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Eis a entrevista que fiz com o Cory Doctorow para a Galileu deste mês.

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O que acontece quando se é banido da internet
Um romance para ilustrar os riscos da vigilância online

Cory Doctorow vive uma vida dupla. É um escritor de ficção científica que usa elementos da nova era digital para pensar num futuro próximo. E também é ativista digital empenhado em não permitir que as mudanças na internet possam interferir na liberdade individual. Em seu novo livro, Cinema Pirata (Galera Record, R$ 47,90), ele junta as duas faces ao desenhar um cenário que para muitos parece inofensivo, mas que pode ser tenebroso em poucos anos. Ele conta a história do adolescente Trent McCauley, que mora no norte da Inglaterra e tem como passatempo remixar filmes de um velho galã do cinema para recontextualizá-lo em situações constrangedoras — e sem o consentimento do autor. Isso o torna um infrator digital e a pena resulta no fim do acesso de sua família à internet, o que quer dizer que seus pais não podem mais procurar emprego ou pagar impostos em casa, nem sua irmã pode estudar. Frustrado, foge para Londres onde começa a entender a natureza por trás de sua punição. Conversei com Doctorow no fim de 2012, quando, atarefado com os filhos pequenos, preferiu responder em áudio às perguntas que fiz por e-mail.

Cinema Pirata é um romance, mas também funciona como um alerta, afinal o futuro distópico do livro não é tão distante de nossa realidade atual…
O que a ficção científica faz de melhor é colocar movimento e sangue em um argumento que, de outra forma, soaria frio e abstrato. Antes de George Orwell escrever o romance 1984, era difícil explicar por que ter uma câmera filmando por cima do seu ombro era tão perturbador. Graças a ele podemos importar aquela narrativa para entender por que toda essa vigilância suprime a nossa liberdade e por que só somos felizes, saudáveis e completos em uma sociedade livre. É muito fácil ser abstrato ao se tratar a internet como um sistema de TV por assinatura melhorado e dizer coisas como “qual é o problema de se regular a internet para excluir pessoas que assistem à TV de forma errada?”. O que quis mostrar no livro é o que isso significa tanto emocional quanto politicamente, como é sentir a pena de morte da era digital, ter seu acesso à internet tirado em um mundo em que quase tudo que você faz envolve a internet e que, em breve, tudo que você fará irá exigi-la.

Como a guerra contra a pirataria pode nos levar a esse estado de vigilância e restrição da liberdade?
O motivo para os computadores estarem na linha de frente do debate sobre direitos autorais não se deve apenas ao fato de serem máquinas de fazer cópias e destruírem o modelo de negócios da indústria do entretenimento, mas em razão de os legisladores acreditarem que eles podem ser legislados. Acham que basta fazer leis que digam como os computadores e a internet devem funcionar, que conexões podem ou não fazer, que programas podem rodar. O problema é que não há como inventar esse tipo de função, tecnicamente falando. Não dá para criar um computador que execute todos os programas menos um que lhe aborrece. O mais próximo disso são computadores que permitem fazer tudo, mas vêm repletos de softwares-espiões que vigiam o que é feito e tentam parar o usuário quando ele quer fazer algo proibido. Quando uma máquina vem de fábrica com esses recursos, há muitos desvios mal intencionados que podem também vir com eles. Se alguém entrar naquele software, pode prejudicar o usuário de muitas formas. Imagine, por exemplo, um carro que se dirige sozinho e que dispõe de uma trava digital que não permite que você carregue seus próprios softwares ou que não possa ver o que o software está fazendo. Se essa trava for comprometida, alguém pode alterar o software do carro e, em vez de ele não permitir que você corra, pode fazer seus freios pararem de funcionar. Os computadores foram concebidos para podermos ver o que eles estão fazendo e pará-los de fazer algo quando não queremos.

Há futuro para o direito autoral?
Antigamente, dizíamos que era possível controlar a indústria do entretenimento ao controlar a possibilidade de se fazer cópias, pois todo mundo que poderia fazer isso estaria necessariamente trabalhando em escala industrial. Hoje em dia, um computador faz cópias milhares de vezes ao dia e isso não torna todos que usam computadores parte desta indústria. Assim, temos uma indústria do entretenimento que insiste em leis ancestrais feitas para serem interpretadas por advogados corporativos e que devem ser obedecidas por todas as pessoas que trabalham com cópias. Ou seja, na era da internet, isso significa quase todo mundo. Não existe um conjunto de leis que seja flexível o suficiente para que a Warner licencie os direitos de Harry Potter para que a Universal faça um parque temático sobre o personagem e que, por outro lado, seja simples o suficiente para permitir que uma garota de 12 anos no porão da casa dos pais faça um site de fã sobre Harry Potter. Acho que a única maneira de resolver isso é criar outra definição para o que chamamos de processo industrial, que não seja apenas fazer cópias, algo que realmente represente só o que a indústria faz e, a partir disso, um novo conjunto de leis. Isso, no entanto, não quer dizer que não teremos regras culturais que nos digam como devamos usar essas coisas entre nós mesmos, de formas não-comerciais ou não-industriais. Mas não serão as mesmas leis que controlarão a indústria, da mesma forma que hoje temos leis que controlam o sistema financeiro e os bancos e elas não se aplicam quando precisamos emprestar dinheiro de um amigo ou pagar um almoço para ele.

Seus livros sempre foram lançados no formato tradicional, de texto. Você não tem intenção de explorar a interatividade ou o aspecto multimídia da narrativa?
Meu primeiro emprego de verdade foi em uma editora de CD-ROMs chamada Voyager, onde fui programador e desenvolvedor multimídia por alguns anos. Ainda não encontrei motivação de usar tais recursos na ficção, embora haja alguns projetos com os quais trabalho hoje que poderiam ter este formato. Mas, até agora, no que diz respeito à arte, eu tenho uma estética irredutível e um sentimento que está na minha cabeça e no meu coração e que eu quero levar para a sua cabeça e para o seu coração. E os recursos artísticos que melhor domino para transferir esses sentimentos são as palavras em ordem sequencial. Isso não quer dizer que eu não faria outro tipo de linguagem. Recentemente, lancei um livro ilustrado para crianças, algo que nunca tinha feito.

