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Volto a desenterrar textos e hoje separo uns aqui que fiz para o vintage The Bambas, e-zine que o Camilo fazia com o Tomate nos idos de 97/98 e inspiração direta para eu fazer o 1999 com o Abonico. Esse primeiro é sobre a importância do disco ao vivo do Iron Maiden para a minha (e provavelmente sua) formação – e foi publicado numa seção chamada “Na Moita”, em que os convidados eram provocados a falar de um disco que pudesse causar algum tipo de constrangimento público. Nunca me envergonhei do Iron, pelo contrário – não à toa escrevi o texto abaixo.

“Você deve ir até o fim”. E é claro que iríamos. Afinal, por mais assustadores que pudessem ser os 100.08 minutos orgulhosamente estampados na contracapa do disco duplo, eles eram preciosíssimos. Era a maior banda de heavy metal do planeta em seu melhor momento fazendo o que fazia de melhor no melhor lugar possível, o palco. Desde que se apresentaram no Rock in Rio, trazendo o mostrengo Eddie e a incrível múmia-esfinge, que cuspia fogo pelas ventas, o Iron Maiden era sinônimo de rock pesado e seus shows eram momentos de catarse coletiva e profissionalismo.

Historicamente, Live After Death, o disco em questão, marca o começo do declínio do Iron. A importância primordial do grupo encontra-se logo em seu início, quando, após o impacto do punk, o grupo liderou a chamada New Wave of British Heavy Metal – um dos melhores nomes de gêneros musicais da história. Mas no começo, o Iron era uma banda de rock pesado, não uma de heavy metal. Discos como Iron Maiden e Killers estavam repletos de energia e vigor, mas o metal clássico (desenvolvido pelo Led Zeppelin) passava longe dali. Muito por conta do vocal de Paul D’Ianno, uma espécie de Dee Dee Ramone do metal, pela guitarra suja de Dennis Stratton e por sua atitude rebelde: eram a primeira banda desde o The Who a tocar de verdade no tradicional Top of the Pops, em vez de fazer playback.

Com cacetadas como “Prowler”, “Charlott the Harlott”, “Running Free”, “Killers”, “Wrathchild” e “Murders in the Rue Morgue”, o Iron de Paul D’Ianno injetava doses pesadas de rock no cansado metal do final dos anos 70 – um gênero que havia se dividido entre o pop (Cheap Trick, BTO), a paródia (Queen, Ozzy Osbourne no começo) e a falta de criatividade (Led Zeppelin, Deep Purple), cambaleando devido ao impacto do punk. O Maiden em seus primeiros anos era uma injeção de adrenalina no metal. Se foi o punch do punk que salvou o metal nos anos 80, a Dama de Ferro em seus primeiros dias era o Buzzcocks da época. Só que D’Ianno fazia jus ao espírito rocker da banda e, depois de brigas e bebedeiras, foi chutado pra fora do grupo.

A entrada de Bruce Dickinson (do épico Samson) e do guitarrista Adrian Smith ampliaram a importância do baixista Steve Harris. Principal compositor da banda, Harris descobriu uma fórmula secreta: compunha canções sobre o cavalgar de seu baixo, deixando campo livre para os dois guitarristas (Smith e o fundador Dave Murray) trabalharem riffs em duas vozes (as famosas terças e quintas, o pit-shifter humano) trotando por sobre o baixo, que guiava a canção ao lado da bateria (de Clive Burr, que entrou no lugar do fundador Doug Sampson). O vocal berrado de Bruce era mais versátil que o de D’Ianno e às vezes descambava para o operístico. O tempero era acrescido pelo tema mais clássico do heavy metal, o que faz o vínculo do gênero com o blues – o satanismo. E The Number of the Beast (com clássicos como “Hallowed Be Thy Name”, “The Prisioner”, “22 Acacia Avenue” e “Run to the Hills”) transformava o Iron em uma banda de metal clássico.

Piece of Mind continuava a linha ascendente da carreira do grupo (e dava espaço para a entrada do baterista Nicko McBrain, com estandartes do gênero como “The Trooper”, “The Flight of Icarus”, “Where Eagles Dare” e “Revelations”), que prosseguiria em Powerslave. O disco do Egito, com o mascote Eddie feito faraó na capa, cortesia do genial Derek Riggs (talvez o principal motivo pros fãs do Iron entrarem no culto à banda), e a presença de hinos como a faixa-título, “The Rhyme of the Ancient Mariner”, “2 Minutes to Midnight” e “Aces High” mostravam que a banda chegava à maturidade. A instrumental “Losfer Words (Big’Orra)” mostrava que a banda estava mais precisa e segura que nunca, e qualquer som que eles tocassem juntos teria a cara do Iron Maiden.

Começava então o declínio. Somewhere in Time, o disco futurista, mostrava a banda muito mais preocupada com um conceito do que com as canções, desperdiçando boas sacadas melódicas e instrumentais maduros com um tema forçado, como “Caught Somewhere in Time”, “Heaven Can Wait” e “Deja-Vu”. Embora menos inspirado, o disco ainda traz bons momentos do grupo, como a olímpica “The Loneliness of a Long Distant Runner” e a literária “Stranger in a Strange Land” mostravam que o grupo ainda podia produzir bons momentos em conjunto. A bela balada “Wasted Years” (a única que fugia do padrão de todas as outras baladas da banda) mostrava que Adrian Smith sabia compor e que queria seu espaço na banda.

O último bom momento do Iron vem com Seventh Son of a Seventh Son. Aqui, o conceito toma conta do disco de vez e Steve Harris enfrenta um momento de megalomania semelhante ao que Roger Waters enfrentou em The Wall. As melhores faixas do disco (“Can I Play With Madness”, “Only the Good Die Young”) são justamente as que fogem do tema central, que trata, novamente, de satanismo (o sétimo filho do sétimo filho será o anticristo, segundo algum lugar da Bíblia), só que épico e preciosista.

