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Lost sempre foi um dos meus seriados preferidos. Minhas expectativas para o episódio final eram enormes.

Boa notícia: fui correspondido de maneira exemplar. Eu esperava algo excelente, algo digno de todo o seriado e sua reputação. Foi isso o que tive e muito mais.

Não consigo entender a ânsia de boa parte do público em ter todos os mistérios resolvidos. Dêem um tempo, por favor. Que graça teria se tudo fosse explicado por A + B? É tão bom poder bolar teorias próprias e discutir com os outros a respeito delas.

O importante é que os criadores conseguiram juntar as pontas mais relevantes neste season finale. Tenho a convicção de que o plano era esse desde o começo.

SPOILERS à frente.

Então, os flashsideways nada mais eram que o próprio purgatório, o próprio limbo! Por essa eu não esperava, mas devia. Mais uma vez, Damon Lindelof e Carlton Cuse criam algo de impacto e que faz todo o sentido. Como não pensei nisso antes?

O que é Lost se não um seriado que mostra diversos personagens convivendo, brigando, amando, criando amizades profundas e evoluindo (ou não) como seres-humanos? Além disso, há uma ILHA, que na verdade é um personagem, cheia de seus mistérios e com uma mitologia particular.

Por 6 anos acompanhamos essa história brilhante, que nunca deixou de empolgar, seja pela complexidade dos personagens, pelos mistérios intrigantes e pelas mudanças estruturais pela qual a narrativa passou. Que outro seriado nos ofereceu flashbacks, flashforwards e flashsideways?

Flashsideways? Não.

Este final veio nos mostrar a inexorabilidade do tempo. Não importa como, onde ou quando. Todos estamos fadados ao mesmo destino. A morte. E infelizmente, nossos queridos Losties não fogem a esta implacável regra.

Foi extramamente emocionante acompanhar Desmond ajudando os outros a se lembrarem de suas vidas antes da morte. Cada uma destas cenas é carregada de muito sentimento, nos fazendo pensar durante alguns segundos sobre tudo o que vimos durante esses 6 anos.

O diálogo entre Jack e o pai se revela como um dos melhores momentos de todo o Lost.

Assim como a cena final.

Caramba.

Havia melhor maneira de fechar o arco?

Jack, cambaleando, deita-se na floresta para morrer. Vincent aparece e permance ao seu lado. Seus olhos se fecham.

Uma rima absurdamente inteligente e comovente. Impossível não sentir alguns calafrios com isso tudo.

Alguém esperava mais?

Nota 10.

* Bruno publicou este texto em seu blog.

Lost terminou e deixou perguntas e mais perguntas sem resposta. E poderia ser diferente? O programa se baseou no mistério e no realismo fantástico, sempre oferecendo questões, nunca soluções. Não seria nem coerente mudar agora.

A compilação de questionamentos em aberto feita pelo College Humor faz piada com a ânsia por resultados de boa parte dos fãs da série. Taí um ponto positivo de ter acompanhado Lost sem tanto fervor: fica mais fácil aceitar a trama proposta pelos criadores, em vez de se frustrar por não ver suas próprias teorias confirmadas.

Não daria nem tempo de explicar tudo que se esperava (e olha que se apelassem pra esse expediente ao longo da temporada, certamente a decrescente audiência na TV dispararia outra vez) e a verdade é que não precisava mesmo. Todo maníaco por Lost, conhecendo os caminhos e descaminhos de cada personagem, pode deduzir sozinho o que aconteceu com eles após Jack fechar os olhos pela última vez.

Foi o melhor final possível. Aberto, possibilitando que a série possa ser reassistida sem perdas na segunda volta, como acontece, por exemplo, nos filmes de mistério-pipoca de M. Night Shyamalan.

Vivemos a era da internet, em que programas de TV não tem mais horários fixos, discos não tem data de lançamento, em que a informação está fragmentada em diversos lugares, sendo processada de acordo com a buscas e os interesses de cada um. As pessoas se conectam e criam suas próprias verdades e realidades. Não existe mais lugar para nada pronto e embrulhado. Lost estaria totalmente na contramão se entregasse respostas prontas. E o seriado nunca esteve a favor do fluxo de obviedades.

2001 não é tido como um dos melhores filmes da história por conta da sua objetividade, pode ter certeza. Num mundo cada vez mais sedento por respostas curtas, o final de “Lost” foi uma ode as metáforas, a imaginação, as livres interepretações.

* Bruno escreveu este texto em seu blog.

Transmitido no último domingo, o capítulo final de Lost foi um dos maiores acontecimentos da história da televisão. Primeiro, pelos motivos óbvios: foi o primeiro programa de televisão que não foi só um programa de televisão. Ao utilizar ferramentas da Internet e ser maciçamente assistido pela web, a série marca o início da transição natural de uma mídia ultrapassada para outra mais moderna. O segundo motivo é pelo frisson causado, que criou uma ansiedade que eu confesso nunca havia sentido antes. O terceiro motivo, ligado intimamente ao anterior, diz respeito ao roteiro monstruoso criado pelos roteiristas. Para quem gosta de uma boa ficção, Lost entra para a história ao lado das melhores produções de todos os tempos. Um enredo único e impossível de ser repetido. Os recursos narrativos, recortando presente, passado, futuro e até um tempo inexistente e atemporal, dificilmente poderão ser utilizados tão cedo por outra série, filme ou livro. Por isso, Lost é um marco da narrativa audiovisual. Quem assistiu a série inteira foi testemunha de uma revolução de contar histórias que só deve ser sentida daqui alguns anos.

Mesmo com todas essas qualidades, o final de Lost foi brutalmente criticado por boa parte do público. A principal reclamação: as questões não foram respondidas. E é verdade: muitas das perguntas e dos mistérios arquitetados pelos roteiristas ficaram no ar. O que as pessoas não entenderam, porém, foi que era exatamente esse o objetivo da série: fazer as pessoas pensarem, deduzirem coisas, imaginarem, viajarem na maionese mesmo. Enfim, deixar o telespectador perdido. O final de Lost teve por objetivo incitar as pessoas a pensarem além da realidade plana, chata, linear e reta. Isso, mais do que tudo, é entretenimento de qualidade. O telespectador assistia um episódio, ficava com 100 perguntas na cabeça. No próximo episódio, 80 dessas questões eram brilhantemente respondidas, mas outras 150 questões eram levantadas. E isso seguiu até a última cena da série. Lost não foi uma história de respostas. Foi uma série de perguntas que levam a boas respostas que levam a outras ótimas perguntas. Exatamente como as nossas vidas.

