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The cannabis experience has greatly improved my appreciation for art, a subject which I had never much appreciated before. The understanding of the intent of the artist which I can achieve when high sometimes carries over to when I’m down. This is one of many human frontiers which cannabis has helped me traverse. There also have been some art-related insights – I don’t know whether they are true or false, but they were fun to formulate. For example, I have spent some time high looking at the work of the Belgian surrealist Yves Tanguey. Some years later, I emerged from a long swim in the Caribbean and sank exhausted onto a beach formed from the erosion of a nearby coral reef. In idly examining the arcuate pastel-colored coral fragments which made up the beach, I saw before me a vast Tanguey painting. Perhaps Tanguey visited such a beach in his childhood.

A very similar improvement in my appreciation of music has occurred with cannabis. For the first time I have been able to hear the separate parts of a three-part harmony and the richness of the counterpoint. I have since discovered that professional musicians can quite easily keep many separate parts going simultaneously in their heads, but this was the first time for me. Again, the learning experience when high has at least to some extent carried over when I’m down. The enjoyment of food is amplified; tastes and aromas emerge that for some reason we ordinarily seem to be too busy to notice. I am able to give my full attention to the sensation. A potato will have a texture, a body, and taste like that of other potatoes, but much more so. Cannabis also enhances the enjoyment of sex – on the one hand it gives an exquisite sensitivity, but on the other hand it postpones orgasm: in part by distracting me with the profusion of image passing before my eyes. The actual duration of orgasm seems to lengthen greatly, but this may be the usual experience of time expansion which comes with cannabis smoking.

I do not consider myself a religious person in the usual sense, but there is a religious aspect to some highs. The heightened sensitivity in all areas gives me a feeling of communion with my surroundings, both animate and inanimate. Sometimes a kind of existential perception of the absurd comes over me and I see with awful certainty the hypocrisies and posturing of myself and my fellow men. And at other times, there is a different sense of the absurd, a playful and whimsical awareness. Both of these senses of the absurd can be communicated, and some of the most rewarding highs I’ve had have been in sharing talk and perceptions and humor. Cannabis brings us an awareness that we spend a lifetime being trained to overlook and forget and put out of our minds. A sense of what the world is really like can be maddening; cannabis has brought me some feelings for what it is like to be crazy, and how we use that word ‘crazy’ to avoid thinking about things that are too painful for us. In the Soviet Union political dissidents are routinely placed in insane asylums. The same kind of thing, a little more subtle perhaps, occurs here: ‘did you hear what Lenny Bruce said yesterday? He must be crazy.’ When high on cannabis I discovered that there’s somebody inside in those people we call mad.

When I’m high I can penetrate into the past, recall childhood memories, friends, relatives, playthings, streets, smells, sounds, and tastes from a vanished era. I can reconstruct the actual occurrences in childhood events only half understood at the time. Many but not all my cannabis trips have somewhere in them a symbolism significant to me which I won’t attempt to describe here, a kind of mandala embossed on the high. Free-associating to this mandala, both visually and as plays on words, has produced a very rich array of insights.

There is a myth about such highs: the user has an illusion of great insight, but it does not survive scrutiny in the morning. I am convinced that this is an error, and that the devastating insights achieved when high are real insights; the main problem is putting these insights in a form acceptable to the quite different self that we are when we’re down the next day. Some of the hardest work I’ve ever done has been to put such insights down on tape or in writing. The problem is that ten even more interesting ideas or images have to be lost in the effort of recording one. It is easy to understand why someone might think it’s a waste of effort going to all that trouble to set the thought down, a kind of intrusion of the Protestant Ethic. But since I live almost all my life down I’ve made the effort – successfully, I think. Incidentally, I find that reasonably good insights can be remembered the next day, but only if some effort has been made to set them down another way. If I write the insight down or tell it to someone, then I can remember it with no assistance the following morning; but if I merely say to myself that I must make an effort to remember, I never do.

Isso é apenas um trecho do clássico artigo Mr. X, escrito em 1969 e publicado em 1971, quando Sagan tinha . A íntegra do texto pode ser lida aqui.

Minha coluna de ontem, no Caderno 2.