Depois era a lama. No Prayer for the Dying tentava voltar ao espírito rock’n’roll do grupo, com músicas risíveis (como “Holy Smoke” e “Bring Your Daughter to the Slaughter”), o pavoroso Fear of the Dark (com aquela capa horrível e bobagens como “Afraid to Shoot Strangers”, “Wasting Love”, “Be Quick or Be Dead” ou “From Here to Eternity”). A segunda pior fase da banda conta com o versátil Janick Gers no lugar de Adrian Smith, mas a mágica já havia passado. Os últimos discos com Bruce são ao vivo (A Real Live One e A Real Dead One) e a banda mostra que sabe o que os fãs já sabiam: as músicas velhas eram bem melhores que as novas. A entrada do pífio Blaze Bayley empurra a banda no esquecimento.

Por isso, Live After Death é o melhor disco do Iron. Se ser adolescente à época de seu lançamento significava curtir o melhor que a vida podia lhe dar, ter doze anos mostrava o mundo que lhe esperava. Do discurso de Wiston Churchill no início até o fim apocalíptico de “Phatom of the Opera”, o disco era uma viagem a uma dimensão paralela, um paraíso de energia, barulho, som e testosterona chamado “show do Iron Maiden”. Pra quem viu o show da banda no Rock in Rio, o disco era ‘o’ souvenir; pra quem não pôde ir, era ‘o’ consolo.

Talvez este disco seja o responsável por algumas notas baixas no boletim da sexta série, pelos cadernos acabarem mais cedo (cheios de desenhos nas últimas páginas), pelas minhas primeiras camisetas pretas (usadas sob o uniforme do colégio), pela vontade de deixar o cabelo crescer e pelo um de meus primeiros porres (lembro a cena direitinho, ao redor de uma fogueira, num terreno baldio, com Velho Barreiro e “2 Minutes to Midnight” tocada pontualmente). Foi o primeiro disco que meus pais pediam pra tirar – e olha que meus pais me agüentaram ouvindo 12 horas por dia Thriller, quando tinha oito anos, e a coletânea New Wave Mamão com Açúcar (com Pretenders, Billy Idol, B-52’s, Prince, Devo, Wham!, Depeche Mode e Huey Lewis and the News), aos dez. Foi o meu primeiro disco duplo, que quase perdi quando troquei com um amigo meu por um disco da Sinéad O’Connor (dá pra acreditar?). Comprei o CD, mas qual decepção ao ouvir que faltava um lado inteiro do disco (o quarto, com “Wrathchild”, “22 Acacia Avenue”, “Children of the Damned”, “Die With Your Boots On” e a versão definitiva de “Phatom of the Opera”). Nem o encarte, cheio de informações (turnê completa, letras, equipamento completo e o escambau) compensava. Corri feito um desesperado atrás da lendária versão japonesa (que contava não só com o lado perdido, mas com dois lados inéditos, num sonhado CD duplo), mas acho que não passava de uma lenda urbana. O fato de alguém (um amigo de um dos meus irmãos, tenho certeza) ter roubado o CD me levou a bater na porta do dono do disco da Sinéad (um cara com quem eu não falava há anos) atrás do meu disco.

Hoje, graças a deus, ele está aqui, na minha frente, rodando enquanto digito este texto no computador. Sulcos que alimentaram minha fome por uma adolescência decente, que me fizeram ter vontade de parar de deixar de ser criança e cair num universo inseguro de farra, problemas e responsabilidades. Parte crucial do meu desenvolvimento como ser humano (mais “na moita” que isso, impossível), Live After Death é a minha porta de entrada num mundo de sonhos, um dos muitos rosebuds musicais que tive. Não tenho vergonha de admitir isso.

Outro texto pro The Bambas, outro texto pra seção “Na Moita”, desta vez assumindo um prazer confesso: como eu gosto de Sgt. Pepper’s.

Tinha eu treze anos de idade, quando excursionava com a banda pelo Mato Grosso. Não, eu não tinha uma banda que ia pro Mato Grosso com treze anos de idade. Eu tocava numa banda de escola, dessas de desfile (tocava – e acho que ainda toco – trombone de vara), quando, passando por Cuiabá (depois de voltar da Bolívia, onde havia passado por uma experiência nada feliz quando fui perseguido por um sujeito que queria que eu pagasse o uso de um banheiro público – “vinte pessos” pra mijar, tá louco!) cacei em uma banca algo pra ler. Já lia a Bizz na época e comprava aqueles pôsteres-biografias da Somtrês (Genesis, Rush, Sabbath, Purple, Led, Floyd, Jethro Tull – uma aula e tanto de rock clássico), portanto já havia me habituado a ler sobre música. O próximo passo (que deveria ser o de qualquer leitor) seria me aprofundar naquele assunto.

Então comprei, numa dessas edições dois em um, um pacote que incluía duas biografias de bandas que eu achava que sabia tudo: os Beatles (capa amarela e aquela foto que eles estão enrolados na bandeira do Liverpool) e os Rolling Stones (capa preta e vermelha com um close em auto-contraste de Mick Jagger). Os primeiros tinham revolucionado o rock com seu iê-iê-iê, se separaram, o John Lennon morreu e o Paul McCartney cantava Say Say Say com o Michael Jackson (lembro de ter pego o Pipes of Peace quando era moleque só por causa de Say Say Say – de Michael, claro) e os segundos eram inimigos dos primeiros, eram mais malvados, hoje eram velhos e usavam roupas com cores escandalosas para dizerem que eram garotões.

