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McLuhan 100

2011 é o ano McLuhan – e escrevi a capa do Link sobre este assunto, além de traduzir um texto do David Carr sobre o novo livro do Douglas Coupland sobre o sujeito e entrevistar o filho do homem, Eric McLuhan.

O Século McLuhan

Woody Allen e Diane Keaton estão na fila do cinema, em crise (como sempre), enquanto alguém logo atrás deles exibe seu intelectualismo de araque (como sempre acontece em filas de cinema). O papo do coadjuvante começa a irritar Woody Allen, que inclui sua inquietação na briga com sua mulher.

Até que, em dado momento, o sujeito fala em Marshall McLuhan, sobre a influência da TV na cultura atual – é a gota-d’água para nosso herói, que vira-se para a câmera e lamenta a situação. O falastrão, então, interfere o lamento de Woody e começa a se gabar como acadêmico, que teria autoridade para falar sobre McLuhan. É quando Woody recorre a um absurdo genial – e puxa ninguém menos que o pensador canadense para a cena em que, sem pestanejar, crava: “Você não conhece nada sobre o meu trabalho!”.

E quem conhece? Teórico pop e acadêmico transgressor, Marshall McLuhan é o grande pensador da era digital. Um gênio que anteviu a vida eletrônica pautada pela comunicação total dos tempos da internet quando ela nem existia. A partir dos efeitos do rádio na cultura mundial, passou a analisar o impacto da publicidade e da mídia na vida das pessoas, pregando, nos anos 1960, uma transformação que ainda segue em curso. E em 21 de junho de 2011, ele completaria um século de vida, o que faz que este seja o ano de seu centenário.

Entre as comemorações, surge uma biografia que tem como título justamente a frase que McLuhan em pessoa profere no filme Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, de 1977, citado no início. You Don’t Know Nothing of My Work! assinado por Douglas Coupland, outro pensador pop que, em 1991, definiu seus contemporâneos como Geração X, e é uma tentativa de apresentar o trabalho de McLuhan à geração digital.

“Achei o livro divertido”, diz Eric McLuhan, o filho do pensador canadense que se propõe a ser seu sucessor intelectual. Michael McLuhan, irmão de Eric que toma conta do espólio do pai, não é tão otimista: “Achei um lixo. Seus insights sobre Marshall são poluídos com devaneios rasos como o que cogita que ele poderia ser autista – uma fantasia completa – e as páginas de blablabla e jogos de palavras que só distraem o leitor.”

O fato é que o autor de termos e expressões como “aldeia global” e “o meio é a mensagem”, por mais que seja popular, ainda está longe de ser compreendido. Como um Marx ou um Freud da era digital, ele antecipou problemas e discussões que só começamos a entender décadas depois de serem cogitados. Morreu em 1980, deixando sua obra em aberto para considerações alheias. O ideal seria, como no filme, puxar McLuhan do nada para o meio da discussão. É como diz Allen no fim da cena: “Quem dera pudesse ser assim na vida real.”

Entrevista: Eric McLuhan
“A aldeia global encolheu”

O sr. acredita que o trabalho do seu pai é compreendido?
É evidente que o trabalho de meu pai tem atraído a atenção de muitos na mídia atual. Há um dilúvio de material sobre ele – entrevistas e vídeos – repentinamente disponível online, mas só uma pequena porcentagem daqueles que estão interessados em seu trabalho tem alguma ideia do que ele estava falando. No geral, ele é tão incompreendido como sempre foi.

Como o sr. vê a obra de McLuhan à luz da web? A aldeia global ficou ainda menor?
A aldeia global foi criada para explicar os efeitos do rádio na primeira metade do século 20. Com os satélites e a web, alcançamos o teatro global, em que todos estão no palco e não há limites entre o elenco e o público. A aldeia global é parte do conteúdo do teatro global e talvez seja por isso que as pessoas a percebam de forma tão clara, pois ela não está mais no centro, e sim faz parte de algo ainda maior.

Gang of One

E por falar em Andy Gill, ressuscito aqui a entrevista que fiz com ele quando o Gang of Four veio para o Brasil, em 2006, que transformei em depoimento em primeira pessoa para uma edição da Bizz safra Ricardo Alexandre em que eu cuidei da capa – que era sobre o ativismo político de John Lennon logo que ele saiu dos Beatles. Para combinar com o tema, pedi para o Gill falar da influência da política em sua vida e arte.

***

“Eu comecei a ouvir música pop quando era garoto, ainda no rádio, mas não tinha consciência nenhuma sobre política, algo que só fui me dar conta à medida em que fui crescendo, como acho que é com todo mundo. E aconteceu à medida em que eu fui conhecendo outros artistas, como Jimi Hendrix – acho que Hendrix foi a primeira coisa que realmente me interessou no rádio –, os Rolling Stones, The Band, Dylan e, depois, mais tarde, dub e Velvet Underground.

Não sei se houve uma revelação política propriamente dita, algo que ficasse marcado na minha memória. Fui deixando de ser adolescente e percebendo meu lugar no mundo, questionando as coisas, acho que isso é bem natural para qualquer um. Mas havia algo nestas bandas que não era muito político, propriamente dito.

Eles pareciam usar a política como uma pose. Eu via os Rolling Stones cantando ‘Street Fighting Man’ e não parecia que eles estavam querendo fazer o que diziam na música. Era mais para acrescentar outro elemento de perigo à banda, coisa que eles já vinham fazendo desde o começo dos anos 60. Não era pra valer.

Outro aspecto era o de bandas como o MC5, que mandava tudo à merda, e parecia que estava apenas sendo panfletário contra ‘o sistema’, mais interessado em ir contra a sociedade careta do que em discutir política, de um jeito ou de outro. Esse era um problema muito específico em relação a várias bandas, que pareciam ter vagamente uma tendência de esquerda, anarco-alguma coisa, mas que não tinham vocação política e eram mais rock do que qualquer outra coisa.

E você tem artistas de esquerda mais tradicional, que cantam músicas de antes de terem nascido. Ou mesmo que componham estas músicas, como o Billy Bragg faz até hoje, não parecem atingir o coração das pessoas. Não me parecem relevantes hoje, nem me pareciam nos anos 80. Mesmo John Lennon, que queria se comunicar com as pessoas, estava preso no fato de ser uma superestrela.

Assim, foi fácil saber o que queríamos quando montamos o Gang of Four. Já tínhamos base para saber o que não queríamos. Não queríamos soar panfletários, nem partidários. Não queríamos soar de esquerda ou de direita. Queríamos que as pessoas pensassem em política de uma forma menos maniqueísta. Quando falamos de política, parece que estamos falando apenas dos políticos, mas quem vota neles somos nós e podemos fazer política o tempo todo, em qualquer lugar ou hora.

O fato de termos surgido durante o punk nos deixou ainda mais vacinado em relação a isso. Logo as pessoas estavam tachando o punk de político, Malcolm McLaren lançou esse conceito na primeira hora. Mas era exatamente a mesma coisa de antes. Não era política, era um assessório chamado política. Não queríamos isso.

