
Foto: Rafael Neddermeyer
Comece a reparar: primeiro Beatles, depois os Stones… Vem aí uma nova safra de caixas de CD, todas aspirando o caráter definitivo, épico, completista. É o último e longo suspiro da indústria fonográfica como a conhecemos, que exalará todo seu catálogo em diferentes formatos tácteis antes da distribuição digital, antes uma ameaça, tornar-se regra. E não é só na música, não; filmes e séries já estão nessa há até mais tempo.
Se passamos esses primeiros dez anos do século assistindo à briga entre indústria e público, a próxima década consolidará o consumo de arquivos digitais pela internet como principal forma de vender produtos, principalmente no setor de entretenimento. A discussão vai deixar de ser pirataria para cair para o preço – e se hoje já descobrimos que o download é a forma de consumo de música que menos agride o ambiente (como se precisasse de um estudo pra descobrir isso, mas enfim), já já essa discussão deixa de ser apenas de tom ecológico para recair sobre aspectos trabalhistas. Afinal, se não é preciso uma série de etapas que incluem a fabricação, o transporte e a distribuição de um pedaço de plástico fabricado em escala massiva, quando o CD sair de cena, é inevitável que essas fases deixem de existir e, pelo menos em tese, isso deveria se refletir no preço.
Fora que as lojas – sejam de conveniência ou megastores – ainda têm uma sobrevida maior, mas vão ter que se reinventar como espaço de interação social mais do que simples supermercados. E eu isso eu já falo há um tempo – em alguns anos vão aparecer lojas de amostras grátis de produtos, que podem ser tanto aplicativos para o celular e todo tipo de conteúdo digital gratuito, bocas-livres com marca em tudo (até na banda que fará o show) e uma mistura de loja de R$ 0,99 (lembra delas?) com self-service daqueles que você só paga um valor e come à vontade, só que em vez de “all you can eat”, “all you can carry” – e sem carrinho nem cesta, eis o truque. Imagino esse último tipo de loja como uma versão moderna da pesquisa de mercado. Todos clientes são betatesters e, em vez de pagar, tem de falar de seus hábitos de consumo. E isso não quer dizer ser entrevistado por um adolescente com uma prancheta, mas simplesmente preencher o cartão-fidelidade da loja que lhe dá acesso aos produtos gratuitos.
O melhor festival brasileiro vai virar um fim de semana no parque
A notícia surgiu nesta quinta-feira e foi recebida com cara feia pela maioria das pessoas a quem perguntei a opinião sobre o assunto. Mas, não sei não, viu: acho que a ida do Terra para o Playcenter pode ter sido mais um acerto de um festival cuja curta história já conta com bons pontos a favor.
Primeiro o fato de sua linha editorial ter um corte definido e específico (é um festival indie, no fim das contas), mas que não necessariamente é restrito, que permitiu que suas duas primeiras edições tivessem elencos bem diversos: a primeira contou com com Lily Allen, Devo, Datarock, Cansei de Ser Sexy e Rapture, enquanto a segunda teve Offspring, Animal Collective, Jesus & Mary Chain, Spoon, Kaiser Chiefs e Breeders.
Outra bola dentro do festival foi a pontualidade entre os horários das atrações, matando todo um histórico de descaso com o público já tradicional em eventos brasileiros desta natureza. E além das instalações funcionando perfeitamente, o Terra ainda tira a onda de cobrar o preço de um único ingresso – barato para os padrões paulistanos – para assistir todas as bandas que o festival trouxe. E aí mais um ponto positivo – ele dura apenas uma noite. Junte isso ao fato do evento ter transmissão ao vivo via internet e eis aí todos os motivos do Terra ser o melhor festival brasileiro hoje.
O Playcenter está longe de ser um lugar perfeito, mas me diga onde é esse lugar, aqui em São Paulo – o Motomix do ano passado (de graça) funcionou melhor no Ibirapuera do que o falecido Tim Festival. O parque – lógico – vive a má fase da inevitável decadência após seus dias de Disneylândia brasileira, que deu origem a problemas de segurança (relatos de assaltos ou arrastões pela região desde o início da década deram uma má fama especial ao lugar), mas lembre-se que o Terra em edições anteriores aconteceu quase em Interlagos, enquanto o Playcenter é quase no centro da cidade, em comparação (fora que inclusive facilita a vinda de caravanas de ônibus de outras cidades, uma vez que o Playcenter é na Marginal Tietê).
A Vila dos Galpões, onde o festival aconteceu, tinha que ser erguida do zero com a exceção dos tais galpões que a batizam, ao passo que o Playcenter já conta com estrutura própria. É evidente que a produção do festival sabe dos pontos negativos do velho parque (que irá funcionar durante o festival, veja só). Se ela tomar as medidas básicas para tornar a noite agradável, poderá transformar o festival em mais uma etapa na transformação da Barra Funda, que está deixando de ser um bairro de galpões abandonados para se tornar um dos principais bairros da São Paulo do século 21.
E, se alguém se importar, eis minhas dicas para o festival desse ano, levando em consideração que Green Day e Faith No More já estão fechados:
Palco Indie
Guizado
Momo
Fleet Foxes
Grizzly Bear
Passion Pit
Of Montreal
Sonic Youth
My Bloody Valentine
Palco Principal
Copacabana Club
Nancy
Black Keys
Hot Chip
Arctic Monkeys
Franz Ferdinand
Green Day
Faith No More
Já falei: é o maior artista brasileiro vivo
Não canso de falar sobre a importância da fase atual do Laerte para a história da cultura brasileira, independente do impacto popular em nossa época. Já disse que o considero o artista brasileiro mais importante hoje, uma espécie de Millôr total, que transformou a tira de três quadrinhos em seu hai-kai e a proporção retangular em sua tela em branco portátil. Se tem um cara que o Brasil devia bancar para fazer sua arte, este é o Laerte – muito na frente de qualquer cineasta da nova ou velha geração, de qualquer dramaturgo ou medalhão ou nova musa da MPB. Por isso, recomendo o texto que o Nasi escreveu para o Universo HQ cujo título (Sinto muito, mas o Laerte é mais importante do que você) exprime a síntese de sua defesa da atual fase do quadrinista paulistano:
Entendeu?
