
Minha coluna no Link de hoje é um comentário – sem spoilers – sobre a segunda temporada de Black Mirror, que cada vez torna-se mais importante.

O ‘Além da Imaginação’ do novo século digital
Black Mirror: série pode ser melhor produção de TV no ano
Há meio século, quando a televisão era novidade, o formato seriado foi um dos primeiros a propor uma linguagem típica da nova mídia, diferente de programas de auditório e de notícias que imitavam fórmulas consagradas no rádio. A nova mídia já havia se consolidado em lares norte-americanos e logo invadiria as salas de estar pelo mundo. A caixa luminosa e falante aos poucos descobriu as maravilhas da fita gravada, transmitindo pequenos filmes semanalmente para um público que ainda se acostumava ao novo aparelho e à sua linguagem.
O seriado imitava a fórmula narrativa das peças de teatro que já havia sido absorvida pelo cinema e, nos anos 1950, foi adaptada para a televisão. A principal diferença era o fato de que a TV, muito mais do que o cinema e o teatro, falava com milhões de pessoas ao mesmo tempo. Então era preciso diluir a produção para que as histórias fossem simples – e atingir cada vez mais gente.
Mas, há 50 anos, um contador de histórias começou a mexer neste formato. Depois da consolidação do seriado, ele passou a ser submetido a novas possibilidades – e um dos primeiros a puxar a mudança foi o escritor e roteirista Rod Serling. Cansado das restrições que sofria devido aos patrocinadores, resolveu partir para a ficção científica. E assim criou The Twilight Zone (A Zona do Crepúsculo, como bradava seu título original em inglês), conhecido no Brasil como Além da Imaginação.
O seriado aproveitava a novidade que era a TV para propor novos dilemas e situações pitorescas ao cogitar mudanças absurdas ou surreais em cada novo episódio. Histórias com meia hora de duração (chegaram a ter uma hora, mas só na quarta temporada) retratavam perfeitamente o clima da época.
O início dos anos 60 estava ensanduichado entre a década de 50 – que viu a ascensão da classe média norte-americana ao mesmo tempo em que se vivia a paranoia anticomunista, traduzida em histórias de horror e ficção científica – e o nascer do novo decênio, que, ainda sob a sombra da Guerra Fria, assistiu a mudanças nos direitos civis e no tratamento à mulher, além da popularização de substâncias de expansão da consciência e de celebridades em escala global.
Vivemos hoje uma época parecida com o início dos anos 60. A novidade não é mais a TV, mas a internet. Passamos já da fase de deslumbramento com o fato de estarmos em contato com o mundo inteiro instantaneamente. Mas… cadê o nosso Além da Imaginação?
Está na TV – mas ainda não passou na TV brasileira, nem tem previsão, como confirmei com a assessoria de imprensa do canal inglês BBC por aqui. Black Mirror, criado por Charlie Brooker, já comentado neste espaço, teve sua segunda temporada exibida mês passado. São só três curtos episódios, mas que pegam na veia – e no estômago – quando usam, como Além da Imaginação, nossa relação com novas tecnologias e mídias como metáfora para nos atentar para problemas que nos afligem em escala aparentemente menor.
Não vou contar as histórias nem as surpresas (e são muitas) dos episódios Be Right Back, White Bear e The Waldo Momento, mas insisto que merecem atenção, pois talvez sejam a melhor produção na TV em 2013 até agora.
O ano começou há dois meses, mas vai ser difícil alguém tirar este trunfo do seriado de Brooker. Ele aborda temas como política, violência, alienação, amor, marketing, justiça, inteligência artificial, relações familiares, vingança, morte, reality show, mercantilização da experiência humana, parques temáticos e televisão. Tudo filtrado por TVs de plasma enormes, telefones portáteis, redes sociais, transmissões ao vivo, vida digital e avatares. Talvez só não seja perfeito porque não foi criado para a própria nova mídia, como o Além da Imaginação era em seu tempo.
Mas, por outro lado, como assistir a um programa de TV inglês que só foi exibido oficialmente em seu país? Quem sabe, sabe.

