Materinha que escrevi no Link de hoje, sobre a banda Robotanists, que regravou o King of Limbs em menos de um dia após seu lançamento.

Foi o tanto de milésimos de segundos que a banda Robotanists levou para tirar de ouvido e gravar sua versão para o 8º disco do Radiohead, lançado na semana passada. Ao mesmo tempo, Thom Yorke virava um meme
Começou há duas semanas. Quase quatro anos sem lançar nada, o grupo inglês Radiohead anunciou que tinha gravado o novo disco e que o lançaria em menos de uma semana. A estratégia foi parecida com a do lançamento do disco anterior, mas com algumas novidades. Em vez de perguntar ao público quanto valeria o disco, estabeleceu preço para o download. Chamou o disco de “newspaper album” (álbum-jornal) sem explicar o que seria isso. E anunciou o título do disco: The King of Limbs. Era uma segunda-feira. O novo disco estaria disponível para download no sábado.
Antes mesmo de seu lançamento o disco já causava burburinho entre os fãs da banda – e junto da expectativa, especulações que cruzavam músicas tocadas ao vivo que não haviam entrado em discos com artistas que o Radiohead havia elogiado em entrevistas. Mas, nos Estados Unidos, um grupo de amigos aguardava o novo álbum e transformou a espera num desafio. Juntos, os cinco formam a banda Robotanists, que se propôs à tarefa de tirar todas as músicas do disco e regravá-las em menos de 24 horas após seu lançamento.
“Quando o Radiohead anunciou que lançaria um novo disco, queríamos voltar ao estúdio e ao mesmo tempo pensamos que isso poderia ser uma oportunidade única de nos propor um desafio musical”, me explica a vocalista da banda, Sarah Ellquist. “Seria um exercício interessante tentar gravar um disco que nunca havíamos ouvido num curto período de tempo. Fizemos isso apenas para nos desafiarmos, somos grandes fãs do Radiohead, por isso tentamos manter a integridade original das canções, forma e harmonia, dentro das condições em que trabalhamos.”
A banda começou a trabalhar um dia antes, já que o Radiohead antecipou o lançamento, que aconteceria no sábado, para a sexta anterior. E começou por onde todos os fãs da banda começaram: “Lotus Flower”. Faixa de trabalho do disco, ela chegou à internet antes mesmo do resto do álbum em um inusitado clipe que trazia o vocalista do Radiohead, Thom Yorke, dançando sozinho quase aleatoriamente, num meio-termo entre a cara de pau e a dança moderna.
A dancinha virou hit – e na própria sexta gente do mundo inteiro começou a superpor as cenas do Yorke dançarino a todo tipo de música. No Brasil, duas em especial pegaram na veia – em uma versão, o vocalista do Radiohead dançava Claudinho e Buchecha, em outra, sambava feito a Globeleza. Enquanto isso, os Robotanists fritavam para tirar o disco nota por nota.
“O mais difícil foi descobrir a métrica e a forma das músicas”, continua Sarah. “São canções complexas que vão por caminhos incomuns, então tínhamos de pensar nelas como compositores. ‘Little by Little’ foi a mais difícil, de longe. Ela tem uma métrica padrão, mas passa uma sensação de ritmo atravessado, por isso penamos para escolher a batida e acertar os vocais”.
Além do fato dos vocais das músicas serem interpretados por uma mulher, uma das melhores coisas de Robotanists Does Radiohead The King of Limbs in 24 Hours é perceber que, apesar das texturas e beats que lembram música eletrônica, o disco é todo tocado por músicos de verdade, como o próprio álbum original.
A diferença básica é que se no Radiohead é difícil perceber o que é humano e o que é eletrônico, isso não acontece com os americanos. Tachado de “difícil”, The King of Limbs caiu nas graças dos Robotanists instantaneamente: “Quando você passa tanto tempo fazendo uma coisa só, você acaba descobrindo suas falhas, mas ficamos surpresos e animados a cada nova música com a sutileza geral do disco. O Radiohead segue expandindo o vocabulário musical de seus fãs. Se você não gostou do disco à primeira audição, passe mais tempo com ele, pois este tipo de complexidade é cada vez mais rara na música popular atual”, conclui Sarah. O disco pode ser baixado no site da banda, Robotanics.com. De graça.
Minha coluna no 2 de hoje pega o gancho do Oscar para falar de TV e internet.
Televisão social
Hoje todos veremos o Oscar juntos
A TV já foi o centro do lar e agregadora de atenções. Sua ascensão, após a Segunda Guerra Mundial, fez com que o momento de união da família, antes à mesa ou na missa, mudasse para a sala de estar, ao redor da luz branca dos raios catódicos. Mas, como já disse aqui em outras oportunidades, a TV deixou de ser o centro das atenções à medida que o computador foi ganhando espaço dentro da casa. Primeiro veio um, que era de uso da família. Depois ele começou a aparecer no trabalho e logo foi para outros cômodos, tornou-se portátil e, se não chegou a deixar a TV em segundo plano, conseguiu tirá-la do foco central doméstico.
E isso fez muitos se perguntarem se o computador estaria matando o aspecto social da TV, em que famílias e amigos se reúnem em frente do aparelho para discutir a novela, o jogo ou o programa da vez. O Oscar, cuja cerimônia de premiação será exibida hoje para todo o mundo, era um desses eventos.