Não importa. A pergunta a ser feita nesta fase de Laerte é outra: o que você sentiu?
Muitas dessas tiras provocam a introspecção. Mexem com sentimentos que estavam anestesiados.
É um baque para quem espera dar uma risada no último quadro para anuviar dos problemas. Algumas tiras têm o poder de transformar o dia de seu leitor – nem sempre para melhor.
Nasi ainda fala da perseguição que vem acompanhando a nova fase do autor, cada vez mais percebido por uma parcela conservadora de seus leitores como incômodo e experimental demais, para ficar em adjetivos publicáveis.
Aproveito a deixa para sugerir um site que compila boa parte da atual produção do sujeito. Vem por aqui.
“Urru? U, érre, érre, u?”. Encontrei o Catatau no show do Tommy Guerrero e, depois de perguntar sobre o nome do disco novo, demorei pra entender, soletrando pra me certificar do que tinha ouvido. “Nao, U, agá, u, u, u”, disse, rindo, o Cidadão Instigado em pessoa. “Que porra é essa?”, perguntei no susto, e Fernando sequer desfez o riso do rosto para responder. “Porra, Matias, tu sabe que eu sou do body board, né?”. Pior que sei – Fernando realmente surfava nas praias de Fortaleza quando era adolescente, mas como um um grito de felicidade tão sincero se encaixa no conceito da banda prog-brega imaginada por por Catatau durante um surto de depressão quando se viu sozinho em São Paulo? Porque o Cidadão Instigado, conceitualmente, é isso: um sujeito oprimido por diferentes pressões (sociais, emocionais, políticas, psicológicas) que perde sua própria identidade a ponto de se assumir apenas como um cidadão instigado por tais pressões para conseguir manter um fio de sanidade (ou pelo menos foi isso que eu entendi entre vários papos que tive com o Catas). Semanas depois, há poucos dias, Uhuuu começa a dar o ar de sua graça com a extensa “Escolher Pra Quê?”, disponibilizada no MySpace do grupo há poucos dias. É uma faixa que já nasce clássica no repertório do grupo, pois saúda de forma exemplar alguns dos pilares da sonoridade do grupo – rock pra dançar pelo prisma do Pink Floyd (vocé sabe, o groove tenso de “Another Brick in the Wall Pt. 2” e “Money” e aquela tensão de “Dogs” que já haviam feito “Os Urubus Só Pensam em Te Comer” um dos pontos centrais dos shows do Cidadão), a melodia com aquela latinidade Roberto Carlos via Odair José, arranjos e timbres assumidamente retrô, às vezes derrapando pro brega, o solo de guitarra dramático e com pena de si mesmo (George Harrison feelings) e o vocal indefectível de Fernando. E, no meio da música, surge um refrão que, além de redentor, ainda carrega – e explica – o título do álbum.
“Pra que tanta indecisão?
Uhuuu!
Se o sol está aí pra nos assar!
Pra que tanta indecisão?
Uhuuôu!
Se a chuva invade e alaga, como um grande mar?”
O título do disco do Cidadão tem mais a ver com a resposta moleque ao drama hamletiano. “Ser ou não ser? F.O.D.A.-S.E.”, grita Catatau descendo a onda em sua prancha de peito, lembrando daquele velho papo sobre o que realmente importa é a jornada e não o destino, e uma filosofia que carrego no peito – que o sentido da vida é uma emoção, e não uma explicação. Afinal, o que foi vivido foi sentido – uhuuu!
Cidadao Instigado – Escolher Pra Quê?“

Malcolm Gladwell, Chris Anderson e Seth Godin
Pensadores pop discutem sobre o preço do futuro
Em Free, Chris Anderson diz que era digital tornará serviços gratuitos
Nem bem o novo livro de Chris Anderson saiu e ele já causa polêmica. Editor da revista Wired, Anderson criou o conceito da “cauda longa” no livro de mesmo nome (publicado pela editora Campus), em que adapta preceitos econômicos para a era digital. Nele, o autor compara os estágios da indústria cultural antes e depois da internet para sacramentar que estamos saindo da era do mercado de massas para a do mercado de nichos.
Free (trocadilho de “livre” e “gratuito” em inglês), o novo livro de Anderson que será lançado amanhã nos EUA, vai além. Vislumbra que a batalha dos preços dos produtos está passando por uma mudança radical, em que a disputa deixa de ser entre quem tem o preço mais baixo e passa a ser entre quem cobra algo e quem não cobra nada. A partir de exemplos que vão do valor estipulado pelo consumidor para o disco mais recente do Radiohead à publicidade em videogames, passando pelos serviços do Google e a briga entre a Microsoft e o Linux, Anderson profetiza que o futuro não terá preço.
Um dos primeiros comentários sobre o livro veio do escritor Malcolm Gladwell, autor dos best-sellers O Ponto de Virada e Fora de Série (publicados pela editora Sextante). Colunista da revista New Yorker, ele dedicou um longo texto ao livro, em que desancava as teorias de Anderson, perguntando se um jornal como o New York Times seria produzido nos moldes dos grupos de voluntários que alimentam sem-teto.
Anderson rebateu em seu blog na Wired, mas não foi incisivo – limitou-se a dizer que se o que Gladwell dizia era verdade, seus leitores não poderiam ler aquele texto online gratuitamente.
