24 anos de Trabalho Sujo

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Há 24 anos meu primeiro projeto pessoal se materializava em larga escala. Sempre fiz impressos para me comunicar durante toda a minha vida (de quadrinhos zoando os amigos e professores na sala de aula ao jornal do grêmio estudantil da escola em Brasília, passando por fanzines de baixíssima circulação e um jornal autônomo durante a faculdade), mas quando o Trabalho Sujo saiu impresso como uma coluna de jornal, sabia que tinha achado um rumo na vida. Era a primeira vez que minha voz individual falava com pessoas que eu não conhecia. Já trabalhava como repórter e escrevia no jornal há mais de ano, mas mesmo as pautas que eram minhas obedeciam a uma lógica editorial alheia. No Trabalho Sujo tudo era meu, era o meu timbre de voz. No dia anterior à publicação, um domingo, visitei a gráfica do jornal na Vila Industrial em Campinas e pude ver, seguidas vezes, a página que havia diagramado em casa percorrer os rolos que imprimiam o jornal que saria no dia seguinte. Era um patamar bem distante das publicações de mimeógrafo, fotocópia ou gráfica rápida que havia feito até ali. Era como se eu renascesse.

A simples imagem de uma gráfica de jornal parece mais próxima do século dezenove que do século vinte e um e nesses 24 anos grande parte dos processos de produção mudaram de forma drástica. Me esgueirei por estes usando o Trabalho Sujo como escudo, máscara de oxigênio e capacete, desbravando novas realidades de informação para me entender como profissional. O rótulo jornalista sempre esteve firme, mesmo que acoplado de outros, que se sobrepunham (blogueiro, editor, DJ, diretor de redação, agitador cultural, editor-chefe, escritor, tradutor, curador de música, diretor artístico) e as áreas de atuação se proliferaram, indo da música ao cinema, passando por quadrinhos, videogame, comportamento, direitos autorais, tecnologia e ciência. O formato e suporte também foram mudando com os tempos, indo da redação para a pista de dança, passando por blogs, sites, palestras, cursos e mais recentemente shows e espetáculos. E estes três últimos anos como curador de música – além de questões de rotina pessoal – me fizeram perceber que é hora de começar a deixar de lado um ambiente que comecei a desbravar bem cedo – as redes sociais.

A internet não é propriamente um problema, embora ela também facilite a capacidade de isolamento e a comodidade letárgica de não sair de casa. Mas as redes sociais, a princípio tão úteis e divertidas, foram sequestradas por uma tendência humana à maldade que as transformaram em terreno minado – transformação que vem passando também para a vida offline.

A vida offline, em si, nem sequer existe mais. Antes nos conectávamos à internet, entrávamos, podíamos sair – havia até um ruído para dizer que estávamos online. Hoje vivemos conectados o tempo todo, tudo é urgente, tudo tem pressa e uma compulsão por comentários e opiniões transformou nosso dia a dia em uma insuportável competição medida a números de likes. Somos cada vez mais cobaias num labirinto que não enxergamos o mapa, seguindo a nova novidade e publicando sobre ela nas plataformas que eles querem.

Decidi parar com isso.

Não vou, no entanto, largar 100% as redes sociais de uma hora pra outra porque sei que isso é um vício. E não quero repetir o que fiz quando parei de fumar a primeira vez, que eliminei o cigarro de tal forma que a simples possibilidade de fumar foi se tornando de forma inconsciente um desejo inatingível. Quando cedi, voltei a fumar mais cigarros que fumava. Da vez mais recente, não radicalizei, só parei. Se desse vontade, fumava um cigarro. Às vezes a vontade era satisfeita num trago. Ainda não parei de fumar 100%, mas a diminuição foi drástica. E o cigarro deixou de ser tabu.

