Foi passar meia-dúzia de episódios da primeira temporada para todo mundo ter certeza de que a ilha era o purgatório (o lugar onde você tem que fazer estágio antes de ser aceito no céu). Tinha sentido: os primeiros flashbacks mostravam os pecados e as frustrações de cada personagem. E a ilha era o lugar das redenções. Purgatório.
Seria um bom final para uma minisérie com uma dúzia de capítulos. E era para ser isso mesmo: os produtores tinham certeza de que Lost não passaria da primeira temporada, disseram isso várias vezes.
Mas aí veio o problema: o povo gostou demais da série. E os produtores ganharam um contrato para continuar por anos no ar (num primeiro momento, a ABC queria que Lost fosse eterno, enquanto durasse a audiência). Mas e agora? Como enrolar anos pra terminar com um final que todo mundo já tinha adivinhado?
Desmentir esse final, ué! Foram várias entrevistas dizendo que, não, eles não estão mortos. Que tudo ali era real e blá blá blá. Segundo passo: bolar histórias que se fechem em si mesmas, na medida do possível, enquanto o final original, o do purgatório, esperava na geladeira. E aí tome estações da Dharma, vila dos outros, tribo dos hostis, estátua, templo, Jacob, Samuel… Ah, pegadinha: esse era o nome do Homem de Preto nos scripts. Só não usaram na história para fazer charme, para inventar “mistério” onde não havia nada.
Aí veio o último capítulo e descobrimos que realmente não havia nada. A cabeça dos criadores estava vazia. Todos os mistérios importantes eram falsos. Tinham sido concebidos sem conclusão. Claro. Se a ideia original era a de que a própria ilha fosse o purgatório, quando ela deixa de ser, por decreto dos produtores, ela própria deixa de fazer sentido. Por isso a série acabou sem falar nada sobre a natureza mitológica da ilha. Transformaram ela num mundo “Caverna do Dragão”. Uma terra sobrenatural sem um propósito convincente.
E aí… chegou a hora de o programa terminar. Mickey Mouse tinha que partir. E o que fizeram? Em vez de bolar alguma coisa que amarrasse o mínimo que fosse as (ótimas) histórias que tinham criado para ganhar tempo, os produtores pularam fora do próprio barco. Resolveram manter aquele que seria o final original. Mas com outro purgatório, a realidade alternativa, já que a ilha tinha ganho o status de “lugar real”.
Fizeram provavelmente o mesmíssimo final que tinham na cabeça lá atrás. Christian Shephard é a maior evidência disso. Vemos o caixão dele vazio logo no comecinho da série. E o próprio Christian surge para Jack no mato – mas ainda sem falar nada.
Ele só falaria no final da primeira e única temporada imaginada originalmente para Lost. A cena: Jack encontraria Christian na praia (ou em uma eventual igrejinha que tivessem contruído na ilha). E…
– Pai, o que vc está fazendo aqui se está morto?
– O que VOCÊ está fazendo aqui, Jack?
– Então eu morri! Todo mundo aqui morreu…
Fim.
E seria bom. O problema foi colocar esse final agora, improvisado, como se nada tivesse acontecido entre a primeira e a última temporada.
É disso que boa parte dos fãs reclamou. Só que, na real, não aconteceu nada mesmo entre a primeira e a última. Histórias inconclusivas não são histórias. São passatempos. As viagens no tempo, os templos, a coisa de apertar o botão a cada 108 minutos para salvar o mundo… Foram brincadeiras bem legais. Mas soltas, sem nenhuma relevância para a história que tinham para contar.
Vender essas brincadeiras como elementos que formariam uma saga foi estelionato. Para piorar, a própria Lostpedia estava cheia de idéias de fãs que dariam conta de resolver tudo. De fundir aquela miríade de histórias sem pé nem cabeça numa narrativa coerente. A criatividade coletiva dos fãs tinha ultrapassado com folga a dos produtores. Mas eles preferiram fechar os olhos. Para um pecado desses, não tem purgatório.
* Versignassi escreveu este texto no blog da revista que edita.
Será que eu morri, fui para um purgatório e minha punição é ter assistido a esse final de “Lost” e eu só vou entender tudo e conseguir fazer a travessia quando eu ler um comentário de um leitor me xingando e aí a luz vai se abrir para mim e eu vou assistir a um episódio que faça jus a tudo o que “Lost” representou desde 2004? Putz, preciso correr para uma igreja asap.
*
Pera. O final feliz de Lost foi que todos morreram e foram para o céu? O final da série da queda do voo 815 numa ilha que ninguém sabia onde ficava e onde ninguém conseguia chegar (lembra da paraquedista do Widmore? do pêndulo? do avião recriando as condições do voo 815?) por causa de uma energia eletromagnética absurda que foi liberada quando o Desmond parou de apertar o botão a cada 108 minutos, que tinha a Dharma, os Outros, as mulheres que não podiam engravidar, as crianças que sumiam no meio da mata quando apareciam sussurros, que tinha as estações dharma com um cano que levava os diários para o meio do mato, as viagens no tempo, o Faraday, a constante, que teve o Locke que voltou a andar, que tinha o Walt um garoto especial, que tinha Ben que manipulava a todos, que tinha as regras e o Jacob e o Alpert que não envelhecia, o final dessa série foi o PAI MORTO DO JACK ABRINDO A PORTA DE UMA IGREJA PARA TODOS OS PERSONAGENS MORTOS RUMAREM JUNTOS PARA A LUZ??
Para, vai.
Ó, posso falar? Eu derrubei uma lágrima no final. Por pura emoção de ver ali reunidos os personagens que eu acompanhei por anos, com teorias mil, sobre quem eu debati por incontáveis horas e posts, por ver que eu teria que me despedir deles. No more “Previously on Lost”. Triste. Mas foi meio que uma emoção final de novela, aquelas cenas de casamentos coletivos com madrinhas grávidas e vilões mortos. Porque eu estou inconformada que a realidade paralela, que a gente achou que surgiu da bomba explodida no passado (e da ilha no fundo do mar) era na verdade o além. O purgatório. A ante-sala do céu. Chame como quiser. Parece que eles inventaram isso meia hora antes de começar a gravar.
E qual o sentido de no além a galera ter outra vida, casar com outras pessoas? E o filho do Jack é quem, alguém pode me dizer? Um anjinho que foi fazer figuração para o coração do Jack se alegrar? Aí eles encontraram as almas das pessoas que tinham amado na, hã, outra vida e, com um toque mágico, despertam para a realidade, digo, para o além, para onde estavam e ficaram prontos para fazer a travessia, e entenderam que o que viveram na ilha foi a parte mais importante de suas vidas. Era esse o mistério da realidade paralela? Alguém REALMENTE achou isso genial?
Pensa, please. Os caras planejaram a realidade paralela para ser o céu. Eu desisto. E Michael e Walt não merecem ir para o céu? Nem Ana Lucia? Nem o filho da Penny? ah, eles não estavam prontos, olha que resposta ideal.
