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Ozu na manha

Foto: Mariana Harder (divulgação)

Foto: Mariana Harder (divulgação)

Se a volta dos anos 90 já aconteceu ou ainda vai acontecer é uma discussão em aberto, uma vez que a última década do século passado não apenas abrigou diversos nichos estéticos como começou a misturá-los – e as tentativas de ressuscitar a vibe daquele período em inúmeros acontecimentos artísticos (discos, filmes, festas, livros, programas de TV, quadrinhos e até na própria internet, revisitada como um fim e não um meio) não criaram volume a ponto de mexer com o inconsciente coletivo de forma considerável como aconteceu com os anos 70 durante os anos 90 ou os anos 80 na primeira década do século. O grupo paulistano Ozu é um destes inúmeros novos acontecimentos culturais que bebem diretamente daquele período – e não está muito interessado propriamente em soar retrô.

Lançando seu primeiro álbum na próxima quarta no Sesc Pinheiros (mais informações aqui), Inner sucede dois outros trabalhos que pavimentaram sua jornada de forma bem precisa. Tanto The DownBeat Sessions Vol. 1, lançado no ano passado, quanto The Lo-Fi Sessions, no início do ano, apontavam para o trip hop e soul eletrônico inglês do fim do século passado, embora o líder da banda, o tecladista Francisco Cabral, aponte para a corrente oriental do gênero. “Acho que DJ Krush, DJ Kensei, DJ Yas e Kemuri Productions são as influências mais marcantes”, ele explica por email, reforçando outros nomes influenciados por esta cena, “existe um pessoal por aí que vem seguindo essa onda noventista também que gostamos muito como Nymano, Eevee, Unseen Village…”

O grupo é um sexteto mas a origem de suas canções começa nos samples. “São a primeira idéia pra uma música nova”, continua Cabral. “Geralmente, se já não for o caso do sample a bateria e o baixo vem em seguida. O processo básico é construir bases ou beats para adicionar melodias e linhas de voz no final. Isso tudo feito, a banda toca a composição para os ajustes finais”. E faz o contraponto com a banda ao vivo: “O show foge um pouco das repetições do hip hop e abre mais espaço para variações e improvisos criando uma atmosfera um pouco mais pro jazz. Apenas alguns timbres bem pontuais são sampleados, o resto fica bem orgânico mesmo.”

Can via Oruã

Foto: Karin Santa Rosa

Foto: Karin Santa Rosa

Lê Almeida segue explorando os rumos do próximo disco de sua nova banda, Oruã, e entrega em primeira mão para o Trabalho Sujo sua ótima versão para “Mother Sky”, do grupo alemão Can. “Já faz um tempo que tamos gravando o nosso segundo disco, Romã, e em meio a shows e sessões de gravação no Escritório começamos a gravar esses covers. O primeiro deles é ‘Mother Sky’ do Can, que já tocamos em alguns shows e quase sempre não funciona muito, até pessoas próximas dizem que não entendem muito bem, porém na nossa gravação acho que conseguimos soar o tanto pesado e agressivo que queríamos”, explica o herói do indie fluminense, que abre seu Escritório mais uma vez para comemorar o aniversário do baterista Phill neste sábado (mais informações aqui), quando lançam oficialmente sua versão do grupo kraut.

E Lê já anuncia que outra versão vem aí. “O próximo cover que vamos lançar vai sair num split em tributo ao Charlie Brown Jr. junto com a Marianaa, um conjunto amigo nosso lá de Campo dos Goytacazes”. Vamos ver.

venice-bitch

Lana Del Rey lança mais uma música nova – a mágica “Venice Bitch” tem nove minutos e a música mais etérea que ela já gravou – e anuncia que seu próximo disco, agora batizado de Norman Fucking Rockwell, sairá no início de 2019. Produzido pelo mesmo Jack Antonoff que fez 1989 e Reputation de Taylor Swift, Melodrama de Lorde e Masseduction, de St. Vincent, a faixa segue a linha da música que lançou na semana passada, “Mariners Apartment Complex“, que aos poucos retira Lana do mood dos anos 50, mas desta vez a traz para os anos 70, com blips sintéticos retrô e uma atmosfera ainda mais hipnótica que a faixa anterior. É uma das melhores músicas de Lana, embora demore pra você perceber isso.

emicida-inacio

“Qual capitão do mato vai caçar like com meu nome amanhã?”, pergunta-se Emicida na incisiva “Inácio da Catingueira”, lançada às vésperas da eleição mais tensa da história do Brasil e dando nome aos bois (sampleando o “tem que manter isso aí” do Temer e citando Lobão, MBL e outros testas de ferro do sistema).

