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No fim do mês passado, Arnaldo Batpista encheu-se das alfinetadas que o irmão Sergio Dias vinha dando em entrevistas na internet e twittou o seguinte vídeo:

Como nem todo mundo tem o contexto da rusga fraterna que mancha o nome dos Mutantes, grupo que colocou os irmãos na história da música brasileira e do rock internacional, a jornalista Sonia Maia, que há anos trabalha com Arnaldo Baptista, me procurou para abrir espaço para ela contar a versão dos fatos sobre a saída de Arnaldo da volta dos Mutantes na primeira década do século e sobre como Sergio vem lhe provocando em entrevistas recentes:

Mais uma vez Sergio Dias usa a mídia e entrevistas para despotencializar Arnaldo Baptista, insinuando que Arnaldo é um artista sem vontade própria, e aproveita para, não apenas desrespeitar a parceira e companheira de Arnaldo, Lucinha Barbosa, como ofendê-la. Não é de agora que Sergio Dias vem optando por essa estratégia de marketing e destruição, seja em público, seja internamente. E hoje venho aqui, como gerenciadora, há mais de dez anos, junto com Arnaldo e Lucinha, de sua carreira. Mas, também, como amiga deles há mais de 30 anos, amiga de participar da vida cotidiana do casal desde 1989, quando fui entrevistá-lo para a antiga revista Bizz, da Editora Abril, da qual fui repórter e editora por quase cinco anos, desde seu lançamento em 1985. E, principalmente, neste momento específico, como testemunha do evento de 2006, quando Os Mutantes foram reunidos para um show no Barbican, em Londres, como parte de uma grande exposição sobre a Tropicália, e o que aconteceu em 2007, quando Arnaldo deu por finalizada suas participações nesses shows. Morei dez anos em Londres e eu estava lá nesses dois momentos.

Tanto Arnaldo, Lucinha e eu temos mantido distância desse passado. Todas as entrevistas que Arnaldo concede à mídia, e não são poucas, pedimos, antecipada e gentilmente, que o/a jornalista não aborde o passado e nem questões nevrálgicas envolvendo Sergio Dias e Rita Lee, porque nosso trabalho tem como foco Arnaldo Baptista pós-Mutantes, sua obra solo como multinstrumentista, compositor, escritor e artista visual. Essa rica e extensa biografia está disponível na aba “sobre”, na página oficial do Facebook de Arnaldo, assim como links para diversas de suas entrevistas e reportagens com e sobre Arnaldo nos últimos dez anos. Uma biografia e obras que Sergio Dias faz questão de ignorar e mesmo desprezar, como fez na Virada Cultural de São Paulo em 2012, quando Arnaldo Baptista, além de ser convidado a abrir a Virada com seu concerto solo no Theatro Municipal de São Paulo, foi homenageado pelos organizadores do evento, que imprimiram suas obras como artista plástico nos fundos dos palcos de toda a Virada. No palco no qual Os Mutantes de Sergio Dias tocariam, no dia do show, um pessoa conhecida, que estava no backstage, nos ligou informando: “O Sérgio Dias está tendo um ataque. Está obrigando a produção da Virada a colocar um pano preto sobre o fundo de palco impresso com uma obra de Arnaldo. Se não cobrirem, ele diz não fará o show”… Essa é apenas uma das dezenas de situações que jogam por terra a pose de bom mocinho de Sergio, quando diz: “o Arnaldo é muito bem vindo a hora que ele quiser voltar”.

O motivo de Arnaldo ter gravado um vídeo-resposta, publicado em suas mídias sociais no dia 29 de janeiro, por conta das mentiras e ofensas recentes de Sergio Dias em entrevistas, e de eu estar aqui escrevendo este depoimento, é porque simplesmente Arnaldo se cansou, nós nos cansamos: de sermos ofendidos, difamados e alvo de mentiras sem precedentes por parte não apenas de Sergio Dias, como também de Rita Lee, como quando ela usa o termo “retardado”, em uma de suas citações sobre Arnaldo na autobiografia da artista. Um termo extemamente pejorativo, não apenas para com Arnaldo, mas para com todos os excepcionais do mundo. E que parece passou batido pela banca que a contemplou com um prêmio de literatura pelo livro.

Importante reforçar, também, o verbo no feminino: Arnaldo é assessorado, diretamente, por duas mulheres, Lucinha e eu. Além de dezenas de colaboradores e voluntários, de todas as áreas da cultura – design, texto, tradução, músicos, artistas, jornalistas, fotógrafas e fotógrafos, curadores das artes plásticas, entre tantas e tantos outros, que vêm nos acompanhando e que tiveram a oportunidade de conviver e trabalhar com Arnaldo e Lucinha. Todas e todos nós somos testemunhas não apenas do carinho e amor que Arnaldo e Lucinha nos passam, como da participação ativa de Arnaldo em todas as decisões sobre sua carreira. Da sustentável leveza do ser que ambos são. Muitas, mas muitas vezes, quando temos uma decisão importante a tomar, ou quando surge um novo projeto, sempre consultamos e conversamos com Arnaldo, não apenas porque é óbvio consultá-lo, mas porque Arnaldo é muito, mas muito antenado, e nos dá nortes e ideias que jamais teríamos. Fora o fato de Arnaldo ser muito bom de ‘nãos’. Quantas vezes perguntamos: “Arnaldo, você gostaria de…” e ele: “Não!”. E nós: “mas Arnaldo, talvez seja legal ….” E ele: “não, obrigado”.

Feito esse preâmbulo, para colocar as coisas em perspectiva, pois tanto eu como Lucinha optamos por não aparecer – Arnaldo é sempre o foco, está sempre à frente de sua carreira. Vamos, então, aos fatos recentes.