O Desmond levou o tal choque da energia eletromagnética no aparelho de Widmore e aí teve a visão do paraíso? Tipo numa experiência de quase-morte? “Lost”, no fim das contas, tem mais a ver com a novela “A Viagem” do que a gente imaginou.
Acho que tudo foi um truque, porque diante disso o resto do episódio final da série sem absolutamente nenhuma resposta sobre mistério nenhum até que fez muito sentido. Porque o Desmond era especial, viajava no tempo, conseguia se conectar em épocas diferentes – não que isso faça alguma diferença para a história que eles contaram – mas ele era especial. Por ser especial, ele conseguiu descer na luz sem virar monstro, por ser especial ele conseguiu arrancar a rolha do lago dourado (era essa a rolha do inferno?), isso permitiu que o Locke-capeta fosse morto, aí o Jack colocou a rolha no lagoa de volta e tudo ficou bem.
Mas oi, o Jacob não podia pensar nisso antes? Arruma alguém para descer lá. Precisava de todo esse drama, séculos a fio, vidas destruídas, morte, tudo vai desaparecer se o Locke-capeta deixar a ilha, nossas filhas irão desaparecer?
Poxa, e tudo isso foi um erro do Jacob, como a gente comentou no episódio passado. Porque o irmão dele só queria sair dali e viajar, só isso. Aí Jack arrumou tudo, se sacrificando por um bem maior, Hurley virou o novo Jacob (o segredo é ter um recipente para beber água suja, veja você, e qualquer um vira o novo Jacob. Basta ter um copo ou uma garrafa à mão), numa dupla do barulho com Ben, almoçando aos domingos com o casal Rose e Bernard, ah que bonito.
Pergunta honesta: se o Jack não tivesse descido na rolha do inferno e tivesse dado um jeito de todo mundo entrar no avião e ir embora da ilha, deixando o Locke-capeta lá sozinho, o mundo ia acabar? Ou o Locke-capeta ia ficar lá sentado esperando outro navio chegar?
Percebe onde eu quero chegar? Tenho a terrível sensação de que nada do que a gente viu nas primeiras temporadas tem a ver com a batalha final. Nada, absolutamente nada. Viagens no tempo? Nem. Coincidências no passado dos losties? Zero? Números? Nem vou entrar nessa. Energia eletromagnética? Putz. Dharma? Quem? Comida Dharma chegando na ilha, lembra? No idea. Viagens no tempo? No fim nem a bomba teve a ver com nada, teve? Porque não era uma nova realidade. Era O PURGATÓRIO.
Triste. Muito triste.
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E a Eloise, que parecia saber de tudo? Serviu para que?
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Pô, e a Nadia? Ela não era o grande amor do Sayid? E aí quem vai pro céu com ele é a Shannon? Sacanagem.
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A Claire da ilha não tava mais limpinha nesse episódio?
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O Aaron não tinha que estar mais velho no céu? Ah é, lá o tempo não existe, foi mal, Christian.
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A luz da porta da igreja é a luz da ilha? Juro, dúvida honesta. Porque a ilha é a rolha do inferno mas guarda a luz do céu?
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Por favor, se o episódio fez sentido para você (não vale “me emocionei com todos juntos”, tem que fazer sentido) explica o porquê nos comentários, com clareza e educação. Eu realmente queria ler opiniões de gente que curtiu.
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Por fim, o que eu tenho a dizer é: por pior que tenha sido essa sexta temporada, e ela foi muito ruim na minha opinião, eu não considero perdido todo o tempo que eu investi nessa série. Em última instância, uma série de TV serve para nos divertir, é entretenimento, e eu me diverti horrores assistindo a “Lost”. Foi divertido demais ficar acordada madrugadas e madrugadas à espera do episódio, dar pause nas cenas para tentar entender os sussurros, fuçar em um milhão de blogs para achar os detalhes escondidos nos quais eu nunca reparava, comprar livros só porque os personagens liam e eu queria ler também, gastar posts e posts escrevendo sobre a série no blog e lendo comentários de leitores e debatendo com meus amigos e debatendo com desconhecidos, lendo entrevistas dos produtores, inventando listas e quizzes (opa, carlão!) divertidíssimos para o Séries Etc.
Para mim, as três primeiras temporadas de “Lost” estão sem dúvida entre as melhores coisas já produzidas na televisão e eu adorei ter acompanhado tudo isso em tempo real, adorei, bem ou mal, ter participado da série mais bombante do século 21, da série que inaugurou um novo jeito de ver TV.
E isso ninguém, nem o Christian Shephard transformado em anjo de luz, vai estragar.
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Última coisa. As cinco primeiras temporadas não serviram para quase nada, né?
* Claudia escreveu este texto em seu blog.
“Onde estamos, pai?”
“Esse é um lugar em que todos vocês criaram juntos para que pudessem encontrar uns aos outros. A parte mais importante de sua vida foi o tempo em que você passou com essas pessoas. É por isso que todos vocês estão aqui. Ninguém consegue fazê-lo sozinho, Jack. Você precisava de todos eles, e eles todos precisavam de você”.
“Para quê?”
“Para se lembrarem… e para seguir adiante”.
O que faz isso tudo por que passamos, sentimos, experimentamos valer a pena? Minha resposta é direta: por acreditar em que tudo acontece por um motivo e que por trás desta gigante e inexplicável razão existe a simples necessidade de encontrarmos a felicidade. Estas são duas verdades pessoais que trago comigo desde antes de “Lost” e que foram erguidas como nunca em “The End”, o emocionante e inesquecível desfecho da série.
De seu início à comovente cena final, no ocaso de uma odisseia, “Lost” consagra a certeza de que, por incríveis seis temporadas, vivenciamos uma fábula sublime e unicamente grandiosa a respeito de nossa busca pela felicidade, procura ora consciente ora inconsciente, mas nunca de fato estagnada. Uma luz que, em tese, deveria nos ser facilmente encontrável por estarmos frequentemente mergulhados no escuro, mas que por muitas ocasiões desaparece por nos deixarmos cegar por este breu que é tão humano quanto os personagens que nos conduziram, através de suas jornadas, por um encontro com nossas próprias histórias.
“The End” comprova um ritual de seis anos de duração em que nos foi dada uma chance, uma escolha: a de nós e eles nos tornarmos um só. E, uma vez fechado o livro, me sinto plenamente feliz por ter me servido do copo e ver que não estive, ver que não estou sozinho. Muitos, somos Locke em crenças inabaláveis; somos Hurley no amor à inocência; somos Sawyer quando ora renunciamos, ora revelamos o que trazemos; somos Kate ao acertarmos errando; somos Sayid ao encontrar pesadelos que contam nossa história mas não nos mostram; somos Charlie ao sucumbirmos diante de nossas fraquezas e ao conseguirmos nos fortalecer diante delas; somos Desmond na luta pelos amores que nos dão constantes de vida; somos Jack em transformações que, mesmo em morte, nos apontam a direção.
