Ornette Coleman
27 e 28 de novembro de 2010
Sesc Pinheiros @ São Paulo
Nunca fui do jazz. Nasci entre os anos 60 e os 80, época em que o gênero degringolou para algo próximo do rótulo MPB no Brasil – aquela cerca feita para separar os adultos dos adolescentes – e, naturalmente, desandou para a chatice virtuose. Ao mesmo tempo, comecei a gostar de música numa época em que o rock havia se estabelecido comercialmente e a música pop havia atingido seu estado mais puro e perfeito, Abba, Madonna e Michael Jackson concretizando a profecia de Phil Spector. Fiquei completamente alheio ao jazz (ou “jás” como falavam os emepebistas) em meus anos de formação e só comecei a ouvi-lo com mais atenção graças ao formato digital: primeiro que permitiu o reempacotamento de discos difíceis de serem encontrados em deslumbrantes caixas de CD e depois graças à facilidade de contato com música antes inatingível, via conexões P2P online.
Foi através da rede que comecei a vasculhar os acervos das gravações de Miles Davis, John Coltrane e Charlie Parker, que já me haviam sido apresentados em box sets cheios de informações extras – faixas não utilizadas nos discos originais, fotos raras, textos e mais textos sobre os artistas em questão. E o que era apenas citado ou referido nos encartes – uma capa de disco, um artista citado quase casualmente – podia ser vasculhado online, nos anos em que o Napster ainda era legal (nos dois sentidos).
(Aliás, cabe um pequeno parêntese: quem hoje tem qualquer música de qualquer época do mundo à sua disposição com algumas poucas palavras-chave no Google não imagina como era difícil conhecer música antigamente. Era preciso estabelecer uma rede de contatos no exterior [sem email e com ligações internacionais caras pra cacete], ler míseras publicações sobre o tema [quantas eram as mais importante? Vinte?] que mal chegavam no Brasil ou viajar para o exterior para visitar lojas de discos, que, em outras eras, eram verdadeiros templos de consumo. Lembro do meu deslumbre em minha primeira viagem ao exterior ao encontrar, por exemplo, todos os discos do Velvet Underground relançados em CD, uma banda que, para mim, não passava de uma dezena de fotos, outra dezena de textos e uma fita cassete gravada pelo meu professor de história do segundo ano, o Serginho. Vocês não fazem idéia o que era ter de esperar mais de seis meses para ter alguma noção sobre como realmente soava uma banda cujo hype na Inglaterra ou em Nova York havia acabado de começar.)
E entre os inúmeros downloads que levavam horas para ser realizados (um disco durava o dobro de sua duração, em conexões boas, para ser baixado), um nome surgiu desumanamente sólido em minha frente: Ornette Coleman. Sempre deixava Miles ou Coltrane tocando no fundo de alguma situação que estava acontecendo, mas quando ouvi Something Else!!!! fui abalado fisicamente. Não era só Ornette – todos os músicos (Don Cherry no trompete, Walter Norris no piano, Don Payne no baixo e Billy Higgins na bateria) seguiam rumos particulares no meio da canção, para se reencontrar em uma determinada frase ou refrão, todos juntos, na mesma pegada. Um som tão forte e intenso quanto meus artistas favoritos por sua força e intensidade, mas ao mesmo tempo era elegante, moderno, apurado. E pesado. Não no sentido rock do adjetivo, mas no beatnik… Heavy stuff, man…
Depois que descobri que esse era o primeiro disco de Ornette como líder de uma banda, que ele trabalhava como ascensorista de uma loja de departamentos em Los Angeles e que escolheu músicos que conheceu nas redondezas, quase todos pós-adolescentes, como ele. Antes de saber de qualquer informação sobre o cara, não tive dúvidas: drenei tudo que tivesse a tag Ornette Coleman no meio e, por uns bons seis meses, passava horas e horas ouvindo-o demolir harmonia, melodia e ritmo com uma marreta cubista, liderando bandos de arruaceiros musicais que tocavam o terror em cima de melodias simples e compactas. E era uma audição freestyle: botava-o no shuffle e deixava-o correr pela madrugada, com ou sem fones de ouvido, sem distinguir, época, faixa, disco. Ornette Coleman era um colosso mitológico, cada fonograma de sua obra uma célula de um gigante fantástico, um lutador de boxe em escala bíblica.
Mas não fui com tanta sede ao pote nas duas apresentações de Coleman em São Paulo, no fim de semana. Por um simples motivo – sua idade. Em 2010, o velho Ornette crava seus 80 anos e era esperar demais que se entregasse a dezenas de minutos de demolição sonora no auge de sua vida. O clima nos dois dias era de reverência e ele não vinha apenas da platéia, entregue à grandiosidade da lenda, mas, principalmente, vinha do palco. A própria formação da banda já o colocava num novo patamar: Ornette, dois baixistas e um baterista. Tony Falanga pilotava o baixo acústico, que ganhava solenidade quando, com um arco, o transformava em um cello. Albert MacDowell, no baixo elétrico, também partia para o inesperado, fazendo seu instrumento soar como uma guitarra. Atrás, o filho de Ornette, Denardo, desenfreado, mexia-se sem parar na bateria apenas para soar minimamente em transe, num ritmo quase abstrato de tão quebrado.
À frente, Ornette, velhinho, caminhando devagar, quase sem conversar com o público e cochichando alguma programação no repertório, recostava-se numa banqueta e soprava seu sax – que, como esperado, pouca vezes atingia a intensidade dos velhos discos, levando toda apresentação para uma versão mais calma e mais compacta. Cada solo, por menor que fosse, era uma pequena viagem, um delírio zen, uma meditação palpável. Mas não estou falando em música calma e compacta, e sim destas qualidades associadas à música de Ornette Coleman, sempre imprevisível – a ponto de sacar um trompete ou um violino e continuar, em outro instrumento completamente diferente do seu, o discurso que vinha conduzindo no sax.
