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Achei outros textos que fiz para o Rio Fanzine, mas no HD. Todos saíram na versão impressa (já no formato mais recente, dentro do guia de programação do jornal, o Rio Show), mas eu não as achei por aqui, por isso seguem apenas os textos. O primeiro é uma entrevista com fiz em 2002 com o Howard Sounes, biógrafo de Bob Dylan. Tentei achar o link no site do jornal mas não achei, por isso não lembro o título com que essa matéria saiu nem a data precisa de quando foi publicada.

Dylan sem máscara

“Se ele não quisesse ser famoso, viveria em um chalé em Woodstock escrevendo músicas pros outros cantarem e ninguém se interessaria por ele”. Sucinto, o pesquisador e escritor inglês Howard Sounes explica a vaidade do biografado de seu último livro. Em Dylan – A Biografia (Conrad Livros), Sounes tira a máscara do velho Bob em busca de uma só pessoa – o autor e compositor épico, que marcou toda uma geração com suas canções, e o sujeito que maquinava friamente formas de se dar bem e fazer sucesso.

Este é o maior trunfo do livro – mostrar que ambos personagens são a mesma pessoa. Disposto a desmitificar o personagem que o cantor criou para se manter no topo, Sounes mostra um Dylan mais humano e menos utópico. “Hank Williams, Woody Guthrie, Jack Kerouac, James Dean”, lista o escritor, “estes eram os heróis e modelos seguidos por Dylan desde começo, em atitude e estilo. Mais do que todos, ele se moldou em Woody Guthrie, claro. Há muito sobre isto no livro, com comentários dos filhos de Woody, Nora e Arlo”.

“Não”, responde secamente ao perguntado se sente alguma culpa por desmascarar o mito Dylan para uma geração de leitores. Os fanáticos pelo bardo dividiram-se: “Uns gostaram, outros não. Mesmo assim, fico pasmo com a forma descuidada que estas pessoas leram e como eles entendem as coisas errado”.

Dylan, obcecado pela própria imagem, criou uma série de mitos para tornar-se mais misterioso e isolado. “Havia muito material para se trabalhar”, conta Sounes, “como o que realmente aconteceu no meio dos anos 60, quando sofreu seu famoso acidente de motocicleta e a história extraordinariamente opaca e complexa de sua vida pessoal e familiar”.

Sounes traça um paralelo entre os dois protagonistas de seus últimos livros, Dylan e o escritor Charles Bukowski. “Bukowski e Dylan são poetas marginais, na mesma forma que os beats e Rimbaud também eram marginais. Há um elemento poético e intelectual em comum. Interessante é o fato que ambos tem amigos em comum – os escritores beat, o ator Harry Dean Stanton e outras pessoas do cinema, por exemplo. Um dos filhos de Dylan conheceu Bukowski. Muitos dos músicos que trabalharam com Dylan gostam de Bukowski. Alguns, como T-Bone Burnett, até leram o meu livro”.

“Contudo, as diferenças entre Bukowski e Dylan são maiores que os fatores que têm em comum”, continua. “Pelo que eu me lembro, Bukowski não pensava muito no trabalho de Dylan e nunca ouvi falar o que Dylan pensa dos textos de Bukowski – apesar de ter certeza que ele o leu, como seus filhos. Bukowski era, no fim, um poeta relativamente marginal que passou a maior parte da vida na obscuridade e Bob Dylan é uma celebridade internacional de primeira grandeza desde quando era jovem. Eles vêm de gerações e classes diferentes. E, mais importante, um é um artista, um cantor enquanto o outro escrevia em particular para um público que nunca conheceu (sei que Bukowski fez leituras em público no fim da vida, mas ele odiava fazê-lo e não era seu trabalho, como era o de Dylan). Pessoalmente, parte das razões que eu escolhi escrever sobre Bukowski e Dylan é que eles são muito diferentes”.