Quando eu e o Jon (King, vocalista da banda) começamos, nos perguntávamos: ‘O que motiva as pessoas? O que as faz fazerem o que fazem?’. É claro que você pode resumir isso em apenas ‘economia’, mas não é só isso. As pessoas ainda estão fazendo as mesmas coisas que faziam no século passado, o marido ainda trazia o dinheiro para casa enquanto a mulher cuidava da comida e dos filhos. O mundo havia mudado, mas essas relações ainda não. Pelo contrário, elas haviam se tornado prisões: família, emprego, propriedade. As pessoas se prenderam nisso de uma forma que acham que isso é a vida delas.

Temos uma música chamada ‘Natural’s Not In It’ que fala exatamente sobre isso. Tudo aquilo que chamamos de “natural”, na verdade, é artificial, é criado pelo homem. Seja a sociedade, o conceito de justiça, de bom senso… Tudo isso é invenção humana, nada disso é natural. As idéias não são naturais. Qualquer uma delas, todas elas – são inventadas.

E não queríamos ser os portavozes da nova esquerda. Para isso, tiramos todas as referências de política de nossas letras e títulos – você vê os nomes das músicas e não diz que o conteúdo delas é política –, tudo que pudesse lembrar a política dos jornais tava fora. Não queríamos dizer ‘você está certo’, ‘você está errado’, ‘você é de esquerda’, ‘você é de direita’. Não queríamos nos separar das outras pessoas. Queríamos, sim, lembrar pra elas que, esquerda ou direita, estamos nesse barco juntos.

Mas a forma que você colocou é bem razoável. É isso: o Gang of Four não era uma banda de protesto, mas uma banda de crítica. Uma crítica à sociedade, à forma que vivemos, à música, ao rock, ao punk rock, às outras bandas, a nós mesmos. Era mais ou menos como o Situacionismo dos anos 60, não queríamos nos levar a sério, mas não queríamos só isso.

E aí tem o outro elemento que, pra nós é crucial, que foi o ritmo. Não queríamos soar como rock, não queríamos ser mais uma banda de rock. E tanto eu quanto Jon já vínhamos pensando em experimentar com ritmo, somos fãs de dub até hoje, de krautrock, do James Brown. Mas seria ridículo tentar recriar a atmosfera de qualquer um desses artistas na Inglaterra dos anos 70.

Por isso partimos do zero, da tela em branco, e fomos acrescentando as coisas à medida em que começamos a tocar. E as coisas foram se encaixando. O legal é que não pensamos nessas coisas, elas simplesmente foram entrando em seu lugar. Põe um prato aqui, um bumbo ali, um riff mais à frente. Começava com um baixo solto, entrava a bateria reta, a guitarra fazendo ruídos e o vocal – mesmo que a letra importasse – funcionava como um instrumento. As coisas iam entrando em sintonia sem que pensássemos nisso. Em vez de fazer canções de amor, fazíamos canções de antiamor – o que é diferente de uma canção de ódio, veja bem.

Foi quando começamos a por elementos de disco music na mistura. Primeiro porque adorávamos disco. A cena começou a ficar ruim devido à forma que a mídia explorou o tema, com filmes como ‘Os Embalos de Sábado à Noite’ e todo o tipo de banda gravando disco music. Mas antes de ficar massificado, era uma cena bem interessante e – como você colocou – política, por libertar a canção de um formato estagnado e deixar as pessoas mais soltas, em vários sentidos.

Eu entendo perfeitamente a raiva que as pessoas que gostam de rock tem com a dance music. Eles vêem um DJ tocando e acham que ele não é um músico. Eles vêem as pessoas se entregando à dança e acham que elas estão se alienando. Mas eles não percebem que a disco music – que depois se subdividiu nas diversas formas de música pop que hoje dominam o mercado, do novo rock ao hip hop – é tão ou mais rock’n’roll do que o próprio rock. Porque liberta as pessoas de diversas amarras e, se na época do punk, o rock já dava sinais de conservadorismo, hoje ele é o próprio sistema. Por isso, apesar de entender a raiva do rock, eu a acho ridícula.

Tanto que fomos vítimas dessa raiva quando, no nosso terceiro disco (Hard), fomos acusados de sermos traidores, só porque queríamos mexer com música pop e com sintetizadores. Na verdade, o disco não saiu legal, porque quem ia nos produzir era o Nile Rodgers, mas ele foi substituído em cima da hora devido a uma confusão da gravadora. E o produtor que entrou no lugar, não sabia nada da gente, então o Hard é um disco que eu não gosto tanto, embora algumas faixas – como ‘A Man with a Good Car’ ou ‘Woman Town’ são faixas que eu gosto. Mas os fãs odiaram! Embora hoje muita gente goste deste disco, o que eu acho ao mesmo tempo estranho e interessante, esse poder do tempo”.

E quando as redações começarem a virar assunto?

A pergunta surgiu no meio do debate da Campus Party que eu participei, feita pelo Gil Giardelli, e a Ana Brambilla discordou num dos pontos em que eu e o Forastieri concordamos (o Vinícius comenta o debate melhor do que eu, além de linkar os vídeos). Pra mim, WikiLeaks é jornalismo, ponto.

Se é bom ou mau jornalismo, isso é outra história – mas agora que temos um player jogando no ventilador notícias que não vêm via release de assessoria de imprensa nem com post-it grudado escrito “leia com atenção”. Sim, há a possibilidade de haver interesses escusos e de que seu criador estaria guiando a mídia tradicional de acordo com a sua agenda, mas o não dá para fugir que o site de Julian Assange propõe ao jornalismo tradicional o mesmo enigma digital que a indústria fonográfica enfrentou com o Napster, que pairou com o YouTube sobre o cinema e a TV, que o mercado editorial começa a ter de lidar com o Kindle. São os papéis do Pentágono e Watergate numa mesma tacada, sem intermediários e com um posterboy ególatra o suficiente pra se deixar virar ícone (pessoalmente, não grilo com isso, mas há quem se incomode).

E, na longa véspera de uma revelação que o site promete desde o ano passado sobre um grande banco americano, começam a sair as primeiras reações da mídia tradicional ao contar como foi lidar com Assange. Quem começou foi Bill Keller, editor-chefe do New York Times, que escreveu um texto gigantesco para a capa de sua revista dominical, lembrando a tradição de seu jornal, acusando Assange de manipulador, dizendo que WikiLeaks não é jornalismo e defendendo a imparcialidade sobre a notícia. Chama o jornal inglês Guardian, um dos veículos escolhidos por Julian para expor seus segredos de “abertamente de esquerda” e desqualifica Assange como excêntrico:

“He was alert but dishevelled, like a bag lady walking in off the street, wearing a dingy, light-coloured sport coat and cargo pants, dirty white shirt, beat-up sneakers and filthy white socks that collapsed around his ankles (…). He smelled as if he hadn’t bathed for days.”

O Guardian, por sua vez, veio com sua versão dos fatos, peitando principalmente o fato do WikiLeaks mudar a paisagem do jornalismo em tempos digitais, citando a Hillary, e do site ter mirado nos EUA. Escreve seu editor-chefe Alan Rusbridger:

Unnoticed by most of the world, Julian Assange was developing into a most interesting and unusual pioneer in using digital technologies to challenge corrupt and authoritarian states. It’s doubtful whether his name would have meant anything to Hillary Clinton at the time – or even in January 2010 when, as secretary of state, she made a rather good speech about the potential of what she termed “a new nervous system for the planet“.

