
Paula Rebellato começou sua temporada com um show maiúsculo. Convidando Mari Crestani e Thiago França para acompanhá-la em uma noite em que mostraria novas canções, ela preferiu preparar o território musical lentamente chamando primeiro os dois convidados a uma levada de percussão circular para lentamente trazer seus instrumentos aos holofotes, pilotados por Mau Schramm: enquanto Mari desembainhava seu saxofone, Thiago fazia o mesmo e ainda trazia uma flauta como contraponto, enquanto Paula regia tudo com seu teclado e efeitos que disparava inclusive sampleando os outros dois músicos. Uma lenta parede de drone foi sendo construída camada a camada, tudo para o momento final da noite, quando, depois de uma hora de improvisos, Paula soltou a voz, grave, sem efeitos ou alterações de timbres, em canções gélidas e quentes ao mesmo tempo, como se uma lufada de vento polar pudesse carregar a memória táctil do sol. A melodia etérea surgiu logo depois que adicionou ecos em sua voz e nos saxes, deixando as notas suspensas como ondas de rádio sobre uma paisagem sem interferência humana, não importa se deserto, floresta, tundra, geleira ou mar. Foi uma noite que deixou claro que seu domínio do palco vai além da intensidade da performance, dos efeitos eletro-eletrônicos e do mero improviso. Paula pisa com força e firmeza em um território que sabe que sempre pertenceu. Essa temporada Ficções Compartilhadas promete.
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E esse Both Sides Now que a Luíza Villa tá fazendo em homenagem à Joni Mitchell no Belas Artes vai ser bonito demais… Olha só essa versão de “Coyote” que a gente passou neste domingo. A apresentação vai acontecer no dia 31 de outubro, logo depois da exibição do documentário Echo in the Canyon, sobre a cena do bairro de Laurel Canyon, em Los Angeles, no final do anos 60, que viu florescer não apenas a obra de Joni como de artistas como Byrds, Buffalo Springfield, Mamas & The Papas, Doors e Frank Zappa. O show da Luíza acontece logo depois e os ingressos já estão à venda neste link.
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Transcorria da primeira aula do curso que estou dando sobre música brasileiro rumo à festa que discotequei no sábado, quando o compadre Fábio “Mumu” Bianchini me lança um link pelo Whatsapp enquanto ele mesmo estava a caminho do show do Paulinho da Viola, na distante Florianópolis. “Tu já ouviu ISSO AQUI?”, perguntava no mesmo balão em que linkava a versão que a espanhola Jornada B. havia feito para “Common People” do Pulp. Filha de atores – da espanhola Blanca Oteyza e do argentino Miguel Ángel Solá -, a jovem nascida em Madrid lançou-se em carreira solo no ano passado, com o disco Tú Y Cuántos Más, e aos poucos prepara o segundo álbum, precedido justamente por essa inacreditável versão do hino britpop para o idioma latino. Não bastasse isso, o clipe é uma maravilha, dá uma sacada aí embaixo: Continue

Tem coisas que só no Inferninho Trabalho Sujo… No meio do showzaço que a Grand Bazaar fez nessa sexta-feira do Picles, alguém da plateia chega nos saxofonistas João Barisbe e Fernando Sagawa. Conversa vai, conversa vem, o sujeito parece se entender com os dois e sai da frente do palco. Logo depois surge com um case, puxa um sax de dentro e rasga um solo no meio da folia balcânica do sexteto, que dominava a plateia sem a menor dificuldade, fazendo todo mundo agachar e pular, terminando a apresentação botando o público do Picles numa roda que tomava conta de todo o lugar. Depois da banda, eu e a Fran botamos a casa abaixo, como de praxe (ainda mais quando a festa cai na sexta, afff). E fica aqui o registro das ideias que brotaram no camarim: o show Grand Bazaar toca Skank (me chama que eu dirijo hahahah) e o bloco carnavalesco Grand Blooco. Pra ninguém dizer que esqueceu, hein.
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2023 nem terminou e as Sleater-Kinney já anunciam 2024: Corin Tucker e Carrie Brownstein adiantaram o sucessor do ótimo Paths of Wellness, de 2021, ao apresentar seu primeiro single, com um ótimo clipe. “Hell” traz a multiartista Miranda July se entregando ao domínio das guitarras da dupla e é a faixa de abertura do disco Little Rope, que está programado para sair no dia 19 de janeiro do ano que vem e já está em pré-venda. E elas já emendaram anunciando 30 datas em menos de três meses logo no início do ano – alguém bem que podia trazê-las pro Brasil, hein…
Assista o clipe abaixo, onde também dá pra ver a ordem das faixas do novo álbum: Continue

