Podem vilanizar, mas Bill Gates não é Bill Gates à toa…
Aproveitando a deixa:
“‘Olha que gatinho bonito’, ‘foda-se, esse gatinho é comunista’, ‘você é viado!’. Em suma, eis o credo de toda a discussão através da internet”
É o que diz o líder do Wilco, à Magnet (que voltou ao papel), pinçado via Pitchfork. A foto-Godwin eu tirei do Glorious Noise.
Esqueci de postar aqui a coluna que escrevi pro 2 no domingo da semana anterior, após o lançamento do Kindle Fire, antes do lançamento do novo iPhone e da morte do Steve Jobs. Não que tenha mudado algo do texto original…
Sucesso repentino
Aparelhos novos vêm e vão
Na semana passada, a Amazon provou, na prática, que seu e-reader, o Kindle, não era concorrente do iPad, da Apple. Como ela fez isso? Lançou um concorrente: seu próprio tablet.
Pois é: além de ter um dispositivo específico para leitura, a maior loja online do mundo agora lançou seu primeiro tablet, que diz ter sido feito para acessar a internet e consumir conteúdo multimídia. O apetrecho chama-se Kindle Fire.
Quem acompanha os lançamentos de tecnologia sabe que este não é nem o primeiro nem o último aparelho a se dispor a peitar o tablet lançado por Steve Jobs no ano passado. A Amazon parece ter entrado bem na disputa por ter dois fatores a seu favor: o preço (o Kindle Fire custa US$ 199 para quem já fizer a pré-venda, menos da metade do preço do modelo mais simples do iPad 2, que sai por US$ 500) e o fato de, assim como a Apple, seu fabricante já possuir um ecossistema de negócios pronto e funcionando muito bem.
A mesma Apple prepara-se para, na próxima terça-feira, lançar a quinta versão de seu iPhone, pouco mais de um ano após o lançamento da versão anterior. E o iPad 3 já havia sido anunciado, mas foi colocado em modo de espera depois que Jobs deixou o cargo de CEO da empresa.
Instantâneo. Isso tende a ser cada vez mais comum. Uma reportagem do New York Times desta semana ouvia diferentes analistas para chegar à conclusão de que se um produto não desse certo logo que era lançado, seu futuro era mais do que incerto. Podia talvez nem existir. Vide a quantidade de tablets que foram lançados após o iPad e que deram com burros n’água.
Cada vez mais as empresas de tecnologia precisam fazer barulho em torno de seus aparelhos para garantir sua sobrevivência no mercado. Dois dos principais aparelhos lançados no ano passado (o iPad e o Kinect, da Microsoft) só estão aí até hoje porque venderam muito bem em suas primeiras semanas.
A onipresença tecnológica obriga todos a correr atrás do sucesso repentino, o que pode tornar a indústria de aparelhos tão afobada quanto a de filmes e de discos hoje em dia. Quantos discos ou filmes sobrevivem após um mau fim de semana de lançamento? E, pior, a partir desta lógica, que espécie de filmes e discos são lançados com alarde hoje em dia?
Será que um dia veremos lançamentos mirabolantes e grandiosos serem anunciados num dia para, na semana seguinte, cair em desuso? Ou será que já estamos vivendo nessa época?
E a minha coluna de ontem no Caderno 2 foi sobre como Jobs mudou o futuro da Pixar ao não se intrometer no que eles poderiam fazer.
A influência de Steve Jobs
E o que a Pixar tem a ver com isso
Quem ainda aguenta ouvir falar em Steve Jobs? Não vou repetir a ladainha que lemos e ouvimos após o anúncio de sua morte, na última quarta-feira, mesmo porque já havia falado de sua importância neste mesmo espaço no final de agosto, quando ele deixou o cargo de CEO da empresa que fundou em 1976. Sim, ele foi um visionário, talvez tenha sido o último grande líder norte-americano, um hippie capitalista, o primeiro hipster, o empresário que conseguiu transformar uma indústria num estilo de vida e mudar o curso de toda uma geração. Mas tudo isso você já deve estar cansado de ler.
Queria falar de outro aspecto, menor, da biografia de Jobs. Menor, mas tão importante quanto os aparelhos criados sobre sua marca. Que é a história de como ele transformou um estúdio de softwares no futuro do cinema. Ou melhor, de como ele viu o futuro da Pixar antes mesmo da própria Pixar.
Jobs não fundou a Pixar – a empresa já existia sete anos antes de ter sido comprada pelo pai da Apple. Jobs quis a empresa pois sempre se preocupou com a interface e o design de seus produtos. Ele comprou a empresa, que era parte da Lucasfilm de George Lucas, para criar gráficos mais realistas e charmosos para seus softwares. E era isso que era a Pixar antes da entrada de Jobs – um estúdio de animação 3D para softwares.