Liv conversou com o criador dos Sopranos, David Chase, sobre seu novo filme (que ele considera apenas “OK”, Not Fade Away), sua primeira obra desde que encerrou a aclamada série da HBO, em 2007. Na entrevista, ela aproveitou para, inevitavelmente, cair do assunto principal da carreira do produtor e diretor, a vida e o trabalho do carismático Tony Soprano, e além de comentar a possibilidade de voltar àquele universo, mas em outra época (“Às vezes penso em fazer um preâmbulo dessa história. Algo sobre o pai do Tony Soprano e a juventude do Tio Júnior. Não descarto essa possibilidade”), Chase também foi categórico para voltar a afirmar sobre o que acontece no enigmático final de sua obra-prima:
“Eu sempre digo que, para mim, há um final fechado.”
Ele fala mais sobre isso na entrevista (neste link), contando alguns possíveis spoilers. Mas, convenhamos, a série da HBO terminou há mais de cinco anos e desde antes de seu estarrecedor último episódio, já era considerada um dos grandes feitos da televisão na história recente. É item obrigatório no cardápio de qualquer um que queira se considerar sintonizado com seu próprio tempo, aquele momento em que a produção cultural norte-americana começou a ser mais intensa na televisão do que no cinema. Por isso, não sei se dá pra falarmos em spoilers de Sopranos a essa altura do campeonato.

Dito isso, aproveito a deixa para falar sobre o final da série. Se você ainda não a assistiu, meta o rabo entre as pernas e vá fazer o seu dever de casa. Esqueça os pré-conceitos que você pode ter sobre uma “série sobre a máfia” e embarque em uma jornada emocional de um macho alfa em estado bruto, estremecido pela mudança de época que vivemos – tudo isso com direção, elenco, roteiro e trilha sonora afiadíssimos, e momentos de muita tensão emocional. É muito sintomático que, na abertura das três primeiras temporadas, o World Trade Center apareça visto do retrovisor para, depois do atentado em 2001 (que aconteceu quatro dias antes da estréia da quarta temporada da série), sumir do horizonte de Tony Soprano à medida em que ele sai de Nova York rumo à sua Nova Jersey, no início de cada episódio. Sopranos não é uma história sobre crime organizado e valentões do mal que fazem parte do funcionamento da sociedade moderna, mas sobre a crise desta sociedade, sobre como as tensões que vieram com o novo século estremeceram alguns conceitos básicos de cada um de nós, tanto individualmente quanto como civilização.
Não por acaso a série começa com a ida de Tony Sopranos à psicóloga, às escondidas, pois poderia pegar mal para sua reputação. Sim, é um preceito idêntico ao infame Máfia no Divã, mas tratado com doses excessivas de realismo, principalmente no que diz respeito às relações familiares. É uma questão mais ou menos parecida com a de Freaks and Geeks (contemporânea de Sopranos), mas o ponto de vista adulto é assumido no primeiro plano e não numa infantilização dos dramas da maturidade (Freaks and Geeks se passa em 1980 e fala da adolescência dos adultos que a produziram, na virada do século). A carga dramática ajuda a pesar para diferentes lados, seja nas relações que misturam família e trabalho ou na violência crua da rotina no crime, enquanto assistimos à ascensão de um jovem player rumo ao trono do crime organizado na costa leste dos EUA.
A partir de agora, vem os spoilers. Por isso, se você não assistiu à série, volte depois.


E na minha coluna de hoje do Link, escrevi sobre como o famigerado “Harlem Shake” levou um desconhecido pro topo da parada de sucessos mais respeitada do mundo da música.