O sucesso da série se explica exatamente pela ânsia do ser humano por respostas. Lost utilizou todos os recursos que nos deixam perdidos em relação à própria existência: a força da natureza, os mistérios das religiões, das tradições, da física, da filosofia, da psicologia e, acima de tudo, as incríveis contradições do comportamento humano. A série, no fundo, é centrada nos personagens e em seus conflitos. A ilha só serve como metáfora da absurda condição humana e dos mistérios existenciais a que estamos submetidos. Uma metáfora, aliás, muito bem executada.

O mais interessante em Lost, sem dúvida, foi a descoberta gradual das características de cada personagem. Um avião cai em uma ilha, algumas pessoas sobrevivem e não sabemos nada sobre elas. Enquanto isso, os roteiristas voltam no tempo e contam como era a vida de cada uma daquelas pessoas antes do acidente. Aos poucos, as máscaras vão caindo e conhecemos o temperamento de cada um. Depois, os roteiristas nos mostram o futuro após alguns terem saído da ilha. Em seguida, voltam para um passado remoto para logo criarem uma realidade paralela àquela da ilha (em uma explicação rasa da total falta de temporalidade para quem não assistiu). Ou seja, uma narrativa totalmente retardada e de difícil execução e assimilação. Mas, mesmo assim, os roteiristas amarraram tudo de forma magistral. As pontas soltas foram inevitáveis para sustentar toda essa loucura hipnotizante.

O fim escolhido pelos produtores da série foi totalmente compatível com as seis temporadas e passou a perna em todo mundo. Se fizessem um bolão ninguém acertaria exatamente o que aconteceu no fim. Quem assistiu a todos os episódios da série provavelmente percebeu, após muito pensar, que não havia melhor forma de encerrar a história. Com esse final – que não conto para não estragar a graça daqueles que não assistiram ainda – um dos pontos mais interessantes da série foi denotado: Lost sempre oscilou na medida certa entre um drama humano e uma ficção cientifica com pitadas de misticismo. No início, pensamos que o que ocorre na ilha é real e não têm ligações espirituais ou de naturezas estranhas. Com o passar do tempo, alguns absurdos aparecem e começamos a pensar em coisas anormais naquela ilha. Os roteiristas a todo o momento jogam com a razão e a emoção do telespectador. Explica-se algo de forma racional, mas essa mesma explicação levanta uma possibilidade fantasiosa. O contrário também ocorre: algo fantástico parece que vai acontecer e aí trombamos com a frieza das coisas exatas. Realidade e fantasia se confundem. Exatamente como em nossas vidas.

E o mais legal é que vamos descobrindo tudo isso junto com os personagens, que também estão perdidos. Ou seja, eles estão perdidos, nós estamos perdidos, às vezes até os produtores parecem meio perdidos. Aquela realidade absurda deixa a todos desorientados e sedentos por explicações racionais que não existem. Os simbolismos, as citações e todo o universo da série colaboram para construir essa narrativa que nos tira do eixo. A série prova que apenas as explicações racionais não são suficientes para a sede humana por respostas. Precisamos criar e fantasiar para viver de forma suportável. Realidade e fantasia têm a mesma importância e o mesmo efeito sobre o homem ao longo dos anos. Na verdade, como hoje sabemos, a fantasia é ainda mais constituinte de nossa realidade do que a razão. Na maior parte das vezes, a razão é apenas uma máscara superficial que esconde uma loucura preocupante. A vida de um homem, por mais que ele disfarce, é toda orientada por suas emoções.

E, no final, para que respostas exatas? Existem essas respostas? Leia um livro de Stephen Hawking e você descobrirá que as respostas são absurdas e sempre nos levam a outras perguntas ainda mais absurdas. Como explicar, por exemplo, o motivo de uma onda do mar estourar nas areias da praia? Sei lá, o cara faz uma teoria sobre as fases da lua, sobre a gravidade e me responde com exatidão. Tudo bem. Mas porque ocorrem as fases da lua? E como funciona a gravidade? Depois de respondidos, esses questionamentos se desdobram infinitamente. Isso é Lost. Isso somos nós aos quatro anos de idade fazendo perguntas sobre tudo. E, convenhamos, não deveríamos mais ser crianças e admitir logo que nunca teremos todas as respostas. Um mistério respondido sem deixar questionamentos não é um mistério, é uma ficção das mais inverossímeis.

Resta refletir sobre os motivos de exercemos a fantasia de procurar respostas mastigadas e lineares, frias como uma realidade utópica que não existe. Será que é exatamente por ainda sermos aquela mesma criança de quatro anos de idade? Correr atrás de repostas é realmente o que nos leva para frente, nos faz querer criar e viver apaixonadamente. Mas precisamos entender que não podemos esperar nada dessas respostas. Quanto mais sabemos, mais ignorantes ficamos. Quanto mais respostas, mais perguntas. Essa é a graça da vida, essa foi toda a graça de Lost: correr atrás de perguntas sem respostas. É como a história do rapaz que encontra um papel em que está escrito: “Não acredite no que está escrito do outro lado, é falso”. Vira o papel e lê: “Não acredite no que está escrito do outro lado, é falso”. O que devemos levar em consideração? O real ou o fantasioso? Puxa, olha aí mais uma pergunta. Alguém tem uma boa resposta?

* André Toso publicou este texto em seu blog.

Lost acabou com um desfecho de dar orgulho à Zibia Gasparetto, mas atendeu às minhas expectativas ao mostrar que ainda era capaz de surpreender. Mas eu não quero entrar nas discussões divertidas e cansativas sobre as diversas interpretações da mitologia. Quero fazer uma breve previsão.

O que sobrou de Lost além do seu legado como fenômeno cultural – retrato de uma geração que tem o desafio de lidar com uma quantidade praticamente inesgotável de informação – são as tais perguntas sem respostas, que ainda podem render um bom caldo através dos GAMES: diversão e informação para o povo, dinheiro e empregos para criadores, roteiristas e desenvolvedores. E parabéns a todos os envolvidos.

Já viram Just Cause 2? Para quem não sabe é um game que tem como ambiente jogável uma micronação asiática. Sim, um PAÍS, com praias, florestas, montanhas geladas, vilas, centro urbano, aeroportos, bases militares, e até uma ilha misteriosa à noroeste que esconde uma ESCOTILHA – Uma homenagem a Lost, mas também um toque do que é possível.