Voltando ao assunto principal, o autor fala dos momentos-chave da carreira de Dylan: “Eu acho que são seus primeiros trabalhos acústicos, por volta de 62 e 63, seguido por seus discos elétricos: Highway 61, Blonde on Blonde. E depois Blood on the Tracks e, no final, Time Out of Mind. Aquele período de Woodstock também foi rico, as Basement Tapes, etc… Esta foi a época em que ele escreveu suas melhores canções. Provavelmente 65 e 66 foi a época mais forte. No livro, tento focalizar nestes períodos criativos. Assim, épocas menos interessantes de sua carreira, merecem menos atenção. Por isso, a narrativa vai devagar ou acelera à medida que Dylan faz bons discos”.

E qual sua canção favorita de Bob Dylan? “”Buckets of Rain”, do disco Blood on the Tracks”.

Essa do Yo La Tengo saiu no ano 2000.

Um triângulo equilátero de não-rock

Simplicidade instrumental, sensibilidade artística e bom senso pop são as armas do Yo La Tengo

Eles não têm refrões memoráveis. Nem pirotecnia no show. Não esbanjam estilo, não vendem milhões de disco. Não há nada no grupo que possa ser chamado de músico virtuoso, símbolo sexual, salvador do rock ou mau exemplo para as futuras gerações. Então o que raios há de tão bom neste tal Yo La Tengo?

Deixe as nuvens de desenho animado feitas pela voz sussurrada da baterista Georgia Hubley te responderem. Ou o acúmulo de microfonia nova-iorquina forma nas paredes de ruído da guitarra de Ira Kaplan te explicar. Ou aquele teclado fora de moda, tocado em apenas duas teclas; sublinhado pela velha e insistente bateria, acompanhado por um vocal que tomba entre o pesar e o sono. O casal de Hoboken (terra de gente que sabe o que é bom, como Sinatra e os Feelies) e o rotundo guitarrista James McNew formam a mais improvável banda de rock de todos os tempos. Um trio cuja simplicidade instrumental casa com a sensibilidade artística e o bom senso pop, mesmo que nada os classifique como tal: não há riffs, refrões, solos, rima e métricas são menosprezadas – no máximo conseguimos tirar o groove.

O pacote lançado pela Trama cobre quase toda a farta discografia do grupo, cujas origens remontam ao meio dos anos 80, quando eram simples mas esforçados emuladores do Velvet Underground (ouça a estréia Ride the Fader, o mais velho da leva). A dupla de álbuns que o seguiu (New Wave Hot Dogs e President Yo La Tengo) ensinou ao grupo o macete do crescendo motorizado bolado pelo krautrock, abusado à vontade a partir deles. O brasilização do Yo La Tengo pula dois discos (o só de covers Fakebook e o quase escocês May I Sing With Me?) e reencontra-se em Painful, que oficializa a entrada de McNew, tornando o triângulo instrumental do grupo de isósceles a equilátero.

E é com tal pé direito que entram em sua melhor e mais celebrada fase, começada com o magistral Electr-O-Pura e seguido pelos igualmente irresistíveis I Can Hear the Heart Beating as One e And Then Nothing Turned Itself Inside-Out (lançado este ano). Entre os dois discos ainda houve espaço para o álbum duplo de sobras Genius + Love = Yo La Tengo, com versões para Wire, John Cale, Jackson Browne, Beat Happening e uma excelente versão surf de Blitzkrieg Bop, dos Ramones. A coletânea é uma boa porta de entrada para o lado B do grupo, onde encontramos EPs, mini-álbuns e maxi-singles cheios de raridades, versões bizarras, instrumentais e remixes. Mas pedir para esses discos sair no Brasil é demais – ou não? Se não for, seguem as dicas: Strange But True, com o Half Japanese Jad Fair, o EP Little Honda, os remixes de Autumm Sweater (MBVmaníacos já sabem do remix de Kevin Shields, né?) e o recente Danelectro. Boas línguas dizem que o grupo vem aí no começo de 2001 pro Brasil. Mas é preciso ver e ouvir para crer – não custa, no entanto, torcer.

