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Minha coluna no 2 de domingo

Fake no facebook
João Gilberto social?

“mentirosa. anti-ética. jamais. dei entrevista. à revista.não have.rá nenhum dvd japão.adoro caetano.não pedi comida.japonesa.reportagem …para boi.dormir.farsa!merece o lixo”

Assim, só com minúsculas e pontos entre as palavras, um certo “João Gilberto Prado Pereira” respondeu, via Facebook, a uma entrevista publicada na semana passada com o cantor João Gilberto. Na entrevista, o verdadeiro João dizia nunca ter usado o Facebook, além de não ter computador em casa.

Não precisa ser nenhum especialista em joãogilbertices ou em Facebook para descobrir que o perfil, criado em abril e com mais de cinco mil “amigos”, é falso. Afinal, o “João Gilberto” do Facebook é fã de Marcelo Bonfá, Ray Charles e Pat Metheny, xinga o papa de pedófilo, se refere a Tom Jobim como “mestre” (como assim?) e posta vídeos e mais vídeos de “si mesmo” no Facebook.

Não que João não pudesse ter um computador, estar no Facebook ou ficar passeando no YouTube assistindo a vídeos antigos – atividades que têm a ver com a contemplação e tranquilidade de um músico que, segundo a biografia de Ruy Castro sobre a bossa nova, Chega de Saudade, era conhecido nos anos 50, como “Zé Maconha”.

João Gilberto, perfeccionista e cheio de manias, até perderia seu tempo assistindo aos próprios vídeos no YouTube, mas não os espalharia por aí. Vale até a dica para o João Gilberto fake – o verdadeiro João provavelmente se encantaria ao descobrir que, no YouTube, pode ouvir músicas que ouvia nos tempos em que ainda morava em sua cidade natal, Juazeiro, no interior da Bahia.

Em tempos digitais, sempre é bom desconfiar de personalidades online. Como links recebidos por e-mail, às vezes elas podem não ser quem aparentam.

“Last decade”
A volta-relâmpago dos Strokes

Começou com um tweet: “Bom dia, Londres”, disseram os Strokes no início da semana passada pelo Twitter, antecipando um show surpresa que fariam na casa noturna Dingwalls, para apenas 500 pessoas. Era o primeiro show da banda desde 2006, antes de seus integrantes lançarem trabalhos-solo. Mais tarde twittariam o logotipo da banda com o nome alterado para “Venison”. O show aconteceu quarta passada e, apesar de matar a saudade dos fãs, não trouxe nenhuma novidade. No estúdio desde janeiro, esperava-se que eles tocassem músicas novas ou até que anunciassem novo disco. Em vez disso, voltou aos hits. Será que uma das bandas-símbolo dos anos 00 esgotou-se? Só o tempo dirá, mas ao que parece, a banda virou cover de si mesma.

A Thaís foi uma das 500 pessoas que estiveram no show de volta que os Strokes deram na quarta passada e eu pedi pra ela me deixar postar seu relato sobre o evento aqui no Sujo – e ela deixou. Valeu, Thaís 🙂

Eu não sabia. Não sabia que eles estavam planejando um retorno, e não sabia que esse retorno seria assim, surpresa, under the radar, completamente underground (ninguém sabia, aparentemente). Foi o email de um amigo conectado ao povo do Dingwalls dizendo que estava na luta pelos tais ingressos que me atiçou a curiosidade. Ele não me disse mais nada, e daí, pelos poderes do Google e do twitter, começou a maior caça ao tesouro desde 2007, quando o festival Glastonbury retornou depois de um break e 135 mil tickets foram vendidos em 1hr e 45min (eu também estava entre esses felizardos).

As 6 da tarde do dia 8, só o site da revista NME tinha se ligado na primeira pista. A banda havia postado no twitter (que eu não seguia) a imagem de um logo extremamente parecido com o deles onde se lia “Venison”, e na sequência, uma foto do canal que passa por Camden Town. Eles traçaram o tal logo ao site do Dingwalls, que incluiu em sua programação um show do tal Venison no dia seguinte, e uma única descrição: “Formely known as The Shitty Beatles.” Tickets seriam vendidos somente através do site da casa dali a 3 horas, as 9pm.

Obviamente, 3 horas no mundo virtual é MUITO tempo, ainda mais pra fãs tão dedicados como os do Strokes, e o site da casa caiu, quarenta e cinco minutos antes. Nove da noite o mundo estava dando reload na página inicial, e nada do link dos ingressos aparecer. No twitter, amigos frustrados já haviam desistido da idéia 20 minutos depois, mas dando um search em “strokes”, achei o username “VenisonFans”, conta de uma fã die-hard irlandesa que, até agora não sei como, tinha o link alternativo que levava aos benditos tickets. O momento que ela postou o link foi exatamente o momento que eu comecei a segui-la, e well, 20 libras mais tarde, eu era a felizarda recipiente de 2 ingressos (e confesso: podia ter comprado mais 2, já que meu BF conseguiu acessar o link ao mesmo tempo no computador do lado…mas deixamos pra lá, num raro momento anti-lucro).