O futuro de Futurama
A volta do sci-fi de Matt Groening

Futurama voltou. A série de ficção científica do criador dos Simpsons, Matt Groening, foi lançada em 1999 e contava a história de Fry, um entregador de pizza que cai em uma máquina do tempo de suspensão criogênica e vai parar só acorda no ano 3000. Menina dos olhos de Groening, a série, no entanto, não decolou. Durou quatro temporadas e depois foi cancelada. De 2003 até o ano passado, o desenho animado sobreviveu em quatro longas produzidos para o canal a cabo Comedy Central (considerados, em conjunto, a quinta temporada do desenho), sempre à sombra da possibilidade de terminar de vez. Isso quase aconteceu no início de 2009, quando foi lançado Into the Wild Green Wonder, que teoricamente seria o final da saga.

Não foi. Desde o início do ano passado Futurama deixou de ser uma série ameaçada de extinção para comemorar seu novo futuro – que começou na última quinta do mês passado, no próprio Comedy Central.

Futurama não diz respeito apenas ao mundo digital em que vivemos hoje. Passado no século 31, o desenho animado mistura referências nerds que vão de clássicos de ficção científica a terminologia de computadores. Por exemplo, num episódio em que seus personagens vão à Lua, eles são repreendidos por uma força policial chamada Moon Patrol, nome de antigo game do Atari.

E as referências vão além das meras citações. Campanhas publicitárias de produtos fictícios passam em microssegundos atrás dos personagens – é preciso usar o botão do “pause” para conseguir pescar todas as piadas. Algumas, nem assim: os produtores do seriado criaram três idiomas e alfabetos alienígenas para incluir brincadeiras e piadas de duplo sentido em frases que passam rapidamente pela tela. E fazem o idioma Klingon, criado em Jornada nas Estrelas, parecer brincadeira de criança – afinal seus criadores avisaram que não criarão livros didáticos para ensinar esses idiomas. Cabe aos telespectador decifrar e desvendar estes e outros mistérios.

Talvez tenha sido este hermetismo e a torrente de referências subjetivas que tenham feito o seriado afundar em 2003. Mas é isso que o torna duradouro. No hiato entre o cancelamento e a reestreia, Futurama não morreu. Seguiu vivo firme e forte graças aos fãs.

Um deles, o americano Matt De Lanoy, começou a construir uma versão da Nova Nova York (o cenário de Futurama) em Lego assim que anunciaram que a série iria terminar. Para sua – minha e de muitos fãs -, felicidade, ela voltou. E ele completou seu monumento ao século 31.

Efeito Copa do Mundo
Twitter caiu junto com Dunga

Não foi só Dunga quem caiu feio na sexta passada. “Estamos nos recuperando de um período de alta indisponibilidade“, avisou o blog do Twitter durante o jogo contra a Holanda. O site tem sofrido muito com a Copa – e quedas no sistema têm sido mais frequentes do que o habitual. A rede também foi dominada pelos brasileiros após o jogo de sexta, que puseram dez termos em português entre os assuntos mais discutidos no site.

Minha coluna no caderno 2 de ontem…

O ano da vuvuzela
A tag da Copa do Mundo 2010

Na última quinta-feira, o YouTube acrescentou um botão em todos os vídeos hospedados no site. Sinalizado com uma pequena bola de futebol, o botão ligava, ao ser acionado, uma faixa de áudio que disparava o zumbido insuportável das vuvuzelas, a trombeta onipresente nos jogos da Copa do Mundo deste ano. E pelo futebol apresentado pelos times até agora, não tem para ninguém: a Copa de 2010, pelo menos por enquanto, é a Copa da Vuvuzela.

E não foi só no YouTube, nem apenas na internet, onde a corneta sul-africana deu origem a piadas, fotomontagens e sites engraçadinhos. A vuvuzela está por toda parte, nas matérias da TV, nas ondas do rádio e nas ruas do mundo. Mas além de atordoar nossos ouvidos e render brincadeiras de duplo sentido de toda natureza, a vuvuzela pode ajudar a muitos que ainda não estão familiarizados com o conceito de “tag” a compreender o significado desse termo, tão importante na estruturação atual da web.

O termo em inglês significa “marca” e já foi traduzido para ser usado neste caso como “marcador”, “tópico” ou “palavra-chave”. É um dado que é vinculado a uma informação para que esta seja encontrada mais facilmente. Sejam posts em blogs, vídeos no YouTube, fotos no Flickr ou arquivos de MP3, as tags ajudaram a hierarquização da rede na década passada. Graças a elas, quem busca por “Los Hermanos” no Google, por exemplo, bifurca-se entre o termo “os irmãos” em espanhol e a banda de rock do Rio de Janeiro. As tags facilitam mecanismos de buscas e ferramentas online a separar quais hermanos são apenas irmãos e quais deles dizem respeito à banda indie carioca.