Essa entrevista com o Paul Banks eu fiz em 2003:

Etéreo e abrupto

Como grande parte da dita “volta do rock” atual é baseada na regurgitação retrô de elementos do passado recente do gênero (especificamente o período 1979-1982), parece ser difícil resistir à tentação de rotular o Interpol como “o novo Joy Division”. Preguiça, má vontade ou falta de informação: basta ouvir o recente Turn On the Bright Lights e perceber que, fora o timbre grave do vocalista Paul Banks e o ímpeto trôpego da banda quando engata a terceira, há muito mais do que o fantasma de Ian Curtis assombrando as ondas musicais do grupo nova-iorquino.

“Crescemos ouvindo este tipo de música, no meio dos anos 80”, explica Paul, pelo telefone, em meio à parte final da turnê americana de lançamento do grupo, que começou no fim do ano passado. “Por isso é natural que ela reapareça agora. O público que consome este tipo de música hoje é o mesmo que consumia na época – a diferença é que hoje há ouvintes mais novos, que estão sendo apresentados agora a este tipo de som”. Mas além do Joy Division, é possível ouvir todo um séquito de bandas pós-punk que pavimentou o caminho para o grupo. Pelas faixas do disco, que se equilibra entre o etéreo e o abrupto, passeiam timbres e andamentos de nomes como Wire, Cure, U2 no começo, Echo & the Bunnymen, Buzzcocks. O próprio estigma de vestuário – o Interpol se veste com ternos escuros bem cortados – parece vir destes grupos, embora Paul desconverse: “Apenas gostamos de nos vestir bem”.

Além de suas raízes musicais inglesas, a banda ainda bebe na fonte do noise escocês: há My Bloody Valentine e Jesus & Mary Chain nas entrelinhas do jogo de guitarras do grupo, um senso pop digno do Teenage Fanclub em dias de ressaca e não é por acaso que um de seus três primeiros EPs foi lançado pela Chemikal Underground, a mesma gravadora do Mogwai. E embora a influência britânica seja decisiva, o DNA do grupo é o mesmo do típico popstar indie da Costa Leste americana – e o fato de serem artistas da Matador não deixa dúvidas quanto a isso.

“Não posso reclamar”, Banks fala do recente assédio que a banda vem sofrido desde o lançamento americano do primeiro álbum, em setembro do ano passado, “há um ano eu estava num emprego que eu não gostava, num café, e escrevia de graça para revistas de conhecidos. Parece engraçado que todo mundo resolva te reconhecer ao mesmo tempo, porque as pessoas tendem a falar sobre os mesmos assuntos. Mas isso é bom – do mesmo jeito que os Strokes abriram caminho para que as pessoas procurassem novas bandas, como nós, acredito que abriremos caminho para outras bandas”.

Mesmo sem uma posição definida sobre a troca de arquivos de músicas pela internet, Paul concorda que o sucesso do Interpol aconteceu devido aos programas P2P e músicas em MP3. “É claro que é um péssimo negócio para quem investe muito dinheiro em publicidade, campanhas de mídia e outras estratégias de mercado. Como trabalhamos em outro nível, não nos afeta tanto – muitas pessoas compram nossos discos após nos ouvir em MP3. Se não fosse o MP3, talvez ele não nos ouviria. Ou copiaria o disco de um amigo, como fazíamos há vinte anos, com fitas cassete. Como as tendências musicais, as de mercado tendem a ser muito cíclicas. Mas os executivos de gravadora acham que conseguem parar isto com dinheiro. E não dá”.

Preparando-se para enfrentar nova bateria de shows pela Europa, Paul dedica as horas fora do palco à audição de discos de outras bandas de Nova York. “Adoro os Warlocks, tocamos em uma turnê com eles, o disco novo do Walkmen é excelente e o do Coup, de hip hop, é outro que não paro de ouvir. Mas quase sempre retorno para o melhor disco de todos os tempos, Teenager of the Year, do Frank Black. Aquilo sim, é perfeito”.