Conte-nos a história do site em que você escreve, o Boing Boing.
Meu primeiro contato com o Boing Boing foi como vendedor, quando eu ainda morava em Toronto e trabalhava em uma livraria — e o Boing Boing era uma revista de papel. Ela tinha sido criada por dois futuros amigos meus, Mark Frauenfelder e sua esposa Carla Sinclair, e alguns colegas deles, em uma época em que pequenas revistas estavam começando a ter distribuição internacional. Mas, alguns anos depois, a distribuidora que cuidava da revista faliu e a revista não conseguiu sobreviver. Conheci Mark anos depois, quando ele trabalhava em uma revista chamada Industry Standard, e foi convidado a testar um novo produto digital chamado Blogger. Para fazer o teste, pegou o domínio que já tinha de sua velha revista (boingboing.net) e instalou o Blogger lá. Ele ficou muito empolgado, mas não conseguiu emplacar a matéria na publicação, que pensava que esse novo serviço era só um modismo, uma nota de rodapé engraçadinha. Mas Mark gostou e continuou, conseguindo reunir algumas centenas de leitores até que ele conseguiu um furo jornalístico de médio porte. Havia muita especulação sobre uma invenção que estava para ser anunciada: uma empresa havia declarado que tinha desenvolvido um novo dispositivo inventado por Dean Kamen, que havia atraído o interesse de muitos investidores e quem o havia visto dizia que a invenção revolucionaria o mundo — Steve Jobs era um destes —, mas ninguém sabia direito o que era. Mark, sendo engenheiro, foi atrás das patentes registradas por Kamen e acertou corretamente sobre o que era o dispositivo, o Segway. Assim, a CNN publicou o Boing Boing no programa da noite e o blog teve milhares de novos leitores. Mark estava para sair de férias e me perguntou se eu estaria interessado em ser o editor convidado do site por uma ou duas semanas. Eu topei, ele gostou e, quando voltou, pediu para que eu continuasse. Trouxemos alguns amigos que tinham escrito na Wired — Xeni Jardin e David Pescovitz — e continuamos por cinco ou seis anos trabalhando basicamente por amor. Só que chegamos a um ponto em que não poderíamos trabalhar de graça, porque tínhamos alguns custos, como a banda de internet, que passava de US$ 50 mil dólares por mês… então resolvemos adotar publicidade. E falamos com nosso amigo, John Battelle, que estava começando uma empresa de publicidade online, chamada FM Publishing, e resolveu usar o Boing Boing como protótipo de como sua companhia iria funcionar. E assim continuamos crescendo. Acho que nossa fórmula secreta — o que fazemos melhor do que os outros — é que nós escrevemos apaixonadamente sobre as coisas em que acreditamos e nada mais. Não buscamos leitores, nossos interesses são nossas paixões. Provavelmente teríamos mais leitores se escrevêssemos sobre assuntos que eles gostariam de ler, mas tais pessoas viriam e iriam embora. Acho que onde nós acertamos é no fato de escrevemos sobre as coisas que realmente nos interessam.

Como você vê esta era da mídia social? Acha que o Facebook e o Twitter chegaram a um auge?
Se Facebook ou Twitter chegaram ao auge, isso não quer dizer que o mesmo tenha acontecido com a era da mídia social. O que provavelmente acontecerá com um lugar puramente social, como o Facebook, é que ele se tornará bastante tóxico. É o que parece sempre acontecer quando tentamos articular nossos contatos na internet e derrubar todas as barreiras entre as diferentes facetas de nossa personalidade, as diferentes pessoas que somos para nossos amigos, nossos familiares, nossos colegas de trabalho e por aí vai. Quando tentamos falar com todas essas pessoas ao mesmo tempo, isso começa parecendo ser libertador, mas com o tempo fica opressor e logo vamos para algum lugar em que não precisamos ser a mesma pessoa o tempo todo.
Foi o que aconteceu com o Facebook, que pegou todo mundo que estava no MySpace, que por sua vez pegou todo mundo que estava no Friendster. Parece ser uma regra que se repete o tempo todo e acredito que isso também acontecerá com o Facebook. Mas este tipo de serviço chegou para ficar e logo surgirão outros novos, todos tentando achar um equilíbrio entre como fazer dinheiro com seus usuários — às vezes às custas deles, forçando-os a derrubar as barreiras de suas identidades sociais — e como fazer dinheiro de outras formas, assim evoluindo para algo melhor. O Twitter, no entanto, não pertence ao mesmo universo do Facebook e se ele acabar será porque alguém entendeu como fazer o que o Twitter faz melhor do que eles. É parecido com a TV: quando a televisão apareceu, todos aqueles filmes que funcionavam melhor nesse formato se tornaram programas de TV. Aí, quando o YouTube apareceu, os programas de TV que funcionavam melhor na telinha se tornaram vídeos do YouTube. E acho que isso pode acontecer com o Twitter. Agora, mesmo que isso aconteça e que o público do Twitter vá para outro serviço, acredito que ele continuará como veículo para as coisas que têm mais a sua cara.

Qual dos dois devemos temer mais: Google ou Facebook?
Acho que o Facebook. O Google pelo menos parece ter alguma consciência da dimensão social do que ele faz. Não é que ele sempre faça as coisas melhor ou que leve seu slogan de não fazer o mal tão rigidamente, mas ao menos eles têm uma ideia empresarial sobre como o que eles fazem afeta a vida das pessoas. E a saúde da internet está ligada à saúde do Google. Já o Facebook parece não ter nenhuma dimensão moral ou ética. Não é que ele seja imoral, mas, sim, amoral. Eles não medem as consequências de seus atos se o assunto é faturar dinheiro. E quando articulam qualquer tipo de filosofia moral é sempre o Zuckerberg [seu criador] falando coisas bizarras ou estúpidas, como as pessoas devem ter apenas uma personalidade ou mostrar todas as facetas de sua identidade a todo mundo. Isso é de uma estupidez e arrogância monumental. Fora que as pessoas continuam empilhando uma quantidade enorme de informações sobre si mesmas que podem colocá-las em risco — informações que, se alguém mais fica sabendo, podem causar problemas no trabalho ou com a polícia. Esses dados eventualmente vazam ou são hackeados, e eles [do Facebook] não estão nem aí. O quanto antes o Facebook acabar, melhor.

Você acha que os problemas políticos e empresariais relacionados à internet vêm do fato de que seus líderes não entendem a rede porque nasceram em outra época?
Não sei se dá para apenas dividir isso por faixas etárias. É claro que quem é mais velho nunca vai conseguir entender o que é crescer em um mundo em que tudo está conectado. Mas, dito isso, também é verdade que há muitos jovens que não se lembram da internet mais aberta e livre, que nasceu de um esforço coletivo e onde tudo que fazíamos parecia de certa forma heroico, onde todos se sentiam parte de um grande projeto humano que tornaria o mundo um lugar melhor. E algumas pessoas mais velhas sempre têm isso em mente. Acho que precisamos achar esse equilíbrio, entre a internet como um projeto que nos torne a todos melhores e a internet como uma ferramenta que deve ser tratada de forma sensível.

Gostaria que você falasse um pouco do que conhece sobre o Brasil e nossa política digital.
Acompanho bem o Brasil, mas não tanto quando estava na Organização Mundial da Propriedade Intelectual, vinculada a ONU. A delegação brasileira era tão boa que eu aprendi muito sobre a política do país. Claro que também tive contato com o Gilberto Gil [então Ministro da Cultura], Sérgio Amadeu [sociólogo e pesquisador da cultura digital], o pessoal do movimento dos Telecentros… O Brasil é central para o movimento do software livre e dos Creative Commons… Mas sei muito desse lado politizado, mas não do Brasil como um todo, o que é uma pena. E uma das tragédias de se morar na Inglaterra é que muito pouca coisa é traduzida para o inglês, e o pouco que é tem de competir com esse enorme pool de produção em inglês nativo. Aí, é difícil se informar em outro idioma a não ser o inglês.

