A orelha do Nino

O querido Bruno Capelas me chamou para fazer a apresentação de seu livro sobre o Castelo Rá-Tim-Bum, Raios e Trovões (Ed. Summus) e é claro que escrevi mais do que precisava – portanto, abaixo, segue a íntegra do texto que foi parar editado na orelha do livro.

raios-trovoes

Mais do que um sucesso comercial ou um bom sucedido programa infantil para as massas, “Castelo Rá-Tim-Bum” é um fenômeno cultural. Nasceu da experimentações que a contracultura paulistana passou uma década curtindo, dos laboratório de TVs de baixo alcance à performance e à dança, passando pelo Lira Paulistano, pelo cinema da boca do lixo, pela literatura marginal e pelo Teatro Oficina, de onde buscaram inspiração, corações e mentes para compor um programa ao mesmo tempo acolhedor e transgressor, ousado e divertido, metalingüíistico e direto.

“Raios e trovões – A história do fenômeno Castelo Rá‑Tim‑Bum” é um microcosmo de algo que sempre presente na história da cultura brasileira: o momento em que experimentações artísticas provam-se populares, acertando o coração do espectador ao mesmo tempo em que fisga sua inteligência. Sem menosprezar nem ser condescendente com seu público, “Castelo Rá-Tim-Bum” traz sua audiência para a tela, propondo uma cumplicidade inédita que só poderia ser obtida através da metalinguagem que o programa transpirava.

Como Oz, o País das Maravilhas, a Terra do Nunca, o Sítio do Picapau Amarelo e Hogwarts, o Castelo teoricamente é um lugar fictício e fantasioso, em que apenas crianças conseguem entrar por portais mágicos. Este portal é justamente a imaginação e a criatividade, que são colocados em xeque a cada aparição de novo personagem, novo cenário, nova canção. Para isso, foi preciso que uma geração inteira de artistas experimentasse os receosos anos pós-ditadura militar, em que a censura, o autoritarismo e o conservadorismo brasileiro escondiam as garras para fingir que estava tudo bem.

Castelo Rá-Tim-Bum também é mais um dos ingredientes da paulistanização da cultura brasileira, ao lado de fenômenos tão diferentes quanto o futebol paulista, a ida de Fausto Silva para a TV Globo, a ascensão dos Racionais MCs e a criação da MTV – todos estes, diga-se de passagem, umbilicalmente ligados ao espaço de liberdade aberto pelas vanguardas paulistanas dos anos 80.

É essa história que o jornalista Bruno Capelas conta em seu trabalho de conclusão de curso que agora materializa-se livro. Percorre das origens da criação de um programa infantil em uma rede pública de televisão (um ato por si só heroico – e há toda uma tradição nisso) à consolidação de uma linguagem moderna e ousada em grande escala. É o equilíbrio entre ser família e ser vanguarda que tornou Castelo Rá-Tim-Bum tão central no inconsciente coletivo brasileiro no final do século passado e é essa história que Capelas, um dos caçulas da geração do jornalismo pop da internet brasileira, conta tão bem em “Raios e Trovões”.

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