Qual minha descoberta ao saber que ambos grupos eram muito mais que eu havia pensado. Mas o que fisgou foi os Beatles. Tudo que eu conhecia dos Beatles eram aquelas canções do começo, “I Wanna Hold Your Hand”, “Can’t Buy Me Love” e “She Loves You”, e achava – embora não imaginasse como – que elas foram responsáveis pelo status que o grupo carrega até hoje. De repente, começavam a me falar de viagens de ácido, e das iniciais de “Lucy in the Sky with Diamonds”, de um assassinato em massa que tinha sido descrito subliminarmente num disco da banda, da possibilidade de um dos integrantes ter morrido, ter sido substituído e que “dicas” dessa verdade apareciam nas capas dos discos, de óperas rock compactas, de experimentações radicais e infantis no estúdio e de resultados espetaculares, de ponto de partida para a psicodelia, para o rock progressivo, para o rock clássico – os caras eram o vórtice de todo o rock, todo o universo que eu aos poucos me considerava parte tinha sido criado pelos caras.

E, no olho do furacão, sentava-se Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band. 50% dos adjetivos ligados à banda saem deste disco e, em outra viagem da banda, desta vez à Goiânia, me dei de cara com o próprio. Se eu for na capital de Goiás, eu posso lhe mostrar a loja que eu comprei Sgt. Pepper’s – e nada mais – tamanho o impacto do encontro. Aquela capa populosa e colorida olhou pra mim (George Harrison, em particular) e me perguntou se eu ia deixá-la lá, com toda sua mitologia em potencial reservada para um encontro posterior. Na hora é um dilema horrível, o dinheiro pro disco era o dinheiro do lanche, mas lembrar-se disso é uma sensação maravilhosa. Quantos discos me perguntaram isso e a quantos eu não cedi: Astral Weeks, Tommy (esse, assumo, roubei), The Piper at the Gates of Dawn, Dark Side of the Moon, London Calling, Let it Be, Led Zeppelin IV (Thick as a Brick até hoje me olha assim, mas eu me seguro). Discos que tinham sido alimento de uma geração foram tratados por mim como micropontos de ácido sonoro, viagens para universos paralelos, plantas medicinais que mostram a revelação sonora. Tanto que contaminei a família – furava tantos os vinis no som da sala que todo mundo relaciona o som destes discos a determinadas épocas da vida. É batata: põe o Dark Side of the Moon, o assunto é tal, põe o Tommy, o assunto é outro.

Mas Pepper, como hoje me acostumei a chamá-lo, foi o primeiro. O impacto que o disco causou em mim é bem diferente ao dos que o ouviram pela primeira vez, em junho de 67, mas havia alguma semelhança em ambas audições. Com a exceção que eu sabia o que estava por vir, só não sabia como. Impacto semelhante eu só tive com Paul’s Boutique, dos Beastie Boys, um disco que, tamanha a quantidade de referência, se explica, como se tivesse uma bula, uma resenha junto com o som. Pepper ecoou na minha cabeça como um tiro ao contrário – abriu-a para horizontes sonoros sequer sonhados com um impacto direto. Todo o turbilhão de cítaras, animais de fazenda, circo, jazz anos 40, orquestras, rock pesado, octeto de cordas, última nota que só os cães ouvem se encaixavam perfeitamente no que o segundo volume da história do rock da mesma Somtrês (com 12 páginas dedicadas à Pepper, com ilustrações de Negreiros) dizia sobre “para algumas pessoas, esse disco provoca uma sensação única, quase lisérgica”.

Minha (ex-)mulher não se conforma(va) de eu saber a ordem das músicas dos discos. Pois pra mim, isso é o equivalente a perguntar-se sobre o que você estava fazendo quando o Senna morreu. A seqüência das músicas no disco é o público encontrando o privado, o inatingível se tornando íntimo, é o momento de personificação do fato, quando você o atrai para si. A ordem das músicas de Pepper é uma cabala mágica no meu hipocampo, se toca uma música só do disco no rádio, eu continuo o disco até o fim na minha cabeça.

Depois descobri que o big bang beatle estava no disco anterior, Revolver, e cujos ecos já haviam surgido originalmente no pastoril Rubber Soul. Depois, Abbey Road se tornaria o melhor disco dos Beatles, o mais importante, o disco que o grupo deu mais de si, pois sabia que era o fim e queria ser imortalizado. Até Let it Be (com produção coxal de Phil Spector), das gravações de Get Back, que queria voltar ao começo com a mesma disposição que gravaram o disco final, era um grande disco. O álbum branco era os quatro separados, poderes à parte, desconstrução do conjunto. Ou seja, Sgt. Pepper’s é apenas um dos grandes discos dos Beatles.

Mas para mim, ele tem esse caráter de revolucionário. Mesmo tendo sido gravado um ano depois de discos transgressores (como Blonde on Blonde e Freak Out!) e no mesmo ano de outros discos cabulosos (Piper, The Velvet Underground & Nico, The Doors), Pepper é um disco mágico pra mim pois me apresentou ao passado que eu procurava da maneira mais coesa possível. Como uma caixa de Pandora, ele libertou os males do mundo para o rock brincar, dando-lhe não só sobrevida como a capacidade de se reciclar (e sempre encontrar sobrevidas). Era a segunda vez que os Beatles salvavam o rock e desta vez havia sido definitivo. Não tem mais volta.

E a minha coluna desta semana no Caderno 2 foi sobre o debate que mediei no YouPix.

Ofuscados pelo telão
Diálogos simultâneos no YouPix

Semana passada, participei do encontro YouPix, evento da revista eletrônica Pix para discutir diferentes aspectos da cultura digital. Entre os temas da semana, assuntos recorrentes aqui neste espaço, como a cultura do remix, modinhas da internet e discussões sobre mídia. Os nomes que passaram pelo Museu da Imagem e do Som (MIS) de São Paulo eram uma boa amostra da produção eletrônica brasileira, incluindo gente como Chico Barney, Tiago Dória e Giselle Beiguelman.