Essa consciência do vício nas redes sociais já está sendo posta em prática há mais de ano, quando publico fotos com amigos em dias trocados ou dedicando minhas publicações quase essencialmente à vida profissional. Publicações de foro particular são cada dias mais raras e a tendência é que a maioria das publicações comece a diminuir. Não vou começar a fazer isso de um dia para o outro, mas já tenho um plano arquitetado que inclui diminuir a quantidade de RTs no Twitter, parar de falar de política (ou mais especificamente dessa rala política que tomou conta do inconsciente coletivo) tanto no Twiter quanto no Facebook para linkar coisas legais que vejo por aí e abandonar minha conta pessoal no Facebook na virada do ano, desistalando também o aplicativo deles do celular. Deixar a urgência do Whatsapp de lado e sair de casa sem levar o celular sempre comigo. Um processo lento que quero curtir até daqui um ano, quando o Trabalho Sujo completa um quarto de século – e já tenho o plano sobre como comemorar (e é fora da internet). Eu só não sei o que fazer direito com o Instagram, rede que mais uso e que funciona como um diário pra mim – mas o próprio Instagram está se desintegrando e se transformando num Snapchat. Não gosto de stories, não sei usar stories e são as stories que vão acabar me fazendo abandonar essa rede que mais prezo. O YouTube segue sendo repositório de vídeos nos shows que faço, mas até isso devo diminuir no decorrer do próximo ano. A primeira transformação é a frase no cabeçalho do site, que deixa de ser um link pra ser um trecho de música. Citei essa do Red Hot porque era o disco resenhado na primeira edição do Trabalho Sujo.

Mas isso não significa abandonar a internet – só as redes sociais. O principal é o contato humano sempre, mas há formas de supri-lo digitalmente sem que isso seja necessariamente exposto para todos. O próprio conceito do Tinder é algo que não me entra na cabeça, já me assumi obsoleto nesse departamento e tudo bem. Acho que é hora de dar esse primeiro passo. Já fui a pessoa que não para de olhar para o celular em reuniões e almoços, já fiquei com o bolso coçando para ver se tinha alguém me escrevendo e hoje posso ficar horas sem olhar para o celular, embora ele ainda seja a companhia nos momentos solitários – uma falsa companhia. “A internet é uma medusa”, canta alguém num disco que ainda vai sair.

O que eu vou fazer com o tempo livre? O que já venho fazendo: ir ao cinema, ler livros, passear, caminhar, nadar, encontrar amigos, cozinhar e quem sabe voltar a desenhar (daí o logo a lápis aí em cima) ou a tocar trombone (o que diriam os vizinhos?).

Por isso, não estranhe se eu demorar pra responder. Se for urgente, liga.

Ah, e se quiser falar sobre isso na caixa de comentários abaixo, aproveite e deixa seu email que em breve vou ter novidades – via email.

E assim encerro mais uma digressão de aniversário do Trabalho Sujo. Outras, de outros anos, abaixo:

Voltamos agora à nossa programação normal. A trilha sonora pode ser o Vida Fodona do 23° aniversário enquanto não faço o desse ano e sábado tem festa na Trackers, que agora é em Pinheiros (ah 2019…), hein!

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23 Resultados

  1. Kleber disse:

    quero as novidades por e-mail!

  2. Fabio disse:

    👊🏿👊🏿👊🏿

  3. Adorei! Também tenho repensado muito essa relação com as redes online, e tentado encontrar um caminho. Facebook já praticamente não uso mais. Twitter e Instagram ainda são redes às quais sou muito apegada. rs
    E sim, manda news!

  4. Fernanda disse:

    O Facebook eu larguei há 2 anos e 2 meses. Comemoro o abandono. Preciso largar o resto, rs

  5. Gustavo disse:

    É maravilhoso ver mais pessoas discutindo, e agindo, sobre como recriar formas de interação online.

    Já há uns 3 anos venho pensando nisso depois de ler um texto de um blogueiro iraniano falando sobre como as redes sociais estão matando a internet que existia e se transformando na própria internet, colonizando todo o espaço e não deixando mais lugares para pequenos (ou até grandes) assentamentos independentes. Por causa disso eu fico botando pilha em toda oportunidade que eu vejo pra galera criar blogs e fóruns. Para recriar essas comunidades de assentamentos virtuais interconectados por relações mútuas e não por algoritmos. Eu até criei um blog só que deu uma preguiça de escrever e ele está abandonado, mas preciso voltar.

    Espero que dê tudo certo nessa empreitada aí.

    Aqui o texto que eu falei: https://www.theguardian.com/technology/2015/dec/29/irans-blogfather-facebook-instagram-and-twitter-are-killing-the-web

  6. hiago disse:

    e-mail é sempre uma boa.

