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E a temporada de abril no Centro da Terra começou devagarinho, como quem não quer nada, e aos poucos dominou o público que saiu de casa numa segunda-feira chuvosa para encher o teatro do Sumaré. Rodrigo Campos, Rômulo Froes e Thiago França começaram pelo projeto mais recente dos dois primeiros (o ótimo Elefante, lançado no ano passado), contando com a presença de Marcelo Cabral e Anna Vis como convidados. Cabral esteve no palco desde o início, quase um quarto integrante da temporada, e enquanto Rômulo e Rodrigo dividiam-se nos violões, ele e Thiago alternavam de instrumentos a cada nova canção: Thiago ia do sax pra flauta pro surdo pro cavaco e pra caixinha de fósforos, enquanto Cabral alternava seu contrabaixo acústico (tocado com ou sem arco e com ou sem efeitos) com outros instrumentos de percussão. Da metade da apresentação em diante, Anna Vis veio sem instrumentos para o centro do quarteto, dobrando vozes com os outros dois vocalistas, que expandiam o repertório para além do disco de 2023, puxando músicas em comum aos envolvidos, desde canções solo de Rômulo e Rodrigo (que estreou uma inédita, “Cadê o Dinheiro?”) a uma natalina fora de época (e triiiiste) “Boas Festas” de Assis Valente até “Da Vila Guilherme até o Imirim”, do Passo Torto, e “Dono da Bateria”, do disco Conversas Com Toshiro, de Rodrigo, que encerraram a apresentação.

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Híbrido de peça e apresentação musical, o espetáculo Pega, Mata e Come: 60 anos de Opinião, que foi exibido em duas sessões neste fim de semana no Sesc Vila Mariana, foi concebido por Paulo Tó ao lado do Instituto Augusto Boal antes mesmo do período pandêmico, que acabou por adiar sua existência. Retomada dentro da programação Territórios do Lembrar que aquela unidade do Sesc está fazendo para que não esqueçamos da tragédia política e cultural que foi o golpe empresarial-militar de 1964, a peça musical aproveitou a infame efeméride para realçar a importância de um espetáculo que hoje é lembrado mais como o palco para os primeiros passos das carreiras de Nara Leão e Maria Bethania do que como o que realmente foi: a primeira obra artística a se revoltar contra o revolução de araque que as forças armadas e parte do empresariado brasileiro deu contra a democracia brasileira sob o pretexto de “interromper o avanço comunista”, mentira repetida até hoje por seus agentes até para justificar crises políticas do país neste século. Montado pelo herói do teatro brasileiro Augusto Boal, Opinião foi revisitado por seu filho Julian Boal e a dramaturga Mariana Mayor, companheira de Tó, que assina a direção musical do espetáculo, dirigido por Jé Oliveira. À frente da apresentação, Xis, Ellen Oléria, Xeina Barros, Alessandra Leão e o próprio Tó, apresentavam-se como os integrantes da montagem original, assumindo personalidades que ajudavam o público entender o contexto da época ao mesmo tempo em que desfilaram tanto as canções do espetáculo original (“Peba na pimenta” de Dominguinhos, “Guantanamera” que foi cantada pela viúva de Boal, Cecília Boal, “Borandá” de Edu Lobo e, claro, a faixa de Zé Kéti que batizou o espetáculo original e a de João do Valle que trouxe o verso que batiza esse novo espetáculo) quanto músicas contemporâneas que conversam com a alma do espetáculo, como “História Para Ninar Gente Grande” (samba-enredo da Mangueira em 2019), “Lama” (de Douglas Germano), “Zumbi” (de Jorge Ben) e “Obá Iná” (do Metá Metá), além de músicas dos próprios intérpretes: Tó (contemplado em “Samba do Perdoa” e “De Cara no Asfalto”), Ellen (que trouxe “Testando” e sua versão para “Miss Celie’s Blues”), Xis (“De Esquina” e “Us Mano e As Mina”) e Alessandra (com “Exu Chega”, “Atirei” e sua versão para “Xangô”). Na banda que acompanhou o grupo de perto, um grupo pesado formado por Marcelo Cabral, Thiago Sonho, Lua Bernardo e Rodrigo Caçapa. Pena só terem rolado duas apresentações, temporada curta para uma apresentação deste porte ganhar corpo e lacear entre os intérpretes. Vamos torcer para outras edições pintarem em outras unidades do Sesc.

