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Grafitti global
Banksy, arte de rua e internet

Você conhece Banksy? Para mim, o grafiteiro londrino é o maior artista vivo. Suas obras começaram a aparecer nos muros da capital inglesa na virada do milênio, sempre contestando o status quo na base do contraste agressivo. De Londres, passou a grafitar muros pelo mundo, até na Faixa de Gaza. Uma busca por seu nome no Google Images dá uma boa ideia de sua tática de choque – e de sua importância.

E o principal: ninguém sabe quem é Banksy. Como é seu nome verdadeiro, seu rosto, onde mora, do que vive. Tudo é envolto em mistério.

Neste ano, ele saltou dos muros e paredes para as imagens em movimento e assina um dos principais filmes de 2010, o documentário Exit Through the Gift Shop (Saída Pela Loja de Souvenirs, em tradução livre, sem previsão de lançamento no Brasil).

No filme, ele acompanha a trajetória do documentarista francês Thierry Guetta, obcecado por filmar tudo o tempo todo a ponto de, ele mesmo, virar o objeto do documentário, que deixou de ser seu para se tornar do próprio Banksy.

O filme foi batizado de “o primeiro filme catástrofe de arte” e há uma série de especulações sobre sua natureza. Seria o filme mesmo um documentário ou é tudo armado? Thierry é quem ele diz que é? E Banksy? Mostra a própria cara mesmo?

Sem entrar no mérito do documentário, ele ressalta um ponto específico: como a arte de rua virou um movimento graças à internet. Grafites e pichações são perecíveis por natureza, mas, graças à rede, foi possível que toda uma geração de artistas se conectasse e se percebesse como parte de uma cena global. Cena que, graças à rede, tem um grande nome mundial – o próprio Banksy. Mesmo que ninguém saiba quem ele é.

Dylan explica
“No futuro, as buscas serão automáticas”

Nesta semana, o Google apresentou mais uma novidade: não é preciso mais terminar de digitar o que se busca para ver os resultados procurados. Eric Schmidt, CEO da empresa, aposta que, em pouco tempo, “as buscas serão automáticas”. O site fez um vídeo, remixando o clássico Subterranean Homesick Blues, para explicar o funcionamento do Google Instant, nome do novo sistema. Busque por “Dylan”, “Google” e “Instant” no YouTube.

O Rio Fanzine desmaterializou-se de vez nessa sexta-feira, deixando a galáxia de Gutemberg para tornar-se mero espectrograma no ciberespaço, como este que vos fala. Página central no caderno de cultura de domingo do jornal O Globo, o Rio Fanzine ocupou, desde sua criação, o pódio privilegiado de reunir todas as manifestações de cultura alternativa que cresciam ao redor do jovem pop brasileiro, que ainda usava bermudas nos anos 80. Pilotada pelos bróderes Tom Leão e Carlos Albuquerque, o Calbuque, a coluna era global e local em uma mesma tacada e a dupla trazia temperos diferentes para o jornalismo cultural da época, buscando novidades nas bandas locais e em tendências globais. Eles falam do ciclo que fecharam ao sair do papel depois de 24 anos no texto de despedida:

Quando o Rio Fanzine nasceu — sob as bênçãos da rainha Ana Maria Bahiana e os posteriores cuidados de dois dos seus súditos — a informação sobre cultura na chamada grande imprensa era reta e vinha do alto para baixo. Era natural que fosse assim. Cultura alternativa, então, nem se falava dela, salvo as pioneiras colunas de Big Boy e Nélson Motta, aqui no GLOBO.

Mas os tempos, eles já estavam mudando. O primeiro Rock in Rio tinha gerado euforia e inquietação. Os ecos punk também podiam ser ouvidos, apesar da distorção. Todo mundo queria fazer alguma coisa — formar uma banda, fazer uma festa, montar um festival, criar uma rádio de rock e até mesmo inserir um fanzine dentro das páginas de cultura de um grande jornal. A terra estava se movendo: era o underground em ebulição. Restava fazer a nossa parte, a nossa obrigação: divulgar isso.

O Rio Fanzine começou a servir, então, como duto de passagem para essa pressão. E que pressão! Tínhamos que falar de novas bandas, novas festas, novos festivais, novas rádios, novos sons e novas tendências, que nenhum assessor ou divulgador faria chegar à redação.

E assim foi. Descobrimos Planet Hemp, Skank, O Rappa, Ed Motta, Los Hermanos e Canastra, entre muitos, mas muuuitos outros. Falamos de discos, livros, filmes e quadrinhos que ninguém estava prestando atenção, numa época em que o “New Musical Express” só era encontrado em algumas poucas bancas da cidade. Detectamos (e condenamos) a presença dos pitboys na noite carioca. Abraçamos a eletrônica nos seus primórdios, mergulhamos na onda grunge, dançamos com os primeiros raps e viajamos com o dub. Falamos até que o futuro da música seria através de uma novidade chamada internet. E acreditávamos, piamente, que nosso dever, se havia algum, era tornar o underground maior.

Dito e feito. Hoje aquele underground do Rio Fanzine está por cima, está em toda a parte.