Se no começo da década passada fomos apresentados às possibilidades de interação num mundo concebido por uma obra audiovisual (Enter The Matrix – Matrix Online) o que não seria possível fazer hoje, com a tecnologia disponível, um público mais maduro e uma mitologia com tantas narrativas a serem exploradas?

Lost já ensaiou coisas nesse sentido, como alguns ARGs e o game Lost: Via Domus, mas nada digno de uma comoção extra-nerd que marcou toda a sua existência. Minha aposta é que Lost siga esse caminho. A quantidade de teorias, montagens, bobagens, músicas, vídeos e podasts deixam e deixarão claro essa necessidade / oportunidade.

* Ian Black escreveu este texto pra cá.

Quando Lost começou em setembro de 2004, a internet era bem diferente. O Facebook ainda tinha um “the” na url e ainda era restrito a estudantes de ensino superior e médio dos EUA, Twitter estava longe de existir, YouTube ainda demoraria mais seis meses para entrar no ar e o Google tinha acabado de fazer seu IPO. Mudou muito a internet e, com ela, os hábitos dos seus usuários.

E é com uma ferramenta do próprio Google que a gente pode ter uma ideia das mudanças de comportamento que aconteceram em paralelo com o desenrolar da série. O gráfico acima mostra uma tendência interessante. Em 2004, quem queria se aprofundar mais sobre as perguntas da série procurava por spoilers, e não por teorias. Isso acontecia particularmente logo antes e logo depois dos finais de temporada (exibidos sempre na última quinzena de Maio). Com o tempo – apesar de spoilers se manter como o termo mais procurado – os fãs começaram a procurar cada vez mais pelo que seus pares estavam pensando (e publicando) sobre os rumos dos sobreviventes do vôvooo 815: e vemos isso no gráfico, no crescimento proporcional das buscas por lost + theories. Isso reflete a estrutura dramática da série, em que perguntas eram respondidas com mais perguntas, mas também uma mudança mais profunda de comportamento online.

Nesses seis anos, mudou muito a forma como consumimos conteúdo na internet. Blogs já existiam desde, pelo menos, o fim dos anos 90, mas foi no início dos anos 2000 que ganharam cada vez mais destaque em relação aos “antigos” portais de internet. Na mesma época, a Wikipedia passava dos 500.000 artigos e 100 idiomas. Se o modelo dos anos 90 era o consumo de conteúdo de grandes portais, os anos 2000 começaram deixando claro que agora qualquer um poderia produzir (e distribuir) o seu próprio. Não por acaso, o termo Web 2.0 nasce em 2004. E começam a surgir YouTube, Digg, Flickr, Twitter, Yelp, Foursquare, etc. Todas essas ferramentas e outras tantas só existem porque cada vez mais passamos a dar atenção igual e até maior ao que era dito pelos nossos amigos, colegas de trabalho e desconhecidos com interesses em comum.

Se Lost sempre esteve em sintonia com essas mudanças – introduzindo um público de massa (foi veiculada durante todo esse tempo na TV aberta norte-americana) a coisas como ARGs e easter eggs, sendo transmedia antes do termo virar buzzword – era natural que seus fãs também o fizessem. Daí essa mudança: em vez de apenas consumir informação “oficial” vazada antes da hora, passaram a cada vez mais comentar, expor, debater. A criação em conjunto coisas a Lostpedia, uma implementação de wiki, outra coisa que é totalmente nesse caminho. Aliás, os outros fãs sempre foram importantíssimos para uma grande base de fãs que queria assistir aos episódios o mais rápido possível: os que baixavam a série em torrents, muitos usando ainda legendas feitas por equipes amadoras.

No fim, sabendo da comoção que o final da série ia causar na internet, muitos fãs decidiram se isolar até assistirem ao finale e a própria ABC resolveu transmiti-lo no mesmo horário em diversos países. A diferença entre um amigo comentando um episódio e passando um spoiler é se você o viu ou não.

E com um final aberto a interpretações e über-discutido online, Lost ajuda a mostrar que, na internet, ninguém é uma ilha.

Mal pelo último trocadilho, não resisti.

* Felipe escreveu este texto em seu blog.

Vou tentar exercitar meus poderes telepáticos, de origem místico-científica, e arriscar um palpite: essa não é a primeira resenha, crítica ou análise do Series Finale de LOST que você, leitor, está lendo. E digo mais, provavelmente a maioria das análises que você já leu discorriam não apenas sobre o enredo de Lost, mas também sobre a experiência pessoal do autor com a série, certo?

A métrica mais infalível para discernir uma obra de um fenômeno cultural é avaliar o quanto da própria vida as pessoas associam à vida da obra. Não tenho vergonha de admitir que Lost está para sempre misturada à história dos meus vinte-e-muitos anos. Muito mais do que uma série televisiva em 114 capítulos, Lost era, no início, uma obssessão de tempo integral, que permeava hábitos de leitura, pesquisas na Wikipedia, horas e horas surtando em sites enigmáticos cuja relação com a série era vaga, na melhor das hipóteses. Era uma das melhores desculpas para fazer amizades de toda a década de 00, e grande parte do meu círculo social atual nasceu nas madrugadas desesperadas atrás de links para baixar os episódios, que eram assistidos sem legenda, conforme iam chegando, para serem então discutidos até quando o sono permitisse. Qualquer coisa levemente parecida com uma pista perdida num canto de um frame que só era visto na transmissão em HD era motivo para mil teorias. Os erros de continuidade e de produção não eram perdoados. A mitologia da série se misturava à “mitologia” do próprio grupo de amigos que se conheceu através dela. Como entre os personagens da série, também houveram muitos romances, muitos rompimentos, brigas, polarizações, alguns bebês, e – felizmente – nem de longe tantas mortes, mas certamente um ou dois sumiços dramáticos e inexplicáveis. Como eu disse na análise de “What They Died For,” a linha entre os protagonistas e os espectadores de Lost é tênue, e portanto não tem como analisar a jornada completa de Lost sem passar pela contribuição pessoal.