Sergio Dias, por conta do lançamento de seu novo álbum, sempre sob o nome “Os Mutantes”, concedeu duas entrevistas até agora: a primeira para o canal Supernova, publicada em 22 jan 2020 no YouTube, quando o entrevistador, Eduardo Lemos, cita que “Arnaldo estava também na formação de 2006” para o show do Barbican… Interessante ter um olhar atento e ver que Lemos nem fez provocação alguma, apenas citou. Ao que Sergio respondeu: “o Arnaldo tinha voltado, mas … Arnaldo começou a crescer demais e algumas pessoas não gostaram disso, e tiraram ele no meio da turnê. Foi uma coisa absurda! … Ele começou a abrir as asas mesmo e a voltar, e as pessoas que tomam conta dele acho não ficaram contentes com essa independência e basicamente tiraram ele no meio da turnê, porque ela/eles têm a guarda dele, e eu não pude fazer nada e nem vou fazer nada porque, no fim das contas, quem vai sofrer é ele”. Em outra entrevista, a Gastão Moreira, publicada no dia 29 de janeiro no YouTube, no canal Kazagastão, Sergio retoma suas ofensas e inverdades: “a mulher dele é maluca! A Zélia saiu no meio da turnê, o que foi um absurdo isso, o Arnaldo também, mas isso dá pra entender, porque pelo menos a mulher dele é maluca…”.

Bem, vamos responder ponto a ponto. Primeiro, sobre “o Arnaldo ter começado a crescer”… Embora Sergio Dias, enquanto Arnaldo aceitou participar desses shows, nunca tenha chamado Arnaldo à frente do microfone, com raríssimas exceções, nem na interpretação de “Balada do Louco”, algo que me deixou particularmente chateada no show do Barbican em 2006, Arnaldo sempre foi reconhecido com a grandeza que lhe cabe: não foram uma, nem duas, nem três vezes, como aconteceu em Belo Horizonte e em Nova York, quando a plateia bateu os pés no chão para dar ritmo ao grito “Arnaldo! Arnaldo! Arnaldo!”. Quem não deixava Arnaldo aparecer era o Sergio Dias. Arnaldo, por exemplo, levou o baixo para os ensaios, mas o Sergio não permitiu que ele tocasse. Foi muito grosseiro, não deu a menor atenção ao baixo de Arnaldo, muito menos para ele tocar. Isso deixou o Arnaldo muito magoado.

Outro ponto, quando Sergio diz: “Arnaldo foi tirado da turnê por ela/eles que cuidam dele e têm a guarda dele”. Essa referência é de 2007 e como o próprio Sergio conta, não foi apenas Arnaldo que saiu ‘no meio’ da turnê e mesmo depois. Lembro que o show em Londres de 2007 terminou perto da meia noite. Depois disso, todos teriam que embarcar, imediatamente, em um ônibus para outros shows na Grã Bretanha, tendo que dormir no ônibus, uma agenda insana, sem descanso mínimo, que já vinha se repetindo há algum tempo e sendo alvo de reclamações não só de Arnaldo e Lucinha. Fora isso, durante todos os shows que surgiram pós Barbican, e até esse episódio final em 2007, todos foram marcados pela total falta de apoio de produção, mínimo que fosse, para Arnaldo e Lucinha – eles tinham que carregar suas próprias malas e até instrumentos, encontrar seus próprios restaurantes e viver apenas das verbas de alimentação. Não receberam cachês da turnê da europa em 2007. Por isso, Arnaldo diz no seu vídeo-resposta: “cansei de ser explorado, por isso saí”. E no dia em que Arnaldo e Lucinha resolveram não seguir mais em turnê, justamente neste dia em que teriam que dormir no ônibus, no dia em que chegaram ao limite da paciência e saúde, era também o último dia de hotel em Londres. E ambos foram jogados à própria sorte, na rua, literalmente. Apesar dos pedidos incansáveis para que adiantassem o vôo de ambos de volta para o Brasil, o empresário se recusou a fazer esse arranjo e fui eu quem os acolheu na minha casa em Londres, até que a banda e Sergio voltassem para pegarem o voo programado de volta ao Brasil. E foi neste momento que nos contaram, à mim e meu ex-marido, os detalhes sórdidos da turnê.

Tudo poderia ser diferente. A verdade é que o Barbican procurou Arnaldo Baptista para fazer uma partipação no evento-exposição Tropicália. Conseguiram o contato de Aluizer Malab em um dos créditos do álbum Let It Bed, solo de Arnaldo de 2004, e que foi considerado um dos melhores lançamentos do ano pela revista inglesas Mojo. Ou seja, Arnaldo não estava ‘voltando’ em 2006 com os Mutantes. Foi Aluizer que resolveu, a partir desse convite pessoal do Barbican ao Arnaldo, reunir os Mutantes para uma apresentação. Depois apareceram outros convites para shows nos EUA e Europa, dos quais Arnaldo aceitou participar. Arnaldo nunca assumiu uma volta aos Mutantes, ele simplesmente aceitou fazer alguns shows. Como mostra o lançamento de Let it Bed, Arnaldo estava ativíssimo em sua carreira solo, como sempre esteve, apesar de em alguns momentos longe dos holofotes.

Não temos noção do porquê de Sergio Dias precisar difamar Arnaldo e Lucinha para crescer na foto. Até agora, em nenhum momento, Arnaldo demandou royalties pelo uso do nome Os Mutantes, que lhe pertence também. Nunca foi à público ou a juízo impedir que Sergio fizesse o que bem entendesse com esse nome, tão relevante para a música brasileira. O que desejamos, como diz Arnaldo em seu vídeo-resposta, com gestos singelos e humorados, que é sua marca registrada: que Sergio Dias encontre um lugar ao sol sem ter que recorrer a esses subterfúgios maldosos e mentirosos. Como diz Arnaldo: “que ele consiga sobreviver sem ficar se encostando na minha sombra e na de Os Mutantes original”. E que tanto ele como Rita Lee aprendam que Lucinha Barbosa tem nome e posição: companheira e parceira de Arnaldo, e não apenas uma “cuidadora” ou “fã”, sem nome, sem identidade, como cruelmente insistem.