She described a vision of semi-underground digital publishing – “the samizdat of our day” that was beginning to champion transparency and challenge the autocratic, corrupt old order of the world. But she also warned that repressive governments would “target the independent thinkers who use the tools”. She had regimes like Iran in mind.

Her words about the brave samizdat publishing future could well have applied to the rather strange, unworldly Australian hacker quietly working out methods of publishing the world’s secrets in ways which were beyond any technological or legal attack.

Little can Clinton have imagined, as she made this much praised speech, that within a year she would be back making another statement about digital whistleblowers – this time roundly attacking people who used electronic media to champion transparency. It was, she told a hastily arranged state department press conference in November 2010, “not just an attack on America’s foreign policy interests. It is an attack on the international community.” In the intervening 11 months Assange had gone viral. He had just helped to orchestrate the biggest leak in the history of the world – only this time the embarrassment was not to a poor east African nation, but to the most powerful country on earth.

O debate segue em aberto, mas eis um novo efeito colateral: sobre o jornalismo. Cada vez mais os bastidores do jornalismo se tornarão notícia e interesse geral e um filme sobre WikiLeaks (cada vez mais palpável) poria a público como as coisas realmente funcionam nas redações como o filme sobre o Facebook começou a expor as entranhas do Vale do Silício. Mas antes de entrarmos na paranóia sobre quem detém o monopólio da notícia, o que é exclusividade no século 21 e a velha discussão entre transparência e segurança, deixo o recado do professor Timothy Garton Ash, que foi ao Fórum Econômico de Davos justamente pra falar sobre WikiLeaks:

“Every organization should think very hard about what it is you really need to protect. You’re probably protecting a whole lot you don’t need to. And then do everything you can to protect that smaller amount”

Ou seja, quem tem, tem medo. Se não tem, é bom ter. Como digo: paranóia é precaução.

Steve Wozniak e eu

A entrevista que fiz com Steve Wozniak foi para o caderno de economia de hoje:

Conversaremos com os computadores como se fossem pessoas’
Steve Wozniak, cofundador da Apple, acredita que 0 computador se tornará o melhor amigo das pessoas

Ele hipnotizou centenas de participantes da Campus Party ao contar sua trajetória no sábado, numa palestra que teve mais olhares atentos que a do ex-vice-presidente americano Al Gore, na terça-feira. Não era para menos: não bastasse ser um dos maiores nomes da história da computação, a história de Steve Wozniak, cofundador da Apple, é muito parecida com a da maioria dos participantes do evento que terminou ontem. Um nerd por excelência, o ex-parceiro de Steve Jobs falou ao público sobre a importância do bom humor e da paixão quando se quer escolher qualquer tipo de carreira enquanto contava a todos como inventou o computador como o conhecemos hoje. Antes da apresentação, Wozniak falou ao Estado sobre outro assunto: o futuro da computação pessoal.

Em 2010, assistimos à entrada de dois novos aparelhos no mercado que causaram impacto na história da computação: o iPad, da Apple, e o Kinect, da Microsoft. Ambos são computadores pessoais, mas não são como o computador pessoal que o sr. concebeu.
Claro, apesar de que as maiores mudanças nos computadores normalmente acontecem em novas formas de interação entre o ser humano e eles. É a forma como nós usamos nossos corpos, nossa visão… E essas formas de interação estão ficando cada vez mais humanas do que eram anteriormente. Acho que essa tendência vai continuar para sempre. Os computadores do futuro vão permitir diálogos como se eles fossem pessoas de verdade. Eu não acho que o reconhecimento de voz já está nesse ponto, mas tenho tantos aplicativos nos meus telefones que funcionam tão bem só com a voz que eu não quero voltar a seguir determinados procedimentos ou digitar comandos…

…Nem sequer usar o mouse.
Eu não quero usar o mouse, não quero usar o teclado, eu não quero ter de dizer para o computador que ele deve rodar um determinado programa. Eu só quero dizer: “Faça uma reserva para seis pessoas hoje à noite numa determinada churrascaria nesta cidade aqui”. E quando você faz as coisas de forma humana, você não faz a mesma coisa sempre do mesmo jeito, você não diz a mesma frase exatamente do mesmo jeito todas as vezes que fala. Por isso, o reconhecimento de voz deve entender que você fala a mesma coisa de várias formas diferentes. E você não precisa mais se preocupar com erros de digitação se os comandos são pela voz. Então é realmente maravilhoso poder dizer… “Bom Deus” (suspira, como se estivesse aliviado). As partes complicadas dos computadores vão ficar para trás, até chegarmos a um ponto em que ele poderá olhar no meu rosto e dizer se estou cansado.

Então o sr. acha que tanto iPad e Kinect quanto os celulares atuais são estágios intermediários rumo a um outro tipo de computador ainda melhor?
Sim, são ótimos estágios, como o próprio computador pessoal também foi. O PC só foi possível porque um certo tipo de tecnologia tornou-se disponível a um certo preço. E o mesmo aconteceu com outros tipos de tecnologia para que o iPad se tornasse viável: a tecnologia flash NAND para armazenamento de dados, fazendo com que não fossem necessárias peças enormes que consumiriam muita energia; a tecnologia de telas sensíveis ao toque, telas de alta resolução, baterias leves… Muitas dessas tecnologias vêm ao mesmo tempo, a um preço acessível, e permitem que determinados produtos façam sentido.

Há uma frase que diz que a tecnologia funciona de verdade quando as pessoas nem sequer percebem que a estão utilizando. O sr. acha que chegaremos a um ponto em que a tecnologia não será nem vista pelas pessoas?
É difícil negar isso, mas também é difícil pensar em exemplos para hoje em dia. Será que eu vou ter pequenos implantes nos meus olhos que farão que eu veja o mundo da forma como determinada tecnologia quer que eu veja? Se for assim, quem está no controle? Estamos ficando cada vez mais dependentes da nossa tecnologia de forma que nem podemos desligá-la. Se nós pudermos desligá-la, estamos no controle; mas não podemos mais. E se tivermos carros que dirigem sozinhos? Uau, cara… Nós temos de ir, temos de confiar nisso, mas podemos chegar ao ponto em que a tecnologia talvez não precise mais da gente.

E aí, como vimos em filmes de ficção científica, pode ser que a tecnologia queira descartar o fator humano, pois atrapalha…
É o que eu estou sugerindo – e isso já está acontecendo, mais do que podemos admitir. Quando as coisas acontecem devagar, você não as percebe acontecendo, mas quando estamos numa curva exponencial, as coisas podem mudar de uma vez só. Você consegue desligar seu computador? Consegue se desconectar da internet, desligar seu celular? Por quanto tempo? Por um ano? E se conseguir, que tipo de vida terá? E se todos resolverem fazer isso? Seria uma vida bem diferente da que levamos agora.

