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Mashupman

Ilegal de propósito
Desrespeitando os direitos autorais, o produtor Girl Talk lança mais um disco de graça

Exatamente no mesmo dia em que os Beatles colocavam seu catálogo online à venda, o DJ e produtor norte-americano Greg Gillis surgia com um novo disco prontinho para download. E, diferentemente dos discos de John, Paul, George e Ringo, All Day não custa nada para ser baixado – embora o ouvinte seja convidado a contribuir com o lançamento pagando a quantia que achar justa, mesmo que ela seja zero.

O novo disco do produtor, mais conhecido pela alcunha de Girl Talk, segue exatamente o mesmo padrão dos dois trabalhos anteriores, Night Ripper (2006) e Feed the Animals (2008): ele está para download no álbum de sua gravadora (chamada Illegal Art) de forma gratuita mesmo que nenhum dos envolvidos tenha direito sobre as músicas usadas para a composição do álbum. Explico: em vez de gravado, All Day – como os outros discos do Girl Talk – é composto apenas usando trechos de músicas alheias, grande parte delas hits de artistas consagrados.

Justamente por isso ele se tornou uma espécie de símbolo da cultura livre que ajuda a reinventar os conceitos de direitos autorais na era digital. O DJ foi um dos principais personagens do documentário Good Copy Bad Copy e sua entrevista era pontuada por observações do advogado Lawrence Lessig, criador da licença alternativa Creative Commons, que tratava Gillis como exemplo de um artista do século 21 que, se fosse atuar pelas leis do século 20, não conseguiria fazer música. Talvez por isso consiga lançar seus discos sem se preocupar com processos da indústria fonográfica. A menor menção a uma ação judicial contra ele já seria o suficiente para acionar advogados e ativistas da cultura livre e transformá-lo em mártir desta nova realidade. Enquanto isso, ele segue lançando seus discos – e fazendo shows inacreditáveis, apenas com seu laptop.

Ronex (1978-2010)


Foto: Eugênio Vieira

Piracicaba já foi terra de rock. Há mais de uma década, a cidade do interior paulista que melhor simboliza o caipira destas paragens respirava ares carregados de eletricidade estática. Culpa de uma única banda, quatro malucos que resolveram encarnar o Sonic Youth antes que a banda de Thurston Moore virasse trilha sonora de volta de skate. Era o Killing Chainsaw, grupo que ligou o interior paulista na tomada na marra e fez que o rock alternativo dos anos 90 ganhasse algum sentido para além da Anhangüera ou da Bandeirantes. E dos nomes que mais prometiam entre as bandas que apareceram no rastro do Killing, uma delas era o Crush Hi-Fi, liderado pelo Ronex, que morreu entre ontem e hoje.

Lembro de quando ele me deu o disquinho, no tempo em que CD-R era novidade entre as bandas novas, que ainda registravam-se na fita K7. MP3? Hahahahaha, boa. Estou falando do final dos anos 90, antes do Napster liberar geral, quando banda larga era apenas um exercício de futurologia e baixava-se uma música em uma hora. Lá estava a banda, novata na cena do interior de São Paulo, que acompanhei neste período, exibindo não apenas um disquinho todo bonitinho no que dizia respeito ao acabamento gráfico, mas também sonoro. Era uma época em que o som que o Slint fazia ainda não tinha sido batizado de pós-rock – e havia um certo verniz de Slint por sobre a base noise característica da cidade-natal da banda.

O Crush Hi-Fi até segurou a bandeira do noise piracicabano por alguns meses, mas em pouco tempo o cenário indie brasileiro, ainda na idade da pedra, começava a mudar. Em poucos anos, cantar em inglês ou fazer barulho já não eram qualidades bem quistas entre este mercado – esta mudança pode ser epitomizada no Los Hermanos, mas era um processo lento, que já vinha se desdobrando desde 95, 96… A chegada da internet como veículo em que as pessoas podiam conhecer música não só acelerou este processo como enterrou de vez a geração Juntatribo, que teve de se virar para seguir fazendo sentido. E foi assim que o Pato Fu assumiu seu lado mais pop, os Raimundos acabaram, D2 saiu sambando em carreira solo, apareceram os Autoramas e o Bidê ou Balde. E foi assim que algumas dezenas de bandas (centenas?) foram varridas para baixo do tapete da história. Entre elas, o Crush Hi-Fi.

Ronex depois mudou-se para São Paulo, mais ou menos na mesma época em que vim para cá (primeira metade da década passada), e era figurinha onipresente nas hoje distantes noites de quinta-feira no Milo – e era companhia das melhores. Largo sorriso no rosto, uma empolgação contagiante e sempre um comentário sobre uma banda nova ou um projeto novo que estava começando. Tentou seguir na música o quanto pode e, depois que voltou para Piracicaba, há alguns anos, transformou seu Royales – uma das muitas encarnações posteriores do Crush Hi-Fi – em banda de baile, em que tocava todas as músicas que gostava – e até arriscava umas próprias.

Há mais de um ano não falava com ele direito, trocava apenas mensagens rápidas via rede social, email ou MSN, cumprimentos sinceros que serviam apenas para azeitar a amizade. Havia sumido da minha rotina faz tempo, mas havia a sensação, quase sempre acompanhada de boas notícias, de que a vida do compadre seguia bem.

Até que hoje cedo o Ronaldo me ligou para dar a péssima notícia (não se culpe, alguém tem de fazê-lo). Nem sei bem do que ele morreu, mas isso não importa. Fica o vazio de uma personalidade tão otimista, de alguém com pique e disposição para fazer o que achava certo, que eletrizava qualquer rodinha de cigarros ou cerveja e que era querido por muitos.

Fará falta, rapá. Fica bem onde você estiver.

Minha coluna no Caderno 2 neste domingo foi sobre o Scott Pilgrim.

Muito além da MTV
A geração déficit de atenção

Scott Pilgrim Contra o Mundo estreou na semana passada e segue em cartaz em poucas salas, mas vale o esforço para assisti-lo na telona. Baseado nos quadrinhos de mesmo nome, escrito e desenhado pelo canadense Bryan Lee O”Malley, o filme começa contando o cotidiano de uma banda de rock iniciante, com foco em um de seus integrantes, o Scott do título.

