Tirando um certo crush pelo MacGyver nos anos 80, nunca gostei de séries e filmes de ação/drama centradas em um personagem ou em um “herói recorrente”. E, os meninos que me perdoem, incluo aí Jack Bauer e até os super-heróis da Marvel (e você também, James Bond). A meu favor, vejam bem, se isso lá for um aliado de respeito, tenho o Nick Hornby.
Eu adoro um trecho do livro Frenesi Polissilábico (não tive tempo de procurar o quote exato) no qual ele fala sobre o “não conseguir se solidarizar” com os heróis de livros de ação. Eu mudo esse argumento para filmes, aqui. Por que eu vou sofrer com o Jack Bauer se ele ainda tem mais 16 horas pela frente, antes que as 24 acabem? Como você vai me convencer que devo sofrer por você agora, com a mesma intensidade com que sofri há três episódios, quando você tinha uma bomba na virilha e mesmo assim não morreu?
É frustrante. Não sofro, não torço, quero mais é que morra logo. Mas eu sofri com o LOST e com os seus “personagen recorrentes” que eram às vezes heróis, às vezes vilões, e às vezes só babacas mesmo. Achei que valia a pena acreditar que o Jack poderia sim morrer engolido por uma fumaça preta em qualquer episódio. Quem passou pelo seriado sem sofrer, pesquisar, sem fundir a cabeça, sem entrar em fóruns de discussão, sem se irritar com spoilers… não “viu” LOST. A experiência é/foi justamente esse grau (exagerado) de envolvimento, essa participação e utilização de todas as ferramentas virtuais para montar um quebra-cabeça de peças beeem tortas. Eu faço parte dos que se divertem mais com o processo que com o produto final. Juntar as peças, tentar encaixa-las, decifra-las… quando o jogo vai chegando ao final, eu sento e observo. Já não me sinto mais no controle e daí perde a graça. Gosto de torcer para o vilão, ou melhor, torcer sem ter idéi a de quem é realmente o vilão. Sou do Team Ben & Team Locke! (*fazendo coraçãozinho com as mãos haha). Porque Jack, desculpa, é só um rostinho barbudo e bonito.
Seis anos depois, claro que exageramos. Inventamos mais teorias que os próprios roteiristas poderiam conceber. Achamos indícios e referências literárias, científicas, freudianas (por que não?) que não ajudaram em muita coisa… Demos atenção até ao que o Sawyer lia, às tatuagens cafonas do Jack, ao diário do Faraday… Moldamos personagens a torto e direito e fomos até ouvidos em alguns momentos.
Com tamanha expectativa, não há season finale que aguente. As frustrações serão proporcionais ao frenesi. A constatação de que – hey atenção amiguinhos do fórum – AS PEÇAS NÃO SE ENCAIXAM INTENCIONALMENTE vai fazer a bolsa de valores despencar. Gente se atirando dos prédios. Gente xingando muito no twitter. =)
E isso, acredito, também faz parte da brincadeira. Essa é a graça! Você vai ficar satisfeito se o final for exatamente como você esperava? Eu não. Prefiro ficar sem algumas respostas porque quero pensar na possibilidade delas existirem. Quero bolar meus finais alternativos, minhas realidades paralelas. Lembram daqueles livrinhos que a gente lia quando criança? Você escolhia se fulano pegava a faca (“pule para a página 26”) ou o serrote (“pule para a página 52”) e 72 escolhas depois, você tinha praticamente dezoito realidades paralelas em um livro de menos de 100 páginas. Os “what if?” do LOST ainda vão continuar por muito tempo online. “Você quer que o Jack aperte o botão (“alternativa a”) ou siga em frente (“alternativa b”)?” Provavelmente teremos uma versão 2.0 desse final “múltipla escolha” para que menos pessoas morram de depressão pós-finale e para que todos saiam dessa ao menos ilesos.
ps1: De todas as experiências estranhas que o LOST me trouxe, tenho que destacar duas.