O título da música é referência ao poeta e escravo paraibano Inácio da Catingueira, morto no final do século 19 e que usava a poesia como forma de denunciar o que acontecia com ele. Quase um século e meio depois de sua morte, ele inspira o rapper paulistano a deixar de usar meios termos e ir direto ao assunto, como explica em seu site:

Durante muito tempo, observei com respeito a voz de quem critica minha caminhada. A maturidade me fez, me obrigou a fazer outras análises dessas vozes. Retribuo o respeito das que me respeitam, afinal, respeito só existe se for mão dupla. Distorções canalhas, e essa é a palavra mais leve para descrever a atitude de grupos ligados ao que mais baixo existe na politica, produzidas com a intenção de confundir as audiências a respeito do discurso que proferimos e das ações que concretizamos, espalham-se como pragas. São o que se tem chamado de fake news, notícias falsas.

Grupos à direita e pseudo-militantes do campo progressista, esquerda, ou sei lá o quê, unem-se em seus discursos com a intenção de atingir uma caminhada que há 15 anos rompeu com as correntes da indústria fonográfica e hoje é copiada por essa mesma indústria, porém com personagens de pele mais clara e discurso mais brando. Os cães lacram, mas a caravana não para.

Inácio me inspirou por romper as correntes e trazer em si a dor e a delícia (se é que essa é a palavra certa) de transcender o senso comum. Muitos questionamentos vieram a mim, e eu, em meio a trabalhos, construções sérias e grandiosas para todos, problemas pessoais como qualquer ser humano e também envolto em meus sonhos, acabei deixando para responder em outro momento. Inácio parece uma resposta, mas é um convite à reflexão, sobre quem são os reais inimigos dos que dizem lutar por igualdade mas gastam seu tempo, munição e energia dando tiros em espelhos, que refletem a si mesmos. Em pouco tempo, nessa toada, seremos todos cacos e o triunfo será entregue de bandeja, a quem crê que o Brasil não precisa mudar urgentemente. Não derrape nas polêmicas.
Nossas vitórias iriam despertar muito ódio, sempre soubemos disso, estamos prontos para atravessar esse caos de pé, com elegância e cabeça erguida. Inteligência, respeito, afeto e compaixão, se fazem urgentes, o ubuntu é isso.

Assisti ao longo de minha trajetória, muitos artistas inspiradores serem atacados, desrespeitados por motivos sujos, intenções secundárias e argumentos rasos, com a intenção de se aproveitar da confusão de nosso panorama cultural e manter nossos irmãos e irmãs no lixo por mais 500 anos.

Esse tempo acabou. Acalme seus ânimos e volte pro front com uma mira melhor. De nada adianta ser uma metralhadora giratória se você estiver mirando em seu próprio pé.

O rapper apresenta-se neste fim de semana em São Paulo, na Casa Natura (mais informações aqui).

Manumaltez

O paulistano Manu Maltez lança neste domingo, às 18h, no Sesc Pompéia seu novo disco-livro-filme, O Rabequeiro Maneta e a Fúria da Natureza (mais informações aqui) e ele conta a história por trás desta lenda urbana em um making of lançado em primeira mão no Trabalho Sujo.

“Esse curta metragem é o terceiro filme que uso animação, o segundo que só tem animação. O primeiro misturava com cinema. Esse filme tem praticamente a mesma historia contada no livro-vinil, mas com um tom um pouco mais de fábula. Como é um curta tem menos texto, muito mais com a forca das imagens. Ele tem em média quase cinco mil desenhos, num processo que durou quase dois anos de trabalho.

Pra mim a animação tem esse desafio que é um pouco o oposto do desenho, quando você faz o desenho só – às vezes você consegue dar o movimento com um desenho parado e criar uma tensão, uma história, e a gente percebe um movimento, mas naquela coisa do parado. E na animação é um pouco o oposto. Eu procuro perceber o desenho, cada desenho parado dentro de um desenho em movimento. A gente consegue sentir a eternidade ali, o estático de um desenho só. Porque também é um processo de frame a frame. Cada frame é desenhado mesmo à mão. É curioso pra mim trabalhar com o desenho e com a animação dessa forma.

E é um trabalho que se soma a outros, em que junto às linguagens que tenho trabalhado nos últimos quinze anos, que é a música, imagem e texto também. Vou orquestrando esses valores, linguagens que cada um tem com sua força. É uma proposta de ir juntando todas essas linguagens. Uma espécie de fábula perturbada.