Em seu encerramento, “Lost” desfaz-se em definitivo de supostos embates para atar laços fundamentais: ciência como caminho para chegarmos à fé, esse patamar alcançável de uma força que nos transcende; e livre arbítrio que nos permite antecipar ou retardar o destino, que se torna dharma ou karma de acordo com o que merecemos. Tudo ao sabor da epopeia de nossos personagens, contada através deles; vivida por todos nós, losties que sempre fomos.
E por fim, nem a mais generosa noção do nosso merecimento poderia antecipar a força e o sentido das lágrimas dos momentos finais, donas da mais pura e alcançável felicidade. Nada vai nos roubar a emoção de estar naqueles abraços que celebraram o amor e a paz que envolvem os que seguem juntos dos seus para um voo maior. Nada vai nos tirar a sensação de que, após uma saga de dúvidas e fé, desilusão e esperança, quando os olhos se fecharam, a luz de “Lost” se fez presente não pela última e mais bela vez, mas para sempre. Para todo o sempre.
* Carlos Alexandre Monteiro escreveu este texto em seu blog.
“This is the end/ beautiful friend/ of everything that dies, the end”
(The End – The Doors)
“And in the end the love you make is equal to the love you take”
(The End- The Beatles)
Vocês já perderam alguém importante na vida de vocês? Eu já . Mais do que posso contar com calma. Para qualquer pessoa que já perdeu alguém importante em sua vida, ou que já teve que enfrentar cara a cara sua própria mortalidade, o episódio final de Lost, no ar ontem as 21h aqui nos EUA, foi um banquete altamente satisfatório e catártico.
Não, as grandes perguntas não foram respondidas – o que, como explico aqui neste texto da UOL TV é, antes de mais nada, um modo muito inteligente e orgânico de manter a mitologia da série viva ab aeternum (para citar outro pedaço da mitologia). Mas A grande pergunta que os show runners Damon Lindelof e Carlton Cuse decidiram abraçar neste fim de série – a própria natureza humana e seu destino – foi completamente respondida, com a eficácia dos bons contadores de história , em volta da fogueira, desde o princípio dos tempos.
Escrever para TV fechada é fácil. (Mentira: é difícil, tão difícil quanto produzir qualquer boa obra audiovisual. ) Difícil mesmo é escrever para TV aberta , com o nível de sofisticação e profundidade que Lost atingiu, consistentemente, nestes seis anos. Escrever para TV aberta durante seis temporadas é ser Scheherazade eternamente adiando a decapitação por ordem do soberano mal humorado e todo poderoso, insatisfeito com os índices de audiência, os indicadores demográficos e o retorno dos anunciantes. Ser capaz de tirar uma história de dentro de outra história de dentro de outra história, fiel ao princípio da narrativa que deu partida a tudo mas capaz de manter o sultão feliz é feito para poucos.
No processo dessas mil e uma noites na Ilha, a visão inicial de JJ Abrams, possivelmente mais Além da Imaginação e Arquivo X do que Livro Tibetano dos Mortos, sofreu as transformações necessárias para sua sobrevivência. O mito da Ilha, construído para servir de base à narrativa e aos arcos dos personagens, tornou-se menos importante do que os personagens em si. Lost estreou numa época difícil – depois do 11 de setembro, tendo como plateia uma sociedade cínica, paranóica,fracionada e profundamente ferida. A virada que Carlton Cuse e Damon Lindelof propuseram conduziu a série na direção de sua humanidade , e não daquilo que era extra ou sobre-humano. É possível fazer uma indagação filosófica sobre o sentido da vida, 50 minutos por semana, três meses por ano, durante seis anos? Por incrível que pareça, é. E em TV aberta.
O que comoveu e permaneceu do último episódio de Lost – além de seu magnífico roteiro, escrito com enorme rigor de estrutura e o tipo de humor entre-dentes que estava fazendo falta na série, ultimamente (“não acredito em muita coisa, mas acredito em fita adesiva”, foi minha fala favorita) – foi a sinceridade com que abraçou o humano em todos nós, dos seus criadores a seus personagens e a toda a platéia. Se aprendermos a viver juntos, não morreremos sozinhos, foi o que restou depois que o último olho se fechou na última e maravilhosa cena. É o oposto do que tudo a nossa volta parece estar dizendo. As forças que nos separam, dividem e isolam não são tão poderosas quanto as forças que nos fazem procurar o Outro e reconhecer nela ou nele sua luz interior, igual à nossa: aloha, e namastê.
Uma palavra final sobre o magnífico trabalho de Michael Giacchino, tão integral ao impacto de Lost que, nos roteiros, suas entradas eram anotadas como “O Giacchino” (assim: “aqui, O Giacchino aumenta a tensão”; “tapete triste de O Giacchino por baixo do diálogo”). A música em Lost era velha-escola, gravada ao vivo no estúdio Eastwood do lot da Warner, com uma orquestra de músicos sinfônicos experientes, que acabou conhecida como Orquestra Lost. Era ao mesmo tempo incrivelmente avant garde e profundamente romântica, respeitosa do trabalho dos atores mas, ela mesma, um ator, adicionando sua voz – a harpa sinistra, os violinos e metais abstratos, o piano pensativo – ao coro dos desempenhos. Mais uma vez, uma lição concreta de colaboração, comunidade, estar junto.
Namastê!
* Ana Maria escreveu este texto em seu blog.
Já deu? Chega de Lost? Bom, há controvérsias. Ao responder em alguns blogs que falaram do fim de Lost, eu ainda estou recebendo ainda hoje, os novos comentários que esses posts receberam, e notei uma coisa: num primeiro momento era um embate equilibrado sobre quem gostou e quem não gostou, agora, parece que é um assunto em pauta apenas pra quem não gostou.
A idéia é que quem gostou já absorveu isso em suas vidas e tocou em frente, de forma análoga aos personagens da série. Quem não gostou ainda está remoendo a história do fim. E o protesto é sempre o mesmo: Não respondeu às perguntas e foi um final novela das 8. Aí eu peço desculpa pela prepotência: Vocês não entenderam nada! Não é o fato de ter gostado ou deixado de gostar que me diz que vocês não entenderam. Gostar é uma questão de escolha pessoal e pronto. Tem gente que gosta de jiló, tem gente que não.
A questão é que os motivos de vocês não terem gostado remetem ao fato de vocês terem comprado gato por lebre. Lost não é um livro de Ágata Christie, está muito mais pra um de Gabriel Garcia Marques…
GGM é meu escritor favorito e 100 anos de solidão meu livro de cabeceira. Em momento nenhum isso prova a genialidade dele de forma absoluta. Prova apenas pra mim. E por estarmos tratando da mesma vertente literária, era de se esperar que eu gostasse de LOST e quem não gosta de GGM, detestasse…
Mas aí a polêmica fica em outro patamar. O patamar de gostar ou não de um determinado gênero literário. E talvez de ter havido alguma confusão na hora de comprar o produto (ser convencido a assistir LOST). Então vamos falar do processo de venda.