Durante essa minha jornada particular, eu vivenciei bem cedo a revolta que muitos agora direcionam para o Series Finale. Apesar de ter sido rotulado de “massa de manobra de seita messiânica” por causa do meu review positivo de “Across the Sea,” a verdade é que eu desencantei da vertente pseudo-científica de Lost muito antes da maioria das pessoas, no final da segunda temporada, quando “eletromagnetismo” era um eufemismo para “energia que faz o que os roteiristas quiserem que faça.” Meu lado sci-fi geek é MUITO geek. Não precisou chegar nem perto de viagem no tempo, que dirá de luz mágica dentro de caverna, para que eu me afastasse de Lost, esfriasse a cabeça, e depois me reaproximasse já encarando a série como um drama sobre pessoas onde a mitologia é um veículo, não um destino.

Sob essa abordagem, a de que nem toda mão de treinador de cavalo em cena é uma pista, e de que os mistérios servem para testar a fé dos personagens, não para premiar telespectadores-detetives que venham a desvendar “o final” com antecedência com algum troféu imaginário – nesse aspecto, “The End” é um finale absolutamente digno para uma série que, dentro de seus acertos e (não poucas) falhas, fez história como um verdadeiro marco cultural e pairou acima da maioria das obras televisivas desse início de século.

Antes de qualquer coisa, vamos tirar da frente algo que me incomoda profundamente em qualquer conversa sobre Lost: é evidente que os produtores foram escrevendo a história ao longo da série. Isso não é detrimento NENHUM ao roteiro. Toda história foi escrita em algum momento. Lost começou como uma cena imaginada na cabça de J.J. Abrams durante um vôo. Naquele momento, não existia final, nem mistério, nem nada, era apenas uma queda de um avião. Li em algum lugar que, quando fez o pitch da série para a ABC, Abrams só tinha planejado até o momento da descoberta da escotilha. Ainda não existia final. Os bad numbers, que viraram ícone da série, foram criados por David Fury quando ele ainda trabalhava na série, antes de deixá-la por 24 Horas sem ter escrito qualquer explicação lógica para eles – a explicação ficou por conta de Javier Grillo-Marxuach (que por sinal foi o criador da Iniciativa Dharma) num ARG que ele comandou depois de ter saído, ele mesmo, da série, ao final da segunda temporada, e que foi criado justamente para tentar fechar algumas das questões que não eram centrais à trama, mas que tinham sido introduzidas pelos roteiristas na época em que Lost ainda era uma série sem data para acabar (e consequentemente carente de enredos que a mantivessem por tempo indefinido).

Encaremos a realidade dos fatos. Até o final da segunda temporada, Lost era uma série muito rentável que a ABC pretendia estender por quanto tempo pudesse. Durante dois anos, o importante era sustentar a narrativa, e não dosar meticulosamente pistas para um final que já estava garantido. Foi só durante a crise do mid-season da terceira temporada que Damon Lindelof e Carlton Cuse resolveram ter uma conversa séria com a ABC e exigir que a galinha dos ovos de ouro deles ganhasse uma data de fim, e temporadas mais curtas que não tentassem competir com 24 Horas no número de episódios. Era isso, ou sacrificar ainda mais os índices de audiência, porque o público não ia mais comprar jogo de espelhos e fumaças por muito tempo, e a série precisava de um rumo. A partir daí, sim, as temporadas passaram a ter coesão narrativa e uma espinha dorsal que unia as pontas.

Assim como a maioria das pessoas, eu também passei por uma fase na infância e adolescência em que escrevia contos. Eram uns contos bem sem-vergonhas, mas a maioria deles germinava de uma cena que brotava na cabeça, e daí crescia para sua explicação. O importante era a ambientação e o impacto da cena. Essa filosofia também era aplicada nas mesas de RPG que eu mestrava. Muitas aventuras de mistério e terror que meus players lembram até hoje (sempre fui fã ardoroso de Ravenloft, nem imagino o porquê) nasciam de cenas soltas que eu imaginava serem assombrosas para os jogadores, e dali em diante, conforme o desenrolar das aventuras, a explicação dos mistérios ia surgindo como consequência das pistas, e não o contrário. Me desculpem se estou decepcionando alguém, mas as duas primeiras temporadas de Lost foram certamente escritas da mesma forma. Com muito mais técnica e competência envolvidas, claro, mas ainda assim, Lost é um mistério escrito de fora pra dentro. Isso significa que os produtores trapacearam? Claro que não. Vocês ficariam surpresos com a quantidade de histórias com reviravoltas e enigmas que são escritas desse jeito, e para desbancar de vez a tese de que elementos inseridos depois do primeiro capítulo são irrelevantes e/ou encheção de linguiça, só menciono dois personagens que surgiram como participações especiais e foram ampliados por causa da resposta do público: Desmond David Hume e Benjamin Linus. O quão irrelevantes eles soam para vocês?

Pronto, agora que isso saiu do meu peito, posso falar sobre “The End” em paz. Não vou repetir o que muita gente mais entendida que eu já falou sobre como Lost reinventou sua própria estrutura estilística ao longo das temporadas, e como isso é genial e tudo o mais. Quem me conhece sabe que um dos momentos mais chocantes da minha vida enquanto telespectador de teleséries foi o último capítulo da terceira temporada, em que todos assistimos por mais de uma hora a cenas do futuro sem saber do que se tratavam, e tomamos na cara aquela aparição de Kate e aquele “We have to go back!” Nenhum outro momento de “te peguei” na séire desde então teve um impacto tão forte quanto aquele. Nem mesmo a última reviravolta de “The End,” aquela que explica finalmente a “realidade paralela” que vínhamos acompanhando desde o início dessa temporada, mas rapaz – chegou bem perto. Ao ponto de eu por um momento não entender o que estava vendo, e subitamente, como um raio, tudo ficar claro, e meus olhos se encherem de lágrimas. Não me importo que tenha sido a reviravolta mais descaradamente espiritual da série até a data – nunca me incomodei com espiritualidade em obras de ficção científica, inclusive porque é um recurso manjadíssimo pra quem não estreou no universo nerd com Lost – aquela cena me deixou moído, com cara de paisagem, me sentindo mais uma vez ludibriado, da forma boa, pelos produtores (eles sempre disseram que *a Ilha* não era o purgatório… boa, Darlton, muito boa). Injetou significado retroativamente em todos os episódios da temporada, e todas as estranhezas e as coincidências das vidas que os Losties levavam nela se encaixaram de forma cristalina. Eles precisavam uns dos outros. Precisavam se reencontrar, mesmo que além do plano mortal, para seguir em frente. E que metáfora filha da puta para nós, espectadores-protagonistas, que também tivemos que deixar a Ilha, e que também precisamos seguir em frente depois de termos sido parte de Lost por seis anos. A sexta e última temporada de Lost tem na resolução de seu enredo um motivo apenas secundário. O principal, o essencial, era a despedida. O fim da jornada que foi assistir – e produzir – Lost. Um tema que fala forte àqueles que realmente se envolveram com a série, não aos que assistiam aos pedaços, sem atenção, procurando cenas ou diálogos patronizadores que preenhcessem listinhas frias de “perguntas sem respostas.” E por se envolver, quero dizer se envolver com a história, não necessariamente ficar obcecado por cada minúcia, por cada campanha de marketing, por cada spoiler vazado, etc. Quero dizer se importar mais com o bem estar de Jack, Kate, Sawyer, Hurley e tantos outros, do que com a ilha que uniu nossas vidas às deles.