Cheguei tarde, meia hora antes de as portas abrirem, e a fila estava curta e excessivamente calma. Uns poucos indie kids devidamente trajados em seus skinny-jeans-skinny-jaqueta-de-couro combo posavam com plaquinhas onde se lia “DESPERATE STROKES FAN, WILL PAY £XX FOR PAIR OF TICKETS” (valores entre £50 e £100), e um repórter da rádio BBC6 perguntava ao povo na fila quanto cada um tinha pago pelo seu (horas antes, um amigo disse no Facebook que a mesma rádio divulgou oferta de 6 mil libras.) Um espanhol se aproxima: venderia os meus por £300? No, thanks. Okay, £400? Hm. No, thanks, go away, antes que eu mude de ideia.

Na fila descubro feliz que seremos cinco brazucas (no final do show, éramos 7 – dois malucos conseguiram entrar no “jeitinho,” OF COURSE), e as portas abrindo, me dou conta do real tamanho do Dingwalls. É minúsculo pra uma banda desse porte. Tem um palquinho baixo, uma pistinha escura, duas bancadas/degraus, e um bar no fundo. Devagar, o lugar foi enchendo com calma, todo mundo se distribuindo de acordo: ninguém correu, ou se empurrou, ou deu de babaca. Parecia que aquele era só mais uma gig de uma banda qualquer, mas algo me dizia que a calmaria não ia durar, e do alto do meu 1 metro e meio, escolhi a bancada esquerda pra me posicionar estrategicamente. Iria tentar driblar os seguranças-armários e fotografar/filmar tudo para os incontáveis fãs malucos que me adicionavam no twitter aos quilos (graças a irlandesa die-hard, que me achou e divulgou).

Realmente, a calmaria não durou. Ás 9:20pm, Julian, Albert, Fabrizio, Nick e Niko, subiram no palco e 400 pessoas entraram em êxtase coletivo. Iniciando com “New York City Cops”, os 5 fizeram um set histórico só, SÓ com os maiores hits da banda desde 2001, em um clima de puro rock’n’roll: palco pouco iluminado, teto pingando o suor condensado de uma platéia que gritava todas as letras como se fosse rasgar as cordas vocais pra sempre (e Julian, mesmo assim, não deixou de cantar um segundo), em uma pista que se movia como uma serpente humana de tão sincronizados que eram os pulos. Foi uma paulada atrás da outra: “Modern Age”, “Hard To Explain”, “Soma”, “You Only Live Once”… a hora que o clássico riff de “Last Nite” entrou, foi como se todo mundo tivesse sido abençoado pelos deuses do rock: nós, os brazucas, a essa altura nos abraçávamos e dava parabéns uns aos outros, não acreditando na própria sorte. Julian, bem-humorado, brinca com um tênis perdido de algum fã, e agradece dizendo “You guys are the shit.”

Uma hora depois, a banda pausa e deixa a platéia, completamente fora de si, gritando “VENISON! VENISON!” Cinco minutos depois, retornam pra mais cinco musicas, e encerram com “Take It or Leave It.” They leave it, rápidos como entraram, sem apresentar nenhum material novo. Ninguém parecia decepcionado.

Tive sérias dificuldades pra filmar. Primeiro, de medo de ser arrastada pra fora por um dos armários, segundo, por medo de perder aquele momento único. Eu queria mesmo era ter me juntado a serpente humana (morreria esmagada, provavelmemte), mas a vontade de dividir foi maior e eu tentei ser firme. Falhei, claro. O resultado, altamente tremido, está entrando aos poucos no meu canal do youtube, que os malucos do twitter divulgaram ao redor do mundo.

No final, nós 5, mais uma francesa que fala português, e os dois brazucas penetras, fomos pro bar ao lado comemorar, cada um segurando orgulhoso sua camiseta com o logo da Venison. Não sem antes esbarrar em Chris Martin, aquele do Coldplay, saindo do show tão feliz quanto nós.


“Eu gosto de estar no meio da moçada para saber como a juventude se sente”

Blogs ao redor do mundo se perguntam qual foi o motivo dessa aparição, se não foi uma indulgência elitista sem sentido, já que não houve nenhuma musica nova. Eu nem quero saber. Foi um privilégio sem tamanho ter acesso a um evento desse, sem hype, sem mídia, organizado, freqüentado e apresentado por paixão.