Depois da Sky + eu quase não vejo mais propaganga: gravo meus programas e pulo os comerciais. Mas vez por outra me pego assistindo em especial comerciais de séries que eu assisto e choro de rir. Na própria AXN: os comerciais de Raising the Bar são extremamente focados nos romances entre os personagens dando um ar falso de uma série que tenta ser sexy: a série é sobre os dilemas da defensoria pública e até rola romance, mas num plano secundário: não é barrados no fórum como a propaganda faz parecer. E esse é um exemplo de milhares. Durante muito tempo me perguntei se quem faz as propagandas não podia assistir a série antes de falar tanta besteira. Ingenuidade minha: sexo vende muito mais do que dilemas morais, então no exemplo que dei, a propaganda se concentra nas insinuações de sexo muito mais do que nos dilemas de defender judicialmente quem não pode pagar por caros advogados.
Então entendo que você justifique suas críticas dizendo: Lost foi vendida como uma série de mistérios, e série de mistérios precisam que esses mistérios sejam “resolvidos” no final. Bom, você caiu no conto do vigário, acha mesmo que Activia é mágico e faz ir ao banheiro regularmente e que beber Jonhy Walker faz você ir longe na vida. Propaganda é propaganda e não dá pra confiar cegamente. Alias, vamos combinar, não dá pra confiar e ponto.
Então vamos concordar em um ponto: as propagandas do AXN a cerca de LOST eram “propagandas enganosas” que o levaram a pensar que LOST era uma série scifi com respostas lógicas aos mistérios propostos. Acione o procon, mas não reclame da série.
Lost era uma parábola narrada através do Realismo Fantástico. O fato do capítulo final já ter estado escrito desde o episódio piloto de LOST é a prova que os seus roteiristas não se perderam no meio da série e colocaram um final meia boca porque não conseguiram explicar os mistérios. Eles nunca quiseram explicar nada nesse nível de romance detetivesco… Isso não os faz perfeitos e que não tenham tropeçado aqui ou alí, ou que a série tenha um ou outro erro de continuismo, mas apenas que responder às perguntas levantadas pelos mistérios da série nunca foi a intenção primordial da obra, aliais, nem primordial nem secundária. Eram elementos simbólicos usados pra contar a história e apenas isso.
Realismo Fantástico, também chamado de Realismo Mágico ou Maravilhoso é uma corrente literária do século XX, em especial latino americana, que tem como nomes de destaque Gabriel Garcia Marques (Colômbia, e ganhador do Nobel de literatura), Julio Cortázar (Argentina), Arturo Uslar Pietri (Venezuela), José J. Veiga (Brasil), José Luis Borges (Argentina) e Alejo Carpentier (Cuba).
Toda a idéia do Realismo Fantástico é a de fundir duas visões tidas como antagônicas:a cultura da tecnologia e a cultura da superstição e através delas, contar uma história cujo interesse é mostrar o irreal ou estranho como algo cotidiano e comum (Os Losties viajam no tempo, eles acham isso estranho, mas ninguém para e surta e diz: Viajar no tempo é impossível, vamos buscar uma explicação científica pra isso ou melhor, vamos assumir que estamos todos loucos. Ao contrário, eles encaram o improvável como algo factível dada a realidade da ilha) e usar essas passagens como metáforas e críticas sociais.
Diferente do surrealismo, o inesperado irreal é incorporado na realidade e possui coerência interna. Não necessita de uma explicação lógica, mas possui uma explicação mítica (e eventualmente mística) que é compartilhada num nível subconsciente e está em concordância com os demais elementos da história.
Wikipédia básica para a galera… são características do realismo fantástico:
Conteúdo de elementos mágicos ou fantásticos percebidos como parte da “normalidade” pelos personagens;
– Elementos mágicos algumas vezes intuitivos, mas nunca explicados;
– Presença do sensorial como parte da percepção da realidade;
– O tempo é percebido como cíclico, como não linear, seguindo tradições dissociadas da racionalidade moderna;
– O tempo é distorcido, para que o presente se repita ou se pareça com o passado;
– Transformação do comum e do cotidiano em uma vivência que inclui experiências sobrenaturais ou fantásticas;
– Preocupação estilística, partícipe de uma visão estética da vida que não exclui a experiência do real.
Opss, acabo de descrever LOST.
Você tem TODO O DIREITO de não ter gostado de Lost, mas então, desgoste dele pelo que ele é: uma obra de Realismo Fantástico. E para uma obra dessa vertente literária, Lost não possui grandes falhas e cumpre o que se propôs. E (para quem gosta do estilo) foi uma obra prima se pensarmos que foi algo que passou na normalmente rasa e pouco significativa televisão…
Gosto não se discute, mas entendimento sim…
* Adriana escreveu este texto em seu blog.
Ser original nos anos 10
Lost além da cultura do sample
Adaptação para o Twitter do livro tal, remake daquele outro filme para a TV, uma nova versão do clássico não-sei-o-quê em formato de games, um clássico da literatura misturado com zumbis, o herói fulano dos quadrinhos que virou brinquedo… A quantidade de produtos culturais lançados diariamente parece inversamente proporcional à quantidade de títulos originais. Tudo parece remix, remake, adaptação ou mashups de temas clássicos, recorrentes ou manjados.
Menos Lost.
A série, que se arrastou por seis anos e chega a um fim retumbante neste domingo nos EUA, é um dos pouquíssimos exemplos de uma história contada em escala global que não se apoia em uma estrutura narrativa já estabelecida para apenas criar novos nomes para personagens conhecidos. Harry Potter e alguns títulos de quadrinhos e games são outros. Mas o que Lost fez é inédito.
A série criou uma história particular que, apesar de fazer referência a outras sagas, partiu de um zero completamente novo. Mesmo quem não acompanha a série sabe do avião que caiu numa ilha, do monstro de fumaça, dos ursos polares, dos flashbacks e flash forwards ou da Iniciativa Dharma. Pode não saber como isso tudo se amarra à história, mas seus ícones já estão estabelecidos, mesmo que o final seja frustrante para os fãs mais ferrenhos.
Não que isso nunca tenha sido feito (os universos dos super-heróis, Guerra nas Estrelas e Arquivo X são apenas alguns exemplos). O ineditismo de Lost diz respeito à era digital, de referências, samples e citações – e na insistência de seus criadores em contar uma história nova. Pode procurar: são poucos os que se atrevem a ser originais hoje em dia. E esse atrevimento pode ser reconhecido.