Na minha coluna no Caderno 2 de domingo falei com o Chromeo, que esteve aqui durante a semana.

A solução do Chromeo
Marcas no lugar de gravadoras

“Eu acho que isso vai acontecer esta semana…”, sussurra, cabisbaixo, David Macklovitch, depois que eu perguntei sobre o vazamento online de seu novo disco. O vocalista canadense é a metade nerd da dupla Chromeo, que veio ao Brasil esta semana para um evento promocional, e o grupo é um dos inúmeros artistas que, graças à internet, conseguiu seu lugar ao sol. Às vésperas de lançar seu segundo álbum, batizado de Business Casual, a dupla, no entanto, teme o vazamento do disco na internet antes de seu lançamento. Contradição?

“Nada disso, nós somos totalmente pró-internet e a favor da música livre”, explica David, que, além de se apresentar como Dave 1 na dupla, também dá aula de literatura francesa na Universidade Columbia, nos EUA. “É só uma questão de criar um ‘momentum’, de reunir todas as expectativas em relação ao disco na mesma hora. Para ser uma espécie de um evento. Depois que o disco sair, tudo bem, pode comprar no iTunes, o CD ou mesmo baixar de graça. Eu não ligo. Mesmo. Pois obviamente não vamos ganhar dinheiro vendendo discos.”

A dupla, formada por Dave e Patrick Gemayel (que assina como P-Thugg), existe desde 2004, mas só começou a fazer sucesso em 2006, com o disco Fancy Footwork. Era o auge do MySpace e início do crescimento do Hype Machine (“a nossa Billboard”, explica Dave, comparando o agregador de blogs de MP3 à revista oficial da indústria fonográfica). Agora, estabelecidos, buscam alternativas para continuar sem gravadora.

Dave acredita que, para bandas de pequeno porte, como é o caso do Chromeo, a saída é fazer parceiras com marcas. Ele cita o caso da música que lançaram no final de 2009, Night by Night. Emvez de simplesmente gravar e lançar online, a dupla preferiu transformar a nova música, como eles mesmos dizem, num “momentum”. Para isso, orçaram um clipe caro e buscaram um parceiro para bancar tudo, no caso, uma marca de refrigerantes.

“Fizemos um clipe caro, de orçamento alto, e demos de graça para os fãs. Ao mesmo tempo, tudo foi feito do jeito que queríamos. Você não vê a gente dizendo que amarca é legal ou usando o produto. E, no fim, todos saem ganhando: a gente, que tem controle criativo sobre o que fazemos; amarca, que oferece algo legal para seu público; e, claro, os fãs”, continua Dave, “isso seria impossível numa grande gravadora”. E, mesmo assim, eles têm de ouvir que são uma banda “vendida”.

“A outra opção é assinar o novo contrato que as gravadores estão oferecendo, em que eles controlam sua turnê, seu merchandising, os direitos da sua música… Quem émais vendido? Quem pode fazer o que quiser com o dinheiro de uma marca ou quem vende tudo que faz para uma gravadora ganhar todo o dinheiro?”

E o assunto da minha coluna no 2 desta semana foram os hipsters.

A vitória dos nerds
Quem são estes tais hipsters

Há duas semanas, Heloisa Lupinacci, que edita o caderno Link comigo e também assina a Crítica de Segunda do blog de Moda do Estado, me perguntou: “Matias, o que diferencia um indie de um hipster?” Ela havia escolhido esta tribo urbana como tema de sua coluna semanal e, com o cuidado que lhe é peculiar, tentava descrevê-la com referências mais conhecidas em vez de tentar partir para o rótulo puro e simples.

“Hipsters”, para quem não está habituado ao termo, define um novo tipo de personalidade urbana, atenta às novidades que vão da moda à música e novidades digitais.