Até que, certa vez, o criador da empresa, John Lasseter, disse que queria fazer um filme inteirinho em computação gráfica. Era uma ideia que, no início dos anos 90, não animaria ninguém. Os registros de animação computadorizada até então nos remetiam a bonecos sem curva, como os do clipe de Money for Nothing, do Dire Straits, ou à estética 8-bit do filme Tron. Qualquer tentativa de fazer filmes sem atores apontava para desenhos (des)animados rústicos e conceitualmente duros, sem alma.
Foi quando Steve Jobs deu sua melhor contribuição ao estúdio: não se meteu. Meticuloso e cricri com as criações da própria empresa, Jobs sempre carregou consigo a pecha de chefe tirânico, difícil de agradar, pedindo para que as mesmas coisas fossem refeitas até atingir seu altíssimo nível de exigência. Mas, percebendo o potencial da ideia de Lasseter e vendo que suas intervenções poderiam atrapalhar o processo de criação da Pixar – que, mesmo após a ideia de lançar um longa-metragem, não via o próprio futuro no cinema –, fez o que os bons chefes fazem quando reconhecem o valor de seus funcionários e confiam em seu taco: deixou-os trabalhar. Fez apenas uma simples e crucial exigência, como lembrou o próprio Lasseter na página do Facebook da empresa.
“Jobs foi um visionário extraordinário, um amigo muito querido e um farol guia para a família Pixar. Ele viu o potencial da Pixar antes mesmo que o resto de nós – e muito além do que nós poderíamos imaginar. Steve apostou em nós e no nosso sonho maluco de fazer filmes animados por computador: a única coisa que ele dizia era repetir ‘seja ótimo’. Ele é o motivo da Pixar ter se tornado o que se tornou e seu amor pela vida nos tornou pessoas melhores. Ele para sempre fará parte do nosso DNA. Nosso amor vai para sua esposa Laurene e para seus filhos neste momento incrivelmente difícil.”
Até mesmo quando não se envolvia, Steve Jobs era genial. Delegava poder e assim ampliava sua influência e alcance. Gosta da Pixar? Agradeça a Jobs.

Desde que a morte de Steve Jobs surgiu como um horizonte eterno para quem cobre tecnologia, eu e a Helô havíamos fechado em publicar a íntegra do clássico discurso do criador da Apple em Stanford, em 2005, como auto-obituário. Só não contávamos com a possibilidade de mexer com a gravidade do jornal de papel e transformar o discurso num poster, como fizemos nessa segunda-feira. Sério: só vendo pra ver como ficou foda. E o conselho de Jobs também serve como um salve para o Thiago (aproveita pra fazer o Flickr, porra!), o nome por trás da cara visual do Link de papel, que teve a manha de quebrar o braço ao comemorar a página fodona que é capa e contracapa do Link de hoje.
Lembrar que logo estarei morto é a ferramenta mais importante que encontrei para me ajudar a tomar as grandes decisões da vida. Afinal, quase tudo – todas as expectativas, todo o orgulho, todo o medo do fracasso ou do constrangimento – tudo isso se torna insignificante diante da morte, restando só aquilo que é importante. Lembrar que vamos morrer é a melhor maneira que conheço de evitar a armadilha de pensar que temos algo a perder. Já estamos nus. Não há motivo para não seguir o coração.
Além do texto de Jobs, a edição ainda conta com uma retrospectiva de sua carreira, textos da Helô, do João da Box1824 e do Barão do estúdio Nó Design sobre a influência de Jobs em nosso dia-a-dia, um perfil escrito pelo colunista de tecnologia da Slate, Farhad Manjoo e um texto meu sobre o lado ruim do falecido. E a íntegra do discurso de Jobs tá aqui.
Na edição de hoje também contei como foi passar uma tarde no meio dos indignados do Occupy Wall Street.
A queda do muro
OccupyWallStreet questiona o ‘1% que controla o destino de 99% da população’
“Mic check!”, alguém gritou. “Mic check!”, vários responderam. A frase, em inglês, é usada para testar o funcionamento de microfones, mas não há nenhum microfone à vista. Depois do primeiro chamado – ou seja, depois de “testado” o “microfone” –, o mesmo manifestante que puxou o anúncio começa a avisar aos restantes. Pausa a cada frase para que ela mesma seja repetida por todos. Assim, um aviso que poderia ser gritado ou anunciado por um sistema de som ou megafone, ganha uma amplificação natural, repetida em uníssono por todos os presentes.
“Fazemos isso pois não temos sistema de som e é um jeito eficaz de passar a mensagem que queremos”, me explica a manifestante Leia (leia a entrevista abaixo), que senta-se atrás de uma mesa sinalizada como “balcão de informações”, entre guarda-chuvas, colchões, edredons e cartazes feitos de papelão.