Mediei um debate chamado Os Novos Influenciadores, que reunia personalidades completamente diferentes como o blogueiro PC Siqueira, que apresenta o videocast Mas Poxa Vida; o jornalista Bob Fernandes, do Terra Magazine; o blogueiro Mauricio Cid, do Não-Salvo; e o publicitário Marcelo Tripoli, da agência iThink. Mas o papo que devia fluir para uma discussão com o público ganhou uma inesperada mão dupla, e dois diálogos aconteciam paralelamente.

E na medida em que o assunto era discutido no palco, aos poucos o público estourava de rir. As gargalhadas surgiam no meio de uma fala, muitas vezes entre as palavras, e não tinham nenhuma conexão com o que estava sendo dito no palco. Culpa do Twitter e de um telão.

Explico: a organização do evento colocou, à direita do palco, um telão em que eram exibidos os tweets feitos com a hashtag do evento (#youpix). Quem escrevesse algo no Twitter com essa marcação, tinha seu texto exibido no telão. Muitas vezes, os tweets eram comentários sobre o que já havia sido discutido no palco, quase todas as vezes engraçadinhos, e logo o público que assistia ao evento – que estava sendo transmitido via internet – começou a twittar piadas e gracinhas para entreter-se uns aos outros.

O detalhe é que quem participava do debate não lia o que estava escrito no telão, pois ele estava na lateral do palco. Assim, havia duas discussões: uma feita entre os debatedores e outra puxada pelo público.

Na hora, lembrei da participação de Mark Zuckerberg no festival South by Southwest Digital, de 2008, quando o público, irritado com a discussão que acontecia no palco, começou a twittar e reclamar sobre a qualidade do papo. Não temi um levante vindo da audiência, como o que ocorreu no evento no Texas.

Mas, para o bem do diálogo, seria mais interessante se o evento dispusesse um monitor com os tweets do telão voltado para os debatedores. Assim, a discussão e as brincadeiras virariam uma coisa só. Uma dica para a edição do ano que vem.

Ornette Coleman
27 e 28 de novembro de 2010
Sesc Pinheiros @ São Paulo

Nunca fui do jazz. Nasci entre os anos 60 e os 80, época em que o gênero degringolou para algo próximo do rótulo MPB no Brasil – aquela cerca feita para separar os adultos dos adolescentes – e, naturalmente, desandou para a chatice virtuose. Ao mesmo tempo, comecei a gostar de música numa época em que o rock havia se estabelecido comercialmente e a música pop havia atingido seu estado mais puro e perfeito, Abba, Madonna e Michael Jackson concretizando a profecia de Phil Spector. Fiquei completamente alheio ao jazz (ou “jás” como falavam os emepebistas) em meus anos de formação e só comecei a ouvi-lo com mais atenção graças ao formato digital: primeiro que permitiu o reempacotamento de discos difíceis de serem encontrados em deslumbrantes caixas de CD e depois graças à facilidade de contato com música antes inatingível, via conexões P2P online.

Foi através da rede que comecei a vasculhar os acervos das gravações de Miles Davis, John Coltrane e Charlie Parker, que já me haviam sido apresentados em box sets cheios de informações extras – faixas não utilizadas nos discos originais, fotos raras, textos e mais textos sobre os artistas em questão. E o que era apenas citado ou referido nos encartes – uma capa de disco, um artista citado quase casualmente – podia ser vasculhado online, nos anos em que o Napster ainda era legal (nos dois sentidos).

(Aliás, cabe um pequeno parêntese: quem hoje tem qualquer música de qualquer época do mundo à sua disposição com algumas poucas palavras-chave no Google não imagina como era difícil conhecer música antigamente. Era preciso estabelecer uma rede de contatos no exterior [sem email e com ligações internacionais caras pra cacete], ler míseras publicações sobre o tema [quantas eram as mais importante? Vinte?] que mal chegavam no Brasil ou viajar para o exterior para visitar lojas de discos, que, em outras eras, eram verdadeiros templos de consumo. Lembro do meu deslumbre em minha primeira viagem ao exterior ao encontrar, por exemplo, todos os discos do Velvet Underground relançados em CD, uma banda que, para mim, não passava de uma dezena de fotos, outra dezena de textos e uma fita cassete gravada pelo meu professor de história do segundo ano, o Serginho. Vocês não fazem idéia o que era ter de esperar mais de seis meses para ter alguma noção sobre como realmente soava uma banda cujo hype na Inglaterra ou em Nova York havia acabado de começar.)

E entre os inúmeros downloads que levavam horas para ser realizados (um disco durava o dobro de sua duração, em conexões boas, para ser baixado), um nome surgiu desumanamente sólido em minha frente: Ornette Coleman. Sempre deixava Miles ou Coltrane tocando no fundo de alguma situação que estava acontecendo, mas quando ouvi Something Else!!!! fui abalado fisicamente. Não era só Ornette – todos os músicos (Don Cherry no trompete, Walter Norris no piano, Don Payne no baixo e Billy Higgins na bateria) seguiam rumos particulares no meio da canção, para se reencontrar em uma determinada frase ou refrão, todos juntos, na mesma pegada. Um som tão forte e intenso quanto meus artistas favoritos por sua força e intensidade, mas ao mesmo tempo era elegante, moderno, apurado. E pesado. Não no sentido rock do adjetivo, mas no beatnik… Heavy stuff, man…

Depois que descobri que esse era o primeiro disco de Ornette como líder de uma banda, que ele trabalhava como ascensorista de uma loja de departamentos em Los Angeles e que escolheu músicos que conheceu nas redondezas, quase todos pós-adolescentes, como ele. Antes de saber de qualquer informação sobre o cara, não tive dúvidas: drenei tudo que tivesse a tag Ornette Coleman no meio e, por uns bons seis meses, passava horas e horas ouvindo-o demolir harmonia, melodia e ritmo com uma marreta cubista, liderando bandos de arruaceiros musicais que tocavam o terror em cima de melodias simples e compactas. E era uma audição freestyle: botava-o no shuffle e deixava-o correr pela madrugada, com ou sem fones de ouvido, sem distinguir, época, faixa, disco. Ornette Coleman era um colosso mitológico, cada fonograma de sua obra uma célula de um gigante fantástico, um lutador de boxe em escala bíblica.