E se nenhum artilheiro despontar, se nenhuma partida for inesquecível ou nenhum gol fizer olhos brilharem de emoção, nos próximos dias, nos lembraremos da Copa atual como sendo a Copa da Vuvuzela. Mais ainda, será inevitável associar 2010 do termo, fazendo com quem quiser buscar informações sobre o ano atual no futuro, pode usar a tag “vuvuzela” como guia.

Exemplo: se daqui a dez ou vinte anos encontrarmos um filme ou livro que faça referência ao termo, é muito provável que ele tenha sido lançado depois de junho de 2010. A tag funciona como um filtro, uma guia na busca por informações. Difícil era prever que uma corneta sul-africana se tornaria uma referência, por que não, histórica.

Tudo 3D
Muito além da TV, cinema e games

Nesta segunda-feira, o caderno de cultura digital do Estado de S. Paulo, o Link, traz uma edição especial dedicada ao tema 3D. A pauta do caderno vai além da mania que assola filmes, games e aparelhos de TV e aborda o uso da tecnologia em outras frentes, como museus e até impressoras 3D. E além do conteúdo em três dimensões, todas as imagens do caderno simularão a sensação de profundidade no papel, que pode ser experimentada graças aos óculos que virão encartados, gratuitamente, na edição.

E seguindo os links do Selvedge Yard, caí neste post sobre a famosa Triumph de Bob Dylan, a motocicleta que ele cavalgou entre 1964 e o dia 26 de julho de 1966, quando sofreu o acidente que já ganhou status de mito. Depois da queda, que aconteceu devido a uma falha nos freios da moto, Dylan sumiu de cena, gerando rumores sobre o que poderia realmente ter acontecido com o cantor. As especulações iam desde que Dylan havia morrido, estava seriamente acidentado, teria sido vítima de um atentado terrorista ou até mesmo da CIA.

A própria gravidade do acidente era contestada: embora Dylan tenha publicado pouco depois que tinha ficado desfigurado e que quebrara costelas e vértebras no acidente, não há registros de entrada de nenhuma vítima de acidente de moto em hospitais perto de Woodstock, região onde Dylan morava na época. Os contatos entre Dylan e o mundo exterior cessaram e só seu círculo de amigos podia conversar com ele – e quem falava com ele, só confirmava que seu estado era péssimo. Dylan aproveitou o problema para dar um tempo na carreira, cheia de pressões inéditas depois que se tornou um ícone pop em sua fase elétrica, e tirou um tempo para compor suas clássicas Basement Tapes. Escrevi mais sobre o assunto aqui.

“When I had that motorcycle accident… I woke up and caught my senses, I realized that I was just workin’ for all these leeches. And I didn’t want to do that. Plus, I had a family and I just wanted to see my kids.”

Dylan, em entrevista a Jonathan Cott, no livro Dylan on Dylan

Sei bem o que ele quer dizer.

Minha coluna no 2 de domingo

Fake no facebook
João Gilberto social?

“mentirosa. anti-ética. jamais. dei entrevista. à revista.não have.rá nenhum dvd japão.adoro caetano.não pedi comida.japonesa.reportagem …para boi.dormir.farsa!merece o lixo”

Assim, só com minúsculas e pontos entre as palavras, um certo “João Gilberto Prado Pereira” respondeu, via Facebook, a uma entrevista publicada na semana passada com o cantor João Gilberto. Na entrevista, o verdadeiro João dizia nunca ter usado o Facebook, além de não ter computador em casa.

Não precisa ser nenhum especialista em joãogilbertices ou em Facebook para descobrir que o perfil, criado em abril e com mais de cinco mil “amigos”, é falso. Afinal, o “João Gilberto” do Facebook é fã de Marcelo Bonfá, Ray Charles e Pat Metheny, xinga o papa de pedófilo, se refere a Tom Jobim como “mestre” (como assim?) e posta vídeos e mais vídeos de “si mesmo” no Facebook.

Não que João não pudesse ter um computador, estar no Facebook ou ficar passeando no YouTube assistindo a vídeos antigos – atividades que têm a ver com a contemplação e tranquilidade de um músico que, segundo a biografia de Ruy Castro sobre a bossa nova, Chega de Saudade, era conhecido nos anos 50, como “Zé Maconha”.