O “mic check” não é uma invenção dos manifestantes nova-iorquinos que ocupam a praça Zuccotti Park. Já foi utilizado nas manifestações populares da chamada Primavera Árabe no início do ano e na Revolução Espanhola no último mês de maio – e até mesmo nas marchas que aconteceram em São Paulo no primeiro semestre. Mas soa irônico ao ser puxado numa praça em pleno coração financeiro da ilha de Manhattan, em Nova York, onde, desde o dia 17 do mês passado, milhares de manifestantes estão acampados contra, como eles dizem, o “1% que controla o destino dos 99% restantes da população”.
Estive na praça na terça-feira, e o clima de acampamento hippie misturado a de centro acadêmico de humanas destoa completamente dos prédios austeros ao redor. É como se os manifestantes do movimento OccupyWallStreet transformassem aquele naco de terra de 3 mil metros quadrados, normalmente habitados por executivos engravatados, em uma filial da Praça Tahrir, no Cairo, ou na Plaza de Cataluña, em Barcelona, palco das manifestações no Egito e na Espanha.
São hippies, punks, estudantes, veteranos de guerra, hipsters, grafiteiros, sindicalistas e simpatizantes que não arredam o pé da praça, sempre sob olhares atentos da polícia e dos turistas, que já elegeram o lugar como o mais novo ponto turístico de Nova York. Vista à distância, a fauna humana parece uma concentração antes de um show de rock, mas basta passear entre eles para perceber que há muito além dos cabelos compridos e coloridos, tatuagens, piercings e palavras de ordem.
Existe uma organização – naturalmente descentralizada – que avisa aos interessados quais são os direitos de cada um deles. “A polícia tem o direito de mentir para você”, anuncia um panfleto, que ajudava a entender como os mais de 700 manifestantes foram presos no sábado anterior, quando o grupo foi protestar na ponte do Brooklyn.
Os manifestantes também têm um cronograma de atividades e passeatas que se repetem por várias vezes durante o dia, sempre ao redor da praça. Há um centro de mídia criado no meio da área, com computadores online para postar vídeos e fotos e até fazer transmissões ao vivo de acontecimentos específicos. O grupo conta até mesmo com uma biblioteca pública, composta por livros doados, e um jornal impresso, batizado com o singelo nome de Occupy Wall Street Journal.
Organizados pela internet e usando a rede para disseminar sua mensagem, eles são mais uma etapa do efeito dominó de manifestações populares que derrubaram ditadores nos países árabes e chacoalharam grandes cidades da Europa.
O movimento é criticado por não ter exigências definidas nem propor alternativas, mas essa indignação generalizada foi o que fez a revista inglesa Economist, chamar os manifestantes espanhóis de “o grupo de protestos mais sério do mundo”, no primeiro semestre. Essa seriedade é clara em cada um dos presentes, mesmo que haja brincadeiras e trocadilhos engraçadinhos nos cartazes. E na convicção de que, aconteça o que acontecer, eles só sairão dali quando tiverem suas exigências atendidas.
‘Somos um movimento de natureza aberta’

Leia, manifestante no protesto OccupyWallStreet
Qual o papel da mídia digital no OccupyWallStreet?
Uma coisa importante de perceber é que, apesar de termos recursos limitados, nós temos um centro de mídia gigante aqui no parque. É um grupo de pessoas que está subindo fotos no Facebook, no Twitter, espalhando tudo pela web. Assim que temos algum vídeo, fazemos o possível para disseminá-lo o mais rapidamente. O que é bem diferente do que se esse mesmo tipo de protesto acontecesse há cinco anos, quando era muito mais difícil disseminar informação. Também organizamos a ascensão de hashtags no Twitter justamente para chegar à principal lista do site e fazer que as pessoas descubram do que estamos falando. Isso também não existia há cinco anos. Ainda, encorajamos que as pessoas filmem quando estão sendo filmadas em entrevistas para a TV.
É um movimento sem líder.
Sim, há grupos trabalhistas que têm se solidarizado, mas é assim que as pessoas estão se referindo, como adesões solidárias. Ninguém está querendo assumir a liderança do movimento, pois há a consciência de que somos mesmo os 99% e não fazemos parte do 1% contra os quais protestamos. E também encorajamos todo mundo que queira ajudar a simplesmente ir lá e ajudar, não precisa se registrar, nem pedir autorização. É um movimento de natureza aberta.
Hoje (terça-feira, 4) é o décimo sétimo dia de ocupação. Vocês pretendem ficar aqui o tempo que for preciso?