Cheguei atrasado no primeiro show e assisti tudo do alto do balcão, na última fila, e, apesar de ver os artistas à distância, manteve o mesmo impacto sonoro do que o show do domingo, que assisti a duas fileiras do palco. Neste, no entanto, aconteceu algo tão inusitado, que elevou a apresentação de culto religioso à pura magia. Ao fim de “Lonely Woman”, no tempo da bateria, cai a energia do teatro do Sesc Pinheiros – e acendem-se, imediatamente, as famigeradas luzes de emergência, atrás do público. Curto silêncio seguido de uma onda de murmúrios e cochichos, perguntando-se sobre a continuidade da noite, a infraestrutura da casa, um possível blecaute na cidade. Logo até as luzes de emergência se apagam e, no fundo, começamos a ouvir o tilintar do chimbau do baterista, seguido por uma linha de baixo que apresentava o sax de Ornette. Sem microfones, sem energia elétrica. A platéia entrou em êxtase por dez segundos e em seguida calou-se. “Dancing in Your Head” dançou em nossas cabeças sem que pudéssemos ver seus músicos, apenas a música solta no ar. E, no meio da música, voltam os microfones, um holofote encontra o baixista para depois achar Ornette e as luzes do palco voltarem a funcionar. Um desses momentos indescritíveis, em que a música torna-se intraduzível e a experiência ao vivo, única. Sem dizer uma palavra e com o acaso a seu favor, ele soprou sua força vital sem precisar de nada além de seu instrumento.
A energia acaba aos 4 minutos do vídeo
Ao final do segundo espetáculo, Ornette ainda se deu ao trabalho de cumprimentar o público do palco, fazendo surgir uma pequena multidão erguendo canetas e papéis para o velho boxeador autografar. E ele continuou ali, assinando papéizinhos e perguntando como se soletrava tal nome em português, por quase vinte minutos após o show.
Inacreditável.
(E se alguém quiser me ajudar dizendo quais os nomes das músicas que eu filme aí em cima, eu já agradeço de antemão)
Hallogallo 2010
Sesc Vila Mariana @ São Paulo
Terça-feira, 26 de novembro de 2010
“Hallogallo”
Durou quase uma hora e meia, mas pareceu menos de um segundo ou uma eternidade. Ao encarnar o robótico motorik no palco do Sesc Vila Mariana na terça-feira passada, o alemão Michael Rother parecia que iria levar o público para os anos 70 do krautrock, o influente rock psicodélico alemão de bandas como Can e Faust. Um dos protagonistas daquela cena, Rother era metade do Neu!, a dupla alemã que completava o Kraftwerk original no início daquela década, mas que, após romper com o núcleo-duro dos pais da eletrônica moderna (Ralf Hutter e Florian Schneider), resolveu seguir uma carreira própria. Formada apenas por Michael na guitarra e efeitos e Klaus Dinger na bateria, o Neu! não foi apenas uma das principais bandas deste período alemão como sintetizava sua essência rítmica em peças intermináveis que insistiam no mesmo ritmo, metronomômico, que seria associado eternamente ao gênero. E o pulso preciso e quadrado do krautrock, personificado essencialmente no Neu!, mas presente em todas as bandas deste período, talvez seja a principal contribuição musical daquela cena – o ritmo industrial e monótono como base para criações sonoras abstratas. É como se alguém tivesse tirado uma chapa do pulmão musical do século 20 e expusesse aqueles estranhos, mas calmos, padrões repetitivos como um mesmo fluxo sonoro – que pode ser alinhado ao próprio ritmo da vida…
“Karussell”
O problema é que o Neu! não durou muito tempo e gravou apenas três discos, no meio dos anos 70. Rother e Dinger tentaram uma volta nos anos 80, mas novas brigas fizeram o disco da segunda vinda ser arquivado e posteriormente pirateado. Desde então Rother insiste em voltar ou relançar o catálogo da banda, mas Dinger era categórico em não querer saber de nada do Neu!. O máximo que concedeu foi a autorização para o relançamento dos discos da banda, mas nada fora do que havia sido lançado originalmente, como Rother insistia.
“Neutronics 98”
Mas Dinger morreu há dois anos e Rother finalmente pode revirar a tumba do Neu!. A expedição arqueológica não apenas garantiu o relançamento de todo o catálogo do grupo em uma caixa cheia de extras, como garantiu a reencarnação ao vivo das músicas gravadas com o grupo. Para isso chamou o engenheiro de som Aaron Mullan, com quem trabalhou em uma apresentação de outra reencarnação vivida por Rother, o trio Harmonia, do qual fez parte após terminar o Neu!. Mullan também trabalhava com o Sonic Youth e imediatamente fez a conexão entre Rother e Steve Shelley, um baterista à altura do legado de Dinger, e assim os três deram vida ao projeto Hallogallo 2010, dedicado à obra de Rother no Neu!.