Primeiro online
Iñarritu vê a Copa do Mundo
A Nike lançou nesta semana, na internet, um comercial inacreditável. Dirigido pelo mexicano Alejandro González Iñárritu (o mesmo diretor de Babel e 21 Gramas, o curta de três minutos mostra seleções de futebol de países diferentes durante uma Copa do Mundo e as consequências que podem acontecer a cada um dos jogadores. Estrelado por ícones do futebol atual (Cristiano Ronaldo, Wayne Rooney, Fabio Cannavaro e o brasileiro Ronaldinho) Write the Future mostra como um simples drible ou chute a gol pode mudar completamente o destino de um jogador. O clipe ainda conta com participações do tenista Roger Federer, do jogador de basquete Kobe Bryant, do ator Gael García Bernal e de Homer Simpson (sério!) e, de um jeito ou de outro, se encaixa dentro da filmografia de Iñárritu. Para assistir, entre
no site www.nikefootball.com
A gente fica falando e falando sobre o quanto Lost é relevante, revolucionário, multiplataforma, transmedia, enigmatico e tudo mais. Mas o que importa, o que sempre fez toda a diferença do mundo, é que Lost é bom demais. Simples assim.
Agora, jogar adjetivos ao vento é simplificar demais. Por que “bom demais”? Poucas vezes eu vi um equlíbrio tão preciso entre história (o episódio da semana e a grande trama que serve de pano de fundo) e caracterização (as personalidades complexas dos personagens que movem a história). Os escritores se deram a chance de explorar sem pressa cada item que julgavam importante para a história que queriam contar. Convenhamos que isso não é comum para um programa exibido na TV aberta Americana, a mais impiedosa do mundo quanto ao resultado de sua programação.
Durante essa jornada, a trama inicialmente nebulosa foi tomando forma e os segredos sendo revelados. Os escritores habilmente manobraram as expectativas das tribos de fãs oferecendo, lá e cá, fé e ciência, mas quem ia vendo sua teoria de estimação descartada, muitas vezes se desinteressava pelo programa. Era o choque dos homens de fé (as teses místicas) e os de ciência (os ratos do sci-fi). Quem achava que eles estavam mortos, ou que eles eram avatares, ou que habitavam um limbo espiritual, ou ou ou…
Nessa jornada, aprendemos a jogar de uma maneira nova. Muita gente nunca se tocou que um romance de mistério, um “whodunit” clássico, é um jogo entre o leitor e o escritor. Estão brincando uma mistura de Esconde-esconde e, sei lá o nome daquela brincadeira de “tá quente-tá frio”. Lost trouxe isso pro terreno da multimedia-multiplataforma e explodiu as cabeças de uma geração que achava que só havia um jeito de acompanhar uma trama. Quando alguém tenta explicar o que é esse negócio de narrativa transmedia, Lost é o exemplo perfeito, o estudo de caso. Pense nisso: uma geração de espectadores do mundo todo aprendendo a jogar com sua série. Uau.
Mas chamar uma audiência de milhões de pessoas para… jogar? Era óbvio que a coisa ia filtrar seu público. Sobramos nós, que ouvimos o chamado de Darlton (o nome ridículo dado à entidade formada por DAmon Lindelof e CARLTON Cuse) materializado no refrão da música “Make Your Own Kind Of Music”, cantada por Mama Cass Elliot, tocada na primeira cena do primeiro episódio do segundo ano:
“You gotta make your own kind of music
Sing your own special song
Make your own kind music
Even if nobody else sings along”
Esperamos semanas entre episódios que entregavam uma gota de informação, meses entre temporadas. Minha mulher, irritada com as doses homeopáticas de informação no segundo ano da série, cunhou a frase: “é muito pouco pela minha fidelidade” (Hummm, penso sempre nessa frase em outros contextos e fico bem espertinho, sabe. Mais uma informação importante que Darlton me deu).
E, caramba, como somos globais, somos muitos. Dezenas de milhões em todo o mundo. Gente que aprendeu a fazer downloads e catar legendas, operar gravadores digitais, ressuscitar videocassetes, ficou de olho na tela do AXN, acompanhou a exibição diária na Globo no início do ano ou esperou pelos lançamentos anuais das caixas de DVDs. Tudo para saber o que estava por trás daquele fatídico acidente do vôo 815 da Oceanic Airlines. Ou da escotilha, ou o que acontecia na outra ilha, ou porque os Oceanic Six tinham que voltar ou agora: o que diabos é aquela luz no coração da Ilha? Agora queremos saber como vai ser nossa vida depois de, bem, do fim.
Somos talvez menos do que quando Lost podia ser qualquer coisa, naqueles primeiros e nebulosos dias. Mas agora estamos em todo lugar, conectados por um programa revolucionário, genial e que, na essência, pode ser definido, depois de tantos rodeios, como smplesmente bom demais.
* Alexandre Maron é do tempo em que se orgulhar de ser nerd era motivo de vergonha.
Tá meio frustrado com esse final? Ainda bem. Estranho seria se não estivesse. Só tem uma coisa: isso é mérito do Lost. Nunca um produto da cultura pop (ou da não-pop) atiçou tanto a imaginação de tanta gente. Tudo bem que exista uma quantidade surpreendente de donos de sabres de luz ou de pessoas fluentes em Klingon por aí (eu conheço um cara que fala Klingon e a língua dos elfos do Senhor dos Anéis, além de grego clássico, mas não posso dizer quem é). Só que beleza: são coisas de nicho. E nicho tem pra tudo. Lost é diferente. É para a massa. Dá para puxar conversa no metrô sobre o que está acontecendo na ilha. Alguém vai ter uma teoria.
E esse é o ponto. Se cada um tivesse a sua teoria e ficasse em casa com ela não haveria tanta frustração com os últimos episódios. O problema é que a troca global de teorias, principalmente via Lostpedia, criou algo inédito: uma seleção natural de teses em que só as melhores sobreviveram. Darwin puro: as ideias mais redondas se juntaram com outras tão boas quanto e deixando descendentes ainda mais brilhantes. Tão bem-adaptadas ao ambiente da série que, em alguns casos, a teoria chegou a superar a prática (a história que estava na cabeça dos roteiristas).
A minha favorita dizia que o Jacob era um Aaron do futuro, que teria voltado ao passado mais remoto da ilha e começado a parada toda. O Homem de Preto? Fácil: era o Aaron da realidade alternativa. O bebê ainda não tinha nascido no universo paralelo e, como todo mundo teve uma vida pregressa ao vôo 815 um pouquinho diferente (Jack teve um filho, por exemplo, provavelmente com a Juliet), o pai da criança seria outro. E ele nasceria moreno. Seria um Jacob Bizarro… O Homem de Preto, enfim. E um não poderia matar o outro porque, poxa, eles seriam a mesma pessoa.