Particularmente, a coluna tem um significado especial para mim. O Trabalho Sujo, como já disse, não começou online e como o Rio Fanzine, também foi uma coluna de papel num jornal – no caso, o Diário do Povo, de Campinas, onde morei entre 1993 e 2000. Mas em 1995 eu não tinha idéia do que acontecia no jornalismo do Rio de Janeiro – O Globo raramente chegava à redação e quando isso ocorria ia para a mesa do editor-chefe. Criei o Sujo sem referência externa direta, embora tenha conseguido provar sua existência para meus superiores do jornal a partir dos cadernos Zap!, do Estadão, e do Folhateen, ambos voltados para o público adolescente. Mas o meu conceito de coluna não era etário e visava cobrir diferentes focos de uma cultura que eu via aparecendo por todos os lados.

E nessa época nem existia internet direito.

Qual foi a minha surpresa depois de alguns anos publicando o Trabalho Sujo na contracapa do caderno de cultura de segunda-feira em Campinas quando eu descubro que o Rio de Janeiro tem o seu próprio Trabalho Sujo – e que ele é dez anos mais velho que o meu. A empatia foi imediata e a conexão, literal. Na medida em que a internet se popularizava, estreitavam-se os contatos entre pessoas de mesma mentalidade e aos poucos estava trocando emails não apenas com Tom e Calbuque mas também com outros desbravadores do pop nos jornais de suas cidades (Thaís e Weaver no Pub em Fortaleza, o Abonico no Fun em Curitiba, o Ferla em Porto Alegre, Ricardo Alexandre e Tomate no Zap em São Paulo, entre outros), criando uma rede que funcionava como ponto de contato entre a cultura independente e a mainstream (o tal “trabalho sujo” que batizou este site). Logo logo eu não apenas estava publicando nas páginas do RF como passava na banca do Carmo, todo domingo, para garantir meu exemplar do Globo e acompanhar o trabalho dos caras. E, sem perceber, transformei o Trabalho Sujo numa página dupla do caderno de cultura de domingo – igualzinho ao Globo. Com algumas diferenças: eu mesmo diagramava tudo e o Sujo era preto e branco. Mas tínhamos alma de zineiro mesmo trabalhando em redações e eu inclusive fui creditado algumas vezes no RF como editor de um fanzine virtual (que era apenas a versão online da coluna no jornal).

Cabe até uma discussão sobre se o fim do Rio Fanzine tem a ver com o crescimento e popularização da internet, mas ela acaba descambando naquele velho caô sobre o futuro do jornalismo, o que vai acontecer com o jornal no papel, como os jovens se informam, quem é o público de cultura, o que é cultura, como é consumida a cultura hoje – tudo isso me dá uma enorme preguiça só de pensar… Queria só prestar minhas homenagens à dupla, um agradecimento público pelos serviços que os dois se dispuseram a fazer por todo esse tempo e um salve a todos que lamentam o fim da coluna, cariocas ou não: foi bom enquanto durou e que bom que os dois tiveram a consciência de fechar o próprio ciclo.

Não resisti e resgatei umas edições velhas do Trabalho Sujo impresso, tirei umas fotos e redimensionei pra colocar aqui no site. As fotos estão com cores diferentes não por conta da idade do papel, mas porque parte delas eu fiz de dia (as mais brancas) e a outra de noite (as amareladas). Dá uma sacada como era…


Nesta edição, dois segundos discos: o do Planet Hemp e o do Supergrass.


Nesta eu falei do Panthalassa, disco de remix que o Bill Laswell fez com a obra de Miles Davis, o segundo disco do Garbage, entrevista com Virgulóides, disco de caridade organizado pelo Neil Young e uma explicação sobre um novo gênero chamado… big beat.


Entrevistei os três integrantes do Fellini (Jair, Thomas e Cadão) para contar a história da banda, numa época em que eles nem pensavam em voltar de verdade (depois disso, eles já voltaram e terminaram a bandas umas três vezes). Também tem a história do Black Sabbath, uma entrevista que eu fiz com o Afrika Bambaataa e o comentário sobre a demo de uma banda nova que tinha surgido no Rio, chamada Autoramas.


Disco de remix do Blur, disco póstumo do 2Pac, Curve e entrevista com Paula Toller.


Discos novos da Björk, dos Stones, do Faith No More e do Brian Eno.


Discos novos do Wilco (Summerteeth), Mestre Ambrósio, coletâneas de música eletrônica (da Ninja Tune, da Wall of Sound – só… big beat – e de disco music francesa), resenha da demo da banda campineira Astromato e entrevista com o Rumbora.


Resenha do Fantasma, do Cornelius, do Long Beach Dub All-Stars (o resto do Sublime), do Ringo e do show dos Smashing Pumpkins em São Paulo, com a entrevista que fiz com a D’Arcy.


Vanishing Point do Primal Scream, disco-tributo ao Keroauc, Coolio e a separação dos irmãos da Cavalera.


Reedição do Loaded do Velvet Underground, Being There do Wilco e o show em tributo á causa tibetana.