Mas até chegarmos a esse estágio, a tecnologia terá de evoluir bastante. Que estágios deveremos percorrer nos próximos dez anos?
Num futuro próximo, não muito próximo, mas também não muito distante, se tornará bem difícil saber se você está lidando com um computador ou com uma pessoa de verdade. E será tão bom: falar, entender, combinar palavras e deixar que o computador faça o reconhecimento das palavras e até crie um tipo de relacionamento com as pessoas…

Mas o sr. acha que no futuro teremos amigos digitais?
A ficção científica quase sempre fala em guerra entre homens e máquinas, quem será o vencedor, mas eu acho que criamos a tecnologia para melhorar nossas vidas. Estamos lidando com ela gradualmente, não há nenhuma batalha. Criamos a coisa mais próxima do cérebro humano que é a internet. Antes, perguntávamos para uma pessoa sábia quando precisávamos saber de alguma coisa, agora temos a busca do Google. Isso significa que parte de nosso cérebro já está fora de nossas cabeças, porque a internet cresceu tanto e nós não a criamos para ser um cérebro. Criamos a internet para colocar as pessoas em contato individualmente – e quando havia bilhões de pessoas em contato entre si, de repente, ela criou essa capacidade de funcionar como um cérebro.

E isso não assusta?
Não, porque você não se assusta com isso. Não passamos por uma fase de medo. Nós simplesmente aceitamos que o Google seja mais inteligente do que qualquer pessoa que conheçamos. Todos nós aceitamos.

Não é assustador pensar em um futuro em que as pessoas terão apenas amigos digitais?
Quando cresci eu era muito tímido, era um outsider. Eu ficava de fora de conversas normais, dos ritos sociais. E não tinha com quem falar. Tinha receio. Em todo lugar que eu ia, tentava ser o mais discreto, falar o mínimo possível, fazer o meu trabalho e cair fora. Agora esse mesmo tipo de pessoa passa o dia inteiro em seu quarto com um computador, com as portas fechadas, e tem relações sociais com pessoas de qualquer lugar do mundo, mesmo que sejam com pessoas tão restritas socialmente quanto ele.

Mas não existem pessoas digitais hoje em dia.
Imagine você se apaixonar por alguém que você não sabe se é uma pessoa ou um robô. Oh, cara (ri)… Mas eu não acho que isso vai acontecer. Mas há quem se apaixone por seus computadores, então tudo bem.

E como será o computador do futuro?
A questão é em quanto tempo no futuro… Eu acho que teremos um tipo de computador que, quando um aluno for para a escola, ele quer ficar com aquele computador como se fosse seu melhor amigo, que sabe tudo sobre ele, seus sentimentos, crenças e filosofias, mais do que um professor humano. Não consigo chutar em quantos anos isso acontecerá… Dez, vinte, trinta… Mas eu não estou falando em cem anos…

O que o sr. achou da Campus Party?
Eu fui a algumas outras Campus Party e percebi que esse tipo de evento seria onde eu estaria se eu estivesse crescendo hoje. Sendo eu o tipo de pessoa que sou, que acredita no que eu acredito, nos meus computadores, na interação com outras pessoas parecidas. Eu estaria aqui, eu seria um campuseiro. Eis a grande atração: jovens cheios de ideias que querem explorar o que eles querem estar fazendo neste mundo dos computadores, o que isso vai significar para eles, o quanto isso é importante para eles, que mudanças e diferenças eles podem fazer…

As pessoas aqui falam em “orgulho nerd”.
Fico tão feliz em ouvir isso! Foi a melhor coisa que eu ouvi durante todo o dia de hoje! Há um tipo de evento que acontece tanto nos EUA quanto em alguns outros países chamado First Robotics. São times de segundo grau que constroem robôs, que são meio caros, do tamanho de pessoas, e eu vou julgar esses concursos sempre que posso. É um dia em que eles são tão importantes quanto os astros do cinema, os jogadores de futebol ou qualquer tipo de celebridade. É quando os geeks têm seu dia!

Minha coluna de ontem no Caderno 2 foi sobre as mudanças de chefia no Google e na Apple.

Terreno movediço
Executivos no mercado digital

A semana passada foi agitada no mundo digital – e nem estou falando da Campus Party, maior evento relacionado à tecnologia do País, que começou segunda e termina hoje – e sim da súbita saída de dois nomes fortes da indústria eletrônica. Primeiro foi Steve Jobs, o pai da Apple, que pediu licença de saúde mais uma vez na segunda-feira, fazendo as ações de sua empresa caírem. E no fim da quinta-feira, o CEO do Google, Eric Schmidt, anunciou que deixaria o cargo que assumiu em 2001, deixando a vaga para um dos criadores do site, Larry Page.

As duas saídas não seriam motivo de alarde caso a área de atuação das duas empresas não fosse um mercado tão novo. Executivos vêm e vão de empresas, essa é a natureza desse tipo de cargo. Mas quando se fala do mercado de computadores e da internet as coisas não são tão certas assim – e o terreno movediço da indústria digital ainda não conhece cabeças aptas a pular de empresa para empresa.

A saída de Jobs é um ótimo exemplo. É a segunda vez que ele deixa o cargo por motivos de saúde. Mas, no início dos anos 1990, ele não saiu da Apple – e sim “foi saído”, como dizem. O conselho da empresa que criou simplesmente o demitiu. Sem emprego, Jobs foi bater na porta da novata Pixar, um estúdio de animação digital que estava tentando fazer seu primeiro longa-metragem. Ajudou o estúdio de John Lasseter a lançar o primeiro Toy Story e a se firmar como a principal grife no cinema de animação. Enquanto isso, sem Jobs, a Apple patinou tanto a ponto de ter de chamá-lo de volta para o cargo, no fim do século passado. Em casa, começou a pôr sua cabeça para funcionar e criou, na sequência, o iPod, a loja iTunes, o iPhone e o iPad. Seus sócios agradecem.

Outro executivo que saiu e não voltou foi Bill Gates, que fundou a Microsoft e a transformou em uma das empresas mais sólidas no mundo digital do século 20. Em 2006, ele anunciou que sairia da empresa para cuidar de sua fundação de caridade. Desde então, a Microsoft – sinônimo de computadores há até dez anos – foi perdendo a importância cada vez mais.

Qual é o problema? Esse mercado é muito novo e os executivos não se guiam por modelos de negócio estabelecidos. Quando entrevistei o escritor e articulista Bruce Sterling no fim do ano passado, conversamos sobre esse assunto. E ele disse que as empresas digitais ainda são muito presas ao culto à personalidade de seus criadores. “Se Steve Jobs morrer, a Apple morre com ele”, alfinetou.

Essas mesmas empresas sofrem com o fato de que seu negócio pode, em anos, deixar de existir. Vide o MySpace, que era o gigante das redes sociais até outro dia e está às vésperas de fechar suas portas. Não duvide se o destino de Google e do Facebook também for parecido. Na economia digital, tudo que parece sólido apenas parece sólido.

Neil Young e eu

Eis a íntegra do texto sobre o melhor show que eu vi na vida que escrevi para o Caderno C quando ainda trabalhava em Campinas.


