Já deu? Chega de Lost? Bom, há controvérsias. Ao responder em alguns blogs que falaram do fim de Lost, eu ainda estou recebendo ainda hoje, os novos comentários que esses posts receberam, e notei uma coisa: num primeiro momento era um embate equilibrado sobre quem gostou e quem não gostou, agora, parece que é um assunto em pauta apenas pra quem não gostou.
A idéia é que quem gostou já absorveu isso em suas vidas e tocou em frente, de forma análoga aos personagens da série. Quem não gostou ainda está remoendo a história do fim. E o protesto é sempre o mesmo: Não respondeu às perguntas e foi um final novela das 8. Aí eu peço desculpa pela prepotência: Vocês não entenderam nada! Não é o fato de ter gostado ou deixado de gostar que me diz que vocês não entenderam. Gostar é uma questão de escolha pessoal e pronto. Tem gente que gosta de jiló, tem gente que não.
A questão é que os motivos de vocês não terem gostado remetem ao fato de vocês terem comprado gato por lebre. Lost não é um livro de Ágata Christie, está muito mais pra um de Gabriel Garcia Marques…
GGM é meu escritor favorito e 100 anos de solidão meu livro de cabeceira. Em momento nenhum isso prova a genialidade dele de forma absoluta. Prova apenas pra mim. E por estarmos tratando da mesma vertente literária, era de se esperar que eu gostasse de LOST e quem não gosta de GGM, detestasse…
Mas aí a polêmica fica em outro patamar. O patamar de gostar ou não de um determinado gênero literário. E talvez de ter havido alguma confusão na hora de comprar o produto (ser convencido a assistir LOST). Então vamos falar do processo de venda.
Depois da Sky + eu quase não vejo mais propaganga: gravo meus programas e pulo os comerciais. Mas vez por outra me pego assistindo em especial comerciais de séries que eu assisto e choro de rir. Na própria AXN: os comerciais de Raising the Bar são extremamente focados nos romances entre os personagens dando um ar falso de uma série que tenta ser sexy: a série é sobre os dilemas da defensoria pública e até rola romance, mas num plano secundário: não é barrados no fórum como a propaganda faz parecer. E esse é um exemplo de milhares. Durante muito tempo me perguntei se quem faz as propagandas não podia assistir a série antes de falar tanta besteira. Ingenuidade minha: sexo vende muito mais do que dilemas morais, então no exemplo que dei, a propaganda se concentra nas insinuações de sexo muito mais do que nos dilemas de defender judicialmente quem não pode pagar por caros advogados.
Então entendo que você justifique suas críticas dizendo: Lost foi vendida como uma série de mistérios, e série de mistérios precisam que esses mistérios sejam “resolvidos” no final. Bom, você caiu no conto do vigário, acha mesmo que Activia é mágico e faz ir ao banheiro regularmente e que beber Jonhy Walker faz você ir longe na vida. Propaganda é propaganda e não dá pra confiar cegamente. Alias, vamos combinar, não dá pra confiar e ponto.
Então vamos concordar em um ponto: as propagandas do AXN a cerca de LOST eram “propagandas enganosas” que o levaram a pensar que LOST era uma série scifi com respostas lógicas aos mistérios propostos. Acione o procon, mas não reclame da série.
Lost era uma parábola narrada através do Realismo Fantástico. O fato do capítulo final já ter estado escrito desde o episódio piloto de LOST é a prova que os seus roteiristas não se perderam no meio da série e colocaram um final meia boca porque não conseguiram explicar os mistérios. Eles nunca quiseram explicar nada nesse nível de romance detetivesco… Isso não os faz perfeitos e que não tenham tropeçado aqui ou alí, ou que a série tenha um ou outro erro de continuismo, mas apenas que responder às perguntas levantadas pelos mistérios da série nunca foi a intenção primordial da obra, aliais, nem primordial nem secundária. Eram elementos simbólicos usados pra contar a história e apenas isso.