Especial Bob Dylan, sobre a fase elétrica do sujeito no meio dos anos 60, com direito à entrevista com o Dylan na época, que consegui através da gravadora e um texto de Marcelo Nova escrito especialmente para o Sujo: Quem é Bob Dylan?


30 anos de Sgt. Pepper’s e o boato da morte de Paul McCartney.


Terror Twilight do Pavement, Wiseguys (big beat!), o disco de dub do Cidade Negra (sério, rolou isso), a demo do 4-Track Valsa (da Cecilia Giannetti) e entrevista com o Rodrigo do Grenade.


Pulp, Nação Zumbi, Ian Brown e Seahorses, uma coletânea de clipes ingleses e entrevista com Roger Eno, irmão do Brian.


30 anos de Álbum Branco, show do Man or Astroman? no Brasil, primeiro disco do Asian Dub Foundation, entrevista com a Isabel do Drugstore e demo do Crush Hi-Fi, de Piracicaba.


Os melhores discos de 1997: 1 – OK Computer, 2 – Vanishing Point, 3 – When I Was Born for the 7th Time, 4 – Homogenic, 5 – O Dia em que Faremos Contato, 6 – Dig Your Own Hole, 7 – Sobrevivendo no Inferno, 8 – I Can Hear the Heart Beating as One, 9 – Dig Me Out, 10 – Brighten the Corners… e por aí seguia.


20 anos de Paul’s Boutique, do Beastie Boys, disco do Moby, demo do Gasolines e entrevista com Humberto Gessinger.


Rancid, Superchunk e entrevista com o Mac McCaughan (do Superchunk), Deftones e Farofa Carioca (a banda do Seu Jorge).


Simpsons lançando disco e a lista dos 50 melhores do pop segundo Matt Groening, segundo disco do Dr. Dre, entrevista com Júpiter Maçã que então lançava seu primeiro disco.


A coletânea Nuggets virou uma caixa da Rhino, a cena hip hop brasileira depois de Sobrevivendo no Inferno, disco dos Walverdes e entrevista com Henry Rollins.


Sleater-Kinney, Fun Lovin’ Criminals, Little Quail, demo do MQN e entrevista com o Mark Jones, da gravadora Wall of Sound (o lar do… big beat).


25 anos de Berlin do Lou Reed, disco novo do Pin Ups, disco do Money Mark e entrevista com Chuck D, que estava lançando um livro na época.


Especial soul: a história da Motown e da Stax (lembre-se que não existia Wikipedia na época) e caixas de CDs do Al Green e da Aretha Franklin.


Retrospectiva 1998: comemorando um ano que trouxe artistas novos para a década…


…e os melhores discos de 1998: 1 – Hello Nasty, 2 – Mezzanine, 3 – Fantasma, 4 – Jurassic 5 EP, 5 – Carnaval na Obra, 6 – Deserter’s Songs, 7 – This is Hardcore, 8 – Mutations, 9 – The Miseducation of Lauryn Hill, 10 – Samba pra Burro. Em minha defesa: só fui ouvir o In the Aeroplane Over the Sea em 1999. Não tente entender visualmente, era um método muito complexo de classificação dos discos, um dia eu escaneio e mostro direito.


Beastie Boys, Scott Weiland e Boi Mamão.


A história do Kraftwerk (que vinha fazer seu primeiro show no Brasil), o acústico dos Titãs, Propellerheads (big beat!) e entrevista com Ian Brown.


Segundo disco do Black Grape, coletânea de 10 anos da Matador e entrevista com o dono da gravadora, Gerard Cosloy.


A carreira de Yoko Ono, disco novo do Ween, coletânea de Bauhaus, John Mayall e Steve Ray Vaughan e a trilha sonora de O Santo (cheia de… big beat).


Stereolab, Racionais, Metallica e 3rd Eye Blind (?!).


Disco de remixes do Primal Scream, caixa do Jam, entrevista com DJ Hum, Sugar Ray e disco solo do James Iha.


Cornershop, show à causa tibetana vira disco, Bob Dylan, Jane’s Addiction, Verve e entrevista com Lenine.


Disco de remixes do Cornelius, Sebadoh, Los Djangos, Silver Jews, entrevista com o Lariú e demo do Los Hermanos.


Disco de remixes da Björk e o novo do Guided by Voices.


Disco novo do Sonic Youth, reedição dos discos do Pussy Galore e entrevista com Edgard Scandurra.


Cobertura dos shows do Superchunk no Brasil, Pólux (a banda que reunia a Bianca ex-Leela que hoje é do Brollies & Apples e a Maryeva Madame Mim), Prince e Maxwell, coletânea da Atlantic e entrevista com os Ostras.


…e na cobertura dos shows do Superchunk eu ainda consegui que a banda segurasse o nome do Trabalho Sujo para servir de logo na página.