Parece que vamos apenas acompanhar o cotidiano trivial de uma turma de universitários largados, mas em pouco tempo a história dá um salto e mexe completamente no ritmo bucólico e entediante daquela rotina.

A história em si – Scott tem que enfrentar os sete ex-casos de uma nova paixão, uma menina de cabelo colorido chamada Ramona – não é grande coisa.

Mas a forma como ela é apresentada talvez faça do filme um dos mais influentes deste ano, principalmente no que diz respeito à estética.

Um tanto dessa culpa vem do próprio quadrinho original, que transforma a briga de Scott com seus rivais em um cenário de videogame em que cada ex de Ramona é o equivalente a um chefão de fase, como nos jogos eletrônicos.

Mas o filme vai além de simplesmente adaptar a linguagem dos games para o cinema, coisa que já foi tentada por vários diretores antes desse filme.

O trunfo do inglês Edgard Wright é usar o videogame como mais um dos elementos para compor uma narrativa moderna, de edição ágil e cortes rápidos, e que fuja do padrão MTV, quase sempre associado a esse tipo de recurso.

O problema é que o formato inventado pela MTV já tem mais de 30 anos – e ainda é associado a uma narrativa “jovem” e “descolada” (adjetivos entre aspas, pois são normalmente ditos por pessoas que não são jovens nem descoladas).

Em Scott Pilgrim, Wright leva esse conceito para linguagens que estão mais associadas à modernidade do que um canal de TV que exibe videoclipes.

É aí que ele injeta os games e a internet como referência. Os jogos são evidentes desde a primeira cena – o logo do estúdio Universal exibido como se fosse um game do Mega Drive – e a internet entra junto com a onipresença atual do texto escrito, em que palavras, termos, frases e listas surgem como links ou tags junto às cenas.

Assim, Scott Pilgrim Contra o Mundo pode parecer rápido demais até para quem é acostumado à linguagem MTV. Talvez porque tenha sido feito mirando em uma geração que, vista de fora, parece sofrer seriamente de déficit de atenção. Só isso já vale o filme.

Um homem sério

Prepare-se para mais uma série de mudanças aqui neste espaço de internet

Pronto, casei.

A cara de felicidade na foto do meio aí em cima é um recorte específico num momento muito especial da minha vida: meu rosto logo após ter sido anunciado como “marido” – e, mesmo que o anúncio tenha sido numa paisagem desértica para três testemunhas, sendo uma delas um esquilo, foi do jeito que deveria ser, para quem deveria ser, na hora em que deveria ser. Para quem acompanha minha vida – leitor, amigo ou fã – não muda muita coisa: mesmo endereço e horários, talvez reparem na aliança na mão esquerda, mas, olhando de fora, pouco mudou.

Afinal de contas, o casamento não é para os outros.

O que muda é que, internamente, é hora de celebrar algo que já era regra. A transformação da rotina num ritual, numa data comemorativa. E é inevitável que funcione como gatilho para todo o resto das coisas. E é o motivo de eu armar uma mudança drástica no formato deste espaço de internet, a que você já deve meio que ter se acostumado (errado) nas últimas semanas.

A principal mudança: ritmo.

Há algo que mistura paixão e trabalho e me persegue de forma tranquila, que é a forma como virei catalizador de informação. Outro dia o Bruno me chamou de “arqueólogo” digital, o que dá a impressão de que eu fico caçando pepitas online. Ledo engano – embora eu tenha esta natureza exploradora no sangue (sou jornalista por vocação, sempre soube disso), não uso essa minha qualidade aqui no Trabalho Sujo. Apenas solto minha rede no mundo e deixo que me mandem coisas. “Matias, como você tem tempo para descobrir tanta coisa?”, suspiram as fãs. “São elas que me querem”, sempre digo isso para todas.

Faço a rapa em lugares que já fazem esse trabalho. Bandas novas no Hype Machine, fotomontagens no Fukung, vídeos no Buzzfeed, ficção científica no io9 e teorias da conspiração na Disinfo – e cada site desses é só o começo para uma gama gigantesca de outros trocentos sites parecidos. Mas o trabalho não-trabalho de puxar a rede da praia uma vez por dia tornou-se, com o tempo, maçante. A onipresença é uma das minhas qualidades mais curto exercer e me divirto com histórias que me contam quando alguém que me conhece “revela” que eu programo tweets. Só que chega uma hora em que programar tweets e agendar posts vira trabalho mecânico. Fora que, como já disse outras vezes, transformei o blog num tumblr e deixei de lado uma das coisas de que mais gosto – escrever.

Volto para o papo de explorador, exerço este papel melhor, hoje em dia, no comando do Link ou em trips meramente pessoais, que sempre penso em materializar em texto, mas a pauleira do formato tumblr (quase um post por hora durante horário comercial, reveja aê) faz que eu sempre deixe os textos para escrever depois. E com isso perco o estímulo inicial. Assim foi com o texto sobre o final de Battlestar Galactica, a crítica ao Merriweather Post-Pavillion e a defesa da desimportância do formato álbum hoje, a análise sobre a importância de Mark Millar para a cultura pop moderna, a resenha sobre o show do Jesus & Mary Chain no Terra de 2008, a longa jornada buraco afora de Alice in Sunderland e, exemplos recentes, um paralelo entre Black Hole e Scott Pilgrim, os shows do Pavement em Nova York ou os do vigésimo primeiro aniversário da Matador em Las Vegas.

O meu trabalho no Link pode ser medido pelo caderno e pelo site, finalmente a equipe está azeitadíssima e tenho a consciência de que edito um dos melhores cadernos de jornal do Brasil. Prefiro nem falar mais – quem conhece, sabe.

Mas este lado fuçador, falando de coisas que mais dizem a respeito de comportamento e cultura do que o vasto tema que abordo no meu trabalho diurno, tem ficado em segundo plano. Não mais. A partir desta semana, oficializo a redução de velocidade do Trabalho Sujo em prol da produção de mais textos. A princípio, eles virão curtos – este texto que você está lendo não será o padrão a seguir (embora sei que muitos prefeririam um texto gigantesco por semana do que vários curtinhos no mesmo período). Mas é uma época de ajustes. Já estou pensando em começar minha prole e é inevitável que este tempo gasto diante do computador será reduzido. Fora que estou começando a finalmente executar o meu livro (sobre o quê?, você pergunta; qual deles? contrapergunto) e vai ser inevitável que esta produção também tome meu tempo.