Realismo Fantástico, também chamado de Realismo Mágico ou Maravilhoso é uma corrente literária do século XX, em especial latino americana, que tem como nomes de destaque Gabriel Garcia Marques (Colômbia, e ganhador do Nobel de literatura), Julio Cortázar (Argentina), Arturo Uslar Pietri (Venezuela), José J. Veiga (Brasil), José Luis Borges (Argentina) e Alejo Carpentier (Cuba).
Toda a idéia do Realismo Fantástico é a de fundir duas visões tidas como antagônicas:a cultura da tecnologia e a cultura da superstição e através delas, contar uma história cujo interesse é mostrar o irreal ou estranho como algo cotidiano e comum (Os Losties viajam no tempo, eles acham isso estranho, mas ninguém para e surta e diz: Viajar no tempo é impossível, vamos buscar uma explicação científica pra isso ou melhor, vamos assumir que estamos todos loucos. Ao contrário, eles encaram o improvável como algo factível dada a realidade da ilha) e usar essas passagens como metáforas e críticas sociais.
Diferente do surrealismo, o inesperado irreal é incorporado na realidade e possui coerência interna. Não necessita de uma explicação lógica, mas possui uma explicação mítica (e eventualmente mística) que é compartilhada num nível subconsciente e está em concordância com os demais elementos da história.
Wikipédia básica para a galera… são características do realismo fantástico:
Conteúdo de elementos mágicos ou fantásticos percebidos como parte da “normalidade” pelos personagens;
– Elementos mágicos algumas vezes intuitivos, mas nunca explicados;
– Presença do sensorial como parte da percepção da realidade;
– O tempo é percebido como cíclico, como não linear, seguindo tradições dissociadas da racionalidade moderna;
– O tempo é distorcido, para que o presente se repita ou se pareça com o passado;
– Transformação do comum e do cotidiano em uma vivência que inclui experiências sobrenaturais ou fantásticas;
– Preocupação estilística, partícipe de uma visão estética da vida que não exclui a experiência do real.
Opss, acabo de descrever LOST.
Você tem TODO O DIREITO de não ter gostado de Lost, mas então, desgoste dele pelo que ele é: uma obra de Realismo Fantástico. E para uma obra dessa vertente literária, Lost não possui grandes falhas e cumpre o que se propôs. E (para quem gosta do estilo) foi uma obra prima se pensarmos que foi algo que passou na normalmente rasa e pouco significativa televisão…
Gosto não se discute, mas entendimento sim…
* Adriana escreveu este texto em seu blog.
Acompanho Lost desde seu primeiro episódio. A cada semana uma nova expectativa. Mistérios e mais mistérios. Interpretações ilimitadas e conjecturas inusitadas. Nos primeiros episódios da temporada final eu já estava me preparando para um novo Twin Peaks, um novo Matrix Revolutions. Em seus minutos derradeiros, eu estava com o canto da boca torcido, característico de quando não estou gostando do andamento de um determinado direcionamento.
E ali, Jack na igreja, um simples vitral ao fundo. Meu eu cauteloso e metódico dá lugar ao interpretativo emocional. Foi naquele instante que eu senti que todas aquelas 6 temporadas valeram a pena. E, superinterpretação ou não, me senti aliviado não pelo término, mas sim pela simplicidade no direcionamento dado pelos roteiristas. Uma artifício pobre? Pode até ser, mas longe do desfecho enfadonho que eu imagina que seria.
Enfim. Foi muito bom ser fã de Lost.
* Sandro publicou este texto em seu blog.
Brasileiro humilha.
Chore.
E olha os itens que vem nessa caixinha:
Lost: Season Six
* Every Sixth Season Episode
* Bloopers and Deleted Scenes
* Audio Commentaries accompany four episodes (LA X, Dr. Linus, Ab Aeterno and Across The Sea)
* The End: Crafting A Final Season – Join the LOST team along with other producers of some of television’s longest running shows as they examine the challenges of ending a landmark series.