O termo tem origens no meio do século passado e não constituía uma tribo – era um adjetivo para designar que determinada pessoa estava atenta a novas tendências de comportamento e cultura. Surgiu, nos EUA, mais ou menos à mesma época em que o termo “cool” deixou de significar apenas “gelado” para virar sinônimo de “legal”.

O hipster dos anos 10 não é só alguém atento às tendências em geral – mas a todas as tendências. Discos de vinil, tumblrs, câmeras fotográficas Lomo, máquinas de escrever, aplicativos para o iPhone e roupas de brechó. E, como a Helô definiu logo depois da nossa conversa, “hispter que é hipster não se leva muito a sério”.

Mas olhe para eles – procure pelo termo no Google Images, caso não esteja habituado. Eles evocam os beats, os hippies, a discoteca, o indie rock e a cultura techno – mas por baixo das franjas, dos óculos coloridos, dos cabelos compridos, bandanas e maletas, há outra tribo urbana, tão conhecida quanto as anteriores, mas raramente citada quando se fala em hipsters: os nerds.

No filme de 1984 que os consagrou como tribo (A Vingança dos Nerds, de Jeff Kanew), alguns alunos rejeitados por todos na universidade devido à sua inaptidão social começam a andar juntos e formam um grupo. “Nerd”, originalmente um xingamento, torna-se rótulo e, finalmente, motivo de orgulho, quando os integrantes da fraternidade Lambda-Lambda-Lambda conseguem dar o troco nos playboys arrumadinhos que os infernizam. No final do filme, vencem felizes, assumem suas personalidades sem medo da opinião dos outros e cantam We Are the Champions, do Queen.

Veja a foto acima, quando, no final do filme, os nerds podem ser quem realmente querem. Agora compare às fotos de bandas como Animal Collective e MGMT, ícones hipsters, e chegue à mesma conclusão que tive: os hipsters consagram o momento atual, em que ser nerd é ser cool.

O hit do verão 2011
http://www.myspace.com/ceelogreen. Cee-Lo Green conseguiu de novo. O rapper, que, com o produtor Dangermouse forma a dupla Gnarls Barkley (autora de um dos hits do século, Crazy), acaba de lançar o provável hit do fim do ano. Fuck You é perfeita – ouça-a.

E na coluna do 2 do domingo passado, eu contei a história do Daft Punk para falar da importância deles pra trilha do Tron.

A volta dos robôs
Daft Punk e a trilha de Tron

Um dos filmes mais esperados do ano vem sendo aguardado também por sua trilha sonora. Tron: O Legado é a continuação do filme que, em 1982, apresentou o universo digital para toda uma geração que se encantava, pela primeira vez na história, com computadores pessoais e videogames, itens que não existiam até então. Tron não apenas cativou esta primeira geração digital como facilitou a vida de quem não conseguia entender como uma rede de computadores interligados entre si funcionava e para que ela servia.

Mas, por mais que o novo filme esteja sendo aguardado, um dos grandes nomes da produção nem sequer aparece no filme. A dupla francesa Daft Punk é um dos principais nomes da música do século 21 e seu visual robótico e retrô se encaixava perfeitamente no imaginário de Tron. Tanto que o anúncio de que os dois seriam os responsáveis pela trilha de O Legado, feito em março do ano passado, foi recebido com festa até por quem não estava esperando nada do novo filme.

A trilha de Tron tem tudo a ver com a trajetória do Daft Punk. A dupla surgiu no fim dos anos 90 junto de uma nova onda de artistas franceses, mas logo ganhou notoriedade graças ao fato de ir além da música. Primeiro com clipes e depois com filmes inteiros – seu segundo disco, Discovery, foi feito para funcionar como trilha sonora de um anime japonês feito especialmente para a dupla (e por um mestre desta arte, Leiji Matsumoto). Depois, eles mesmos se dispuseram a dirigir um filme: Eletroma, um road movie etéreo sobre uma cidade de robôs.