Como disse meu amigo Thellius:

@thellius 


Imagine [going] back to 2001 in NYC undergrounds and see The Strokes playing in a very small venue an all-hit gig for 400 insanely lucky people. 10 June 2010 03:25:06 via web

@thellius That was my night. Best gig of my life. 10 June 2010 03:25:21 via web


Olha a cara de felicidade da Thaís, no meio da foto

ps: fotos e vídeos tudo meu, então DEEM CREDITOS, GENTE DA MIDIA BRAZUCA, tb sô jornalista pô. 🙂

Outro brasileiro tava lá no show, o Victor Bianchin, que deu o seguinte relato ao Move That Jukebox e eu publico parte dele aqui.

Cheguei em Camden umas 18h e dei umas voltas ao redor do lugar. Não tinha ninguém na frente do Dingwalls, o que eu estranhei, mas tinha uma galera na porta do fundo. Perguntei pra uma menina se aquilo era a fila pros Strokes e ela confirmou que sim. A maioria ali não tinha ingresso. Os que tinham, compraram no eBay ou no Gumtree por 150, 200, 250 libras. Ouvi uma história de uma menina que não só tinha pagado 200 libras pelo ingresso, como tinha pegado um avião até Londres só pelo show. Era insano.

Conforme o tempo foi passando, várias celebridades foram entrando: Zane Lowe, o apresentador. Nick McCarthy, do Franz Ferdinand. Luke Pritchard, dos Kooks. Gente do The Cribs e do Biffy Clyro. O Coldplay inteiro (Chris Martin posou pra fotos antes de entrar). E nós lá. Eu já tinha perdido as esperanças. E aí o show começou.

Consegui entrar porque, durante a espera, dei uns xavecos num funcionário da casa. A resposta dele era sempre a mesma: “desculpe, mas não dá”. Só que aí, na terceira música do show, ele veio pra mim na fila com um ingresso de convidado. A galera voou em cima, mas o ingresso era pra mim e os seguranças me ajudaram a ficar com ele.

Agradeci mil vezes ao cara e entrei. Porra, era lindo. O Dingwalls tem uma pista com degraus, tipo o Via Funchal (SP), mas guardadas as devidas proporções, claro. No Dingwalls só cabem umas 400 pessoas. Eu fui pra frente tanto quanto deu, mas preferi não descer no gargalo porque a coisa ali tava infernal. Muuuuuito empurra-empurra, não ia dar pra curtir o show. Então fiquei de boa no segundo degrau.

Eu pirei muito, mas MUITO com as músicas. Um clássico atrás do outro, foi muito foda. Tocaram varias das minhas preferidas, como “Hard to Explain” (entrei com ela rolando), “Someday”, “You Only Live Once” e “Juicebox”. Fecharam com “Heart in a Cage” e Take it or Leave it”, e o lugar quase veio abaixo. O pessoal cantou junto todas as músicas, batendo palma e gritando o quanto dava. O lugar estava quente, mas melhor que o Franz em SP nesse ano, e o teto pingava água do vapor que subia. Juro, parecia que tinha goteiras em todo o galpão, era incrível a quantidade de água pingando. Você olhava pras paredes e elas estavam molhadas.

Apesar do calor, Albert Hammond Jr. passou o show inteiro de blazer e Julian Casablancas de jaqueta de couro e óculos de sol. Só o Nick Valensi que optou por uma regata larguíssima, que deixava à mostra seus bracinhos finos e seu peitoral, que não é lá muito bombado. Nikolai Fraiture ficava no canto quietinho e Fab Moretti tocava a bateria com muita energia. Strokes é muito foda.

Julian passou o show inteiro falando “I’m just fuckin’ around”. Ele também falava bastante com o pessoal no gargalo, dava as mãos e tal. Em um momento, ele disse “this is like the first show we do in 4 years, so thank you”, e o povo vibrava, e ele respondia “this is too much, guys, this is too much”.

Falando em gargalo, a coisa ficou tensa por ali. Os seguranças desceram até ali e meio que ficaram protegendo as três primeiras filas, que tinham gente quieta. Eles formavam uma barreira que não deixava o pessoal pulador bater neles. E como eles faziam isso? Dando empurrões animais que faziam belas “ondas” na platéia. De cima, de onde eu tava, dava pra ver bem.

Um dos seguranças era um armário de 2 metros de altura e uns 130 kg, no mínimo. O cara era um gigante. Vi ele pegando pela gola da camisa e levando pra fora pelo menos 3 malacos causadores. Imagine ser arrastado pra fora de um clube por um gigante. Era tragicômico.

Foram umas onze musicas no show e mais umas cinco no bis. Adorei todas. Strokes é muito bom e o show foi histórico, de verdade.


Depois do show, o Victor ainda encontrou o Nicky do Franz e foi lá bater uma foto

Entrevista que fiz sobre o filme Winnebago Man para o Link de hoje.