Clicando na foto, você pode ler o texto na página e descobrir qual foi o pior show do terceiro Rock in Rio, na minha opinião

O tempo não existe
Neil Young e o Crazy Horse fazem um show histórico no Rock in Rio 2001

“Você é como um furacão
Há calma em seus olhos
E eu estou sendo levado
Para algum lugar mais seguro
Onde está o sentimento
Quero te amar
Mas estou sendo levado”
(Like a Hurricane)

Quando Neil Young deixou o palco quase às três e meia da madrugada de domingo, o público presente sabia que havia assistido um dos maiores shows de suas vidas. Com sua rara percepção sobre a existência humana, o velho caubói conduziu os mais de cem mil espectadores da noite mais tranqüila do Rock in Rio 2001 a um universo paralelo, onde rock e realidade podem ser a mesma coisa. Esqueça a entrega messiânica do R.E.M., o freak show de Axl Rose e o teatro épico do Iron Maiden. Quando Young e seus velhos companheiros do Crazy Horse subiram ao palco, fizeram uma apresentação antológica, um dos melhores shows de rock já vistos no País. Em pouco menos de duas horas, o velho Young nos mostrou que é possível fazer rock e dizer a verdade, ao mesmo tempo.

Por que a verdade? Porque todos os aparatos do showbusiness se esfacelam à presença do pistoleiro sonoro. O Palco Mundo, hi-tech e hiperbólico, se tornou uma simples garagem caipira, com quatro peões trocando horas de ócio por um exercício artístico superior, onde melodia e barulho fazem parte da mesma linha lógica de raciocínio. Young abre mão de conceitos civilizados e medidas de tempo e espaço, transformando onde quer que esteja em seu pequeno e preciso mundo particular. Aqui, o instinto é a razão e a natureza é o fluxo vigente. Seja no maior festival de rock do mundo ou no quintal de sua casa, o velho bardo canadense não precisa de nada além de sua guitarra para explicar como a vida é simples.

Quando adentrou ao palco principal, colocou o público presente nesta realidade alternativa. A imagem, finalmente palpável a olhares brasileiros, era um clássico perene: quase dois metros de altura, um jeito desengonçado de tocar guitarra (pernas arqueadas, passos largos e trôpegos, entortando-se para os lados à medida que distorcia o som), camiseta de banda (o equivalente norte-americano de camiseta de candidato, no caso, da banda inglesa Placebo), calça jeans e um estratégico chapéu de caubói. Nas mãos, uma coleção de guitarras Gibson Les Paul tão clãssica quanto o dono. Entrou acompanhado de sua corja de bandoleiros musicais: o rotundo guitarrista Frank Sampedro, o baixista Billy Talbot e o baterista Ralph Molina. Vestidos como se estivessem indo para mais uma noitada em um bar de beira de estrada, o grupo começou a aula com “Sedan Delivery”, do clássico-mor Rust Never Sleeps.

Para delírio do público, a banda emendou o “Hey, Hey, My, My (Into the Black)”, hino country rock de celebração rock’n’roll, cantado em uníssono pela turba. Entre uma música e outra, a banda se entregava à desconstrução sonora, à distorção contemplativa, ao ruído em estado bruto. Era didático: não há diferença entre ordem e caos quando se vive a vida do jeito certo, aproveitando cada minuto, degustando cada experiência, sorvendo sentimentos e sensações independentes de sua origem.

“O amor e só o amor sobrevive”, canta com sábia experiência o cristianismo caipira de “Love and Only Love”, “o ódio é tudo que você acha que é”. A sabedoria se esconde nas entrelinhas de uma velha canção sertaneja, que canta o amor e o ódio com a mesma intensidade. A microfonia arrefecia para a brisa campestre do country americano, dando a deixa perfeita para a belíssima e clássica “Cinnamon Girl”, de seu primeiro disco com o Crazy Horse (Everybody Knows This is Nowhere, de 1971). Cada música terminava com uma seqüência de acordes bradados num mesmo ataque, como se toda vez pronunciassem um fim épico. Mas a música crescia a partir dos pedaços de ruído trepidados pela banda e inevitavelmente a coda de barulho tornava-se uma canção à parte, sem refrão, letra, introdução, solo: apenas uma parede de ruído, como se, ao desvendasse a alma por trás do esqueleto formulaico de cada uma das faixas. Nas filigranas da microfonia, poesia indizível, sentimento intraduzível, força que não se fala – se sente.

“Fuckin’ Up” voltou ao território do rock em estado bruto, para o melhor momento do show – e da minha vida neste meio, embora vocês não precisassem saber disso. A seqüência “Cortez the Killer” e “Like a Hurricane” e traduzia toda a força natural de Neil Young: a primeira faixa trazia seu hino maior de amor aos povos ditos primitivos, contando a história do colonizador Hector Cortéz, que dizimou a população asteca após ser bem recebido pela mesma. A segunda (com Sampedro ao teclado), sua maior balada de amor, a dura e recofortante constatação que amor carrega o bem e o mal, o hoje e o sempre, o pequeno e o grande. Ambas músicas se misturaram, num épico sem duração. O relógio – essa maquininha que inventamos para regrar o que não tem regra – marcaram 23 minutos ao todo, mas durante estas duas canções, o tempo parou, estático, e Neil Young o segurou na mão (com os dedos sangrando), como uma pequena e opaca gema bruta. Impossível segurar as lágrimas. “Rockin’ in the Free World” veio de brinde, para sacramentar a geração grunge (foi gravada pelo Pearl Jam) e calar a boca do lema piegas do festival. Mundo melhor, quis dizer Young, é um mundo livre. Keep on rocking.

A banda saiu e voltou com a excelente “Powderfinger”, outra de Rust Never Sleeps. “Me proteja da pólvora e do dedo”, berrava a familiar voz esganiçada, “cubra-me do pensamento que puxou o gatilho/ Pense em mim como aquele que você pensava que não iria embora tão jovem, com tanto a fazer”. A contrapartida, “Down By The River” (também de Everybody Knows…), veio em seguida, fazendo o público brasileiro cantar numa só voz o pesar da culpa de um amor mal resolvido. Felizaço, agradeceu ao público com a última, o libelo feminista “Welfare Mothers”. Ergueu sua guitarra com um largo sorriso e bateu no peito, sem dizer uma palavra ao público. Não precisava.

O tempo voltou ao normal quando as luzes acenderam, mas a lição havia sido profetizada. Para que peder-se com bobagens como dinheiro, fama, sucesso e sorte se tudo que precisamos para viver está dentro de nós? Basta descobrir o amor à vida e cultivá-lo – mas para isso, é preciso que largar tudo e voltar para o campo, pegar a esposa e demitir o emprego, plantar o dia e colher a noite numa safra atemporal. Viver é simples.

SETLIST

“Sedan Delivey”
“Hey, Hey, My My (Into the Black)”
“Love And Only Love”
“Cinnamon Girl”
“Fuckin’ Up”
“Cortez The Killer”
“Like a Hurricane”
“Rockin’ In The Free World”
“Powderfinger”
“Down by the River”
“Welfare Mothers”

E na minha coluna do Caderno 2 ontem continuei falando sobre porque eu acho que o iPad é só uma fase.