Editei o Sujo impresso entre 1995 e 2000. Durante esse período, ele teve vários formatos. Começou como uma coluna na contracapa do caderno de cultura de segunda e em 1996 virou uma coluna bissemanal ocupando 1/6 da página 2 do mesmo caderno. No mesmo ano, voltou a ter uma página inteira, nas edições de sábado e entre 1997 e 1999 ocupou a central do caderno de domingo. Neste último ano, voltou a ter apenas uma página, nas edições de sábado. Na época em que eu fazia o Sujo impresso, eu era editor de arte do Diário do Povo e, por este motivo, participei da criação do site do jornal em 1996 – e garanti que o Sujo tivesse uma versão online desde seu segundo ano. Foi o suficiente para que ele começasse a ser lido fora de Campinas (onde já tinha um pequeno séquito de leitores, que compravam o Diário apenas para ler a coluna) e ganhasse algum princípio de moral online, que carrego até hoje.

Na época, eu dividia o gostinho de fazer a coluna com dois outros compadres – o Serjão, que era editor de fotografia do jornal e que hoje está no Agora SP, e o Roni, um dos melhores ilustradores que conheço. Os dois são amigos com quem lamento não manter contato firme, mas são daquelas pessoas que, se encontro amanhã, parece que não vi desde ontem. Juntos, éramos uma minirredação dentro da redação – tínhamos reunião de pauta, discussões sobre o layout da página e trocávamos comentários sobre os discos que eu trazia para resenhar. No fim, eu fazia tudo sozinho na página (como faço até hoje), da decisão sobre o que entra ao texto, passando pela diagramação. Sérgio e Roni entravam com fotos e ilustras, mas, principalmente, com o feedback pra eu saber se não estava viajando demais ou de menos. Nós também começamos a discotecar juntos, mais um quarto compadre, o William, e, em 97, inauguramos o Quarteto Funkástico apenas para tocar black music e groovezeiras ilimitadas, em CD ou em vinil. Não era só eu quem escrevia no Sujo (eu sempre convidava conhecidos, amigos e alguns figurões), mas Roni e Serjão, por menos que tenham escrito, fizeram muito mais parte dessa história do que qualquer um que tenha escrito algo com mais de cinco palavras.

No ano 2000 eu fui chamado pelo editor-chefe do jornal concorrente, o Correio Popular, maior jornal de Campinas, para editar seu caderno de cultura, o Caderno C, cargo que ocupei durante um ano, antes de me mudar para São Paulo. Neste ano, para evitar confusões entre os dois jornais sobre quem era o dono da coluna (e não correr o risco de assistir a alguém depredar o nome que criei no jornal que comecei a trabalhar), decidi tirar o Sujo do papel e deixá-lo apenas online. Criei minha página no Geocities para despejar os textos que publicava em outra coluna dominical, no novo jornal, chamada Termômetro. Mas, online, seguia o Trabalho Sujo -até que, do Geocities fui para o Gardenal, e isso é ooooutra história.

Um dia eu organizo tudo bonitinho, isso é só pra fazer uma graça – e matar a minha saudade.

Achei outros textos que fiz para o Rio Fanzine, mas no HD. Todos saíram na versão impressa (já no formato mais recente, dentro do guia de programação do jornal, o Rio Show), mas eu não as achei por aqui, por isso seguem apenas os textos. O primeiro é uma entrevista com fiz em 2002 com o Howard Sounes, biógrafo de Bob Dylan. Tentei achar o link no site do jornal mas não achei, por isso não lembro o título com que essa matéria saiu nem a data precisa de quando foi publicada.

Dylan sem máscara

“Se ele não quisesse ser famoso, viveria em um chalé em Woodstock escrevendo músicas pros outros cantarem e ninguém se interessaria por ele”. Sucinto, o pesquisador e escritor inglês Howard Sounes explica a vaidade do biografado de seu último livro. Em Dylan – A Biografia (Conrad Livros), Sounes tira a máscara do velho Bob em busca de uma só pessoa – o autor e compositor épico, que marcou toda uma geração com suas canções, e o sujeito que maquinava friamente formas de se dar bem e fazer sucesso.

Este é o maior trunfo do livro – mostrar que ambos personagens são a mesma pessoa. Disposto a desmitificar o personagem que o cantor criou para se manter no topo, Sounes mostra um Dylan mais humano e menos utópico. “Hank Williams, Woody Guthrie, Jack Kerouac, James Dean”, lista o escritor, “estes eram os heróis e modelos seguidos por Dylan desde começo, em atitude e estilo. Mais do que todos, ele se moldou em Woody Guthrie, claro. Há muito sobre isto no livro, com comentários dos filhos de Woody, Nora e Arlo”.

“Não”, responde secamente ao perguntado se sente alguma culpa por desmascarar o mito Dylan para uma geração de leitores. Os fanáticos pelo bardo dividiram-se: “Uns gostaram, outros não. Mesmo assim, fico pasmo com a forma descuidada que estas pessoas leram e como eles entendem as coisas errado”.

Dylan, obcecado pela própria imagem, criou uma série de mitos para tornar-se mais misterioso e isolado. “Havia muito material para se trabalhar”, conta Sounes, “como o que realmente aconteceu no meio dos anos 60, quando sofreu seu famoso acidente de motocicleta e a história extraordinariamente opaca e complexa de sua vida pessoal e familiar”.