Um artista desconhecido no topo da parada da Billboard
Dança nonsense levou a música ao topo
Na semana passada, a parada de sucessos da revista norte-americana Billboard incluiu mais um item em seu ranking de músicas mais populares dos Estados Unidos. Chamada de Hot 100, a parada elenca desde 1958 as cem músicas mais vendidas e tocadas durante uma semana e sempre foi o termômetro de desempenho comercial dos artistas. Até a chegada da internet.
Antes da rede, era razoavelmente fácil aferir a performance mercadológica de um músico. Somava-se discos vendidos e músicas tocadas nas rádios e, a partir de cálculos específicos, a revista estabelecia qual era o artista mais popular no momento. Ou a banda que, embora não tenha atingido o topo, continuava a fazer sucesso graças às vendas e às execuções no rádio. Com a internet, esses parâmetros se perderam.
Afinal, qualquer um pode baixar quantas músicas quiser sem pagar ou ouvi-las sem que toquem no rádio, o que torna inviável a quantificação. Mesmo descartando os downloads ilegais, aumentam a cada dia as opções para ouvir música de graça (bandas que liberam o download ou serviços de streaming). Um deles, onipresente, é o que está mais perto de se tornar a maior rádio global que já se viu – embora seja uma plataforma originalmente de vídeo. Sim, o YouTube.
E foi exatamente o número de visualizações via YouTube que foi incluído no Hot 100 da Billboard. Mas o destino irônico quis que a novidade surgisse na hora em que a febre musical da vez não tivesse nem mesmo um vídeo próprio.
Se o novo parâmetro tivesse sido habilitado há seis meses, há um ano, há dois, teria elevado nomes como Psy (de Gangnam Style), Carly Rae Jepsen (de Call Me Maybe) ou Rebecca Black (de Friday) ao topo da lista e acelerado sua consagração comercial. São canções que têm videoclipes próprios, em que as imagens e a exposição são de domínio do artista.
Acontece que o hit de fevereiro de 2013 não é sequer uma música inteira. São 30 segundos de uma faixa que muitos nem mesmo podem considerar (por preconceito) uma canção. Harlem Shake, do produtor norte-americano Baauer, sem querer, se tornou o exemplar mais famoso de um gênero em formação chamado trap music.
A classe musical é uma variante sulista do hip hop norte-americano, mais lenta e pesada, que se aproxima de estilos específicos, como a versão dos EUA do dubstep (mais pesada e rápida do que a original inglesa) e o moombahton (colisão entre house music e reggaeton). Há um paralelo inevitável com o chamado “funk ostentação” paulistano, que se tornou objeto de curiosidade antropológica devido ao seu sucesso via internet.
Mas Harlem Shake não é nova – foi lançada em maio de 2012 e até fevereiro não tinha registro comercial. Até que um grupo de adolescentes australianos se vestiu com fantasias ridículas (um de Power Rangers, outro de alienígena, todos de collant) para dançar de forma ainda mais ridícula com a canção de Baauer. “CON LOS TERRORISTAS!”, diz o grito no início da música, que entra numa batida mecânica que se acelera. Aos 15 segundos, um sample diz “do the harlem shake” e a música se esborracha em câmera lenta, com um beat constante e uma base grave, sintética e lenta.
No vídeo dos jovens, a primeira parte da música é dedicada a se mexer sem sair do lugar, balançando a cabeça e os quadris sem tirar o pé do chão. Na segunda, depois de “do the harlem shake”, os moleques se chacoalham por inteiro, com os braços caídos, numa falta de noção típica da adolescência. Virou uma pérola de humor nonsense da internet.
Justamente por isso pegou. E, como outros, começou a ser citado, referido, misturado. E o “do the harlem shake” convidou as pessoas a fazerem seu próprio “Harlem Shake”. O resto é história.
E, de uma hora pra outra, um artista desconhecido, que criou uma música há quase um ano, tem um trecho seu usado ironicamente em um vídeo que se espalha por um motivo idiota e se torna o artista número 1 na Billboard. Esse começo de século 21 é uma época e tanto…
Estou acompanhando com curiosidade o crescimento deste tal “Harlem Shake” que muitos apostam ser “o próximo ‘Gangnam Style’“.

Não acho que seja por aí.