João Gilberto, perfeccionista e cheio de manias, até perderia seu tempo assistindo aos próprios vídeos no YouTube, mas não os espalharia por aí. Vale até a dica para o João Gilberto fake – o verdadeiro João provavelmente se encantaria ao descobrir que, no YouTube, pode ouvir músicas que ouvia nos tempos em que ainda morava em sua cidade natal, Juazeiro, no interior da Bahia.

Em tempos digitais, sempre é bom desconfiar de personalidades online. Como links recebidos por e-mail, às vezes elas podem não ser quem aparentam.

“Last decade”
A volta-relâmpago dos Strokes

Começou com um tweet: “Bom dia, Londres”, disseram os Strokes no início da semana passada pelo Twitter, antecipando um show surpresa que fariam na casa noturna Dingwalls, para apenas 500 pessoas. Era o primeiro show da banda desde 2006, antes de seus integrantes lançarem trabalhos-solo. Mais tarde twittariam o logotipo da banda com o nome alterado para “Venison”. O show aconteceu quarta passada e, apesar de matar a saudade dos fãs, não trouxe nenhuma novidade. No estúdio desde janeiro, esperava-se que eles tocassem músicas novas ou até que anunciassem novo disco. Em vez disso, voltou aos hits. Será que uma das bandas-símbolo dos anos 00 esgotou-se? Só o tempo dirá, mas ao que parece, a banda virou cover de si mesma.

A Thaís foi uma das 500 pessoas que estiveram no show de volta que os Strokes deram na quarta passada e eu pedi pra ela me deixar postar seu relato sobre o evento aqui no Sujo – e ela deixou. Valeu, Thaís 🙂

Eu não sabia. Não sabia que eles estavam planejando um retorno, e não sabia que esse retorno seria assim, surpresa, under the radar, completamente underground (ninguém sabia, aparentemente). Foi o email de um amigo conectado ao povo do Dingwalls dizendo que estava na luta pelos tais ingressos que me atiçou a curiosidade. Ele não me disse mais nada, e daí, pelos poderes do Google e do twitter, começou a maior caça ao tesouro desde 2007, quando o festival Glastonbury retornou depois de um break e 135 mil tickets foram vendidos em 1hr e 45min (eu também estava entre esses felizardos).

As 6 da tarde do dia 8, só o site da revista NME tinha se ligado na primeira pista. A banda havia postado no twitter (que eu não seguia) a imagem de um logo extremamente parecido com o deles onde se lia “Venison”, e na sequência, uma foto do canal que passa por Camden Town. Eles traçaram o tal logo ao site do Dingwalls, que incluiu em sua programação um show do tal Venison no dia seguinte, e uma única descrição: “Formely known as The Shitty Beatles.” Tickets seriam vendidos somente através do site da casa dali a 3 horas, as 9pm.

Obviamente, 3 horas no mundo virtual é MUITO tempo, ainda mais pra fãs tão dedicados como os do Strokes, e o site da casa caiu, quarenta e cinco minutos antes. Nove da noite o mundo estava dando reload na página inicial, e nada do link dos ingressos aparecer. No twitter, amigos frustrados já haviam desistido da idéia 20 minutos depois, mas dando um search em “strokes”, achei o username “VenisonFans”, conta de uma fã die-hard irlandesa que, até agora não sei como, tinha o link alternativo que levava aos benditos tickets. O momento que ela postou o link foi exatamente o momento que eu comecei a segui-la, e well, 20 libras mais tarde, eu era a felizarda recipiente de 2 ingressos (e confesso: podia ter comprado mais 2, já que meu BF conseguiu acessar o link ao mesmo tempo no computador do lado…mas deixamos pra lá, num raro momento anti-lucro).

Cheguei tarde, meia hora antes de as portas abrirem, e a fila estava curta e excessivamente calma. Uns poucos indie kids devidamente trajados em seus skinny-jeans-skinny-jaqueta-de-couro combo posavam com plaquinhas onde se lia “DESPERATE STROKES FAN, WILL PAY £XX FOR PAIR OF TICKETS” (valores entre £50 e £100), e um repórter da rádio BBC6 perguntava ao povo na fila quanto cada um tinha pago pelo seu (horas antes, um amigo disse no Facebook que a mesma rádio divulgou oferta de 6 mil libras.) Um espanhol se aproxima: venderia os meus por £300? No, thanks. Okay, £400? Hm. No, thanks, go away, antes que eu mude de ideia.