Compenso a queda no ritmo com a ressurreição de posts antigos do Trabalho Sujo – e quando digo antigo, me refiro inclusive à fase impressa, entre 1995 e 1999, que trombei num velho HD externo outro dia. E vai ser inevitável que eu continue postando vídeos e JPGs, mas sem a mesma frequência. Os tweets caem de produção e podem ressurgir durante dois dias seguidos ou por apenas algumas horas consecutivas. Às vezes, virão do nada, trazendo só uma informação ou ditado daquele instante – um tweet puro, natural, sem link. O Vida Fodona segue semanal e a Gente Bonita, num hiato por excesso de trabalho de ambas as partes, ressurge em breve, em alguns lugares do Brasil.

E aqui chego ao ponto central desta mudança: ela consolida algo que prego há tempos, desde que saí da Conrad, quando percebi, na marra, que fosse traduzindo um livro, discotecando, entrevistando alguém, fazendo um podcast ou mediando um debate, não deixo de ser jornalista. Eu sou um filtro, uma ponte – busco informações que as pessoas do outro lado não sabem que existem e as exponho a elas. Remixo contextos a partir dos meus gostos, minhas áreas de especialidade, meu tom autoral. Um tom sério.

E, na viagem que fiz antes de me casar nos EUA, me deparei com este conceito várias vezes, desde a incredulidade dos amigos que – animados ou espantados – perguntavam “sério?” quando eu dizia que ia casar não só em Las Vegas mas no Grand Canyon como na presença constante do filme Um Homem Sério, dos irmãos Coen, nas TVs pelos hotéis. Vi, portanto, vários pedaços de um filme sobre um homem em pedaços a partir do desmoronamento de sua “séria” reputação. E o tempo todo eu confrontava o drama de Larry Gopnik (o protagonista do filme) com o do Dude (protagonista de outro clássico dos irmãos, Big Lebowski) – que é o estereótipo do homem não-sério. Ambos passavam por enrascadas parecidas independente do estilo de vida que levavam, certinho ou largado.

Foi quando eu percebi que a seriedade virou sinônimo para chatice – uma pessoa hoje para se dizer séria tem de ser alguém sem humor, sem disposição para curtir a vida, gente que não dança. E também quando percebi como sou sério exatamente do jeito que sou.

Pois só sou quem sou por conseqüência disso. A seriedade é consequência de uma paixão bem resolvida e só tenho a agradecer, adoro tudo que eu faço, com quem eu faço, do jeito que eu faço. Então por que não melhorar?

PS – E antes que você suspire “que egotrip!”, eu lembro que este saite inteiro é isso.
PS 2 – A mudança não é só no Trabalho Sujo, falo mais disso em breve.
PS 3 – E mais uma novidade vem ainda hoje!

E eis minha coluna de domingo passado no Caderno 2.

Um celular em 1928?
A viajante do tempo de Chaplin

A cena é muito rápida, não dura nem cinco segundos. Mas em um determinado momento do filme O Circo, que Charles Chaplin filmou em 1928, uma mulher aparece passeando na rua. Uma de suas mãos está próxima de sua orelha. E ela vem falando, aparentemente sozinha. Foi o suficiente para que o cineasta irlandês George Clarke ficasse intrigado. Ele assistiu à cena por outras tantas vezes, até chegar à estapafúrdia conclusão de que a senhora estaria falando num telefone celular! Em 1928!

Não bastasse ter chegado a essa conclusão nonsense, Clarke decidiu tentar buscar uma explicação para como, nos anos 20, uma pessoa estaria usando um aparelho que levaria mais de cinco décadas para ser criado. A explicação lógica – e ainda mais absurda – a que ele chegou merece até dois pontos para ser anunciada: ela teria vindo do futuro!

Foi o suficiente para que ele lançasse sua louca teoria no YouTube, com imagens do filme original, e passasse dos quatro milhões de visitas em seu vídeo. A história remetia a outro caso pitoresco quando, entre 2000 e 2001, um suposto viajante do tempo chamado John Titor, vindo do ano 2036, começou a deixar mensagens em fóruns online anunciando as coisas que ainda estavam por vir.

Mas como a história de Titor, o celular de Chaplin provou ser só uma piada de mau gosto. E o blog Live Science atestou que a senhora “do futuro” estava apenas usando um dispositivo para facilitar a audição… Cada uma…

Pela internet
Amy Winehouse dá sinais de vida

O próximo disco de Amy Winehouse vem sendo aguardado há mais de três anos, quando a Keith Richards de saias emplacou seu hit “Rehab” no mundo inteiro. Desde então, ela não gravou mais nada e sua vida pessoal escorreu ladeira abaixo, em brigas e excessos em geral. Mas eis que nesta semana uma nova música de Amy apareceu online. A música, na verdade, não é propriamente nova, afinal “It’s My Party” é cover de um clássico soul dos anos 60, gravado por Leslie Gore. Mas foi colocado na rede pelo antigo produtor de Amy, Mark Ronson, que gravou com a cantora três faixas para um disco-tributo ao maestro Quincy Jones, que ainda será lançado. Não é material do disco novo dela (ainda sendo gravado, vai saber em que estágio) e o vocal não é lá grandes coisas, mas pelo menos, uma novidade: ela está viva e cantando!

Cultura binária

O Bruno foi estagiário no Link até o final do ano passado (hoje está na Istoé Dinheiro, e segue cobrindo tecnologia) e seu trabalho de conclusão de curso foi sobre as mudanças que o meio digital vem impondo à cultura – e A Cultura Na Era Digital é tanto um blog quanto um livro de entrevistas. Fui entrevistado para sua publicação e ele finalmente põe no ar o longo papo que tive com ele (que, editado sem as perguntas, ficou com cara de artigo, a seguir):

A Cultura na Era Digital, por Alexandre Matias

“Pra cultura, pro público, pra uma nova geração de artistas e pra humanidade como um todo as mudanças pelas quais a indústria cultural vem passando nos últimos anos tendem a ser mais benéficas, pois abrem maiores possibilidades de criação e de imaginação e permitem que cada vez mais gente possa ter a experiência de ser artista, antes restrita a um grupo pequeno de celebridades e executivos, que são justamente os que estão sofrendo com essa mudança – e para quem os efeitos são mais negativos, pois mudam a forma como eles lidam com a própria remuneração. Mas as mudanças do mundo digital não são exclusivas do meio cultural e atingem toda a sociedade a ponto d reinventar o próprio ser humano. As primeiras manifestações do digital nesta virada de século são mínimas se comparadas com o seu potencial. E negar essa mudança é pior até para aquele que mais sofre com a mudança neste momento inicial, pois ele não irá saber como lidar com a transformação que já aconteceu.”