Era? Em tempos de redes sociais, pode até ser que as pessoas não façam mais festas para assistir ao programa num mesmo cômodo. Mas não há nenhuma dúvida de que a audiência global do programa estará com um olho na TV e o outro no monitor ou na telinha do smartphone. As pessoas podem não estar mais virando para o lado e comentando o vestido da tal atriz, a piada sem graça do apresentador tal ou a bobagem que o dublador traduziu errado. Mas estão falando isso para todo mundo, no Twitter, no Facebook, em blogs, comentários de sites ou de trechos de vídeo que vão parar no YouTube antes mesmo de o programa terminar.
Foi assim com o enterro do Michael Jackson e no Grammy, é assim em qualquer grande jogo de futebol ou no Big Brother. E vai continuar sendo assim… até o dia em que a televisão se misturar com a internet de vez.
E aí temos uma boa resposta para uma das questões que mais afligem produtores de conteúdo e veículos de comunicação. Os blogs serão mais importantes do que os jornais? O YouTube já é mais importante do que a TV? A mídia tradicional será suplantada pela social?
Tudo indica que não. Que ambas plataformas se misturarão num ambiente em que a grande mídia pauta uma conversa que se desdobra num diálogo que segue na audiência. E daqui a pouco teremos telinhas de chat no canto da TV, tweets aparecendo embaixo da imagem principal e links pra Wikipedia para descobrirmos quem é aquele tal ator. E a TV vai ser mais social do que jamais foi.
Spoilers abaixo, pra quem ainda não viu o filme do cara…
Mas afinal, Exit Through the Gift Shop é um documentário? A história do picareta que fingiu ser um documentarista e acabou virando artista e só então objeto de um documentário é real ou é mais um golpe genial de recontextualização de realidades que caracterizam toda a obra do inglês? Thierry Guetta jura que sua história é “100% real” e sustenta que há provas para validá-la, caso seja necessário. O artista, que agora atende pelo codinome de Mr. Brainwash e é um artista de sucesso, inclusive irá para a cerimônia do Oscar deste domingo, trajando Dolce & Gabbana. O próprio Banksy também sustenta que seu personagem, por mais incrível que possa parecer, é real.
Documentários fake, que misturam elementos de realidade e ficção tentando fazer que o espectador não perceba a linha entre a verdade e a mentira, são mais do que uma tendência dos últimos anos, e se consolidam como um dos principais tons do século 21. É uma discussão que envolve os túneis-de-realidade descritos por Timothy Leary, questões metalingüisticas (ave RAW), o jornalismo, a publicidade e o showbusiness, do humor de Borat e Office, passando pelos reality shows e pela apresentação de Ricky Gervais no Globo de Ouro deste ano.
Falando especificamente de cinema, mesmo que exemplos anterores já possam ter surgido nos primeiros filmes dos Beatles ou do Woody Allen, é, de novo, Orson Wells quem define este gênero, em F for Fake. O filme de 1973, na verdade, reúne elementos que já haviam sido experimentados por Wells em diferentes fases de sua vida – tanto a locução da chegada dos alienígenas de Guerra dos Mundos em 1938 quanto o fato de o personagem principal de Cidadão Kane ser inspirado em uma personalidade de verdade já brincavam com os limites da realidade e da ficção. F for Fake leva essa discussão para um outro patamar e pergunta quem é o autor, quem é a obra, o que é autoria, misturando cinema, magia, o maior falsificador de todos os tempos e Pablo Picasso.
O filme de Banksy parece ser uma continuação ou homenagem de F for Fake e, como seu antecessor, também escrotiza por completo o mercado de artes, tratando-o como farsa. Mas o fato de ser um documentário sobre alguém querendo fazer um documentário e por seu autor final ser uma das celebridades mais anônimas do mundo (quem é Banksy? Quantos são? É ele mesmo em frente à câmera, com a voz distorcida?), torna a premiação de hoje especialmente curiosa, basicamente por um ponto: e Exit Through the Gift Shop ganhar, quem irá receber o prêmio? Ou melhor: o que irá acontecer? E se o documentário for desvendado como farsa?
E mais: ao desmascarar uma farsa (seu filme) dentro de outra (o Oscar), Banksy não estaria sendo um documentarista de fato, revelando os próprios podres e os do showbusiness? Não seria ele, como o Zizek disse ao descrever o Assange, uma espécie de Coringa no último filme do Batman, que põe tudo à iminência do colapso apenas por ameaçar contar a verdade?
Em breve, saberemos. Esta noite.
Enquanto um monte de gente tentava decifrar o sentido – ou simplesmente se entediava ao ver quem fazia isso – de The King of Limbs, o resto dos ouvintes do mundo estavam dando atenção ao novo single de Britney Spears. “Hold It Against Me”, no entanto, é uma decepção. A música é uma colcha de retalhos de pedaços que poderiam virar canções, caso trabalhados em separado. Uma estrofe sem alma conduz a música para um clima de de pista, com beats secos e diretos que de uma hora pra outra descamba num refrão de balada teen chorosa, que não emenda com nada. Não bastasse isso a parte final da música ainda tem um exercício de virtuosismo de vocoder que não deveria ter saído da piada interna.
E ainda tem o clipe, um festival de nonsense hi-tech superproduzido, em que é notória a influência de Lady Gaga, como também a completa falta de noção de quem o conduziu. Lembra aqueles clipes do filho da Jane Duboc (como é o nome dele mesmo?) se eles fossem bancados pela Globo, que resolvesse chamar o Guel Arrais para fazer uma paródia de filmes de ficção científica de Hollywood. Ou algo como se o Michael Bay fosse o diretor do Perdidos na Noite, o velho programa do Faustão, e o tema da vez fosse Matrix. O mais provável é que tenha alguém cheio de grana pra torrar pirando em parâmetros de fodice que só fazem sentido na cabeça de publicitários – e o clipe ainda faz referência explícita à publicidade (o perfume de Britney, como se houvesse alguma sutileza. Tudo errado. Tem até uma luta no final do vídeo (bem na hora do vocoder, pra piorar). Mesmo assim, o single foi ao topo da parada (seja lá o que isso queira dizer hoje em dia).