* A Hero’s Journey – What makes a hero? Which survivors of Oceanic 815 are true heroes? These questions and more are explored.
* See You In Another Life, Brotha – Unlocks the mysteries of this season’s intriguing flash sideways.
* ‘LOST on Location’ – Behind-the-scenes featurette showcasing stories from the set, including all-new interviews with actors and crew.
* PLUS: A LOST Blu-ray & DVD exclusive – Go deeper into the world of LOST with a much-anticipated new chapter of the island’s story from Executive Producers Damon Lindelof and Carlton Cuse.Lost: The Complete Collection
* Every Episode in the Series (Seasons 1 through 6)
* Over 30hrs of Season 1-6 Bonus materials (previously released materials from Season 1-5 and the all-new Season 6 bonus material)
* A unique series of featurettes that takes viewers on very personal tours of Oahu where the series was created, with key cast and crew as they reflect.
* Exploring the global phenomenon that is Lost, bonus showcases events ranging from the series cast and crew at San Diego’s famed Comic-Con convention to international voice recordings, local events and even fan parties, all of which helped make the show into a worldwide favorite.
* A closer look at some of the props with cast, writers and producers, exploring their significance, stories and emotional ties to the characters.
* Humorous yet emotional look at every character who died on the series
* 16 hilarious Lost “Slapdowns” featurettes showcasing celebrity Lost fans who confront Executive Producers Damon Lindelof and Carlton Cuse to ask press questions about the final season, including the Muppets and cast members Nestor Carbonell, Michael Emerson, Rebecca Mader and more.
* The exciting collectible packaging also includes:
o Special Edition collectible ‘Senet’ Game as seen in Season Six
o Custom LOST island replica
o Exclusive episode guide
o Collectible Ankh
o Black light penlight
Demais, hein.
E o Gideon’s Life terminou sua série assim.
Estava desde domingo evitando spoilers (revelações sobre detalhes importantes da história) no Twitter e nos blogs que eu acompanho. Cheguei a ler várias vezes a palavra decepção, mas parava por aí.
Enquanto via o último capítulo de Lost, agora há pouco, lembrei de uma entrevista do cineasta David Lynch sobre o seriado Twin Peaks: por ele, o agente Dale Cooper nunca descobriria quem matou Laura Palmer. A emissora acabou obrigando os produtores a eleger um assassino na segunda temporada, e o interesse pela série acabou.
Eu achava que gostava mais da parte de ficção científica de Lost que da parte mística. (Se você é o único que ainda não assistiu, melhor parar por aqui.) Pois é. Não existia ficção científica. Estava todo mundo morto desde o começo. Não foi por falta de aviso do Richard Alpert. Essa teoria, que se confirmou, surgiu na internet logo após os primeiros episódios, e foi negada várias vezes pelos produtores.
Por isso tantos acontecimentos desafiavam a física, a lógica e a continuidade. Daniel Faraday, afinal, não passava de um pianista mimado. Como a ação do último episódio girou em torno de uma rolha, o principal foram os momentos idílicos e proustianos. Momentos equivalentes à irregularidade no piso que fez Marcel pensar, no livro O Tempo Redescoberto, sobre como todas aquelas pessoas importantes na sua vida, que pareciam pequenas no espaço, eram gigantes no tempo.
No final, não importa qual seja o grande tema de Lost – redenção? As perguntas não foram respondidas porque não tinham resposta. Encontrar o assassino mata a série. O último episódio serviu para destacar que o importante é a jornada. E mostrar como todos aqueles personagens acabaram se tornando gigantes, por todas as horas dedicadas a eles, durante seis temporadas, na minha e na sua vida.
* Renato publicou este texto em seu blog.