“Ainda não vimos a maior transformação, que é a superação destes formatos (disco, filme, livro) rumo a uma integração maior entre os diferentes suportes – o tal transmídia. Mas acho que isso ainda deve levar um tempo para se consolidar, mesmo porque existem algumas gerações que ainda vão consumir livros, filmes e discos como coisas separadas. Mas acho que a tendência maior inclui a participação da publicidade na narrativa. O fim do espaço comercial como conhecemos hoje inevitavelmente fará com que empresas busquem novas formas de mostrar o que querem vender para seu público. Se hoje a publicidade vem em forma de banners em videogames ou empresas que bancam obras de determinados artistas (modelos que já estão aí há algum tempo, mas que estão longe de serem estabelecidos), acredito que, no futuro, as marcas irão se associar a produtores de conteúdo que tenham alguma afinidade para desenvolver projetos e obras culturais que se desdobrem em diferentes áreas. O consumidor, no entanto, não deverá ficar refém de uma história que, para ser compreendida em sua totalidade, deve ser absorvida à exaustão. Pelo contrário: o conteúdo cultural do futuro deverá oferecer tanto pequenos aperitivos quanto universos narrativos complexos. O leitor/ouvinte/espectador é que escolhe o quanto deve se aprofundar.”

“Acho que não existe regra, mas, como antes da internet, acho que o principal é definir o que o artista quer da vida – se é reconhecimento público, ter um salário, se satisfazer pessoalmente ou fazer sucesso. Acho que a última opção é a mais tênue hoje em dia, uma vez que o conceito de sucesso mudou drasticamente – ou, pelo menos, deixou de ser mensurável. Acredito que o principal para qualquer artista hoje seja definir o que ele considera sucesso. Para muitos, produzir arte sem interferência de patrocinadores ou concessões ao público já pode garantir o sucesso pessoal. Para outros, sobreviver a partir da própria arte é outro novo parâmetro de sucesso. A decisão cabe ao artista e pode determinar o resto de sua carreira”.

“A principal contribuição do meio digital para a indústria – e não apenas cultural – é inverter a mão-única que era a regra da era industrial. Hoje não existe uma fórmula para fazer sucesso, uma regra para ser bem sucedido artística e comercialmente, um modelo de negócios padrão que deve ser seguido. Cada um deve descobrir o modelo de negócios que melhor se adeque a seu parâmetro de sucesso”.

“Pela legislação atual, a troca de arquivos pela internet é pirataria. O problema é que quando a sociedade muda, as leis devem mudar. As leis são feitas para se adequar ao comportamento das pessoas – e não o contrário. Já foi permitido, um dia, ter escravos humanos, por lei. E até o começo do século XX a mulher tinha menos direitos legais do que o homem. As leis relacionadas a esses assuntos mudaram porque a sociedade mudou. A troca de conteúdos digitais via internet é um fenômeno muito recente e as leis ainda não se adequaram a ele. Por isso mesmo, a definição de pirataria nesta época é vaga – da mesma forma que definir quem perde ou quem ganha com ela. Como você mesmo citou, o próprio Paulo Coelho advoga a favor da pirataria de seus livros. E há uma frase de Hermeto Paschoal que ilustra bem esse dilema: ‘Por favor, me pirateiem – se não ninguém vai ouvir minha música’.”

“Do mesmo jeito que a tendência para produtos fabricados em escala industrial tende a cair, existe uma série de outras soluções que estão sendo pensadas para estes profissionais que não existiam antes e hoje já são fonte de renda. A troca de arquivos via internet não fez as pessoas pararem de comprar disco – e, sim, ofereceram outras formas de você conhecer e pagar pela obra dos artistas – grande parte deles que sequer tinham o mínimo de visibilidade que a internet lhes proporcionou. Não sei responder sobre fontes de renda alternativas para estes profissionais porque: 1) o novo mercado está mudando o tempo todo; 2) cada artista deve descobrir qual melhor forma de conseguir transformar sua arte em seu sustento; 3) não sei se essas novas fontes de renda são alternativas ou se serão a regra vigente”

“Do mesmo jeito que a produção cultural será acessível de forma gratuita. O artista vai ganhar dinheiro com o contato direto com o público, com produtos impossíveis de serem digitalizados que acompanhem uma obra digital, com licenças de acesso a seu conteúdo que podem liberar sua obra para o espectador à medida que ela for sendo realizada, achando um patrocinador que queira associar sua marca àquele artista. Se for bom, as pessoas vão querer pagar. O problema é saber quando isso irá acontecer.”

“A indústria de tecnologia tem ganhado muito dinheiro com download, veja que, entre os sites mais acessados do mundo, figuram vários que permitem o compartilhamento de arquivos (como Rapidshare, Megaupload, etc.). E empresas como Google, Amazon, Microsoft, Apple e outros nomes do mercado digital também – seja com venda direta ou com anúncios atrelados aos downloads. Concordo que a tendência é que o streaming supere o download em relação à presença online (mesmo porque senão, todo mundo teria de ter HDs gigantescos para armazenar tudo que produz – fora o que consome), mas não acho que o streaming ou o download sejam mais ou menos vantajosos para a indústria cultural do passado, acostumada a ganhar dinheiro sobre cópias físicas de um produto que hoje não precisa mais de cópia física.”

“Acho ruim ficarmos lamentando as vantagens e desvantagens disso ou daquilo para essa indústria cultural, pois parece que ela é especial e não está suscetível a essas mudanças, como o resto da sociedade. Quando a fotografia foi inventada, os pintores reclamaram que iam perder a função de retratistas. Felizmente, não havia uma indústria que representasse os pintores para fazer campanhas contra o uso da fotografia. Felizmente porque, se isso acontecesse, talvez o impressionismo e o modernismo – as soluções que os artistas, e não a indústria, propuseram – demorariam mais tempo para acontecer”.