É inevitável a viralidade de “Harlem Shake” pelo puro e simples pressuposto de que o humor na internet tem como ponto de partida o nonsense e o excesso de referências (o que linka tudo a tudo), sejam elas pop ou eruditas. No caso de “Harlem Shake”, o que vemos, na verdade, é um template, um formato, para diferentes versões, feitas por qualquer um. Não é um Tourist Guy ou Seu Madruga esperando para ser encaixado em diferentes contextos. É um código não-verbal de comportamento físico realizado a partir de um conjunto de regras bem simples: nos apresentam a um ambiente estático, à exceção de um único protagonista, que se movimenta sozinho no meio de um grupo de pessoas repetindo uma rotina que está alheia ao personagem solitário, que quase sempre usa um capacete. “Con los terroristas!” é o brado que inaugura esta primeira fase. Que dura quinze segundos.
De repente, a música derrete-se entre graves esborrachados que se estatelam no chão, logo que o vocal grave chama o “do the Harlem Shake”. Ao mesmo tempo, a paisagem nos diferentes clipes vira do avesso. Toda a multidão que parecia estar indiferente à primeira parte da música transforma-se em uma festa completamente absurda, em que maquiagem, fantasias e coreografias individuais que deixem bem claro que o mundo enlouqueceu. Em outros quinze segundos.
A mania foi uma invenção de um grupo de skatistas australianos que, chateados sem ter o que fazer, resolveram brincar com a música “Harlem Shake”, do produtor norte-americano Baauer, do selo Mad Decent, do Diplo (ouça abaixo). Inventaram uma coreografia ridícula, mas que deu certo.
A comparação com “Gangnam Style” não faz sentido por uma série de motivos. A começar pelo fato de PSY ser um artista que produziu o próprio vídeo para sua música com a intenção de torná-la hit online a partir da falta de senso de ridículo. “Harlem Shake” era uma brincadeira de uns amigos que espalhou-se sem nenhuma promoção, usando apenas a força do nonsense para ser imitado, parodiado e homenageado. O clipe de PSY era, sozinho, uma íma de atenção – que não por acaso chegou ao primeiro bilhão de visualizações na história do YouTube. “Harlem Shake” já deve ter sido ouvida mais de um bilhão de vezes, mas em inúmeros vídeos espalhados em diferentes cantos da internet – inclusive fora dela, uma vez que o viral chamou atenção para uma música que, até janeiro passado, era virtualmente desconhecida. E, principalmente, é um viral ridiculamente curto, de trinta segundos, o que não toma tanta atenção como, por exemplo, todas as paródias feitas para “Gangnam Style”.
“Harlem Shake” segue viralizando – enquanto isso, reuni alguns dos melhores “harlem shakes” que vi por aí. Tem algum faltando?

Falta pouco mais de um mês para começar a sexta temporada de Mad Men e o Ramon está contando os dias de tanta fissura. Aproveitando pra transformar a maluquice em produção, ele está fazendo uma contagem regressiva lembrando dos melhores momentos da série (como o final da primeira temporada ou uma festinha bem específica na temporada mais recente). Óbvio que contém spoilers, é só uma maneira de fazer os fãs relembrarem os bons tempos da série e também de fazer os atrasados começarem a assistir este clássico moderno.
Não sou dos maiores fãs da série e não acho que ela pertença a um escalão específico da TV no século 21, elite frequentada por nomes como The Wire, a Life on Mars inglesa e Sopranos. Como Breaking Bad, a saga de Don Draper ainda não figura neste rol pois é uma obra em aberto e um final apenas regular pode comprometer completamente o todo de uma série (que o digam Lost, Fringe, A Sete Palmos e Battlestar Galactica). Por enquanto, a série segue sendo um exercício estético cinco estrelas, uma ousada narrativa num ritmo muito mais lento que a média atual e um crítico comentário aos costumes de uma época que, de alguma forma, reflete muito nosso presente – mas não é tão profunda pois é ancorada em um protagonista sem a complexidade de um Tony Soprano ou de um Walter White, que esbanja carisma e personalidade, mas cuja angústia e o sofrimento interior são quase nulos. Pode ser que Mad Men culmine justamente com a descoberta da importância emocional do próprio Don Draper, que não parece se importar com as vidas de seus familiares e colegas de trabalho. A última cena da temporada mais recente parece acenar neste sentido, com o protagonista finalmente cedendo as rédeas do controle absoluto e descobrindo o prazer de se envolver emocionalmente num gesto quase trivial, mundano.
Por isso, como Ramon, espero com esperança pela estréia da sexta temporada.
Liv me chamou pra escrever um artigo em cima da matéria dela que foi capa no Segundo Caderno do Globo nessa quarta, sobre a chegada do Spotify ao Brasil e a consolidação do streaming como tendência. A ilustração da matéria é do Tiago Lacerda, da Beleléu.