Mas não fui com tanta sede ao pote nas duas apresentações de Coleman em São Paulo, no fim de semana. Por um simples motivo – sua idade. Em 2010, o velho Ornette crava seus 80 anos e era esperar demais que se entregasse a dezenas de minutos de demolição sonora no auge de sua vida. O clima nos dois dias era de reverência e ele não vinha apenas da platéia, entregue à grandiosidade da lenda, mas, principalmente, vinha do palco. A própria formação da banda já o colocava num novo patamar: Ornette, dois baixistas e um baterista. Tony Falanga pilotava o baixo acústico, que ganhava solenidade quando, com um arco, o transformava em um cello. Albert MacDowell, no baixo elétrico, também partia para o inesperado, fazendo seu instrumento soar como uma guitarra. Atrás, o filho de Ornette, Denardo, desenfreado, mexia-se sem parar na bateria apenas para soar minimamente em transe, num ritmo quase abstrato de tão quebrado.

À frente, Ornette, velhinho, caminhando devagar, quase sem conversar com o público e cochichando alguma programação no repertório, recostava-se numa banqueta e soprava seu sax – que, como esperado, pouca vezes atingia a intensidade dos velhos discos, levando toda apresentação para uma versão mais calma e mais compacta. Cada solo, por menor que fosse, era uma pequena viagem, um delírio zen, uma meditação palpável. Mas não estou falando em música calma e compacta, e sim destas qualidades associadas à música de Ornette Coleman, sempre imprevisível – a ponto de sacar um trompete ou um violino e continuar, em outro instrumento completamente diferente do seu, o discurso que vinha conduzindo no sax.

Cheguei atrasado no primeiro show e assisti tudo do alto do balcão, na última fila, e, apesar de ver os artistas à distância, manteve o mesmo impacto sonoro do que o show do domingo, que assisti a duas fileiras do palco. Neste, no entanto, aconteceu algo tão inusitado, que elevou a apresentação de culto religioso à pura magia. Ao fim de “Lonely Woman”, no tempo da bateria, cai a energia do teatro do Sesc Pinheiros – e acendem-se, imediatamente, as famigeradas luzes de emergência, atrás do público. Curto silêncio seguido de uma onda de murmúrios e cochichos, perguntando-se sobre a continuidade da noite, a infraestrutura da casa, um possível blecaute na cidade. Logo até as luzes de emergência se apagam e, no fundo, começamos a ouvir o tilintar do chimbau do baterista, seguido por uma linha de baixo que apresentava o sax de Ornette. Sem microfones, sem energia elétrica. A platéia entrou em êxtase por dez segundos e em seguida calou-se. “Dancing in Your Head” dançou em nossas cabeças sem que pudéssemos ver seus músicos, apenas a música solta no ar. E, no meio da música, voltam os microfones, um holofote encontra o baixista para depois achar Ornette e as luzes do palco voltarem a funcionar. Um desses momentos indescritíveis, em que a música torna-se intraduzível e a experiência ao vivo, única. Sem dizer uma palavra e com o acaso a seu favor, ele soprou sua força vital sem precisar de nada além de seu instrumento.


A energia acaba aos 4 minutos do vídeo

Ao final do segundo espetáculo, Ornette ainda se deu ao trabalho de cumprimentar o público do palco, fazendo surgir uma pequena multidão erguendo canetas e papéis para o velho boxeador autografar. E ele continuou ali, assinando papéizinhos e perguntando como se soletrava tal nome em português, por quase vinte minutos após o show.

Inacreditável.

(E se alguém quiser me ajudar dizendo quais os nomes das músicas que eu filme aí em cima, eu já agradeço de antemão)

Kraut São Paulo

Hallogallo 2010
Sesc Vila Mariana @ São Paulo
Terça-feira, 26 de novembro de 2010


“Hallogallo”

Durou quase uma hora e meia, mas pareceu menos de um segundo ou uma eternidade. Ao encarnar o robótico motorik no palco do Sesc Vila Mariana na terça-feira passada, o alemão Michael Rother parecia que iria levar o público para os anos 70 do krautrock, o influente rock psicodélico alemão de bandas como Can e Faust. Um dos protagonistas daquela cena, Rother era metade do Neu!, a dupla alemã que completava o Kraftwerk original no início daquela década, mas que, após romper com o núcleo-duro dos pais da eletrônica moderna (Ralf Hutter e Florian Schneider), resolveu seguir uma carreira própria. Formada apenas por Michael na guitarra e efeitos e Klaus Dinger na bateria, o Neu! não foi apenas uma das principais bandas deste período alemão como sintetizava sua essência rítmica em peças intermináveis que insistiam no mesmo ritmo, metronomômico, que seria associado eternamente ao gênero. E o pulso preciso e quadrado do krautrock, personificado essencialmente no Neu!, mas presente em todas as bandas deste período, talvez seja a principal contribuição musical daquela cena – o ritmo industrial e monótono como base para criações sonoras abstratas. É como se alguém tivesse tirado uma chapa do pulmão musical do século 20 e expusesse aqueles estranhos, mas calmos, padrões repetitivos como um mesmo fluxo sonoro – que pode ser alinhado ao próprio ritmo da vida…


“Karussell”

O problema é que o Neu! não durou muito tempo e gravou apenas três discos, no meio dos anos 70. Rother e Dinger tentaram uma volta nos anos 80, mas novas brigas fizeram o disco da segunda vinda ser arquivado e posteriormente pirateado. Desde então Rother insiste em voltar ou relançar o catálogo da banda, mas Dinger era categórico em não querer saber de nada do Neu!. O máximo que concedeu foi a autorização para o relançamento dos discos da banda, mas nada fora do que havia sido lançado originalmente, como Rother insistia.