“Delux”
Há uma certa nobreza de Rother em não colocar seu nome no título da banda ao mesmo tempo em não querer dizer que o novo trio é uma reencarnação do Neu!. O grupo é batizado com o nome de uma das faixas mais emblemáticas do repertório associado à mitologia do original alemão, que batizou dois discos com o ano de seus lançamentos após o próprio nome. Mas ao mesmo tempo há um recorte específico sobre a obra do Neu! (nem todas as músicas são da banda, algumas são de seus discos com o Harmonia, umas de seus discos solo), pois foram escolhidos temas em que o baixo e a bateria seguram o ritmo de forma incessante, submetendo o público (repleto de artistas de música experimental da cidade) a um transe abstrato mas vivo, de fazer bater o pé ou balançar a cabeça. E isso era apenas um dos elementos do Neu! – a outra metade eram experimentações com velocidades de rotação e texturas sonoras, muitas delas com vocais. Esta segunda parte do Neu! ficou completamente de fora do show de terça passada.
Assim, o show em São Paulo primou pela presença dos convidados, uma cozinha segura e pesada, o baixo de Mullan sendo lentamente transformado em ritmo enquanto a bateria de Shelley alternava entre os pratos tocados com baquetas de ponta de feltro e o ritmo motorizado que logo mais conduzia as faixas. Quase todas elas começavam com Rother nos efeitos sonoros, manipulando texturas e microfonias até chegar a um ciclo específico de som, que dava margem para Shelley e Mullan determinarem o compasso dos próximos dez minutos. Dez minutos que pareciam ser meia hora ou um som eterno, que bate no pulsar da vida do planeta e que, por alguns instantes na semana passada, foram sintonizados eletricamente por dois nova-iorquinos e um alemão.
“Negativland”
Leia mais:
– Neu!
– Krautrock
– Kraftwerk
E a minha coluna no Caderno 2 de ontem foi sobre os shows de Paul McCartney no Brasil.
Que músicas ele toca?
O mesmo show do Paul
Hoje e amanhã Paul McCartney faz mais dois shows no Brasil, quase vinte anos depois de ter vindo ao País para se apresentar pela primeira vez (dois shows no Rio em 1990 e dois shows em São Paulo e Curitiba em 1993). Mas, se no início dos anos 90 havia uma enorme expectativa sobre o que Paul poderia tocar em seus shows no Brasil, hoje não há motivo para especulação. Basta entrar no site setlist.fm para saber quais músicas que o ex-beatle tocou em todos seus últimos shows desde… 1990! O site, na verdade, reúne até informações sobre apresentações de Paul em 1972, mas desde o início dos anos 90 seu calendário de shows é bem completo.
O setlist.fm usa uma plataforma chamada wiki, que permite que qualquer um edite um texto online – é a mesma utilizada pela enciclopédia colaborativa Wikipedia. É um sistema de publicação que permite que os próprios fãs organizem as informações a respeito de seus ídolos. No caso do setlist.fm, dedicado apenas ao repertório de músicos em shows (e não apenas os de Paul), depois que o fã chega em casa após o show, ele abre um tópico relacionado ao show em questão e lista a ordem de músicas que reuniu. Se alguém escreve algo errado vem outra pessoa e corrige.
Por isso, quando fui assistir aos shows de Paul McCartney em Buenos Aires, na semana passada, já sabia de quase todas as músicas que ele iria tocar nas quase três horas de show. Mais do que isso: além da ordem das músicas, há um script muito bem ensaiado e imutável de show para show. Há a hora em que ele tira o paletó e fala que é “a única grande troca de figurino da noite” ou a homenagem aos dois ex-colegas de banda que já morreram ou as gracinhas que faz com o público. É tudo igual, muda só a bandeira que ele agita ao fim do show.
Mas tudo bem. Afinal foi Paul McCartney quem ajudou a inventar este sistema de música para as massas. Natural que ele queira repetir o mesmo show. Mesmo porque na segunda noite na Argentina, ele tirou da cartola a ainda inédita na turnê Bluebird. Ou seja: ainda cabe espaço para o improviso.
O Homem-Mashup
Você conhece o Girl Talk?
E na mesma semana em que se apresentou pela segunda vez no Brasil (ele encerrou, na noite de ontem, a edição deste ano do festival Planeta Terra), o DJ e produtor norte-americano Gregg Gills, conhecido pelo apelido de Girl Talk, ofereceu seu disco gratuitamente para download no site de sua gravadora, devidamente batizada de Illegal Art. Gills é conhecido por, desde 2006, compor álbuns usando apenas pedaços de músicas alheias – daí o peculiar nome de sua gravadora. Nada do que está no disco foi composto ou gravado pelo produtor, que apenas usou seu computador para misturar pedaços de músicas alheias e compor mais uma longa sinfonia esquizofrênica dentro da estética do mashup, em que canções de diferentes estilos se colidem para gerar músicas novas. All Day, o nome do novo disco, pode ser baixado de graça no site da gravadora (www.illegal-art.net/allday) e se alguém quiser saber todas as músicas que Gills usa no disco, basta entrar no site alldaysamples.com, feito por fãs, para ouvi-lo com a descrição de cada música utilizada para compor seu novo álbum.
Beatles à venda
Os Beatles finalmente chegam ao formato digital, com atraso de mais de uma década
O anúncio veio com menos alarde do que o previsto. Por muito tempo, a Apple brincou com a possibilidade de, em uma de suas já históricas coletivas motivacionais, apresentar a chegada dos Beatles à era digital.
Como dois de seus principais produtos são um aparelho (o iPod) e um serviço (a loja iTunes) que estão diretamente ligados à música, a magistral Mac máquina de publicidade aludia a alguma referência beatle – um trocadilho, uma forma de dispor as palavras – que levava a especulação fervorosa dos fãs da marca e da imprensa especializada a quase sempre cogitar o encontro das duas maçãs mais famosas do showbusiness: a gravadora dos Beatles e a grife de Steve Jobs.
