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Transe infinito

Partes iguais de jazz funk e rock psicodélico diluídas em brumas de dreampop com pitadas de música erudita, beats eletrônicos, indie rock e noise e o resultado foi um pós-rock tão doce quanto intempestivo, uma apresentação ao vivo ao mesmo tempo improvisada e familiar, que convertia a estranheza do que era inventado instantaneamente numa sensação de sonho, tirando nossa noção de tempo enquanto nos mergulhavam no transe infinito. Assim foi a última noite da temporada Mil Fitas que Sue e Desirée Marantes fizeram no Centro da Terra nesta segunda-feira, quando reuniram o trio instrumental Ema Stoned, a produtora e musicista gaúcha Saskia e o guitarrista goiano Dinho Almeida. Estas almas se convertiam em música ao trocar de instrumentos para explorar novas fronteiras e assim Desirée revezava-se entre o violino, teclados e o piano, também explorado pela guitarrista do Ema Stoned Al Duarte e pela gaúcha Saskia, que também aventurou-se pelos vocais e com o baixo, enquanto a baterista Theo Charbel assumiu os vocais em certa passagem, enquanto a baixista de sua banda, Elke Lamers, experimentava nos teclados e synths enquanto Dinho cantava e tocava guitarra, como Sue, que também disparava beats e samples de vozes faladas. Foi a primeira vez que os seis tocaram juntos e parecia que se conheciam há anos de palco. Uma apresentação mágica, pronta para circular pelos palcos do Brasil – e que fechou lindamente a safra de shows conduzida pelas duas produtoras.

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A gente não tá pronto pra esses shows do Cure que vem aí: postei lá no #trabalhosujo a íntegra do primeiro show que o grupo fez em Nova York na semana passada e putaqueopariu vai ser muito foda. Há quem reclame que o começo do show é só música nova ou desconhecida e que os hits ficam pro final, mas esses infiéis nem deveriam pisar num show do Cure, que é muito mais do que sucessos comerciais pra se cantar junto e sim a criação dessa atmosfera pesada, melancólica e doce ao mesmo tempo. Dá uma sacada nesse setlist (aí embaixo) e na encostadinha de cabeça no ombro que o Robert Smith dá no Simon Gallup no final de “A Forest”. E a voz do sujeito, intacta! Vai ser foda demais 🖤

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Sem avisar ninguém, o guitarrista dos Boogarins, Benke Ferraz, lançou seu primeiro disco solo a partir de uma série de experimentos que vinha fazendo sempre que começava alguma produção, seja dos trabalhos de sua banda ou para outros artistas. Rock eletrônico lo-fi sem cara de canção, o disco tem cinco músicas e foi lançado com o nome Benkes, que o guitarrista usava quando ainda lançava suas músicas no Last.fm, antes dos Boogarins existir. “No meu processo de criação e produção eu acabo acumulando muitas ideias e propostas nos HDs e nas máquinas, tentando atingir sonoridades que façam jus ao que a galera espera”, ele me explica por Whatsapp, falando sobre o disco que só lançou no YouTube, batizado de Babymonster, “esses sons vêm desse lugar totalmente seguro da criação”. O título do disco é referência tanto à recém-patenidade do produtor (o EP sai no mesmo dia em que seu filho Rafael, que estampa a capa, completa cinco meses) quanto ao universo do pop coreano, que foi apresentado por sua filha mais velha, Letícia, que participa do disco tanto quanto sua mãe, Ana Garcia, a dona do festival Coquetel Molotov, que estreia sua voz em disco. “O nome Babymonster assim com os títulos das músicas em coreano tem muito a ver com a minha imersão no mundo do Kpop, não em termos estéticos e sonoros, mas tentar entender quão aleatório esse algoritmo que tanto nos sabota, pra jogar esse rock eletrônico com riffs, beats e sujeira pra uma molecada que nem saberia como procurar esse tipo de som”.

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Retomamos nosso DM depois de algum tempo distantes – e você sabe que isso é só combustível pra mim e pro Dodô falarmos sem parar. Os assuntos vão desde o frio que paira sobre Rio e São Paulo à turnê de reencontro dos Titãs, passando por documentários que assistimos no In Edit e a nova temporada de Black Mirror, sem esquecer de comentar que ainda estamos numa pandemia e que é preciso se vacinar.

