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Digital

Desde que a morte de Steve Jobs surgiu como um horizonte eterno para quem cobre tecnologia, eu e a Helô havíamos fechado em publicar a íntegra do clássico discurso do criador da Apple em Stanford, em 2005, como auto-obituário. Só não contávamos com a possibilidade de mexer com a gravidade do jornal de papel e transformar o discurso num poster, como fizemos nessa segunda-feira. Sério: só vendo pra ver como ficou foda. E o conselho de Jobs também serve como um salve para o Thiago (aproveita pra fazer o Flickr, porra!), o nome por trás da cara visual do Link de papel, que teve a manha de quebrar o braço ao comemorar a página fodona que é capa e contracapa do Link de hoje.

Lembrar que logo estarei morto é a ferramenta mais importante que encontrei para me ajudar a tomar as grandes decisões da vida. Afinal, quase tudo – todas as expectativas, todo o orgulho, todo o medo do fracasso ou do constrangimento – tudo isso se torna insignificante diante da morte, restando só aquilo que é importante. Lembrar que vamos morrer é a melhor maneira que conheço de evitar a armadilha de pensar que temos algo a perder. Já estamos nus. Não há motivo para não seguir o coração.

Além do texto de Jobs, a edição ainda conta com uma retrospectiva de sua carreira, textos da Helô, do João da Box1824 e do Barão do estúdio Nó Design sobre a influência de Jobs em nosso dia-a-dia, um perfil escrito pelo colunista de tecnologia da Slate, Farhad Manjoo e um texto meu sobre o lado ruim do falecido. E a íntegra do discurso de Jobs tá aqui.

Nova York ocupada

Na edição de hoje também contei como foi passar uma tarde no meio dos indignados do Occupy Wall Street.

A queda do muro
OccupyWallStreet questiona o ‘1% que controla o destino de 99% da população’

“Mic check!”, alguém gritou. “Mic check!”, vários responderam. A frase, em inglês, é usada para testar o funcionamento de microfones, mas não há nenhum microfone à vista. Depois do primeiro chamado – ou seja, depois de “testado” o “microfone” –, o mesmo manifestante que puxou o anúncio começa a avisar aos restantes. Pausa a cada frase para que ela mesma seja repetida por todos. Assim, um aviso que poderia ser gritado ou anunciado por um sistema de som ou megafone, ganha uma amplificação natural, repetida em uníssono por todos os presentes.

“Fazemos isso pois não temos sistema de som e é um jeito eficaz de passar a mensagem que queremos”, me explica a manifestante Leia (leia a entrevista abaixo), que senta-se atrás de uma mesa sinalizada como “balcão de informações”, entre guarda-chuvas, colchões, edredons e cartazes feitos de papelão.

O “mic check” não é uma invenção dos manifestantes nova-iorquinos que ocupam a praça Zuccotti Park. Já foi utilizado nas manifestações populares da chamada Primavera Árabe no início do ano e na Revolução Espanhola no último mês de maio – e até mesmo nas marchas que aconteceram em São Paulo no primeiro semestre. Mas soa irônico ao ser puxado numa praça em pleno coração financeiro da ilha de Manhattan, em Nova York, onde, desde o dia 17 do mês passado, milhares de manifestantes estão acampados contra, como eles dizem, o “1% que controla o destino dos 99% restantes da população”.

Estive na praça na terça-feira, e o clima de acampamento hippie misturado a de centro acadêmico de humanas destoa completamente dos prédios austeros ao redor. É como se os manifestantes do movimento OccupyWallStreet transformassem aquele naco de terra de 3 mil metros quadrados, normalmente habitados por executivos engravatados, em uma filial da Praça Tahrir, no Cairo, ou na Plaza de Cataluña, em Barcelona, palco das manifestações no Egito e na Espanha.

São hippies, punks, estudantes, veteranos de guerra, hipsters, grafiteiros, sindicalistas e simpatizantes que não arredam o pé da praça, sempre sob olhares atentos da polícia e dos turistas, que já elegeram o lugar como o mais novo ponto turístico de Nova York. Vista à distância, a fauna humana parece uma concentração antes de um show de rock, mas basta passear entre eles para perceber que há muito além dos cabelos compridos e coloridos, tatuagens, piercings e palavras de ordem.

Existe uma organização – naturalmente descentralizada – que avisa aos interessados quais são os direitos de cada um deles. “A polícia tem o direito de mentir para você”, anuncia um panfleto, que ajudava a entender como os mais de 700 manifestantes foram presos no sábado anterior, quando o grupo foi protestar na ponte do Brooklyn.

Os manifestantes também têm um cronograma de atividades e passeatas que se repetem por várias vezes durante o dia, sempre ao redor da praça. Há um centro de mídia criado no meio da área, com computadores online para postar vídeos e fotos e até fazer transmissões ao vivo de acontecimentos específicos. O grupo conta até mesmo com uma biblioteca pública, composta por livros doados, e um jornal impresso, batizado com o singelo nome de Occupy Wall Street Journal.