“É crucial [a participação do fã neste contexto]. A principal mudança para o artista tradicional que estamos vendo é o fato de a indústria cultural não servir mais como intermediário entre artista e consumidor – seja numa sala de chat, num fórum de discussão, ao pagar pela arte de outra forma ou no contato após o show. É a principal mudança porque faz com que o artista se pergunte sobre quem ele deve agradar e responder – se ao empresário, ao produtor, à gravadora, à editora de direitos autorais ou a quem consome apaixonadamente sua música. Vendo desta forma, é fácil entender porque a indústria estabelecida se volta tão ferozmente contra o digital – ela está perdendo o controle da redoma que havia criado ao redor do artista. E, principalmente, o artista está deixando de ser esse alguém iluminado, que precisa de tempo para se inspirar, para ser encarado como um profissional e ponto.

“O que estamos vendo é um movimento que permite que a humanidade, como um todo, possa ter acesso ao que ela mesma produz, todo dia, o tempo todo. Artistas estabelecidos e indústria cultural são só obstáculos no meio dessa comunicação total que estamos começando a assistir“.

Minha coluna desta semana do Caderno 2 é sobre um boato – que seria melhor se continuasse como boato mesmo…

David Bowie está bem?
O dia em que a terra vai parar

Na semana passada, estive em um evento no exterior em que me encontrei com alguns jornalistas estrangeiros. Entre os pares europeus, um consenso sobre uma notícia que ainda não foi publicada em lugar nenhum. “Parece que David Bowie está morrendo”, disse um deles, expressão triste no rosto. Outros dois confirmaram o rumor, olhares desolados de fãs chocados, e um deles citou um recente especial feito pelo semanário inglês NME aparentemente sem motivos sobre o compositor, talvez um dos nomes mais importantes da cultura do século 20.

Se sua importância é assunto para discussão, sua dimensão não é. Bowie é um dos artistas mais conhecidos do mundo e sua influência – não só musical – pode ser sentida até hoje.

De Lady Gaga a reality shows passando pelas contínuas reinvenções a que qualquer artista deve se submeter: tudo isso é culpa de David Bowie (que além de tudo é um dos dez melhores compositores ingleses do século). Nomes como Iggy Pop e os Stooges, Lou Reed e o Velvet Underground, o Kraftwerk e Brian Eno seriam bem menos conhecidos caso David não tivesse aparecido em suas vidas e os puxado para cima.

Bizarro, portanto, que a sua possível morte esteja sendo cochichada. “É uma espécie de respeito”, disse um dos presentes. “A imprensa inglesa, por mais estranho que possa parecer, às vezes tem disso.”

Mas o que impressiona mesmo é o fato de não haver nenhuma referência online sobre isso. Embora haja algumas citações sobre suas condições de saúde – Bowie não viveu uma vida de santo -, pouco se fala sobre sua condição cardíaca. Ele teria sofrido um ataque do coração em 2004, após um show na Alemanha, quando cancelou sua turnê europeia e foi submetido a uma cirurgia para desobstruir uma artéria – apenas a cirurgia foi confirmada oficialmente.

E nunca mais gravou discos. Seu último álbum de inéditas (A Reality) é de 2003 e a partir disso o compositor se limitou a organizar sua discografia, em várias compilações e lançamentos de shows do passado em novos formatos. Sua produção mais recente limita-se à participação em shows (tocou com Arcade Fire, David Gilmour e Alicia Keys) e discos (TV on the Radio, Scarlett Johansson), além de poucas aparições públicas, quase sempre para receber prêmios.

É louvável que um artista de tal proporção consiga manter tamanho sigilo em relação a um problema de saúde tão grave, ainda mais numa época em que se parece saber tudo sobre todos. Mesmo que não esteja doente, pouco se sabe sobre sua vida há pelo menos cinco anos. Fechou-se em reclusão drástica, justamente um dos artistas que mais transformaram sua vida em palco.

Também é curioso – e irônico – que Bowie repita a trajetória de seu mais famoso personagem, Ziggy Stardust, o astro alienígena andrógino que veio para a Terra alertar sobre o risco que o planeta corria – e que morreu vítima dos humanos, como uma espécie de Klaatu (o protagonista do clássico sci-fi O Dia em Que a Terra Parou, de 1951) do rock.

Tomara que seja só boato e que Bowie fique com a gente por mais vinte, trinta anos. Ele merece, nós também.

Taí o que eu fui fazer na Nova Zelândia: visitar a Weta Digital, o estúdio que o Peter Jackson construiu em seu país para colocá-lo no mapa.

Direto do futuro
No estúdio de ‘Avatar’, dá para se ter uma ideia de como serão feitos os filmes amanhã

Na semana passada, estive no futuro. Literalmente, pois estava 15 horas à frente do fuso horário brasileiro, e metaforicamente, já que fui visitar as entranhas do estúdio Weta Digital, o complexo de efeitos especiais criado pelo diretor Peter Jackson em Wellington, capital de seu país de origem, a Nova Zelândia.

E além de conversar com parte da equipe que transformou uma ideia que James Cameron teve nos anos 90 no filme que mais faturou dinheiro no mundo (outro Blu-ray de Avatar chega às lojas em duas semanas), pude ver que, mais do que simplesmente criar épico atrás de épico, o estúdio neozelandês já faz, hoje, o cinema do futuro.

“Acho que Avatar abre uma porta para que as pessoas contem histórias que não poderiam ser contadas de outra forma”, explica o produtor do filme de James Cameron, o norte-americano Jon Landau. “Há um erro conceitual sobre o que tentamos fazer, acham que estamos querendo nos livrar dos atores. Mas é o contrário: queremos preservá-los para que eles façam coisas que não poderiam fazer antes”.

Landau, que trabalhou com o Weta apenas em Avatar e não pertence ao estúdio, obviamente puxa a sardinha para o filme que produziu, mas o que foi realizado no filme de Cameron é só mais um degrau na escalada tecnológica proposta pelo estúdio de Jackson. Desde sua criação, o Weta concentra esforços em criar ambientes virtuais que não sejam percebidos como tal pelo público. Foi assim com a Terra Média de O Senhor dos Anéis e com o início do século 20 gerado artificialmente em King Kong.