Com a trilha de Tron eles voltam ao cinema – e a pressa por novidades, típica da internet, fez que algumas versões da trilha vazassem antes de seu lançamento. Todas, sem exceção, falsas e desmentidas pela própria dupla, que, apesar de prezar pelo anonimato (seus rostos estão sempre ocultos por máscaras de robô), é bem enfática em relação ao que lançam. Contudo, as faixas falsas continuam saindo – e encontraram até fãs. Mas os dois garantem que a trilha sonora só será ouvida quando o filme for lançado, no fim do ano. Difícil é saber como eles vão conter o vazamento destas, tão típico desta era digital.

Do pop ao prog
Sigur Rós e Justin Bieber: tem a ver?

O DJ norte-americano Nick Pittsinger, que assina como Shamantis, fez uma experiência com a música U Smile do ídolo teen Justin Bieber e a deixou oito vezes mais lenta. Qual foi a sua surpresa ao descobrir que agora, com 35 minutos de duração, a faixa ficou parecida com as músicas intermináveis do grupo prog indie islandês Sigur Rós. Até os fãs desta banda concordam. Para ouvir, visite o site soundcloud.com/shamantis.

Minha coluna no 2 de ontem foi sobre o tal DJ Cremoso

A maionese do brega
Quem será o misterioso DJ Cremoso?

Você conhece a música. Mas há algo diferente nela, desde o andamento até os timbres usados na parte instrumental. O vocal é o mesmo da música original, mas, independentemente de ser rock, dance ou simplesmente pop, ela ganha uma batida dançante que fica entre uma espécie de levada caribenha e um suingue eletrônico tosco, de baixa tecnologia. Assim são os remixes do misterioso DJ Cremoso, que, desde o início do ano, vem adaptando hits internacionais para o balanço chinfrim do tecnobrega.

Tecno… o quê? O tecnobrega é um gênero musical que surgiu a partir do brega do Pará – que é bem diferente da música cafona de nomes como Odair José ou Waldick Soriano. No Norte do Brasil, essa música brega não teve vergonha de assumir seu nome e virou um estilo musical próprio, levando canções românticas para multidões paraenses.

Do brega veio o tecnobrega, versão eletrônica simplificada do gênero original, que levou aquela lógica para uma nova geração. Nele, a banda era substituída por um DJ e os shows ganhavam ares de rave, com efeitos especiais grandiosos e catarse coletiva incessante. O gênero ganhou notoriedade antes do tempo não por suas qualidades musicais (ainda incipientes), mas por se basear em um modelo de negócios “revolucionário”. Seus artistas não vendiam discos, mas os davam de graça para os camelôs piratearem por conta própria e vender sem repassar o lucro para os autores, que ganhavam dinheiro fazendo shows. A “revolução” vem entre aspas porque o modelo não é autossutentável, como prega o maior entusiasta do gênero tecnobrega no mundo, Chris Anderson, editor da revista sobre cultura digital norte-americana Wired. Mas isso é outra história.

Eis que surgiu Cremoso, que preferiu manter-se no anonimato e usou a internet para divulgar seus remixes. Usando a base eletrônica e todo o auê em torno do tecnobrega para remixar nomes como Lady Gaga, R.E.M., Nirvana, Amy Winehouse, Michael Jackson e Britney Spears (sirva-se à vontade da “maionese do brega”, como ele se autointitula no site soundcloud.com/djcremoso). E o mistério sobre sua identidade segue intacto. Mas, a essa altura do campeonato, isso importa?