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E a minha coluna no Link dessa semana foi sobre a morte de Aaron Swartz (que a Tati entrevistou pra uma capa do Link em abril do ano passado

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Swartz não se contentava com uma vida confortável
O ativista seguiu seus ideais e não o mercado

Como acontece com quase tudo online, o trecho do clássico poema beat Grito (Howl, em inglês), de Allen Ginsberg, virou piada há algum tempo. A épica constatação que “vi as melhores mentes da minha geração destruídas pela loucura” ganhou um tom jocoso feito para ridicularizar uma das principais obsessões profissionais deste século digital: “Vi as melhores mentes da minha geração pensando em como fazer as pessoas clicarem em anúncios”.

Parece só uma piada, mas não é exagero: há muita, mas muita, gente talentosa que, devido às preocupações do mercado, se vê obrigada a deixar suas melhores qualidades em segundo plano para queimar neurônios para fazer com que as pessoas curtam posts no Facebook, deem RT em tweets, cliquem em banners ou para que façam galerias de fotos para que os usuários fiquem mais tempo online. Palavras como “engajamento”, “monetização”, “publieditorial” e “multiplataforma” (além de termos em inglês “buzz”, “app”, “newsfeed”, “e-commerce”, “startup”, “brainstorm”) causam urticária em pessoas que gostariam de estar fazendo outras coisas, mas se veem presas à obrigação de gerar audiência para uma marca.

O norte-americano Aaron Swartz, que nasceu em 1986, preferiu o outro caminho. Gênio da programação, o rapaz de 26 anos que cometeu suicídio há dez dias pode ser considerado não apenas um dos desbravadores da web que habitamos hoje, mas um de seus principais arquitetos. Ainda adolescente, trabalhou com nomes como o criador da World Wide Web Tim Berners-Lee (em um projeto de web semântica, a tão esperada web 3.0) e com o advogado Lawrence Lessig (Aaron o ajudou a traduzir a lógica das licenças livres do mundo do direito para a linguagem técnica dos computadores). Mas não bastou estar nos ombros dos gigantes. Foi além.

Não tinha nem 20 anos quando criou o web.py, framework para desenvolvimento web na linguagem Python que não só foi a base da criação de um dos primeiros sites sociais do mundo, o FriendFeed, como mais tarde serviu tanto para a criação do Facebook quanto para os vários projetos de rede social do Google. Ajudou a criar o Reddit, uma das redes sociais mais importantes e ativas da última década, cuja relevância e importância crescem a cada ano – não por acaso Barack Obama ofereceu-se para ser sabatinado na rede social, na campanha para a reeleição no ano passado. Aaron também era um dos principais articuladores do ativismo digital do século, escrevendo artigos e defendendo causas sempre à favor da liberdade de expressão e da internet aberta.

O tom grave de sua morte parece piorar o cenário descrito na paródia do poema do início do texto. Aaron poderia se juntar aos muitos geninhos que preferiram o conforto do emprego seguro e da vida corporativa e hoje estaria vivo, talvez ganhando muito dinheiro, mas inquietado. Preferiu seguir seu coração e todos nós ganhamos com isso.

Os mais cínicos dirão que ir atrás do próprio sonho foi o que determinou o fim de sua vida – um argumento ridículo. O motivo pelo qual Aaron tirou a própria vida não é claro, embora tudo indique que tenha a ver com o processo que o Massachusetts Institute of Technology (MIT) movia contra ele. Um processo que, se fosse considerado culpado, poderia colocá-lo na cadeia por até 50 anos.

Aaron era a favor da difusão livre da informação e hackeou o Jstor, um banco de dados de teses científicas, para mostrar que este conhecimento deveria estar na rua, ao alcance de todos. A ironia desta situação vem do caso que Aaron só virou programador porque, aos 11 anos, descobriu que o próprio MIT oferecia cursos gratuitos online.

Claro que ele aprenderia a programar de outra forma – mas, ao hackear o Jstor, não tenho dúvida de que ele queria aumentar a possibilidade de que mais pessoas como ele pudessem seguir seus sonhos – e não ficar pensando em como fazer os outros clicarem em anúncios.

Eis a resenha que fiz para o Django Livre, no site da Galileu:

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Um clássico de Quentin Tarantino

O que torna um filme clássico? O momento em que ele é lançado, se ele consegue registrar as inquietações de seu tempo a ponto de entrar para a história como um espelho daquele momento. Grandes atuações. Uma fotografia impecável. Uma direção segura. Cenas que, apenas com o casamento de som e imagem, conseguem sintetizar sentimentos da cabeça do autor para a do espectador. Grandes frases. Bom ritmo. Boa narrativa.

E quais são as características que tornam um filme de Quentin Tarantino um filme de Quentin Tarantino? Uma metralhadora de referências. Grandes atuações. Diálogos longos com descrições detalhadas. Cenas de tortura física e psicológica. Vilões maus de verdade. Protagonistas dispostos a acertar contas. Bom ritmo. Grandes frases. Narrativa entrecortada.

Desde que o século 21 começou que Tarantino tenta transcender seu próprio cinema, aquele com as bases lançadas durante os anos 90. Cães de Aluguel, Pulp Fiction e Jackie Brown ficavam naquela zona cinzenta dos filmes policiais de baixo orçamento dos anos 70, que une os blaxploitation aos primeiros Scorsese e aos melhores filmes de Sam Peckinpah e, graças ao tempero de citações e referências pop de seu diretor, transformava todo este gênero considerado B no território dos novos clássicos.

Mas os anos 90 acabaram e Tarantino quis sair de seus anos 70 e dos Estados Unidos, abraçando uma carreira internacionalista. Com os dois volumes de Kill Bill visitou o Japão e o cinema asiático e Bastardos Inglórios passava-se na França para causar o encontro explosivos da elite do nazismo alemão com mercenários judeus do exército americano tentando se passar por italianos de araque. Entre os dois, visitou o cinema de drive-in dos anos 50 no bilhete duplo Grindhouse, codirigido com o comparsa Robert Rodriguez. E agora, com Django Livre, rebobina seu filme um século e meio no passado.

E se seus filmes anteriores apenas aspiravam a transcendência rumo a um cinema clássico (quase sempre esbarrando na caricatura, seja no gesto em que Pai Mei ajeitava sua barba em Kill Bill ou na gargalhada que a tela do cinema dava na sessão fatal do final de Bastardos Inglórios), em Django Livre ele deixa a caricatura em segundo plano. Tarantino está mais interessado em celebrar o western como um dos principais gêneros narrativos norte-americanos do que em fazer sua habitual graça com filmes antigos, músicas desenterradas ou listar produtos de consumo.