O fim do download?
Uma análise sobre o cenário atual da música digital
Estamos entrando na fase 2 da indústria fonográfica no século digital. A fase 1 foi marcada por uma série de decisões arbitrárias, posicionamentos radicais e tiros no pé — principalmente logo que as pessoas começaram a trocar MP3 de graça entre si, graças à invenção de um adolescente americano. Shawn Fanning criou um programa que permitia que as pessoas trocassem arquivos digitais entre si sem que esses arquivos estivessem hospedados em um servidor central, no fim do século passado, e inaugurou uma lógica chamada P2P (do inglês “peer-to-peer”, parceiro para parceiro). Vimos gravadoras multinacionais processando seus próprios clientes, a ascensão da Apple nesse mercado, a consagração do YouTube como uma grande rádio global, a ascensão e queda do MySpace, a solução do Radiohead para a crise e a caça às bruxas que começou com o julgamento dos caras do Piratebay e a prisão espetacular de Kim Dotcom, do Megaupload, no final de 2011.
Enquanto isso tudo aconteceu, artistas, agentes, empresários, gravadoras e novos players entenderam melhor a lógica da internet e hoje vivemos uma fase em que o streaming por assinatura parece ser a aposta certa. São vários novos nomes aos poucos se estabelecendo — Spotify, Deezer, Rdio, Pandora, Grooveshark —, mas a tecnologia pode dar uma rasteira nesse novo cenário. Afinal, em poucos anos teremos pendrives com a capacidade um terabyte (mil gigabytes) ou mais, a preços bem razoáveis. Mais do que isso: essa capacidade de armazenamento vai para os nossos celulares (ou qual seja a espécie de dispositivo móvel de acesso à internet que estaremos usando lá). Já há aplicativos de torrent para celular e já é possível acessar conteúdos em streaming usando a lógica P2P. Em pouquíssimo tempo, download ou streaming vai ser uma diferença meramente técnica. E talvez possamos finalmente falar em fim do download — não por vitória dos grandes conglomerados, mas pelo fato de que as pessoas não precisam mais baixar para consumir. A setinha do download aos poucos vai ficando bem parecida com a do play…

Na minha coluna no Link desta semana falei sobre o tal Google Glass – agora apenas Glass – que saiu da fase 1 na semana passada.