Quando um meme vira filme
Como erros de gravação cheios de palavrões deram origem a um documentário

De gravata e camisa social, um homem começa a falar com a câmera. Ele está num comercial de TV, vendendo o trailer que é cenário para o anúncio. Só que esquece o texto e começa a xingar. Joga os braços para cima, com raiva. Faz careta. “Fuck!”. Corta para outra cena. Ele começa a mostrar algo do lado de fora do carro e uma tampa se fecha. Mais xingamentos. “Fuck!”. Mais braços para cima. Mais caretas. Mais “Fuck!”. “Fuck! Fuck! Fuck!”.

Jack Rebney era um dos muitos apresentadores de infomerciais na TV americana durante os anos 80 que, como qualquer um, lamentava os problemas ocorridos ainda com a câmera ligada. Mas sua reação era sempre enfezada e alguém da produção do programa compilou os melhores momentos em um vídeo que começou a circular em fitas VHS.

Até que, em 2005, o vídeo foi parar no YouTube e, como muitos antes dele, Rebney virou uma celebridade. Uma vez online, ganhou o título de “World’s Angriest Man” (O Homem Mais Bravo do Mundo, em inglês) e o vídeo, que antes era objeto de culto entre os poucos que conseguiram assisti-lo antes da internet, virou hit nos Estados Unidos.

Em pouco tempo, entrou no inconsciente digital do país. O personagem de Alec Baldwin na série 30 Rock e o desenho Bob Esponja cansaram de soltar aspas de Jack. O diretor Spike Jonze teria enviado fitas com o vídeo como presente de Natal para amigos. E no recente Homem de Ferro 2 o pai do protagonista esbraveja em um vídeo antigo como se fosse Jack.

Mas uma coisa intrigava o diretor Ben Steinbauer, que havia assistido aos pitis de Jack ainda no videocassete. Ao ver o protagonista de uma piada entre amigos ganhar grandes proporções, estranhou que o próprio não havia aparecido. Teria morrido? Sumido? Estaria ainda mais bravo com a piada que se tornou?

“Queria saber como ele se sentia em relação à exposição que ganhou por algo que fez há quase vinte anos”, explicou o diretor em entrevista ao Link. “Não foi fácil. Em tempos de Google, em que basta digitar o nome de alguém para descobrir quase tudo sobre aquela pessoa, só encontrei seu nome em um comentário que ele fez em um site de venda de barcos, em que ele perguntava qual seria o melhor barco para viajar pelo mundo”.

Fazendo o caminho de volta da fita VHS que recebeu, chegou à produção do programa original, que não sabia por onde andava o sujeito. Até que Ben resolveu contratar um detetive, que o ajudou a encontrá-lo. O homem mais bravo do mundo morava no topo de uma montanha no norte da Califórnia, alheio ao resto do mundo e, obviamente, a seu sucesso inesperado.

O encontro deu origem ao filme Winnebago Man, documentário que já foi exibido em alguns dos principais festivais do mundo, colhendo aplausos e gargalhadas por onde passou, e que estreará nos EUA no próximo mês. O filme está sendo negociado para ser exibido no Brasil ainda este ano, por um canal de TV a cabo.

“Não sei se esse tipo de celebridade se tornará uma regra ou se é só uma anomalia do início do século da internet”, explica o diretor. “Mas uma coisa é fato: hoje é muito mais fácil se tornar famoso no mundo inteiro, mesmo à revelia”.

Jack, no entanto, não é contra a fama inesperada e participou de algumas entrevistas coletivas do filme, participando por celular. Mas o diretor não recomenda que futuros fãs tentem o encontrá-lo. “Além de morar literalmente escondido, ele tem uns rifles em casa…”, ri, sem jeito.

Bom, eu sou puro e acredito em fair play. Já tinha visto a carta acima antes mesmo de terem me indicado no post que o Vinícius citou, mas aprovei o comentário na crença que meu adversário teria mais cartas em sua manga. Pois ele tirou da minha! E que carta… Mas tudo bem, como ele mesmo disse, T-Girls é um jogo e jogo também envolve sorte – e azar, no caso, o meu. Pois abri um baú pra arrumar a próxima.

Pirraças esportivas à parte, o fato é que Vinícius tem razão: lançamos uma tendência há alguns meses que só agora os grandes nomes da moda estão começando a notar. Vide que nossa batalha foi parar até no comentário que a importante crítica de moda do jornal que trabalho fez sobre o fenômeno da camiseta Three Wolf Moon.

Vamos combinar que já não era sem tempo. Essas estampas de camisetas que funcionam como trocadilho visual com marcas conhecidas – bandas inclusive – fazem parte da década do mashup (os anos 00) mas ainda carregavam aquela ironia espertinha que intoxicava os anos 90. Ao voltarmos a usar nossos ícones favoritos no peito, sem piadinha interna ou sacada espertinha pra iniciados, resgatamos uma das principais contribuições da camiseta no imaginário mundial – o fato de que, quando você encontra uma pessoa que você nunca viu na vida com a estampa de uma referência que vocês possam ter em comum, criar um vínculo instantâneo, inesperado, por vezes surreal.