Por um lado, isso é um tanto complicado, uma vez que o filme se passa no meio do século 19 e as referências pop da época são praticamente nulas – afinal, não existia cultura pop então. Por outro, é a deixa para Tarantino exibir seu extenso leque de samples cinematográficos, empilhando referências de filmes antigos e que caíram no esquecimento ao mesmo tempo em que aponta para referências que não são propriamente pop. Cita a mitologia germânica, a Ku Klux Klan avant la lettre, a então recente consciência humanista europeia e chega ao extremo de acenar para Laranja Mecânica do Kubrick (veja o desconforto na cena em que tocam Beethoven). E, claro, superpõe cenas que se passam em uma época com músicas de outra – e este contraste acentua-se ainda mais quando a época no caso é o século retrasado.

Mas não é o clássico Tarantino que torna Django Livre clássico, e sim sua aspiração ao grande cinema. Como os irmãos Coen em Onde os Fracos Não Tem Vez, Tarantino aproveita sua incursão pelo velho oeste para filmar cenas que fazem mais sentido na tela do cinema, por maior que seja a tela da TV em sua casa. A cena em que o escravo Django (Jamie Foxx, atuação irrepreensível) e seu dono Dr. King Schultz (Christoph Watz, repetindo o papel de Bastardos Inglórios, só de outro ponto de vista) firmam parceria e atravessam as montanhas rochosas no inverno, ao som de “I Got a Name” de Jim Croce, ao mesmo tempo brinca com a ideia de road movie antes mesmo das estradas existirem, também dedica-se com esmero de documentarista e fotógrafo à paisagem natural dos Estados Unidos.

O glacê deste épico é uma saga de vingança, e nela o tempero Tarantino é carregado – e maniqueísta. Com poucos minutos de filme, ele já mostra que os caipiras do sul dos EUA não são apenas os vilões do filme como quando, ao morrer, espatifam-se feito personagens de desenho animado, causando riso. Já os escravos ganham a aura de protagonista não apenas personificada na busca de Django pela liberdade e por sua esposa, Broomhilde, no sul daquele país, mas também por serem vítimas de violência gratuita e gráfica, em diversos momentos, humilhantes e tétricos. A cena em que o escravo D’Artagnan é cobrado por não ter feito o que deveria fazer é revoltante – e Tarantino a torna assim de propósito, justamente repulsiva para nos lembrar que estas cenas aconteciam com nossos ancestrais recentes, quatro gerações para trás. Brancos rindo e se divertindo enquanto negros viram a cara, calados, para evitar a dor e a tristeza.

É quando surge dois dos principais personagens e das grandes atuações do filme, quando somos apresentado ao desprezível Calvin Candie (Leonardo diCaprio, genial) e seu escravo particular Stephen (Samuel L. Jackson, irreconhecível). Os dois dão aulas de dramaturgia à medida em que encarnam seres desprezíveis, opostos diretos aos personagens de Foxx e Waltz. Ao contrapor dois vilões e dois mocinhos sem dividi-los por raça, Tarantino dá seu xeque final à pseudopolêmica racista relacionada ao filme. O filme sublinha sim o holocausto da escravidão, mas lembra que bondade ou maldade independe de cor da pele.

E depois de nos provar isso com atuações e diálogos brilhantes, ele deixa o couro comer em tiroteios que não devem em nada às carnificinas em massa de Kill Bill. Django é um filme ousado, assustador, tenso e provocador, ao mesmo tempo em que não perde o bom humor e pode até provocar gargalhadas.

stephen

Usei o gancho do vazamento online do Django para falar do novo filme de Tarantino na minha coluna do Link.

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O novo filme de Tarantino e o amadurecimento digital
Formatos piratas já não satisfazem as pessoas

Assisti a Django Livre, que estreia no Brasil na sexta-feira. Era dia de Natal (data da estreia oficial do filme de Quentin Tarantino) e eu estava em uma viagem no exterior. E fui com a minha mulher ver Django numa telona. Gosto de assistir a filmes e séries na TV, já vi muitos filmes no computador, mas nada substitui o cinema para alguns filmes.

O elemento social talvez seja seu aspecto mais encantador: sentar-se no meio de desconhecidos e conduzir-se por uma viagem de sons e imagens que passaram-se na cabeça de um autor, numa sala escura. É um processo completamente diferente da literatura. No cinema, as cores, formas e sons vêm antes da mensagem e da linguagem, e a comunicação é feita por instintos puramente estéticos. Todo mundo vê e ouve a mesma coisa, mas a história é interpretada por cada espectador. E absorver essas sensações coletivamente, uma viagem cerebral cujos condutores são apenas nossos olhos e ouvidos, é uma das grandes experiências sociais que o século 20 deixou para as gerações futuras.

Prefiro assistir aos meus cineastas favoritos assim. Tarantino é um dos meus prediletos entre os vivos (ao lado dos Coen, Cronenberg, Lynch, Scorsese, Herzog e mais alguns) – e por isso cedi à expectativa e resolvi ver o novo filme em inglês mesmo. Na semana passada, no entanto, pude revê-lo em português em uma sessão para a imprensa (que é chamada de cabine), dois dias depois de uma versão screener vazar na internet.

Versões screeners são DVDs enviados a jornalistas que não podem ir às cabines. Elas não têm a qualidade técnica de uma projeção cinematográfica nem a alta definição dos DVDs comerciais. Servem para que o crítico de cinema assista ao filme antes da estreia.

No mundo do download ilegal, essas versões recebem nomenclaturas específicas. Screener, abreviado SCR, é a versão mais apresentável nas primeiras vezes em que o filme vaza online, diferente de outras categorias.
CAM, abreviatura de “câmera”, é o filme pirata mais rasteiro possível, aquele em que o pirateiro filma a tela do cinema. É a qualidade mais tosca que se pode imaginar: iluminação ruim, silhuetas de espectadores e som fora de sincronia são características frequentes. A versão TS – telesync – é um pouco melhor, pois o pirateiro pega o áudio do projetor. Em seguida vem a versão SCR, como a que vazou de Django na semana passada.

Desta vez, o rebuliço que normalmente acompanha o vazamento de obras esperadas há muito tempo – como é o caso do filme de Tarantino – não foi tanto. Parte do público preferiu esperar o filme estrear no cinema (eu estaria entre eles, se já não tivesse visto o filme). Outra parte baixou sem saber da qualidade. E um terceiro grupo preferiu esperar o vazamento de uma versão melhor, em alta definição, ripada do DVD.