Mas o tempo foi passando e, se negociar com gravadoras e editoras já havia sido um árduo aprendizado para a Apple, lidar com os Beatles foi uma longa novela que durou mais de uma década. Até que, na segunda-feira da semana passada, o site da loja online anunciava que “amanhã seria um dia como qualquer outro. Que você não irá esquecer”.
A única pista dada para o anúncio ser o catálogo dos Beatles em formato digital oficialmente pela primeira vez era elegantemente discreta – e dispunha quatro relógios de ponteiros anunciando a hora em que o anúncio seria feito na terça. O par de ponteiros de cada relógio imitava a famosa capa de Help!, dos Beatles, em que o grupo teoricamente soletra o título do álbum com os braços, usando o alfabeto de bandeira usado em aeroportos (embora, na prática, o que os quatro escrevam com bandeiras seja… NUJV!).
Talvez a discrição no lançamento tenha a ver com o fato de o grupo ter adiantado sua entrada no universo digital no ano passado, ao lançar o game Beatles Rock Band e não ter convidado a Apple para a estreia.
O fato é que, desde a terça-feira passada, mais de dez anos depois do Napster ter permitido que qualquer um baixasse qualquer disco no conforto de seu lar, os Beatles finalmente se dispuseram a lançar seu catálogo no formato digital. São os 13 discos oficiais e a coletânea Past Masters, que reúne as faixas que só saíram em single. E eles podem ser comprados separadamente por US$ 12,99 (US$ 19,99 no caso da coletânea e do Álbum Branco, ambos discos duplos, em CD) ou num só pacote, por US$ 149. A discografia completa ainda vem com a íntegra do primeiro show dos Beatles nos EUA em vídeo. E as faixas podem ser vendidas separadamente, a US$ 1,29.
E mesmo com o atraso, o lançamento pode ser considerado um sucesso, ainda levando em conta o preço das faixas avulsas e o fato de que faz quase 10 anos que dá para comprar a discografia dos Beatles em MP3 em CD-Rs de camelô. Antes tarde do que nunca.
Ilegal de propósito
Desrespeitando os direitos autorais, o produtor Girl Talk lança mais um disco de graça
Exatamente no mesmo dia em que os Beatles colocavam seu catálogo online à venda, o DJ e produtor norte-americano Greg Gillis surgia com um novo disco prontinho para download. E, diferentemente dos discos de John, Paul, George e Ringo, All Day não custa nada para ser baixado – embora o ouvinte seja convidado a contribuir com o lançamento pagando a quantia que achar justa, mesmo que ela seja zero.
O novo disco do produtor, mais conhecido pela alcunha de Girl Talk, segue exatamente o mesmo padrão dos dois trabalhos anteriores, Night Ripper (2006) e Feed the Animals (2008): ele está para download no álbum de sua gravadora (chamada Illegal Art) de forma gratuita mesmo que nenhum dos envolvidos tenha direito sobre as músicas usadas para a composição do álbum. Explico: em vez de gravado, All Day – como os outros discos do Girl Talk – é composto apenas usando trechos de músicas alheias, grande parte delas hits de artistas consagrados.
Justamente por isso ele se tornou uma espécie de símbolo da cultura livre que ajuda a reinventar os conceitos de direitos autorais na era digital. O DJ foi um dos principais personagens do documentário Good Copy Bad Copy e sua entrevista era pontuada por observações do advogado Lawrence Lessig, criador da licença alternativa Creative Commons, que tratava Gillis como exemplo de um artista do século 21 que, se fosse atuar pelas leis do século 20, não conseguiria fazer música. Talvez por isso consiga lançar seus discos sem se preocupar com processos da indústria fonográfica. A menor menção a uma ação judicial contra ele já seria o suficiente para acionar advogados e ativistas da cultura livre e transformá-lo em mártir desta nova realidade. Enquanto isso, ele segue lançando seus discos – e fazendo shows inacreditáveis, apenas com seu laptop.

Foto: Eugênio Vieira
Piracicaba já foi terra de rock. Há mais de uma década, a cidade do interior paulista que melhor simboliza o caipira destas paragens respirava ares carregados de eletricidade estática. Culpa de uma única banda, quatro malucos que resolveram encarnar o Sonic Youth antes que a banda de Thurston Moore virasse trilha sonora de volta de skate. Era o Killing Chainsaw, grupo que ligou o interior paulista na tomada na marra e fez que o rock alternativo dos anos 90 ganhasse algum sentido para além da Anhangüera ou da Bandeirantes. E dos nomes que mais prometiam entre as bandas que apareceram no rastro do Killing, uma delas era o Crush Hi-Fi, liderado pelo Ronex, que morreu entre ontem e hoje.
Lembro de quando ele me deu o disquinho, no tempo em que CD-R era novidade entre as bandas novas, que ainda registravam-se na fita K7. MP3? Hahahahaha, boa. Estou falando do final dos anos 90, antes do Napster liberar geral, quando banda larga era apenas um exercício de futurologia e baixava-se uma música em uma hora. Lá estava a banda, novata na cena do interior de São Paulo, que acompanhei neste período, exibindo não apenas um disquinho todo bonitinho no que dizia respeito ao acabamento gráfico, mas também sonoro. Era uma época em que o som que o Slint fazia ainda não tinha sido batizado de pós-rock – e havia um certo verniz de Slint por sobre a base noise característica da cidade-natal da banda.