A discussão está longe do fim, afinal o livro sequer foi lançado, mas outro pensador pop entrou na discussão. Seth Godin, um dos principais pensadores do universo digital hoje e autor de livros como O Futuro Não é Mais o Mesmo, A Vaca Roxa e Sobreviver Não é o Bastante (publicados no Brasil pela Campus), comentou a discussão em seu blog, num post batizado “Gladwell está errado“: “Como todas indústrias que estão morrendo, os velhos modelos irão reclamar, criticar e demonizar o novo. Não vai funcionar. A razão é simples: Num mundo livre/gratuito, todos podem participar. E isso é uma mudança enorme”.
Um passo em falso e…
Cheguei em casa depois do show do Tommy Guerrero no Espaço +Soma, me estiquei na minha poltrona para assistir um filme no pay-per-view (o deliciosamente tosco Death Race – Jason Stantham e Roger Corman, como pode dar errado?) e ia me preparar para programar os tweets pra essa segunda-feira quando me deparei com isto:
Logo em seguida, um tweet do Inagaki me botava na seguinte companhia:
Eu, a miss Twitter, a editora do blog do programa de treinamento em jornalismo diário da Folha e a dona de um site que se chamava Sexto Sexo. Nunca tinha ouvido falar da última, acompanho e retwitto a segunda e pautei uma matéria com a primeira. Em comum, além do apreço pela nova ferramenta, – vejam só – o fato de usar o Twitter para divulgar links espalhados pela internet. Eis que, entre os termos de uso do Twitter, deparo-me com o seguinte item:
Ou seja: eu não posso divulgar links? Se eles não conseguem checar se os links que envio encurtados são para um mesmo site ou para vários, problema deles. Mesmo se conseguirem, vão ver que, além dos links pro próprio O Esquema e para o Link, envio links de sites de amigos e conhecidos, além dos, sei lá, 40% de links aleatórios que colho no próprio Twitter. Se o sistema de reconhecimento de spam deles vê isso como propaganda, é bom eles se arrumarem logo.
Porque eles ainda não perceberam que o Twitter não é sobre “o que você está fazendo” e sim sobre “o que está acontecendo agora”. Eis a pergunta que deveria estar na home do site, banindo de vez tweets inúteis sobre hábitos alimentares, pitis infantilóides ou #QualquerMerda. Ao perguntar – e ele pergunta, mesmo sem saber – o que está acontecendo agora, o Twitter amplia o contexto de tempo-real para além do ao vivo, daquilo que realmente está acontecendo neste exato momento e o transforma em um período mais fluido e mais extenso que o instantâneo “agora”, podendo se estender para uma hora ou até quase uma semana, dependendo do impacto do assunto. A ferramenta nos apresenta a um novo agora, menos urgente e amplo o suficiente para incluir opiniões conflitantes, gritos de guerra, comemorações e lamentos, gols e atentados, artigos, fotorrespostas, entrevistas, gifs animados e posts curtos. O que é mais quente e exige mais atenção, necessariamente vai estar mais evidente, mais tudo aquilo que não for, por exemplo, a morte de Michael Jackson, vai continuar circulando, independente do fato mais importante. Não é como a TV que precisa ficar insistindo no tema enquanto há audiência ou um site que precisa esmiuçar diferentes pontos de vista de um assunto principal. Há a corrente principal, mas também uma série de afluentes que não param de correr.
Aparentemente, o problema foi com o uso do Tweetlater, um sistema de atualização programada de posts do Twitter que nós quatro usávamos. O próprio sistema avisou que contas que usavam o serviço foram suspensas. Mas, por outro lado, ainda consigo acompanhar quem eu seguia – só não consigo postar. O que significa que minha conta ainda existe e, após o ocorrido, mandei uma mensagem ao serviço explicando o que havia ocorrido. Conversando com a Twittess, concluímos que o serviço foi entendido como algo da mesma natureza do script que surrupia seguidores.
Me desculpa, mas eu não vou ficar na frente do computador twittando o tempo todo, não. Muito menos falando da minha vida, se eu tou na fila do banco, com fome ou sem vontade de trabalhar. Nada contra quem faz isso (quer dizer, dependendo do grau de minúcia, tudo contra), mas eu não quero usar o Twitter como a câmera do meu big brother pessoal – e sim como um RSS filtrado, um Delicious com suingue. Do mesmo jeito que não passo o dia inteiro postando coisas no Trabalho Sujo (posto coisas pela manhã que vão entrar no ar no decorrer do dia), deixo o Twitter programado para twittar links que acho interessante serem lidos. Quero compartilhar o conhecimento de links encontrados aleatoreamente, sejam artigos em revistas científicas, PDFs com centenas de páginas, vídeos bizarros, posts egomaníacos (como este) ou matérias de jornal. Ele agilizou a forma como passo informação pelo Trabalho Sujo e agora passa por esses ajustes, que podem comprometer seu próprio funcionamento. Porque hoje foi eu, amanhã pode ser você e podemos optar pelo Facebook como alternativa ao Twitter (eles mudaram a sua interface, né?) ou pelo aguardado Google Wave ou por quem aproveitar a derrapada do serviço. Preferir o concorrente não é uma regra da realidade digital, mas por aqui as coisas caminham em passos muito mais rápidos do que no mundo análogo: lembram-se quando o Hotmail apareceu no meio da década passada? Lembram-se que só depois que ele foi comprado pela Microsoft que o povo começou a migrar para o Yahoo!Mail no final dos anos 90? E depois para o Gmail, em 2004/2005?
Eis o desafio dos caras: inventaram uma nova forma de comunicação, que ainda não se sustenta economicamente, e estão se equilibrando como se caminhassem numa corda bamba – qualquer ajuste fora de hora pode fazer toda credibilidade do sistema ir pro saco. Agradeço o #FREE_@trabalhosujo que apareceu logo em seguida ao anúncio, mas, ora bolas, se o Twitter não me quiser, o problema não é meu.
Updeite: parece que eles já perceberam a cagada e se explicaram em seu próprio blog:
Vamos ver se até amanhã cedo isso já está resolvido. Afinal, seis horas é o meu conceito de agora, segundo o Twitter.