O que mostra que estamos vivendo um amadurecimento digital considerável. O mesmo vale para o vazamento de discos ou para a qualidade do áudio de músicas vendidas legalmente online. Há audiófilos que se recusam a ouvir música com bitrate – que mede a qualidade da frequência – menor do que 320 kbps. Dez anos atrás, muitos estavam comemorando o simples fato de o disco ter aparecido online – mesmo que a qualidade fosse inferior ao padrão mais baixo, o de 128 kbps.

Esta mudança está diretamente associada ao tipo de equipamento que temos hoje em casa. Com esses equipamentos, aos poucos estamos exigindo mais qualidade digital. Mas temos que nos acostumar com o fato de que o digital não necessariamente exige suporte para ser consumido. Você não precisa de um DVD para ver um filme como não precisa de um CD para ouvir um disco. Falo mais disso em colunas futuras.

E assistam a Django no cinema. Alguns momentos são de pura catarse coletiva. E saber que você tem que ficar quase três horas sem poder dar pause, olhar a internet no celular ou correr para pegar algo na geladeira torna a exibição ainda mais intensa.

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Na minha primeira coluna no Link em 2013, aproveitei para falar da maior feira de tecnologia do mundo – e como ela está deixando de ser importante.

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O ano em que a CES deixa de ser o maior encontro da tecnologia
Feira parou de emplacar tendências

Todo ano é sempre assim: começa janeiro e lá vem a Consumer Electronics Show (CES) – alardeada aos quatro cantos como “a maior feira de tecnologia do mundo”. E os olhos do planeta se voltam para Las Vegas, quando as principais empresas desta área exibem seus lançamentos para o recém-iniciado ano. Alguns estão na fila para chegar ao mercado, outros são protótipos de tecnologias que ainda vão se tornar mais baratas, outros tantos foram lançados às pressas apenas para fazer frente à concorrência.

Ao começar o ano do mercado de tecnologia com o dedo na tomada, a CES bate o bumbo para reforçar sua importância. Há uma esperteza estratégica no fato de o evento acontecer em janeiro. O mês é tradicionalmente morto no que diz respeito a notícias em geral, e até março a pasmaceira noticiosa na área de tecnologia é clássica.

Acontece que, há alguns anos, a feira perdeu a importância que tinha. Muitos podem apontar a edição de 2012 como o grande termômetro desta mudança. Foi a última vez que a Microsoft participou do evento; a CES 2013 não contará com os lançamentos da empresa que popularizou o Windows e a computação pessoal. A saída da Microsoft, no entanto, não é o primeiro sinal de que a feira já não é o que era; mas sim, o derradeiro.

Há outras razões que ajudam a chegar a este diagnóstico. Para começar: pelo menos há dois anos, não há uma grande tendência que toda a indústria se reúna para celebrar. Antes, toda CES era pautada por uma grande novidade que se desdobrava em diversos aparelhos. Foi assim com as telas de toque, com as telas de plasma e de LCD, com os smartphones antes e depois do iPhone, com os notebooks, etc.

Desde 2009, logo após a crise financeira que atingiu os EUA, a CES não consegue emplacar sua grande tendência. No ano seguinte, tentou dizer que o futuro eram os aparelhos 3D, mas as pessoas não estavam tão interessadas nisso. A CES 2011 teve um monte de clones do iPad, mas nenhum deles conseguiu fazer frente ao tablet da Apple.

As tendências desta nova edição da CES são bem esparsas e soltas. Há apostas em relação à saúde monitorada por aparelhos, discussões sobre “a segunda tela” (a relação do celular com a TV e com o computador), muita ênfase em carro e casa conectada e pouca referência a um novo tipo de produto, a algo que faça o mercado e os consumidores acompanharem o que acontece em Las Vegas para saber qual será o grande produto que precisa ser comprado em 2013. Pode ser um eletrodoméstico, um televisor, algum acessório para o carro… Tudo girando ao redor da internet.

E é a rede um dos motivos que me parece ter esvaziado a importância da CES. Graças à popularização em massa da internet durante a década passada, os aparelhos perderam sua importância para os serviços oferecidos online. E os grandes deste cenário estão mais preocupados em fazer seus próprios eventos do que em participar de feiras em que fabricantes de todo mundo mostram suas máquinas. Afinal, por que montar uma barraquinha do Google ou o do Facebook num evento gigante?

O segundo motivo também está ligado à internet, mas passa pelos telefones celulares – que, há menos de uma década, agem como pequenos computadores de bolso com acesso à rede. Os telefones móveis hoje são os principais objetos de desejo do consumidor de tecnologia (competindo de perto com os tablets) e há pelo menos cinco anos estes produtos se encontram em outro grande evento, realizado dois meses depois, do lado de lá do Atlântico, em Barcelona, na Espanha.

O Mobile World Congress cresce mais a cada ano e não duvide que sua edição de 2013 seja mais popular – e faça mais barulho – do que a CES deste ano.

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Esta é a primeira coluna do ano novo, por isso não posso deixar passar a oportunidade de desejar um feliz 2013 para todos que acompanham o Link. O ano promete!

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Minha última Impressão Digital de 2012 cogita um 2013 mais móvel e menos preso aos desktops. Será?

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2013: O ano em que o celular pode ultrapassar o computador
Futuro pertence aos nichos e à mobilidade

Todo mundo quer saber quando é que o Facebook vai perder a importância – e, principalmente, qual será a nova rede social que vai substitui-lo. Acho que são dois movimentos distintos e uma coisa não está propriamente relacionada à outra.

A rede social de Mark Zuckerberg começou 2012 forte e imponente, rumo ao primeiro bilhão de usuários e disposta a abrir capital. Cumpriu as duas promessas, mas o crescimento já não é mais intenso e o IPO não chegou nem perto da expectativa entusiasmada do início do ano. Por outro lado, cada vez mais gente deixa o Facebook por motivos diversos – discordam de sua política de privacidade, não aguentam mais discutir com desconhecidos horas a fio, não querem mais ver imagens de culto ao ódio, cansaram de misturar trabalho, amigos e família no mesmo ambiente, não gostam do aplicativo móvel, acham que virou uma plataforma de anúncios.

Sobre o último caso, é fato. Seu concorrente direto, o Google, também se sustenta em publicidade, mas enquanto recolhe dinheiro graças à sacada do Ad Sense, a empresa também tem o sistema operacional móvel mais popular, mapeia e digitaliza o mundo em seu serviço cartográfico, tem tablets, celulares e uma tentativa de fundir TV com internet, além dos futurísticos Google Glasses… Enquanto isso, o Facebook apenas vende formas de socializar conteúdo de seus domínios. Repete a lógica da America Online em seus primeiros dias, algo que se provou insustentável. As pessoas não ficam no mesmo site o tempo todo.

Sem contar que um dos motivos do fracasso da abertura de capital do Facebook foi a insegurança que investidores têm em seu futuro móvel. O aplicativo da rede social para celulares não chega aos pés da experiência em desktop. Tentaram entupi-lo com recursos: mensagens, chat, eventos, fotos, jogos… O app é lento e difícil de usar.