O futuro da televisão
E o que o celular tem a ver com isso

Na coluna da semana passada, falei sobre como os tablets dominaram a Consumer Eletronics Show (CES), maior feira de tecnologia para o consumidor do mundo, que acontece sempre em janeiro, em Las Vegas, nos EUA. Dizia que, por mais que o sucesso do iPad abrisse uma nova linha de produtos tecnológicos (lançados às pencas em Las Vegas), não seria o substituto do computador – seja desktop ou notebook – como o conhecemos.

Houve quem discordasse com veemência. Fãs da Apple têm dessa mania: se foi feito por Steve Jobs é o certo, correto e não tem por que discutir. Discuto, pois acho o iPad muito grande para a geração digital que hoje já se comunica mais com o celular do que com o computador. Mas um dos motivos que me fazem crer que o iPad é só um aparelho intermediário e não o computador do futuro parte de outras duas novidades que também foram atrações na CES da primeira semana de 2011.

Além de quase todas as principais empresas de tecnologia lançarem seus tablets, as outras duas atrações da feira foram novos modelos de smartphone e as chamadas “smart TVs”. Os novos celulares foram apelidados de “super smartphones” devido a um novo tipo de processador interno, que permite que esses aparelhos tenham um desempenho que os deixa mais próximos dos computadores atuais do que dos smartphones que estão no mercado.

As TVs inteligentes levam esse adjetivo pois se conectam com a internet e permitem um tipo de interação própria da rede na programação, um recurso que não só é inédito como vai de encontro à natureza da TV.

Explico: por décadas, a televisão se firmou como um dos principais aparelhos na casa das pessoas. Começou a ser desafiada a partir dos anos 80, com a chegada do computador, mas só na década seguinte passou a disputar as atenções familiares. Com a internet, o computador deixou de ser uma estação isolada de entretenimento e trabalho para assumir o papel de meio de comunicação.

E aí a TV começou a ser vilanizada. Enquanto o computador era festejado por permitir a interação, o diálogo, a colaboração e a participação, o televisor era tido como um aparelho que estimulava a passividade, o tédio e a apatia. Até a postura das pessoas frente às duas máquinas foi usada como metáfora para o que ambos faziam com seus usuários: o computador fazia o sujeito se inclinar para frente, como se o puxasse para dentro do monitor; a TV o largava para trás, deitado no sofá.

Isso começa a mudar com essas TVs que se conectam à internet, que ainda estão em sua infância. Online, a televisão corre o risco de recuperar sua posição central na casa – ou pelo menos de tirar esse trunfo do computador. É difícil apostar que ela volte a se tornar o principal aparelho do lar justamente por causa da evolução dos smartphones. São eles que vão fazer a ponte entre o lar e a rua, a TV gigante na sala e o conteúdo que você quer levar no bolso – o celular funcionando como uma espécie de versão em miniatura e acessório inteligente do aparelho principal. E é aí que o tablet – seja da Apple ou não – fica sobrando.

Minha coluna de ontem no Caderno 2 foi sobre a febre dos tablets na CES da semana passada – e você.

Pranchetas digitais
Você precisa mesmo de um tablet?

O iPad foi praticamente uma bomba-relógio – armada para estourar um ano depois. Os rumores sobre um possível tablet da Apple começaram logo após o Natal de 2009 e só eles foram suficiente para fazer as ações da empresa subirem de valor – e botar o mercado para correr. E na Consumer Electronics Show (CES) de 2010, realizada em janeiro do ano passado algumas semanas antes do anúncio oficial do iPad, havia quem anunciasse seu próprio tablet antes mesmo de saber se o da Apple era de verdade ou não. Quem tentou lançar o seu – a Microsoft foi uma das empresas que, a toque de caixa, quis sair na frente com seu Slate – ficou só com a fama de querer correr atrás da novidade alheia.

Corta para 2011 e voltamos a Las Vegas, para a mesma CES que tentou antecipar o que poderia ser o mundo dos tablets antes da Apple, e que surpresa… Todos têm seu tablet pronto para o mercado. Samsung, LG, RIM, Asus, Lenovo, Motorola e até a Microsoft apresentaram novas versões de dispositivos portáteis de acesso à internet que mais se parecem com uma prancheta do que um celular ou um laptop. Até o Google entrou na briga – não com um aparelho –, mas apresentou a nova versão de seu sistema operacional para celulares (o Android) que funciona também em tablets desse tipo. Por isso, não há dúvidas de que o tablet foi uma das principais estrelas da CES 2011, que começou na quinta passada e termina hoje.

Mas isso quer dizer que 2011 será o ano em que você comprará um tablet? É o que o mercado quer, mas será que você precisa de mais um aparelho digital portátil – além do computador?

Como disse na coluna da semana passada, é questão de tempo para que o desktop – o bom e velho computador de mesa – perca seu espaço como principal aparelho digital da casa. O celular já assume algumas dessas funções, o laptop já ultrapassou o número de computadores tradicionais vendidos no Brasil e a TV aos poucos começa a lançar seus tentáculos rumo à internet.

O tablet surge, em 2011, como um meio-termo entre o televisor, o celular e o PC. Mas ainda não é – nem acredito que vá ser – o principal aparelho eletrônico de uso individual. Seu reinado parece ter prazo limitado, até que alguém finalmente conecte esses três aparelhos (TV, celular e PC) sem precisar colocar uma prancheta eletrônica entre um e outro como ponte digital.

Por isso, por mais que o mercado pareça dizer que você precisa ter um tablet em 2011, resista à tentação consumista de um aparelho que deve se tornar obsoleto em pouco tempo. Mas se o seu negócio é ter as novidades quando elas saem, bem, isso é outra história…

Esperando o sol

Você não acha que os palhaços riem de você?

Somos espíritos de um mesmo deus
Portanto, somos o mesmo
O homem de hoje nega esta simples e bela verdade pela maior parte do tempo
E isto é triste

Capitalistas conformistas e racionalistas
Tiram seus carrões para trabalhar
Vestem-se iguais indo para seu trabalho rotineiro e chato
Recriminando pessoas como eu, que parecem diferentes
Eu sou o espírito de Deus
Você também
TUDO é DEUS
Isto não é maravilhoso?

O status quo funciona tão bonitinho com seus uniformes
Mas quando o importante é ajudar as pessoas
Veja como eles fogem
E isto é triste
Triste

A desumanidade piora e se torna mais enojante a cada dia que se passa
E quem não é corrupto em termos financeiros, é corrupto em termos morais
Eu sou o espírito de Deus
Você também
TUDO é DEUS
Isto não é maravilhoso?

Se você se acalmar e entrar em um estado de paz, poderá ver a beleza simples da vida
E tudo será uma questão se você virá ou não
Eu sou o espírito de Deus
Você também
TUDO é DEUS
Isto não é maravilhoso?

Os corruptos moralmente acham que estão dando o golpe no destino
E sequer percebem o que eles vão enfrentar no final
E eles seguem felizes, sem se preocupar com o mundo
Isso é triste

Há pessoas que tentam alcançar Deus das formas mais esquisitas
Mas mesmos os animais mais simples sabem que só há uma forma de estar em Deus
E mesmo que você seja uma pessoa boa, não precisa rezar
Eu sou o espírito de Deus
Você também
TUDO é DEUS
Isto não é maravilhoso?