Talvez um bom método de comparação do impacto de Britney seja colocar o novo clipe – do canal oficial – ao lado do novo clipe do Radiohead e comparar o número de vezes que cada foi visto. No meio da tarde desta terça, Britney já tinha passado dos dez milhões de views e o Thom Yorke dançarino acabara de passar dos quatro milhões. Se isso serve de medida pra alguma coisa, talvez seja que o Radiohead esteja ficando grande demais (ou não, porque boa parte desses views são repeats eternos dos megafãs da banda)…
Mas será que Britney perdeu o momentum? Ou será que ela tem algum ás na manga?
Ora vejam só. Aguardemos.
A minha coluna no 2 de ontem foi sobre o The King of Limbs, e mesmo tendo sido fechada antes do lançamento do disco, na sexta, não invalida o que foi publicado ontem.
Sem medo de ousar
Radiohead e o artista do século 21
Aconteceu de novo, na semana passada. Depois de mais de três anos do lançamento de seu disco mais recente, In Rainbows, o grupo inglês Radiohead pegou todo mundo de surpresa ao anunciar, na segunda-feira, que seu novo disco estava pronto e seria apresentado ao mundo em menos de uma semana. Foi exatamente como aconteceu em 2007. Na época, o Radiohead começou a postar notícias cifradas em seu site para, em menos de uma semana, anunciar que tinha disco novo pronto e que ele seria lançado online em menos de uma semana. Não bastasse isso, o grupo liderado por Thom Yorke ainda ousou ao propor que o próprio público dissesse quanto gostaria de pagar pelos MP3 – mesmo se não quisesse pagar nada.
Corta para 2011 e o anúncio de The King of Limbs foi feito igualmente no susto. A grande diferença, no caso, foi que desta vez a banda não perguntou quanto valia a obra. E propôs preço para o disco ainda inexistente: US$ 9. Além da versão digital, a banda também avisou que lançaria uma edição “física” do álbum, que incluiria, além do CD, dois discos de vinil, cartões e “625 pequenas obras de arte”, seja lá o que isso queira dizer. Também anunciou que o disco talvez fosse o primeiro “álbum-jornal” do mundo, também sem explicar nada sobre o que seria isso. Quem comprar a versão não digital teria de desembolsar US$ 48, preço de envio incluso, e esperar para recebê-lo a partir do dia 9 de maio.
Até o fechamento desta coluna, o álbum ainda era um mistério, mas é bem provável que hoje, pleno domingo, você já tenha lido as primeiras impressões sobre ele e talvez já o tenha até ouvido. Mas mesmo que você nem saiba o que é Radiohead (na minha nada modesta opinião, a melhor banda do mundo hoje, ponto final), saiba que eles são os pioneiros e talvez o maior nome entre os grandes do entretenimento mundial na forma de lidar com o mercado digital.
Basicamente porque eles não têm medo de experimentar. E não só musicalmente. Há uma reclamação constante de que para o Radiohead é muito fácil fazer isso, uma vez que a banda surgiu e cresceu nos tempos em que as grandes gravadoras mandavam no que deveríamos ouvir. Mas eles poderiam simplesmente continuar vendendo seus discos sem nenhuma novidade. Ao contrário, eles não apenas abraçam a novidade como não têm medo de ousar.
E sabem que, para o artista do século 21, arte e mercado têm de ser vistos como se fossem a mesma coisa.
Escrevi na capa do Link de hoje, sobre as especulações do mercado digital nos EUA e uma possível formação de uma nova bolha. Além do meu texto abaixo, vale conferir as opiniões do Renato Cruz (que acha que vai ter bolha) e do Pedro Doria (que acha que não) no site do Link. Também recomendo dar uma olhada no Personal Nerd que a Carla e o Murilo fizeram para explicar o que foi a bolha de 1999. E a ilustra abaixo, que veio deixo a capa de um caderno de cultura digital com cara de anos 50, é do Farrell.
Prova de fogo
Anúncios de abertura de capital podem inflar uma nova bolha, como a de 1999
No início da retrospectiva de 2010 do Link, escolhemos o crescimento global do Facebook como um dos principais acontecimentos do ano passado. E, na matéria da capa da edição de 5 de dezembro, a repórter Carla Peralva entrevistou o autor do livro O Efeito Facebook (ed. Intrínseca), David Kirkpatrick. E, ao comentar como seria 2011 para a maior rede social do mundo, ele não pestanejou: “De onde veio o botão ‘Curtir’ vem muito mais. Especula-se que, quando o Facebook lançar suas ações na bolsa, a capitalização será tão alta que ele poderá ser a primeira empresa de um trilhão de dólares”.
Um trilhão de dólares? Nenhuma empresa na história chegou nem sequer à metade deste valor. No dia que estávamos fechando esta matéria, fui conversar com o repórter de economia Renato Cruz, que arregalou os olhos e foi consultar sua base de dados. US$ 419,4 bilhões é o preço da empresa mais valiosa do mundo, a Exxon. Cruz perguntou quem havia falado este valor, desconfiado, e ao quando disse quem era o autor – Kirkpatrick trabalhou por anos na revista Forbes –, ficou claro que não era só sensacionalismo.