No início do ano comentei como a simplicidade é a razão do sucesso de um aplicativo. E isso aconteceu pouco antes de o Facebook anunciar a compra do Instagram. Os motivos da aquisição são especulação, mas têm a ver com o fato de a rede social não ter um aplicativo móvel tão bom quanto o Instagram e também com a possibilidade de estar comprando um possível rival.

Mas o Instagram não deve atingir os níveis do Facebook – mesmo se não fosse comprado. Porque o futuro das redes sociais pertence aos nichos. E, principalmente, o futuro da internet pertence aos celulares.

Esta fábula em que um aplicativo para celulares é comprado por uma rede social criada para ser usada em computadores é uma amostra do futuro que veremos nessa década. A força da internet móvel é comprovada por nós diariamente – seja em programas de geolocalização que nos ensinam caminhos inusitados, na possibilidade de se assistir à TV individualmente em um ônibus (com fones de ouvido, por favor), em inúmeros jogos mais complexos que os primeiros Super Mario e agora cabem em nossos bolsos. Carregamos sempre aparelhos que podem tirar foto, editar texto, vídeo e áudio e publicá-los na internet.

Ao mesmo tempo, nos tornamos mais livres. Livres do mouse e do teclado, da posição arqueada ao debruçarmos nos computadores, de ficarmos sentados o tempo todo. A era pós-PC tão alardeada por Steve Jobs tem menos a ver com tablets e mais com a internet móvel nos celulares. Em pouco tempo, veremos os tablets como trambolhos gigantescos, smartphones para idosos que não conseguiam digitar em teclados touchscreen. Isso acontecerá quando vier o triunfo da internet móvel via celular.

Eis a minha aposta para 2013: menos olhos na telona, mais olhos na telinha. Menos tempo sentado, mais tempo em pé. Menos escritório, mais rua. É claro que temos que esperar melhorias drásticas no nosso parco 3G e num utópico 4G que nem sequer é realidade. Mas, com certeza, usaremos mais celulares que computadores. Se é que já fazemos isso hoje, sem nos dar conta.

galileu-258-janeiro-2013

A primeira edição da Galileu sob a minha direção chegou às bancas um pouco antes do natal e, além da matéria de capa, que é um dossiê sobre maconha, saúde e legislação (escrito por um dos editores da revista, Tarso Araújo, autor do livro Almanaque das Drogas), a edição ainda traz matérias sobre o cérebro e o sexto sentido, a relação entre exercício físico e inteligência, as vacinas do futuro, livros inspirados em músicas, a chegada dos e-books ao Brasil, métodos de concepção humana que dispensam o sexo, os principais destinos turísticos do mundo, a primavera árabe e a falta de sexo, escritórios que não parecem trabalho, games indie, o novo Tarantino, RPG e o Facebook, obesogênese, um bilhão de “Gangnam Style”, uma casa com 92 centímetros de largura, os inimigos da eficiência e a disparidade entre a sociedade digital e as instituições analógicas que a gerem. Compra que eu garanto, custa só dez pilas. A capa acima você pode curtir lá no Facebook e abaixo reproduzo a primeira Carta ao Leitor que assino na revista.

2013 vai ser ‘o’ ano

vista
A vista do meu novo escritório: o heliporto, a ponte do Jaguaré e o Parque Villa Lobos, eis meu horizonte do desafio dos próximos anos

Não esperava pelo convite, mas quando veio, demorei para acreditar. Depois de quase seis anos editando o caderno de tecnologia e cultura digital do jornal O Estado de S. Paulo, o Link, começou a me bater uma certa inquietação. Nunca havia passado tanto tempo num mesmo emprego e temia me entediar com um dos meus assuntos favoritos, que é o universo digital. Mas quando me convidaram para ser o novo diretor de redação da GALILEU, essas preocupações sumiram. Afinal, tomar conta de uma grife cuja bandeira é a expansão do conhecimento, ao mesmo tempo que me permitia continuar olhando para as novidades eletrônicas, ampliaria ainda mais a minha área de atuação.

Aceito o convite, veio o fim do ano e um curto período de readaptação. Saí da marginal Tietê para a marginal Pinheiros, da Ponte do Limão para a Ponte do Jaguaré, de um caderno semanal em um jornal para uma revista mensal. Mas mais do que me adaptar a prazos e lugares, tinha que entender melhor a publicação e, principalmente, as pessoas que a fazem.

Aí entra a segunda parte do desafio, que, felizmente, foi bem mais fácil do que imaginava. A GALILEU é uma das melhores revistas do Brasil, seja em profundidade de conteúdo, amplitude de abordagens e concepção visual. E ela é assim por ser fruto de uma equipe curiosa e atenta, ávida por novidades e disposta a dissecar assuntos que não são tão fáceis de entender, como ficam parecendo depois que chegam às páginas da revista.

Como é o caso do tema desta primeira capa de 2013. Não é a velha pauta que pergunta se maconha faz mal — disso já sabemos. Maconha volta à capa da revista pois dois estados norte-americanos e o Uruguai resolveram legalizar todas as etapas relacionadas à cadeia de produção da droga, do plantio ao comércio, numa tentativa de enfraquecer o narcotráfico e, consequentemente, o crime organizado. O autor da matéria, o editor Tarso Araujo, aos poucos se firma como uma autoridade no assunto — é dele, por exemplo, a autoria do livro Almanaque das Drogas, lançado no ano passado. Aprofundar-se num tema que deve ecoar muito no ano que começa não foi propriamente uma dificuldade para o jornalista. As outras matérias da edição também seguiram esse tom e, durante 2013, vamos conhecer melhor os talentos desta equipe.

Termino minha primeira carta agradecendo à minha chefe direta, Paula Perim, por me servir como bússola na editora, e ao meu copiloto na revista, Tiago Mali, pelas boas-vindas na última carta ao leitor de 2012 e por me ajudar a entender a lógica por trás da GALILEU. 2013 promete!
Vamos lá!

matias-por-luis-douradoAlexandre Matias
Diretor de Redação
matias@edglobo.com.br

Uma retrospectiva pessoal

2012

Se você for parar pra pensar nas pessoas que morreram em 2012 (Millôr, Chico Anysio, Niemeyer, Donna Summer, Ivan Lessa, Jon Lord, Don Cornelius, Nelson Jacobina, Ravi Shankar, Eric Hobsbawn, Marcos Paulo, Hebe, Neil Armstrong, Ray Bradbury, Levon Helm, Moebius, Jimmy Castor, Donald “Duck” Dunn, Wando, Ted Boy Marino, Gore Vidal, Carlão Reichenbach, MCA, Décio Pignatari, Ed Lincoln, Nora Ephron, Whitney Houston e a lista segue), a impressão que se tem é que todo mundo que é importante morreu. Ou que o século 20 está morrendo.