Na fila descubro feliz que seremos cinco brazucas (no final do show, éramos 7 – dois malucos conseguiram entrar no “jeitinho,” OF COURSE), e as portas abrindo, me dou conta do real tamanho do Dingwalls. É minúsculo pra uma banda desse porte. Tem um palquinho baixo, uma pistinha escura, duas bancadas/degraus, e um bar no fundo. Devagar, o lugar foi enchendo com calma, todo mundo se distribuindo de acordo: ninguém correu, ou se empurrou, ou deu de babaca. Parecia que aquele era só mais uma gig de uma banda qualquer, mas algo me dizia que a calmaria não ia durar, e do alto do meu 1 metro e meio, escolhi a bancada esquerda pra me posicionar estrategicamente. Iria tentar driblar os seguranças-armários e fotografar/filmar tudo para os incontáveis fãs malucos que me adicionavam no twitter aos quilos (graças a irlandesa die-hard, que me achou e divulgou).

Realmente, a calmaria não durou. Ás 9:20pm, Julian, Albert, Fabrizio, Nick e Niko, subiram no palco e 400 pessoas entraram em êxtase coletivo. Iniciando com “New York City Cops”, os 5 fizeram um set histórico só, SÓ com os maiores hits da banda desde 2001, em um clima de puro rock’n’roll: palco pouco iluminado, teto pingando o suor condensado de uma platéia que gritava todas as letras como se fosse rasgar as cordas vocais pra sempre (e Julian, mesmo assim, não deixou de cantar um segundo), em uma pista que se movia como uma serpente humana de tão sincronizados que eram os pulos. Foi uma paulada atrás da outra: “Modern Age”, “Hard To Explain”, “Soma”, “You Only Live Once”… a hora que o clássico riff de “Last Nite” entrou, foi como se todo mundo tivesse sido abençoado pelos deuses do rock: nós, os brazucas, a essa altura nos abraçávamos e dava parabéns uns aos outros, não acreditando na própria sorte. Julian, bem-humorado, brinca com um tênis perdido de algum fã, e agradece dizendo “You guys are the shit.”

Uma hora depois, a banda pausa e deixa a platéia, completamente fora de si, gritando “VENISON! VENISON!” Cinco minutos depois, retornam pra mais cinco musicas, e encerram com “Take It or Leave It.” They leave it, rápidos como entraram, sem apresentar nenhum material novo. Ninguém parecia decepcionado.

Tive sérias dificuldades pra filmar. Primeiro, de medo de ser arrastada pra fora por um dos armários, segundo, por medo de perder aquele momento único. Eu queria mesmo era ter me juntado a serpente humana (morreria esmagada, provavelmemte), mas a vontade de dividir foi maior e eu tentei ser firme. Falhei, claro. O resultado, altamente tremido, está entrando aos poucos no meu canal do youtube, que os malucos do twitter divulgaram ao redor do mundo.

No final, nós 5, mais uma francesa que fala português, e os dois brazucas penetras, fomos pro bar ao lado comemorar, cada um segurando orgulhoso sua camiseta com o logo da Venison. Não sem antes esbarrar em Chris Martin, aquele do Coldplay, saindo do show tão feliz quanto nós.


“Eu gosto de estar no meio da moçada para saber como a juventude se sente”

Blogs ao redor do mundo se perguntam qual foi o motivo dessa aparição, se não foi uma indulgência elitista sem sentido, já que não houve nenhuma musica nova. Eu nem quero saber. Foi um privilégio sem tamanho ter acesso a um evento desse, sem hype, sem mídia, organizado, freqüentado e apresentado por paixão.

Como disse meu amigo Thellius:

@thellius 


Imagine [going] back to 2001 in NYC undergrounds and see The Strokes playing in a very small venue an all-hit gig for 400 insanely lucky people. 10 June 2010 03:25:06 via web

@thellius That was my night. Best gig of my life. 10 June 2010 03:25:21 via web


Olha a cara de felicidade da Thaís, no meio da foto

ps: fotos e vídeos tudo meu, então DEEM CREDITOS, GENTE DA MIDIA BRAZUCA, tb sô jornalista pô. 🙂

Outro brasileiro tava lá no show, o Victor Bianchin, que deu o seguinte relato ao Move That Jukebox e eu publico parte dele aqui.