Acho que sim, vamos ficar aqui o tempo que for preciso. Eu tenho a sorte de morar aqui perto, de trabalhar só pela manhã e conseguir dedicar o resto do dia a estar aqui. Mas as pessoas estão dispostas, principalmente após a prisão em massa que aconteceu na ponte do Brooklyn no sábado. Acho que estamos ganhando momentum, importância e legitimidade, principalmente porque assistimos à prisão de jornalistas e de mães com seus filhos no colo. Hoje temos mais gente do que tínhamos ontem e esse movimento não para. As pessoas estão deixando de encarar o movimento como algo marginal.
Assim que soube da morte de Jobs, propus o texto abaixo, que saiu no especial sobre a morte do pai da Apple publicada no caderno de Economia de hoje do Estadão, que ainda traz análises do Cruz e do Filipe (que agora também tem blog, mas disso eu falo melhor depois).
Morte de Jobs marca o início do século digital
Eu tive a sorte de ver Steve Jobs em ação, quando ele apresentou o Macbook Air. O laptop finíssimo foi lançado um ano depois de a foto de Steve Jobs ser publicada apenas por cadernos de tecnologia. Agora ela frequentava também as capas dos jornais e revistas, ele sempre mostrando seu irresistível iPhone.
No início de 2008, todos os olhos do mundo estavam voltados para o Moscone Center, o centro de convenções transformado em circo da Apple durante a feira Macworld, realizada sempre em janeiro, na cidade de São Francisco.
O clima na plateia era de culto. Mesmo antes da entrada de Jobs no palco-altar, o burburinho e a expectativa apenas em relação à presença do criador da Apple já era motivo de excitação.
Fãs da empresa se cumprimentavam e comemoravam poder assistir, pela primeira vez, a uma performance de Jobs. A adrenalina quase tátil dos presentes ficava entre a aparição em público de uma boy band e a espera antes de um show de rock.
Mas ninguém estava ali para cantar junto. Todos esperavam o inesperado. Ouvir as hipérboles e adjetivos do sujeito que popularizou o computador pessoal, a computação gráfica, o MP3 player, o comércio de música digital e o smartphone.
E era impressionante ver como Jobs conduzia essa expectativa. Cada pausa, cada frase de efeito e número destacado parecia ao mesmo tempo ensaiado e natural. Jobs já estava magro, mas não estava abatido como nos últimos anos. E isso não tirava seu entusiasmo. Ele realmente parecia acreditar em cada novo slide apresentado em seu show particular, transformando uma reunião pública de negócios num evento de mídia. Ele havia nascido para o holofote. E nisso concordam tanto seus fãs quanto detratores.
Pode-se ir contra a lógica fechada e protecionista da Apple, uma empresa que, por exemplo, censura obras que vende. Pode-se reclamar da ideologia vazia que é o culto a uma marca. Mas é impossível reconhecer seu talento como showman e como ele sabia que conteúdo e forma eram tão importantes.
Um CEO popstar. É o sonho de toda empresa. O CEO que consegue transformar seus produtos em símbolos de status e sua estratégia de marketing em um estilo de vida autoajuda.
Nesse sentido, Jobs é o último grande nome do século 20, centenário marcado pela ascensão de líderes carismáticos que saíram do nada e mudaram gerações inteiras. Mantenho o que disse no texto que escrevi para a capa do Link quando Steve Jobs deixou o cargo na empresa que criou, no final do último mês de agosto. Na ocasião, eu definia Jobs como o irmão caçula e temporão de um cânone que une Henry Ford, Alexander Graham Bell, Levi Strauss, Thomas Edison e Bill Gates. E, ao morrer, ele nos deixa num mundo que passou sua vida inteira imaginando: o mundo digital.
Às 10h da noite desta quarta-feira, nove dos dez trending topics do Twitter no mundo faziam referência à morte de Steve Jobs. No Brasil, sete dos dez trending topics faziam referência a ele.
Os tweets de Barack Obama e de Bill Gates já haviam sido intensamente retwittados. O mesmo acontecia com as condolências de Mark Zuckerberg, dadas através de sua própria rede social, o Facebook. Páginas e mais páginas contendo retrospectivas, biografias, links para galerias de fotos e vídeos no YouTube.
É um tanto irônico que o último grande líder do século 20 tenha morrido poucos dias após deixar o cargo principal de uma corporação que hoje é a segunda mais valiosa do mundo.
Com sua morte, finalmente entramos num século de vez num mundo completamente diferente – horizontal, sem líderes, sem rosto. Em que as pessoas descobrem ou destroem reputações aos bandos, que governos são derrubados após manifestações coletivas planejadas via rede. Com a morte de Jobs, entramos finalmente no século digital.
Também falei sobre a morte do Jobs ontem, ao vivo, pra rádio Estadão Espn. E falo agora pela manhã, às 9h30.