Organizados pela internet e usando a rede para disseminar sua mensagem, eles são mais uma etapa do efeito dominó de manifestações populares que derrubaram ditadores nos países árabes e chacoalharam grandes cidades da Europa.

O movimento é criticado por não ter exigências definidas nem propor alternativas, mas essa indignação generalizada foi o que fez a revista inglesa Economist, chamar os manifestantes espanhóis de “o grupo de protestos mais sério do mundo”, no primeiro semestre. Essa seriedade é clara em cada um dos presentes, mesmo que haja brincadeiras e trocadilhos engraçadinhos nos cartazes. E na convicção de que, aconteça o que acontecer, eles só sairão dali quando tiverem suas exigências atendidas.

‘Somos um movimento de natureza aberta’


Leia, manifestante no protesto OccupyWallStreet

Qual o papel da mídia digital no OccupyWallStreet?
Uma coisa importante de perceber é que, apesar de termos recursos limitados, nós temos um centro de mídia gigante aqui no parque. É um grupo de pessoas que está subindo fotos no Facebook, no Twitter, espalhando tudo pela web. Assim que temos algum vídeo, fazemos o possível para disseminá-lo o mais rapidamente. O que é bem diferente do que se esse mesmo tipo de protesto acontecesse há cinco anos, quando era muito mais difícil disseminar informação. Também organizamos a ascensão de hashtags no Twitter justamente para chegar à principal lista do site e fazer que as pessoas descubram do que estamos falando. Isso também não existia há cinco anos. Ainda, encorajamos que as pessoas filmem quando estão sendo filmadas em entrevistas para a TV.

É um movimento sem líder.
Sim, há grupos trabalhistas que têm se solidarizado, mas é assim que as pessoas estão se referindo, como adesões solidárias. Ninguém está querendo assumir a liderança do movimento, pois há a consciência de que somos mesmo os 99% e não fazemos parte do 1% contra os quais protestamos. E também encorajamos todo mundo que queira ajudar a simplesmente ir lá e ajudar, não precisa se registrar, nem pedir autorização. É um movimento de natureza aberta.

Hoje (terça-feira, 4) é o décimo sétimo dia de ocupação. Vocês pretendem ficar aqui o tempo que for preciso?
Acho que sim, vamos ficar aqui o tempo que for preciso. Eu tenho a sorte de morar aqui perto, de trabalhar só pela manhã e conseguir dedicar o resto do dia a estar aqui. Mas as pessoas estão dispostas, principalmente após a prisão em massa que aconteceu na ponte do Brooklyn no sábado. Acho que estamos ganhando momentum, importância e legitimidade, principalmente porque assistimos à prisão de jornalistas e de mães com seus filhos no colo. Hoje temos mais gente do que tínhamos ontem e esse movimento não para. As pessoas estão deixando de encarar o movimento como algo marginal.

4:20

Assim que soube da morte de Jobs, propus o texto abaixo, que saiu no especial sobre a morte do pai da Apple publicada no caderno de Economia de hoje do Estadão, que ainda traz análises do Cruz e do Filipe (que agora também tem blog, mas disso eu falo melhor depois).

Morte de Jobs marca o início do século digital

Eu tive a sorte de ver Steve Jobs em ação, quando ele apresentou o Macbook Air. O laptop finíssimo foi lançado um ano depois de a foto de Steve Jobs ser publicada apenas por cadernos de tecnologia. Agora ela frequentava também as capas dos jornais e revistas, ele sempre mostrando seu irresistível iPhone.

No início de 2008, todos os olhos do mundo estavam voltados para o Moscone Center, o centro de convenções transformado em circo da Apple durante a feira Macworld, realizada sempre em janeiro, na cidade de São Francisco.

O clima na plateia era de culto. Mesmo antes da entrada de Jobs no palco-altar, o burburinho e a expectativa apenas em relação à presença do criador da Apple já era motivo de excitação.

Fãs da empresa se cumprimentavam e comemoravam poder assistir, pela primeira vez, a uma performance de Jobs. A adrenalina quase tátil dos presentes ficava entre a aparição em público de uma boy band e a espera antes de um show de rock.

Mas ninguém estava ali para cantar junto. Todos esperavam o inesperado. Ouvir as hipérboles e adjetivos do sujeito que popularizou o computador pessoal, a computação gráfica, o MP3 player, o comércio de música digital e o smartphone.

E era impressionante ver como Jobs conduzia essa expectativa. Cada pausa, cada frase de efeito e número destacado parecia ao mesmo tempo ensaiado e natural. Jobs já estava magro, mas não estava abatido como nos últimos anos. E isso não tirava seu entusiasmo. Ele realmente parecia acreditar em cada novo slide apresentado em seu show particular, transformando uma reunião pública de negócios num evento de mídia. Ele havia nascido para o holofote. E nisso concordam tanto seus fãs quanto detratores.