1- A bizarrice do JustinTV. A fissura de ver LOST ao vivo e se submeter a um áudio capenga, imagem tosca e um bate-papo surreal na barra lateral. Gente do mundo todo tentando se entender, gente que nem falava inglês pedindo legenda real time, pedindo tradução simultânea (!!!)… Lembro de um brasileiro desesperado gritando em caps lock: “To usando 100% do meu inglês para entender 10% do que eles estão falando, HELP!!”. haha
2- Os DVDs pirateados do Stand Center. Quero agradecer ao senhorzinho que ficava lá na extinta loja da Augusta vendendo mashup de seriado em DVD. Para quem tinha preguiça e não tinha tempo de baixar os seriados em casa, ele colocava o último do LOST (no dia seguinte) com mais dois episódios de séries a sua escolha. Legendado, imagem ok. Ah, ele vendia os teasers também. Os TEASERS! #wtf
ps2: Poderia escolher várias frases dos diálogos entre Hurley e Miles, mas pensando bem, minha frase preferida do LOST ever é essa: “A 12-Year-Old Ben Linus Brought Me a Chicken Salad Sandwich. How Do You Think I’m Doing?” (Sayid, S05)”
* Ana Bean manda no Trash it Up.
Bom dia, aqui quem fala é o seu capitão Alexandre Matias e este é o último vôo da Oceanic Airlines rumo ao desconhecido. Nossa viagem durará 36 horas a partir das 8 desta manhã de sábado e tem hora para terminar, às 8 da noite de domingo. O destino: The End, episódio que encerra esta longa e bizarra lista de espera para saber as respostas para um monte de perguntas que, há seis anos, não incomodava a vida de ninguém. Para que nossa viagem não se torne cansativa, chamei alguns compadres e comadres para dividir com vocês todas as teorias, especulações, achismos, sensações, tensões e delírios sobre a série. Daqui a pouco muito mais gente que fez cara feia para Lost vai rever tudo – nem que seja pra falar mal -, fora gente que ainda nem nasceu que vai voltar à série como quem volta a um clássico. Mas só quem está nesta viagem, no dia 22 de maio de 2010, saberá o que foi viver a experiência da série. Espero que gostem. Apertem os cintos, boa viagem e é um prazer ter você a bordo de uma viagem do Trabalho Sujo.
* E se você quiser mandar sua contribuição (seja texto, foto, cartum, mixtape ou vídeo), me mande por email.
A grande sacada de Lost foi ensinar ao homem comum a se portar feito um mané. Depois de anos sendo motivos de chacota entre a sociedade civil, fãs de Arquivo X, Star Trek e Star Wars tiveram enfim o gostinho da vingança.
Uma não-trama de eternos seis anos conseguiu segurar na frente do computador uma infinidade de pessoas como eu e você, que nunca foram fãs de metal, dão um rolé no shopping com a namorada, eventualmente vão a praia e, vai saber, talvez nem tenham um perfil no Twitter.
Isso porque, principalmente no início, Lost soube disfarçar muito bem. Enquanto ficava apenas sugerindo o que havia de cretino em sua história, a ilha passava muito bem por um entretenimento decente para o cidadão de bem. Tínhamos dramas pessoais plausíveis, ainda que entre sussurros e defuntos na floresta, com personagens até interessantes.
Enquanto tudo era apenas sugerido, como em um soft porn do Multishow, havia beleza e bom entretenimento. Os últimos anos do programa foram como se tivessemos closes ginecológicos em um soft porn do Multishow, destrinchando coisas que não estavam necessariamente acontecendo.
E quando passamos a descobrir o que realmente estavam nos contando, foi um tapa na cara da sociedade – e ficou uma marca estilo “vida longa e próspera” do trekker devidamente vingado.
* Chico Barney é um dos ícones da internet brasileira.
Lost é apenas o começo.
Acredito que muito do impacto de Lost reside no fato de ser a primeira grande série que estreou com a internet mais consolidada entre as pessoas. Esse detalhe potencializou todo o ecossistema criado em torno da série.
O interessante é que a série ajudou a quebrar e a provar certas premissas.
Primeiro, provou que o consumo de vídeos de longa duração na web era viável. Meio óbvio falar isso hoje em dia, mas até pouco tempo atrás existia um mito de que as pessoas somente teriam paciência para assistir a vídeos de até 3 minutos na web. Hoje é comum conhecer pessoas que assistiram a toda série sem nunca terem se sentado diante de uma televisão. Consumiram tudo em frente a tela de um computador.
Mais: Lost também provou que um modelo menos restritivo de distribuição é possível.Um dia após a exibição na TV, os episódios eram disponibilizados no site da ABC, inclusive via streaming, tecnologia cada vez mais endossada pela indústria de música e filmes.