O Crush Hi-Fi até segurou a bandeira do noise piracicabano por alguns meses, mas em pouco tempo o cenário indie brasileiro, ainda na idade da pedra, começava a mudar. Em poucos anos, cantar em inglês ou fazer barulho já não eram qualidades bem quistas entre este mercado – esta mudança pode ser epitomizada no Los Hermanos, mas era um processo lento, que já vinha se desdobrando desde 95, 96… A chegada da internet como veículo em que as pessoas podiam conhecer música não só acelerou este processo como enterrou de vez a geração Juntatribo, que teve de se virar para seguir fazendo sentido. E foi assim que o Pato Fu assumiu seu lado mais pop, os Raimundos acabaram, D2 saiu sambando em carreira solo, apareceram os Autoramas e o Bidê ou Balde. E foi assim que algumas dezenas de bandas (centenas?) foram varridas para baixo do tapete da história. Entre elas, o Crush Hi-Fi.
Ronex depois mudou-se para São Paulo, mais ou menos na mesma época em que vim para cá (primeira metade da década passada), e era figurinha onipresente nas hoje distantes noites de quinta-feira no Milo – e era companhia das melhores. Largo sorriso no rosto, uma empolgação contagiante e sempre um comentário sobre uma banda nova ou um projeto novo que estava começando. Tentou seguir na música o quanto pode e, depois que voltou para Piracicaba, há alguns anos, transformou seu Royales – uma das muitas encarnações posteriores do Crush Hi-Fi – em banda de baile, em que tocava todas as músicas que gostava – e até arriscava umas próprias.
Há mais de um ano não falava com ele direito, trocava apenas mensagens rápidas via rede social, email ou MSN, cumprimentos sinceros que serviam apenas para azeitar a amizade. Havia sumido da minha rotina faz tempo, mas havia a sensação, quase sempre acompanhada de boas notícias, de que a vida do compadre seguia bem.
Até que hoje cedo o Ronaldo me ligou para dar a péssima notícia (não se culpe, alguém tem de fazê-lo). Nem sei bem do que ele morreu, mas isso não importa. Fica o vazio de uma personalidade tão otimista, de alguém com pique e disposição para fazer o que achava certo, que eletrizava qualquer rodinha de cigarros ou cerveja e que era querido por muitos.
Fará falta, rapá. Fica bem onde você estiver.
Minha coluna no Caderno 2 neste domingo foi sobre o Scott Pilgrim.
Muito além da MTV
A geração déficit de atenção
Scott Pilgrim Contra o Mundo estreou na semana passada e segue em cartaz em poucas salas, mas vale o esforço para assisti-lo na telona. Baseado nos quadrinhos de mesmo nome, escrito e desenhado pelo canadense Bryan Lee O”Malley, o filme começa contando o cotidiano de uma banda de rock iniciante, com foco em um de seus integrantes, o Scott do título.
Parece que vamos apenas acompanhar o cotidiano trivial de uma turma de universitários largados, mas em pouco tempo a história dá um salto e mexe completamente no ritmo bucólico e entediante daquela rotina.
A história em si – Scott tem que enfrentar os sete ex-casos de uma nova paixão, uma menina de cabelo colorido chamada Ramona – não é grande coisa.
Mas a forma como ela é apresentada talvez faça do filme um dos mais influentes deste ano, principalmente no que diz respeito à estética.
Um tanto dessa culpa vem do próprio quadrinho original, que transforma a briga de Scott com seus rivais em um cenário de videogame em que cada ex de Ramona é o equivalente a um chefão de fase, como nos jogos eletrônicos.
Mas o filme vai além de simplesmente adaptar a linguagem dos games para o cinema, coisa que já foi tentada por vários diretores antes desse filme.
O trunfo do inglês Edgard Wright é usar o videogame como mais um dos elementos para compor uma narrativa moderna, de edição ágil e cortes rápidos, e que fuja do padrão MTV, quase sempre associado a esse tipo de recurso.
O problema é que o formato inventado pela MTV já tem mais de 30 anos – e ainda é associado a uma narrativa “jovem” e “descolada” (adjetivos entre aspas, pois são normalmente ditos por pessoas que não são jovens nem descoladas).
Em Scott Pilgrim, Wright leva esse conceito para linguagens que estão mais associadas à modernidade do que um canal de TV que exibe videoclipes.
É aí que ele injeta os games e a internet como referência. Os jogos são evidentes desde a primeira cena – o logo do estúdio Universal exibido como se fosse um game do Mega Drive – e a internet entra junto com a onipresença atual do texto escrito, em que palavras, termos, frases e listas surgem como links ou tags junto às cenas.
Assim, Scott Pilgrim Contra o Mundo pode parecer rápido demais até para quem é acostumado à linguagem MTV. Talvez porque tenha sido feito mirando em uma geração que, vista de fora, parece sofrer seriamente de déficit de atenção. Só isso já vale o filme.
Prepare-se para mais uma série de mudanças aqui neste espaço de internet
Pronto, casei.
A cara de felicidade na foto do meio aí em cima é um recorte específico num momento muito especial da minha vida: meu rosto logo após ter sido anunciado como “marido” – e, mesmo que o anúncio tenha sido numa paisagem desértica para três testemunhas, sendo uma delas um esquilo, foi do jeito que deveria ser, para quem deveria ser, na hora em que deveria ser. Para quem acompanha minha vida – leitor, amigo ou fã – não muda muita coisa: mesmo endereço e horários, talvez reparem na aliança na mão esquerda, mas, olhando de fora, pouco mudou.
Afinal de contas, o casamento não é para os outros.
O que muda é que, internamente, é hora de celebrar algo que já era regra. A transformação da rotina num ritual, numa data comemorativa. E é inevitável que funcione como gatilho para todo o resto das coisas. E é o motivo de eu armar uma mudança drástica no formato deste espaço de internet, a que você já deve meio que ter se acostumado (errado) nas últimas semanas.
A principal mudança: ritmo.