E para deixar marcado essa data, eis uma decisão: Twitter só entre terça e sexta-feira. A partir de hoje, a segunda torna-se um dia do fim de semana – pelo menos para o microblog.
Novo updeite: Tudo resolvido, amanhã o Leitura Aleatória volta ao ritmo dos dias úteis – lembrando que, a partir de hoje, segunda é dia inútil.
“Billie Jean”: a melhor canção pop de todos os tempos
Sempre discotequei por prazer – nunca por dinheiro, fama, tiração de onda. Ainda moleque, eu levava fitas para as festas porque sabia que se eu não fizesse isso, iam simplesmente deixar um disco qualquer tocando, e eu sempre me preocupei com a trilha sonora da minha vida. Quando resolvi, pela primeira vez, colocar músicas para botar pessoas que eu não conhecia para dançar, o único intuito era me divertir fazendo estes estranhos – que no começo era uma grande turma de amigos – ouvirem música boa. E isso aconteceu em Campinas, entre 96 ou 97 (memória-lixo, não repare), quando eu e mais três compadres, Serjão, Roni e William, resolvemos botar nossas coleções de vinil e músicas recém-descobertas em ação.
Éramos os quatro uma espécie de gangue adolescente dentro do Diário do Povo: Serjão, o mais velho de todos (acho que ele é de 1970, se não me engano) e já editor de fotografia do jornal; eu era editor de arte (e não de cultura, perceba a diferença) e ilustrador do mesmo jornal e meu único colega de editoria era o Roni. Ali eu também editava a versão impressa do Trabalho Sujo com o auxílio luxuoso dos dois – Serjão era meu inseparável dupla na cobertura de qualquer show que a gente quisesse ir e o Roni desenhava o logotipo da coluna, que mudava toda edição. O William ficava ali quietinho, só de butuca, sacando as conversas e inevitavelmente acabou entrando na turma. Os três eram os betatesters do Sujo impresso – discutia pautas que queria abordar e mostrava versões diferentes do desenho da página ou de um determinado texto. Logo, resolvemos migrar nossa paixão por música para uma festa. Nem eu nem Serjão nunca tínhamos discotecado de verdade, o William era DJ de hip hop e atendia pela alcunha de W/Break e o Roni fazia umas fitas psicopatas de deixar fã de Mike Patton sorrindo de orelha a orelha – com o cut & paste mais roots do planeta, na base do rec e pause do toca-fitas.
A festa não tinha nome – era informalmente chamada de “festa black”, numa clara referência ao sucesso da verdadeira Festa Black de Campinas, que acontecia na Unicamp e tinha no comando meus compadres Cris Pesadelo e o DJ Paulão. Mas criamos uma alcunha pra empreitada – era o Quarteto Funkástico. A pegada, óbvio, eram grooves setentistas, mas jogávamos tanto pra música brasileira (Serjão, anos depois, consagraria sua discotecagem especificamente nessa praia), pro hip hop, disco music e algum rock com um mais groove (eu sempre dava um jeito de botar “The Mexican” no meio da festa e “Sure Knows Something” mais pro final). E mesmo revezando entre quatro DJs, inevitavelmente rolavam umas cagadas – alguém esbarrava na mesa com o som, o disco emperrava, a próxima música cortava completamente a onda da anterior, um pedido de alguém que foi atendido mas só uma turminha curtiu… Enfim, coisas de quem estava começado a caminhar a trilha da edição da realidade sonora de uma noite (porque, afinal, todo DJ é um editor).
E nesses primeiros passos, aprendia-se alguns macetes. Desde dizer que a música que a pessoa já pediu já foi tocada (ou que às vezes não era mentira) a aprender quem que discotecava melhor com quem em que parte da noite. E um dos principais aprendizados nessa etapa é o às na manga. Você precisa ter uma música para salvar tudo quando tudo der errado – se a pista esvazia subitamente, se alguém desliga uma tomada, se o CD-R deu problema na hora de ser lido no CD-player (que ainda eram daqueles de mesa…). Você precisa ter uma rede de segurança, uma bala na agulha, um colete salva-vidas sonoro que, ao mesmo tempo em que te tira do apuro de esvaziar a pista, ainda resgata o ânimo de pessoas que só queriam dançar e pegar alguém depois de um dia de trabalho.
À medida em que descobríamos quais músicas despertavam diferentes instintos no público, convergimos para “Billie Jean”. Era o meio-termo perfeito, a equação exata, o equilíbrio pleno entre melodia e ritmo, groove e atitude, sensualidade e robótica e o gosto musical de nós quatro. Seus elementos iniciais são capaz de despertar a felicidade interior que se traduz em dança – Michael Jackson equilibrando-se entre o sexo e suingue, a pura sacanagem e o funk. O compasso reto, aberto por uma bateria metronômica e seguido por uma das linhas de baixo mais abusadas já escritas, logo vinha acompanhado de um teclado minimalista, que só pontua os passos dos outros dois instrumentos. Antes mesmo de Michael começar a soluçar e sibilar sílabas e gemidos, aquela base instrumental continha calor suficiente para incendiar uma selva ao mesmo tempo em que disposto mecânicamente, num ritmo quase industrial.
É tocar “Billie Jean” e tudo se resolve: o apuro, a pista, a noite. Por diversos outros momentos da minha vida fui percebendo que a faixa não era apenas uma segurança pessoal, mas universal – e presenciei, como você inevitavelmente já deve ter presenciado ou presenciará, infalivelmente. Mais do que um truque de luxo, a faixa tinha lugar de honra em vários sets, em diferentes lugares e situações. Ouvi em festivais de música eletrônica, em festas badaladas de São Paulo, em bailes funk no Rio, durante o carnaval do Recife, festa em casas de amigos – uma música perfeita, o ápice de dois gênios, o balé perfeito entre duas forças de diferentes naturezas: Quincy Jones e Michael Jackson.