Aliás, Lost foi uma das primeiras séries a estar disponível na loja online iTunes, chegando a servir de carro-chefe para a inauguração da versão alemã da loja da Apple.
Depois de Lost será difícil assistir a uma série como antes. Sem ter a alguns cliques de distância os episódios para assistir quando e onde quiser, as teorias das conspirações, as comunidades online para discutir cada detalhe da série, os remixes publicados no YouTube, os ARGs, enfim todo o rico ecossistema criado em torno da série.
No caso de Lost, assistir a um capítulo era apenas o início da experiência. Reflexo de que, hoje em dia, o consumo de um conteúdo (seja uma notícia, música, filme) deixou de ser apenas o ponto de chegada. É o início da experiência.
* Tiago Doria é um dos poucos caras que escreve sobre mídia e tecnologia no Brasil que precisa ser lido sempre
A primeira coisa que eu falei pro Matias quando ele me chamou pra escrever sobre Lost foi um simples “não”. Afinal de contas, diferente da maior parte das pessoas que estão lendo as séries de posts de Lost no Trabalho Sujo, eu não estou acompanhando o seriado. Pra ser mais exato, eu abandonei Lost mais ou menos em S03E05 ou S03E06, quando percebi que não ia conseguir acompanhar as temporadas num ritmo adequado. Preferi, então, dizer não e me mantar à parte do tumulto da final.
Mas, veja como eu aprendi logo nas primeiras temporadas, não é tão fácil abandonar a ilha. Ou, melhor dizendo, não é tão fácil a ilha abandonar você. O Matias insistiu e eu me dei conta: mesmo sem continuar assistindo Lost de fato, eu acompanhei a maior parte da trama por fragmentos que chegaram até mim através de conversas próximas, posts rápidos em blogs ou comentários em redes sociais. Não vou saber descrever com detalhes o destino dos personagens, mas, mesmo sem querer, chegaram até mim notícias de que a coisa ficou realmente feia e incluiu viagens no tempo e realidades paralelas, uma grande sacanagem com os personagens de qualquer trama pop.
O ponto é o seguinte: em vez de eu acompanhar Lost, Lost é que me acompanhou. Pedaços da trama, entrevistas com os produtores e reações de fãs volta e meia orbitavam a minha vida mesmo que eu não quisesse ter nada a ver com o assunto. Obviamente isso não acontecia por acaso (acaso? Em Lost?). O seriado é um dos produtos ícone de uma nova leva de entretenimento meticulosamente desenhado para se espalhar, não apenas no que diz respeito aos formatos de mídia mas inclusive no conteúdo. Não é qualquer trama que suporta tamanha amplitude.
Como tudo hoje já nasce com teoria e explicação, compartilho com vocês a pirâmide invertida que fotografei num workshop da 42 Entertainment, empresa responsável por ARGs célebres como Why So Serious pro Cavaleiro das Trevas e Year One do Nine Inch Nails. Ela oferece uma visão bastante interessante que explica de forma clara o fenômeno Lost.
Em 2008, depois de participar desse workshop no Festival de Publicidade de Cannes, escrevi: “Essa pirâmide aí em cima mostra os níveis de envolvimento que o público pode ter com um ARG (clica na imagem que ela aumenta). Na ponta lá embaixo estão os louquinhos que rastreiam todas as pistas, formam comunidades pra resolver, atravessam a cidade até um telefone público para receber uma informação gravada, largam a namorada pra se dedicar ao ARG. Logo acima, no nível dois, estão os que acompanham as comunidades e participam do ARG de um jeito um pouco mais light, meio que sentado na cadeira em frente ao computador. O nível três diz respeito a quem sabe que um ARG está rolando, dá uma olhada de vez em quando e, se descobrir uma pista, passa para um amigo. O nível zero é o mainstream, que não sabe muito bem que negócio é esse, mas olha que legal a reportagem na TV sobre o ARG.”
Pois então.
O ensaísta Douglas Rushkoff chama de “moeda social” tudo aquilo que é usado pra gerar conexões entre pessoas. É uma espécie de medida de riqueza que determinados conteúdos ou produtos podem agregar a relações pessoais. O grande sucesso de Lost residiu na distribuição inteligente de moeda social para todos os níveis dessa pirâmide. Até mesmo os pobre maltrapilhos da base invertida como eu, que não tinham muito contato com o seriado, saíram com umas moedinhas no bolso. Se não muito pra dizer que fez parte da comunidade de um novo tipo de produto de entretenimento, ao menos o suficiente pra escrever um post no blog de um parceiro.