Ave Waly! Celebramos a obra deste monstro da poesia brasileira de forma intensa nesta quarta-feira, quando apresentamos o espetáculo de som e poesia Waly Salomão: Dito e Lido, em que Joca Reiners Terron, Julia de Carvalho Hansen e Natasha Felix despejaram a verborragia sensível e forte do poeta baiano sobre camadas elétricas de textura e melodia cogitadas pelo encontro das guitarras e pedais de Jadsa e Guilherme Held. Cada poeta teve seu bloco, pontuado pelas canções que eternizaram as letras de Waly apresentadas de forma desconstruída: Julia costurou quatro poemas (entre estes uma inspirada e ritmada versão de “Mãe dos Filhos Peixes”) com os versos de “Mal Secreto” para depois, ao lado de Natasha, perambular pelos versos e notas de “Vapor Barato”, logo depois da cascata de prosa poética despejada por Joca, ao ler um trecho de “Self Portrait”. Natasha emendou “Babilaque” e “Balada de um Vagabundo” para arrematar tudo com “Negra Melodia”, deixando, nas três, sua musicalidade nascer entre as palavras. Uma noite inesquecível.
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“Me belisca!”, escreveu Olivia Rodrigo ao postar o dueto que fez com sua ídola Sheryl Crow na sexta-feira passada, quando as duas dividiram os vocais de um dos maiores hits da veterana, “If It Makes You Happy”, no pequeno palco do histórico Bluebird Café, em Nashville, nos EUA. Assista abaixo: Continue

E se os Talking Heads ressuscitaram graças a um dos melhores filmes feitos a partir de um show de todos os tempos (ao relançar o Stop Making Sense dirigido por Jonathan Demme nos cinemas), eis a deixa para falarmos de The Band: afinal a clássica banda canadense também é objeto de um dos melhores shows já filmados, quando decidiu encerrar suas atividades no dia de ação de graças de 1976. A derradeira apresentação aconteceu no Winterland Ballroom, em São Francisco, na Califórnia, quando o grupo chamou um elenco de convidados de cair o queixo: desde os seus primeiros “patrões” (Ronnie Hawkins e Bob Dylan, que acompanharam como banda de apoio em diferentes momentos de sua carreira) a estrelas do panteão do rock como Neil Young, Joni Mitchell, Van Morrison, Ringo Starr, Muddy Waters, Ronnie Wood, Emmylou Harris, Dr. John, Paul Butterfield, Eric Clapton e Neil Diamond. Para registrar este momento ninguém menos que Martin Scorsese na direção e o filme desta última apresentação voltará aos cinemas norte-americanos no mês de novembro, quando completa 45 anos (o filme foi lançado dois anos depois do show). A nova versão traz uma introdução narrada pelo saudoso Robbie Robertson, guitarrista do grupo e trilheiro de Scorsese que nos deixou este ano. Tomara que também venha para o Brasil, porque é um filmaço e um showzaço ao mesmo tempo. Veja só um trechinho abaixo: Continue

Paulo Beto conduziu o público para anos-luz sem sair do palco do Centro da Terra. De costas para a plateia, regendo sua pequena orquestra acústica ao mesmo tempo em que pilotava seus sintetizadores e sequenciadores, ele partiu dos textos poéticos que o cientista Carl Sagan fez sobre o espaço sideral e o lugar de nosso planeta para a sua série de TV dos anos 70 chamada Cosmos e a partir de imagens concebidas pelo videoartista Jodele Larcher, que nos atiravam às galáxias, conduziu uma viagem sensorial ao lado de sua Anvil FX Orchestra, quando contou com suas camaradas Bibiana Graeff (entre p piano, o acordeão e as teclas do glockenspiels), Livia Cianciulli (com seus saxes e flautas) e Eloíse Elipse (pilotando um theremin) para sintetizar o som do espaço enquanto Rodrigo Carneiro e Tatiana Meyer liam o texto de Sagan, misturando tudo num amálgama de poesia, cacofonia, transe sonoro e visual que hipnotizou todos os presentes. Estes ainda puderam participar do grand finale, ao disparar sons de seus telefones celulares a partir de QR-Codes coloridos que foram espalhados no público antes da apresentação – a cada tonalidade estourada na tela, um link abria uma série de sons que conversavam com a música que estava sendo feita no palco. Uma noite inacreditável.
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Lê Almeida antecipou seu próximo disco, I Feel in the Sky, em uma apresentação hipnótica abrindo os trabalhos de outubro no Centro da Terra. Em sua versão solo, ele manteve os compadres de Oruã na formação – como Bigú Medine (agora disparando efeitos), João Casaes (nos teclados) e Phill Fernandes (na bateria) – mas convidou a baixista Melanie Radford e o baterista Cacá Amaral para fazer o público decolar em câmera lenta a partir de células musicais repetidas circularmente pela banda, enquanto ele cantarolava suas canções sobre uma base que conversava tanto com o krautrock quanto com o afrobeat – e tudo num ritmo vagaroso e hipnótico, barulhento e doce na mesma medida. Em dado momento do show, ele ainda chamou mais gente pra sua gira, convocando Ana Zumpano para a percussão e Otto Dardenne e Alejandra Luciani como vocais de apoio e fez um bis com uma música que havia sido composta no dia anterior. Só delírio.
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