Há algo que mistura paixão e trabalho e me persegue de forma tranquila, que é a forma como virei catalizador de informação. Outro dia o Bruno me chamou de “arqueólogo” digital, o que dá a impressão de que eu fico caçando pepitas online. Ledo engano – embora eu tenha esta natureza exploradora no sangue (sou jornalista por vocação, sempre soube disso), não uso essa minha qualidade aqui no Trabalho Sujo. Apenas solto minha rede no mundo e deixo que me mandem coisas. “Matias, como você tem tempo para descobrir tanta coisa?”, suspiram as fãs. “São elas que me querem”, sempre digo isso para todas.
Faço a rapa em lugares que já fazem esse trabalho. Bandas novas no Hype Machine, fotomontagens no Fukung, vídeos no Buzzfeed, ficção científica no io9 e teorias da conspiração na Disinfo – e cada site desses é só o começo para uma gama gigantesca de outros trocentos sites parecidos. Mas o trabalho não-trabalho de puxar a rede da praia uma vez por dia tornou-se, com o tempo, maçante. A onipresença é uma das minhas qualidades mais curto exercer e me divirto com histórias que me contam quando alguém que me conhece “revela” que eu programo tweets. Só que chega uma hora em que programar tweets e agendar posts vira trabalho mecânico. Fora que, como já disse outras vezes, transformei o blog num tumblr e deixei de lado uma das coisas de que mais gosto – escrever.
Volto para o papo de explorador, exerço este papel melhor, hoje em dia, no comando do Link ou em trips meramente pessoais, que sempre penso em materializar em texto, mas a pauleira do formato tumblr (quase um post por hora durante horário comercial, reveja aê) faz que eu sempre deixe os textos para escrever depois. E com isso perco o estímulo inicial. Assim foi com o texto sobre o final de Battlestar Galactica, a crítica ao Merriweather Post-Pavillion e a defesa da desimportância do formato álbum hoje, a análise sobre a importância de Mark Millar para a cultura pop moderna, a resenha sobre o show do Jesus & Mary Chain no Terra de 2008, a longa jornada buraco afora de Alice in Sunderland e, exemplos recentes, um paralelo entre Black Hole e Scott Pilgrim, os shows do Pavement em Nova York ou os do vigésimo primeiro aniversário da Matador em Las Vegas.
O meu trabalho no Link pode ser medido pelo caderno e pelo site, finalmente a equipe está azeitadíssima e tenho a consciência de que edito um dos melhores cadernos de jornal do Brasil. Prefiro nem falar mais – quem conhece, sabe.
Mas este lado fuçador, falando de coisas que mais dizem a respeito de comportamento e cultura do que o vasto tema que abordo no meu trabalho diurno, tem ficado em segundo plano. Não mais. A partir desta semana, oficializo a redução de velocidade do Trabalho Sujo em prol da produção de mais textos. A princípio, eles virão curtos – este texto que você está lendo não será o padrão a seguir (embora sei que muitos prefeririam um texto gigantesco por semana do que vários curtinhos no mesmo período). Mas é uma época de ajustes. Já estou pensando em começar minha prole e é inevitável que este tempo gasto diante do computador será reduzido. Fora que estou começando a finalmente executar o meu livro (sobre o quê?, você pergunta; qual deles? contrapergunto) e vai ser inevitável que esta produção também tome meu tempo.
Compenso a queda no ritmo com a ressurreição de posts antigos do Trabalho Sujo – e quando digo antigo, me refiro inclusive à fase impressa, entre 1995 e 1999, que trombei num velho HD externo outro dia. E vai ser inevitável que eu continue postando vídeos e JPGs, mas sem a mesma frequência. Os tweets caem de produção e podem ressurgir durante dois dias seguidos ou por apenas algumas horas consecutivas. Às vezes, virão do nada, trazendo só uma informação ou ditado daquele instante – um tweet puro, natural, sem link. O Vida Fodona segue semanal e a Gente Bonita, num hiato por excesso de trabalho de ambas as partes, ressurge em breve, em alguns lugares do Brasil.
E aqui chego ao ponto central desta mudança: ela consolida algo que prego há tempos, desde que saí da Conrad, quando percebi, na marra, que fosse traduzindo um livro, discotecando, entrevistando alguém, fazendo um podcast ou mediando um debate, não deixo de ser jornalista. Eu sou um filtro, uma ponte – busco informações que as pessoas do outro lado não sabem que existem e as exponho a elas. Remixo contextos a partir dos meus gostos, minhas áreas de especialidade, meu tom autoral. Um tom sério.
E, na viagem que fiz antes de me casar nos EUA, me deparei com este conceito várias vezes, desde a incredulidade dos amigos que – animados ou espantados – perguntavam “sério?” quando eu dizia que ia casar não só em Las Vegas mas no Grand Canyon como na presença constante do filme Um Homem Sério, dos irmãos Coen, nas TVs pelos hotéis. Vi, portanto, vários pedaços de um filme sobre um homem em pedaços a partir do desmoronamento de sua “séria” reputação. E o tempo todo eu confrontava o drama de Larry Gopnik (o protagonista do filme) com o do Dude (protagonista de outro clássico dos irmãos, Big Lebowski) – que é o estereótipo do homem não-sério. Ambos passavam por enrascadas parecidas independente do estilo de vida que levavam, certinho ou largado.
Foi quando eu percebi que a seriedade virou sinônimo para chatice – uma pessoa hoje para se dizer séria tem de ser alguém sem humor, sem disposição para curtir a vida, gente que não dança. E também quando percebi como sou sério exatamente do jeito que sou.
Pois só sou quem sou por conseqüência disso. A seriedade é consequência de uma paixão bem resolvida e só tenho a agradecer, adoro tudo que eu faço, com quem eu faço, do jeito que eu faço. Então por que não melhorar?