“Billie Jean” é a melhor canção pop de todos os tempos. Não é pouco. A lista de concorrentes não é fraca e quase todas pendem à perfeição. “Like a Rolling Stone”, “Bohemian Rhapsody”, “Imagine”, “One”, “Stairway to Heaven”, “Strawberry Fields Forever”, “Superstition”, “Le Freak”, “God Only Knows”, “Hey Ya”, “Dancing Queen”, “Detalhes”, “Smells Like Teen Spirit”, “Walk On By”, “Faith”, “Hey Jude”, “Love Will Tear Us Apart”, “Anarchy in the UK”, “One More Time”, “Satisfaction”, “Crazy”, “What I’d Say”, “Kiss”, “(Sittin’ On) The Dock of the Bay”, “Garota de Ipanema”, “Last Nite” – são músicas que te abrem para universos inteiros, complexos, cheios de interpretações e possibilidades, ambientes virtuais imensos de emoções sinceras, mas condensados em poucos minutos e palavras, melodias quase sempre simples e diretas, mas arranjadas e interpretadas com precisão assombrosa. Nenhuma vogal é gratuita, nenhum ruído é exagerado, há um entrosamento perfeito entre músicos e técnicos de som e o arranjo apresentado na pós-produção é tão importante quanto a composição ou a letra de cada uma delas.
Mas, ao mesmo tempo, ela tem algo imperfeito – um elemento indefinível, que caminha entre o groove sem rosto da linha de baixo e a bateria que teima em seguir o compasso do teclado. Michael surpreende como compositor, ao propor um tema nada leve para a canção, e como intérprete, ao convencer que está sendo acusado de ter um filho bastardo. Sem contar o que faz sua voz – gravada em apenas um take, ela percorre todos os tons propostos por Michael, do grave ao falsete, com direito aos gemidos, gritinhos e estalos que se tornariam marca registrada em praticamente todas suas faixas a partir de então. Mesmo com a sensualidade exata, coisa pra pouquíssimos – Tina Turner, Gal Costa, Mick Jagger, Robert Plant, David Bowie, Isaac Hayes, Prince, Marvin Gaye, Madonna, Serge Gainsbourg em sua “Je T’Aime (Moi Non Plus)”, Alicia Keys, James Brown -, “Billie Jean” é sintética, fria, robô. A precisão mecânica era um obsessão recente em Quincy Jones, que tinha em Michael Jackson seu vínculo com a contemporaneidade que deu ao mundo a disco music e o hip hop, que ele traduziu com perfeição neste arranjo noturno e sombrio. E, principalmente, adulto.
Mas antes de coroarmos Jones, lembre-se quem é o Rei do Pop. Foi Michael que exigiu quase meio minuto de introdução instrumental, alegando que era essa introdução que o fazia ter vontade de dançar. Ele insistiu na inclusão da faixa em Thriller, no tema e até mesmo no título (que Jones queria batizar de “Not My Lover”) e é responsável por sugerir os principais ingredientes da música – até mesmo o “do think twice” ecoado aos 2:15.
Não bastasse “Billie Jean” ser esta fissão nuclear em câmera lenta, ela ainda veio acompanhada por um clipe que reinventava Michael Jackson como o mais próximo de um super-herói que um popstar já chegou – e um super-herói mágico, sutil, transcedental, humano. Seus superpoderes eram o de acender a calçada a cada passo e o de deixar a música encarnar em si, como se pudesse absorver toda força de qualquer canção que interpretasse. E no clipe de “Billie Jean”, com a tensão sexual talhada milimetricamente pela faixa, qualquer movimento era música. E Michael Jackson, em quase cinco minutos, fazia com jovens nascidos nos anos 70 o que os Beatles e Elvis Presley fizeram com duas gerações, só que ao mesmo tempo: criava um momento histórico e definitivo, que ao mesmo tempo tinha ares de aparição divina quanto de simpatia juvenil. Era 1983 e todo mundo que o viu pela primeira vez se apaixonou e queria ser Michael Jackson.
Lembro que Thriller foi o primeiro disco que eu pedi para comprar – até então só ganhava discos infantis da Disney e começava a passear pela coleção de MPB dos meus pais. Quando “Billie Jean” iniciou o reinado de Michael Jackson, era inevitável que milhões de crianças e adolescentes fossem seus primeiros súditos. Adultos o viram crescer e carregavam a imagem da criança-prodígio que finalmente chegou lá. Nós, não: o conhecemos apenas como o que ele realmente queria ser, um deus da música, um imortal jovem. Ele é a conclusão das engrenagens que começaram a se mover com Elvis e Beatles, o artista-marca, um nome inatingível, um personagem quase fictício, que movia fortunas e que pode criar seu mundo paralelo que, na década seguinte, se tornaria o mundo bizarro que infelizmente tornou-se sinônimo de Michael Jackson.
Mas entre Thriller (83) e Dangerous (91), Michael Jackson foi o maior artista do planeta, o ícone inalcançável que justificava toda a indústria do entretenimento e alimentava sonhos de fama e fortuna numa escala inimaginável até então. Todos – o público, a mídia, os outros artistas – viviam à sua sombra. Este reinado se transformaria num hospício, à medida em que todos os atos de sua rotina passaram a ser tratados como extravagantes e ele perdeu completamente o vínculo com a realidade.
E do mesmo jeito que ele foi o símbolo de um tipo de fama e de sucesso que não existem mais, também antecipou a realidade fake que nos acostumamos a levar no século 21 – entre plásticas deformantes, hábitos alucinados, escândalos sexuais, decadência financeira, drogas, filhos e processos judiciais, Michael Jackson foi o primeiro astro de um dos primeiros reality shows que nos acostumamos a acompanhar (o outro, o de Lady Di, já foi cancelado na marra em 1997). Até a semana passada.