Quando 2011 começou, veio uma série de notícias mostrando que, sim, havia uma expectativa muito grande em relação ao aumento de investimentos em empresas digitais – não só o Facebook. Embora a própria rede de Mark Zuckerberg tenha aberto o ano das especulações, ao ser valorizada, no primeiro dia útil do ano, em US$ 50 bilhões.
Não parou por aí. Janeiro ainda viu a rede social profissional Linkedin anunciar que abriria capital na bolsa norte-americana e viu seu preço subir para US$ 175 milhões. Analistas avaliaram o Foursquare, uma rede social há menos de dois anos em US$ 250 milhões. O site de compras coletivas Groupon, que quase foi comprado pelo Google no fim de 2010 por US$ 6 bilhões, estaria valendo US$ 15 bilhões. O Twitter dobrou de valor em menos de dois meses (de US$ 3,7 bi passou a valer entre US$ 8 bi e US$ 10 bi). Fevereiro viu a empresa de games sociais Zynga ser avaliada em US$ 10 bi e o blog Huffington Post ser vendido para a America Online por US$ 315 milhões. É muito dinheiro.
A última vez que se viu tanto dinheiro assim entrar no mercado de empresas digitais foi no final do século passado, quando os negócios da web passaram por seu primeiro grande trauma: a famigerada bolha de 1999 (veja mais no Personal Nerd ao lado). Será que este monte de dinheiro sendo injetado de forma tão rápida não seria indício que estaríamos assistindo a uma nova bolha se formando?
A bolha da web 2.0 é uma bola que vem sendo cantada desde os tempos em que o MySpace era uma rede social importante. Mas no início do mês, o ainda CEO do Google, Eric Schmidt (que deixará o cargo no próximo mês de abril), disse em entrevista a uma revista suíça que “há claros indícios de formação de uma bolha.”
Há quem discorde. Mas se lembrarmos que no início deste ano empresas como Netflix, Pandora e Zipcar viram seus valores aumentarem inesperadamente pelo simples anúncio de abertura de capital. E nomes grandes como Facebook, Linkedin, Twitter, Skype, Groupon e Zynga ainda estão para se tornar empresas públicas, não duvide que muito mais dinheiro será entornado neste ano. É a prova de fogo para o mercado digital. Se ele sobreviver a esta possível formação de bolha, aí sim estaremos em uma nova fase.
A marginal Tietê no horizonte foi um programa mais interessante
Não costumo ver o Grammy: acho chato e sem graça, como qualquer premiação de qualquer indústria. “E o prêmio de melhor radiologista do ano vai para…”. Poizé, bem nessas. Mas, depois de todo alarido sobre a edição deste ano (fãs do Arcade Fire em puro delírio Double Rainbow, que porra), me deparei com a reprise da premiação ontem à noite e, de vacilo, assisti. E nem precisava ter visto para saber que era uma premiação da indústria chata e sem graça como sempre. Lady Gaga agradecendo Whitney Houston? Cee-Lo Bornay com o hit da autocensura, Muppets e a mulher do Coldplay querendo abrir uma carreira de cantora? Norah Jones é um remédio pra dormir? E a Rihanna com o Eminem (zero química, música insuportável)? Katy Perry é tipo Hole disfarçado de pop. Mick Jagger soulman depois de velho? Nem Bob Dylan depois da tosse conseguiu segurar cantando sua própria “Maggie’s Farm” com os Avett Brothers e os Mumford & Sons (estes, vale frisar, fizeram bonito em seu momento). Não é nem que tudo estivesse errado – e esse era o problema -, tudo estava certo DEMAIS.
O grande momento da noite foi a apresentação de Justin Bieber e Usher, a própria indústria lustrando suas engrenagens e colocando dois jovens talentos do showbusiness pra exibir seus dance moves. É o momento Off the Wall/Thriller de Justin Bieber sendo preparado a fogo brando, mas se o moleque tem carisma o suficiente para sobreviver à sua falta de talento (Bieber é, basicamente, ensaio, ensaio e ensaio), ele devia não assumir o paralelo tão evidente com Michael Jackson, imitando vários de seus trejeitos no palco. Tudo bem que Michael ajudou a inventar este gênero, afinal toda coreografia teen pós-Take That é descendente direta do livro escrito por Michael, Prince e Madonna nos anos 80, mas é só ver Usher (ou lembrar de outro Justin – Timberlake), para lembrar que não é preciso citar o rei do pop para reverenciá-lo. Bieber ainda serviu de escada pro Jaden Smith, o filho do Will, brilhar. Enquanto preparam a maturação de Bieber, que aos poucos, er, “engrossa” a voz, esquentam a chegada desse mini Will Smith, que é um geninho do showbusiness. Sério, quando chegar a vez dele, aí sim temos um candidato ao trono de MJ em ação.
E entre estes medalhões e sumidades, um monte de prêmios sem graça pra artistas sem graça que só dizem respeito ao mercado norte-americano. Nesse sentido, o grande vencedor da noite não foi o Arcade Fire e sim o tal Lady Antebellum (quem?) e a dualidade entre artistas tão diferentes (quem porra é esse tal de Arcade Fire?, perguntam-se ouvintes por todos os EUA) mostra o verdadeiro tom da premiação. Desculpem-me os fãs, mas Arcade Fire é tão mingau de música quanto o Lady Antebellum ou qualquer outra cantora country desconhecida que subiu para receber seus prêmios. Não é à toa que ganhou o prêmio de álbum do ano.