Os novos óculos do Google e um futuro sem usar as mãos
Glass responde a instruções de voz
Quando, no meio de 2012, Sergey Brin apareceu usando um estranho par de óculos com uma pequena telinha transparente no lugar de uma das lentes, a surpresa foi geral. Mostrado em uma convenção cujo público era formado por desenvolvedores, o Google Glass causou uma pequena comoção entre os presentes e, principalmente, um estranhamento geral da maioria das pessoas que não é do mundo da tecnologia. Essa reação se dividia entre ceticismo e a sensação de estar vendo algo mais próximo da ficção científica.
Afinal, são óculos que permitem adicionar uma camada digital ao mundo analógico. É uma extensão drástica do conceito de realidade aumentada, aquela que, através da câmera de seu celular, identifica o que está ao redor para acrescentar informações àquilo que se vê. Olhe para uma rua e a realidade aumentada identifica o que há em cada prédio.
O Google Glass iria além, porque não apenas reuniria informações do que se vê, mas também funciona como câmera, dispositivo de acesso à internet e canal de comunicação. Acionado apenas pela voz, ele faria a maioria das coisas que seu celular pode fazer hoje, mas sem que seja preciso manuseá-lo.
Eis que semana passada os óculos voltaram a aparecer. Agora se chamam apenas Glass e no site google.com/glass seu funcionamento é detalhado com ênfase nas atividades cotidianas. A empresa já mira no público final e não mais nos desenvolvedores. E reuniu diferentes atividades em vídeo para mostrar como seria fácil utilizá-los. Basta falar “Ok, Glass” e o aparelho está pronto para obedecer a diferentes comandos: “Filme isto”, “tire uma foto e mande para esses amigos” ou “mostre o melhor caminho para chegar num determinado lugar”.
Parece que o Google está pronto para partir para uma etapa ainda mais distante. Mas o Glass é apenas o ponto final de convergência de uma série de recursos que a empresa vem mudando em sua organização interna. O Google Plus aos poucos interligou os diferentes serviços da empresa, que aproveitou para unificar suas ramificações e deixar tudo com uma cara mais parecida e conversando melhor entre si.
Isso inclui mudanças de interface no YouTube, no Gmail, no Google Docs (que virou Drive), no Google Calendar, no Android Market (que virou Google Play), no Google Maps, entre outros serviços, inclusive em suas buscas. E também a aproximação entre os ambientes digitais no desktop, celular e tablet. Tudo isso converge para o Google Now, um assistente pessoal que interliga todo o ecossistema digital da empresa. Só faltava fazer as pessoas não terem de colocar as mãos num teclado, os dedos numa tela, encher bolsos e bolsas com máquinas que, por mais finas e leves, ainda pesam.
É aí que está o Glass: um aparelho que funciona como um celular ativado por voz mas que não precisa ser carregado nem funciona como uma tela que nos distrai da realidade ao redor. Não que o Google vá abandonar celulares, computadores e desktop de uma hora para outra – vide o recém apresentado Chromebook Pixel, um laptop que será lançado em abril. Se a transição dos desktops e laptops para tablets e celulares ainda está em andamento, a mudança que nos leva até os óculos do Google deve durar ainda um bom tempo.
E não pense que isso é exclusividade do Google. Na semana passada, segundo o site Mashable, a Apple teria registrado a patente de um relógio de pulso que pode funcionar como um iPhone – já o chamam de iWatch.
O futuro sem computador está em andamento, graças à era da internet móvel e dos smartphones. O Google nos convida para um futuro em que nem precisamos utilizar as mãos para interagir com novos aparelhos. E, como já escrevi em outra coluna, não custa lembrar que o projeto original do Google Glass era uma lente de contato. O que quer dizer que o futuro desses aparelhos também pode ser o início da era em que homem e máquina começam a se fundir de fato.

E hoje o encontro da Mostra Prata da Casa promete ser classudo, quando o capixaba Silva toca no mesmo palco que a dupla paulista-curitibana Madrid: piano de cauda e violino, programações eletrônica e guitarra, letras céticas e clima de câmara. O show começa às 21h no Sesc Pompéia e os ingressos – que estavam perto de acabar – custam R$ 8. Abaixo, o texto que escrevi sobre esta noite para o projeto.
Um novo indie brasileiro
O indie brasileiro quase sempre percorreu o caminho do rock, com guitarras barulhentas, vocais inaudíveis e letras em inglês, mas esta situação vem mudando há pelo menos dez anos. Afinal, graças à facilidade de mostrar sua música para o mundo – e descobrir tantos outros artistas e gêneros – que aconteceu com a internet, obrigou os artistas destes gêneros a buscar novas formas de expressar sua tristeza para que não soassem como mera paródia de artistas estrangeiros. E um dos primeiros exercícios em busca desta nova identidade indie brasileira foi abusar da dance music – de onde vieram dois veteranos que, num terceiro momento, deixaram a pista de dança no passado para explorar uma musicalidade triste e adulta, cheia de melodia e harmonia. Marina Vello (ex-Bonde do Rolê) e Adriano Cintra (ex-Cansei de Ser Sexy) reinventaram sua musicalidade ao se encontrarem como a dupla Madrid, que apresentou-se no Prata da Casa em julho: Marina crooner e Adriano no piano de cauda, fazendo até uma versão de uma música do grupo Ladytron soar classuda. Silva, que divide o palco com o Madrid nesta mesma noite, não tem nada de veterano – embora sua postura de palco não entregue o fato de ser um artista novíssimo. Revelado na internet no final de 2011, apresentou-se no palco da choperia em maio, revezando-se entre a guitarra, o violino e as programações eletrônicas para, cantando em português, sintetizar o mesmo tipo de feeling procurado pelo Madrid – uma música que fala de relacionamentos, idas e vindas, dúvidas sentimentais e experiências de vida, que não passa nem perto dos clones de bandas de rock alternativo que eram o cerne do indie rock brasileiro no século passado.