Esperamos que estas sejam as últimas vezes que Sergio Dias vá à público difamar Arnaldo e sua companheira de quase 40 anos. Do contrário, como diz Arnaldo, ele terá que se entender com a Justiça. Tudo tem um limite nesta vida! A gente vive na Paz, é a tônica, o astral, compartilhados cotidianamente nas mídias sociais de Arnaldo. Até que Sergio Dias, ou outro e outra qualquer, bata à porta com seus venenos e sombras tão mal trabalhadas. Não mais!

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Quem frequenta o Trabalho Sujo e olha para o menu na lateral já deve ter percebido que há um campo de inscrição chamado de Trabalho Sujo por Email – é a minha newsletter, que chega aos leitores inscritos sempre na quarta-feira. É um estudo em andamento – a princípio vou reunir os principais links do site nas semanas anteriores, além de ressuscitar posts antigos, linkar para vídeos que fiz, anunciar shows e festas que produzo, além de começar a pensar em conteúdo exclusivo – ou em primeira mão – direto neste formato. Estou aberto a sugestões também, se tiver alguma ideia, diga lá. Para receber as novidades por email, basta enviar o seu email no campo abaixo.

É meu segundo passo rumo ao detox das redes sociais. Como anunciei no 24° aniversário do Trabalho Sujo, estou disposto a primeiro reduzir o ritmo dos posts e depois, quem sabe, parar de usá-las de vez para me dedicar apenas à internet e outras formas de comunicação offline. É um desafio proposto mas também uma necessidade fisiológica – o vício nestas redes e no celular vem consumindo muito o meu tempo e a minha atenção, que estou preferindo dedicar a outras atividades. O primeiro passo foi abandonar o Facebook pessoa física (mantendo apenas um post por mês, quase uma reunião virtual do AA comigo mesmo) e manter apenas as versões pessoa jurídica (o site, a festa e o podcast) para aos poucos deixando o universo de Jack e Zuck em segundo plano – e só isso já me conseguiu arrumar ainda mais tempo para fazer outras coisas. A partir de fevereiro abandono excesso de RTs no Twitter para publicar apenas informações de próprio punho (mesmo que comentando RTs) e começo a newsletter para encontrar outra forma de estar em contato com vocês. Outras novidades virão por aí, mas um jeito de fácil de acompanhá-las e assinando a Trabalho Sujo por Email. Se gostar, recomende a um amigo.

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Utilizando suas mídias sociais, o grupo Gang of Four anunciou a morte de seu fundador Andy Gill neste sábado, sem falar sobre a causa de sua morte. Um dos principais pilares do pós-punk inglês, ele ajudou a reinventar a guitarra elétrica na virada dos anos 70 para os anos 80 ao lado de nomes como Robert Smith, Bernard Sumner, The Edge e os caras do Wire, mas ao contrário de seus contemporâneos, baseava sua musicalidade no toque brusco, transformado a guitarra em um machado de ruído que antecipava os ataques de scratch dos DJs da década seguinte, misturando inovações sônicas contemporâneas com o minimalismo funky que caracterizava seu grupo. Também foi um dos principais nomes da época a usar a música pop como forma de contestação política e a forma como conseguia traduzir a desesperança daquele período em força artística o transformou um dos instrumentistas mais importantes das últimas décadas.

Pude assistir a quatro shows de sua banda: duas em 2006 (com a formação original, Andy, Jon King, Dave Allen e Hugo Burnham), uma vez em São Paulo e outra em Floripa, quando vieram dividir uma turnê com os Cardigans (!?), uma em 2011, quando trouxe a banda como curador do Festival da Cultura Inglesa (apenas com Jon e Andy da formação clássica), num show épico gratuito no Parque da Independência (vídeos acima), e finalmente quando fez o último show por aqui em 2018 (apenas com Andy dos fundadores da banda, vídeo abaixo) e quando pude conversar melhor com ele depois de anos trocando emails. Meu primeiro contato com ele foi justamente na primeira vinda ao país, quando fiz uma entrevista tornar-se um artigo sobre as relações entre música e política a partir da criação de sua banda, publicado em uma das reencarnações da revista Bizz. Adorei que quando nos vimos ele lembrou que eu havia rotulado o Gang of Four de “banda crítica”, “não é mesmo uma banda de protesto”:

Quando eu e o Jon (King, vocalista da banda) começamos, nos perguntávamos: ‘O que motiva as pessoas? O que as faz fazerem o que fazem?’. É claro que você pode resumir isso em apenas ‘economia’, mas não é só isso. As pessoas ainda estão fazendo as mesmas coisas que faziam no século passado, o marido ainda trazia o dinheiro para casa enquanto a mulher cuidava da comida e dos filhos. O mundo havia mudado, mas essas relações ainda não. Pelo contrário, elas haviam se tornado prisões: família, emprego, propriedade. As pessoas se prenderam nisso de uma forma que acham que isso é a vida delas.

Temos uma música chamada ‘Natural’s Not In It’ que fala exatamente sobre isso. Tudo aquilo que chamamos de “natural”, na verdade, é artificial, é criado pelo homem. Seja a sociedade, o conceito de justiça, de bom senso… Tudo isso é invenção humana, nada disso é natural. As idéias não são naturais. Qualquer uma delas, todas elas – são inventadas.

E não queríamos ser os portavozes da nova esquerda. Para isso, tiramos todas as referências de política de nossas letras e títulos – você vê os nomes das músicas e não diz que o conteúdo delas é política –, tudo que pudesse lembrar a política dos jornais tava fora. Não queríamos dizer ‘você está certo’, ‘você está errado’, ‘você é de esquerda’, ‘você é de direita’. Não queríamos nos separar das outras pessoas. Queríamos, sim, lembrar pra elas que, esquerda ou direita, estamos nesse barco juntos.

Mas a forma que você colocou é bem razoável. É isso: o Gang of Four não era uma banda de protesto, mas uma banda de crítica. Uma crítica à sociedade, à forma que vivemos, à música, ao rock, ao punk rock, às outras bandas, a nós mesmos. Era mais ou menos como o Situacionismo dos anos 60, não queríamos nos levar a sério, mas não queríamos só isso.