Não me impressiona, porém, o fato de a decadente indústria da música recorrer ao indie rock para tentar preservar alguns de seus valores, muitos celebrados na festa de domingo. Na verdade, estão mordendo a própria língua. Afinal, o rock alternativo só começou a existir enquanto gênero e indústria depois que as grandes gravadoras se voltaram para um formato mais palatável e massificado para a música que merecia ser vendida, deixando para trás referências como autoria, arranjo, letras, personalidade e sensibilidade (qualidades que tiveram que fugir para um mercado menos competitivo para sobreviver). Começou com a disco music, teve o auge com Michael Jackson e Madonna nos anos 80, colidiu com o grunge (motivo da existência de nulidades como Nickelback e Creed) e depois misturou tudo com o caldo do hip hop.
No topo do pop, a música é cada vez menos personalizada e mais genérica, reduzindo-se a um meio-termo entre o ringtone, o jingle e o grito de torcida. Basta um refrão insistente com uma frase idiota repetida mil vezes sobre uma batida reta e coberta de efeitos especiais e, pronto, eis um hit, um popstar, um fenômeno, uma carreira, uma discografia. “Baby Baby”, de Justin Bieber, é o melhor exemplo do fundo do poço autoral em que se encontra a indústria musical. Então o jeito é apelar pros indies, para não ter que prever um futuro em que os principais hits da semana serão “ÔÔÔÔÔÔ”, o nome de um refrigerante repetido mil vezes e a regravação daquela música que já foi regravada tantas vezes que você nem mais lembra de quem era.
E, no meio da reprise do Grammy, lembrei que perdi o programa ao vivo porque estava na estrada, voltando da praia. Me pareceu um programa mais interessante – a Carvalho Pinto de noite, aquele monte de pedágios, a marginal surgindo no horizonte – e não tive dúvida: mudei de canal pra assistir o Land of the Dead, que também estava passando na TV. Show de horror por show de horror…
Minha coluna no Caderno 2 ontem foi sobre o Twitter em 2011…
O último ano do Twitter?
O passarinho azul subiu no telhado – e parece que vem outra bolha por aí…
Tweets, trending topics, retweets, seguidores, hashtags, unfollow, #FF, @username… Toda essa terminologia já era conhecida de um punhado de usuários do Twitter antes da explosão da rede social, em 2009. Em 2010, o mundo inteiro abraçou o site – até mesmo o Brasil, tradicionalmente acostumado a uma vida digital paralela à do planeta, entrou na rede em grande estilo, emplacando vários termos e hits nacionais para o resto do mundo. Mas se em 2010, o Twitter indicava ter embalado num crescimento que parecia não ter volta, 2011, no entanto, dá sinais que pode ser o último ano da rede social do passarinho azul. Ou pelo menos como a conhecemos.
O Twitter já vinha dando sinais de desgaste no fim do ano passado, quando o tráfego de dados na rede caiu drasticamente em outubro, segundo o site Alexa. Especula-se que a queda só não foi maior pois a rede social foi traduzida para novos idiomas e começou a agregar usuários em países em que ainda não estava presente. A queda de audiência poderia estar ligada à nova interface do site, que estreou no segundo semestre do ano passado e desagradou muitos de seus cadastrados.
A crise política no Egito também ajudou o Twitter a ganhar uma sobrevida e pareceu repetir o feito de 2009, quando o site foi crucial nas eleições presidenciais do Irã. Como disse o comediante norte-americano John Stewart à época: “Não foi o Twitter que salvou o Irã. Foi o Irã quem salvou o Twitter”. Não é exagero dizer o mesmo do Egito em relação ao site. Só que o momento é exatamente oposto: em 2009, a rede social ainda não tinha vivido seu grande momento popular.
O principal aviso de que, provavelmente, o passarinho do Twitter pode estar com seus dias contados veio na quinta-feira da semana passada, quando o jornal Wall Street Journal publicou que os executivos da rede social estariam conversando tanto com o Google quanto com o Facebook para tentar vender o site – e teriam ouvido ofertas que pagariam entre US$ 8 e 10 bilhões pelo serviço.
Uma vez comprado – seja por quem for –, uma coisa é certa: o Twitter vai mudar. E, pelo histórico dos dois possíveis compradores, pode até acabar. Mas isso ainda é terreno de especulação.
Mas um número citado pelo jornal chama atenção – o de que a rede, hoje com mais de 150 milhões de usuários, teria sido avaliada em US$ 4,5 bilhões em dezembro. Em menos de dois meses seu preço dobrou? E se lembrarmos que, nesta mesma semana, o blog Huffington Post foi vendido à America Online por mais de US$ 300 milhões, não duvide que estamos às vésperas de uma nova bolha digital, como a de 1999.
Minha coluna no Caderno 2 de ontem foi sobre o jornal do iPad…
Um jornal para o iPad
E o futuro (fechado) da Apple
Na quarta-feira da semana passada, depois de muita especulação, finalmente foi lançado o jornal sem papel imaginado pelo magnata das telecomunicações Rupert Murdoch. The Daily é um jornal que só pode ser lido no iPad. Funciona como uma revista eletrônica diária, cuja diagramação se adapta à forma como se segura o tablet, além de conter conteúdo multimídia, como vídeos, áudio e infográficos em movimento. Cada edição custa US$ 0,14 (a assinatura anual custa US$ 39,99), mas, nos dois primeiros meses, o aplicativo é gratuito para os clientes da operadora norte-americana Verizon.