Cheguei em Camden umas 18h e dei umas voltas ao redor do lugar. Não tinha ninguém na frente do Dingwalls, o que eu estranhei, mas tinha uma galera na porta do fundo. Perguntei pra uma menina se aquilo era a fila pros Strokes e ela confirmou que sim. A maioria ali não tinha ingresso. Os que tinham, compraram no eBay ou no Gumtree por 150, 200, 250 libras. Ouvi uma história de uma menina que não só tinha pagado 200 libras pelo ingresso, como tinha pegado um avião até Londres só pelo show. Era insano.

Conforme o tempo foi passando, várias celebridades foram entrando: Zane Lowe, o apresentador. Nick McCarthy, do Franz Ferdinand. Luke Pritchard, dos Kooks. Gente do The Cribs e do Biffy Clyro. O Coldplay inteiro (Chris Martin posou pra fotos antes de entrar). E nós lá. Eu já tinha perdido as esperanças. E aí o show começou.

Consegui entrar porque, durante a espera, dei uns xavecos num funcionário da casa. A resposta dele era sempre a mesma: “desculpe, mas não dá”. Só que aí, na terceira música do show, ele veio pra mim na fila com um ingresso de convidado. A galera voou em cima, mas o ingresso era pra mim e os seguranças me ajudaram a ficar com ele.

Agradeci mil vezes ao cara e entrei. Porra, era lindo. O Dingwalls tem uma pista com degraus, tipo o Via Funchal (SP), mas guardadas as devidas proporções, claro. No Dingwalls só cabem umas 400 pessoas. Eu fui pra frente tanto quanto deu, mas preferi não descer no gargalo porque a coisa ali tava infernal. Muuuuuito empurra-empurra, não ia dar pra curtir o show. Então fiquei de boa no segundo degrau.

Eu pirei muito, mas MUITO com as músicas. Um clássico atrás do outro, foi muito foda. Tocaram varias das minhas preferidas, como “Hard to Explain” (entrei com ela rolando), “Someday”, “You Only Live Once” e “Juicebox”. Fecharam com “Heart in a Cage” e Take it or Leave it”, e o lugar quase veio abaixo. O pessoal cantou junto todas as músicas, batendo palma e gritando o quanto dava. O lugar estava quente, mas melhor que o Franz em SP nesse ano, e o teto pingava água do vapor que subia. Juro, parecia que tinha goteiras em todo o galpão, era incrível a quantidade de água pingando. Você olhava pras paredes e elas estavam molhadas.

Apesar do calor, Albert Hammond Jr. passou o show inteiro de blazer e Julian Casablancas de jaqueta de couro e óculos de sol. Só o Nick Valensi que optou por uma regata larguíssima, que deixava à mostra seus bracinhos finos e seu peitoral, que não é lá muito bombado. Nikolai Fraiture ficava no canto quietinho e Fab Moretti tocava a bateria com muita energia. Strokes é muito foda.

Julian passou o show inteiro falando “I’m just fuckin’ around”. Ele também falava bastante com o pessoal no gargalo, dava as mãos e tal. Em um momento, ele disse “this is like the first show we do in 4 years, so thank you”, e o povo vibrava, e ele respondia “this is too much, guys, this is too much”.

Falando em gargalo, a coisa ficou tensa por ali. Os seguranças desceram até ali e meio que ficaram protegendo as três primeiras filas, que tinham gente quieta. Eles formavam uma barreira que não deixava o pessoal pulador bater neles. E como eles faziam isso? Dando empurrões animais que faziam belas “ondas” na platéia. De cima, de onde eu tava, dava pra ver bem.

Um dos seguranças era um armário de 2 metros de altura e uns 130 kg, no mínimo. O cara era um gigante. Vi ele pegando pela gola da camisa e levando pra fora pelo menos 3 malacos causadores. Imagine ser arrastado pra fora de um clube por um gigante. Era tragicômico.

Foram umas onze musicas no show e mais umas cinco no bis. Adorei todas. Strokes é muito bom e o show foi histórico, de verdade.


Depois do show, o Victor ainda encontrou o Nicky do Franz e foi lá bater uma foto

Entrevista que fiz sobre o filme Winnebago Man para o Link de hoje.