O que tem em comum, Stanley Kubrick, Woody Allen, Joel Coen, Larry David, Claude Lelouch, Billy Wilder, Steven Spielberg, Doroty Parker, e Roman Polanski? Contar histórias é a vocação primeira do povo judeu. Da milenar misná a trilogia Star Wars, judeu tem a manha:
Ficção é o caminho mais curto para se chegar a Verdade.
A frase é minha. Tenho outra:
Se voce quer que as pessoas acreditem em você, conte uma mentira.
JJ Abrams é judeu. Ele também tem uma frase:
Antes de entedermos LOST, as montanhas são montanhas e os rios sãos os rios; Ao nos esforçarmos para entender LOST, as montanhas deixam de ser montanhas e os rios deixam de ser rios; Quando finalmente entendemos LOST, as montanhas voltam a ser montanhas e os rios voltam a ser rios.
Não. Essa frase não é de JJ Abrams. É um famoso Koan budista que adaptei para a ocasião. 2001 – Uma Odisséia no Espaço, o Torá: sim, os judeus sabem elaborar histórias que só se realizam enquanto estamos à procura de seus significados.
O sucesso de LOST foi ter ele aparecido em época de google, onde toda pergunta tem resposta, onde tudo o que é misterioso nos irrita, onde qualquer diálogo reticente nos faz mudar de canal. O sucesso de LOST foi apostar que tinha gente que achava este cenário um saco.
O sucesso de LOST foi ter ele aparecido em época de google, onde tecla pelo nome da série e encontra fóruns, blogs, vídeos e ficção adicional. Qualquer um podia ser monge beneditino e colocar sua glosa nos evangelhos. “A terra é oca”, “A ilha é atlântida”, “Estão todos mortos”. Eu disse evangelho?
Disse.
Ou voce acha que evangelho, ou qualquer texto-fundamento de qualquer religião, não surgiu da cabeça de gente muito criativa, muito boa de invenção e que foi, em seu tempo, tratado como ficção popular?
Dizer que LOST é um evangelho não é coisa de fã. Todo mundo segue escrituras. Até você, que não acredita em nada. Sim, você, que não acredita em nada, um dia leu os escritos de um filósofo que não acredita em nada e… reforçou sua fé em nada. A garotada não lê Bíblia, mas segue a ética do Homem Aranha, a Moral dos Trapalhões, a lógica do Grand Theft Auto.
As mocinhas tristes seguem as escrituras de Clarice Lispector. Os inseguros a música de Glenn Gould. Os operários as palavras do José Luiz Datena. Os cachaceiros os livros do Bukowski. Os diletantes, Seinfeld. Letras do Bob Dylan, pinceladas do Matisse, arranjos de Mahler. Todo mundo segue algum texto. A gente segue a Ficção.
Então tá liberado eu chamar LOST de evangelho, né? Beleza.
Evangelho de personagens. Uns tão ricos quanto Efraim, filho de José e Asenet. Outros tão pobres quanto Jar Jar Binks. LOST, como diz a página 108 o manual do evangelho, contou, nas três primeiras temporadas, a história de seus personagens. do 4o ao 6o episódio, dedicou-se à tarefa de apresentar os salmos, textos que garantem que uma obra é feita para consumo contínuo.
Aí veio o episódio final. De um lado, a rapaziada que não acompanhou a série e, humana demasiadamente humana, por sentimento de exclusão pela posição de 3o excluído, aguardava um motivo para criticar não a série, mas quem consome a série. Do outro lado, os fás das referências modernas, dos wormholes, da equação valenzetti, das descobertas da física contemporânea.
Veio o episódio final falar do Mr. Eko.
Do padre. De igreja.
Do Salmo 23. Declamado, inteiro, lá no episisódio… 23 Psalm.
Mr. Eko construiu uma igreja na ilha. Era sua obsessão.
Não deveria causar supressa que os personagens se encontrassem num lugar: “Que os próprios criaram para se encontrar, para se reconhecer, para relembrar”, como diz o Pastor Cristão, pai de Pastor José, no fim da história.