E, diga-se de passagem, para quem tinha se decepcionado com a “Luz dentro da caverna” de Across the Sea, o series finale de Lost deixa bem claro que não sabemos nada de nada. Não havia uma bola flutuante de luz dourada dentro de uma caverna de pedra, e sim um ambiente com sinais claros de intervenção inteligente, com mecanismos, com mais enigmas separando mesmo os candidatos empossados da verdadeira natureza do poder da ilha. Os órfãos da pseudociência podem se esbaldar em teorias pelo resto da vida aqui, desde civilização Atlante até Exogênese, porque essa é a parte que os produtores deixaram de legado para os fãs (e para a Disney, que certamente vai continuar ordenhando essa mitologia por algum tempo). Eles foram bem específicos quando disseram que a história que eles iriam terminar de contar era a dos passageiros do vôo 815 e dos amigos e inimigos que cruzaram seu caminho. O que realmente é a luz, o que realmente é o monstro, o que realmente é a Ilha… para isso existem gazilhões de teorias na internet muito mais elaboradas do que eles jamais se prestariam a criar. A falta de respostas não é uma trapaça, é uma concessão. Lost é dos fãs, também, e já que eles se apropriaram tão ferrenhamente da mitologia, para quê estragar a explicação pessoal de 99,9% deles para fazer 0,1% felizes por uns poucos dias, enquanto ainda tiverem fôlego para dizer “eu avisei”? Não faz sentido.

O episódio final de Lost foi arrebatador porque me deu exatamente aquilo que eu queria ver, e em quase todas as ocasiões, com atuações memoráveis de todo o elenco. Retiro o que disse semana passada, que preferia que a missão de Desmond no flashpurgatório tivesse começado mais cedo na temporada, porque não poderia ter sido diferente. Não ia ter o mesmo impacto ver o “despertar” de cada um dos Losties se não fosse tudo de uma vez, com a trilha sonora do Giacchino debulhando, e culminando na cena da igreja ecumênica. Quase todos os reencontros me levaram às lágrimas, alguns (o ultra-som de Sun, o parto de Claire, e a monstruosa cena de Sawyer e Juliet), confesso, ao choro compulsivo. Só o final de Sayid é que destoou horrendamente do resto, acho que de propósito – já que o Naveen Andrews, apesar de competente em cena, sempre desdenhou da série na mídia para quem quisesse ver. Unindo isso à atuação claramente para-cumprir-contrato da Maggie Grace e tivemos a cena mais dispensável do finale.

Mas essa foi a única cena realmente ruim. Algumas outras ficaram meio dispensáveis, como aquele pulo do Jack na última cena antes do intervalo de seu confronto final com FLocke, que beirou o pastelão. Mas não chegou a estragar a porrada, que foi épica (E um parêntese aqui para quem disse não ter entendido o papel de Desmond na derrocada do Homem de Preto, é bastante óbvio – Desmond tirou a Ilha da tomada e o deixou mortal por tempo suficiente para Kate, numa participação digna da Kate das primeiras temporadas, enfiar uma bala no infeliz e acabar de vez com a ameaça do fumacento. Jacob pensa em tudo!). E eu esperava um tiquinho mais do Jorge Garcia na cena em que – outra reviravolta maravilhosa que me marejou a vista – Jack repassa a ele o bastão de protetor da Ilha antes de dar sua vida pela causa que levou seis temporadas para aceitar. Aliás, que cena fenomenal aquela em que ele diz ao Flockezilla que este desrespeita a memória de John ao usar seu rosto. Jack foi escrito para esse momento, e se seus episódios ao longo da série eram sempre fillers chatos, nesse último ano ele mereceu realmente o posto de protagonista central que estava há tanto tempo guardado para ele. Quanto ao Jorge, ele compensou o deslize nessa cena com duas outras cenas tocantes com Michael Emerson.

Aliás, falando em Emerson, ele e Terry O’Quinn fecharam seus personagens magistralmente. Cada cena com Ben e Locke (e FLocke) nesse episódio é uma aula. O diálogo entre os dois na porta da igreja é possivelmente a melhor cena que eles dividiram na história da série, talvez empatando com a cena final de “The Life And Death of Jeremy Bentham,” sem o impacto violento desta, mas com dois diálogos paralelos acontecendo, um verbal e um só de olhares. Dois gênios em cena. E como negar que Josh Holloway segura a cena com Liz Mitchell em pé de igualdade naquela que foi a mais aguardada e emocionante cena de despertar? Diabos, até a Evangeline Lilly segurou uma cena como “gente grande,” quando tem aquela conversa com Jack no fim do show beneficente. Em seis anos de série, ela nunca tinha me convencido como me convenceu com aquele “I missed you so much.” E o que dizer das expressões de Daniel Dae-Kim e Yunjin Kim quando, já cientes de quem são, conversam com um ainda confuso James Ford no hospital? Poderia rever aquela cena mil vezes.