Calma lá: nem virei poeta hippie, nem fui convertido a nenhuma doutrina oriental ou filosofia holística (nem tenho nada contra nenhum dos três, não me entenda mal). Isso aí é John Lennon – ou ao menos a tradução às pressas de uma interpretação para “I Am the Walrus”, dos Beatles, que eu encontrei na rede. A letra original é um surto dada, em que John empilhou referências cotidianas com o tempero surreal que estava descobrindo na fase elétrica de Dylan. A faixa começa com o mesmo tecladinho evasivo e autista que abria “Strawberry Fields Forever”, só que em vez de decrescente e intimista, vem bufão e autoritário, como um apresentador de circo.

(Um parêntese pra falar deste teclado, marca registrada da psicodelia Lennon. Como as melhores coisas dos Beatles, ele foi inventado de forma quase casual, como um subproduto do andamento das baladas de Phil Spector. Mas diferente da versão de McCartney para o mesmo teclado, que é cheia de referências aos anos 40, pesa as duas mãos no tempo central da música e pode ser ouvido em faixas como “Let it Be”, “Hey Jude” e “The Fool on the Hill”, o de Lennon ganha um aspecto de sonho justamente ao alternar as duas mãos no tempo da música. Ele testou, consciente ou inconscientemente, outras formas deste andamento por todo Sgt. Pepper’s (“Lucy in the Sky with Diamonds”, “Being for the Benefit of Mr. Kite!”, a parte do meio de “A Day in the Life”), mas logo percebeu que não poderia fugir da fórmula mágica posta em prática em “Strawberry Fields” – não custa lembrar que ela foi a primeira música a ser gravada da fase Sgt. Pepper. “I Am the Walrus” seria apenas uma das muitas vezes que o teclado seria revisitado. Outras viriam em “Flying”, “Sexy Sadie”, a parte do refrão de “Happiness is a Warm Gun”, “I’m So Tired”, “Dear Prudence” e “Wild Honey Pie”. O auge deste formato é sublinhado pelo próprio Lennon, que usa a fórmula como base para a música que ele escolheu para ser lembrado, “Imagine”. Mas a influência deste tecladinho psicodelia Lennon pode ser percebida em todo lugar, em gêneros diferentes: nas guitarras góticas de grupos de nü-metal, no andamento teutônico dos electros mais câmera lenta, em boa parte das guitarras mezzo Sabbath das bandas de Seattle (Dust, do Screaming Trees é praticamente um disco em homenagem a este andamento). Até no pop brasileiro é possível encontrar filhos diretos do tecladinho, como “A Sua” da Marisa Monte e “Dois Rios” do Skank)

Gritando mansinho (daquele jeito), Lennon começa uma letra que parece não ter pé nem cabeça:

I am he as you are he as you are me and we are all together
See how they run like pigs from a gun see how they fly
I’m crying

Sitting on a cornflake, waiting for the van to come
Corporation t-shirt, stupid bloody tuesday
man you been a naughty boy, you let your face grow long
I am the eggman
They are egmmen
I am the Walrus
Goo goo ga joob

Mr. City policeman sitting pretty little policemen in a row
See how they fly like lucy in the sky
see how they run
I’m crying, I’m crying
I’m crying, I’m crying

Yellow matter custard dripping from a dead dog’s eye
Crabalocker fishwife pornagraphic priestess
Boy, you been a naughty girl you let your knickers down
I am the eggman
They are egmmen
I am the Walrus
Goo goo ga joob

Sitting in an English garden waiting for the sun
If the sun don’t come you get a tan from standing in the English rain
I am the eggman
They are egmmen
I am the Walrus
Goo goo ga joob

Expert texpert choking smokers
Don’t you think the joker laughs at you
ho ho ho
hee hee hee
ha ha ha
See how they smile like pigs in a sty, see how they snied
I’m crying

Semolina pilchards climbing up the Eiffel Tower
Elementary penguin singing hare krishna
Man you should have seen them kicking Edgar Allen Poe
I am the eggman
They are egmmen
I am the Walrus
Goo goo ga joob

Agora compare a letra inicial com a “interpretação” inicial feita pelo sujeito que a publicou online, cujo nome foi apagado pelo tempo. Minha parte favorita é quando ele “traduz” “Goo goo ga joob” para “Isto não é maravilhoso?”. Poderia ter traduzido como “Que loucura” ou como “Iabadabadu”, que daria na mesma – sem brincadeira. Pra “I Am the Walrus” (“Eu sou a Morsa”) virar “Tudo é Deus” é meio brabo, mas dá pra entender pelo contexto. No entanto, nem é preciso saber muito inglês pra ver que o cara forçou a barra pra chegar nesta interpretação.

Forçou mesmo?

Ou será que toda interpretação é uma forçação? Estamos acostumados às versões mais simples, às que nos parecem mais lógicas, mais racionais, mas sabemos que tudo pode ser interpretado de qualquer jeito. Racionalizando, é possível explicar os pedófilos, os satanistas, os nazistas e a América corporativa. Porque a linguagem é traiçoeira, ela separa a essência de qualquer coisa ao criar um símbolo que a represente, fazendo com que o símbolo se torne tão importante quanto a própria essência, substituindo a “qualquer coisa” inicial (“O homem branco fala com a língua partida”, diz um ditado indígena, em referência à língua da serpente e ao duplo sentido da linguagem).

Quando rotulamos o que queremos dizer com palavras, nos limitamos ao significado destas. Que, por sua vez, podem ser interpretadas de diferentes formas, de pontos de vistas díspares, contraditórios e complementares. Em uma simples palavra podem residir diferentes falhas de interpretação. E diferentes acertos. Afinal de contas, se estamos discutindo sobre pontos de vistas, podemos facilmente chegar à conclusão de que não existe um ponto de vista definitivo, Verdadeiro, com letra maiúscula. Ou que, se houver, não diz respeito àquilo que discutimos com palavras.

Parece contraditório, mas o fato é que a linguagem parece atrapalhar a comunicação. Não precisamos de gestos, palavras ou sinais para nos fazermos entender. Nós somos os nossos próprios sinais, a essência do que representamos e nos perdemos em símbolos para nos tentar fazer entender. Mas basta um olhar para dizer tudo. E mesmo que o olhar possa ser entendido como um símbolo, uma representação, há algo por trás do olhar que diz tudo. Um brilho, que tem tanto a ver com epifanias religiosas, psicodélicas ou físicas, como com sentimentos mundanos, como a paixão, o amor entre pais e filhos e com o ar dos animais. Negar este brilho é negar a própria experiência da vida, preferir se ater ao emaranhado burocrático de informações para conseguir algum tipo de destaque social – menosprezando o mesmo como “piegas” ou “perda de tempo”.