Sounes traça um paralelo entre os dois protagonistas de seus últimos livros, Dylan e o escritor Charles Bukowski. “Bukowski e Dylan são poetas marginais, na mesma forma que os beats e Rimbaud também eram marginais. Há um elemento poético e intelectual em comum. Interessante é o fato que ambos tem amigos em comum – os escritores beat, o ator Harry Dean Stanton e outras pessoas do cinema, por exemplo. Um dos filhos de Dylan conheceu Bukowski. Muitos dos músicos que trabalharam com Dylan gostam de Bukowski. Alguns, como T-Bone Burnett, até leram o meu livro”.

“Contudo, as diferenças entre Bukowski e Dylan são maiores que os fatores que têm em comum”, continua. “Pelo que eu me lembro, Bukowski não pensava muito no trabalho de Dylan e nunca ouvi falar o que Dylan pensa dos textos de Bukowski – apesar de ter certeza que ele o leu, como seus filhos. Bukowski era, no fim, um poeta relativamente marginal que passou a maior parte da vida na obscuridade e Bob Dylan é uma celebridade internacional de primeira grandeza desde quando era jovem. Eles vêm de gerações e classes diferentes. E, mais importante, um é um artista, um cantor enquanto o outro escrevia em particular para um público que nunca conheceu (sei que Bukowski fez leituras em público no fim da vida, mas ele odiava fazê-lo e não era seu trabalho, como era o de Dylan). Pessoalmente, parte das razões que eu escolhi escrever sobre Bukowski e Dylan é que eles são muito diferentes”.

Voltando ao assunto principal, o autor fala dos momentos-chave da carreira de Dylan: “Eu acho que são seus primeiros trabalhos acústicos, por volta de 62 e 63, seguido por seus discos elétricos: Highway 61, Blonde on Blonde. E depois Blood on the Tracks e, no final, Time Out of Mind. Aquele período de Woodstock também foi rico, as Basement Tapes, etc… Esta foi a época em que ele escreveu suas melhores canções. Provavelmente 65 e 66 foi a época mais forte. No livro, tento focalizar nestes períodos criativos. Assim, épocas menos interessantes de sua carreira, merecem menos atenção. Por isso, a narrativa vai devagar ou acelera à medida que Dylan faz bons discos”.

E qual sua canção favorita de Bob Dylan? “”Buckets of Rain”, do disco Blood on the Tracks”.

Essa do Yo La Tengo saiu no ano 2000.

Um triângulo equilátero de não-rock

Simplicidade instrumental, sensibilidade artística e bom senso pop são as armas do Yo La Tengo

Eles não têm refrões memoráveis. Nem pirotecnia no show. Não esbanjam estilo, não vendem milhões de disco. Não há nada no grupo que possa ser chamado de músico virtuoso, símbolo sexual, salvador do rock ou mau exemplo para as futuras gerações. Então o que raios há de tão bom neste tal Yo La Tengo?

Deixe as nuvens de desenho animado feitas pela voz sussurrada da baterista Georgia Hubley te responderem. Ou o acúmulo de microfonia nova-iorquina forma nas paredes de ruído da guitarra de Ira Kaplan te explicar. Ou aquele teclado fora de moda, tocado em apenas duas teclas; sublinhado pela velha e insistente bateria, acompanhado por um vocal que tomba entre o pesar e o sono. O casal de Hoboken (terra de gente que sabe o que é bom, como Sinatra e os Feelies) e o rotundo guitarrista James McNew formam a mais improvável banda de rock de todos os tempos. Um trio cuja simplicidade instrumental casa com a sensibilidade artística e o bom senso pop, mesmo que nada os classifique como tal: não há riffs, refrões, solos, rima e métricas são menosprezadas – no máximo conseguimos tirar o groove.

O pacote lançado pela Trama cobre quase toda a farta discografia do grupo, cujas origens remontam ao meio dos anos 80, quando eram simples mas esforçados emuladores do Velvet Underground (ouça a estréia Ride the Fader, o mais velho da leva). A dupla de álbuns que o seguiu (New Wave Hot Dogs e President Yo La Tengo) ensinou ao grupo o macete do crescendo motorizado bolado pelo krautrock, abusado à vontade a partir deles. O brasilização do Yo La Tengo pula dois discos (o só de covers Fakebook e o quase escocês May I Sing With Me?) e reencontra-se em Painful, que oficializa a entrada de McNew, tornando o triângulo instrumental do grupo de isósceles a equilátero.

E é com tal pé direito que entram em sua melhor e mais celebrada fase, começada com o magistral Electr-O-Pura e seguido pelos igualmente irresistíveis I Can Hear the Heart Beating as One e And Then Nothing Turned Itself Inside-Out (lançado este ano). Entre os dois discos ainda houve espaço para o álbum duplo de sobras Genius + Love = Yo La Tengo, com versões para Wire, John Cale, Jackson Browne, Beat Happening e uma excelente versão surf de Blitzkrieg Bop, dos Ramones. A coletânea é uma boa porta de entrada para o lado B do grupo, onde encontramos EPs, mini-álbuns e maxi-singles cheios de raridades, versões bizarras, instrumentais e remixes. Mas pedir para esses discos sair no Brasil é demais – ou não? Se não for, seguem as dicas: Strange But True, com o Half Japanese Jad Fair, o EP Little Honda, os remixes de Autumm Sweater (MBVmaníacos já sabem do remix de Kevin Shields, né?) e o recente Danelectro. Boas línguas dizem que o grupo vem aí no começo de 2001 pro Brasil. Mas é preciso ver e ouvir para crer – não custa, no entanto, torcer.