Evangelho?
Em “Buscando Vida no Multiverso”, publicado recentemente na Scientific American, Jenkins e Gilad Pérez, teórico do Instituto de Weizmann de Ciência em… *SPOILER* Israel, discutem a hipótese conhecida como o Princípio Antrópico, a qual afirma que a existência de vida inteligente (capaz de estudar processos físicos) impõe restrições sobre a possível forma das leis da física.
“As nossas vidas na Terra – tudo o que vemos e sabemos agora sobre o universo que nos rodeia – dependem de um conjunto preciso de condições que nos fazem possíveis”, diz Jenkins. “Por exemplo, se as forças fundamentais que dão forma à matéria no nosso universo se alterassem ainda que muito ligeiramente, seria concebível que os átomos nunca se formassem, ou que o elemento carbono, considerado um bloco básico para a vida tal como a conhecemos, não existisse. Então, como é que existe este equilíbrio tão perfeito? Alguns o atribuirão a Deus a sua criação, ideia esta que obviamente se encontra fora do domínio da física”.
Fora dos domínios da Física?
LAX, a igreja ecumênica, era só uma explicação científica up to date para o que se chama de além.
Já está arrependido das reclamações que você fez, né? Até lembrou de Jacob’s Ladder, do roteirista *SPOILER* judeu Bruce Joel Rubin que trata o assunto da ascensão de forma idêntica. Ótimo, sabe por quê?
Porque a tua opinião sobre o desfecho da série define que tipo de pessoa você é.
E não adianta procurar no Google atrás do significado da frase acima. Vai ter que pensar no assunto.
Outro judeu filmou o portão para o o que a gente chama além, como o aberto por Cristo Pastor para os personagens entrarem, usando viés científico e dele nasceu um “astronauta libertado, minha vida me ultrapassa em qualquer rota que eu faça”.
Na época, reclamaram também.
Só com o tempo, Stanley Kubrick teve reconhecido seu 2001 – uma odisséia no Espaço.
LOST já tem o reconhecimento, até dos detratores, de que não tem jeito: é assim que vamos passar a consumir entretenimento daqui pra frente.
Foi assim também com a bíblia glosada.
Foi assim também em 1895, quando Outcault inventou os quadrinhos.
Syd Field, judeu, na página 108 de seu manual de roteiro, ensinou a receita para o roteiro perfeito: “O roteiro perfeito não é um mito. Seria necessário que a 1a linha começasse com o início do conflito e a última linha encerrasse o fim do conflito. Como é necessária apresentação de personagens, desenvolvimento de trama, esqueça, o roteiro perfeito não existe.
A 1a linha do esposódio piloto de LOST diz o seguinte: “Jack Sheppard abre os olhos”. Técnicamente, o conflito começa. A última linha de LOST diz o seguinte: “Jack Sheppard fecha os olhos. Tecnicamente, o conflito acaba.
Evangelho.
Uma vez, o teólogo Alexander (não lembro o sobrenome, só lembro que em Hebraico quer dizer “Homem de Deus”) escreveu sobre o escritor latino Fernando A.
“Fernand A. criou uma ilha com palavras. Mas só depois de dar uma volta pela praia é que dá pra perceber que ele cercou o oceano com a ilha.”
Excelente definição para a ilha de LOST.
Excelente definição pro que a gente chama de desfecho.
* Dodô produz palavras e produziu essas pra cá.
E acabou, acabou e acabou. Esperei passar no AXN para comentar. Afinal, era safadeza falar da série que só quem baixou viu (se bem que provavelmente mais gente viu por download do que pelo AXN, mas tudo bem).
Então, deixo a minha interpretação final, que vai caber em uma ou duas linhas: Lost é uma poderosa alegoria sobre os perigos de confiar cegamente em deuses e líderes. Religião, patriotismo, o que você quiser. São formas imperfeitas (e muitas vezes desonestas) de controle. Lost ilustra isso muito bem.