  7. Gabriel Vinicius disse:

    Matias eu adorei seu texto, honestamente sempre pensei em fazer o mesmo, entendo que a internet tem construído um mal social, isolamento, busca por visibilidade a qualquer custo, simplificação dos debates políticos, entre tantos outros., porém, sempre que faço essa reflexão e decido por “abandonar” as redes eu me questiono sobre o meu futuro sem elas. Tenho a impressão que toda minha base de informação nos últimos anos foram adquiridas através das redes, emprego, entretenimento, viagens e etc. Por isso, me preocupo muito em optar por gradativamente abandona-las. Estive acompanhando os filmes da 43ª Mostra de Cinema de SP assisti 52 filmes, dias inteiro no cinema, pausas apenas para um breve lanche, quando o dia acabava vivia uma sensação paradoxal, estava leve por ter tido um belo dia de grandes filmes, porém, angustiado com o que estava acontecendo no “mundo lá fora”. Pois bem, espero um dia trocar uma ideia com você para saber dessa experiência e me encorajar para viver a minha experiência.

  8. A ironia da vida é inquestionável. Demorei séculos para ceder ao Facebook e somente nesse ano de 2019 cedi ao Instagram, tudo por causa da minha banda. Para ajudar a divulga-la. Tudo na esperança de chamar a atenção de gente como você. Agora, lendo seu texto, lembrei de mim mesmo. Se eu já estava meio perdido, agora me perdi de vez…

  9. Bárbara Lyra disse:

    Ah, compartilho desse desconforto com as redes sociais. Que esse distanciamento te faça bem. Ah, e será um prazer receber os emails <3

  10. Fernando Martines disse:

    Matias, quero acompanhar os trampos novos

    fernandomartines0@gmail.com

  11. Salve Matias!!!
    Sempre na frente em um meio tão dominado pelo retrocesso. 24 é uma boa idade para repensar isso, e concordo completamente com sua atitude e acho até que o caminho é esse mesmo, já estava sentindo essa onda chata das redes chegar há um bom tempo, mas agora parece que chegou em um grau avançado da insanidade, por sorte ou azar, enfim…Estarei acompanhando seu trabalho sempre mermão, como faço há um bom tempo rs. Dos poucos textões que ainda dá gosto de ler. hasta la victoria siempre!

  12. Pedro Jabur disse:

    Opa. Quero saber também

  13. Pedro Jabur disse:

    É o site ? O que vai acontecer com ele?

  14. MARIA DE LOURDES SIRACUZA CAPPI disse:

    Que os caminhos se abram em sua nova fase.

  15. pedro disse:

    quero suas novidades sempre, pela plataforma que for

  16. Peter disse:

    As redes sociais estao empenhadas em estabelecer a extrema direita no mundo. Google, youtube, facebook, todos se fingindo de imparcias mas fomentando o odio e o extremismo em seus likes e sugestoes de videos

  17. Guilherme Kafé disse:

    É… a real é que estamos ou já doentes ou adoecendo.
    eu consigo dar essas desligadas quando estou de férias (ainda que um feriado / fim de semana fora de sp)
    mas, no dia a dia é dureza…

    é preciso inventar novas formas de ser… boa sorte aí na empreita!
    quero saber das novidades por email!
    abração

  18. Fagner Morais disse:

    Só posso desejar felicidade nessa sua nova fase e muita música 🙂

  19. Pedro Noizyman disse:

    Também tenho tentado moderar meu tempo nas redes sociais, principalmente as do Mark. O Twitter continua sendo meu maior vício, mas essa sua ideia de diminuir o número de RTs me parece bem interessante. Se tiver newsletter do Trabalho Sujo eu vou achar incrível. Aliás, as newsletters têm sido meu canal favorito pra me informar e saber de coisas bacanas. A MargeM do Thiago Ney é uma que eu tenho curtido bastante. Matias, na época d’O Esquema, quando vc era mais ativo aqui no blog, vc fazia com primazia esse trabalho de curadoria de coisas interessantes na internet. Espero que isso esteja nos planos. Grande abraço e vida longa ao Trabalho Sujo, no formato que for!

  20. Juliana Alves disse:

    Me espera aí que eu vou contigo.

  1. 30/11/2019

    […] estão viciadas e querendo diminuir a presença nas redes sociais. O jornalista Alexandre Matias, no post de aniversário do seu Trabalho Sujo, também falou sobre […]