E aí tem o outro elemento que, pra nós é crucial, que foi o ritmo. Não queríamos soar como rock, não queríamos ser mais uma banda de rock. E tanto eu quanto Jon já vínhamos pensando em experimentar com ritmo, somos fãs de dub até hoje, de krautrock, do James Brown. Mas seria ridículo tentar recriar a atmosfera de qualquer um desses artistas na Inglaterra dos anos 70.

Por isso partimos do zero, da tela em branco, e fomos acrescentando as coisas à medida em que começamos a tocar. E as coisas foram se encaixando. O legal é que não pensamos nessas coisas, elas simplesmente foram entrando em seu lugar. Põe um prato aqui, um bumbo ali, um riff mais à frente. Começava com um baixo solto, entrava a bateria reta, a guitarra fazendo ruídos e o vocal – mesmo que a letra importasse – funcionava como um instrumento. As coisas iam entrando em sintonia sem que pensássemos nisso. Em vez de fazer canções de amor, fazíamos canções de antiamor – o que é diferente de uma canção de ódio, veja bem.

Foi quando começamos a por elementos de disco music na mistura. Primeiro porque adorávamos disco. A cena começou a ficar ruim devido à forma que a mídia explorou o tema, com filmes como ‘Os Embalos de Sábado à Noite’ e todo o tipo de banda gravando disco music. Mas antes de ficar massificado, era uma cena bem interessante e – como você colocou – política, por libertar a canção de um formato estagnado e deixar as pessoas mais soltas, em vários sentidos.

Um gigante que pude conhecer pessoalmente. Obrigado por tudo.

A orelha do Nino

O querido Bruno Capelas me chamou para fazer a apresentação de seu livro sobre o Castelo Rá-Tim-Bum, Raios e Trovões (Ed. Summus) e é claro que escrevi mais do que precisava – portanto, abaixo, segue a íntegra do texto que foi parar editado na orelha do livro.

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Mais do que um sucesso comercial ou um bom sucedido programa infantil para as massas, “Castelo Rá-Tim-Bum” é um fenômeno cultural. Nasceu da experimentações que a contracultura paulistana passou uma década curtindo, dos laboratório de TVs de baixo alcance à performance e à dança, passando pelo Lira Paulistano, pelo cinema da boca do lixo, pela literatura marginal e pelo Teatro Oficina, de onde buscaram inspiração, corações e mentes para compor um programa ao mesmo tempo acolhedor e transgressor, ousado e divertido, metalingüíistico e direto.

“Raios e trovões – A história do fenômeno Castelo Rá‑Tim‑Bum” é um microcosmo de algo que sempre presente na história da cultura brasileira: o momento em que experimentações artísticas provam-se populares, acertando o coração do espectador ao mesmo tempo em que fisga sua inteligência. Sem menosprezar nem ser condescendente com seu público, “Castelo Rá-Tim-Bum” traz sua audiência para a tela, propondo uma cumplicidade inédita que só poderia ser obtida através da metalinguagem que o programa transpirava.

Como Oz, o País das Maravilhas, a Terra do Nunca, o Sítio do Picapau Amarelo e Hogwarts, o Castelo teoricamente é um lugar fictício e fantasioso, em que apenas crianças conseguem entrar por portais mágicos. Este portal é justamente a imaginação e a criatividade, que são colocados em xeque a cada aparição de novo personagem, novo cenário, nova canção. Para isso, foi preciso que uma geração inteira de artistas experimentasse os receosos anos pós-ditadura militar, em que a censura, o autoritarismo e o conservadorismo brasileiro escondiam as garras para fingir que estava tudo bem.

Castelo Rá-Tim-Bum também é mais um dos ingredientes da paulistanização da cultura brasileira, ao lado de fenômenos tão diferentes quanto o futebol paulista, a ida de Fausto Silva para a TV Globo, a ascensão dos Racionais MCs e a criação da MTV – todos estes, diga-se de passagem, umbilicalmente ligados ao espaço de liberdade aberto pelas vanguardas paulistanas dos anos 80.

É essa história que o jornalista Bruno Capelas conta em seu trabalho de conclusão de curso que agora materializa-se livro. Percorre das origens da criação de um programa infantil em uma rede pública de televisão (um ato por si só heroico – e há toda uma tradição nisso) à consolidação de uma linguagem moderna e ousada em grande escala. É o equilíbrio entre ser família e ser vanguarda que tornou Castelo Rá-Tim-Bum tão central no inconsciente coletivo brasileiro no final do século passado e é essa história que Capelas, um dos caçulas da geração do jornalismo pop da internet brasileira, conta tão bem em “Raios e Trovões”.

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Há 24 anos meu primeiro projeto pessoal se materializava em larga escala. Sempre fiz impressos para me comunicar durante toda a minha vida (de quadrinhos zoando os amigos e professores na sala de aula ao jornal do grêmio estudantil da escola em Brasília, passando por fanzines de baixíssima circulação e um jornal autônomo durante a faculdade), mas quando o Trabalho Sujo saiu impresso como uma coluna de jornal, sabia que tinha achado um rumo na vida. Era a primeira vez que minha voz individual falava com pessoas que eu não conhecia. Já trabalhava como repórter e escrevia no jornal há mais de ano, mas mesmo as pautas que eram minhas obedeciam a uma lógica editorial alheia. No Trabalho Sujo tudo era meu, era o meu timbre de voz. No dia anterior à publicação, um domingo, visitei a gráfica do jornal na Vila Industrial em Campinas e pude ver, seguidas vezes, a página que havia diagramado em casa percorrer os rolos que imprimiam o jornal que saria no dia seguinte. Era um patamar bem distante das publicações de mimeógrafo, fotocópia ou gráfica rápida que havia feito até ali. Era como se eu renascesse.