Quando um meme vira filme
Como erros de gravação cheios de palavrões deram origem a um documentário

De gravata e camisa social, um homem começa a falar com a câmera. Ele está num comercial de TV, vendendo o trailer que é cenário para o anúncio. Só que esquece o texto e começa a xingar. Joga os braços para cima, com raiva. Faz careta. “Fuck!”. Corta para outra cena. Ele começa a mostrar algo do lado de fora do carro e uma tampa se fecha. Mais xingamentos. “Fuck!”. Mais braços para cima. Mais caretas. Mais “Fuck!”. “Fuck! Fuck! Fuck!”.

Jack Rebney era um dos muitos apresentadores de infomerciais na TV americana durante os anos 80 que, como qualquer um, lamentava os problemas ocorridos ainda com a câmera ligada. Mas sua reação era sempre enfezada e alguém da produção do programa compilou os melhores momentos em um vídeo que começou a circular em fitas VHS.

Até que, em 2005, o vídeo foi parar no YouTube e, como muitos antes dele, Rebney virou uma celebridade. Uma vez online, ganhou o título de “World’s Angriest Man” (O Homem Mais Bravo do Mundo, em inglês) e o vídeo, que antes era objeto de culto entre os poucos que conseguiram assisti-lo antes da internet, virou hit nos Estados Unidos.

Em pouco tempo, entrou no inconsciente digital do país. O personagem de Alec Baldwin na série 30 Rock e o desenho Bob Esponja cansaram de soltar aspas de Jack. O diretor Spike Jonze teria enviado fitas com o vídeo como presente de Natal para amigos. E no recente Homem de Ferro 2 o pai do protagonista esbraveja em um vídeo antigo como se fosse Jack.

Mas uma coisa intrigava o diretor Ben Steinbauer, que havia assistido aos pitis de Jack ainda no videocassete. Ao ver o protagonista de uma piada entre amigos ganhar grandes proporções, estranhou que o próprio não havia aparecido. Teria morrido? Sumido? Estaria ainda mais bravo com a piada que se tornou?

“Queria saber como ele se sentia em relação à exposição que ganhou por algo que fez há quase vinte anos”, explicou o diretor em entrevista ao Link. “Não foi fácil. Em tempos de Google, em que basta digitar o nome de alguém para descobrir quase tudo sobre aquela pessoa, só encontrei seu nome em um comentário que ele fez em um site de venda de barcos, em que ele perguntava qual seria o melhor barco para viajar pelo mundo”.

Fazendo o caminho de volta da fita VHS que recebeu, chegou à produção do programa original, que não sabia por onde andava o sujeito. Até que Ben resolveu contratar um detetive, que o ajudou a encontrá-lo. O homem mais bravo do mundo morava no topo de uma montanha no norte da Califórnia, alheio ao resto do mundo e, obviamente, a seu sucesso inesperado.

O encontro deu origem ao filme Winnebago Man, documentário que já foi exibido em alguns dos principais festivais do mundo, colhendo aplausos e gargalhadas por onde passou, e que estreará nos EUA no próximo mês. O filme está sendo negociado para ser exibido no Brasil ainda este ano, por um canal de TV a cabo.

“Não sei se esse tipo de celebridade se tornará uma regra ou se é só uma anomalia do início do século da internet”, explica o diretor. “Mas uma coisa é fato: hoje é muito mais fácil se tornar famoso no mundo inteiro, mesmo à revelia”.

Jack, no entanto, não é contra a fama inesperada e participou de algumas entrevistas coletivas do filme, participando por celular. Mas o diretor não recomenda que futuros fãs tentem o encontrá-lo. “Além de morar literalmente escondido, ele tem uns rifles em casa…”, ri, sem jeito.

Bom, eu sou puro e acredito em fair play. Já tinha visto a carta acima antes mesmo de terem me indicado no post que o Vinícius citou, mas aprovei o comentário na crença que meu adversário teria mais cartas em sua manga. Pois ele tirou da minha! E que carta… Mas tudo bem, como ele mesmo disse, T-Girls é um jogo e jogo também envolve sorte – e azar, no caso, o meu. Pois abri um baú pra arrumar a próxima.

Pirraças esportivas à parte, o fato é que Vinícius tem razão: lançamos uma tendência há alguns meses que só agora os grandes nomes da moda estão começando a notar. Vide que nossa batalha foi parar até no comentário que a importante crítica de moda do jornal que trabalho fez sobre o fenômeno da camiseta Three Wolf Moon.