Aí veio o episódio da semana passada, o Across the Sea, e matou a teoria que eu gostava. Tive de me contentar como o fato de que eles não são filhos da Claire, mas de uma romana xis, e que não podem matar um ao outro por causa de uma porcaria de um passe de mágica. Pô…
Mas ok. Importa mais saber que o desfecho não é um Frankenstein roteirístico criado a partir do que os fãs acham. Está claro que pelo menos a essência do que imaginam pro fim já estava na cabeça dos caras. Olha aqui que você vai ver. Nesta cena do 1º episódio da 1ª temporada fica óbvio que o personagem ali jogando gamão com o Walt não é o Locke, mas o Homem de Preto mesmo. Os produtores tinham medo de a série ser cancelada depois de 12 episódios. Então era natural, então, que já pusessem o irmão do Jacob no corpo do Locke de uma vez. Até por isso tinha aquele mistério de o John ser um paralítico que voltou a andar. Voltou a andar porque quem estava no controle do corpo dele era a entidade. Mais para o final da temporada, com contrato renovado com a ABC e tudo ok para produzir mais dezenas de episódios, a coisa muda de figura. Terry O´Quinn, o ator que faz o Locke, muda o jeito de interpretar seu personagem. O Locke da ilha vira um homem frágil, igual o Locke dos flashbacks. Perde o olhar de onisciência que fazia nas primeiras cenas. E o homem de preto só toma mesmo o corpo do Locke lááá na frente, na 5ª temporada.
Bom, os produtores nunca disseram isso. Nem desdisseram, porque ninguém perguntou. É só uma teoria. Mas isso é o que interessa no Lost: ele bota as nossas cabeças para funcionar o tempo todo, não só enquanto um episódio está passando. Teorizar o passado e no futuro da trama é tão bom quanto assistir capítulo novo. Até melhor, às vezes. Pena que, agora, é só até domingo 🙁
* Alexandre Versignassi é editor da Superinteressante, onde ele está fazendo um especial sobre a série, saca só.
Os geógrafos dizem que há dois tipos de ilhas. Eis uma informação preciosa para a imaginação, porque ela aí encontra uma confirmação daquilo que, por outro lado, já sabia. Não é o único caso em que a ciência torna a mitologia mais material e em que a mitologia torna a ciência mais animada.
As ilhas continentais são ilhas acidentais, ilhas derivadas: estão separadas de um continente, nasceram de uma desarticulação, de uma erosão, de uma fratura, sobrevivem pela absorção daquilo que as retinha. As ilhas oceânicas são ilhas originárias, essenciais: ora são constituídas de corais, apresentando-nos um verdadeiro organismo, ora surgem de erupções submarinas, trazendo ao ar livre um movimento vindo de baixo; algumas emergem lentamente, outras também desaparecem e retornam sem que haja tempo para anexa-las.
Esses dois tipos de ilhas, originárias ou continentais, dão testemunho de uma oposição profunda entre o oceano e a terra. Umas nos fazem lembrar que o mar está sobre a terra, aproveitando-se do menor decaimento das estruturas mais elevadas; as outras lembram-nos que a terra está ainda aí, sob o mar, e congrega suas forças para romper a superfície. Reconheçamos que os elementos, em geral, se detestam, que eles têm horror uns dos outros. Nada de tranqüilizador nisso tudo. Do mesmo modo, deve parecer-nos filosoficamente normal que uma ilha esteja deserta. O homem só pode viver bem, e em segurança, ao supor findo (pelo menos dominado) o combate vivo entre a terra e o mar.
Ele quer chamar esses dois elementos de pai e mãe, distribuindo os sexos à medida do seu devaneio. Em parte, ele deve persuadir-se de que não existe combate desse gênero; em parte, deve fazer de conta que esse combate já não ocorre. De um modo ou de outro, a existência das ilhas é a negação de um tal ponto de vista, de um tal esforço e de uma tal convicção. Será sempre causa de espanto que a Inglaterra seja povoada, já que o homem só pode viver sobre uma ilha esquecendo o que ela representa. Ou as ilhas antecedem o homem ou o sucedem.
Mas tudo o que nos dizia a geografia sobre dois topos de ilhas, a imaginação já o sabia por sua conta e de uma outra maneira. O impulso do homem, esse que o conduz em direção às ilhas, retoma o duplo movimento que produz as ilhas em si mesmas. Sonhar ilhas, com angústia ou alegria, pouco importa, é sonhar que se está separando, ou que já se está separado, longe dos continentes, que se está só ou perdido; ou, então, é sonhar que se parte de zero, que se recria, que se recomeça.
Havia ilhas derivadas, mas a ilha é também aquilo em direção ao que se deriva; e havia ilhas originárias, mas a ilha é também a origem, a origem radical e absoluta. Separação e recriação não se excluem, sem dúvida: é preciso ocupar-se quando se está separado, é preferível separar-se quando se quer recriar; contudo, uma das duas tendências domina sempre. Assim, o movimento da imaginação das ilhas retoma o movimento de sua produção, mas ele não tem o mesmo objeto.
É o mesmo movimento, mas não o mesmo móbil. Já não é a ilha que se separou do continente, é o homem que, estando sobre a ilha, encontra-se separado do mundo. Já não é a ilha que se cria do fundo da terra através das águas, é o homem que recria o mundo a partir da ilha e sobre as águas. Então, por sua conta, o homem retoma um e outro dos movimentos da ilha e o assume sobre uma ilha que, justamente,não tem esse movimento: pode-se derivar em direção a uma ilha todavia original, e criar numa ilha tão-somente derivada.
Pensando bem, encontrar-se-á aí uma nova razão pela qual toda ilha é e permanecerá teoricamente deserta. Para que uma ilha deixe de ser deserta, não basta, com efeito, que ela seja habitada. Se é verdade que o movimento do homem em direção à ilha retoma o movimento da ilha antes dos homens, ela pode ser ocupada por homens em geral, mas é ainda deserta, mais deserta ainda, desde que eles estejam suficientemente, isto é, absolutamente separados, desde que eles sejam suficientemente, isto é, absolutamente criadores.
Sem dúvida, de fato, isso nunca é assim, se bem que o náufrago se aproxime de uma tal condição. Mas, para que isso seja assim, há de se impelir na imaginação o movimento que conduz o homem à ilha. É só em aparência que um tal movimento vem romper o deserto da ilha; na verdade, ele retoma e prolonga o impulso que a produzia como ilha deserta; longe de compromete-la, esse movimento leva-a à sua perfeição, ao seu apogeu.
Em certas condições que o atam ao próprio movimento das coisas, o homem não rompe o deserto, sacraliza-o. Os homens que vêm à ilha, ocupam-na realmente e a povoam; mas, na verdade, se estivessem suficientemente separados, se fossem suficientemente criadores, eles apenas dariam à ilha uma imagem dinâmica dela mesma, uma consciência do movimento que a produziu, de modo que, através do homem, a ilha, enfim, tomaria consciência de si como deserta e sem homens. A ilha seria tão-somente o sonho do homem, e o homem seria a pura consciência da ilha. Para tanto,ainda uma vez, uma única condição: seria preciso que o homem se sujeitasse ao movimento que o conduz à ilha, movimento que prolonga e retoma o impulso que produzia a ilha. Então, a geografia se coligaria com o imaginário.