Mas mais do que uma tentativa de ver como funciona um veículo feito para ser consumido em apenas um tipo de aparelho, a aparição do Daily acontece junto de uma mudança drástica na política comercial da Apple. A empresa agora só permite que se baixe aplicativos gratuitos para seu tablet se isso ocorrer em sua própria loja, a App Store. De graça, agora, só se for via Apple.
É um momento interessante e, talvez, crucial para a sobrevivência do modelo de negócios ao redor do hypado tablet. Não custa lembrar que o iPod, o MP3 player que fez a Apple voltar ao cenário digital no início do século, só foi um sucesso de vendas porque permitia a inclusão de músicas que pudessem ser adquiridas em outro lugar além da loja da Apple. Será que se o iPod só tocasse músicas compradas na iTunes ele seria o sucesso que foi? Acho que não.
Outra nuvem que paira sobre o novo negócio da Apple é a própria presença de Rupert Murdoch, cuja empresa, News Corp., comprou o MySpace por meio bilhão de dólares em 2005. Foi o suficiente para a rede social, então a maior do mundo, começar a desandar. O futuro do MySpace, hoje, é mais do que incerto. Mau agouro?
E quem pode desafiar o poder da Apple e de Murdoch são os próprios usuários, como o norte-americano Andy Bayo, que pegou o conteúdo do Daily e o transformou em um tumblr (http://thedailyindexed.tumblr.com), aberto para quem quiser ler. Sem pagar.
Cara Microsoft
“Queria continuar no Hotmail, mas…”
O rapper Dan Bull ficou conhecido no fim de 2009 quando fez uma carta aberta em forma de vídeo à cantora Lily Allen reclamando do fato de ela ter sido descoberta na internet e na época se voltar contra os downloads ilegais. O alvo da nova missiva musical do norte-americano agora é a Microsoft. Num longo e-mail cantado, ele reclama que a empresa só dá passos errados hoje em dia.
Esse texto é do meio de 2003 (the frila years), quando um trabalho sobre cibersegurança me fez “ter que” contactar um guru da cultura digital brasileira no meio de um monte de executivos num evento no Itaim.
O motorista de Carter
Em meio aos seguranças da matriz
Os ossos do ofício me carregaram para um almoço executivo. Não sou afeito a tais manifestações, mas o fato é que não havia alternativa. Era preciso encarar um exército de engravatados na parca tentativa de estabelecer-se um mísero contato. Ah, grande era das comunicações, esta que vivemos. Tantas formas de travarmos diálogo e nada como o contato olho no olho, de corpo presente, para dar início a uma conversação de facto.
(Há de se levar o problema da idade em consideração – e não estou sendo simplesmente etário-preconceituoso. O fato de meu interlocutor, por mais entusiasta digital que seja, não ter o mesmo vínculo com o email que nós, nascidos depois de 1970 [eu sei, você nasceu um pouco antes, mas entende-se como “nós” – a linha aqui não é muito definida…], faz com que o contato eletrônico fosse apenas uma “troca de cartões”, para ficarmos na metáfora condizente ao ambiente em questão. Por maiores que sejam as qualidades da revolução eletrônica, elas tendem a ser abraçadas com mais força por pessoas que passaram a maior parte de suas vidas em contato com ela. É uma relação de proporção direta – é muito mais simples para mim do que para o meu pai escrever para uma interface web pública porque eu me acostumei com esse formato devido a uma vivência muito maior que a dele. É como aquela teoria que diz que a atual geração de personalidades da televisão é melhor do que a anterior, dita clássica, justamente por ter crescido vendo TV. Mas com o tempo, todos terão crescido vendo TV e todos terão crescido com o computador – e essa falha de comunicação não acontecerá mais. Problemas de transição, tamos acostumados. Você entendeu).
O fato é que lá estava eu, num hall de entrada de um prédio executivo num bairro executivo de São Paulo; desengravatado entre os engravatados. Confesso que a sensação de distanciamento objetivo é uma das minhas introspecções favoritas, mas é raro eu ter que senti-la fisicamente. Afinal, sou mediano em todas as minhas definições externas, talvez com a exceção da estatura e da tagarelice quando permitido (pelo cérebro). No entanto, não era a primeira vez que sentia que eu não pertencia ao grupo, falando em termos de aparência. Mas a ostensividade daquele ambiente fazia questão de impor-se a mim e a um ou outro gato pingado que não estivesse neste cosplay drag queen nazi corporate America chamado terno-e-gravata. KZ. Fuzilavam-me com o olhar, raios catódicos ao contrário que puxavam minha imagem para a parte de trás de seus cérebros, onde perguntavam-se: “Quem é esse? O que ele quer aqui? Conosco?”.
Mas você conhece a aura desses ambientes e sabe que tudo é muito fluido, tudo muito disfarçado – o jogo de cena é tudo. Por isso, nada de alardes ou testas franzidas. Apenas esgares medianos, olhares cruzados entre trocas de posições. As várias rodinhas de conversa ajeitavam os próprios quadris de quando em quando, para descansar a postura de pé , e nessa valsa disco music em câmera lenta (dois-pra-lá, dois-pra-cá, mas ninguém se encosta, a dança não é entre o casal, mas entre um grupo), quem ficava do lado de lá conseguia me ver melhor. Tantas perguntas, mas a hipocrisia reinante fazia tudo parecer muito natural. Natural a ponto de uma pessoa parar ao lado de um estande cheio de folders e começar a ler cada um deles. Foi o que eu fiz, para me distrair.