Mas mesmo com toda histeria, velocidade, susto e dimensão que a morte de Michael Jackson atingiu, ela não chega nem de perto a ofuscar sua música. Por maior que tenha sido sua vida de celebridade máxima durante os anos 80 ou a de homem-elefante pós-moderno nos anos que se seguiram, estas facetas são passageiras e pertencem ao mosaico de imagens que chamamos de história. Uma enorme parte de seu repertório, não – e consegue soar moderna mesmo com um quê de nostalgia. Menos “Billie Jean”, que parece uma música que ainda nem foi lançada, tamanha atualidade e apuro estético, carregando, como toda obra-prima, o viço de novidade e a carga de emoção de seu primeiro impacto. E quando você ouvir o tum-tá, tum-tá, tum-tá, tu-tá acompanhado do baixo tun-dundundundundundun-tun-dundundundundundun e o teclado que acende a calçada quando pisa, já sabe: hora de ir pra pista. Não é nem seu cérebro que manda – é o seu quadril que vai.
Materinha no Link de hoje.
Era do disco morre com Michael Jackson
É impossível quantificar downloads envolvendo o rei do pop – que em vida vendeu 750 milhões de discos – após sua morte
Logo após o anúncio da morte de Michael Jackson, na última quinta-feira, o torrent com toda discografia do cantor contava com 117 usuários ativos, compartilhando um arquivo com quase dois gigas de músicas. Em menos de 24 horas, o número subiu inacreditáveis 16.184. A sexta-feira ainda viu surgir outros quatro novos arquivos com toda discografia do cantor – um deles, ‘DeLuxe Edition’ tinha quase sete gigas de MP3.
E isso diz respeito a apenas um arquivo, em um único site, o PirateBay. Fora as outras dezenas de sites de compartilhamento, milhares de links em sites de armazenamento online (do tipo Rapidshare) e milhões de MP3 trocados entre fãs conectados, que também assistiam vídeos no YouTube e compravam seus discos de forma legal.
Em menos de seis horas, seu nome apareceu no topo das buscas de agregadores de blogs de MP3 (como o Hype Machine), de redes sociais (como a Last.fm) e de lojas online (como a Amazon e iTunes). Na Amazon, o rei do pop conseguiu mais um feito espetacular, mesmo depois de morto. Nada menos do que 18 discos entre os mais vendidos da loja eram ou do cantor ou de sua banda com seus irmãos, o Jackson 5.
A notícia mexeu com a internet de forma ainda mais brusca: não bastasse ter derrubado os servidores do Twitter no breve intervalo entre o anúncio de que Michael estava sendo transportado para um hospital em uma ambulância e a confirmação de sua morte, a rede social tornou-se o principal canal para saber o que estava acontecendo com o cantor. Todos linkavam todos e logo que sua morte foi confirmada, Michael Jackson dominou nove dos 10 tópicos de discussão do dia – na décima posição, a pantera Farrah Fawcett, que também morreu no mesmo dia. Foi o suficiente para que o Twitter não suportasse a quantidade de acessos.
Não foi só o Twitter. Segundo Shawn White, diretor de operações da Keynote System, empresa que monitora o tráfego na web, “a velocidade média de download em sites de notícias dobrou de menos de quatro segundo para quase nove segundos”, disse em entrevista à BBC.
Por mais que as versões digitais ou mesmo os discos em si – sejam CDs ou vinis – possam dar uma ideia do impacto da notícia da última quinta-feira, ela é certamente infinitamente menor do que os milhões de MP3 trocados e baixados de forma ilegal.
Artista com 750 milhões de discos vendidos em seus 45 anos de carreira, Michael Jackson foi, durante pelo menos dez anos, o rei do pop. Como Elvis Presley antes dele, fez parte de um movimento que alavancou não apenas gerações de novos artistas, mas também vendas de discos. Com sua morte, muitos levantaram a inevitável dúvida que sucede a morte de qualquer astro: e quem será o próximo rei?
Ninguém. Do mesmo jeito que é impossível rastrear a quantidade downloads envolvendo o artista, não há mais cenário que propicie o nascimento de um mito desta proporção.
A música, da mesma forma que aconteceu com tudo depois da internet, saiu da mão de algumas dezenas de artistas e centenas de executivos para alimentar gratuitamente nichos infinitos. Michael Jackson é sinônimo de uma época em que o sucesso de um artista era medido em discos vendidos – uma era que metaforicamente morre junto com ele.
Números
2 vezes mais tweets por segundo. Assim que a morte de Michael Jackson foi anunciada, o número de mensagens no serviço dobrou, segundo Biz Stone, co-fundador do site
22,61% de todas as mensagens trocadas no serviço, na hora que a morte foi confirmada, eram sobre o astro
40.000 vezes a cada hora. Foi o número de vezes que foram reproduzidas, na Last.fm, músicas de Michael Jackson, na manhã da sexta, dia seguinte à morte
11% foi o aumento de acessos à internet nos EUA para saber informações sobre a morte
Sinto começar a semana assim, mas vamos lá. Mais uma baixa na história do rock independente brasileiro – e mesmo estando completamente plugados e ultraconectados, levei mais de dez dias para ouvir falar da morte do Véio, ex-baixista do Concreteness. A banda de Santa Bárbara d’Oeste não foi só uma das mais importantes para a criação de um circuito de shows e, portanto, uma cena entre as cidades do interior de São Paulo, como foi crucial para a consolidação daquela geração brasileira que surgia ao mesmo tempo em que as gravadoras comemoravam o Plano Real com vendas altíssimas de CDs de pagode, axé e sertanejo e a MTV brasileira procurava novos nomes locais para se apoiar.