Desse modo, a única resposta à questão cara aos antigos exploradores (“que seres existem na ilha deserta?”) é que o homem já existe aí, mas um homem pouco comum, um homem absolutamente separado, absolutamente criador, uma Idéia de homem, em suma, um protótipo, um homem que seria quase um deus, uma mulher que seria uma deusa, um grande Amnésico, um puro Artista, consciência da Terra e do Oceano, um enorme ciclone, uma bela bruxa, uma estátua da Ilha de Páscoa. Eis o homem que precede a si mesmo.
Na ilha deserta, uma tal criatura seria a própria ilha deserta na medida em que ela se imagina e se reflete em seu movimento primeiro. Consciência da terra e do oceano, tal é a ilha deserta, pronta para recomeçar o mundo. Porém, dado que os homens, mesmo voluntários, não são idênticos ao movimento que os põe na ilha, eles não reatam o impulso que a produz; é sempre de fora que encontram a ilha e o fato de sua presença contraria, nela, o deserto.
Portanto, a unidade da ilha deserta e do seu habitante não é real, mas imaginária, como a idéia de ver atrás da cortina quando ali não se está. E mais: é duvidoso que a imaginação individual possa por si mesma elevar-se até essa admirável identidade; veremos que isso requer a imaginação coletiva no que ela tem de mais profundo, nos ritos e nas mitologias. A confirmação, pelo menos negativa, de tudo isso pode ser encontrada nos próprios fatos, quando se pensa naquilo que uma ilha deserta é realmente, geograficamente. A ilha e ilha deserta, com mais forte razão, são noções extremamente pobres ou frágeis do ponto de vista da geografia; elas têm apenas um fraco teor científico. Isso é um privilégio para elas.
Não há unidade objetiva alguma no conjunto das ilhas. Menos ainda nas ilhas desertas. Sem dúvida, a ilha deserta pode ter um solo extremamente pobre. Deserta, ela pode ser um deserto, mas isso não é necessário. Se o verdadeiro deserto é inabitado, isso ocorre na medida em que não apresenta as condições de direito que tornariam possível a vida,vida vegetal, anima ou humana. Contrariamente, que a ilha deserta esteja inabitada mantém-se como puro fato devido às circunstâncias, isto é, aos arredores.
A ilha é o que o mar circunda e aquilo em torno do que se dão voltas, é como um ovo. Ovo do mar, ela é arredondada. Tudo se passa como se ela tivesse posto em torno de si o seu deserto, fora dela. O que está deserto é o oceano que a circunda inteiramente. É em virtude das circunstâncias, por razões distintas do princípio do qual ela depende, que os navios passam ao largo e não param. Mais do que ser um deserto, ela é desertada. Desse modo, mesmo que ela, em si mesma, possa conter as mais vivas fontes, a fauna mais ágil, a flora mais colorida, os mais surpreendentes alimentos, os mais vivos selvagens e, como seu mais precioso fruto, o náufrago, além de contar, finalmente, por um instante,com o barco que a vem procurar, apesar de tudo isso ela não deixa de ser a ilha deserta.
Para modificar tal situação, seria preciso operar uma redistribuição geral dos continentes, do estado dos mares, das linhas de navegação. Novamente, isso quer dizer que a essência da ilha deserta é imaginária e não real, mitológica e não geográfica. Simultaneamente, seu destino está submetido às condições humanas que tornam possível uma mitologia. A mitologia não nasceu de uma simples vontade, e os povos admitiram bem cedo não compreender seus mitos.
É nesse mesmo momento que uma literatura começa. A literatura é o ensaio que procura interpretar muito engenhosamente os mitos que já não se compreende, no momento em que eles já não são compreendidos, porque já não se sabe sonha-los e nem reproduzi-los. A literatura é o concurso dos contrassensos que a consciência opera naturalmente e necessariamente sobre os temas do inconsciente; como todo concurso, ela tem seus preços. Seria preciso mostrar como a mitologia entra em falência nesse sentido e morre em dois romances clássicos da ilha deserta, Robinson e Suzana. Suzana e o Pacífico (L. Giraudoux, Suzanne et lê Pacifique, Paris, Grasset, 1922, reeditado em Oeuvres romanesques complètes, vol. I, Paris, Gallimard, col. Bibliothèque de la Pléiade) acentua o aspecto separado das ilhas, a separação da moça que aí se encontra; Robinson (Daniel Defoe, Robinson Crusoe, 1719-1722) acentua o outro aspecto, o da criação, o do recomeço.
É verdade que são bem diferentes as maneiras pelas quais a mitologia entra em falência nesses dois casos. Com a Suzana de Giraudoux a mitologia sofre a morte mais bonita, a mais graciosa. Com Robinson, a mais penosa. É difícil imaginar um romance tão aborrecido, e é uma tristeza ver ainda crianças lendo-o. A visão de mundo de Robinson reside exclusivamente na propriedade e jamais se viu proprietário tão moralizante. A recriação mítica do mundo a partir da ilha deserta cede lugar à recomposição da vida cotidiana burguesa a partir de um capital. Tudo é tirado do barco, nada é inventado, tudo é penosamente aplicado na ilha. O tempo é tão-só um tempo necessário ao capital para obter um ganho ao final de um trabalho. E a função providencial de Deus é garantir o lucro. Deus reconhece os seus, as pessoas de bem, porque elas têm belas propriedades, ao passo que os maus têm péssimas propriedades, maltratadas. A companhia de Robinson não é Eva, mas Sexta Feira, dócil ao trabalho, feliz por ser escravo, muito rapidamente enfastiado de antropofagia. Todo leitor sadio sonharia vê-lo finalmente comer Robinson.
Esse romance representa a melhor ilustração da tese que afirma o liame entre capitalismo e protestantismo. Robinson Crusoe desenvolve a falência e a morte da mitologia no puritanismo. Tudo muda com Suzana. Com ela, a ilha deserta é um conservatório de objetos já prontos, de objetos luxuosos. A ilha já é imediatamente portadora daquilo que a civilização levou séculos para produzir, para aperfeiçoar, amadurecer. Porém, com Suzana, a mitologia também morre, é verdade que de uma maneira parisiense. Suzana nada tem para recriar; a ilha deserta lhe dá o duplo de todos os objetos da cidade, de todas as vitrines de magazines, duplo inconsistente, separado do real, pois ele não recebe a solidez que os objetos ganham ordinariamentenas relações humanas, no seio das vendas e compras, das trocas e dos presentes. É uma moça insípida. Seus companheiros não são Adão, mas jovens cadáveres; e quando reencontrar os homens vivos, ela os amará comum amor uniforme, à maneira de párocos, como se o amor fosse o limiar mínimo de sua percepção.
Trata-se de reencontrar a vida mitológica da ilha deserta. Contudo, na própria falência, Robinson nos dá uma indicação: inicialmente, ele precisaria de um capital. Quanto à Suzana, antes de tudo, ela estava separada. E nem ele nem ela, finalmente, poderiam ser o elemento de um par. É preciso restituir essas três indicações à sua pureza mitológica e retornar ao movimento da imaginação que faz da ilha deserta um modelo, um protótipo da alma coletiva.