PS – E antes que você suspire “que egotrip!”, eu lembro que este saite inteiro é isso.
PS 2 – A mudança não é só no Trabalho Sujo, falo mais disso em breve.
PS 3 – E mais uma novidade vem ainda hoje!
E eis minha coluna de domingo passado no Caderno 2.
Um celular em 1928?
A viajante do tempo de Chaplin
A cena é muito rápida, não dura nem cinco segundos. Mas em um determinado momento do filme O Circo, que Charles Chaplin filmou em 1928, uma mulher aparece passeando na rua. Uma de suas mãos está próxima de sua orelha. E ela vem falando, aparentemente sozinha. Foi o suficiente para que o cineasta irlandês George Clarke ficasse intrigado. Ele assistiu à cena por outras tantas vezes, até chegar à estapafúrdia conclusão de que a senhora estaria falando num telefone celular! Em 1928!
Não bastasse ter chegado a essa conclusão nonsense, Clarke decidiu tentar buscar uma explicação para como, nos anos 20, uma pessoa estaria usando um aparelho que levaria mais de cinco décadas para ser criado. A explicação lógica – e ainda mais absurda – a que ele chegou merece até dois pontos para ser anunciada: ela teria vindo do futuro!
Foi o suficiente para que ele lançasse sua louca teoria no YouTube, com imagens do filme original, e passasse dos quatro milhões de visitas em seu vídeo. A história remetia a outro caso pitoresco quando, entre 2000 e 2001, um suposto viajante do tempo chamado John Titor, vindo do ano 2036, começou a deixar mensagens em fóruns online anunciando as coisas que ainda estavam por vir.
Mas como a história de Titor, o celular de Chaplin provou ser só uma piada de mau gosto. E o blog Live Science atestou que a senhora “do futuro” estava apenas usando um dispositivo para facilitar a audição… Cada uma…
Pela internet
Amy Winehouse dá sinais de vida
O próximo disco de Amy Winehouse vem sendo aguardado há mais de três anos, quando a Keith Richards de saias emplacou seu hit “Rehab” no mundo inteiro. Desde então, ela não gravou mais nada e sua vida pessoal escorreu ladeira abaixo, em brigas e excessos em geral. Mas eis que nesta semana uma nova música de Amy apareceu online. A música, na verdade, não é propriamente nova, afinal “It’s My Party” é cover de um clássico soul dos anos 60, gravado por Leslie Gore. Mas foi colocado na rede pelo antigo produtor de Amy, Mark Ronson, que gravou com a cantora três faixas para um disco-tributo ao maestro Quincy Jones, que ainda será lançado. Não é material do disco novo dela (ainda sendo gravado, vai saber em que estágio) e o vocal não é lá grandes coisas, mas pelo menos, uma novidade: ela está viva e cantando!
O Bruno foi estagiário no Link até o final do ano passado (hoje está na Istoé Dinheiro, e segue cobrindo tecnologia) e seu trabalho de conclusão de curso foi sobre as mudanças que o meio digital vem impondo à cultura – e A Cultura Na Era Digital é tanto um blog quanto um livro de entrevistas. Fui entrevistado para sua publicação e ele finalmente põe no ar o longo papo que tive com ele (que, editado sem as perguntas, ficou com cara de artigo, a seguir):
A Cultura na Era Digital, por Alexandre Matias
“Pra cultura, pro público, pra uma nova geração de artistas e pra humanidade como um todo as mudanças pelas quais a indústria cultural vem passando nos últimos anos tendem a ser mais benéficas, pois abrem maiores possibilidades de criação e de imaginação e permitem que cada vez mais gente possa ter a experiência de ser artista, antes restrita a um grupo pequeno de celebridades e executivos, que são justamente os que estão sofrendo com essa mudança – e para quem os efeitos são mais negativos, pois mudam a forma como eles lidam com a própria remuneração. Mas as mudanças do mundo digital não são exclusivas do meio cultural e atingem toda a sociedade a ponto d reinventar o próprio ser humano. As primeiras manifestações do digital nesta virada de século são mínimas se comparadas com o seu potencial. E negar essa mudança é pior até para aquele que mais sofre com a mudança neste momento inicial, pois ele não irá saber como lidar com a transformação que já aconteceu.”
“Ainda não vimos a maior transformação, que é a superação destes formatos (disco, filme, livro) rumo a uma integração maior entre os diferentes suportes – o tal transmídia. Mas acho que isso ainda deve levar um tempo para se consolidar, mesmo porque existem algumas gerações que ainda vão consumir livros, filmes e discos como coisas separadas. Mas acho que a tendência maior inclui a participação da publicidade na narrativa. O fim do espaço comercial como conhecemos hoje inevitavelmente fará com que empresas busquem novas formas de mostrar o que querem vender para seu público. Se hoje a publicidade vem em forma de banners em videogames ou empresas que bancam obras de determinados artistas (modelos que já estão aí há algum tempo, mas que estão longe de serem estabelecidos), acredito que, no futuro, as marcas irão se associar a produtores de conteúdo que tenham alguma afinidade para desenvolver projetos e obras culturais que se desdobrem em diferentes áreas. O consumidor, no entanto, não deverá ficar refém de uma história que, para ser compreendida em sua totalidade, deve ser absorvida à exaustão. Pelo contrário: o conteúdo cultural do futuro deverá oferecer tanto pequenos aperitivos quanto universos narrativos complexos. O leitor/ouvinte/espectador é que escolhe o quanto deve se aprofundar.”