Jacob, o semi-deus que deu as cartas por séculos na Ilha, não passa de um filho meio bocó que, numa briga com o irmão, acabou o transformando num monstro. Ele manipulou pessoas durante muito tempo. Pessoas que viam nele uma ligação com o poder, com o divino, com um objetivo maior. Se Jacob não tivesse criado um monstro, tudo teria sido diferente. Tudo. Jacob mal sabia o que estava protegendo. Só sabia que era importante proteger a luz da Ilha.
Jack. Locke. Dois homens que inspiravam as pessoas ao seu redor. Gente que confiava neles para guiar suas vidas. No processo, eles invariavelmente, levaram várias pessoas à morte. Jack por não acreditar, tomou várias decisões absurdas. Locke, porque acreditava mais do que devia. Os dois, nos extremos, estavam errados.
Ben Linus seguiu a liderança equivocada de Jacob e virou um líder cheio de erros. Widmore passou décadas cometendo todo tipo de erros e causando a desgraça na vida de várias pessoas.
Um monte de líderes cegos. Gente que inspirava pessoas que os seguiam. E que as levava na direção errada. Direto para abismos. E um monte de seguidores sem noção, que acabavam morrendo das formas mais estúpidas. E morrendo, no fim, por pouco, quando não era por nada.
Sinceramente, depois de ver como Jack, Locke, Jacob, Fumacinha Preta e mesmo Widmore não precisavam ter morrido. Eles apenas, por conta de seguir idéias ou líderes equivocados, se deixaram morrer. Olhe bem pros seus líderes e sempre se pergunte se aquela pessoa está dizendo a verdade e, mais importante, indo na direção certa.
* Maron publicou este texto em seu blog.
Eu não vi Lost. Mas admito que tentei.
Cedi à experiência de assistir pois havia tamanho frenesi por parte de amigos meus a respeito da série, que já causava furor nos EUA. Não sou afeito a novelas e séries, mas me interessei pela sensação de um fato inovador na teledramaturgia, seguido mundialmente.
Acho que parei no quarto capítulo, quando surgiu um urso polar naquela ilha tropical. Revoltou. Tive a impressão de que os roteiristas queriam me transformar no ratinho da roda do laboratório. Comigo, não.
E, por seis temporadas, foi um sucesso de audiência, tanto na TV quanto no fluxo de downloads pela internet. Notei muitos madrugando atrás dos arquivos e das legendas para verem em seus laptops – essa, sim, a inequívoca revolução na maneira de absorver um conteúdo televisivo. E meus amigos teorizavam, debatiam, alguns até ganharam dinheiro blogando sobre isso. E colecionaram perguntas que esperavam ver respondidas.
Pelo que leio na maioria dos comentários sobre o fim de Lost, há um grande cisma entre os telespectadores: muitas questões abertas foram tratadas como aspecto menor pelos roteiristas. Os fãs se dividem hoje entre o triunfo final de uma série apaixonante e a frustração por ter faltado algo, digamos, mais apropriado à expectativa gerada.
Traçar julgamentos sobre o valor dramatúrgico da série é tarefa que não posso desempenhar. Mas tampouco negaria o fenômeno pop que Lost representa, sua capacidade de mobilização de audiência – segmentada – de milhões de pessoas. Que debatem cientificamente cada detalhe, cada cena e cada fala. Tornaram-se especialistas.
E vão continuar divagando e gerando bibliografia – principalmente virtual – sobre o que eles acham que a tal da ilha era. Talvez não cheguem a nenhum consenso (aliás, é bem provável, pelo que tenho acompanhado). E talvez aí resida o maior valor de Lost.