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Há alguns anos, se ouvíssemos falar que o rapper Andre 3000, metade do Outkast, participaria de um disco do saxofonista Kamasi Washington, a notícia seria recebida com a mesma medida de empolgação e estranhamento – o primeiro pela volta do MC à música, algo que não acontecia há muito tempo, a segunda pela conexão com um artista denso e bem menos pop. Mas desde o período pandêmico, ele voltou a dar sinais de vida, primeiro num single com Kanye West (“Life of the Party”) em 2021 e depois com outro (“Scientists & Engineers”) ao lado de Killer Mike, Future e Eryn Allen Kane no ano passado. Foi o mesmo ano em que deu sua maior guinada artística ao lançar o soberbo e abstrato New Blue Sun, disco instrumental composto ao redor de sua nova obsessão por flautas, jazz e música ambient. Neste sentido, a colaboração que Kamasi acaba de revelar com o amigo (o instrumental de lenta combustão “Dream State”, que faz parte do seu próximo disco, Fearless Movement) provoca reações menos adversas e igualmente admiradas, mostrando que o encontro ao mesmo tempo em que aproxima duas personalidades únicas da música norte-americana atualmente, mostra que a fase flautas de 3000, mesmo que seja só uma fase, não é o trabalho de um único disco.

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O primeiro show do ano dos Pelados, minha banda indie brasileira favorita, aconteceu nesta quinta-feira no Fffront e a sensação de ver um grupo de amigos afiados tanto musicalmente quanto em termos de empatia num ambiente minúsculo repleto de fãs é dessas energias que me ajudam a seguir a longa estrada da vida. Focando todo seu repertório nas músicas de seu segundo disco, o excelente Foi Mal, o quinteto paulistano fez a laje do clube da Vila Madalena sacudir em músicas tortas e retas, entre baladas e faixas pra dançar, todas cantadas pelo público em êxtase por estar compartilhando da sensação que descrevi no início. O show, como sempre, chega ao auge quando eles cantam o hino composto para essa situação, a épica “Yo La Tengo na Casa do Mancha” que fez todo mundo gritar o refrão, que pede justamente pra gritar e ser gritado. Showzão!

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Embora percebido como um rapper ou MC por usar o canto falado, sempre vi Edgar mais como um artista da palavra do que propriamente fruto da cultura hip hop, embora ela esteja presente em sua obra. Isso torna-se finalmente evidente com o single de seu novo trabalho, que estreia nesta sexta-feira e que ele antecipa o clipe em primeira mão para o #trabalhosujo (assista à íntegra lá no site). O artista de Guarulhos fala que “Original de Quebrada”, feito em parceria com o produtor Nelson D., tem uma sensação de volta às raízes. “Esse disco representa para mim um ponto de chegada e ao mesmo tempo um ponto de partida, é como reconectar os dois como um ouroboros, quando a cobra morde o próprio rabo, sabe?”, explica o poeta. “Ele também é um marco, checkpoint na contemporaneidade do meu trabalho, que foi acusado várias vezes de ser distópico, futurista, mas acho que nesse disco o calendário tá ajustado e ele é totalmente do presente. E também um pouco do passado, porque tem bastante memórias e andar pelas vielas da favela é foda”, lembra Edgar, que voltou a morar na favela no período da pandemia. O novo disco, ainda sem data de lançamento, é marcado pelas colaborações com outros produtores: além de Nelson D., ele também trabalhou com os paulistanos Nakata e Kazvmba, os cariocas d’Os Fita, o francês Dang e o inglês Jammz.

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Bem bonita a apresentação que Nina Maia fez no Bona nesta quarta-feira, para celebrar o lançamento de seu novo single, “Amargo”, que chegou ao público nesta quinta. Apresentando o mesmo espetáculo Inteira que mostrou há dois meses no Centro da Terra, ela dividiu sua apresentação em duas partes. Na primeira, cantando sozinha acompanhada apenas de bases pré-gravadas, ela soltou a voz em canções densas e complexas, deixando o lado mais intenso e palatável para quando trouxe os músicos que convidou ao palco – e desta vez, além de Valentim Frateschi no baixo e Thalin na bateria (além dela mesma no teclado), ela contou com o violinista Thales Hashiguti, que deu uma nova dimensão à apresentação. Segura de si e de suas próprias (novas) canções, ela não teve dificuldades em deslizar nas bases instrumentais e mostrar a força de sua voz grave e seu domínio cênico cada vez mais firme.