* Mini é dOEsquema.
Pois é, cara: eu vi as primeiras duas temporadas de Lost e alguns episódios soltos na casa do Fred, quando ainda era o Tchose Inn, ali na Princesa Isabel. Se não me engano, vi com o Ivan e (talvez) Tatu. Achei bem massa e fiquei a fim de acompanhar, mas sei lá, nunca deu o CLIQUE necessário pra tanto. Especialmente quando vi essas duas primeiras temporadas inteiras. Vi na GLOBO, durante um período da minha vida em que eu estava viajando pra caralho e ficava em vários buracos onde só tinha TV aberta. Enfim, minha opinião sobre o assunto é: se tivesse tido apenas 3 ou 4 temporadas, talvez virasse um HIT CULT do futuro, estilo TWIN PEAKS. Mas como insistiram em deixar aquela trama cada vez mais complexa e bizarra, acho que virou meio Hunter Thompson nos últimos 5 ou 10 anos de vida: uma CARICATURA de si mesmo.
* Que eu saiba, só existe um Cardoso.
Acho que devia ser entre 2005 e 2006, no intervalo entre a primeira e a segunda temporada de Lost. Nos EUA, a série já estava mais que bombada. Por aqui, começava a dar sinais de que não seria só mais uma. Portanto, fomos convocados – eu, Carina Martins, Kátia Lessa e o big boss Lúcio Ribeiro – para elaborar um especial do tipo “enciclopédia”, para a Editora Abril.
É até difícil de lembrar, mas naquela época Lost lançava dezenas de perguntas por episódio, além de enfiar um zilhão de “pistas” que poderiam ter alguma relação com a história (com o passar dos anos acabamos descobrindo que a maioria não tinha). Foi um pesadelo definir os verbetes da tal enciclopédia. Como você explica os filósofos Locke, Hume e Carlyle em dez linhas apertadas?
Ao mesmo tempo, que série de televisão é essa que faz você pensar em filósofos? E em livros, de O Senhor das Moscas a Ardil 22, passando por The Shape of Things to Come e Matadouro 5. Era, no mínimo, um programa de televisão que poderia te levar a outras coisas. Poderia, porque esses outros caminhos não eram essenciais para a sua diversão. Dava para ficar ali só curtindo as emoções, tipo “caralho, tem um urso polar na ilha!” ou “meu Deus, existem outras pessoas lá!”. Sempre com um ponto de interrogação no fim. Talvez por isso, mas não só por isso, Lost também tenha funcionado na TV aberta.
E aí eu fico imaginando como seriam as “enciclopédias” de séries como Friends e Seinfeld – que eu adoro, veja bem. No máximo se limitariam a personagens, algumas referências do universo pop, talvez algumas locações. Duvido que alguma delas tivesse o verbete “taoísmo”.
Por falar em verbetes, lembrei-me que um grande número deles terminava com a referência “Ver: Dharma”. E nós nos esquecemos de colocar exatamente um verbete na enciclopédia… Adivinha qual? Por outro lado, no universo de Lost a falta de informação faz tanto sentido que, olha só, ninguém reclamou.
* Paulo Terron é o capo do With Lasers – e colecionador de autógrafos, olha isso:
A vinda de Robert Crumb e Gilbert Shelton à Flip deste ano foi recebida com entusiasmo por muitos e por desdém por alguns, que reclamam da ausência de literatura da festa em Parati. Como não me animo a ir em eventos de escritores e sou avesso a botecos (já me basta ficar sentado na hora de trabalhar), comemorei mais a vinda dos dois como mais uma vitória da combalidade contracultura, que restou ser paga para posar de outsider nesses tempos neocon (eles já estão passando, perceba). Mas ao mesmo tempo a conjunção de dois patronos do quadrinho underground acendeu uma lâmpada num quarto emocional do meu cérebro. Foi com Crumb e Shelton que eu comecei a traduzir livros.