É claro que usamos mulher porque gostamos de mulher. Mas o próprio Vinícius já deu a deixa pras meninas começarem seus T-Boys. Por aqui, continuamos com as gatas.

Jogo a seguir.

MP3cêntrico

Entrevistei o Anthony Volodkin, criador do Hype Machine, para esta edição do Link.

“A rádio tradicional só toca as mesmas 40 músicas”
Criador do Hype Machine, agregador de blogs de MP3, ele vem ao Brasil para falar sobre música digital

“Estava na faculdade quando percebi que não ouvia música nova”, lembra Anthony Volodkin, que chega ao Brasil esta semana para participar do evento YouPix. “Não tinha mais tempo para ficar em salas de bate-papo por causa das aulas e do trabalho. Mas descobri os blogs de música e não acreditei quando vi que tanta gente estava escrevendo sobre música só porque gostava. Depois de algumas noites em claro, escrevi um protótipo do que se tornaria o Hype Machine”.

A história se parece com a de muitos criadores de serviços digitais, com um agravante. Quando, há cinco anos, o nova-iorquino Volodkin descobriu o mundo maravilhoso dos blogs de MP3, este era formado por amadores que dispunham seu tempo livre à caça de novos artistas e bandas que ninguém tinha ouvido falar. Cinco anos depois, o Hype Machine não só se tornou a grande central dos blogs desta natureza, como ajudou-os a redefinir um papel importante na história da música digital: o de filtro.

Se as gravadoras se perderam em números de vendas que desabavam enquanto os downloads proliferavam online, os blogs de MP3 se tornaram o grande refúgio para ouvintes que não sabiam o que ouvir. A indústria do disco, perdida entre artistas gigantes que vendem cada vez menos, deixou de ser a referência para descobrir novos nomes. Assim, coube a blogueiros apaixonados por música assumir esse papel.
E são as gravadoras maiores quem mais sofrem com esta nova realidade digital. “Elas não conseguem responder rapidamente a vazamentos de álbuns, por exemplo”.

A reação do mercado ao site foi gradual. “Somos uma forma independente pela qual a indústria pode monitorar o que as pessoas estão fazendo nesta nova mídia”, ele explica, e diz que as gravadoras pequenas e blogs de MP3 responderam positivamente – e logo – à existência do site. “Foi um processo orgânico”, lembra.

Em seus cinco anos de existência, o Hype Machine acompanhou as drásticas mudanças na indústria. “As gravadoras passaram a ousar mais ao vender música online. Já estão contando o fã como um agente importante, em vez de deixá-lo de lado, como no passado”, explica o dono do site, que também comenta as mudanças nos hábitos de consumo. “As pessoas estão comprando mais música digital do que nunca – além de ouvir cada vez mais música na web e nos seus celulares.”

“Mudou também a forma como as pessoas gastam seu dinheiro”, continua. “Isso não quer dizer que a música deixou de ser importante para as pessoas. Mas o mais interessante é perceber como as pessoas interagem e criam neste novo ambiente.”

Às vésperas de lançar uma nova versão do seu site, além de um aplicativo para celular, Volodkin nem pestaneja ao ser perguntado se a internet assumiu o papel do rádio. “Sem dúvida. A rádio tradicional só existe para tocar as mesmas 40 músicas, sempre, sem parar, como se fosse um iPod de baixa capacidade de armazenamento”.

Serviço
YOUPIX.COM.BR – MELHORES DA WEBSFERA 2010.
De 8 a 11 de junho, das 15h às 23h. Museu da Imagem e do Som. Av. europa, 158. Jardim Europa. Volodkin será sabatinado na quinta-feira, às 21h. confira toda a programação no site do evento

Minha coluna no 2 de domingo…

Uma ajuda da internet
Mark Millar, quadrinhos e cinema

Kick Ass – Quebrando Tudo, que estreia na próxima sexta-feira nos cinemas do Brasil, pode até não ser candidato às listas de melhores filmes de 2010 feitas por críticos de cinema. Mas, desde que foi anunciado, ele já estava entre os filmes mais legais que seriam lançados este ano. Basicamente porque seu autor, o escritor Mark Millar, criou todo o conceito do novo super-herói pensando nos fãs. Mas antes de falar do filme, vale contar um pouco a história de Millar.