Essa entrevista com o Paul Banks eu fiz em 2003:

Etéreo e abrupto

Como grande parte da dita “volta do rock” atual é baseada na regurgitação retrô de elementos do passado recente do gênero (especificamente o período 1979-1982), parece ser difícil resistir à tentação de rotular o Interpol como “o novo Joy Division”. Preguiça, má vontade ou falta de informação: basta ouvir o recente Turn On the Bright Lights e perceber que, fora o timbre grave do vocalista Paul Banks e o ímpeto trôpego da banda quando engata a terceira, há muito mais do que o fantasma de Ian Curtis assombrando as ondas musicais do grupo nova-iorquino.

“Crescemos ouvindo este tipo de música, no meio dos anos 80”, explica Paul, pelo telefone, em meio à parte final da turnê americana de lançamento do grupo, que começou no fim do ano passado. “Por isso é natural que ela reapareça agora. O público que consome este tipo de música hoje é o mesmo que consumia na época – a diferença é que hoje há ouvintes mais novos, que estão sendo apresentados agora a este tipo de som”. Mas além do Joy Division, é possível ouvir todo um séquito de bandas pós-punk que pavimentou o caminho para o grupo. Pelas faixas do disco, que se equilibra entre o etéreo e o abrupto, passeiam timbres e andamentos de nomes como Wire, Cure, U2 no começo, Echo & the Bunnymen, Buzzcocks. O próprio estigma de vestuário – o Interpol se veste com ternos escuros bem cortados – parece vir destes grupos, embora Paul desconverse: “Apenas gostamos de nos vestir bem”.

Além de suas raízes musicais inglesas, a banda ainda bebe na fonte do noise escocês: há My Bloody Valentine e Jesus & Mary Chain nas entrelinhas do jogo de guitarras do grupo, um senso pop digno do Teenage Fanclub em dias de ressaca e não é por acaso que um de seus três primeiros EPs foi lançado pela Chemikal Underground, a mesma gravadora do Mogwai. E embora a influência britânica seja decisiva, o DNA do grupo é o mesmo do típico popstar indie da Costa Leste americana – e o fato de serem artistas da Matador não deixa dúvidas quanto a isso.

“Não posso reclamar”, Banks fala do recente assédio que a banda vem sofrido desde o lançamento americano do primeiro álbum, em setembro do ano passado, “há um ano eu estava num emprego que eu não gostava, num café, e escrevia de graça para revistas de conhecidos. Parece engraçado que todo mundo resolva te reconhecer ao mesmo tempo, porque as pessoas tendem a falar sobre os mesmos assuntos. Mas isso é bom – do mesmo jeito que os Strokes abriram caminho para que as pessoas procurassem novas bandas, como nós, acredito que abriremos caminho para outras bandas”.

Mesmo sem uma posição definida sobre a troca de arquivos de músicas pela internet, Paul concorda que o sucesso do Interpol aconteceu devido aos programas P2P e músicas em MP3. “É claro que é um péssimo negócio para quem investe muito dinheiro em publicidade, campanhas de mídia e outras estratégias de mercado. Como trabalhamos em outro nível, não nos afeta tanto – muitas pessoas compram nossos discos após nos ouvir em MP3. Se não fosse o MP3, talvez ele não nos ouviria. Ou copiaria o disco de um amigo, como fazíamos há vinte anos, com fitas cassete. Como as tendências musicais, as de mercado tendem a ser muito cíclicas. Mas os executivos de gravadora acham que conseguem parar isto com dinheiro. E não dá”.

Preparando-se para enfrentar nova bateria de shows pela Europa, Paul dedica as horas fora do palco à audição de discos de outras bandas de Nova York. “Adoro os Warlocks, tocamos em uma turnê com eles, o disco novo do Walkmen é excelente e o do Coup, de hip hop, é outro que não paro de ouvir. Mas quase sempre retorno para o melhor disco de todos os tempos, Teenager of the Year, do Frank Black. Aquilo sim, é perfeito”.

Na minha coluna no Caderno 2 de domingo falei com o Chromeo, que esteve aqui durante a semana.

A solução do Chromeo
Marcas no lugar de gravadoras

“Eu acho que isso vai acontecer esta semana…”, sussurra, cabisbaixo, David Macklovitch, depois que eu perguntei sobre o vazamento online de seu novo disco. O vocalista canadense é a metade nerd da dupla Chromeo, que veio ao Brasil esta semana para um evento promocional, e o grupo é um dos inúmeros artistas que, graças à internet, conseguiu seu lugar ao sol. Às vésperas de lançar seu segundo álbum, batizado de Business Casual, a dupla, no entanto, teme o vazamento do disco na internet antes de seu lançamento. Contradição?