Eu havia acabado de ser demitido da Conrad e fazia os cálculos para ver se a vida de frila pagaria minhas contas. E entre os frilas que pintaram um dos primeiros foi o convite do Rogério para uma tradução. Rogério no caso é o de Campos, que até hoje está na Conrad, que fundou com o Forastieri ainda com nome de Acme. Os dois já não andavam bem entre si – o que culminaria, mais tarde, com a saída do André da Conrad – e quando o Rogério soube que o André havia me dado o cartão vermelho, me chamou para frilar. Não gostei muito de ver que entraria no meio da rusga dos sócios por causa de um frila, mas quando o Rogério me disse que era para traduzir o primeiro lançamento do Crumb pela Conrad, o álbum Zap Comix, não esquentei com a briga do casal e além da proverbial colher estava disposto a gastar todo um faqueiro para entrar nessa parada. E com o aval do Rogério (“Roxéééério”) traduzi não só o Zap como dois volumes do gato Fritz, outros dois do Mr. Natural, além de ter ajudado na preparação de texto do Minha Vida, traduzido pelo Galera. Além dos Crumb, ainda fui tradutor, sozinho, dos dois volumes dos Freak Brothers, do Shelton, lançados pela editora.
Ao saber do anúncio da vinda dos dois, lembrei-me de quando ainda morava numa casa de vila na Vila Mariana e passava madrugadas de dias da semana entre originais em inglês dos quadrinhos, cópias xerocadas dos mesmos com anotações e algumas edições nacionais anteriores – com suas traduções coxais (quase chorei de raiva ao ler, mais de uma vez, “smack” sendo traduzido por “beijinho”). Lembrei de quando fazia o Mateus, a Pri ou o Arthur reler pela quinta vez o mesmo trecho específico, para termos certeza de que a tradução estava correta, ou de fazê-los esperar por duas ou três páginas que deviam ser entregues no dia anterior. Eles sabiam que era esmero – e me orgulho hoje de ter traduzido cada “man…” em final de frase por “bicho…”, de ter abrasileirado bem todas as gírias e de ter incluído um ou outro “altos massa” no meio dos balões.
Depois deles, me aventurei por outras traduças da editora – e além de quadrinhos também me percorri dois livros densos e deliciosos: a coletânea de contos Futuro Proibido (que deveria ter um volume 2, também traduzido, mas que nunca saiu) e o livro Chuva de Estrelas. O primeiro era uma antologia de ficção científica, que me deu o prazer de traduzir Burroughs, Ballard, Gibson, Rucker, Sterling, entre outros, e o segundo foi escrito pelo mesmo Peter Lamborn Wilson que também assinava livros como o libertário radical Hakim Bey e linka diferentes tradições religiosas ou filosóficas (xamanismo, taoísmo, sufismo) pelo mundo cuja iniciação se dá sem mestre e através dos sonhos.
Entrevistaria Crumb e Shelton com prazer, mas só sairia de casa para vê-los se soubesse que não ia pegar fila e que teria lugar marcado. Descer pra Parati para assisti-los então, só com muitas doses de boa vontade. Mas só de saber da vinda simultânea de ambos para o Brasil já foi bom o suficiente por abrir essa janela na memória. Bom saber.
Materinha de abertura da edição do Link de hoje.
O começo do fim
Falta uma semana para o fim de Lost. Mas o impacto da série de J.J. Abrams, que mudou a forma como a cultura é produzida e consumida, continuará a ser sentido ao longo do século 21
Em menos de uma semana, tudo terá terminado. A história que fez que a série Lost se tornasse uma das marcas mais fortes da cultura do século 21 chega ao fim no próximo domingo, quando irá ao ar o último episódio da série, chamado apenas de “The End”.
Mas o fim da série só reforça sua importância, que vai muito além da TV. Lost criou uma mitologia própria e obrigou o espectador a especular para além da trama original, buscando links em livros clássicos e na história da religião, da ciência e da filosofia para tentar desvendar seu enigma.
Some isso ao fato de que a série acompanhou a forma como a internet mexeu com a velha mídia e desdobrou-se online, usando a rede como plataforma para divulgar mais especulações. Lost não só contava uma história – chamava seu público para participar dela, como em um jogo.
Fora dos Estados Unidos, Lost foi ainda mais importante, pois pela primeira vez na história um produto ficcional teve audiência planetária em tempo real, mérito que antes era apenas de transmissões jornalísticas e eventos esportivos. O interesse pela série fez que telespectadores de todo o planeta não esperassem a exibição dos episódios em seus países e buscassem meios – online – para acompanhar a saga simultaneamente ao público de seu país de origem.