Escocês, ele decidiu que se tornaria um escritor de quadrinhos quando viu uma palestra de Alan Moore (autor de clássicos modernos como Watchmen e V de Vingança) e estreou no mercado norte-americano sob a guarida de outro ídolo, Grant Morrison (da série Os Invisíveis), em 1994. Em menos de cinco anos, ele já era festejado como um dos grandes nomes daquela indústria, continuando o trabalho de Warren Ellis em Authority, e criando uma das melhores histórias do Super-Homem, Red Son, que imagina o último sobrevivente de Krypton chegando à Terra pela antiga União Soviética.

No ano 2000, mudou-se para a Marvel e começou a virar do avesso aquele universo de super-heróis, primeiro reinventando o Homem-Aranha para o século 21 e fazendo, mais tarde, o mesmo com os X-Men, Capitão América, Hulk e Thor. Em comum, estas novas histórias tinham o fato de atualizar aqueles heróis para o mundo pós-internet (Peter Parker, por exemplo, era o estagiário que cuidava do site do Clarim Diário). Mas depois de muitos anos escrevendo histórias criadas por outros, decidiu inventar seus próprios mitos.

E, entre eles, Kick Ass. A minissérie em quadrinhos foi lançada mirando em sua adaptação para o cinema. Millar já brincava com as duas mídias na Marvel – em uma edição dos Supremos (sua versão para os Vingadores), os heróis discutem quem seriam os melhores atores a interpretá-los no cinema.

Com Kick Ass a metalinguagem vai além – e a internet ajuda a misturar realidade e ficção. Na história de Millar, um garoto resolve virar super-herói por conta própria – mas só se torna notado depois que uma briga em que se envolve é filmada por celular e vai parar no YouTube.

Estes pequenos detalhes mostram que Millar está atento não apenas às novidades, mas também disposto a não tratá-las como coisas de outro mundo, mas partes do cotidiano de cada um. O protagonista mede sua popularidade ao comparar o número de amigos em seu perfil do My-Space com o da identidade secreta que criou. E quando ele pergunta à pequena heroína de 10 anos, a adorável Hit Girl, onde ela conseguiu um lança-chamas, sua resposta é direta: “Ebay.”

Desta forma, Millar é o primeiro autor a pular dos quadrinhos para o cinema sem ser um mero contratado. Produtor executivo do filme, Kick Ass não é a primeira obra sua a ganhar vida na telona (a série Wanted virou o filme O Procurado, com Angelina Jolie). E não deverá ser a última.

Um mashup para a Copa do Mundo
http://365mashups.wordpress.com. Segue a árdua tarefa do produtor João Brasil que vai fazer um mashup por dia durante todo o ano de 2010. Uma das novidades dele é a mistura da nova versão de Umbabarauma de Jorge Ben com Mano Brown com Uma Partida de Futebol, do Skank.

Onde ouvir música nova
Os blogs de MP3 e o Hype Machine

O que faziam as gravadoras antes da crise na indústria fonográfica? Além de produzir, distribuir para as lojas e vender discos – artefato cada vez menos importante devido à música digital –, essas empresas tinham a louvável tarefa de descobrir novos artistas, ajudá-los a entender o mercado em que estavam dispostos a entrar e encaminhar seu futuro artístico. Mas, com a crise do disco pós-MP3, elas aos poucos foram perdendo esse papel de filtro para cada vez mais se preocuparem com aspectos econômicos do negócio da música.

Coube aos blogs de MP3 assumir este papel. São sites feitos por ouvintes e amantes de música, quase todos sem nenhum vínculo anterior com o mercado e produzidos de forma amadora. Começaram a aparecer no início do século e, pouco a pouco, foram substituindo as gravadoras para o público, cada vez mais online, no que diz respeito a saber onde descobrir a melhor música que vem sendo feita hoje em dia.

De lá para cá, estes blogs cresceram, ganharam respeitabilidade e alguns até conseguiram criar modelos de negócio para serem sustentados. E o ponto de partida para quem está procurando música nova online é o site Hype Machine, criado há cinco anos pelo nova-iorquino Anthony Volodkin, que vem ao Brasil na próxima semana, no evento YouPix (de 8 a 11 de junho, no MIS. Mais informações no site www.youpix.com.br).

“Blogs de música têm uma seleção cuidadosa e têm atraído um público cada vez maior, mas não se preocupam com o lado de negócios como outras gravadoras”, ele me disse na última sexta. “E isso torna suas escolhas mais interessantes, pois não estão atrelados à gravação, à produção ou ao marketing, como as gravadoras estão.”

O Hype Machine funciona de forma simples. Basta entrar no site (www.hypem.com) e procurar por algum artista e ele lista uma relação com os blogs que linkam MP3s do nome procurado. Clicando na opção “Popular”, logo na home do site, há uma lista com as músicas mais procuradas da hora – uma parada em constante movimento, como tudo na web.