No geral, The End é um episódio para ser sentido. Tem, sim, sua dose de ação – muito bem dosada e dirigida, diga-se -, de idas e vindas, com o trio Lapidus, Miles e Alpert consertando o avião e parando em cima da hora para Sawyer, Claire e Kate embarcarem, com o confronto final entre Jack-ob e Flocke, e toda aquela autoreferência certeira comparando a caverna com a escotilha da Estação Cisne, mas a essência do episódio está nas atuações, nas resoluções pessoais de cada um dos Losties, nas cenas que os produtores deram para cada um dos membros do elenco, e que a maioria aproveitou muito bem (Até o Dominic Monaghan e a Elizabeth Mitchell, que nem eram mais do elenco fixo, representaram de corpo e alma suas cenas, o que só aumenta minha vergonha alheia pela Maggie Grace e pelo Naveen Andrews). É um episódio sobre a própria série, sobre como nós vivemos intensamente essa Ilha por seis anos, vendo muitos de nossos companheiros se revoltarem e abandonarem a série, vendo a própria série se reinventar para se tornar um projeto fechado, sobre como os episódios bons nos tocaram e os episódios ruins nos revoltaram, e sobre o que fazer agora que as cortinas cairam. Seguir em frente, dizem Carlton Cuse e Damon Lindelof. Aprender com a experiência, guardar dentro de nós mesmos o que ficou de bom, e partir para a próxima. Como temos mais sorte do que os Losties, não precisamos esperar até o próximo passo no ciclo da existência para recuperar os laços perdidos. Estamos todos aqui, bem ou mal. E só esperando a próxima aventura que virá nos tirar o sono e nos fazer viver um pouco da fantasia compartilhada que deixou sua marca em tantas vidas de tantos grupos de amigos.

Como diriam os guardinhas da cena final de O Show de Truman… vamos ver o que mais está passando? 😉

* Rafael publicou este texto em seu blog.

Acabou.

Comecei esse texto cerca de 5 minutos depois dos créditos do episódio final de Lost, e ainda tenho muita coisa pra assimilar. E mesmo já tenho muita coisa a dizer, a especular, a divagar, é muito difícil escolher como começar.

Uma certeza eu tenho: muita gente vai xingar demais esse final. E provavelmente por não entenderem.

Lost foi um fenômeno midiático desse começo de século, construindo sua popularidade não só na TV, mas na internet e em diversas ações. Só que a base desse sucesso é a mesma de qualquer outro sucesso das telas, de qualquer época: os fãs.

E esse final foi um tributo para os fãs.

Não só o final, como praticamente a metade da temporada, através dos flash-sideways. Recurso cuja explicação em princípio pode parecer horrorosa e se encaixar entre os piores temores dos fãs. Como assim “estão todos mortos”? Não, não estão todos mortos! Pelo menos não nas 5 primeiras temporadas, e nem durante as cenas na Ilha na 6ª.

É o desenrolar na Ilha que marca o final, com o sacrifício de Jack, a derrota do Fumação, Hurley assumindo como novo Jacob tendo em Ben o seu braço direito e com Kate, Sawyer, Claire, Miles, Richard e Lapidus escapando. ISSO é o final de Lost.

Mas claro, esse é um final melancólico. Para falar a verdade, quase desesperador. Afinal, acabar assim significaria que a vida de John Locke foi uma grande tragédia sem sentido. Que Sun e Jin deixaram uma filha órfã por nada. E mesmo com a vitória final do “bem”, esse seria um final triste pra cacete.

Nada contra finais tristes. Mas vamos lembrar de novo dos fãs, e do que sustentou eles acompanhando a série até o momento. Foram os mistérios? Uma ova! Pelo excesso dos mistérios eu só conheci gente querendo largar a série. O que fazia a gente se importar em Lost eram os personagens. E os flash-sideways serviram para que pudéssemos nos despedir de todos eles juntos de forma digna e significativa. Quase como um prêmio de consolação.

A chave para isso está no episódio do Desmond, “Happily Ever After”. Felizes para sempre. Infelizmente isso não foi possível pra quase ninguém em suas vidas. Mas o presente de Damon Lindelof e Carlton Cuse pra nós fãs foi mostrar que ainda havia chance de felicidade para eles, mesmo que apenas do outro lado da vida. E foi extremamente tocante cada reencontro.

É claro, um fim sobrenatural, quase espiritual. Mas pra quem acompanhou uma série com uma ilha que se move, um monstro de fumaça e pessoas que não envelhecem, esse tipo de coisa não deveria incomodar, certo?

Só acho uma pena que provavelmente as pessoas acabem falando mais desse final “prêmio de consolação” do que do real, que foi igualmente emocionante e espetacular. Desmond “desligando” a luz foi épico, e Jack se sacrificando para acendê-la novamente também. Mas os dois grandes momentos sem dúvida foram a grande luta de Jack e Flocke e a morte de Jack. Ele caminhando no bambuzal até cair no mesmo lugar onde a série começou foi perfeito. E se tudo teve início com um close do olho dele abrindo, só poderia acabar com o mesmo close, só que com o olho fechando, não sem antes ver o avião com seus amigos saindo em segurança.

Um final emocional e repleto dos elementos que nesses 6 anos foram parte tão presente na vida de quem acompanhou a série. Lost marcou época na TV e na cultura pop mundial.

E seu final fez justiça a essa importância.

Épico.

* Alexandre Esposito escreveu este texto em seu blog.

Texto de fã não é e nunca será imparcial. Dito isso, afirmo: fui e sou fã de Lost. Então serei exagerado na medida que me é possível, como fã, e na proporção que é esperada de alguém assim.
Lembro quando meu irmão chegou um dia e disse “Gá, você precisa ver esse seriado, sério. Muito bom!” Comecei a assistir do 3º episódio da 1ª temporada. Foi assim que conheci a AXN. A hora de Lost era sagrada em casa. Ninguém atendia telefone e se meu pai, coitado, chegasse em casa no meio do episódio, só ia receber um abraço quando aparecesse o robozinho vermelho do JJ Abrams.

No Twitter, comparei Lost ao Show de Truman, não o filme, mas o programa mesmo, dentro do filme. Velhinhas e suas almofadas estampadas com o rosto do Truman, o gordinho na banheira e as pessoas chorando e torcendo pelo Truman como se fosse um conhecido, um grande amigo. Minha comparação foi mais ingênua, dizendo que ao fim de Lost, viraríamos uns para os outros e diríamos: “Hum… o que mais está passando na TV?”

Ledo engano. Lost acabou de terminar pra mim e não quero ver, nunca mais, TV. Claro, é um exagero, mas eu disse que ele viria. A sensação, no momento, é de desamparo, como se eu fosse um órfão. E somos, eu e você, que era e é doente por Lost. É o fim de uma era. Quando comecei a assistir o seriado, morava com meus pais e cursava a faculdade. Hoje estou formado, saí de casa, casei e ontem estava tão ansioso para assistir ao último episódio como se tivesse começado a assistir à série na semana passada. Lost fez parte da minha vida.