Não conhecia absolutamente nada sobre esse quadrinho. Peguei na livraria de bobeira e me estranhou não ter a marca da Companhia das Letras ou da Conrad (as editoras que mais investem em HQ pra livrarias no Brasil). Logicomix, na verdade, foi publicado pela Martins Fontes e conta, em primeira pessoa, a saga de Bertrand Russell em busca da Verdade com “v” maiúsculo – e como ele desistiu da filosofia e partiu para a matemática em sua jornada. Na história, com alguma liberdade poética, ele encontra-se com grandes mestres das duas áreas e somos apresentados a uma época – o fim do século 19 – em que questões matemáticas incendiavam polêmicas em altos círculos intelectuais. A busca de Russell ainda é temperada pela loucura, tema quase sempre presente quando o assunto é descobrir a Verdade. Mas apesar do tema denso, o quadrinho grego (poizé, outra surpresa) é didático sem ser raso e aprofunda discussões que evocam nomes como Aristóteles, Cantor, Gödel e Wittgenstein sem descambar para a teoria pura. Feito a oito mãos (o roteiro é do historiador Apostolos Doxiadis e do matemático Christos H. Papadimitriou e é ilustrado pelo casal Alecos Papadatose e Annie Di Donna), Logicomix também explica conceitos filosóficos e matemáticos à medida em que assistimos a seus próprios autores discutirem o rumo da história. Se tiver na dúvida, folheia na livraria antes de pegar de vez. E depois diz aqui o que você achou.

Se você é daqueles que fica de mimimi quando eu fazia as terças-feiras de Lost ou reclama que eu tou postando muita foto de mulher gata (!?) ou não suporta quando eu fico monotemático, um conselho: vaze. Durante esta semana, dedicarei boa parte do Trabalho Sujo a cortejar Inception, novo filme de Christopher Nolan que, de cara, não é o melhor filme do ano – este trunfo ainda segue com Toy Story, cuja terceira parte nos humilha com uma aula magna de cinema com cenas de apertar o peito (o close em Woody quase na última cena é a prova mais recente da máxima de Hitchcock – que só o diretor importa e ator é gado).

Mas Inception é importante por outros motivos. Primeiro, porque ao mesmo tempo consagra e ultrapassa a tendência onipresente da ficção científica no imaginário do século 21 (comentei sobre isso na minha coluna de ontem no Caderno 2). Consagra da mesma forma que Fringe e Lost, criando equipamentos e engenhocas claramente pseudocientíficas, quase caricaturas de tecnologias com explicações quaisquer, mais como uma homenagem ao gênero do que como invenção – chame de metaficção científica se quiser, eu acho melhor não. E ultrapassa porque cruza uma fronteira ainda tênue tanto à ciência quanto à ficção – e, portanto, de nossas rotinas: a natureza do sonho.

Só por isso, Inception já seria motivo de análise. Mas o filme de Christopher Nolan vai além e provoca a audiência com um filme, teoricamente, complexo. Mas, uma vez assistido, ele não é tão difícil assim. Sim, há narrativas sobre narrativas, mas da mesma forma, há um grupo fixo de poucos personagens que vão sendo apresentados à medida em que se afunda num novo nível da história, mas sem que eles mesmo sejam aprofundados psicologicamente. Cada personagem é rotulado com uma função e a segue por todo o filme, aconteça o que acontecer. Ariadne, a personagem de Ellen Page, é colocada na função de iniciante apenas para que o espectador possa ser conduzido por ela – como Dorothy, Alice, Neo ou o protagonista dos livros de Castañeda, somos nós mesmos iniciados na arte-ciência-trabalho de Dom Cobb, o personagem de Leonardo Di Caprio. Mais do que um filme difícil, Inception é como ele mesmo um quebra-cabeças, brincadeira que Nolan já havia feito ao transformar seu filme anterior ao último Batman (chamado The Prestige/O Grande Truque) numa pequena peça de ilusionismo. Mas se no filme com Bale e Jackman ele opta pela distância entre a verdade e a aparência, no filme deste ano ele nos questiona sobre a natureza da realidade. E brinca com a complexidade apenas para nos preparar para entendermos mais do que precisamos.

Por isso, se você já assistiu ao filme, comente à vontade aí embaixo. Depois eu vou juntar tudo num mesmo post, que vai se atualizando durante a semana, como eu fiz no final de Lost. Mas se você ainda não assisti, nada tema: o pouco que contei do filme nesse texto de apresentação conta menos do que você já sabe pela sinopse e pelo trailer – e vou me segurar um pouco antes de começar a falar do filme em si. Antes disso, começo uma contagem regressiva até às 4:20 (a hora do kick) desta tarde que lista algumas obras aparentadas de Inception. Tudo inofensivo para quem ainda não assistiu ao filme.