Pode-se ir contra a lógica fechada e protecionista da Apple, uma empresa que, por exemplo, censura obras que vende. Pode-se reclamar da ideologia vazia que é o culto a uma marca. Mas é impossível reconhecer seu talento como showman e como ele sabia que conteúdo e forma eram tão importantes.

Um CEO popstar. É o sonho de toda empresa. O CEO que consegue transformar seus produtos em símbolos de status e sua estratégia de marketing em um estilo de vida autoajuda.

Nesse sentido, Jobs é o último grande nome do século 20, centenário marcado pela ascensão de líderes carismáticos que saíram do nada e mudaram gerações inteiras. Mantenho o que disse no texto que escrevi para a capa do Link quando Steve Jobs deixou o cargo na empresa que criou, no final do último mês de agosto. Na ocasião, eu definia Jobs como o irmão caçula e temporão de um cânone que une Henry Ford, Alexander Graham Bell, Levi Strauss, Thomas Edison e Bill Gates. E, ao morrer, ele nos deixa num mundo que passou sua vida inteira imaginando: o mundo digital.

Às 10h da noite desta quarta-feira, nove dos dez trending topics do Twitter no mundo faziam referência à morte de Steve Jobs. No Brasil, sete dos dez trending topics faziam referência a ele.

Os tweets de Barack Obama e de Bill Gates já haviam sido intensamente retwittados. O mesmo acontecia com as condolências de Mark Zuckerberg, dadas através de sua própria rede social, o Facebook. Páginas e mais páginas contendo retrospectivas, biografias, links para galerias de fotos e vídeos no YouTube.

É um tanto irônico que o último grande líder do século 20 tenha morrido poucos dias após deixar o cargo principal de uma corporação que hoje é a segunda mais valiosa do mundo.

Com sua morte, finalmente entramos num século de vez num mundo completamente diferente – horizontal, sem líderes, sem rosto. Em que as pessoas descobrem ou destroem reputações aos bandos, que governos são derrubados após manifestações coletivas planejadas via rede. Com a morte de Jobs, entramos finalmente no século digital.

Também falei sobre a morte do Jobs ontem, ao vivo, pra rádio Estadão Espn. E falo agora pela manhã, às 9h30.

4:20

jobs

Ontem mesmo, pelo telefone, falei com a TV Estadão sobre a morte do Jobs.

Furo do Link! Escrevi sobre a notícia no caderno de Economia desta quarta.

Anúncio junta a fome à vontade de comer, mas perde em timing

No ano de 2001, a Microsoft ainda era um dos maiores nomes no mercado digital. O Google começava a ganhar a fama de oráculo que carrega até hoje, mas ainda era uma novidade. A Apple havia acabado de anunciar seu novo aparelho portátil, o iPod. Mark Zuckerberg era menor de idade. Por isso, quando a gigante do software anunciou que estaria lançando um console para entrar de vez no mercado de videogames, muitos achavam que estaríamos vendo um pouco de como seria o futuro próximo.

Mas, por mais que o Xbox tenha sido bem-sucedido e se tornado um dos grandes nomes no mercado mundial de games, ele não cumpriu a promessa almejada, de se tornar uma central de entretenimento doméstica. Por dentro, o console era um computador portátil reempacotado. Mas estávamos começando a era dos portáteis, mesmo sem saber disso, e, em pouco tempo, MP3 players, laptops, celulares e, finalmente, tablets eram objetos de desejo maiores do que um console de games que fica preso num canto da casa.

A mesma década viu Google, Apple e Facebook ultrapassarem a Microsoft em diversas frentes. E a aposentadoria de Bill Gates, anunciada em 2008, não ajudou a empresa. Ao mesmo tempo, o mercado de games no Brasil sempre viveu à espera da tão sonhada redução de impostos, que permitiria a redução de preços de jogos e de consoles no País.

O anúncio desta terça-feira parece ter juntado a fome com a vontade de comer. De um lado, temos uma empresa tentando recuperar o prestígio de dias passados, transferindo parte de sua produção de hardware para um país em desenvolvimento. Do outro, temos o público consumidor deste mesmo país, cada vez maior, disposto a consumir cada vez mais.

O problema dessa equação é só a questão de timing. Jogos em CD e consoles de videogame estão, cada vez mais, com seus dias contados. Joga-se no celular e na rede social – e, mesmo que os games ainda sejam rústicos e primitivos, isso é uma questão que logo será suplantada, inevitavelmente.

Mas a fabricação de Xbox no Brasil deve, sim, ajudar a incipiente indústria de games local, que já mira em aplicativos para celulares e games sociais. Resta saber qual impacto o anúncio terá a médio prazo.

4:20

Dei entrevista pra uma matéria do Metrópolis na semana passada pra falar sobre a nova caixa do Guerra nas Estrelas e as mudanças feitas por George Lucas.