“Neutronics 98”

Mas Dinger morreu há dois anos e Rother finalmente pode revirar a tumba do Neu!. A expedição arqueológica não apenas garantiu o relançamento de todo o catálogo do grupo em uma caixa cheia de extras, como garantiu a reencarnação ao vivo das músicas gravadas com o grupo. Para isso chamou o engenheiro de som Aaron Mullan, com quem trabalhou em uma apresentação de outra reencarnação vivida por Rother, o trio Harmonia, do qual fez parte após terminar o Neu!. Mullan também trabalhava com o Sonic Youth e imediatamente fez a conexão entre Rother e Steve Shelley, um baterista à altura do legado de Dinger, e assim os três deram vida ao projeto Hallogallo 2010, dedicado à obra de Rother no Neu!.


“Delux”

Há uma certa nobreza de Rother em não colocar seu nome no título da banda ao mesmo tempo em não querer dizer que o novo trio é uma reencarnação do Neu!. O grupo é batizado com o nome de uma das faixas mais emblemáticas do repertório associado à mitologia do original alemão, que batizou dois discos com o ano de seus lançamentos após o próprio nome. Mas ao mesmo tempo há um recorte específico sobre a obra do Neu! (nem todas as músicas são da banda, algumas são de seus discos com o Harmonia, umas de seus discos solo), pois foram escolhidos temas em que o baixo e a bateria seguram o ritmo de forma incessante, submetendo o público (repleto de artistas de música experimental da cidade) a um transe abstrato mas vivo, de fazer bater o pé ou balançar a cabeça. E isso era apenas um dos elementos do Neu! – a outra metade eram experimentações com velocidades de rotação e texturas sonoras, muitas delas com vocais. Esta segunda parte do Neu! ficou completamente de fora do show de terça passada.

Assim, o show em São Paulo primou pela presença dos convidados, uma cozinha segura e pesada, o baixo de Mullan sendo lentamente transformado em ritmo enquanto a bateria de Shelley alternava entre os pratos tocados com baquetas de ponta de feltro e o ritmo motorizado que logo mais conduzia as faixas. Quase todas elas começavam com Rother nos efeitos sonoros, manipulando texturas e microfonias até chegar a um ciclo específico de som, que dava margem para Shelley e Mullan determinarem o compasso dos próximos dez minutos. Dez minutos que pareciam ser meia hora ou um som eterno, que bate no pulsar da vida do planeta e que, por alguns instantes na semana passada, foram sintonizados eletricamente por dois nova-iorquinos e um alemão.


“Negativland”

Leia mais:
Neu!
Krautrock
Kraftwerk

E a minha coluna no Caderno 2 de ontem foi sobre os shows de Paul McCartney no Brasil.

Que músicas ele toca?
O mesmo show do Paul

Hoje e amanhã Paul McCartney faz mais dois shows no Brasil, quase vinte anos depois de ter vindo ao País para se apresentar pela primeira vez (dois shows no Rio em 1990 e dois shows em São Paulo e Curitiba em 1993). Mas, se no início dos anos 90 havia uma enorme expectativa sobre o que Paul poderia tocar em seus shows no Brasil, hoje não há motivo para especulação. Basta entrar no site setlist.fm para saber quais músicas que o ex-beatle tocou em todos seus últimos shows desde… 1990! O site, na verdade, reúne até informações sobre apresentações de Paul em 1972, mas desde o início dos anos 90 seu calendário de shows é bem completo.

O setlist.fm usa uma plataforma chamada wiki, que permite que qualquer um edite um texto online – é a mesma utilizada pela enciclopédia colaborativa Wikipedia. É um sistema de publicação que permite que os próprios fãs organizem as informações a respeito de seus ídolos. No caso do setlist.fm, dedicado apenas ao repertório de músicos em shows (e não apenas os de Paul), depois que o fã chega em casa após o show, ele abre um tópico relacionado ao show em questão e lista a ordem de músicas que reuniu. Se alguém escreve algo errado vem outra pessoa e corrige.

Por isso, quando fui assistir aos shows de Paul McCartney em Buenos Aires, na semana passada, já sabia de quase todas as músicas que ele iria tocar nas quase três horas de show. Mais do que isso: além da ordem das músicas, há um script muito bem ensaiado e imutável de show para show. Há a hora em que ele tira o paletó e fala que é “a única grande troca de figurino da noite” ou a homenagem aos dois ex-colegas de banda que já morreram ou as gracinhas que faz com o público. É tudo igual, muda só a bandeira que ele agita ao fim do show.

Mas tudo bem. Afinal foi Paul McCartney quem ajudou a inventar este sistema de música para as massas. Natural que ele queira repetir o mesmo show. Mesmo porque na segunda noite na Argentina, ele tirou da cartola a ainda inédita na turnê Bluebird. Ou seja: ainda cabe espaço para o improviso.

O Homem-Mashup
Você conhece o Girl Talk?