A simples imagem de uma gráfica de jornal parece mais próxima do século dezenove que do século vinte e um e nesses 24 anos grande parte dos processos de produção mudaram de forma drástica. Me esgueirei por estes usando o Trabalho Sujo como escudo, máscara de oxigênio e capacete, desbravando novas realidades de informação para me entender como profissional. O rótulo jornalista sempre esteve firme, mesmo que acoplado de outros, que se sobrepunham (blogueiro, editor, DJ, diretor de redação, agitador cultural, editor-chefe, escritor, tradutor, curador de música, diretor artístico) e as áreas de atuação se proliferaram, indo da música ao cinema, passando por quadrinhos, videogame, comportamento, direitos autorais, tecnologia e ciência. O formato e suporte também foram mudando com os tempos, indo da redação para a pista de dança, passando por blogs, sites, palestras, cursos e mais recentemente shows e espetáculos. E estes três últimos anos como curador de música – além de questões de rotina pessoal – me fizeram perceber que é hora de começar a deixar de lado um ambiente que comecei a desbravar bem cedo – as redes sociais.

A internet não é propriamente um problema, embora ela também facilite a capacidade de isolamento e a comodidade letárgica de não sair de casa. Mas as redes sociais, a princípio tão úteis e divertidas, foram sequestradas por uma tendência humana à maldade que as transformaram em terreno minado – transformação que vem passando também para a vida offline.

A vida offline, em si, nem sequer existe mais. Antes nos conectávamos à internet, entrávamos, podíamos sair – havia até um ruído para dizer que estávamos online. Hoje vivemos conectados o tempo todo, tudo é urgente, tudo tem pressa e uma compulsão por comentários e opiniões transformou nosso dia a dia em uma insuportável competição medida a números de likes. Somos cada vez mais cobaias num labirinto que não enxergamos o mapa, seguindo a nova novidade e publicando sobre ela nas plataformas que eles querem.

Decidi parar com isso.

Não vou, no entanto, largar 100% as redes sociais de uma hora pra outra porque sei que isso é um vício. E não quero repetir o que fiz quando parei de fumar a primeira vez, que eliminei o cigarro de tal forma que a simples possibilidade de fumar foi se tornando de forma inconsciente um desejo inatingível. Quando cedi, voltei a fumar mais cigarros que fumava. Da vez mais recente, não radicalizei, só parei. Se desse vontade, fumava um cigarro. Às vezes a vontade era satisfeita num trago. Ainda não parei de fumar 100%, mas a diminuição foi drástica. E o cigarro deixou de ser tabu.

Essa consciência do vício nas redes sociais já está sendo posta em prática há mais de ano, quando publico fotos com amigos em dias trocados ou dedicando minhas publicações quase essencialmente à vida profissional. Publicações de foro particular são cada dias mais raras e a tendência é que a maioria das publicações comece a diminuir. Não vou começar a fazer isso de um dia para o outro, mas já tenho um plano arquitetado que inclui diminuir a quantidade de RTs no Twitter, parar de falar de política (ou mais especificamente dessa rala política que tomou conta do inconsciente coletivo) tanto no Twiter quanto no Facebook para linkar coisas legais que vejo por aí e abandonar minha conta pessoal no Facebook na virada do ano, desistalando também o aplicativo deles do celular. Deixar a urgência do Whatsapp de lado e sair de casa sem levar o celular sempre comigo. Um processo lento que quero curtir até daqui um ano, quando o Trabalho Sujo completa um quarto de século – e já tenho o plano sobre como comemorar (e é fora da internet). Eu só não sei o que fazer direito com o Instagram, rede que mais uso e que funciona como um diário pra mim – mas o próprio Instagram está se desintegrando e se transformando num Snapchat. Não gosto de stories, não sei usar stories e são as stories que vão acabar me fazendo abandonar essa rede que mais prezo. O YouTube segue sendo repositório de vídeos nos shows que faço, mas até isso devo diminuir no decorrer do próximo ano. A primeira transformação é a frase no cabeçalho do site, que deixa de ser um link pra ser um trecho de música. Citei essa do Red Hot porque era o disco resenhado na primeira edição do Trabalho Sujo.

Mas isso não significa abandonar a internet – só as redes sociais. O principal é o contato humano sempre, mas há formas de supri-lo digitalmente sem que isso seja necessariamente exposto para todos. O próprio conceito do Tinder é algo que não me entra na cabeça, já me assumi obsoleto nesse departamento e tudo bem. Acho que é hora de dar esse primeiro passo. Já fui a pessoa que não para de olhar para o celular em reuniões e almoços, já fiquei com o bolso coçando para ver se tinha alguém me escrevendo e hoje posso ficar horas sem olhar para o celular, embora ele ainda seja a companhia nos momentos solitários – uma falsa companhia. “A internet é uma medusa”, canta alguém num disco que ainda vai sair.

O que eu vou fazer com o tempo livre? O que já venho fazendo: ir ao cinema, ler livros, passear, caminhar, nadar, encontrar amigos, cozinhar e quem sabe voltar a desenhar (daí o logo a lápis aí em cima) ou a tocar trombone (o que diriam os vizinhos?).

Por isso, não estranhe se eu demorar pra responder. Se for urgente, liga.

Ah, e se quiser falar sobre isso na caixa de comentários abaixo, aproveite e deixa seu email que em breve vou ter novidades – via email.

E assim encerro mais uma digressão de aniversário do Trabalho Sujo. Outras, de outros anos, abaixo:

Voltamos agora à nossa programação normal. A trilha sonora pode ser o Vida Fodona do 23° aniversário enquanto não faço o desse ano e sábado tem festa na Trackers, que agora é em Pinheiros (ah 2019…), hein!

baco2019

O jovem Baco Exu do Blues está prestes a encerrar sua trilogia de entidades depois de gravar um disco em duas semanas na Toca do Bandido. Inspirado no deus do vinho que batiza seu primeiro prenome, o disco ainda sem nome conta com participações de Duda Beat, BK, Kiko Dinucci, Ney Matogrosso e Hamilton de Holanda, além de ter uma faixa de dez minutos chamada “Exu is King” em que ele ameaça “matar o seu Messias”, em seu disco mais político. Conversei com ele num papo para a revista Trip – confere aí.

ccsp-2019

Depois de sair no Diário Oficial e na Monica Bergamo acho que já é público: não sou mais o curador de música do Centro Cultural São Paulo.