Lost também inaugura um novo tipo de narrativa, que explora as possibilidades da era digital como nenhum filme, livro ou disco conseguiu fazer até hoje. É o produto que melhor representa como será a cultura do futuro, em que o público pode escolher entre simplesmente acompanhar uma única história ou se entregar a um universo de ramificações infinitas.
A série faz que seus espectadores sejam ativos e busquem aumentar a história a partir de sua própria participação – mesmo que isso signifique apenas especular sobre o que pode acontecer. Parece pouco, mas não é.
“O mistério representa possibilidades infinitas”, disse seu criador J.J. Abrams em uma palestra no evento TED (sobre tecnologia, entretenimento e design) em 2007. “Representa esperança, representa potencial… O mistério é um catalizador da imaginação”.
Local e global
Um evento em cinco cidades
“O aspecto mais excitante da cultura digital é a combinação de uma internet global com tecnologias que detectam localização, permitindo que você conheça lugares ao seu redor. Estamos conectados globalmente de formas diferentes e ao mesmo tempo descobrimos novos lugares e pessoas que estão próximos a nós mesmos e que passariam despercebidos se não fosse a rede. As pessoas estão cada vez mais conectadas e mais regionalizadas, ao mesmo tempo. ‘Glocal’ e ‘lobal’”.
Assim Drew Hemment, diretor do festival inglês FutureEverything, se anima com as possibilidades de uma nova geografia pós-internet. Ele é um dos idealizadores do evento GloNet, que será realizado na próxima quinta-feira, 13, em São Paulo e em outras quatro cidades do mundo. Além de São Paulo, Manchester na Inglaterra, Istambul na Turquia, Vancouver no Canadá e Sendai no Japão também sediam simultaneamente o evento, cujo mote é Geografia Imaginária.
“A cultura digital permite que possamos viajar sem nos movermos”, continua Hemment. “Cada vez mais pessoas têm acesso à internet e a serviços gratuitos como o Skype, que nos permite pular entre fusos horários e culturas apenas apertando um botão. Isso faz com que o mundo fique mais unido e pode criar choques culturais interessantes.”
Esta geografia digital não é apenas o tema de palestras e workshops que ocorrerão no Masp, mas também faz parte da própria dinâmica do festival, que pressupõe a interação entre os participantes das cinco cidades do evento.
Hemment é especialmente entusiasmado com o Brasil e diz que o País é conhecido mundialmente como o epicentro da cultura livre e da filosofia open source. O artista já passou pelo País, onde fez amigos, e adaptou a ideia dos Pontos de Cultura do Ministério da Cultura brasileiro em sua cidade-natal, Manchester. Ele se diz “fã” do Brasil e de São Paulo e diz que a cidade preserva muitos aspectos locais mesmo sendo uma metrópole global.
E é essa uma das principais questões levantadas pelo GloNet: como os âmbitos globais e regionais sobreviverão em uma sociedade totalmente conectada. “Prevejo a emergência de um novo tipo de regionalismo”, explica. “A cultura digital permite tanto conexões locais quanto globais. Em muitos lugares do mundo há um renascimento de estabelecimentos comerciais e comunidades regionais, que atualmente compete com a tendência de uma globalização ruim, sem os prazeres e diferenças que cada região pode ter.”
GloNet 2010
Realizado pelo Vivo Arte.mov em parceira com o British Council e o festival inglês FutureEverything, o evento será realizado na próxima quinta-feira, a partir das 11 h, no Masp em São Paulo. O programa conta com palestras de Lucas Bambozzi (Geografias Transitórias), Guilherme Wisnik (Cidade genérica x site-specific), Jorge Menna Barreto (Especificidade e (in)traduzibilidade), Giselle Beiguelman (Estéticas do Open Source), além de videoconferência e workshop com os artistas ingleses Paul Sermon e Dave Mee. O Masp fica na Avenida Paulista, 1.578 (telefone: 11 3251-5644) e a entrada para o GloNet é gratuita.
DEPOIS DE LOST
www.scariestthingieversaw.com. O endereço do site A Coisa Mais Assustadora Que Eu Vi apareceu em um microssegundo no trailer de Super 8, produção de Steven Spielberg com o criador da série Lost J.J. Abrams. Ainda vazio, o site deve iniciar mais uma mania online.