Falei em discoteca e é impressionante como esta antessala executiva me lembra uma pista de dança. Não uma pista de dança perfeita, mas essas pistas que a gente tá meio careca de encontrar: pouca mulher, várias rodinhas, música ruim, papo furado, xavecos fuleiros. Ugh. Melhor voltar pro folder: “…o sucesso da implementação de um novo serviço…”, o que é que tem mesmo?
Até que chega o bedel e recolhe o povo. “Acabou o recreio meninada, hora da refeição”. Todo mundo enfileirado rumo ao hall de elevadores, que levaria ao local da apresentação. Fui indo. Como quem não quer nada (eu só queria duas coisas), passei as outras rodas de conversa formadas na saída do elevador, no andar de cima, e fui logo para uma das mesas. Aos poucos, o salão foi enchendo e naturalmente chegaram ao meu redor.
Troca de sorrisos, troca de cartões, troca de funções. Estamos apresentando crachás uns aos outros, andando com etiquetas com nossos nomes, função e missão na lapela. Seguranças da matriz, agentes Smiths. Agentes de Adam Smith: Adão Smith, o primeiro homem executivo. Um dos abuletados brinca com o fato de quase todos estarem de terno (uma piada interna para menosprezar os que não estão?): “Certa vez li um artigo que dava dicas de como não ser confundido com um segurança”. Todos riram. Ele enfatizou seu próprio caso, afinal era negro – inegável -, e a loirinha a seu lado falou do fato de seu marido também sofrer do mesmo caso, em shopping centers. “Perguntam se ele não é o meu segurança”, ela diz. Todos riram. “Me confundem muito com o gerente”, diz um outro. Todos riram.
Mostre os dentes. Como um cavalo. É menos esforço do que o riso propriamente dito e tem o mesmo efeito. Fase insuportável, essa de apresentação. Todos contam historinhas idiotas, brincadeiras bestas, medindo-se. Nenhum toque a mais, tudo muito medroso. Parecem moleques no cinema, se mijando de medo de pegar na mão da menina. Observava tudo isso à distância, mas de vez em quando a abordagem virava-se para mim. Um clichê, uma frase de efeito, um caixa-surdo-prato verbal que demonstre a apreciação da piada recém-contada. Os garçons serviam bebidas e desajeitados executivos bebiam guaraná diet em copos de vinho.
Estamos em um limbo entre a etiqueta e a grossura, a finesse e o animal humano. Tudo aqui transpira fleuma de elite, mas o cheiro é de populacho. Quem esse povo todo pensa que está enganando? Certamente, a eles mesmos, isso é evidente. Mas, e fora deste circuito? É assim que eles funcionam? Provavelmente, não. Vejo esse arremedo de luxo como uma espécie de uniforme de irmandade, de pacto sinistro traduzido em polidez de araque. O garçom pergunta: “Vai mais aê, chefia?”. “Opa, rapaz!”, responde o bebedor. O vinho é caro, bem caro. Mas podia ser uma cerva, tanto faz.
Pergunto-me então o porquê deste travestismo social. Podiam realizar seus encontros em eventos informais, à beira da churrascaria, como bons executivos brasileiros em momentos de lazer. Mas, não. Algo naquele passeio de ternos e gravatas dava aos olhares a sensação de poder, de superpoder. Era como se pudesse estar na Sala de Justiça. Terno e gravata é um uniforme e tanto. Cosplay drag queen, blá-blá-blá, mas um uniforme de super-herói.
E todos me olhando como se perguntassem a razão de eu ainda estar em trajes paisanos.
O evento era o palco para meu contato, uma personalidade nova naquele universo, que preconizava o caos como solução para os problemas modernos – “problemas de transição”, suspiravam as paredes. Novas relações de trabalho, nova forma de encarar o consumidor, o papel da publicidade, revoluções culturais, o lugar da inovação, o novo governo. Era inevitável falar das mudanças de paradigma que estamos passando. E logo eu estava puxando a mesa para questões como música online e crise nas gravadoras, usando-as como exemplo imediato da ineficácia do mundo dos negócios a lidar com a, er, “mudança de paradigmas” que estamos assistindo hoje. Era mais ou menos a mesma coisa que o palestrante iria conversar, sabíamos. Metade da mesa se interessou pela conversa e logo o papo estava embalado.
Falávamos de horizontalização, do fim da hierarquia, da ação como melhor publicidade, do fato do mercado atual ser apenas o esqueleto mórbido do que já foi, só esperando a hora de ceder de uma vez. “O que é um banco”, perguntou-me o representante de universidade que estava do meu lado, “se não uma marca feita para lucrar a partir do trânsito de informações pessoais alheias? O que é a indústria automobilística, senão uma enorme gestora de várias outras pequenas indústrias? Essas duas instuições ganham muito dinheiro sem fazer praticamente nada, sem produzir nada. Não é à toa que estão em crise. E forçando outras crises”. Vieram à tona assuntos como software livre, a iminente queda de empresas gigantescas, o descrédito internacional dos Estados Unidos, propriedade intelectual e hábitos de consumo. Foi a melhor coisa que eu fiz, afinal de contas, ficaríamos apenas ouvindo o que cada um tem feito em sua própria empresa.
Resolvi tirar onda. E contei uma história que eu li há pouco, num livro do Tom Wolfe. Quase uma parábola, das diferenças das relações de poder entre a costa leste e oeste americanas e como esta diferença fez o lado de Nova York perder para o lado da Califórnia. Tudo a ver com a tal mudança de paradigmas… Como estava no meio de executivos da área, foi como se estivesse contando uma das lendas da Criação. Uns ficaram maravilhados, de olhos brilhando. Outros assentiam ceticamente, bebericando enquanto olhavam para a mesa.