Então para que serve toda a trama da vida, suas nuances e diferenças, se o que basta é um mero sentimento de unidade final? Serve, justamente, como escada para chegarmos a esta conclusão – que nunca é completa. Viver a vida é entregar-se à experiência, à novidade, deixando a postura defensiva para trás. Claro que é fácil falar e que algumas destas defesas vamos carregar para o túmulo, de tão grudadas estão em nossa memória genética. Mas se não percebermos que a vida não tem manual de instruções, a possibilidade de nos afogarmos em frustrações torna-se onipresente.

É preciso tentar, ir em frente, ver a vida por outras perspectivas, outros pontos de vista. Não tome o que é certo pelo que os outros dizem – o dogma é só uma das armadilhas que a religião nos força a acreditar. É preciso saber como as coisas são por si só, e se você já teve vontade de fazer algo e não fez, criou um problema a mais desnecessariamente. Como dizem os keyseanos, “a longo prazo, estaremos todos mortos” – só se vive uma vez.

Por isso qual é o problema de uma interpretação de uma música nos levar a este nível de discussão? Descrito, este texto poderia soar idiota, sem objetivo, sem motivo – mas só há um jeito de descobrir, não é? E só a partir daí você deve tirar suas próprias conclusões… Ou você precisa de um lide? Ou da moral da história?

O que nos traz de volta à “I Am the Walrus”, desta vez interpretada por um amigo próximo de Lennon, Pete Shotton. Autor do livro John Lennon in My Life, lançado em 1983, Shotton não era apenas colega dos quatro Beatles nos tempos de Liverpool como continuou sendo um dos principais amigos pessoais de John, até sua morte em 1980. No trecho abaixo, Pete lembra de como Lennon escreveu a canção:

“Certa tarde, enquanto John escolhia os felizardos em uma sacola de correspondência de fãs, ele encontrou, para nosso encanto, uma carta de um estudante da escola de Quarry Bank (escola onde os Beatles estudavam). Após as costumeiras expressões de adoração, o jovem revelou que seu professor de literatura estava tocando músicas dos Beatles na aula, e depois que os garotos tinham sua oportunidade de analisar as letras, o professor dava sua própria interpretação sobre o que os Beatles estariam realmente falando. (Isto, claro, vindo da mesma instituição de ensino cujo diretor resumira os prospectos do jovem Lennon com as palavras: “Este garoto está destinado ao fracasso”).

John e eu caímos na gargalhada com o absurdo da situação. “Pete”, ele me disse, “como era aquela música sobre o ‘Olho do Cachorro Morto’ que cantávamos na época do Quarry Bank?”. Pensei por um instante e a música me veio:

“Yellow matter custard, green slop pie,
All mixed together with a dead dog’s eye,
Slap it on a butty, ten foot thick,
Then wash it all down with a cup of cold sick”

(Meleca amarela, poço verde torto
Misturado junto com olho de cachorro morto
Taca no outro, três metros de burrice
Depois limpa com uma xícara de gripe)

“Isso!”, disse John. “Fantástico!”. Ele pegou uma caneta e começou a escrever: “Yellow matter custard dripping from a dead dog’s eye….” (“meleca amarela pingando do olho do cachorro morto…”) e assim foi a gênese de ” I Am the Walrus” (a Morsa – walrus – em si se materializou logo depois, praticamente saída de Alice Através do Espelho, de Lewis Carroll). Inspirado pela imagem de um professor de literatura fazendo considerações sobre o simbolismo em Lennon-McCartney, John criou as imagens mais ridículas que pôde imaginar. Ele usou “semolina” (um pudim sem gosto que éramos forçados a comer quando crianças) e “pilchard” (um tipo de peixe que dávamos aos nossos gatos). “Semolina pilchard climbing up the Eiffel Tower…”, cantarolava John, escrevendo com gosto considerável.

Ele virou-se para mim, sorrindo: “Vamos ver o que esses porras vão inventar sobre essa, Pete”.

Goo goo ga joob!

* Este texto foi publicado originalmente no dia 16 de agosto de 2003

E minha primeira coluna no Caderno 2 em 2011 foi sobre o… fim do computador.

Adeus, computador
Kinect, iPad e o celular em 2011

Um recorde foi batido duas vezes durante 2010: o de aparelho eletrônico que vendeu mais rápido na história. O detentor da marca anteriormente era o aparelho de DVD, lançado no final dos anos 90, mas na metade de 2010, o iPad da Apple, que só no primeiro dia nas lojas já havia alcançado a incrível marca de 300 mil unidades vendidas, garantiu o título. Em dois meses após seu lançamento, já havia mais de dois milhões de tablets passando de mãos em mãos pelo planeta.

Quase no fim do ano, o Kinect, acessório para os games da Microsoft, bateu o mesmo recorde, vendendo quase o dobro que o iPad no mesmo curto período de tempo.

Os dois aparelhos têm diferentes propósitos, mas são bem mais parecidos do que dá para supor. iPad e Kinect foram lançados visando ao entretenimento do consumidor final – o primeiro é um dispositivo portátil de conexão à internet, o segundo um acessório para o console de videogame Xbox 360. Também são os filhotes mais queridos de duas velhas rivais, a Apple e a Microsoft. E é aí que outras coincidências começam a ganhar até um ar de ironia.

Principalmente pelo caso de, graças à Apple e Microsoft, estarmos acostumados ao formato monitor, teclado, gabinete e mouse, para trabalhar, nos comunicar e nos entreter. Eis a ironia: as duas empresas estão apostando suas fichas em algo que não tem nada a ver com o formato digital que estabeleceram no final dos anos 70 e é central no dia a dia da maioria das pessoas do mundo: o computador pessoal.

Isso não quer dizer, no entanto, que já é hora de aposentar o velho desktop – mas já dá para dizer, sem exagero, que o computador já não é a central do mundo digital como foi há até poucos anos. Este lugar está passando para o celular, à medida que o telefone móvel ganha novos recursos e, claro, acessa a internet. Pode reparar – se ainda não aconteceu com você, é bem provável que ao seu redor muita gente já use o celular para traçar rotas em mapas online, para descobrir o telefone ou o endereço daquele restaurante ou em que cinema está passando aquele filme num determinado horário.
iPad e Kinect, portanto, só vêm acelerar o processo de distanciamento do computador.

Com o primeiro, ler um blog ou assistir a um filme comprado online tornou-se uma atividade tão trivial e corriqueira quanto ler um livro de papel. Com o segundo, controlar a ação de um videogame – e, consequentemente, daquilo que acontece na tela – não mais pressupõe ter um controle na mão, afinal você mexe no que está vendo apenas com o movimento do corpo, detectado pelo acessório.

Mais do que isso: ambos abolem por completo mouse e teclado, dando aos movimentos das mãos e do corpo liberdade para interagir com a tela. Isso é só o começo. Não vai demorar para que esse tipo de interação migre para a televisão, para o carro e para outros aparelhos com que temos de lidar diariamente.

Mas iPad e Kinect apenas aceleram um processo que, como já disse, é encabeçado pelo celular. E se você acha que nunca vai precisar do telefone móvel para acessar a internet, melhor pensar duas vezes. Se não dá para cravar que 2011 será o último ano do computador pessoal, já posso afirmar, sem dúvida, que você usará seu celular para acessar a internet em menos de um ano. Se já não estiver fazendo isso.