Um homem sério

, por Alexandre Matias

Prepare-se para mais uma série de mudanças aqui neste espaço de internet

Pronto, casei.

A cara de felicidade na foto do meio aí em cima é um recorte específico num momento muito especial da minha vida: meu rosto logo após ter sido anunciado como “marido” – e, mesmo que o anúncio tenha sido numa paisagem desértica para três testemunhas, sendo uma delas um esquilo, foi do jeito que deveria ser, para quem deveria ser, na hora em que deveria ser. Para quem acompanha minha vida – leitor, amigo ou fã – não muda muita coisa: mesmo endereço e horários, talvez reparem na aliança na mão esquerda, mas, olhando de fora, pouco mudou.

Afinal de contas, o casamento não é para os outros.

O que muda é que, internamente, é hora de celebrar algo que já era regra. A transformação da rotina num ritual, numa data comemorativa. E é inevitável que funcione como gatilho para todo o resto das coisas. E é o motivo de eu armar uma mudança drástica no formato deste espaço de internet, a que você já deve meio que ter se acostumado (errado) nas últimas semanas.

A principal mudança: ritmo.

Há algo que mistura paixão e trabalho e me persegue de forma tranquila, que é a forma como virei catalizador de informação. Outro dia o Bruno me chamou de “arqueólogo” digital, o que dá a impressão de que eu fico caçando pepitas online. Ledo engano – embora eu tenha esta natureza exploradora no sangue (sou jornalista por vocação, sempre soube disso), não uso essa minha qualidade aqui no Trabalho Sujo. Apenas solto minha rede no mundo e deixo que me mandem coisas. “Matias, como você tem tempo para descobrir tanta coisa?”, suspiram as fãs. “São elas que me querem”, sempre digo isso para todas.

Faço a rapa em lugares que já fazem esse trabalho. Bandas novas no Hype Machine, fotomontagens no Fukung, vídeos no Buzzfeed, ficção científica no io9 e teorias da conspiração na Disinfo – e cada site desses é só o começo para uma gama gigantesca de outros trocentos sites parecidos. Mas o trabalho não-trabalho de puxar a rede da praia uma vez por dia tornou-se, com o tempo, maçante. A onipresença é uma das minhas qualidades mais curto exercer e me divirto com histórias que me contam quando alguém que me conhece “revela” que eu programo tweets. Só que chega uma hora em que programar tweets e agendar posts vira trabalho mecânico. Fora que, como já disse outras vezes, transformei o blog num tumblr e deixei de lado uma das coisas de que mais gosto – escrever.

Volto para o papo de explorador, exerço este papel melhor, hoje em dia, no comando do Link ou em trips meramente pessoais, que sempre penso em materializar em texto, mas a pauleira do formato tumblr (quase um post por hora durante horário comercial, reveja aê) faz que eu sempre deixe os textos para escrever depois. E com isso perco o estímulo inicial. Assim foi com o texto sobre o final de Battlestar Galactica, a crítica ao Merriweather Post-Pavillion e a defesa da desimportância do formato álbum hoje, a análise sobre a importância de Mark Millar para a cultura pop moderna, a resenha sobre o show do Jesus & Mary Chain no Terra de 2008, a longa jornada buraco afora de Alice in Sunderland e, exemplos recentes, um paralelo entre Black Hole e Scott Pilgrim, os shows do Pavement em Nova York ou os do vigésimo primeiro aniversário da Matador em Las Vegas.

O meu trabalho no Link pode ser medido pelo caderno e pelo site, finalmente a equipe está azeitadíssima e tenho a consciência de que edito um dos melhores cadernos de jornal do Brasil. Prefiro nem falar mais – quem conhece, sabe.

Mas este lado fuçador, falando de coisas que mais dizem a respeito de comportamento e cultura do que o vasto tema que abordo no meu trabalho diurno, tem ficado em segundo plano. Não mais. A partir desta semana, oficializo a redução de velocidade do Trabalho Sujo em prol da produção de mais textos. A princípio, eles virão curtos – este texto que você está lendo não será o padrão a seguir (embora sei que muitos prefeririam um texto gigantesco por semana do que vários curtinhos no mesmo período). Mas é uma época de ajustes. Já estou pensando em começar minha prole e é inevitável que este tempo gasto diante do computador será reduzido. Fora que estou começando a finalmente executar o meu livro (sobre o quê?, você pergunta; qual deles? contrapergunto) e vai ser inevitável que esta produção também tome meu tempo.

Compenso a queda no ritmo com a ressurreição de posts antigos do Trabalho Sujo – e quando digo antigo, me refiro inclusive à fase impressa, entre 1995 e 1999, que trombei num velho HD externo outro dia. E vai ser inevitável que eu continue postando vídeos e JPGs, mas sem a mesma frequência. Os tweets caem de produção e podem ressurgir durante dois dias seguidos ou por apenas algumas horas consecutivas. Às vezes, virão do nada, trazendo só uma informação ou ditado daquele instante – um tweet puro, natural, sem link. O Vida Fodona segue semanal e a Gente Bonita, num hiato por excesso de trabalho de ambas as partes, ressurge em breve, em alguns lugares do Brasil.

E aqui chego ao ponto central desta mudança: ela consolida algo que prego há tempos, desde que saí da Conrad, quando percebi, na marra, que fosse traduzindo um livro, discotecando, entrevistando alguém, fazendo um podcast ou mediando um debate, não deixo de ser jornalista. Eu sou um filtro, uma ponte – busco informações que as pessoas do outro lado não sabem que existem e as exponho a elas. Remixo contextos a partir dos meus gostos, minhas áreas de especialidade, meu tom autoral. Um tom sério.

E, na viagem que fiz antes de me casar nos EUA, me deparei com este conceito várias vezes, desde a incredulidade dos amigos que – animados ou espantados – perguntavam “sério?” quando eu dizia que ia casar não só em Las Vegas mas no Grand Canyon como na presença constante do filme Um Homem Sério, dos irmãos Coen, nas TVs pelos hotéis. Vi, portanto, vários pedaços de um filme sobre um homem em pedaços a partir do desmoronamento de sua “séria” reputação. E o tempo todo eu confrontava o drama de Larry Gopnik (o protagonista do filme) com o do Dude (protagonista de outro clássico dos irmãos, Big Lebowski) – que é o estereótipo do homem não-sério. Ambos passavam por enrascadas parecidas independente do estilo de vida que levavam, certinho ou largado.

Foi quando eu percebi que a seriedade virou sinônimo para chatice – uma pessoa hoje para se dizer séria tem de ser alguém sem humor, sem disposição para curtir a vida, gente que não dança. E também quando percebi como sou sério exatamente do jeito que sou.

Pois só sou quem sou por conseqüência disso. A seriedade é consequência de uma paixão bem resolvida e só tenho a agradecer, adoro tudo que eu faço, com quem eu faço, do jeito que eu faço. Então por que não melhorar?

PS – E antes que você suspire “que egotrip!”, eu lembro que este saite inteiro é isso.
PS 2 – A mudança não é só no Trabalho Sujo, falo mais disso em breve.
PS 3 – E mais uma novidade vem ainda hoje!

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