Apelou, perdeu
M.I.A. contra The New York Times

M.I.A., que lançou o manifesto antirruivos Born Free, ataca de novo – e desta vez é pessoal. Ela não gostou do que a jornalista do New York Times Lynn Hirschberg escreveu sobre ela e não hesitou em twittar o número do telefone da jornalista. O perfil escrito por Hirschberg estava longe de ser ofensivo, mas a cantora não deve ter gostado de ler que ela se considera uma outsider enquanto come batatas fritas com trufas, e anunciou que vai “contar tudo” em dias. Detalhe: Lynn é ruiva.

Da menina

www.myspace.com/tuliparuiz. Tulipa Ruiz é a bola da vez da MPB paulistana e lança seu primeiro disco hoje, no Auditório Ibirapuera, às 18 horas (ingressos: R$ 30), com participações de Jeneci e Mariana Aydar. Algumas faixas de Efêmera podem ser ouvidas em seu MySpace.

Lost seguia a lógica de entretenimento de uma montanha-russa. Quanto mais loopings tivesse um episódio, mais querido pela audiência ele seria. E o último episódio teve tanto disso que muita gente tá vomitando até agora.

O programa foi fiel ao seu preceito mais básico, o de não explicar coisa nenhuma. Desse jeito, as discussões sobre o final da série vão muito além do “gostei / não gostei”, o que condiz bem com o que foi Lost durante essa formidável jornada.

Outro detalhe incrível foi que Lost evidenciou a fraqueza do ensino básico brasileiro, levando em consideração a dificuldade de compreensão a respeito do momento em que os personagens estavam vivos ou mortos.

Para ajudar no brainstorm do Matias, incluo aqui uma canção do grupo Pixote que, no final dos anos 90, já anunciava como seria o final de Lost. Prestem atenção na letra.

* Chico Barney escreveu este texto pra cá.

Foi certo Lost terminar como uma grande novela das oito. Afinal, a série foi isso durante estes seis anos, é por isso que ela conseguiu o alcance que teve. Se não tivesse o elemento Janeth Clair (mais do que Manoel Carlos ou Gloria Perez, como alguns citaram, meros amadores na arte cada vez mais, er, perdida de escrever uma telenovela), Lost seria uma série que falaria com um público específico, uma tribo. Seria cult, alternativo, cool, nerd – seria uma realidade paralela. Como toda a obra de J.J. Abrams, Lost pegou uma fração específica de um nicho e deu-lhe uma noção épica, monumental. “Dar tratamento A à cultura B”, como ele mesmo diz, com freqüência. E quando pensamos que Lost é uma mistura de Além da Imaginação com um reality show numa ilha deserta, tendemos a nos animar com o lado do seriado de Rod Serling, esquecendo que é a novelinha e os personagens que tornam a série tão importante.

Essa história foi encerrada em The End, seu último episódio, que junto também trouxe uma pontada de frustração por não responder as tais inúmeras perguntas abertas pelo seriado semanalmente. Mas como Across the Sea, o antepenúltimo episódio, que já havia causado cisão entre os fãs, The End não estava preocupado com as respostas. E, como em quase toda duração da série, ambos episódios não esclareceram nada, funcionaram apenas como uma amostra do poder narrativo de Lost, enfileirando questionamentos vagos à medida em que traduzia os sentimentos dos protagonistas – que poderiam ser resumidos no título da série, a sensação de estar perdido, e não apenas geograficamente.

Este sentimento não era exclusivo dos personagens – era também nosso. Passamos seis anos perdidos numa ilha maluca que muito de vez em quando dava alguma amostra de racionalismo. Seis anos perseguindo números, constantes, equações, cronologias, efeitos especiais, coincidências e linhas do tempo que nos fizeram crer que a ilha fosse o paraíso perdido, uma nave espacial, o oco do planeta, uma dimensão alternativa, um estado de espírito, uma anomalia eletromagnética, um lugar místico. Ilha que já colheu gente de todas as épocas e lugares – de adoradores das divindades do Egito antigo a cientistas e militares norte-americanos – e que por seis anos (três, na contagem cronológica da série, entre 2004 e 2007) foi palco para o drama dos passageiros do vôo 815 da Oceanic Airlines. E para o nosso drama também, como telespectador.

Eis o trunfo de Lost: nos colocar como participante da viagem. O tempo todo sabíamos que o que acontecia na ilha era ficção, não havia como confundir ator com personagem e havia um próprio subtexto na produção da série – o blog de Hurley, a transformação de Damon e Carlton em ícones pop, as entrevistas de Michael Emerson – que fazia questão de nos lembrar que estávamos apenas acompanhando uma novela e que o ator que fazia o vilão não era, de verdade, um vilão. Por mais ridícula que esta afirmação possa parecer, lembre-se que estamos na era dos reality shows e torcidas são organizadas em torno do caráter – ou a falta de – de qualquer participante deste tipo de programa, esteja cantando, dançando, cozinhando ou simplesmente discutindo o nada com outros tipos sem graça.