“Antes trabalhávamos com alguns personagens específicos, como os dinossauros de Jurassic Park”, conta o norte-americano Joe Letteri, supervisor dos efeitos especiais do estúdio e pioneiro em computação gráfica ao criar os répteis gigantes do filme de Spielberg. “Naquela época, apenas criávamos um ser digital e tínhamos de encaixá-lo no filme. Agora criamos o ambiente, um planeta, um universo inteiro digitalmente.”

E não se trata apenas do universo visto no filme. Enquanto entrevisto Landau, uma demonstração de como funciona a captura de movimento dos atores é realizada – e quem se interessa por efeitos especiais já deve ter visto cenas em que o ator veste uma roupa engraçada, cheia de pontos de referências cujos movimentos serão traduzidos digitalmente em uma imagem gerada por computador.

Há câmeras por todos os lados (até no teto) e um dos funcionários do estúdio usa uma “ câmera” portátil para acompanhar de perto os atores. Essa câmera vem entre aspas porque ela, na verdade, não é uma câmera de verdade: é um aparelho virtual.

Produção virtual. Hein? Explico: uma vez que os movimentos físicos são captados por todas as câmeras espalhadas pelo cômodo, James Cameron resolveu fazer o mesmo com seu próprio instrumento de trabalho. Assim, a câmera virtual não filma de verdade, mas seus movimentos (no caso, os do diretor) são registrados por todas as lentes que estão ao redor e esses movimentos são traduzidos para a tela. Monitores ao redor da sala mostram os atores já inseridos no cenário virtual, em vez da antiga tela verde que obrigava atores e diretores a imaginar cenários e personagens digitais. Esse processo foi batizado de produção virtual.

“O interessante é que, se um ator espirra durante uma tomada perfeita ou se alguém passa por trás da cena sem que o diretor perceba, ela não se perde”, conta o argentino Sebastian Sylwan, responsável por toda a área tecnológica da Weta. “Assim, direção, atuação, efeitos especiais, fotografia e outras etapas da produção de um filme deixam de depender umas das outras. As pessoas me perguntam quanto tempo que demora a pós-produção de nossos filmes. Eu respondo que demoram o mesmo tempo que a própria produção!” Letteri emenda: “Fazer filmes está virando um processo cada vez mais não-linear”.

A captura de imagens dos atores vai além do movimento corporal. Outra inovação também proposta por Cameron e executada pelo estúdio foi a criação de um capacete com uma haste que ficava logo em frente ao rosto dos atores. O que parece um microfone é, na verdade, um conjunto de câmeras para captar expressões faciais, depois traduzidas em computação gráfica graças ao trabalho da equipe do neo-zelandês Mark Sagar, coordenador de projetos especiais.

“Nos dedicamos a estudar o rosto humano e aprendemos que qualquer pequeno músculo pode mudar toda a expressão do ator”, conta Sagar. “E assim criamos uma gama de movimentos musculares que usamos como um alfabeto ou notas musicais – basta juntar determinados movimentos e criamos uma expressão completamente nova” , explica enquanto mostra, no computador, a gama de expressões dos personagens de Avatar.

“Esse mesmo tipo de tecnologia pode tornar um ator mais jovem, mais alto, mais magro e mais velho do que ele realmente é” , continua Landau. “Não acho que funcionaria colocar Will Smith para reviver o personagem Dirty Harry mais novo – mas é possível que o próprio Clint Eastwood reviva seu personagem como se ainda estivesse nos anos 70. É uma forma de preservar o trabalho do ator.”

Pé no chão
Mas nem tudo é virtual no mundo da Weta – e boa parte dos efeitos tem um pé no mundo real. Principalmente os objetos usados em cena, feitos na Weta Workshop, dirigida pelo neozelandês Richard Tayor, um dos fundadores do estúdio. O clima dentro da oficina é quase militar tamanho o sigilo. Taylor explica que a pesquisa feita para criar armas e veículos – tanto dos alienígenas aborígines quanto dos seres humanos do futuro – é extensa a ponto de incluir a criação de coisas que não serão nem vistas no filme – como toda a hierarquia tribal dos Na’Vi, o ciclo de vida das plantas de Pandora e até os cigarros -vendidos com prescrição médica – fumados pelo personagem de Sigourney Weaver.

Toda a pesquisa não foi em vão: além de servir como base para futuras continuações, ela tornou quase instantânea a criação da Pandorapedia, enciclopédia do universo de Avatar, um dos extras do novo Blu-ray. Os protótipos são criados primeiro como ilustrações e depois como objetos. Então, são escaneados para serem usados nos filmes. No enorme galpão, é possível ver um jipe usado do filme Distrito 9, o tanque em que os Na’Vi são postos em estado de suspensão, um pedaço de parede de prédio escalado por King Kong, tudo em tamanho real.

Pele boa
Além destas peças, outros detalhes vêm do mundo não-virtual, como as texturas de pele produzidas pela equipe do diretor de arte Gino Acevedo. “Escaneamos a pele de quase todo mundo que trabalha aqui” , brinca. “Se dispensávamos alguém, dizíamos para que a pessoa tomasse a dispensa como um elogio, pois a pele dela era perfeita demais para ser usada.”

Outras áreas são puramente virtuais, como toda a floresta de Pandora, concebida a partir de esboços feitos por Cameron. O supervisor de animação David Clayton fala da criação de mais de cinco mil plantas diferentes, muitas delas que não são nem vistas com detalhes no filme, mas que tiveram toda sua biologia desenvolvida virtualmente. E ele mostra as diversas camadas criadas para dar credibilidade a uma selva totalmente imaginária.

Petabytes
Para processar todos esses dados, os estúdios Weta têm um data center robusto, que processa nada menos que 15 petabytes de informação – ou 15 milhões de gigabytes. Só Avatar consumiu dois destes 15 petabytes. Parece muito (e é), mas fica pequeno se compararmos aos 24 petabytes gerenciados diariamente pelo Google.