Pernambuco e São Paulo se encontram hoje no palco da choperia do Sesc Pompéia na terceira noite da Mostra Prata de Casa – e o encontro é bem macio. De um lado, a lírica doce e jamaicana musicalidade de Kika; do outro, o canto tranquilo e sossegado de Tibério Azul. Será que os dois tocam juntos no final, como aconteceu nas noites anteriores? O show começa às 21h e os ingressos custam R$ 8,00. Abaixo, o texto que escrevi para o catálogo da Mostra. Kika até descolou um remix dub que o Victor Rice fez para “Sai da Frente”, de seu excelente disco de estréia, ouça abaixo:
Pop sobre tudo
Enquanto África e Pernambuco temperam duas noites diferentes da Mostra Prata da Casa deste ano, uma terceira apresentação dupla reúne dois extremos destes dois universos para mostrar que eles têm mais em comum do que aparentam. Tanto Kika quanto Tibério Azul se apresentaram no final do ano e ambos navegam por mares psicodélicos sem deixar-se levar pelo delírio rítmico ou pelo transe instrumental. Ambos levantam a bandeira da música pop para tocar no rádio, sem deixar para trás características específicas dos universos de onde vieram. A cantora e compositora Kika está bem próxima do centro afropaulistano e gravou seu excelente disco Pra Viagem no mesmo estúdio Traquitana que viu o nascimento da banda Bixiga 70. Já Tiberio Azul pertence à safra de artistas que veio de Pernambuco logo após o fim do mangue beat e depois de passar por diferentes bandas, lançou seu primeiro disco solo no ano passado. Em comum, são dois artistas doces e sinceros, que cantam macio e tranquilamente, com um pé no pop radiofônico e outro num ar hippie sem a conotação pejorativa do termo. Tiberio reforça sua veia nordestina ao subir no palco ao lado de um acordeonista, invocando até Alceu Valença – um dos poucos pernambucanos tradicionais a não ser festejado pela geração de Chico Science – em seu repertório de pérolas que desnudam a fragilidade do macho brasileiro. Kika, presa até as canelas no lodaçal jamaicano do dub mas sem perder o sol de vista, passeia sorridente por canções singelas e aparentemente frágeis, mas que escondem uma visão feminina incisiva e moderna. Dois shows que pareciam apenas corretos e que ganharam novas dimensões principalmente devido à presença magnética de compositores em ascensão..

Hoje começa a Mostra Prata da Casa, com o melhor da programação de 2012 do projeto do Sesc Pompéia, que fui curador no ano passado. Como disse no final de 2012, o Prata foi um dos melhores trabalhos que fiz na vida, por uma série de motivos diferentes. E a partir desta terça até o próximo domingo, reunimos os doze melhores shows do ano passado em uma maratona com a melhor música nova produzida em 2012. Não custa lembrar que, ao contrário dos shows do Prata, os da Mostra são pagos e não de graça: mas o ingresso custa R$ 8,00 😉
Abaixo segue o texto que escrevi para a Mostra e sobre as duas atrações de hoje, Afroelectro e Sambanzo.