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(Foto: Leon Rehman/divulgação)

Burilando seu primeiro disco desde o ano passado, a cantora e compositora Nina Maia dá mais um passo nessa jornada ao lançar o single “Amargo” nesta quinta-feira, antecipando o clipe com as imagens que fez quando estive em Majorca, na Espanha, onde a música foi gravada, em primeira mão para o Trabalho Sujo. A faixa consagra sua parceria com a amiga e violoncelista Francisca Barreto ao mesmo tempo que aponta os rumos para este primeiro disco, que será produzido ao lado de Yann Dardenne. “‘Amargo’ reafirma minha faceta de compositora, em que trato da possibilidade de criar uma canção que orbite em volta de um sentimento específico, uma sensação específica, e fazer isso seja, de alguma forma, direta e ao mesmo tempo aberta à interpretação”, me explicou Nina num áudio, “nesse sentido ela é muito próxima desse lugar de investigação sobre mim mesma e de todas essas situações e sentimentos que vão aparecendo na vida. Ela é um pouco o pé no chão, uma base minha que existe, a da canção.” Ela apresenta-se nesta quarta-feira, no Bona, quando mostra mais músicas deste futuro trabalho (mais informações aqui).

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Nesta terça-feira, Rômulo Froes inaugurou a curadoria que está fazendo no Sarau, o minúsculo bar do recém-inaugurado Pulso Hotel, quando chamará grandes nomes da música brasileira contemporânea para apresentar-se à meia luz para um público bem reduzido. Além de anunciar que nomes como Jadsa, Josyara, Alice Caymmi e Maurício Pereira, entre outros que estarão nas próximas terças, ele contou com a melhor abertura possível, por conta do trio Metá Metá. E com Juçara, Kiko e Thiago desfilando seu já clássico repertório não tem erro, né? Os três hipnotizaram o público em versões ainda mais discretas dos hits de seus três discos, além de puxar versões clássicas que fazem para Jards Macalé, Douglas Germano e, claro, “Trovoa”, de Maurício Pereira. E terça que vem tem Ava Rocha com o Chicão! Imperdível!

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Plena transição

A apresentação que o grupo Orfeu Menino fez nessa terça-feira no Centro da Terra, flagrou-os começando a tatear o próprio repertório enquanto deixa o passado de versões pra trás, sem deixar as referências de jazz brasileiro de lado. O grupo começou com uma música da vocalista Luiza Villa, passou por interlúdios bolados pelo jovem maestro Pedro Abujamra, uma canção do baixista João Pedro Ferrari e inspirados solos tanto de Pedro, quanto do guitarrista Tomé Antunes e do baterista Tommy Coelho. No percurso, passaram por “Estrada do Sol” (Tom Jobim e Dolores Duran) e “Beijo Partido” (Toninho Horta), antes de mexer em uma versão mais jazz da primeira composição desta nova leva, “Pega Mal”. Tá ficando bonito…

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O líder do Tangolo Mangos mostrou nessa primeira segunda-feira de abril no Centro da Terra a promissora carreira solo que tem pela frente. Ao desbravar desfiladeiros musicais bem diferentes do rock de sua banda, Felipe Vaqueiro mostrou que, mais que exímio músico e compositor, mistura essas duas qualidades em uma só, fazendo seu instrumento soar como continuação de sua voz e vice-versa (me sopraram Moraes Moreira depois da apresentação, tem muito a ver). E por mais que sua apresentação tenha contado com ótimas participações ao chamar Sophia Chablau e o percussionista de sua banda, Bruno “Neca” Fechine, para dividir o palco, foram nos momentos solitários no palco que Vaqueiro mais brilhou, mostrando o completo domínio de suas canções que ao mesmo tempo esbarram no seu jeito extrovertido e atrapalhado ao conversar com o público, tornando a noite ainda mais leve. Vai longe!

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