Foram quase três anos que me ajudaram a entender melhor a máquina estatal e a cabeça dos artistas, políticas culturais e o porquê da burocracia, a precaridade da cultura do ponto de vista público e a perseverança de artistas e produtores de fazer acontecer. Mas, mais do que isso, foram quase três anos convivendo nas entranhas deste maravilhoso transatlântico de concreto estacionado num canteiro entre a 23 de Maio e a Rua Vergueiro. Principal centro cultural brasileiro, o CCSP também é a matriz do próprio conceito de centro cultural no Brasil – e sua natureza urbana, sem porta de vidro nem ar condicionado, é um dos melhores e mais sólidos exemplos paulistanos da tão falada apropriação do espaço público.

Mais do que fazer parte da história deste aparelho mágico, sou grato em conhecer as pessoas que fazem as coisas funcionarem ali dentro e de me ver como parte deste time. Heróis que ganham míseros salários para, na raça, preservar este templo à cultura que repousa na cabeceira da Avenida Paulista. O conceito de servidor público ganha uma conotação quase romântica quando aplicado à gestão cultural e o sangue e o oxigênio do Centro Cultural São Paulo só circulam graças a essas pessoas, que enfrentam condições risíveis de trabalho e uma vasta burocracia para que quase um milhão de pessoas por ano circule por seus corredores e jardins.

Ali aprendi que o ofício de curador é mais do que o de programador – e que o que parece ser um emprego dos sonhos (escolher artistas pra tocar num dos palcos mais emblemáticos da cidade) é só 20% do trabalho. Os outros 80% misturam burocracias de contratação, pareceres e justificativas, questões técnicas, pouco dinheiro – na maioria das vezes, nenhum -, bater agendas, checar cronogramas, equilibrar a grade de programação, conversar com artistas estabelecidos, de médio porte ou em formação sobre as vantagens e dificuldades de se realizar um evento no espaço, negociar com produtores, empresários, técnicos e roadies. E, claro, criar coisas novas.

Sobre isso não tenho a menor modéstia pra dizer que consegui realizar sonhos impossíveis. Entre consolidar um mês só para novas bandas (o Centro do Rock, por três anos consecutivos), colocar quatro das melhores bandas de São Paulo para tocar no mesmo palco simultaneamente (com o projeto Bicho de Quatro Cabeças, que reuniu Metá Metá, Hurtmold, Bixiga 70 e Rakta) ou reunir quatro entidades femininas num mesmo espetáculo (Alessandra Leão, Luiza Lian, Quartabê e Ava Rocha), passando por três Viradas Culturais, por uma colisão entre rap e percussão (o Centrífuga, pilotado por Kamau e Ari Colares), um evento em homenagem aos discos de vinil (Cultura do Vinil), as três edições do Women’s Music Event, conferências sobre Mário e Oswald de Andrade do ponto de vista da música (Conferências sobre uma Amizade, na semana MariOswald, com apresentações de José Miguel Wisnik, Tom Zé, Iara Rennó, Elo da Corrente e Ronaldo Fraga), uma celebração ao tropicalismo (com uma conversa com Tom Zé e audição comentada do Tropicália ou Panis et Circensis), quatro edições dos Concertos de Discos (uma sobre discos clássicos lançados em 1967, outra sobre a história do rock brasileiro, outra sobre Baden Powell e a última sobre música de pista brasileira), um evento para quebrar as barreiras entre popular e erudito (a Mostra de Cordas Dedilhadas), dois eventos em homenagem a ícones paulistanos (Viva Walter Franco e Viva Made in Brazil) e vários outros projetos.

Isso sem contar os shows: Letrux lançando seu Em Noite de Climão, Luiza Lian despedindo-se de seu Oyá: Tempo, Otto em formato power trio, Baco Exu do Blues fazendo seu Esú, Jards Macalé mostrando seu Besta Fera, Hamilton de Holanda celebrando Jacob do Bandolim, o encontro de Rodrigo Brandão com Azymuth, Rincon Sapiência em dois shows viajando pela música jamaicana, Maglore lançando seu Todas as Bandeiras, Thiago Pethit reverenciando Patti Smith e um retrato considerável da atual música brasileira, com shows de Don L, Edgar, Anelis Assumpção, Deaf Kids, Phill Veras, Ruído/mm, Black Alien, Leandro Lehart, Tassia Reis, Karnak, Violeta de Outono, Douglas Germano, Arto Lindsay, Pin Ups, Nill, Patife Band, BNegão, Rashid, MC Tha, Yma, Juliana Perdigão, Rômulo Froes, Carne Doce, Siba, Karina Buhr, Gangrena Gasosa, Mariana Aydar, Hermeto Pascoal, Rico Dalasam, Saskia, Maurício Pereira, Rodrigo Ogi, Karol Conká, Linn da Quebrada, Liniker, Smack, Gorduratrans, Boogarins, Edgard Scandurra, Garotas Suecas, Maria Beraldo, Di Melo, Ava Rocha, Ana Frango Elétrico, Alessandra Leão, Cólera, Cidadão Instigado, De Leve, Jaloo, Tantão e os Fita, Papisa, Satanique Samba Trio, Mãeana, Jair Naves, Rimas e Melodias, Odair José, Curumin, Glue Trip, The Baggios, entre muitos outros, além de heroicos shows internacionais, com Lee Ranaldo, Ian Svenonious, Holydrug Couple, Norbert Möslang, Belgrado, Laura Jane Grace, A Place to Bury Strangers e Jaz Coleman. Foram mais de cinco centenas de artistas que passaram por lá nestes três anos que estive na curadoria.