“Nada disso, nós somos totalmente pró-internet e a favor da música livre”, explica David, que, além de se apresentar como Dave 1 na dupla, também dá aula de literatura francesa na Universidade Columbia, nos EUA. “É só uma questão de criar um ‘momentum’, de reunir todas as expectativas em relação ao disco na mesma hora. Para ser uma espécie de um evento. Depois que o disco sair, tudo bem, pode comprar no iTunes, o CD ou mesmo baixar de graça. Eu não ligo. Mesmo. Pois obviamente não vamos ganhar dinheiro vendendo discos.”

A dupla, formada por Dave e Patrick Gemayel (que assina como P-Thugg), existe desde 2004, mas só começou a fazer sucesso em 2006, com o disco Fancy Footwork. Era o auge do MySpace e início do crescimento do Hype Machine (“a nossa Billboard”, explica Dave, comparando o agregador de blogs de MP3 à revista oficial da indústria fonográfica). Agora, estabelecidos, buscam alternativas para continuar sem gravadora.

Dave acredita que, para bandas de pequeno porte, como é o caso do Chromeo, a saída é fazer parceiras com marcas. Ele cita o caso da música que lançaram no final de 2009, Night by Night. Emvez de simplesmente gravar e lançar online, a dupla preferiu transformar a nova música, como eles mesmos dizem, num “momentum”. Para isso, orçaram um clipe caro e buscaram um parceiro para bancar tudo, no caso, uma marca de refrigerantes.

“Fizemos um clipe caro, de orçamento alto, e demos de graça para os fãs. Ao mesmo tempo, tudo foi feito do jeito que queríamos. Você não vê a gente dizendo que amarca é legal ou usando o produto. E, no fim, todos saem ganhando: a gente, que tem controle criativo sobre o que fazemos; amarca, que oferece algo legal para seu público; e, claro, os fãs”, continua Dave, “isso seria impossível numa grande gravadora”. E, mesmo assim, eles têm de ouvir que são uma banda “vendida”.

“A outra opção é assinar o novo contrato que as gravadores estão oferecendo, em que eles controlam sua turnê, seu merchandising, os direitos da sua música… Quem émais vendido? Quem pode fazer o que quiser com o dinheiro de uma marca ou quem vende tudo que faz para uma gravadora ganhar todo o dinheiro?”

E o assunto da minha coluna no 2 desta semana foram os hipsters.

A vitória dos nerds
Quem são estes tais hipsters

Há duas semanas, Heloisa Lupinacci, que edita o caderno Link comigo e também assina a Crítica de Segunda do blog de Moda do Estado, me perguntou: “Matias, o que diferencia um indie de um hipster?” Ela havia escolhido esta tribo urbana como tema de sua coluna semanal e, com o cuidado que lhe é peculiar, tentava descrevê-la com referências mais conhecidas em vez de tentar partir para o rótulo puro e simples.

“Hipsters”, para quem não está habituado ao termo, define um novo tipo de personalidade urbana, atenta às novidades que vão da moda à música e novidades digitais.

O termo tem origens no meio do século passado e não constituía uma tribo – era um adjetivo para designar que determinada pessoa estava atenta a novas tendências de comportamento e cultura. Surgiu, nos EUA, mais ou menos à mesma época em que o termo “cool” deixou de significar apenas “gelado” para virar sinônimo de “legal”.

O hipster dos anos 10 não é só alguém atento às tendências em geral – mas a todas as tendências. Discos de vinil, tumblrs, câmeras fotográficas Lomo, máquinas de escrever, aplicativos para o iPhone e roupas de brechó. E, como a Helô definiu logo depois da nossa conversa, “hispter que é hipster não se leva muito a sério”.

Mas olhe para eles – procure pelo termo no Google Images, caso não esteja habituado. Eles evocam os beats, os hippies, a discoteca, o indie rock e a cultura techno – mas por baixo das franjas, dos óculos coloridos, dos cabelos compridos, bandanas e maletas, há outra tribo urbana, tão conhecida quanto as anteriores, mas raramente citada quando se fala em hipsters: os nerds.

No filme de 1984 que os consagrou como tribo (A Vingança dos Nerds, de Jeff Kanew), alguns alunos rejeitados por todos na universidade devido à sua inaptidão social começam a andar juntos e formam um grupo. “Nerd”, originalmente um xingamento, torna-se rótulo e, finalmente, motivo de orgulho, quando os integrantes da fraternidade Lambda-Lambda-Lambda conseguem dar o troco nos playboys arrumadinhos que os infernizam. No final do filme, vencem felizes, assumem suas personalidades sem medo da opinião dos outros e cantam We Are the Champions, do Queen.

Veja a foto acima, quando, no final do filme, os nerds podem ser quem realmente querem. Agora compare às fotos de bandas como Animal Collective e MGMT, ícones hipsters, e chegue à mesma conclusão que tive: os hipsters consagram o momento atual, em que ser nerd é ser cool.

O hit do verão 2011
http://www.myspace.com/ceelogreen. Cee-Lo Green conseguiu de novo. O rapper, que, com o produtor Dangermouse forma a dupla Gnarls Barkley (autora de um dos hits do século, Crazy), acaba de lançar o provável hit do fim do ano. Fuck You é perfeita – ouça-a.