Vamos combinar que já não era sem tempo. Essas estampas de camisetas que funcionam como trocadilho visual com marcas conhecidas – bandas inclusive – fazem parte da década do mashup (os anos 00) mas ainda carregavam aquela ironia espertinha que intoxicava os anos 90. Ao voltarmos a usar nossos ícones favoritos no peito, sem piadinha interna ou sacada espertinha pra iniciados, resgatamos uma das principais contribuições da camiseta no imaginário mundial – o fato de que, quando você encontra uma pessoa que você nunca viu na vida com a estampa de uma referência que vocês possam ter em comum, criar um vínculo instantâneo, inesperado, por vezes surreal.

É claro que usamos mulher porque gostamos de mulher. Mas o próprio Vinícius já deu a deixa pras meninas começarem seus T-Boys. Por aqui, continuamos com as gatas.

Jogo a seguir.

MP3cêntrico

Entrevistei o Anthony Volodkin, criador do Hype Machine, para esta edição do Link.

“A rádio tradicional só toca as mesmas 40 músicas”
Criador do Hype Machine, agregador de blogs de MP3, ele vem ao Brasil para falar sobre música digital

“Estava na faculdade quando percebi que não ouvia música nova”, lembra Anthony Volodkin, que chega ao Brasil esta semana para participar do evento YouPix. “Não tinha mais tempo para ficar em salas de bate-papo por causa das aulas e do trabalho. Mas descobri os blogs de música e não acreditei quando vi que tanta gente estava escrevendo sobre música só porque gostava. Depois de algumas noites em claro, escrevi um protótipo do que se tornaria o Hype Machine”.

A história se parece com a de muitos criadores de serviços digitais, com um agravante. Quando, há cinco anos, o nova-iorquino Volodkin descobriu o mundo maravilhoso dos blogs de MP3, este era formado por amadores que dispunham seu tempo livre à caça de novos artistas e bandas que ninguém tinha ouvido falar. Cinco anos depois, o Hype Machine não só se tornou a grande central dos blogs desta natureza, como ajudou-os a redefinir um papel importante na história da música digital: o de filtro.

Se as gravadoras se perderam em números de vendas que desabavam enquanto os downloads proliferavam online, os blogs de MP3 se tornaram o grande refúgio para ouvintes que não sabiam o que ouvir. A indústria do disco, perdida entre artistas gigantes que vendem cada vez menos, deixou de ser a referência para descobrir novos nomes. Assim, coube a blogueiros apaixonados por música assumir esse papel.
E são as gravadoras maiores quem mais sofrem com esta nova realidade digital. “Elas não conseguem responder rapidamente a vazamentos de álbuns, por exemplo”.

A reação do mercado ao site foi gradual. “Somos uma forma independente pela qual a indústria pode monitorar o que as pessoas estão fazendo nesta nova mídia”, ele explica, e diz que as gravadoras pequenas e blogs de MP3 responderam positivamente – e logo – à existência do site. “Foi um processo orgânico”, lembra.

Em seus cinco anos de existência, o Hype Machine acompanhou as drásticas mudanças na indústria. “As gravadoras passaram a ousar mais ao vender música online. Já estão contando o fã como um agente importante, em vez de deixá-lo de lado, como no passado”, explica o dono do site, que também comenta as mudanças nos hábitos de consumo. “As pessoas estão comprando mais música digital do que nunca – além de ouvir cada vez mais música na web e nos seus celulares.”

“Mudou também a forma como as pessoas gastam seu dinheiro”, continua. “Isso não quer dizer que a música deixou de ser importante para as pessoas. Mas o mais interessante é perceber como as pessoas interagem e criam neste novo ambiente.”

Às vésperas de lançar uma nova versão do seu site, além de um aplicativo para celular, Volodkin nem pestaneja ao ser perguntado se a internet assumiu o papel do rádio. “Sem dúvida. A rádio tradicional só existe para tocar as mesmas 40 músicas, sempre, sem parar, como se fosse um iPod de baixa capacidade de armazenamento”.

Serviço
YOUPIX.COM.BR – MELHORES DA WEBSFERA 2010.
De 8 a 11 de junho, das 15h às 23h. Museu da Imagem e do Som. Av. europa, 158. Jardim Europa. Volodkin será sabatinado na quinta-feira, às 21h. confira toda a programação no site do evento