Além do Véio, o grupo era formado pelos irmãos César, Marco e Marcelo Maluf que, em Santa Bárbara d’Oesta, uma cidade sem nenhuma tradição em música daquele tipo, eles começaram seu trabalho em dose tripla: além da banda, os irmãos mantinham uma casa noturna (o Hitchcock) e um estúdio na própria casa em que moravam. O Hitchcock tornou-se parada obrigatória para qualquer banda que viesse de outra cidade do Brasil para fazer shows em São Paulo. O Hitchcock era foco de atenção de todo mundo que ouvia rock independente no início dos anos 90 no interior do estado – e as pessoas vinham de outras cidades para passar a noite lá, que tinha programação toda sexta e sábado, reunindo fãs de indie rock, rock alternativo e hardcore de cidades como Piracicaba, Jundiaí, Campinas, Americana, Sorocaba e de São Paulo para assistir a shows de três ou quatro bandas por noite. Não, não havia discotecagem naquela época: alguém gravava uma fita que era repetida toda vez que um dos shows terminava.
De tanto ir ao Hitchcock, acabei ficando amigo de todos na banda, e acompanhei de perto a trajetória de um grupo independente que não conseguiu emplacar – mesmo fazendo shows em todo Brasil, com público cativo e músicas reconhecidas. Suas apresentações eram marcadas pelo impacto visual – os três irmãos Maluf eram uma espécie de Devo com um pé no industrial e o outro na música brasileira – todos de preto e com a cabeça raspada, dois de óculos nerd. Seu vocalista e principal compositor era o baterista Marcelo, o caçula, que deixava os irmãos Marco, introspectivo e calado na guitarra, e o tecladista César, que parecia um psicopata quando subia no palco, enfrentarem a massa. Véio fica entre os dois, mas acompanhando Marcelo, tocando seu baixo de forma robótica e rude. O som refletia aquele começo barulhento de década, com pedais de distorção e ritmo incensante, mas ao mesmo tempo ecoava a estrutura tradicional do pós-punk, de vocais berrados, guitarras fazendo barulho mais que música e baixo e bateria adicionando dance music ao 4 x 4 do rock. A banda teve uma fita demo – chamada Psicose – que vendeu quase 2 mil cópias, a maior parte da tiragem (caseira) vendida pelos correios. Internet era coisa de “micreiro” (que termo escroto) e o MP3 não havia sido inventado.
A segunda fase do selo Banguela, em que o Miranda lançou bandas como Mundo Livre S/A, Raimundos, Graforréia Xilarmônica e Maskavo Roots, foi marcada por várias coletâneas que reuniam bandas por cidades – como a curitibana Alface (que trazia as bandas Woyzeck, Boi Mamão, Resist Control e Magog) e a gaúcha Segunda Sen Ley (com quase 20 bandas diferentes). A cena do interior do estado de São Paulo foi escolhida para lançar sua própria coletânea e foram os Concreteness que sugeriram meu nome para escrever o release do disco. Além deles, o CD ainda contava com o funk metal do Lucrezia Borgia e o hardcore feliz das meninas do No Class (os dois grupos de Campinas) e o Happy Cow, de Piracicaba, o irmão mais novo do Killing Chainsaw. Foi quando finalmente fui aceito pela cena rock da cidade – onde já se viu um jornalista de Brasília vir dar espaço para as bandas locais em um jornal de Campinas? Era 1994 e eu ainda não tinha completado 20 anos. A coletânea, chamada pelo nome ridículo de Pircorococór, foi lançada quando o núcleo do Banguela passava a ser questionado por sua gravadora, a Warner, ao mesmo tempo em que era cortejado por outra, a PolyGram. Essa confusão foi o suficiente para atrapalhar o lançamento da coletânea e isso acabou se refletindo no lançamento do primeiro CD do Concreteness, Numberum. Mas a banda já estava mudando – o novo CD era composto apenas com músicas escritas em português, o primeiro passo da banda rumo a seu fim. Logo depois, os irmãos e Véio trocaram o nome da banda para Jardim Elétrico e, sempre que eu me encontrava com um deles, sabia de algum progresso na nova fase. Mas eram lentos e logo eles passavam a trabalhar com técnica de áudio com o Pena Schmidt. Marcelo virou escritor e mantém um blog. As músicas no MySpace da banda, criado como uma espécie de memorial ao primeiro disco que não aconteceu, não traz as músicas da primeira fase da banda, em inglês. Descolei uma, melhor que as que estão no MySpace:
Concreteness – “Squinting LooK (Zemba)“
Todos os quatro trabalhavam na casa enquanto as bandas faziam shows, cuidavam do caixa, do som, do palco enquanto o Véio tomava conta do bar – por isso era inevitável que em alguma hora da noite eu encostasse no balcão para falar merda com o sujeito. E sempre foi assim: enquanto o papo com os irmãos Maluf sempre foi o que cada um estava fazendo da vida, as conversas com o Véio eram sempre em tom de brincadeira. A última vez que eu o vi foi na primeiríssima Gente Bonita, quando o José Júlio passou pelo extinto Bar Treze para ver como andava a festa. Nos falamos pouco, mas nunca nos alongávamos – pois sabíamos que nos encontraríamos cedo ou tarde.
Não mais. Eis que lendo o blog do Carneiro, deparo-me com a notícia, que me leva ao Twitter do Mondobacana, do Abonico, passando a ficha técnica da passagem do amigo:
Morreu na madrugada de hoje o baixista Véio, da banda ConcreteNess (Santa Bárbara do Oeste, SP). Ele sofreu derrame cerebral há dez dias.
12:04 PM Jun 10th from web
Procurando, ainda achei o Fotolog do Phu, baixista do DFC, de Brasília, que contava com dois posts, um primeiro, sensibilizado pela entrada de Véio na UTI, e outro que trazia a mensagem de Marcelo:
Queridos Amigos,
É com imenso pesar que dou esta notícia. Nosso querido amigo/irmão Véio, partiu essa madrugada para a sua jornada espiritual…Tenho certeza de que ele estará bem…Fica a nossa imensa saudade, amor e carinho por esse irmão que a vida me/ nos deu e com quem vivi / vivemos tantas coisas boas! O importante agora é orar para que ele encontre o seu caminho e a sua luz. Vamos nos segurar, vamos estar juntos, vamos nos abraçar e continuar vibrando com amor para que ele sinta nossa energia.