“Acho que não existe regra, mas, como antes da internet, acho que o principal é definir o que o artista quer da vida – se é reconhecimento público, ter um salário, se satisfazer pessoalmente ou fazer sucesso. Acho que a última opção é a mais tênue hoje em dia, uma vez que o conceito de sucesso mudou drasticamente – ou, pelo menos, deixou de ser mensurável. Acredito que o principal para qualquer artista hoje seja definir o que ele considera sucesso. Para muitos, produzir arte sem interferência de patrocinadores ou concessões ao público já pode garantir o sucesso pessoal. Para outros, sobreviver a partir da própria arte é outro novo parâmetro de sucesso. A decisão cabe ao artista e pode determinar o resto de sua carreira”.
“A principal contribuição do meio digital para a indústria – e não apenas cultural – é inverter a mão-única que era a regra da era industrial. Hoje não existe uma fórmula para fazer sucesso, uma regra para ser bem sucedido artística e comercialmente, um modelo de negócios padrão que deve ser seguido. Cada um deve descobrir o modelo de negócios que melhor se adeque a seu parâmetro de sucesso”.
“Pela legislação atual, a troca de arquivos pela internet é pirataria. O problema é que quando a sociedade muda, as leis devem mudar. As leis são feitas para se adequar ao comportamento das pessoas – e não o contrário. Já foi permitido, um dia, ter escravos humanos, por lei. E até o começo do século XX a mulher tinha menos direitos legais do que o homem. As leis relacionadas a esses assuntos mudaram porque a sociedade mudou. A troca de conteúdos digitais via internet é um fenômeno muito recente e as leis ainda não se adequaram a ele. Por isso mesmo, a definição de pirataria nesta época é vaga – da mesma forma que definir quem perde ou quem ganha com ela. Como você mesmo citou, o próprio Paulo Coelho advoga a favor da pirataria de seus livros. E há uma frase de Hermeto Paschoal que ilustra bem esse dilema: ‘Por favor, me pirateiem – se não ninguém vai ouvir minha música’.”
“Do mesmo jeito que a tendência para produtos fabricados em escala industrial tende a cair, existe uma série de outras soluções que estão sendo pensadas para estes profissionais que não existiam antes e hoje já são fonte de renda. A troca de arquivos via internet não fez as pessoas pararem de comprar disco – e, sim, ofereceram outras formas de você conhecer e pagar pela obra dos artistas – grande parte deles que sequer tinham o mínimo de visibilidade que a internet lhes proporcionou. Não sei responder sobre fontes de renda alternativas para estes profissionais porque: 1) o novo mercado está mudando o tempo todo; 2) cada artista deve descobrir qual melhor forma de conseguir transformar sua arte em seu sustento; 3) não sei se essas novas fontes de renda são alternativas ou se serão a regra vigente”
“Do mesmo jeito que a produção cultural será acessível de forma gratuita. O artista vai ganhar dinheiro com o contato direto com o público, com produtos impossíveis de serem digitalizados que acompanhem uma obra digital, com licenças de acesso a seu conteúdo que podem liberar sua obra para o espectador à medida que ela for sendo realizada, achando um patrocinador que queira associar sua marca àquele artista. Se for bom, as pessoas vão querer pagar. O problema é saber quando isso irá acontecer.”
“A indústria de tecnologia tem ganhado muito dinheiro com download, veja que, entre os sites mais acessados do mundo, figuram vários que permitem o compartilhamento de arquivos (como Rapidshare, Megaupload, etc.). E empresas como Google, Amazon, Microsoft, Apple e outros nomes do mercado digital também – seja com venda direta ou com anúncios atrelados aos downloads. Concordo que a tendência é que o streaming supere o download em relação à presença online (mesmo porque senão, todo mundo teria de ter HDs gigantescos para armazenar tudo que produz – fora o que consome), mas não acho que o streaming ou o download sejam mais ou menos vantajosos para a indústria cultural do passado, acostumada a ganhar dinheiro sobre cópias físicas de um produto que hoje não precisa mais de cópia física.”
“Acho ruim ficarmos lamentando as vantagens e desvantagens disso ou daquilo para essa indústria cultural, pois parece que ela é especial e não está suscetível a essas mudanças, como o resto da sociedade. Quando a fotografia foi inventada, os pintores reclamaram que iam perder a função de retratistas. Felizmente, não havia uma indústria que representasse os pintores para fazer campanhas contra o uso da fotografia. Felizmente porque, se isso acontecesse, talvez o impressionismo e o modernismo – as soluções que os artistas, e não a indústria, propuseram – demorariam mais tempo para acontecer”.
“É crucial [a participação do fã neste contexto]. A principal mudança para o artista tradicional que estamos vendo é o fato de a indústria cultural não servir mais como intermediário entre artista e consumidor – seja numa sala de chat, num fórum de discussão, ao pagar pela arte de outra forma ou no contato após o show. É a principal mudança porque faz com que o artista se pergunte sobre quem ele deve agradar e responder – se ao empresário, ao produtor, à gravadora, à editora de direitos autorais ou a quem consome apaixonadamente sua música. Vendo desta forma, é fácil entender porque a indústria estabelecida se volta tão ferozmente contra o digital – ela está perdendo o controle da redoma que havia criado ao redor do artista. E, principalmente, o artista está deixando de ser esse alguém iluminado, que precisa de tempo para se inspirar, para ser encarado como um profissional e ponto.
“O que estamos vendo é um movimento que permite que a humanidade, como um todo, possa ter acesso ao que ela mesma produz, todo dia, o tempo todo. Artistas estabelecidos e indústria cultural são só obstáculos no meio dessa comunicação total que estamos começando a assistir“.