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Juçara Marçal levou mais uma vez seu Delta Estácio Blues para a Casa de Francisca e eu nunca nem tinha visto esse show soando tão alto nem nenhum show tão barulhento como este no palacete do centro de São Paulo. O quarteto formado por Juçara, Kiko Dinucci, Marcelo Cabral e Alana Ananias deixa esse disco ao vivo cada vez mais afiado e dessa vez veio em minitemporada, com dois velhos camaradas do grupo dividindo respectivas noites. Não pude ver a participação de Maria Beraldo na terça-feira, mas vi quando Fernando Catatau juntou-se ao quarteto não apenas para tocar sua “Lembranças Que Guardei” que dividiu com Juçara no já clássico disco de 2021 como visitar mais uma vez “Os Monstros”, do primeiro disco solo do guitarrista cearense, como já haviam feito no show de lançamento do disco há quase um ano e meio no Sesc Pinheiros. Mas a grande surpresa da noite foi quando Catatau pegou o contrabaixo elétrico e apresentou uma parceria com Juçara que deverá estar em seu próximo disco solo, que foi fermentado na temporada Frita que ele fez em outubro do ano passado lá no Centro da Terra. Catatau ainda voltou pro bis quando tocou mais uma vez sua parceria com Juçara no Delta Estácio Blues, além de ele mesmo anunciar que o disco terá mais do que uma parceria com a dona do show desta quarta. “Aguarde e confie”, como brincou a própria Ju.

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Sorriso sorrateiro

Enquanto o Radiohead segue hibernando (pra sempre?), The Smile, a banda que Thom Yorke e Jonny Greenwood montaram com o baterista Tom Skinner, vem se tornando o principal projeto do grupo, maior inclusive que as carreiras solos dos dois integrantes da grande banda inglesa da virada do século. E depois do ótimo disco de estreia, A Light For Attracting Attention, lançado no ano passado, o trio dá o primeiro sinal de vida com a soberba “Bending Hectic”, que o grupo já havia mostrado em 2022 em sua apresentação no festival de jazz de Montreux, mas não foi incluída no disco ao vivo que lançaram no final daquele ano. A nova canção começa lenta e tranquila, distorcendo devagar a sensação de balada que parece carregar até que, após a entrada vertiginosa das cordas da London Contemporary Orchestra ergue a música para uma estratosfera de ruído, guitarras e ecos que a faz soar tão boa quanto as m´suicas mais ousadas do Radiohead. Se o ritmo continuar assim, não sei se demora muito pro The Smile tornar-se uma força realmente importante no pop atual, mais do que só um romance de estação.

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Tika vai pra cima

Em sua apresentação no Centro da Terra nesta terça, a cantora de Rio Claro Tika chamou instrumentistas conterrâneas para acompanhá-la em Marca de Nascença, versão ao vivo do que será seu próximo disco. Produzido por Jonas Sá e Rovilson (ambos na plateia), as canções do disco ainda sem nome mostra uma Tika mais firme e à vontade que em seu disco de estreia, que trará duas versões que ela já vinha fazendo nos shows e que entraram no novo álbum, “Na Boca do Sol”, o hit do maestro Arthur Verocai, e “Natureza”, linda parceria de Leci Brandão com Rosinha de Valença.