Sou especialmente grato à equipe de Salas e Espetáculos, coordenada pelo secular Paulo Jordão, ele mesmo um monumento à resistência cultural, e à de produção, coordenada pela Luciana Mantovani, o mecanismo de precisão que faz o Centro Cultural funcionar, além da equipe de contratos, liderada pela Paloma Galasso, que me ajudava a resolver os problemas à medida em que eles iam aparecendo e de todas as outras pessoas que convivi nestes três anos, dos seguranças ao pessoal do café, passando pela mutante (e paciente) equipe de comunicação, os outros curadores, a equipe da biblioteca e discoteca, alguns que só conheci de nome e outros que só conheço de rosto, pois é muita gente. Além de, claro, agentes, produtores, empresários, técnicos, engenheiros de som, iluminadores, roadies, músicos, intérpretes, compositores e artistas que convivi neste período e me ajudaram a redefinir meu papel como jornalista e a deixar claro meu papel como agente cultural, seja como comunicador, curador ou diretor artístico. E, sem dúvida, a todos os ex-CCSP que passaram por lá antes de minha chegada – o Centro Cultural São Paulo é um trabalho coletivo maior do que qualquer nome e sobrenome que já pisou por lá.

Agradeço particularmente ao mestre Cadão Volpato, que me convidou para o cargo e de ícone indie da minha adolescência e colega jornalista da minha vida adulta passou a chefe e depois chapa, um amigo para o resto da vida, e ao compadre Lucas Uth, que era estagiário quando entrei e depois virou meu assistente (também demitido na mesma ocasião, sendo assim extinta a curadoria de música) e, principalmente, amigo e jovem guru, uma das almas mas puras e doces que conheço, mas não pisa no calo dele não! E que em breve vai ser pai. Valeu rapaz, que viagem tudo isso!

Ainda tenho dois shows programados no Centro Cultural antes da minha saída: Max B.O. na próxima quinta-feira e Liniker e os Caramelows na quinta seguinte e depois sigo meu rumo. Apareça lá para se despedir comigo da minha querida Sala Adoniran Barbosa, me dar um abraço e pensar em coisas novas. Aliás, quem me conhece sabe que já estou armando altas – página virada, novo capítulo. Evoé!

patti

Sonhei que você vinha para o Brasil numa das piores épocas da história do país – e, em nosso histórico, isso não é pouco. No sonho você aparecia três vezes para todos, como se reforçasse o mágico número três como prova de que era você mesmo.

“Three times is a charm”, diz o ditado quase intraduzível em sua língua-mãe – intraduzível porque “charm” em inglês não é o literal “charme” em português: é praga e benção, mandinga e encanto. Em cada uma das aparições você falava com uma voz, embora sempre falasse a mesma coisa: na primeira, conversando, sentada para um público também sentado; na segunda, cantando e rugindo, em pé para um público também de pé; na terceira, cantando, conversando e rugindo em pé para um público que deveria estar sentado. Nas três vezes, você sublinhava, nas orações que nos ensinou a rezar como canções, um mantra fadado a ecoar nas cabeças de quem o ouvir: “Seja livre!”

No sonho você surgia linda e deslumbrante, mas sem o magnetismo divino que associa-se à sua persona. Não era um Mick Jagger feminino, um Rimbaud do século seguinte, um Jim Morrison literato; também não era uma matriarca sobrenatural, uma entidade de outro plano, uma orixá descendo pro aiyé. Você era uma pessoa comum, de carne e osso, cabeça e voz, lembrando a cada um dos sonhadores que basta se apegar às próprias qualidades humanas para se tornar algo próximo a um deus andando na terra.

Que a transcendência da arte é feita por gente. Para cada vez que sua voz implacável urgia para que o povo tivesse o poder ou que entoava que a noite pertence aos amantes ou que celebrava dançar descalça ou sangrava os pecados de outras pessoas para quem Jesus Cristo morreu, você também tossia, cuspia, ria, dava tchauzinho, fazia declarações apaixonadas. “Tudo que está acontecendo aqui é um reflexo de vocês”, dizia sorrindo.

O sonho esticava sua aparição por três dias – os mesmos três dias que o próprio Cristo levou para renascer – naquele tempo estranho dos sonhos, em que uma hora parece passar num segundo e um minuto parece levar dias. Maestra de um tempo além do tempo, no sonho você transformava uma canção de Neil Young em uma era geológica, um manifesto rhythm’n’blues de nascimento do punk rock em uma catarse de proporções bíblicas, Midnight Oil, Velvet Underground, Rolling Stones e sua própria genealogia musical misturavam-se com William Blake, Vincent Van Gogh, Jean Genet, William Burroughs, Lou Reed e até mesmo Beethoven em personagens de uma opereta tão curta quanto interminável, como um centésimo décimo quinto sonho de Bob Dylan se materializando em nossa frente – personagens fictícios, mitológicos, divinos, históricos e mundanos misturavam-se com amigos, parentes, conhecidos e famosos que a ajudavam a costurar esta imensa rapsódia sentimental que era tão real que parecia que era verdade.

Não sei se mais me emocionou a mistura de “Land” com “Gloria” em que você destruía uma guitarra como ápice de um transe de mais de quinze minutos ou o bem-vindo silêncio reverente que lhe acompanhou na segunda vez que você tocou “After the Goldrush” no Brasil.

No final do sonho, você olhava em nossos olhos e dizia sorrindo: “Obrigada a todos, foi realmente divertido. Nós todos temos muitas coisas sérias pra se pensar e coisas sérias para lutar, mas ainda é importante nos divertir.”

Podemos acordar. Para agradecer nos ensinar que esperança se cultua e vem do trabalho, da luta. Ela não vem do nada.

Amém.

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“Se o prosseguimento se dar de fato, colaborar com composições seria uma consequência natural”, me contou Gilberto Gil em entrevista que foi publicada nesta sexta-feira noo UOL sobre o show que o mestre fez com o grupo BaianaSystem neste domingo, que chama de “forma evidente de resistência”. “A grande surpresa do encontro, pra mim, pelo menos, quando eu vi o jeito que os meninos faziam as reprogramações das minhas músicas pro estilo deles, dava uma sensação mais de reencontro do que de primeiro encontro, um reencontro com novos discípulos” – leia a íntegra desta conversa lá no UOL.

