. No fim, eu fazia tudo sozinho na página (como faço até hoje), da decisão sobre o que entra ao texto, passando pela diagramação. Sérgio e Roni entravam com fotos e ilustras, mas, principalmente, com o feedback pra eu saber se não estava viajando demais ou de menos. Nós também começamos a discotecar juntos, mais um quarto compadre, o William, e, em 97, inauguramos o Quarteto Funkástico apenas para tocar black music e groovezeiras ilimitadas, em CD ou em vinil. Não era só eu quem escrevia no Sujo (eu sempre convidava conhecidos, amigos e alguns figurões), mas Roni e Serjão, por menos que tenham escrito, fizeram muito mais parte dessa história do que qualquer um que tenha escrito algo com mais de cinco palavras.
No ano 2000 eu fui chamado pelo editor-chefe do jornal concorrente, o Correio Popular, maior jornal de Campinas, para editar seu caderno de cultura, o Caderno C, cargo que ocupei durante um ano, antes de me mudar para São Paulo. Neste ano, para evitar confusões entre os dois jornais sobre quem era o dono da coluna (e não correr o risco de assistir a alguém depredar o nome que criei no jornal que comecei a trabalhar), decidi tirar o Sujo do papel e deixá-lo apenas online. Criei minha página no Geocities para despejar os textos que publicava em outra coluna dominical, no novo jornal, chamada Termômetro. Mas, online, seguia o Trabalho Sujo -até que, do Geocities fui para o Gardenal, e isso é ooooutra história.
Um dia eu organizo tudo bonitinho, isso é só pra fazer uma graça – e matar a minha saudade.
Achei outros textos que fiz para o Rio Fanzine, mas no HD. Todos saíram na versão impressa (já no formato mais recente, dentro do guia de programação do jornal, o Rio Show), mas eu não as achei por aqui, por isso seguem apenas os textos. O primeiro é uma entrevista com fiz em 2002 com o Howard Sounes, biógrafo de Bob Dylan. Tentei achar o link no site do jornal mas não achei, por isso não lembro o título com que essa matéria saiu nem a data precisa de quando foi publicada.
Dylan sem máscara
“Se ele não quisesse ser famoso, viveria em um chalé em Woodstock escrevendo músicas pros outros cantarem e ninguém se interessaria por ele”. Sucinto, o pesquisador e escritor inglês Howard Sounes explica a vaidade do biografado de seu último livro. Em Dylan – A Biografia (Conrad Livros), Sounes tira a máscara do velho Bob em busca de uma só pessoa – o autor e compositor épico, que marcou toda uma geração com suas canções, e o sujeito que maquinava friamente formas de se dar bem e fazer sucesso.
Este é o maior trunfo do livro – mostrar que ambos personagens são a mesma pessoa. Disposto a desmitificar o personagem que o cantor criou para se manter no topo, Sounes mostra um Dylan mais humano e menos utópico. “Hank Williams, Woody Guthrie, Jack Kerouac, James Dean”, lista o escritor, “estes eram os heróis e modelos seguidos por Dylan desde começo, em atitude e estilo. Mais do que todos, ele se moldou em Woody Guthrie, claro. Há muito sobre isto no livro, com comentários dos filhos de Woody, Nora e Arlo”.
“Não”, responde secamente ao perguntado se sente alguma culpa por desmascarar o mito Dylan para uma geração de leitores. Os fanáticos pelo bardo dividiram-se: “Uns gostaram, outros não. Mesmo assim, fico pasmo com a forma descuidada que estas pessoas leram e como eles entendem as coisas errado”.
Dylan, obcecado pela própria imagem, criou uma série de mitos para tornar-se mais misterioso e isolado. “Havia muito material para se trabalhar”, conta Sounes, “como o que realmente aconteceu no meio dos anos 60, quando sofreu seu famoso acidente de motocicleta e a história extraordinariamente opaca e complexa de sua vida pessoal e familiar”.
Sounes traça um paralelo entre os dois protagonistas de seus últimos livros, Dylan e o escritor Charles Bukowski. “Bukowski e Dylan são poetas marginais, na mesma forma que os beats e Rimbaud também eram marginais. Há um elemento poético e intelectual em comum. Interessante é o fato que ambos tem amigos em comum – os escritores beat, o ator Harry Dean Stanton e outras pessoas do cinema, por exemplo. Um dos filhos de Dylan conheceu Bukowski. Muitos dos músicos que trabalharam com Dylan gostam de Bukowski. Alguns, como T-Bone Burnett, até leram o meu livro”.
“Contudo, as diferenças entre Bukowski e Dylan são maiores que os fatores que têm em comum”, continua. “Pelo que eu me lembro, Bukowski não pensava muito no trabalho de Dylan e nunca ouvi falar o que Dylan pensa dos textos de Bukowski – apesar de ter certeza que ele o leu, como seus filhos. Bukowski era, no fim, um poeta relativamente marginal que passou a maior parte da vida na obscuridade e Bob Dylan é uma celebridade internacional de primeira grandeza desde quando era jovem. Eles vêm de gerações e classes diferentes. E, mais importante, um é um artista, um cantor enquanto o outro escrevia em particular para um público que nunca conheceu (sei que Bukowski fez leituras em público no fim da vida, mas ele odiava fazê-lo e não era seu trabalho, como era o de Dylan). Pessoalmente, parte das razões que eu escolhi escrever sobre Bukowski e Dylan é que eles são muito diferentes”.
Voltando ao assunto principal, o autor fala dos momentos-chave da carreira de Dylan: “Eu acho que são seus primeiros trabalhos acústicos, por volta de 62 e 63, seguido por seus discos elétricos: Highway 61, Blonde on Blonde. E depois Blood on the Tracks e, no final, Time Out of Mind. Aquele período de Woodstock também foi rico, as Basement Tapes, etc… Esta foi a época em que ele escreveu suas melhores canções. Provavelmente 65 e 66 foi a época mais forte. No livro, tento focalizar nestes períodos criativos. Assim, épocas menos interessantes de sua carreira, merecem menos atenção. Por isso, a narrativa vai devagar ou acelera à medida que Dylan faz bons discos”.
E qual sua canção favorita de Bob Dylan? “”Buckets of Rain”, do disco Blood on the Tracks”.