Não é bem isso. Ano que vem haverão mais mortos conhecidos que esse ano e essa progressão continuará em escala geométrica pelo simples e óbvio fato que, durante o século 20, cada vez mais pessoas se tornaram conhecidas e reconhecíveis em larga escala. Há dois séculos haviam bem menos celebridades pelo também simples e óbvio fato de que haviam bem menos pessoas no planeta. As melhorias que a ciência e a tecnologia – agentes diretos da explosão demográfica dos últimos cem anos – deram ao mundo graças ao indesculpável método científico que, aos poucos, vem demolindo preceitos que pareciam eternos, quase todos vinculados a elites religiosas, políticas ou financeiras. O “porque sim” da antiga monarquia do saber vem desabando frente ao “vamos experimentar?” de uma nova forma de governar e gerir a vida, em todas as escalas. Juntas, ciência e tecnologia (todo o conhecimento e todas as ferramentas acumuladas pela humanidade em seus poucos milênios na Terra), não apenas propuseram como provaram que uma democracia de fato é possível. Por vivermos o momento-chave desta mudança, temos a impressão que ela não está acontecendo ou, sei está, anda em câmera lenta. Mas eu tou falando de uma espécie consciente que habita a superfície de todo um planeta; a escala aqui é geológica.

Em contrapartida, a rápida superlotação do planeta aconteceu ao mesmo tempo em que valores como fama, sucesso, ganância e celebridade passaram a ser centrais na sociedade moderna. O novo acúmulo de gente naturalmente implicaria um número maior de ícones e líderes, mas uma deturpação moral, fruto de um deslumbre com a própria imagem, fez que a quantidade de famosos – e, pior, de candidatos a famosos – atingisse níveis exageradamente anormais. A quantidade de gente querendo aparecer aumentou drasticamente no século 20 e isso deixou dons caros à humanidade – como afeto, inteligência, bom senso, paciência, tolerância, caráter – em segundo plano.

Veja a quantidade de famosos que surgiram apenas em 2012, a maioria deles ganhando exposição anabolizada graças à internet. Noutros tempos, “Gangnam Style” e o Jesus de Borja seriam curiosidades esquecidas na semana seguinte. Mas entraram no imaginário das pessoas como milhares de outros personagens que eram literalmente anônimos antes deste ano – Nissin Ourfali, Michel Teló e Lana Del Rey entre muitos outros. Imagine, portanto, como será o obituário de um ano como 2097. Os famosos de antigamente vão morrer aos segundos – ou talvez seja mais provável que, como morrem famosos o tempo todo, suas mortes deixem de ser notícia.

O que, em outras palavras, quer dizer que estamos caminhando rumo ao fim dessa era de celebridades. O excesso de famosos de todos os níveis e em todas escalas do início deste século inevitavelmente nos levará a uma banalização da utilização da imagem como moeda e, se algo não de diferente não aparecer até lá (inteligência artificial, alienígenas, transferência de consciência, cura da morte – as opções são inúmeras), vamos começar a dar valor às qualidades que nos tornam humanos. Isso já está acontecendo à boca pequena, mas à vista de todos – as pessoas estão aprendendo a gostar de si mesmas, de onde vivem, das pessoas da família, de quem está ao seu redor e peguei-me pensando outro dia que isso poderia ter mais a ver com a mudança de eras vislumbrada pelos maias do que propriamente com o mórbido apocalipse associado ao ano que termina. Bem que eu havia spoilado: o mundo não acabou.

E 21 de dezembro de 2012 é uma data como outra qualquer, e como 12/12/12, o dia do descobrimento do Brasil e a data do seu aniversário, só aconteceram uma vez. Creio que vamos começar a dar mais atenção às coisas corriqueiras, que nos cercam, do que à preocupação que temos com a nossa reputação em relação aos outros – isso é conseqüência, não causa. Reputação constrói-se com caráter, não com aparência. Vamos viver a nossa vida mais intensamente, mais do que viver a vida dos outros.

Particularmente, vivi um ano desses. As Olimpíadas em Londres, Avenida Brasil, o julgamento do mensalão, a reeleição de Obama, o Bóson de Higgs, o furacão Sandy – mal acompanhei os grandes acontecimentos do ano e os poucos que me envolvi estavam mais diretamente ligados à minha vida, como o ano de ouro do meu time (#vaicorinthians!) e a tensa eleição municipal na cidade que moro (votei no Haddad). Enquanto passava por uma transição crucial na minha vida (finalmente consertei meu braço), finalizei o ano numa incrível reviravolta profissional (quando deixei o Estadão depois de cinco anos de Link – não foi difícil deixar o Limão, mas ainda sinto saudades da rotina diária com Filipe, Tati, Camilo, Thiago, Murilo, Carol e Vinícius – para assumir a direção da redação da Galileu, na editora Globo). Fui convidado a reinventar o Prêmio de Música Brasileira do Multishow e ao lado do Bruno, do Pedro e do Dudu, inventamos uma mesa redonda que funcionava como uma faixa de comentários via internet do programa que era assistido na TV (e reunindo os bambas Marcelo Castello Branco, Miranda, Sarah Oliveira, Pablo Miyazawa, Pedro Seiler, Ricardo Alexandre, André “Cardoso” Czarnobai, Katia Lessa, Roberta Martinelli e André Forastieri). Também participei outra vez da curadoria do festival da Cultura Inglesa, quando o Franz Ferdinand tocou de graça no Parque da Independência. Fora as atividades semanais: toda segunda Link, toda terça Prata da Casa (levando o clássico projeto do Sesc a uma décima terceira edição – TREZE, hehe – que ia para outras camadas além da MPB, com apresentações de graça de nomes como Silva, Mahmundi, Gang do Eletro, Bonifrate, Madrid, Rafael Castro, Sambanzo, Kika, Tiberio Azul, Rosie & Me, Cícero, Ogi, Pazes, Caçapa, entre muitos outros, num belo panorama – sem modéstia, não sou disso, cê sabe – da nova música brasileira em 2012) e toda sexta as inacreditáveis Noites Trabalho Sujo (em que tive o prazer de discotecar ao lado de compadres e comadres em sets vastos e memoráveis, num dos melhores e mais elegantes inferninhos do Brasil, o Alberta #3 – vale aqui um beijo a todos da casa e aos amigos que passaram pela cabine da melhor de São Paulo, em especial para o Danilo, para a Babee e para o Pattoli, que além de assumir as festas quando estive de licença médica, me ajudaram a consolidar o formato porralouca da festa atual). Fora o Vintedoze, que tocava com o Ronaldo que, com o fim da Colmeia, ficou pela metade. Não conseguimos terminá-lo direito, mas fez história em seu semestre de vida.

E, claro, foi o ano em que OEsquema deixou de ser o site que fundei com o Mini, o Bruno e o Arnaldo para se tornar o condomínio mais cool e elegante da internet brasileira. É muita gente boa num mesmo lugar, às vezes parece um sonho. Começaremos a nos mexer coletivamente já em 2012, quando começamos a publicar nossa primeira retrospectiva em conjunto. Circule pelos sites do header entre o natal e o ano novo para saber das novidades – além de acompanhar nossa home, um espelho das coisas mais legais da internet, pode reparar (ou assinar o RSS). E em 2013 já tem boas novidades.