Primeiramente, é verdade que não se opera a própria criação a partir da ilha deserta, mas a recriação, não o começo, mas o re-começo. Ela é a origem, mas origem segunda. A partir dela tudo recomeça. A ilha é o mínimo necessário para esse recomeço, o material sobrevivente da primeira origem, o núcleo ou o ovo irradiante que deve bastar para reproduzir tudo. Evidentemente, isso tudo supõe que a formação do mundo se dê em dois tempos, em dois estágios, nascimento erenascimento; supõe que o segundo seja tão necessário e essencial quanto o primeiro; supõe, portanto, que o primeiro esteja necessariamente comprometido, que ele tenha nascido para uma retomada e já renegado numa catástrofe.
Somente há um segundo nascimento porque houve uma catástrofe e, inversamente, há catástrofe após a origem porque deve haver,desde a origem, um segundo nascimento. Podemos encontrar em nós a fonte desse tema: para apreciar a vida, nós a alcançamos não em sua produção, mas em sua reprodução. O animal, cujo modo de reprodução se ignora, ainda não ocupou lugar entre os vivos. Não basta que tudo comece, é preciso que tudo se repita, uma vez encerrado o ciclo das combinações possíveis.
O segundo momento não é aquele que sucede o primeiro, mas é o reaparecimento do primeiro quando se encerrou o ciclo dos outros momentos. A segunda origem, portanto, é mais essencial que a primeira, porque ela nos dá a lei da série, a lei da repetição, da qual a primeira origem apenas nos dava os momentos. Porém, mais ainda do que nos nossos devaneios, esse tema se manifesta em todas as mitologias. Ele é bem conhecido como mito do dilúvio. O arco se detém na única porção da terra que não está submersa, lugar circular e sagrado de onde o mundo recomeça. É uma ilha ou uma montanha, ambas ao mesmo tempo, pois a ilha é uma montanha marinha e a montanha é uma ilha ainda seca. Eis a primeira criação tomada numa recriação que se concentra numa terra santa ou no meio do oceano.
Segunda origem do mundo, mais importante do que a primeira é a ilha santa: muitos mitos nos dizem que aí se encontra um ovo, um ovo cósmico. Como ela forma uma segunda origem, ela é confiada ao homem, não aos deuses. Ela está separada, separada por toda a espessura do dilúvio. O oceano e a água, com efeito, são o princípio de uma talsegregação que, nas ilhas santas, são constituídas por comunidades exclusivamente femininas, como as de Circe e Calipso. Enfim, o começo partia de Deus e de um par, mas não o recomeço, que parte de um ovo, de modo que a maternidade mitológica é freqüentemente uma partenogênese.A idéia de uma segunda origem dá todo seu sentido à ilha deserta,sobrevivência da ilha santa num mundo que tarda para recomeçar. No ideal do recomeço há algo que precede o próprio começo, que o retoma paraaprofunda-lo e recua-lo no tempo. A ilha deserta é a matéria desse imemorial ou desse mais profundo.
* Texto manuscrito dos anos 50, inicialmente destinado a um número especialconsagrado às ilhas desertas pelo magazine Nouveau Fémina. Esse texto nunca foi publicado. Na bibliografia esboçada por Deleuze em 1989 ele figura sob a rubrica “Diferença e repetição” (ver apresentação).
* Não faço a menor idéia quem seja esse tal de Gilles (<-that's irony) e esse texto (que, na real, chama-se Causas e razões das ilhas desertas e foi traduzido por um certo Luiz Benedicto Lacerda Orlandi) me foi enviado ontem, em PDF, por alguém cuja assinatura no email é Fra Tura. Valeu aê (mas duvido que seja armação, eniuei).
Seis anos. Eu mudei, você mudou. Nosso mundo mudou, o mundo deles mudou.
Em 2004 começou lá fora, aqui só começou em 2005. Era via cabo, ou assistindo os DVDs no final. Mudança – hoje pode-se ver ao vivo, ou baixar em poucas horas. Mudou o mundo, em 2005 havia uma pessoa, outras passaram, como episódios melhores ou piores – quanta ironia que certas durações diminuíram junto com o tempo de espera, são tempos rápidos, confusos, fugazes.
E somente agora escrevendo me dei conta que Lost começou junto com os anos que a minha vida mudou. Dá para ficar brincando de paralelos – o mundo televisivo é um antes de Lost, o meu mundo também era outro antes de 2005. Ingenuidade, desconhecimento e a beleza da primeira temporada, onde tudo era descoberta de pessoas e de mundo; até a certa confusão e desagregação de tudo que aconteceu nessa última. Dá um belo paralelo também.
Também fiz minha lista de Charlie, dos Greatest Hits da vida, e a maioria deles aconteceu com Lost no ar. Personagens também apareceram e se foram. Não consegui ligar para Penny como Desmond fez, talvez em uma das sequências mais belas que já apareceram nas telas de TV – os telefones estavam sempre ocupados. Reaprendi a usar as pernas como Locke, e a olhar todos os novos passos, tem aventuras que perdemos por não podermos embarcar, mas elas funcionam, as pernas, no local correto. Pensei em uma camiseta, escrita “Eko & The Bunnymen”, com a cara do negão e coelhinhos, nunca feita. Já achei que fui Jack, querendo ser o Sawyer, mas na verdade costumava acabar como Hurley. Aviões entraram na minha vida, para ver novos amigos e mais que amigos – por sorte aqui não houve paralelo, nenhum se partiu ao meio, nem em vôos da Ocean Air.
Tivemos dias de Ben, mandando os meios às favas para conseguir os finais. Tentamos escapar de nossas ilhas. Flashbacks indicaram pistas pro futuro. Suspeitamos de Jacobs brincando com nossos destinos. Aceitamos qualquer sacrifício, como Sayid, para encontrarmos nossas Nadias, somente para ver que estávamos sendo enganados. Achamos identificações 4, 8, 15, 16, 23, 42 vezes. Ficamos apertando botões para sempre tentar adiar finais, mesmo sem saber quais seriam. Vimos monstros que demoramos a entender. Tivemos Kate na grade das nossas jaulas. Andamos pelas nossas ilhas sem rumo, tentando entender porquê estávamos ali.
E, coincidentemente (Desmond ficaria orgulhoso), Lost acaba juntamente com a vida na cidade que passei os últimos 21 anos. E que marca exatamente o final da fase da minha vida que começou lá junto com a série, em 2005. E acho que vai dar para olhar para trás e ver que, em Lost e na vida, muita coisa ruim e boa passou. E que, definitivamente, vou ver as razões de tudo isso.
Mas, claro, alguns vão dizer…Hallelujah.
Hora de vida nova. Que ela venha.
* Marcio K dá mole de não blogar mais.