A música tema, quase clássica, dessa temporada ainda está na cabeça e preciso me segurar para não chorar. Exagero? Dane-se. Decidi assistir sozinho ao The End, diferente do que foi o seriado inteiro, porque ninguém mais entenderia. Se eu choro com reportagem do Globo Esporte sobre a despedida do Juninho Paulista, que dirá no último episódio do meu seriado favorito.

É uma tristeza que tenha acabado, mas sei que não daria pra ser eterno e prolongar demais seria perigoso. Mas eu sou fã e não quero nem saber. Quero episódios especiais, extras, filme e o que mais for possível fazer. Aí eu lembro do final e os caras colocaram um ponto final. “Era isso que a gente tinha pra contar”.

Sei que nunca lerão isso, mas obrigado JJ Abrams, Damon Lindelof e Carlton Cuse, por terem feito uma das melhores coisas do início desse século. Toda a ‘indústria’ Lost foi algo nunca visto antes, com os ARGs, pistas espalhadas e tal. O que o seriado movimentou foi incrível, reconheço. Mas é o menos importante, para mim. Não escrevo como jornalista cultural, analisando um fenômeno.

O ‘universo’ Lost criado, os personagens e as histórias contadas são o que de mais rico ficam. Tiram sarro de mim pois choro em tudo, mas dessa vez foi diferente. No final, era como se eu estivesse vivendo aquilo com eles, sofrendo junto, rindo junto e, principalmente, chorando junto.

Lost e seu último episódio foram meu Show de Truman e eu sofri como o gordinho da banheira, entregue a um produto cultural televisionado para milhões de pessoas, mas achando que aquela história estava sendo contada só pra mim, sentados um de frente pro outro.

No final das contas, vocês nos fizeram acreditar que somos, cada um, John Locke, especial em si, sem motivo aparente, mas que só é assim porque também acredita ser assim. E, por isso, são uns desgraçados geniais, já que isso é só um seriado e a gente não consegue, nem pode, admitir isso.

***

Depois de ter escrito meu texto de fã, acima, no momento da emoção, vai mais um. Continua sendo de um fã, por isso é também uma explicação do porque considerar Lost tão bom e uma das melhores séries já feitas.

O entrevistador Jimmy Kimmel diz acreditar que a história de Lost não é sobre a ilha, é sobre as pessoas. Mais especificamente sobre Jack Shephard. “Eles não responderam todas as perguntas”, algumas pessoas dizem. 1) Se você considerar que o tema da série eram os personagens e não a ilha, eles responderam todas as perguntas. 2) É clichê, mas o que é mais importante: conhecer novas perguntas ou saber todas as respostas?

“Cada pergunta respondida leva a outra”, diz a mãe de Jacob e do irmão. Se assim fosse, o seriado seria eterno, do tamanho de uma vida. Porque a vida é assim. Quantas perguntas suas já foram respondidas, desde “Posso ir jogar bola lá fora?” pra sua mãe, até hoje? E quantas você ainda tem? A nossa vida vai acabar e ainda não teremos todas as respostas. Se com a gente é assim, porque em Lost não seria?

Sim, eles não responderam por que Jacob e o irmão eram daquele jeito. É verdade, não responderam uma porrada de coisa. Mas a ideia não era essa. “Lost” não é porque estavam perdidos e precisavam de uma bússola. É porque estavam perdidos em si e precisavam de novas perguntas, as perguntas certas. Lost foi “Queremos contar uma história. Conheçam essas pessoas, da onde partiram e onde chegaram.”

Contaram uma história que todos sonhamos, de sermos especiais, de termos um propósito nessa vida. Uma história que nos conduza a isso. Porém, as circunstâncias nos perguntam, como a ilha fez com Jack, Sawyer, Kate, e Locke, e cabe a nós darmos as respostas. Nem todos são especiais, mas todos escolhem não apenas desempenhar, mas escrever seus próprios papéis.

Se JJ Abrams, Damon Lindelof e Carlton Cuse conseguiram passar coisas assim por um seriado de TV norte-americano, não tem como dizer que devido a um último episódio sem todas as respostas o seriado perdeu valor. Pelo contrário. O último episódio foi que comprovou todo o valor que Lost teve ao longo desses anos. “Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos?” Cabe a você fazer as perguntas. Se elas serão respondidas, é outra história.

Namaste.

* Gabriel Louback escreveu estes textos em seu blog.

Eu vi Friends. Mas vi, antes, MacGyver, Magnum, Voyager, A Gata e o Rato, Caverna do Dragão (ok, era desenho e eu coloquei aqui só para sacanear). Vi Super Vicky, Punky – A Levada da Breca (o que diabos quer dizer “breca”?!), Alf – o Eteimoso, Esquadrão Classe A, Blossom, vi até Capitão Marvel e A Ilha da Fantasia (embora essa última nem seja bem da minha época). Vi Mundo da Lua e Anos Incríveis e, provavelmente, foram duas das coisas mais belas que vi na tevê. Vi Married With Children, Fresh Prince of Bel-Air (me recuso a escrever os títulos em português), Todo Mundo Odeia o Chris, Seinfeld e, mais recentemente, vi Angel, Battlestar Galáctica, Roma, Pushing Dasies, The Big Bang Theory, 24horas, Glee, Heroes (forget it), e Arquivo X. Vi muitas séries. Vi séries que nem listei aqui. O texto já está demasiado longo.

Eu não vi Lost. Não vi uma série de tevê, como vi as outras. Durante seis anos acompanhei uma história cativante, uma trilha sonora mágica do mestre Michael Giacchino, roteiros deliciosa e meticulosamente cíclicos, mas, principalmente, vivi os dramas dos muito bem construídos e interpretados personagens. Chorei com Charlie e sua luta mortal para se libertar (não estou falando das drogas). Torci por Michael e Walt, histórias de pai e filho sempre me comovem. Quis acreditar na Sun ao mesmo tempo em que desconfiava com Jin, tudo porque o amor deles era mais forte que qualquer coisa. Cri na bondade do torturador iraquiano, Sayid disfarçava-a como um bom espião. Confiei na sabedoria do olhar contornado de Richard e, mais tarde, na calmaria do de Jacob. Quis ser amigo-irmão de Desmond e amei odiar o Ben. Sawyer trapaceou e tomou a cena durante algum tempo, e foi muito divertido. Kate foi necessária, até a última cena. Locke era quase que a própria ilha e a ilha foi protagonista e antagonista. Hurley era a minha voz, meu medo e minhas lágrimas lá dentro e como dói saber que semana que vem estarei calado. E Jack. Jack era nosso olho.