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Finalmente Miranda Kassin assume a própria voz e renasce em seu segundo disco Submersa, lançado na semana passada, que ela me chamou para escrever o texto de apresentação, que segue abaixo.

Um zumbido eletrônico ronda os ouvidos. Ele se aproxima e se distancia, quase que um radar pairando sobre o ouvinte, até crescer e abrir espaço para baixo e bateria marcarem o andamento, marcial e constante. “Outro dia você, eu não mereço isso!”, Miranda Kassin deixa sua voz doce e firme tomar conta da canção. “E se eu pudesse escolher, mas não vai ser possível”. A faixa que abre seu segundo disco Submersa não é de sua própria autoria e localiza-se no exato ponto em que está sua carreira – apesar de já ter um primeiro disco de canções autorais (Aurora, lançado em 2012) – ela ainda é uma intérprete no início deste novo trabalho – uma música de Fabio Goes e André Lima que poderia tranquilamente ter sido escrita pela própria Miranda.

Revelada há dez anos em um show em homenagem à cantora Amy Winehouse, Miranda já tinha uma carreira de atriz antes de se dedicar apenas à música. Ela começou sua carreira nos palcos norte-americanos quando foi escolhida para interpretar uma das protagonistas de um musical que um grupo da universidade em que cursava estava montando – foi acompanhar um amigo, não tinha pretensão de entrar no elenco, mas foi escolhida e logo depois estava emendando uma produção na outra. Voltou para o Brasil e não tinha mais como: havia assumido a arte como carreira e encontrou na cantora inglesa um norte – e uma forma de homenagear sua grande paixão musical, a soul music norte-americana.

O espetáculo em que encarnava a autora de clássicos como “Rehab” e “You Know I’m No Good” a transformou em uma estrela da noite paulistana e em pouco tempo levava sua voz para todo o Brasil. Feliz com o papel de intérprete, foi provocada por músicos e amigos a assumir sua própria carreira autoral – e assim surgiu Aurora, sete anos atrás. Mas logo depois deste primeiro disco, ela foi mãe duas vezes consecutivas e a maternidade lhe afastou da música. Até agora.

O novo disco é o resultado deste novo momento de sua carreira e tem este título justamente por ter sido uma imersão de volta à sua carreira autoral. Ela novamente conta com a produção de Fabio Pinczowski, que foi coprodutor do disco anterior, e que ajudou-a a redefinir o caminho sonoro escolhido desta vez: o mesmo soul que a trouxe para a música, mas agora sintético e minimalista, de timbres eletrônicos, teclados discretos, beats quebrados e linhas de baixo sinuosas. Ao lado dos dois, o multiinstrumentista Piero Damiani, que acompanhava Kassin nos shows em homenagem à Amy, surge como preparador vocal do álbum e coautor de boa parte das canções do novo repertório, além de integrar a banda que ajuda Miranda a levar o disco para o palco.

Ao lado do trio central formado por Miranda, Fabio e Piero, um time de músicos que inclui o tecladista Danilo Andrade, o baixista Rubinho Tavares, o baterista Breno Silveira e os próprios Pinczowski (dividido entre o baixo e os teclados) e Damiani (nos backing vocals) torna o acompanhamento sonoro enxuto e coeso, abrindo brechas para as eventuais presenças do saxofonista Marcelo Freitas, dos teclados de André Lima, do percussionista Felipe Roseno e do guitarrista João Erbetta, além da única participação especial do disco, quando Miranda recebe o guitarrista paraense Felipe Cordeiro na versão de em uma das primeiras canções que compôs na vida, a quase adolescente “Vacilão”, num dos poucos momentos do disco em que a guitarra ganha voz – na imensa maioria de Submersa não há guitarras.

A submersão sugerida pelo título não diz respeito apenas à musicalidade e ao papel da cantora como compositora – ela é autora de quase todas as músicas do disco, dividindo parcerias com outros compositores conhecidos, como o vocalista do Vanguart Helio Flanders, César Lacerda e o marido André Frateschi, além de cantar canções assinadas por André Lima, Fabio Goes, Chico Salem e Paulo Carvalho. A grande revelação de Submersa é pessoal, quando ela se redescobre como uma nova mulher depois de passar pela maternidade, reencontrando sentimentos e sensações de forma adulta. É esta constatação que dá o tom de todo o disco, deixando-a mais à vontade com esta nova personalidade, plena deste novo estágio em sua vida.

E é a fusão destas duas realidades – uma musical e outra individual – que é a base de sustentação de Submersa. De um lado, a sonoridade negra norte-americana do século passado relida com instrumentos sintéticos, timbres artificiais e arranjos simples e precisos, ressaltando a beleza das canções e da doce e clara voz de Miranda. Do outro, a própria cantora e compositora reencontrando-se após a maternidade, voltando de uma jornada da heroína parente daquela de Joseph Campbell em que a viagem, neste caso, é para dentro – pois é a própria maternidade. Redescobrindo-se depois de mãe com a possibilidade de deixar-se levar por sentimentos que suas canções ajudam a externar, Submersa é quente e intimista, sincero e entregue, mas comedido o suficiente para não exagerar nesta plenitude. Da simplicidade direta de “Fudeu” à balada derramada “Doentinha”, da sinuosa “Eu Quero de Novo” à intensa “Vou com Você”, passando pelo groove ameaçador de “Segunda ou Terça”, a paixão intensa de “Simplesmente”, o trip hop pensativo de “Acaba com Isso”, a latinidade intensa de “Vacilão” e o pop radiofônico de “Correio”. Miranda está feliz e segura de seu novo momento pessoal – e seu segundo disco é o casulo em que ela convida o ouvinte para acompanhar sua metamorfose. É só vir.