Por enquanto, nÃo sabemos o horário do velório em Santa Bárbara. Ele deve demorar a chegar, já que os seus órgãos serão doados. Um grande gesto, de um grande ser humano.
Meu Abraço forte à todos,
Marcelo
O Andhie Iore, velho fanzineiro de Maringá, também lamentando a passagem do baixista em seu blog, como o Giassetti fez no blog da Mojobooks. Ironicamente, não lembro de seu nome, só do apelido, nem sei precisar sua idade (Updeite: o Júlio acaba de me confirmar tanto o nome, Carlos Braz, quanto a idade, 43). Não éramos amigos convencionais, éramos uma espécie de colegas de um trabalho que não era visto como formal – ter uma banda de rock faz tanto sentido quanto escrever sobre rock, e ambas atividades – entre outras – são igualmente desmerecidas como mero passatempo adolescente. Ríamos disso.

Todos de fone de ouvido em festa silenciosa na Virada Cultural de 2008 (foto: Mônica Bento/AE – 26/04/2008)
Nunca se fez tanta música quanto hoje. As possibilidades abertas a quem não tinha recursos ou técnica para fazer música permitiram que gerações inteiras finalmente pudessem produzir sua própria trilha sonora.
Seja criando música nova, remixando hits do passado ou regravando velhas canções, pessoas de diferentes faixas etárias se descobriram artistas e puderam finalmente reconhecer-se como músicos, independentemente de profissionais ou amadores. Mais: com a internet, essa produção passou a ser ouvida por gente que não tinha outros canais senão o rádio, o show e a loja de discos para descobrir e curtir música nova.
Ao mesmo tempo, nunca se ouviu tanta música quanto atualmente. A mesma rede que permitiu que músicos finalmente tivessem acesso direto a seu público fez que cada vez mais pessoas ouvissem cada vez mais música.
Hábitos como garimpar raridades, gravar fitas cassetes (ou CD-R) com músicas escolhidas a dedo e até mesmo manter uma coleção de discos foram acelerados pela rede de tal forma que praticamente foram reinventados.
Em vez de prateleiras, falamos em gigabytes; disco raro é aquele que nunca saiu da casa – ou da cabeça – de seu autor.
Assim, aos poucos, um termo técnico que designa a forma de adquirir um arquivo digital da rede tornou-se praticamente sinônimo de música nesta década: o download. Graças à popularização do MP3, iniciada há exatos dez anos, baixar música virou uma atividade rotineira e um hábito típico de nossos tempos.
Mas esse monte de gente produzindo e ouvindo música não está isolada em seus computadores ou em seus fones de ouvido, mesmo porque isso não é novidade – o marco zero deste isolamento musical, a invenção do walkman, completa trinta anos este mês.
E o mesmo ponto de partida para a música digital como a conhecemos hoje – a criação do Napster, o primeiro software de compartilhamento de arquivos sonoros digitais – também deu origem a uma nova forma de se ouvir música.
Se o rádio, a loja de disco e a gravadora aos poucos se tornam obsoletos, a internet oferece opções que vêm sendo abraçadas por milhões de pessoas, que estão descobrindo músicas que nunca ouviram e mostrando-as umas às outras.
O download ilegal ainda é um problema no que tange os direitos autorais e várias iniciativas têm insistido em punir uma prática que já é corriqueira.
Numa época em que ouvir música torna-se uma atividade cada vez mais social, resta achar uma solução que recompense quem produz mas que não puna quem ouve.
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Há 10 anos, Napster tornava a web social
Shawn Fenning só queria ouvir as músicas que seus amigos guardavam em seus PCs – e também permitir que eles ouvissem as suas. Entediado com a faculdade que fazia, começou a escrever um software que permitisse essa troca de arquivos em janeiro de 1999. Ele tinha acabado de completar 18 anos e, poucos meses depois, no início daquele junho, há dez anos, terminou o programa, que batizou com seu próprio apelido (“Napster” quer dizer algo como “dorminhoco”). Distribuiu para uns amigos e, como quem não quer nada, mudou a história da música – ao mesmo tempo em que resgatou um dos cernes da rede – seu aspecto social.
Voltando mais no tempo, quando o criador da World Wide Web, Tim Berners-Lee, tornou público seu projeto, o fez postando uma mensagem num fórum de notícias, no dia 6 de agosto de 1991. Nela, anunciava que “estamos muito interessados em espalhar a web para outras áreas (…). Colaboradores são bem-vindos!”
Sem querer, Shawn Fenning repercutiu a mensagem do criador da web para o planeta. E se no início dos anos 90 a rede apareceu como uma forma de facilitar a troca de dados e informações, no final da década esta troca seria acelerada graças à popularização do MP3.
Mas trocar músicas era só o começo. Logo o mundo compreendeu que a música poderia funcionar longe do disco, coisa que a indústria fonográfica não quis entender – o que a levou a processar seus próprios clientes e abrir espaço para a Apple, uma empresa sem tradição no mercado de música, tornar-se líder em comercialização de música digital.
Fenning não inventou apenas um software. Com o Napster, ele sublinhou que a rede não é compostas de máquinas que se conectam a grandes servidores – mas também de computadores que podem se conectar entre si sem precisar passar por um computador central. E que esses computadores são pilotados por seres humanos que querem conhecer não só mais músicas, mas outros seres humanos. Não é exagero: ao liberar a possibilidade das pessoas trocarem MP3 entre si, o Napster foi o embrião daquilo a que chamamos de “rede social” – que, na verdade, é uma metáfora para a própria web.
Afinal, a internet é social. E Fenning nos lembrou disso há dez anos, quando resgatou um verbo que estava um tanto em desuso e que tem sido vilanizado pelos motivos errados: compartilhar.