Além do Rabequeiro, O Diabo era Mais Embaixo, outro trabalho que se comunica com esse, e Cambaco juntos têm esse tom de fábula, lendas cotidianas, fábulas perturbadas. Eu penso às vezes nessas definições. De ver algumas correspondências entre a música que faço e os desenhos, com uma certa sujeira, da espontaneidade do momento e que eu acredito muito nisso, que é distante da eugenia, podemos dizer assim.

É um filme sobre membros fantasmas e seus encaixes e desencaixes e muito sobre esse despedaçamento meu enquanto homem e enquanto artista também. Talvez o amor seja um membro fantasma. O amor como um membro fantasma. Acho que essa é a proposta.”

15 de setembro: O Bebê de Rosemary (1968) e Corra! (2017)

15 de setembro: O Bebê de Rosemary (1968) e Corra! (2017)

Na programação da terceira edição da sessão Cine Doppelgänger, eu e a Joyce, do Cinemascope, vamos exibir dois filmes tensos na Sala Cinematógraphos da Casa Guilherme de Almeida: primeiro o clássico O Bebê de Rosemary, de Roman Polanski (às 11h), e depois o hit moderno Corra!, de Jordan Peele (às 14h) – dois filmes de terror que lidam com o aspecto corriqueiro da maldade e que levantamm questionamentos sobre feminismo e racismo, refletindo suas épocas. Eu e Joyce conversamos sobre os dois filmes logo em seguida do segundo filme, às 16h30, e as inscrições para o debate podem ser feitas no site da Casa Guilherme de Almeida (mais informações aqui). Abaixo, você assiste ao debate que rolou logo depois da última sessão, A Paranoia por Dentro, que exibiu Rede de Intrigas e De Olhos Bem Fechados.

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Um dos fundadores do Sheik Tosado e percussionista da Nação Zumbi, Gustavo Da Lua começa a revelar seu segundo disco solo, o sucessor de RadianteSuingaBrutoAmor, de 2015. Batizado apenas com o nome do músico, o disco segue sua busca por uma sonoridade ao mesmo tempo nordestina, caribenha e africana, como dá para perceber pelo primeiro single “Ponte Sinai”, que ele lança em primeira mão no Trabalho Sujo.

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Eis a íntegra do bate-papo que tive com a Joyce do canal Cinemascope no mês passado na segunda sessão do Cine Doppelgänger, quando revisitamos De Olhos Bem Fechados do Kubrick e Rede de Intrigas do Lumet em um sábado de graça na Casa Guilherme de Almeida.

Lembrando que neste sábado, a partir das 11h, acontece a terceira sessão, reunindo os filmes O Bebê de Rosemary e Corra! As inscrições podem ser feitas no site da Casa Guilherme.

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Lana Del Rey dá o primeiro sinal de vida após chamar Jack Antonoff para ajudar-lhe na produção de um novo disco: “Mariners Apartment Complex” é folk, existencial e psicodélica na mesma medida, abrindo uma dimensão anos 60 que não existia no imaginário da cantora e compositora. Será que vem aí uma fase hippie de Lana Del Rey?

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“Há tempos não estava vendo muito sentido em prosseguir no rolê da música”, desabafa Rodrigo Lemos, um dos fundadores da Banda Mais Bonita da Cidade que passou a lançar seus trabalhos com o nome solo Lemonskine e o grupo Naked Girls and Aeroplanes. “Rolou depressão mesmo após o meu último lançamento. Ainda sem saber como proceder, fui cavoucar o que tinha acontecido comigo ao longo dos anos, tipo terapia mesmo! Passei por um monte de coisa desde o meio da década passada e as coisas vão mudando. O panorama atual não é meu lugar de fala.”