Nenhum deles, no entanto, me olhava como estranho. Havia desconfiança no olhar de uns e entrega nos de outros. Mas todos estranhamente passavam a me ver com respeito, um respeito ao forasteiro. Engraçado o poder das palavras.
Entra o almoço, todos comem e em seguida o convidado é apresentado e põe-se a falar. No discurso, a história do software livre, da world wide web, da eletricidade, do movimento hip hop, da diferença entre hacker e cracker, da produção de hidrogênio, de que a esquerda e a direita sempre preconizaram a mesma coisa e só o movimento dos anos 60 realmente libertou as coisas. Muito para aquele público. Não para nós, daquela mesa do fundo. Ao meu lado, um cutucão e um sussurro: “Ele botou um microfone aqui nesta mesa, não foi?”, seguido de um riso cúmplice.
Não, nem foi. Não precisava. Depois da palestra, abriram para perguntas e comentários, e a maioria dos que pegou o microfone pigarreou contra a feliz novidade do século 21, que é o fim virtual da propriedade (se pudéssemos colocar nestes termos naquele local, talvez fôssemos expulsos, rapidinho…). Peguei o microfone e resolvi fazer o papel de escada, perguntando se toda mudança que ele falava não podia ser resumida na troca da verticalização para a horizontalização de poder. Foi quando uma mão pegou o microfone da minha e disse: “Conta aquela história”. Todos riram.
“Essa história deve ter sido contada muitas vezes, não apenas como uma espécie de amostra das diferenças de valores entre os executivos da costa oeste e da costa leste norte-americanas, mas como um dos inúmeros exemplos da mudança de paradigma que estamos assistindo. Robert Noyce era um jovem engenheiro do meio-oeste norte-americano que ganhava a vida como um dos primeiros cientistas a lida com o transistor, nos anos 50. Seu futuro seria brilhante: co-inventaria o microchip, inventaria o circuito integrado e o chip 1103 e daria início à produção dos microprocessadores nos anos 60 com sua própria firma, a Intel”.
“Mas no início dos anos 60, Noyce era apenas um dos líderes da Fairchild Semiconductors, uma das empresas mais bem-sucedidas do incipiente Vale do Silício, justamente devido às invenções de Bob – o 1103 e o circuito integrado. Sua doutrina de trabalho, capital para o sucesso daquele novo empreendimento, era a lei no Vale: não havia hierarquia, subdivisões de cargos, chefes disso, gerentes daquilo, privilégios, abonos, escritórios, vagas privativas. O estilo de Noyce, um dos dissidentes dos laboratórios Shockley, era uma das principais características do funcionamento das novas empresas de microengenharia – ou eletrônica, como começavam a chamar. Ali tudo era horizontal. O estacionamento era único, assim como o horário de trabalho. Não haviam paredes entre os funcionários, apenas divisórias de meia altura – até na sala de Noyce. Todos tinham exatamente a mesma escrivaninha, todos podiam convocar reunião a hora que quisessem, para tratar de quaisquer assuntos. Todos comiam a mesma refeição, usavam o mesmo tipo de roupa e eram igualmente instigados a sugerir, a dar idéias. Nada de ostentação, mesmo que todos ganhassem uma bela grana no que faziam. Trabalhar, para aqueles caras, era como estar na escola – sem professores”.
“Acontece que a Fairchild era uma empresa de um grupo nova-iorquino, investidor inicial no mercado de risco – à época – dos semicondutores e atual sócio da empresa. Os californianos viam os nova-iorquinos como pretensos europeus – ávidos por um poder feudal, de postos e cargos, funcionários exclusivos e secretárias pessoais, títulos de nobreza e lacaios à disposição. Para os novos executivos da costa oeste, os velhos executivos da costa leste eram uma monarquia decadente – com seus jantares em altos restaurantes, festas opulentas em clubes seletos, dinheiro queimado com marcas e exclusividades”.
“Um exemplo típico desta lógica decadente chocou-se com a realidade da Fairchild como um caminhão na parede da empresa, quando o presidente da Fairchild, John Carter, visitou a empresa. Com sua limusine e seu motorista, fardado como um militar prussiano, Carter foi conhecer a sede de sua rentável indústria de chips. Mas foi seu motorista que chocou seus funcionários”.
“Logo, todos estavam olhando pela janela, um funcionário que passa todo seu dia sentado, num carro, sem fazer absolutamente nada. Nada. Não era à toa que as empresas do Leste estavam perdendo dinheiro”.
E eu ali, sem terno-e-gravata, pensando naquela história. Pensando no que estaria errado naquilo tudo. Comendo uma imitação barata de petit-gateau. Que custou caro. Gastando meu tempo com coisas que eu já sabia, para falar apenas com uma pessoa.
Melhor não.
Sorri de volta e disse que não contaria, o resto da mesa insistiu, mas fiz charminho e devolvi o microfone de volta ao homem no palco. Ele falou da horizontalização e da verticalização mais ou menos como eu tinha imaginado, mas não iria surtir efeito. Não ali.
Depois, me apresentei pessoalmente ao sujeito que, para minha surpresa, já me conhecia. Trocamos “cartões”, discutimos idéias completamente distantes daquelas em discussão ali no local e ele me disse o que eu precisava saber. Contei rapidamente a história de Noyce e ele entendeu porque eu havia sublinhado a horizontalização num ambiente engravatado. Normal, mas meu trabalho estava feito. Com um nome e um telefone no bolso, segui meu rumo. Voltaria a me encontrar com aquela fauna futuramente, mas por enquanto, era só.