E na mesma semana em que se apresentou pela segunda vez no Brasil (ele encerrou, na noite de ontem, a edição deste ano do festival Planeta Terra), o DJ e produtor norte-americano Gregg Gills, conhecido pelo apelido de Girl Talk, ofereceu seu disco gratuitamente para download no site de sua gravadora, devidamente batizada de Illegal Art. Gills é conhecido por, desde 2006, compor álbuns usando apenas pedaços de músicas alheias – daí o peculiar nome de sua gravadora. Nada do que está no disco foi composto ou gravado pelo produtor, que apenas usou seu computador para misturar pedaços de músicas alheias e compor mais uma longa sinfonia esquizofrênica dentro da estética do mashup, em que canções de diferentes estilos se colidem para gerar músicas novas. All Day, o nome do novo disco, pode ser baixado de graça no site da gravadora (www.illegal-art.net/allday) e se alguém quiser saber todas as músicas que Gills usa no disco, basta entrar no site alldaysamples.com, feito por fãs, para ouvi-lo com a descrição de cada música utilizada para compor seu novo álbum.

Beatles à venda
Os Beatles finalmente chegam ao formato digital, com atraso de mais de uma década

O anúncio veio com menos alarde do que o previsto. Por muito tempo, a Apple brincou com a possibilidade de, em uma de suas já históricas coletivas motivacionais, apresentar a chegada dos Beatles à era digital.

Como dois de seus principais produtos são um aparelho (o iPod) e um serviço (a loja iTunes) que estão diretamente ligados à música, a magistral Mac máquina de publicidade aludia a alguma referência beatle – um trocadilho, uma forma de dispor as palavras – que levava a especulação fervorosa dos fãs da marca e da imprensa especializada a quase sempre cogitar o encontro das duas maçãs mais famosas do showbusiness: a gravadora dos Beatles e a grife de Steve Jobs.

Mas o tempo foi passando e, se negociar com gravadoras e editoras já havia sido um árduo aprendizado para a Apple, lidar com os Beatles foi uma longa novela que durou mais de uma década. Até que, na segunda-feira da semana passada, o site da loja online anunciava que “amanhã seria um dia como qualquer outro. Que você não irá esquecer”.

A única pista dada para o anúncio ser o catálogo dos Beatles em formato digital oficialmente pela primeira vez era elegantemente discreta – e dispunha quatro relógios de ponteiros anunciando a hora em que o anúncio seria feito na terça. O par de ponteiros de cada relógio imitava a famosa capa de Help!, dos Beatles, em que o grupo teoricamente soletra o título do álbum com os braços, usando o alfabeto de bandeira usado em aeroportos (embora, na prática, o que os quatro escrevam com bandeiras seja… NUJV!).

Talvez a discrição no lançamento tenha a ver com o fato de o grupo ter adiantado sua entrada no universo digital no ano passado, ao lançar o game Beatles Rock Band e não ter convidado a Apple para a estreia.

O fato é que, desde a terça-feira passada, mais de dez anos depois do Napster ter permitido que qualquer um baixasse qualquer disco no conforto de seu lar, os Beatles finalmente se dispuseram a lançar seu catálogo no formato digital. São os 13 discos oficiais e a coletânea Past Masters, que reúne as faixas que só saíram em single. E eles podem ser comprados separadamente por US$ 12,99 (US$ 19,99 no caso da coletânea e do Álbum Branco, ambos discos duplos, em CD) ou num só pacote, por US$ 149. A discografia completa ainda vem com a íntegra do primeiro show dos Beatles nos EUA em vídeo. E as faixas podem ser vendidas separadamente, a US$ 1,29.

E mesmo com o atraso, o lançamento pode ser considerado um sucesso, ainda levando em conta o preço das faixas avulsas e o fato de que faz quase 10 anos que dá para comprar a discografia dos Beatles em MP3 em CD-Rs de camelô. Antes tarde do que nunca.

Mashupman

Ilegal de propósito
Desrespeitando os direitos autorais, o produtor Girl Talk lança mais um disco de graça

Exatamente no mesmo dia em que os Beatles colocavam seu catálogo online à venda, o DJ e produtor norte-americano Greg Gillis surgia com um novo disco prontinho para download. E, diferentemente dos discos de John, Paul, George e Ringo, All Day não custa nada para ser baixado – embora o ouvinte seja convidado a contribuir com o lançamento pagando a quantia que achar justa, mesmo que ela seja zero.

O novo disco do produtor, mais conhecido pela alcunha de Girl Talk, segue exatamente o mesmo padrão dos dois trabalhos anteriores, Night Ripper (2006) e Feed the Animals (2008): ele está para download no álbum de sua gravadora (chamada Illegal Art) de forma gratuita mesmo que nenhum dos envolvidos tenha direito sobre as músicas usadas para a composição do álbum. Explico: em vez de gravado, All Day – como os outros discos do Girl Talk – é composto apenas usando trechos de músicas alheias, grande parte delas hits de artistas consagrados.

Justamente por isso ele se tornou uma espécie de símbolo da cultura livre que ajuda a reinventar os conceitos de direitos autorais na era digital. O DJ foi um dos principais personagens do documentário Good Copy Bad Copy e sua entrevista era pontuada por observações do advogado Lawrence Lessig, criador da licença alternativa Creative Commons, que tratava Gillis como exemplo de um artista do século 21 que, se fosse atuar pelas leis do século 20, não conseguiria fazer música. Talvez por isso consiga lançar seus discos sem se preocupar com processos da indústria fonográfica. A menor menção a uma ação judicial contra ele já seria o suficiente para acionar advogados e ativistas da cultura livre e transformá-lo em mártir desta nova realidade. Enquanto isso, ele segue lançando seus discos – e fazendo shows inacreditáveis, apenas com seu laptop.

Ronex (1978-2010)


Foto: Eugênio Vieira

Piracicaba já foi terra de rock. Há mais de uma década, a cidade do interior paulista que melhor simboliza o caipira destas paragens respirava ares carregados de eletricidade estática. Culpa de uma única banda, quatro malucos que resolveram encarnar o Sonic Youth antes que a banda de Thurston Moore virasse trilha sonora de volta de skate. Era o Killing Chainsaw, grupo que ligou o interior paulista na tomada na marra e fez que o rock alternativo dos anos 90 ganhasse algum sentido para além da Anhangüera ou da Bandeirantes. E dos nomes que mais prometiam entre as bandas que apareceram no rastro do Killing, uma delas era o Crush Hi-Fi, liderado pelo Ronex, que morreu entre ontem e hoje.