Traçar um panorama de artistas com apenas um disco de carreira poderia ser fácil no século 20, quando o percurso natural de qualquer artista passava necessariamente pelo lançamento do primeiro álbum. Mas com a popularização dos meios digitais no século 21, há artistas que nem pensam em lançar CDs – ou vivem de shows ou soltam MP3s aos poucos online -, e ao ser convidado para a curadoria da 13ª edição do Prata da Casa, resolvi testar os limites desta definição ao chamar artistas que não são propriamente novos (como o rapper Max B.O., figurinha carimbada do rap paulistano, cujo primeiro CD foi temporão, ou da octagenária pernambucana Dona Cila do Coco, cujo único disco foi lançado há anos) e que já têm uma longa carreira mas nem sequer têm disco físico (caso do paulistano Rafael Castro, que já havia lançado músicas na internet com sua banda Os Monumentais e que chegou ao primeiro disco físico em 2012, e do carioca Bonifrate, dos psicodélicos Supercordas, pai de dois EPs digitais).
Mas o desafio de uma curadoria dessas vai muito além do formato. É preciso explorar a amplitude de gêneros e estilos que tornam o Brasil um país tão reconhecido mundialmente por sua generosidade musical. Assim, a edição do ano passado teve desde jazz (Raphael Ferreira), samba (Maíra Freitas e Jorginho Neto), música eletrônica cabeçuda (Pazes), psicodélica (Psilosamples) e descerebrada (Gang do Eletro), metal instrumental (Elma), dub (Café Preto), instrumental freak (Chinese Cookie Poets) e com molho regional (A Banda de Joseph Tourton), pop de verão carioca (Mahmundi) e paulistano (Circo Motel), chillwave (Dorgas), indie folk (Rosie & Me, Me & the Plant e Onagra Claudique), indie rock sisudo (Quarto Negro) e indie com flerte com o brega (Dead Lover’s Twisted Heart), a celebração de ritmos (Iconili) e rock regional (Os Sertões), entre vários outros shows que ajudaram a compor um panorama que desassocia a música popular brasileira ao estereótipo da MPB, essa versão institucionalizada dos conceitos criados pela bossa nova. Outro ponto em comum entre a maioria dos artistas desta edição é o fato de colocarem seus próprios discos na íntegra para download.
Escolhi cinco recortes específicos para a Mostra Prata da Casa 2012 reúne duas atrações por noite que acabam por resumir os grandes momentos do ano passado: a influência da música africana na cena paulistana, o rock direto e sem rodeios cantado em português, a maturidade do indie rock, uma jornada entre dois extremos da música tradicional pernambucana, um pop radiofônico com um leve toque de psicodelia e o hip hop de São Paulo.
Foi um ano intenso, plural e, acima de tudo, divertido. Agradeço ao Sesc pelo convite e pela oportunidade – e mando um salve ao produtor Wagner Castro, que, comigo, foi a única testemunha de todos os Prata da Casa de 2012.
Terça, 19 de fevereiro – 19h
África-São Paulo
Uma das principais tendências da atual cena musical paulistana é a cada vez mais intensa conexão africana. África e Brasil sempre tiveram um vínculo muito forte no que diz respeito à musicalidade e pontes sobre o Atlântico já foram erguidas a partir de Salvador e do Rio de Janeiro. É a vez da maior metrópole do país começar a exploração da harmonia polirritmica e da intensidade elétrica e acústica – e um dos principais polos de convergência desta nova linha de frente passa pela dupla Kiko Dinucci e Thiago França. Há, claro, mais nomes envolvidos, mas o trabalho do guitarrista e saxofonista paulistanos (que, ao lado da cantora Jussara Marçal, respondem pelo nome Metá Metá) consegue agregar referências musicais tanto brasileiras quanto africanas muito específicas, que se misturam de diferentes formas à medida em que pulam de um projeto para o outro. O Sambanzo, grupo liderado por Thiago França que conta com Kiko Dinucci na guittarra, é o encontro destas duas forças em voltagem máxima, contando com uma cozinha luxuosa, liderada por Marcelo Cabral (que coproduziu, ao lado de Daniel Ganjaman, o disco de estreia de Criolo, outro marco da conexão África-São Paulo) com Wellington Moreira na bateria e Samba Sam na percussão. O show que fizeram em fevereiro de 2012 foi também quando lançaram seu primeiro EP Etiópia e a catarse coletiva dos músicos contagiou o público. Quase seis meses depois, em agosto, foi a vez do Afroeletro, não tão central neste novo cenário mas de importância ascendente, de conduzir o público ao transe de ritmo e harmonia. O show contou com a presença do próprio Kiko Dinucci – comprovando seu papel de catalizador desta nova cena – e letras em português, além da intensa presença grupal da banda, que inevitavelmente levou o público ao delírio.