Depois, mais pro final do dia até o início da madrugada de terça, dou início a outra listagem de referências, antes de começar a debater o filme em si, falando sobre sonhos e realidade, fora da ficção. Na terça, reservo o dia para os spoilers e passo a enumeras as montagens, teorias e hipóteses do filme – inclusive as suas. Por isso, se você ainda não o assistiu, tire o dia de hoje para vê-lo ou desligue suas conexões com o saite durante esta semana. Claro que no meio virão as T-girls, o Vida Fodona, o Link, os 4:20 e outras coisas que sempre aparecem (além, claro, das notícias), mas por dedico esta semana inteira a um dos grandes filmes do ano.

E aí, o que você achou?

Como disse, na minha coluna de ontem no Caderno 2 peguei o gancho do Inception para falar da onipresença da ficção científica nos dias de hoje.

Parece invenção
A influência da ficção científica

Há menos de um mês, neste mesmo espaço, comentei sobre a dificuldade que Christopher Nolan teve para manter o tema de seu novo filme, Inception, em sigilo absoluto. De roteiro complicado e histórias que se superpõem, a produção estreou sexta passada no Brasil com o insosso título de A Origem (sendo que os personagens se referem o tempo todo a uma certa “inserção”).

Mas pode ficar na boa: não vou falar sobre sua história – e recomendo, caso você não o tenha assistido ainda, que se blinde contra possíveis spoilers (o termo em inglês que designa informações que estragam a surpresa de um determinado filme ou série).

A Origem é só mais um dos inúmeros exemplos de como a ficção científica é onipresente no imaginário do século 21. Se formos analisar apenas cinema, os exemplos vão desde nomes gigantes (Matrix e Wall-E) a filmes menores (Moon, Filhos da Esperança, Donnie Darko) e passam tanto por remakes (Planeta dos Macacos, a nova trilogia de Guerra nas Estrelas e o Jornada nas Estrelas de J.J. Abrams) quanto pelos inúmeros filmes de super-herói.

Sim: super-heróis são a forma mais trivial e rasteira de ficção científica. Não são seres fantásticos e mitológicos, embora se comportem como se fossem. Mas por trás de todo super-herói há uma origem explicada cientificamente – mesmo que à base da pseudociência.

Nascido no século 18 com As Viagens de Gulliver (que terá versão para o cinema, com Jack Black, no final do ano), o gênero tornou-se popular no fim do século seguinte graças a nomes como H.G. Wells e Júlio Verne e entrou no século 20 como uma espécie de subliteratura, feita para ser consumida de forma rápida e rasteira. Longe da crítica literária, os autores do novo gênero aproveitaram esta liberdade para usar discos voadores, robôs, viagens no tempo e alienígenas como metáforas para a condição humana. Assim, autores como Isaac Asimov, Arthur C. Clarke, Philip K. Dick, William Gibson e Neal Stephenson podiam criar seus universos livremente, o que serviu de base para a atual onipresença do gênero no mundo todo.

Acontece que esta liberdade que a ficção científica deu a esses autores permitiu que eles pudessem viajar em uma ciência inexistente, imaginária – que serviu como inspiração para muitos cientistas criarem invenções que nasceram na cabeça de escritores.

Eis o motivo do gênero estar em voga atualmente: vivemos num século cujas principais inovações científicas foram imaginadas por artistas. Sim – vivemos em um mundo de ficção científica. E parece que não há nada mais para ser inventado ou imaginado.

Que nada. A Origem – e outros tantos filmes de ficção científica que ainda virão por aí – cogita uma ciência que parece de mentira, inventada. Até que algum cientista se disponha a transformá-la em realidade…