Eu chorei. Não sei dizer nesse momento se por conta da história de cada personagem, que formou a série toda, ou se por estar órfão dela. Não importa. Whatever, como diriam dois amigos nossos. Algo que gerou tanta comoção, tanta diversão, tanta entrega, tanta discussão, tantos amigos (se você chegou aqui há uma grande probabilidade de ser um meu), não pode ser catalogado, resolvido, totalmente explicado. Não foi. Nunca será. Os clássicos são assim.

Se você esperava um desfecho arquitetado que amarrasse totalmente a trama, sinto muito. Você viu Lost. E esperou por algo que outras séries tentaram entregar. Algumas até conseguiram. Mas se você esperava realmente só isso, sinto muito. Você não teve a mesma sorte que eu. Se fosse do seu jeito, esse texto acabaria na lista do primeiro parágrafo e nós, no final do último episódio. Talvez eu tenha sido um homem de fé e você, de razão. Para a nossa sorte (sim, espero que no futuro seja a sua também), Lost não era sobre causa e consequência realistas. Era sobre o humano. Eu tive a melhor experiência cultural que poderia compreender e ela se expandiu e foi uma experiência humana. A parte física dela acabou, mas uma que ainda não consigo explicar ficou. Está aqui, comigo, agora. Como os grandes momentos da minha vida que, mesmo passados, me acompanham e me tornam o que sou. Eu não vi Lost.

Vi muitas séries e algumas muito boas. Mas não vi Lost. Eu vivi Lost.

E espero vivê-la novamente em outra vida, brotha!

* Marcelo escreveu este texto em seu blog.

Lost foi legal pra caralho.

Deve ter um monte de série melhor por aí, mas acompanhar Lost na época em que foi transmitido pela primeira vez foi, como dissemos, legal pra caralho.

Baixar episódio e ficar esperando a filha dormir para poder assistir sem distrações, ficar discutindo teorias com amigos do trabalho, com a Pri (minha mulher e principal companheira de Lost), até com desavisados em bares e restaurantes não era legal? Orra se era! Descobrir detalhes “importantes”, logos Dharma escondidos, números disfarçados, respostas camufladas: muito bom. Essa parte “social”, do esforço coletivo para entender a série, com certeza foi exclusivo de Lost, e eu curti bastante. O ponto alto desse aspecto coletivo foi a heróica rede de amigos gravando a segunda temporada na TV paga para mim, que não tinha cabo, não queria esperar a Globo e ainda não sabia dos torrents. Aê, amigos, valeu! Mas sei que fizeram isso por interesse próprio: se eu não assistisse Lost, eles iriam ter que falar de outra coisa na hora do almoço.

Teve mais coisa legal: a incrível cena inicial nos destroços do avião, a luz da escotilha acendendo pro Locke, o mr. Eko, o “botão”, “NOT PENNY’S BOAT”, o Michael traidor, a volta do Michael na 4a. temporada, the constant, Daniel Faraday, a bomba de hidrogênio, “we have to go back!”, Locke no caixão (duas vezes!), a morte da Alex, Benjamim Linus!, Desmond, o começo da segunda temporada, o cara de tênis vermelho morrendo esmagado, Locke na cadeira de rodas e depois mexendo o pé na praia, “Dude…”, o começo da terceira temporada na vila Dharma, Oceanic 6, deserto da Tunísia, Jacob tocando os personagens, Jacob tecendo uma tapeçaria, o reencontro de Sawyer e Juliet, o monstro de fumaça no templo, o pai do Jack falando “To remember… and to let go”, porra, sei lá, um monte de cenas e seqüências fabulosas.

O último episódio também foi espetacular. Não tem essa de mistérios não-resolvidos. Essa choradeira que o finale não esclareceu nada é ridícula. O finale não era prá explicar nada, era prá servir de despedida. Prá mim, o episódio mais esclarecedor (e o melhor da série), foi o final da 5a. temporada. O que o Jacob fazia ali era a explicação para o que é Lost. Ele pegava o fio da história de cada um daqueles personagens e trançava todas essas histórias entre si numa grande tapeçaria. Aquele tapete que ele aparecia tecendo era a série, era Lost! As “regras”, as imortalidades estranhas, as listas, tudo isso era arbitrário, assim era porque Jacob assim queria, era o desenho que ele queria no tapete.

Aqui nesse ponto entra a minha teoria mirabolante pro fim da série. Jacob teceu a tapeçaria até ser morto, e passou a tarefa pro Jack, que por sua vez passou pro Hurley. E o Hurley, o cara mais gente-boa ever, fez outra tapeçaria, outro desenho no tapete com as mesmas linhas. Na tapeçaria do Hurley, o Jack tinha um filho, Sun e Jin não morriam, Sawyer era decente, Ben era inofensivo, Locke era confiante, todos eram felizes, não tinham problemas com os pais nem com os filhos e ninguém nunca ia para a Ilha. Ora vejam se não era isso mesmo: Hurley se fez o cara mais rico e poderoso e gente boa e sortudo dos flash-sideways, e não é à toa que ele foi o primeiro a ser “despertado” pelo Desmond, não é à toa que o Ben lhe diz que agora ele deve “cuidar das pessoas” e lhe dá a dica que as coisas só eram cheias de regras porque o Jacob queria, não é à toa que ele e Ben se congratulam pelo trabalho bem feito no jardim da Igreja e certamente não será à toa que o epílogo inédito a ser incluído na caixa com o Lost completo vai ser sobre Hurley e Ben na Ilha – como o Michael Emerson já falou numa entrevista. O flash-sideway não era um purgatório, era o final que o Hurley queria para a série, já que aquele fim com Jack e mais um monte de gente mortos, Ji-yeon órfã, Ilha semi-destruída e tudo mais era muito triste. Olha só, o Hurley já tinha dito que não queria a função de Jacob, ele só mudou de ideia porque viu que era a chance dele de reverter tudo!

Não sei se é isso mesmo, mas que ia ser legal pra caralho se fosse, ah ia.

* Daniel Araújo escreveu este texto pra cá.