E embora o lançamento das continuações de Avatar esteja distante (Avatar 2 e 3 devem ser lançados em 2014 e 2015, respectivamente), Landau já cogita alguns desafios que veremos a seguir. “É hora de aprendermos a colocar todo esse universo debaixo d’água. Veremos muitas cenas subaquáticas e teremos mais desafios envolvendo tecnologia e ciência para tornar toda a ação crível.” Letteri atualmente trabalha na adaptação das histórias do personagem de quadrinhos belga Tintin para o cinema ao lado de Steven Spielberg (que dirige) e Peter Jackson (que produz) e já cogita seu novo desafio: ir além dos 24 quadros por segundo, a fronteira do movimento no cinema.

Entrevista: Joe Letteri, supervisor dos efeitos especiais do Weta Digital

Em termos técnicos, como comparar o primeiro filme em que você trabalhou com efeitos especiais, Jurassic Park, com Avatar?
Os efeitos de Jurassic Park levaram mais de um ano para serem feitos, e são apenas 50 cenas. Hoje, faríamos este mesmo trabalho em menos de uma semana. Sendo ainda mais específico: acho que o meu iPhone hoje é mais avançado tecnicamente do que se juntássemos todos os computadores usados para fazer Jurassic Park.

Sendo assim, seu trabalho também é mais um desafio técnico do que artístico.
Com certeza, porque quando você tenta tornar algo crível, começa a ter de lidar com a ciência por trás daquilo – o motivo da pele ter certa aparência sob determinada luz, como os músculos se comportam. É inevitável que chegue um ponto em que tem de lidar com matemática, física e a capacidade de processamento dos computadores.

Como você sabe que a cena terminou, uma vez que dá para acrescentar camadas e mais mais camadas a ela?
Dá para saber quando terminar, mesmo porque tudo é planejado com antecedência. Mas normalmente estamos mais preocupados com o impacto emocional da cena do que com o visual. Quando atingimos o que queremos que o público sinta, é a hora de parar.

Os desafios tecnológicos tiram o seu sono?
Pelo contrário. É muito comum tentar coisas ainda mais difíceis apenas pelo prazer de fazer algo que ninguém nunca fez. Isso quase sempre quer dizer mais trabalho, mais esforço, mas eu sou continuamente estimulado por isso. Há tanto para aprender e é tão divertido ao mesmo tempo. Trabalhamos muito com paixão por aqui, por isso sempre tentamos descobrir o que é que as pessoas com quem trabalhamos gostam, de verdade. Por mais estranho que possa parecer o interesse, aquilo pode ser usado para melhorar o trabalho – e sempre melhora. E temos sorte de trabalhar com diretores como Steven (Spielberg), Peter (Jackson) e Jim (Cameron).

Uma vez que vocês criaram o ambiente de Avatar, será mais fácil fazer as continuações que Cameron tem em mente?
Sim, mas sabemos que não vamos nos contentar em simplesmente fazer uma nova história no mesmo ambiente. Então, provavelmente iremos nos lançar em novos desafios. É importante não ficarmos estagnados.

Quais são os desafios tecnológicos para o futuro? O 3D já parece ter sido assimilado…
Uma das próximas coisas que já é possível fazer é aumentar a quantidade de quadros por segundo, mas isso não é um desafio técnico e, sim, artístico. O cinema usa 24 quadros por segundo para criar a ilusão de movimento, mas tecnicamente é possível ir muito além disso. E aí entra o desafio criativo: o que fazer com esse nível de detalhe do movimento. E como é uma escolha estilística, acho que é preciso muita experimentação para se ter uma ideia do que fazer com essa nova técnica. É como o 3D, de certa forma, pois abre uma nova dimensão na forma de perceber o filme. Será que isso é melhor para cenas mais lentas ou mais rápidas? Para suspender a narrativa ou para torná-la mais ágil? Ainda estamos testando isso e não é claro como iremos usar esse novo recurso. Atualmente, nosso desafio é fazer que todas essas novidades que fizemos nos últimos anos tornem-se mais integradas umas às outras, principalmente para que os diretores e atores possam ter uma resposta mais rápida em relação àquilo que estão fazendo.

A Weta Digital desenvolve vários softwares para solucionar problemas propostos por vocês mesmos. Eles irão ao mercado?
Começamos a publicar nossos softwares agora mesmo. O primeiro deles é o Mari, ferramenta que usamos para dar cores, iluminação e textura para os nossos modelos virtuais. Ele está começando a ser vendido por uma empresa londrina chamada Foundry, mas leva a nossa marca, Weta Digital.

Como você vê a relação entre cinema e videogame?
Games e filmes são duas mídias diferentes. Uma funciona em relação a uma experiência pela qual as pessoas podem descobrir seu rumo por ela e ter sua própria história, a outra diz respeito a contar uma história. Entendo a relação entre ambas, mas prefiro fazer que o público acompanhe a história que estou contando. E ambas usam a mesma tecnologia de base, por isso eu sei do que está acontecendo nessa área. Mas não acompanho games, não tenho tempo!

Mas você não acha que as pessoas irão querer fazer seus próprios filmes, como já jogam, hoje, suas partidas de videogame?
Não. Não acho que as pessoas queiram isso. Elas querem ver histórias. Veja quantas pessoas têm caneta e quantas querem escrever um livro.

Máquina do tempo
A influência dos efeitos especiais na história do cinema

Como o cinema é uma das expressões culturais mais dependente de aparelhos e equipamentos, muitos de seus avanços artísticos quase sempre estiveram atrelados a inovações técnicas. Experimentos de linguagem (como closes, cortes de cena, zoom) e novidades tecnológicas (som, cor, câmeras digitais, 3d) ajudaram a moldar a narrativa cinematográfica como a conhecemos hoje e, em muitos casos, histórias futuristas tiveram de ser contadas para justificar inovações. A história dos efeitos especiais na sétima arte se confunde com a própria história dos filmes de ficção científica.

Avatar é apenas o filho caçula de uma linhagem que conta com representantes tão diferentes quanto o dinossauro Gertie (do animador Wilson McCay) e o Jornada nas Estrelas de J.J. Abrams – de filmes que criavam uma fantasia de futuro para executar, na prática, o futuro do cinema. A abaixo lado reúne alguns dos grandes nomes que fizeram parte dessa história.