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Ordem e caos

Especial esta terceira apresentação da temporada Mil Fitas que Sue e Desirée Marantes estão fazendo no Centro da Terra, pois foi quando elas puderam materializar uma das mais intensas versões da Mudas de Marte Improvise Orquestra, projeto de Sue que, como o nome entrega, abraça a regência de músicos tocando livremente. A técnica de condução do improviso livre é uma bandeira artística levantada pelo maestro e músico Guilherme Peluci, que criou a Ad Hoc Orquestra, que esteve na formação montada pelas duas e regeu uma das três partes da noite, além de explicar o conceito para o público. Além de Peluci, que foi para o clarone quando deixou a batuta de lado, o time reunido por Sue e Desi contava com a voz e a percussão de Paola Ribeiro, o saxofone de Sarine, os beats de Ricardo Pereira, o violino Gylez, a percussão de Melifona, a guitarra de Luiz Galvão, o trompete de Rômulo Alexis, a bateria de Rafael Cab e o contrabaixo acústico de Vanessa Ferreira (além do violino de Desirée e da guitarra de Sue, anfitriãs da noite). Além de Peluci, Alexis e Sue também puderam reger outros dois atos, cada um deles conduzindo a massa sonora para um lugar que, apesar de nascido no improviso livre, está muito mais próximo ao que nosso inconsciente classifica por música, mesmo que num processo individual nascido coletivamente e conduzido por uma única pessoa. Esse equilíbrio entre ordem e caos transforma o que poderia tornar-se apenas em uma maçaroca sonora, numa onda fluida de melodias, ritmos e harmonias espontâneas, num espetáculo mágico e envolvente. Na lateral do palco, Kiko Dinucci também esteve presente mas não fez música, desenhando os músicos enquanto a apresentação se desenvolvia e tendo suas ilustrações projetadas no fundo da apresentação. “Na próxima eu toco!”, ele desabafou no final. Uma noite única.

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Fui no último show da temporada de reencontro que os Titãs originais fizeram no estádio do Palmeiras neste domingo e a sensação da primeira apresentação, na sexta-feira, manteve-se intacta: o grupo é protagonista de um novo paradigma de entretenimento ao vivo no Brasil. A bem-sucedida turnê que o grupo fez neste primeiro semestre ainda não terminou: além de umas datas-extra que surgiram quando estavam fechando as principais capitais (próximos dias 23 em Vitória e 30 em Ribeirão Preto) e três datas no exterior (3 de outubro na Flórida, 6 de outubro em Nova York e 3 de novembro em Lisboa), o grupo ainda volta para mais um show em São Paulo, desta vez no tal do Vibra, o antigo Credicard Hall, em uma apresentação no próximo dia 27. Mas além destas, todas oficiais, Paulo Miklos deixou escapar algo que já é comentado nos bastidores – que o grupo fará outra rodada de shows no segundo semestre pelo Brasil.

O que nos leva a uma questão exatamente ao redor deste novo paradigma estabelecido pelo grupo no Brasil de 2023. Os Titãs surgiram na mesma década em que o mercado de diversão no país começou a se profissionalizar de fato. Clássicos causos envolvendo equipamentos precários, procedimentos amadores e o heroísmo de raros artistas internacionais que se aventuraram por aqui antes daquela época só maquiam o fato de que não havia uma indústria cultural no Brasil até o momento em que as gravadoras tornaram-se empresas multinacionais e provocaram transformações que tornaram aquela década tão memorável. A cena do rock brasileiro daquele período é fruto específico do momento em que as gravadoras estrangeiras começaram a tomar conta de vez do mercado fonográfico brasileiro.

Não por acaso é o mesmo período em que estas gravadoras criaram artistas de escala gigantesca, fazendo os shows em estádio dos anos 60 e os festivais dos anos 70 parecerem brincadeiras. A safra que transforma Michael Jackson, Madonna, George Michael, Prince, Bruce Springsteen e U2 em gigantes numéricos maiores que os Beatles ou o Led Zeppelin foram em seu tempo transforma o mercado da música em palco muito mais amplo que a compra e venda de discos. É o momento em que os shows ganham estaturas cênica e imagética que se contrapunha ao impacto do videoclipe naquela década. É quando os shows internacionais cruzam uma barreira e atingem um outro paradigma de entretenimento ao vivo – o mesmo que os Titãs atingiram nestes shows, só que em escala nacional.

O problema é que estes shows, por mais emocionantes e vivos que possam parecer, são uma enorme peça de teatro. Não que a emoção de seus atores não seja real, mas quem assistiu a mais de um dos shows desta turnês assistiu a shows praticamente idênticos. A única mudança em todo o repertório da turnê foi a inclusão de “Ovelha Negra” de Rita Lee no show de Salvador na semana em que a mãe do rock brasileiro nos deixou e sua repetição, por três vezes, nos shows em São Paulo, e a troca de posição entre “Marvin” e “Família” da primeira para a segunda metade da turnê. Fora isso, os shows tiveram exatamente as mesmas músicas na mesma ordem – bem como o assunto de todos os interlúdios falados, com a mesma mensagem repetida de formas diferente a cada nova apresentação. Isso faz com o que o show seja pontual e preciso, que tudo possa ser lapidado no decorrer da turnê para chegar à excelência da performance, mas tira o elemento-surpresa de uma apresentação ao vivo: era possível acompanhar música a música em cada um dos dias a partir das listas de músicas dos shows anteriores publicadas no site Setlist.fm.