E na coluna do 2 do domingo passado, eu contei a história do Daft Punk para falar da importância deles pra trilha do Tron.

A volta dos robôs
Daft Punk e a trilha de Tron

Um dos filmes mais esperados do ano vem sendo aguardado também por sua trilha sonora. Tron: O Legado é a continuação do filme que, em 1982, apresentou o universo digital para toda uma geração que se encantava, pela primeira vez na história, com computadores pessoais e videogames, itens que não existiam até então. Tron não apenas cativou esta primeira geração digital como facilitou a vida de quem não conseguia entender como uma rede de computadores interligados entre si funcionava e para que ela servia.

Mas, por mais que o novo filme esteja sendo aguardado, um dos grandes nomes da produção nem sequer aparece no filme. A dupla francesa Daft Punk é um dos principais nomes da música do século 21 e seu visual robótico e retrô se encaixava perfeitamente no imaginário de Tron. Tanto que o anúncio de que os dois seriam os responsáveis pela trilha de O Legado, feito em março do ano passado, foi recebido com festa até por quem não estava esperando nada do novo filme.

A trilha de Tron tem tudo a ver com a trajetória do Daft Punk. A dupla surgiu no fim dos anos 90 junto de uma nova onda de artistas franceses, mas logo ganhou notoriedade graças ao fato de ir além da música. Primeiro com clipes e depois com filmes inteiros – seu segundo disco, Discovery, foi feito para funcionar como trilha sonora de um anime japonês feito especialmente para a dupla (e por um mestre desta arte, Leiji Matsumoto). Depois, eles mesmos se dispuseram a dirigir um filme: Eletroma, um road movie etéreo sobre uma cidade de robôs.

Com a trilha de Tron eles voltam ao cinema – e a pressa por novidades, típica da internet, fez que algumas versões da trilha vazassem antes de seu lançamento. Todas, sem exceção, falsas e desmentidas pela própria dupla, que, apesar de prezar pelo anonimato (seus rostos estão sempre ocultos por máscaras de robô), é bem enfática em relação ao que lançam. Contudo, as faixas falsas continuam saindo – e encontraram até fãs. Mas os dois garantem que a trilha sonora só será ouvida quando o filme for lançado, no fim do ano. Difícil é saber como eles vão conter o vazamento destas, tão típico desta era digital.

Do pop ao prog
Sigur Rós e Justin Bieber: tem a ver?

O DJ norte-americano Nick Pittsinger, que assina como Shamantis, fez uma experiência com a música U Smile do ídolo teen Justin Bieber e a deixou oito vezes mais lenta. Qual foi a sua surpresa ao descobrir que agora, com 35 minutos de duração, a faixa ficou parecida com as músicas intermináveis do grupo prog indie islandês Sigur Rós. Até os fãs desta banda concordam. Para ouvir, visite o site soundcloud.com/shamantis.

Minha coluna no 2 de ontem foi sobre o tal DJ Cremoso

A maionese do brega
Quem será o misterioso DJ Cremoso?

Você conhece a música. Mas há algo diferente nela, desde o andamento até os timbres usados na parte instrumental. O vocal é o mesmo da música original, mas, independentemente de ser rock, dance ou simplesmente pop, ela ganha uma batida dançante que fica entre uma espécie de levada caribenha e um suingue eletrônico tosco, de baixa tecnologia. Assim são os remixes do misterioso DJ Cremoso, que, desde o início do ano, vem adaptando hits internacionais para o balanço chinfrim do tecnobrega.

Tecno… o quê? O tecnobrega é um gênero musical que surgiu a partir do brega do Pará – que é bem diferente da música cafona de nomes como Odair José ou Waldick Soriano. No Norte do Brasil, essa música brega não teve vergonha de assumir seu nome e virou um estilo musical próprio, levando canções românticas para multidões paraenses.

Do brega veio o tecnobrega, versão eletrônica simplificada do gênero original, que levou aquela lógica para uma nova geração. Nele, a banda era substituída por um DJ e os shows ganhavam ares de rave, com efeitos especiais grandiosos e catarse coletiva incessante. O gênero ganhou notoriedade antes do tempo não por suas qualidades musicais (ainda incipientes), mas por se basear em um modelo de negócios “revolucionário”. Seus artistas não vendiam discos, mas os davam de graça para os camelôs piratearem por conta própria e vender sem repassar o lucro para os autores, que ganhavam dinheiro fazendo shows. A “revolução” vem entre aspas porque o modelo não é autossutentável, como prega o maior entusiasta do gênero tecnobrega no mundo, Chris Anderson, editor da revista sobre cultura digital norte-americana Wired. Mas isso é outra história.

Eis que surgiu Cremoso, que preferiu manter-se no anonimato e usou a internet para divulgar seus remixes. Usando a base eletrônica e todo o auê em torno do tecnobrega para remixar nomes como Lady Gaga, R.E.M., Nirvana, Amy Winehouse, Michael Jackson e Britney Spears (sirva-se à vontade da “maionese do brega”, como ele se autointitula no site soundcloud.com/djcremoso). E o mistério sobre sua identidade segue intacto. Mas, a essa altura do campeonato, isso importa?