1902
Viagem à Lua
Além de cineasta, o francês Georges Méliès era mágico. E usou truques como a superposição de imagens para criar ilusões.

1933
King Kong
Ápice da carreira do primeiro grande mestre dos efeitos especiais, Wills O’Brien, um dos inventores do stop-motion, usado até hoje.

1956
O Planeta Proibido
Primeiro filme com trilha sonora totalmente eletrônica marca a estreia de um robô no cinema

1968
2001
Primeiro a usar em grande escala a técnica da projeção frontal, em que cenários e atores eram superpostos ao mesmo tempo em que se filmava.

1977
Guerra nas Estrelas
Introduziu a fotografia de movimento controlado, técnica que mistura miniaturas a cenas reais filmadas lentamente.

Contatos Imediatos do Terceiro Grau
Douglas Trumbull, que trabalhou em Guerra nas Estrelas, deu vida a naves espaciais com o mesmo processo de fotografia, mas em espaços abertos.

1991
Exterminador do Futuro 2
James Cameron investiu pesado em efeitos especiais e, pela primeira vez, usou cenas de atores com imagens criadas por computador.

1993
Parque dos Dinossauros
Spielberg usa computação gráfica para criar os seres pré-históricos e estabelece novo padrão de efeitos especiais.

E a minha coluna de domingo no Caderno 2 foi sobre funk carioca e Grand Theft Auto.

Justiça global
Um funk carioca no GTA

No início da semana passada, a 3ª Vara Cível de Barueri, em São Paulo, decidiu que as vendas da versão de um dos games mais populares do mundo, o polêmico Grand Theft Auto (GTA), deveriam ser suspensas em todo o planeta. A decisão foi tomada após a acusação de que uma música usada como trilha sonora da expansão Episodes from Sin City, o funk carioca Bota o Dedinho pro Alto, não tinha autorização para ser usada no jogo.

A desenvolvedora do jogo, a nova-iorquina Rockstar, já se manifestou dizendo que ainda não foi notificada sobre o ocorrido, mas que assim que isso aconteçer, irá recorrer. A empresa diz que obteve a autorização para usar a música, mas a assinatura no contrato de cessão de direitos autorais não bate com a de seu autor, que recorreu à Justiça para suspender a comercialização do jogo, bem como para exigir uma indenização financeira.

O episódio ilustra bem como ainda estamos na infância de um mundo inteiramente conectado, graças à internet. Anos atrás, dificilmente um jogo global incluiria uma música brasileira que não fosse licenciada por uma gravadora multinacional. Mas, graças à rede, os criadores do jogo não apenas puderam conhecer o funk carioca como pedir a autorização para seu uso. Da mesma forma, a suspensão de um produto de alcance global a pedido da justiça de um país que não fosse seu produtor – ainda mais de um game – seria apenas risível.

Não mais. As duas situações – o funk carioca em um videogame e a decisão judicial brasileira – fazem parte de um novo cenário mundial que desrespeita fronteiras geográficas por definição. E, com isso, legislações nacionais vão ficando obsoletas, ultrapassadas ou conflitantes. Resta saber se chegaremos a um consenso – e se este consenso será uma constituição planetária. Mas, por enquanto, isto é apenas especulação.

Bilu!
O alienígena da voz fininha
Uma reportagem feita com um suposto alienígena no interior de Minas Gerais tornou-se uma das sensações da internet brasileira. Com uma vozinha ridícula em português, o “ET”, autodenominado “Bilu” (sério) é questionado se tem alguma mensagem para nós. Sua resposta já pode ser considerada um clássico de 2010: “Apenas que… busquem conhecimento”.

Na minha coluna no Caderno 2 desta semana, falo novamente sobre o filme do Facebook, não sobre ele propriamente, e sim sobre uma mensagem que está embutida em seus minutos…

O MP3 e ‘A Rede Social’
O dilema digital para as massas

A Rede Social, novo filme de David Fincher (o mesmo diretor de Clube da Luta e Zodíaco), conta a história de como o site Facebook foi criado – e entra em seu terceiro fim de semana de exibição nos EUA correndo o risco de manter-se como líder das bilheterias desde sua estreia. O resultado pode surpreender quem crê que, para ter um bom desempenho comercial na telona, basta adaptar uma história em quadrinhos, enchê-la de efeitos especiais e exibi-la em 3D.

A Rede Social não tem nada disso: dispõe-se a contar como um gênio antissocial inventou uma ferramenta de socialização digital que tornou-se o maior site do mundo. Denso, frio e devagar quase parando, o filme é o oposto do que se espera de um sucesso hollywoodiano, mas o nome dos envolvidos ajuda a entender o porquê do sucesso – além de Fincher, o filme é escrito pelo mesmo Aaron Sorkin da série West Wing e protagonizado pelos novos galãs Jesse Eisenberg e Andrew Garfield (que fará o novo Homem-Aranha), além do cantor pop Justin Timberlake.

E Justin é o assunto da coluna de hoje. Nem preciso entrar nos méritos de sua atuação (que é boa, mesmo que ele venha da música e não do cinema), mas sim no personagem vivido pelo popstar em A Rede Social. Ele faz as vezes de Sean Parker, cofundador do Napster, o software de compartilhamento de arquivos online que virou a indústria musical – e, em seguida, a do entretenimento como um todo – do avesso.

Em certa passagem do filme, que só estreia no Brasil em dezembro, ele conversa com o personagem de Eisenberg (que vive o criador do Facebook, Mark Zuckerberg) sobre o potencial da rede social criada por ele. E, no meio do papo, cita que, embora todos envolvidos no Napster tenham sido processados e que o software tenha causado a fúria da indústria fonográfica, ele sim, mudou a forma como consumimos música. E pergunta, ironicamente, se alguém ainda entra em lojas de discos para comprar CD.

A ironia se desdobra ao lembrarmos que Justin é um dos principais vendedores de disco da mesma indústria que foi estilhaçada pelo MP3, formato de arquivo que o Napster estabeleceu como padrão para a música no início do século 21. Mas não deixa de ser importante que este tema venha a ser uma das principais questões discutidas – entre outras, bem mais severas – em um dos filmes que, certamente, será um dos mais vistos em 2010. E, como o próprio Mark após o papo com Sean, pode fazer o grande público pensar um tanto sobre este assunto.