Lembro de quando ele me deu o disquinho, no tempo em que CD-R era novidade entre as bandas novas, que ainda registravam-se na fita K7. MP3? Hahahahaha, boa. Estou falando do final dos anos 90, antes do Napster liberar geral, quando banda larga era apenas um exercício de futurologia e baixava-se uma música em uma hora. Lá estava a banda, novata na cena do interior de São Paulo, que acompanhei neste período, exibindo não apenas um disquinho todo bonitinho no que dizia respeito ao acabamento gráfico, mas também sonoro. Era uma época em que o som que o Slint fazia ainda não tinha sido batizado de pós-rock – e havia um certo verniz de Slint por sobre a base noise característica da cidade-natal da banda.

O Crush Hi-Fi até segurou a bandeira do noise piracicabano por alguns meses, mas em pouco tempo o cenário indie brasileiro, ainda na idade da pedra, começava a mudar. Em poucos anos, cantar em inglês ou fazer barulho já não eram qualidades bem quistas entre este mercado – esta mudança pode ser epitomizada no Los Hermanos, mas era um processo lento, que já vinha se desdobrando desde 95, 96… A chegada da internet como veículo em que as pessoas podiam conhecer música não só acelerou este processo como enterrou de vez a geração Juntatribo, que teve de se virar para seguir fazendo sentido. E foi assim que o Pato Fu assumiu seu lado mais pop, os Raimundos acabaram, D2 saiu sambando em carreira solo, apareceram os Autoramas e o Bidê ou Balde. E foi assim que algumas dezenas de bandas (centenas?) foram varridas para baixo do tapete da história. Entre elas, o Crush Hi-Fi.

Ronex depois mudou-se para São Paulo, mais ou menos na mesma época em que vim para cá (primeira metade da década passada), e era figurinha onipresente nas hoje distantes noites de quinta-feira no Milo – e era companhia das melhores. Largo sorriso no rosto, uma empolgação contagiante e sempre um comentário sobre uma banda nova ou um projeto novo que estava começando. Tentou seguir na música o quanto pode e, depois que voltou para Piracicaba, há alguns anos, transformou seu Royales – uma das muitas encarnações posteriores do Crush Hi-Fi – em banda de baile, em que tocava todas as músicas que gostava – e até arriscava umas próprias.

Há mais de um ano não falava com ele direito, trocava apenas mensagens rápidas via rede social, email ou MSN, cumprimentos sinceros que serviam apenas para azeitar a amizade. Havia sumido da minha rotina faz tempo, mas havia a sensação, quase sempre acompanhada de boas notícias, de que a vida do compadre seguia bem.

Até que hoje cedo o Ronaldo me ligou para dar a péssima notícia (não se culpe, alguém tem de fazê-lo). Nem sei bem do que ele morreu, mas isso não importa. Fica o vazio de uma personalidade tão otimista, de alguém com pique e disposição para fazer o que achava certo, que eletrizava qualquer rodinha de cigarros ou cerveja e que era querido por muitos.

Fará falta, rapá. Fica bem onde você estiver.

Minha coluna no Caderno 2 neste domingo foi sobre o Scott Pilgrim.

Muito além da MTV
A geração déficit de atenção

Scott Pilgrim Contra o Mundo estreou na semana passada e segue em cartaz em poucas salas, mas vale o esforço para assisti-lo na telona. Baseado nos quadrinhos de mesmo nome, escrito e desenhado pelo canadense Bryan Lee O”Malley, o filme começa contando o cotidiano de uma banda de rock iniciante, com foco em um de seus integrantes, o Scott do título.

Parece que vamos apenas acompanhar o cotidiano trivial de uma turma de universitários largados, mas em pouco tempo a história dá um salto e mexe completamente no ritmo bucólico e entediante daquela rotina.

A história em si – Scott tem que enfrentar os sete ex-casos de uma nova paixão, uma menina de cabelo colorido chamada Ramona – não é grande coisa.

Mas a forma como ela é apresentada talvez faça do filme um dos mais influentes deste ano, principalmente no que diz respeito à estética.

Um tanto dessa culpa vem do próprio quadrinho original, que transforma a briga de Scott com seus rivais em um cenário de videogame em que cada ex de Ramona é o equivalente a um chefão de fase, como nos jogos eletrônicos.

Mas o filme vai além de simplesmente adaptar a linguagem dos games para o cinema, coisa que já foi tentada por vários diretores antes desse filme.

O trunfo do inglês Edgard Wright é usar o videogame como mais um dos elementos para compor uma narrativa moderna, de edição ágil e cortes rápidos, e que fuja do padrão MTV, quase sempre associado a esse tipo de recurso.

O problema é que o formato inventado pela MTV já tem mais de 30 anos – e ainda é associado a uma narrativa “jovem” e “descolada” (adjetivos entre aspas, pois são normalmente ditos por pessoas que não são jovens nem descoladas).

Em Scott Pilgrim, Wright leva esse conceito para linguagens que estão mais associadas à modernidade do que um canal de TV que exibe videoclipes.

É aí que ele injeta os games e a internet como referência. Os jogos são evidentes desde a primeira cena – o logo do estúdio Universal exibido como se fosse um game do Mega Drive – e a internet entra junto com a onipresença atual do texto escrito, em que palavras, termos, frases e listas surgem como links ou tags junto às cenas.

Assim, Scott Pilgrim Contra o Mundo pode parecer rápido demais até para quem é acostumado à linguagem MTV. Talvez porque tenha sido feito mirando em uma geração que, vista de fora, parece sofrer seriamente de déficit de atenção. Só isso já vale o filme.