Foi pensando nisso que optou por o que ele chama de “regressão” ao seu primeiro contato com o rock, o trio Nirvana. “Eu devia ter em torno de 12 anos; já havia mudado do Rio de Janeiro para Curitiba e lembro de ter comprado meu primeiro disco com dinheiro economizado de “mesadas” nessa época, o acústico da MTV americana, que aqui no Brasil chegou quase junto com a notícia da morte do Kurt”, lembra. “Foi um período em que eu vivi isso muito intensamente. Como adolescente, não conseguia exatamente compreender o sentido daquilo tudo, mas encontrava ecos internos já apontando pro interesse em música, em formar uma banda… Aí, me aprofundando no Nirvana, naturalmente cheguei ao In Utero e não larguei mais. Foi, com absoluta certeza, o disco que mais ouvi durante a juventude.”

rodrigolemos

Ao se deparar com o início de sua educação musical e o momento de sair de cena para dar voz a outras vozes (“por hora, prefiro participar do momento como produtor musical, e me coloco numa posição de empatia e apoio às novas vozes que realmente importarem, ainda mais no contexto do Brasil”, completa), Lemos capitaneou uma versão cheia de soul justamente para o disco-epitáfio de Kurt Cobain – lançado meses antes do suicídio de seu autor, Kurt Cobain. “A princípio, não houve um grande planejamento em torno do In Utero especificamente, mas sempre tive curiosidade com essas versões que buscam outro sentido na obra original”, continua Lemos. “Aí fui arranjando as versões em casa e em estúdio, dando os pontos de partida e convocando pessoas que eu admiro e que, já sabia, teriam alguma identificação com essa obra.”

“Inevitavelmente, tenho como referência projetos como Easy-Star All Stars, por exemplo – que já lançou releituras dub e reggae para Michael Jackson, Radiohead, Pink Floyd… Recentemente, tocando em casa, achei que estivesse compondo uma progressão de acordes bem funkeada, quando comecei a cantar uma melodia que, minutos depois percebi, era igual à de ‘Heart-Shaped Box’. Foi quando veio o clique”, lembra da origem soul do projeto.

O resultado é um disco bonito, com momentos inspirados e contrapontos interessantes, que às vezes desliza para o clichê, mas sempre mantém uma linha de raciocínio que nunca desanda, no máximo se repete. Heart-Shaped Tracks – A soulful tribute to Nirvana’s In Utero, primeiro lançamento do selo de Lemos Mezcla Viva Records reúne nomes como Blubell, Francisco El Hombre, Tuyo, Michele Mara, Letrux e os projetos autorais do idealizador num tributo essencialmente coeso e bem executado.

“A vida colocou um monte de fãs de Nirvana em volta de mim”, brinca. “Eu não pedi, mas quando vi já sabia quem poderia me ajudar a tornar isso realidade. Acho que o fato de ser um remake cantado majoritariamente por vozes femininas foi a maior surpresa. E ir encontrando a universalidade das letras do álbum, sobretudo. Pisei em ovos, por exemplo, pra convidar a Michele Mara para interpretar a versão de ‘Rape Me’. Por outro lado, fiquei muito à vontade com ela enquanto gravávamos!”

“Cada encontro foi muito especial à sua maneira, até os encontros à distância, como foi o caso da Leticia Novaes, do Letrux, que tem toda uma relação pessoal com Nirvana também, e encontrou tempo em meio à sua correria para transbordar em ‘All Apologies'”, continua.Um destaque que observo com carinho, foi o debut da Isabela Cafefortesemaçúcar. Ela participa em ‘Tourette’s’, que é uma música bem menos popular no álbum original mas, aqui, foi uma surpresa entre a equipe que a conhecia pessoalmente sem nunca ter ouvido sua voz cantante.”

É o primeiro projeto do selo, que Rodrigo imagina como ponto de partida para o envolvimento de seu trabalho com algumas das pessoas que participaram do projeto, mas por enquanto seu foco é mostrar o disco fora do Brasil. “Esse foi um projeto piloto pra sacar qual a substância disso em vendas digitais – que é só o que estou licenciado para fazer. Sacar se as pessoas estão interessadas nesse tipo de lançamento. Mas a idéia é que o selo possa lançar um remake por semestre, então o próximo já vai entrar no forno”, diz, sem contar quais nomes tem especulado.

HeartShapedTracks

Raissa Fayet + Bananeira Brass Band – “Serve the Servants”
Yuri Lemos + Igor Amatuzzi – “Scentless Apprentice”
Lemoskine – “Heart-Shaped Box”
Michele Mara – “Rape Me”
Francisco El Hombre + Bananeira Brass Band – “Frances Farmer Will Have Her Revenge On Seattle”
Jan & Machete Bomb – “Dumb”
The Shorts – “Very Ape”
Blubell + Dopler Beatz – “Milk It”
Tuyo + Bananeira Brass Band – “Pennyroyal Tea”
Naked Girls and Aeroplanes + Bananeira Brass Band – “Radio Friendly Unit Shifter”
Isa Caféfortesemaçúcar – “Tourette’s”
Letrux + Bananeira Brass Band – “All Apologies”