Esta transformação de um show em um parque temático sobre o momento atual daquele artista tem suas vantagens e desvantagens, mas é possível chegar a um equilíbrio, como fazem Paul McCartney e os Rolling Stones (dois mestres dos shows idênticos que surfaram esta onda dos artistas gigantescos dos anos 80) propondo surpresas nas turnês vez ou outra, tocando ao vivo músicas próprias do passado ou versões que nunca foram tocadas nos palcos. Os shows de São Paulo poderiam ter convidados e houve até quem cogitasse que eles poderiam homenagear o recém-falecido tecladista do RPM Luiz Schiavon, que fazia parte da mesma cena musical que revelou os TItãs, mas além da menção à Rita Lee, foi tudo mais do mesmo. A performance catártica, o som perfeito, os telões de cair o queixo, a extensão da noite – tudo perfeito para uma única apresentação. A banda torna-se um relógio que funciona exatamente como se prevê.

(Cabe comentar a reação dos bolsonaristas na plateia ao discurso que Nando Reis – que baixista, pqp – fez lamentando os quatro anos de destruição que atravessamos há pouco ou quando o mesmo músico trocou um dos nomes da letra de “Nome Aos Bois” para incluir o nome do ex-presidente de merda. Houve vaias esparsas – embora os aplausos fossem mais intensos – e dedos em riste, algo que funciona pra lembrar que essa choldra ainda está entre nós.)

Daí o questionamento sobre esta segunda fase da turnê. Será que eles irão manter exatamente o mesmo roteiro dos próximos shows, ou podem prometer shows novos, com novas músicas? Nem tô pedindo para eles tocaram músicas de discos que são simplesmente ignorados pela turnê (toda a discografia da banda a partir dos anos 90, à exceção da fase acústica), mas há canções dos discos clássicos que nem deram as caras, como “Corações e Mentes”, “Insensível”, “Saia de Mim”, “Querem Meu Sangue”, “Mentiras”, “Armas pra Lutar”, “Clitóris”, “Massacre”, “Deus e o Diabo” e até mesmo “A Face do Destruidor”. Há também a possibilidade de chamar novos convidados – e não faltam candidatos para músicas de diferentes fases da banda – e até mesmo de tocar versões de músicas de artistas contemporâneos ou que foram influência para o grupo. Nem precisava mexer na estrutura dos telões (impecável), mas quem sabe mudar as animações – algumas funcionam bem, como as de “Flores”, “Jesus Não Tem Dentes…”, “Sonífera Ilha” e “Televisão”; outras (“AAUU”, “Comida”, “Bichos Escrotos”) são dispensáveis ou superficiais, quando não vergonhosas.

Não sei nem se isso é um esforço extra desnecessário, uma vez que nunca foi intenção do grupo passar mais tempo junto do que as datas que já foram anunciadas da turnê. Mas é uma possibilidade esticar ainda mais esse momento sem que ele caia na mera repetição mecânica do que já foi feito. E mesmo que isso aconteça, é inevitável que o grupo tenha mais datas lotadas em várias cidades do Brasil, mas seria tão mais interessante se eles mudassem um pouco a máquina que afiaram para esse semestre, justamente para seguir rompendo as barreiras atravessadas nessa primeira série de shows e não servir apenas como demarcação de uma nova fase. Depois desta primeira fase, os Titãs têm moral para seguir essa jornada.

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Pude assistir neste sábado à primeira exibição de Elis & Tom – Só Tinha de Ser Com Você, um dos principais títulos da edição deste ano do festival In Edit. O documentário de Roberto de Oliveira já seria um objeto de estudo por si só, afinal seu diretor, responsável por registrar a gravação desta obra-prima, sentou-se sobre estas imagens por mais de cinco décadas e transformou a expectativa em relação ao filme quase um personagem coadjuvante de sua criação.

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