Da minha parte, desligo minhas atividades neste dia 22 aqui neste Trabalho Sujo e retomo as atividades em 2013 (quer dizer, desligo naquelas – sigo online no Instagram, meu brinquedo favorito do ano). Até o fim do ano deve pintar uma retrospectiva com as 75 melhores músicas de 2012 em retrospectiva, além de uma lista de melhores discos, shows e a lista da retrospectiva dOEsquema, que aparecem antes do dia 31.

Por enquanto, despeço-me de 2012 com um sorriso. Foi um ano incrível – em que o mundo não acabou, mas que ficou um pouco distante. Não reparei direito no que acontecia no mundo, mas estava sempre de olho no que acontecia por perto. Mais do que isso: fazendo acontecer. Graças a deus sou pago para fazer o que gosto e não paro de celebrar isso fazendo coisas legais pros outros. Sempre repito que o sentido da vida não é um significado, mas o verbo sentir no particípio.

E você também pode fazer. É só começar. Recomeçamos no ano que vem. Boas festas para você e para os seus, divirta-se e juízo. E não esqueça do mantra: só melhora!

Até 2013!

maiaaaa

Rola o papo que toda essa onda de calendário maia e 21 de dezembro de 2012 não é a data do Juízo Final e sim do fim de um ciclo para o início de outro. Já ouvimos essa história desde que descobrimos, lá nos anos 60, que estávamos às vésperas da Era de Aquário e a chegada do terceiro milênio – com todas suas paranóias ao redor dos anos 1999, 2000, 2001 e 2010 – acelerou essa sensação de que ou estamos fazendo hora-extra no mundo ou estamos prestes à presenciar uma mudança drástica na consciência coletiva da humanidade. Fico pensando se não é simplesmente uma questão numérica e depois de séculos e séculos defendendo suas propriedades e sobrevivência com unhas e dentes, imagine se, a partir de hoje, o número de pessoas na Terra mais dispostas a compartilhar (não só no Facebook) começar a ser maior do que o número de pessoas ferranhas em não abrir mão do que é seu. Se a balança virar mesmo para um lado mais generoso e menos egoísta, o que nos pode acontecer enquanto espécie?

Um amigo meu lamentava ontem à noite, quando toquei com a Fer na festa de véspera do fim do mundo do Neu! (valeu pelo convite, Dago), como, de todas as gerações da humanidade, éramos a mais azarada por estar viva justamente quando tudo acaba. Pra mim, é o oposto – somos a mais sortuda por estarmos vivos justamente quando tudo começa.

Bom começo, portanto!

Minha coluna no Link de segunda-feira foi sobre novos hábitos digitais e um pouco de tolerância no ano que vem.

Uma sugestão de resolução de ano novo que vale para todos
Convivemos com velhos e novos hábitos

Fim de ano é sempre a mesma coisa: além das compras e viagens, as pessoas aproveitam para fazer aquela reflexão. Esse momento, na maioria das vezes, se traduz em listas: melhores do ano, resoluções, presentes, convidados, metas.

O site Gawker fez uma dessas, mas, em vez de pensar no melhor do ano, listou o pior. Entre os itens, modinhas hipster (calças skinny, bigodes irônicos), acessórios engraçadinhos (calçados com dedos) e itens do universo do Link, como perfis no Twitter criados para parodiar personalidades, fotos de comida no Instagram e fones de 300 dólares.

Queria aproveitar a deixa para falar de hábitos digitais e, em vez de apenas apontar o que não deveríamos fazer, refletir sobre nossa ética, etiqueta e educação em relação ao novo século digital.

Costumamos rir de nossos pais quando narramos suas desventuras pela internet. A mãe que manda lembranças com palavras meigas no meio de uma discussão acalorada no Facebook. O pai que forwardeia todo e-mail sobre um novo golpe. Ela entope o MSN de emoticons, coleciona power points e tagueia você em fotos da sua adolescência que você não queria que tivessem sido registradas. Ele compartilha listas de piadas d’antanho, descobriu ontem o Battle at Kruger (o clássico vídeo em que um rebanho de búfalos defende um bezerro na savana africana) e manda e-mails desmentindo lendas urbanas. Os dois ainda usam o Internet Explorer, riem “kkkkkk” e perguntam como faz para fazer a carinha sorridente no Facebook.

Rimos com uma camada falsa de superioridade, só porque nos acostumamos com a rede antes de nossos pais. Mas nós também nos comportamos mal online. São gestos que parecem triviais, mas que demonstram tanta falta de familiaridade com a internet quanto nossos pais.

Vivemos uma transição, o que faz muitos se sentirem melhores apenas por usarem os meios digitais há mais tempo. O comentário “old” (velho, em inglês) – dito mesmo em discussões em português quando alguém linka algo achando que é o primeiro a trazer aquela informação – serve como diagnóstico deste momento. A cultura de internet ainda é cíclica – se você se sente decano por ter usado internet nos tempos de conexão discada, saiba que milhões de novos usuários vão conectar-se pela primeira vez usando celulares. E vão descobrir o prazer de mandar vídeos para amigos, quebrar a cabeça até entender o humor nonsense da rede e divertir-se com gifs animados. Eles, como nossos pais, escrevem com o Caps Lock ligado sem saber que isso é como gritar. Colocam imagens na assinatura do e-mail, cumprimentam celebridades no Twitter como se elas fossem responder, acreditam em sites de notícias falsas.

A primeira reação de quem já habita a internet é tratar os novatos com repúdio, ironia ou pena. E, ao fazer isso, estamos sendo tão sem noção quanto os que acabaram de entrar.

Vai chegar o momento em que não vamos mais conseguir nos desconectar. Nossos celulares-computadores estão online o tempo todo. Em questão de anos estaremos organicamente conectados – não custa lembrar que o projeto original do Google Glasses não era um óculos, mas uma lente de contato.

Gosto de comparar o mundo online e offline com a terra e a água, e estamos vivendo aquele momento em que deixamos de ser animais terrestres para nos tornarmos anfíbios. Para quem já sabe respirar dentro da água da internet, qualquer tentativa atrapalhada de nadar parece ridícula. Calma. Houve um dia que não soubemos nadar.

Por isso, listo apenas um item que devemos abandonar em 2013. A impaciência. Em vez de rir, ensine. Em vez zangar-se, mostre. Uma das grandes vantagens da internet é sua natureza colaborativa, que pode nos fazer sair dessa era de individualismo bizarro para voltar a conviver uns com os outros.

Isso também vale para o mundo offline. Mas se começarmos a pensar nisso com a internet como cenário, torna-se mais fácil chegar ao próximo estágio.