A que mais pode almejar uma obra de arte senão essa existência para além do momento em que foi absorvida? Senão essa permanência viva em corações e mentes, alimentada pela paixão nostálgica de reviver, explorar e até destruir os êxtases inesperados que tal obra revelava? E ainda, uma audiência qualificada, disposta a debatê-la ao infinito, com espírito enciclopédico, procurando referências e comparações em tudo? Pela memória e pela disposição de seus fãs, Lost entrará no cânone das grandes obras do homem. Mas não para mim. Urso polar em ilha tropical? Não.
* Márvio publicou este texto em sua coluna.
Eu comecei incrédulo o último episódio de Lost, confesso. O turbilhão de informações, histórias, retornos e caminhos cruzados na jornada final para impedir que o Homem de Preto destruísse a ilha não me deixaram conectar de início com a essência da série. Mas isso foi de propósito. Afinal, não era essa a história que Carlton Cuse, Damon Lindelof e toda a equipe que escreveu uma das maiores sagas da televisão mundial quis contar. Claro, tivemos os momentos apoteóticos com Desmond, “Locke” e Jack no coração da ilha; os retornos de Boone, Shannon, Juliet, Rose, Bernard e Vincent; a libertação de Richard Alpert de seu encargo eterno; a auto condenação de Ben pelos seus erros e muito mais. A primeira parte foi vibrante e intensa a cada tiro e soco, mas à medida que o episódio avançava as iterações, aliterações, mistérios e mitologias foram tomando conta da tela. E assim, os borrifos de sangue foram se transformando em toques; os gritos em abraços e as palavras de desespero em momentos de conforto enquanto os eternos sobreviventes do voo 815 se reencontravam na outra realidade.
E como nós não percebemos pra onde tudo caminhava? Esperávamos o quê? Que um vídeo de orientação da Dharma Initiative aparecesse para nos guiar? Não. Precisávamos ser guiados pela emoção, pois no fim das contas estamos todos indo para um outro lugar, queiramos ou não. E foi esta a história que LOST contou nos últimos seis anos de nossas vidas: a jornada de pessoas que nasceram, viveram e morreram. Jack, Kate, Sawyer, Juliet, Jin, Sun, Hurley, Libby, Desmond, Penny e tantos outros foram levados à ilha para cumprir uma missão. E cumpriram. E uma a uma, sistematicamente, foram morrendo desde o início da série, como uma contagem regressiva que recusamos enxergar. E por quê? Por que todos morrem, inevitavelmente. E no fim não mais importaram os números, as teorias, os mistérios ou mitos. A realidade paralela foi apenas um ponto de encontro daqueles que a todo custo viveram juntos e não queriam morrer sozinhos, a “antessala” do paraíso para os que precisam dar um nome a tudo. Mas o maior feito deste final foi o de criar algo atemporal, completo e ainda assim aberto para (milhões de) interpretações. E falando em uma antessala, um dos poucos detalhes deste final que citarei é o local onde o caixão de Christian Shephard estava, com as diversas representações físicas de várias religiões.
Existem mais informações nos minutos, segundos e milésimos finais de LOST do que muitos conseguirão imaginar. A cena final, então, é ao mesmo tempo fantástica, enigmática e triste. Jack acordou naquele bambuzal confuso e pronto para uma grande aventura e no mesmo local seus olhos cheios de dor e conhecimento se fecharam. Com isso, a série e sua intenção permanecerão, invariavelmente, incompreendidas. O que foi real, irreal, imaginário ou não, no fim das contas, caberá a cada um. A ilha é um teste? O purgatório? Uns chamam de final aberto por não esgotar tudo como se fosse um drama investigativo. Eu chamo de final ideal, digno das melhores obras de ficção. Aqueles que não acabam quando realmente chegam ao fim, pois o que realmente importa é a jornada. Não foi um final fácil ou óbvio. Foi um final corajoso que fez jus aos seis anos da série. Afinal, estamos todos indo para algum lugar, não? Sim? Não? Vejo vocês em uma outra vida, brothas!
Que jornada. Que jornada.
* Bruno publicou este texto em seu blog.