Lost esfregava ficção em nossa cara ao mesmo tempo que nos deixava tão atônitos quanto o estado de seus personagens. E enquanto os personagens só começaram a experimentar as viagens no tempo a partir da quinta temporada, nós estamos sendo submetidos, desde a primeira, a flashbacks e flashforwards na vida de cada personagem, que nos deixaram tão desorientados a ponto de sermos lindamente driblados no final da terceira temporada.

The End nos ajudou a nos reencontramos com a essência de cada personagem – explicando, assim, a função dos flashsideways. Mais do que o “purgatório” visto com esgar pela parte dos fãs do seriado que se sentiram traídos, a realidade paralela criada nesta temporada serviu para que voltássemos a nos encontrar com os personagens da primeira temporada, aqueles que foram importantes no período em que Jack esteve na ilha (que, não custa lembrar, existiu, existe e continua existindo – a ilha em si não é um purgatório, como interpretações ainda mais apressadas tentaram provar). Os personagens que deram origem à história que assistimos.

Aos que reclamaram do final, exigindo respostas, não custa lembrar que a ficção científica também aborda a questão do pós-vida e que a metáfora de uma realidade exatemente idêntica à que vivemos é tema recorrente até neste meio. É uma ficção científica, no entanto, espiritualizada e epitomizada em um autor que, de tão específico, não pertence a nenhuma escola: Philip K. Dick. PKD usava ficção científica para discorrer sobre filosofia e, mais tarde em sua bibliografia, espiritualidade. Viciado em drogas para manter-se acordado e escrevendo, K. Dick teve a própria sanidade posta em xeque quando, no meio dos anos 70, viveu um delírio em que acreditava viver duas épocas ao mesmo tempo (história que o R. Crumb conta com maiores detalhes na tradução que fiz para A Experiência Religiosa de Philip K. Dick). Profundamente abalado por estas visões, K. Dick passou a buscar o sentido da vida em livros quase cifrados – como Ubik e Valis -, em que discorre sobre o que acontece depois da morte indo para além das metáforas religiosas, mas sem se distanciar das referências terrenas. Daí a igreja com seu vitral ecumênico na última cena.

Mas Lost não terminou de maneira espiritualizada e mística, pura e simplesmente. Retire todos os flashsideways e a rendenção final de Jack Shephard e eis a história dos passageiros do Oceanic 815 na ilha, contada desde sua queda até a fuga. Do confronto final entre Jack e Locke (na mesma chuva negra do último duelo entre Neo e Smith em Matrix Revolutions, a série se autoironizou até os últimos minutos) ao sacrifício feito por Jack (Donnie Darko feelings) para restaurar a luz do coração da ilha (puro Disney) até o último fechar de olhos na última cena, toda a história do Jacob e de seus candidatos foi contada. Alguns morreram, outros fugiram, mais outros ficaram. Sem o flashsideways, no entanto, não teríamos a citação de Ben e Hurley à série O Prisioneiro, ao se referirem como “número 1” e “número 2” e saudarem-se com um parente do “be seeing you” – e fico imaginando a reação de quem não gostou do fim de Lost com o fim do Prisioneiro (não o remake americano, tou falando do original inglês)…

(Lost ainda termina com a troca de cargo, deixando o pacato Hurley para tomar conta da ilha que equilibra a bondade do mundo. Há um subtexto maior aí, de que o mundo em que vivemos era regido por um personagem em plena vingança contra seu irmão – e que agora está nas mãos de um gordo gente boa.)

Assim, Lost não foi só uma história que ouvimos, mas que vivemos. Uma experiência coletiva que gerações seguintes apenas poderão imaginar – e comemorar quando, décadas no futuro, alguém explicar os números ou a segunda canoa ou quem é aquele povo dizimado pela mãe dos gêmeos ou contar a história dos DeGroot, entrando assim, para um cânone que começou quando ele nem havia nascido. Quando resumirem Lost em uma frase no futuro (“todos morrem no final” – mas esse não é o spoiler da vida?), a ironia por vir não dará conta das teorias imaginadas e da busca por referências, numa capa de livro, num recado por escrito, num gesto, que vivemos nos últimos seis anos. Lost foi como se pudessem medir a audiência de um seriado que era ao mesmo tinha a densidade dramática de um seriado novelesco (pense em A Sete Palmos) e tensão paranóica e pseudocientífica de uma série geeek (por exemplo, o novo Battlestar Galactica) segundo a segundo, mesmo após a exibição dos episódios. Mesmo após a exibição do último episódio.

Foi bom enquanto durou. Agora, como nos avisaram, é hora de deixar ir – e seguir em frente.

Vambora.