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Sesc Pinheiros @ São Paulo
3 de setembro de 2009


Orquestra Imperial – “Commment te Dire Adieu”

Confesso que minha expectativa ficou entre a empolgação e o pé-atrás. O primeiro sentimento, claro, vinha da simples notícia que um dos principais colaboradores de Serge Gainsbourg, o maestro Jean-Claude Vannier, conduziria a Orquestra Imperial rumo a um mergulho na obra do maior nome da música pop francesa, escudado por ninguém menos que Caetano Veloso e Jane Birkin, musa maior de Serge. Por outro lado, o risco de carnavalização de uma obra cuja esculhambação era milimetricamente calculada existia e a possibilidade de esquentar, na marra, um autor essencialmente cool me fazia ter alguma ressalva em relação ao espetáculo.

Minha desconfiança já vinha se aquietando à medida que as primeiras matérias sobre o encontro saíram: falavam de um Vannier mão-de-ferro, que pensou que a Orquestra Imperial fosse uma orquestra de fato e que não gostava de brincadeiras nos ensaios. Um almoço com uma amiga no dia da estréia me pôs na mesma mesa de um dos envolvidos com o evento que, além de umas piadas de bastidor, ainda deu uma prévia do que esperar da noite.

E o ar que Vannier impôs sobre a Orquestra encaixou-se perfeitamente ao clima austero do teatro do Sesc Pinheiros. Sentados e paramentados como uma big band, o grupo funcionou como um relógio e os arranjos tensos e complexos apresentaram pouco espaço para o improviso. O ar de sobriedade era dado pelo próprio maestro, sentado ao piano de cauda à esquerda e revezando-se em teclados elétricos vintage, que conduzia a orquestra e chamava os vocalistas ao palco com o desprezo natural da língua francesa.

Assistimos a um show de precisão e sofisiticação, mas, principalmente, de conjunto – e aí o mérito recai sobre Vannier. Ele deu à Orquestra ares europeus inimagináveis e seus músicos e vocalistas gostaram de como foram vestidos. Nas primeiras músicas, era possível notar algum nervosismo nos cantores – ainda inseguros como o francês, com os primeiros minutos da apresentação e com o clima da noite -, que logo se dissipou: Moreno Veloso soou meio caricato no início de “Comic Strip”, logo envolto pelas onomatopéias estridentes da Bardot encarnada por Thalma de Freitas; em seguida a própria Thalma – novamente Bardot – titubeou um pouco em “Contact”, mas era natural do início do show.

A tensão ficou para trás quando Nina Becker vestiu-se de Rita Lee para encarnar a Françoise Hardy de “L’Amour en Privé” escudada de um Nelson Jacobina posando de guitar hero tropicalista. A partir daí já era possível ver os sorrisos entre os músicos da Orquestra e a sutil descontração do maestro. Thalma voltou para mais uma de Hardy (“Commment te Dire Adieu”) e para posar de Jane Birkin para Vannier, que assumiu os vocais de duas músicas (“Ballade de Melody Nelson” e “Ah Melody”) do disco central de Serge, Histoire de Melody Nelson. Mais uma com Thalma (“Insoluble”) e a Orquestra entra em mais uma faixa instrumental tirada de uma trilha sonora composta por Gainsbourg. A primeira – “Les Chemins de Katmandu” – abrira o show e agora era a vez de “Slogan”. Mais tarde viriam a roqueira “Cannabis” e a delicada “Théme 504”, com o vibrafone tocado por Kassin. E por mais que os intérpretes tenham brilhado em seus momentos solo, aí estava o grande trunfo do show. O corpo instrumental que a Orquestra Imperial se tornou nas mãos de Vannier tinha tanto parentesco com a obra de Gainsbourg como da fluência da própria orquestra por estilos diferentes – do jazz funk à surf music, passando por embalos rítmicos, marchinhas de carnaval, groove pesado, funk brasileiro ou canção francesa. Dava pra ouvir diferentes grupos nos detalhes da Orquestra, um grupo de músicos que se dá ao luxo de ter o melhor baterista da históriia do Brasil – Wilson das Neves – entre seus percussionistas. Mais dois hits – “Bonnie & Clyde” relido por Stephane San Juan e Nina Becker, com a cuíca vocal cantada por Thalma, que logo depois assumiu “Harley Davidson” acompanhada da guitarra de Kassin – e chega a hora dos convidados de luxo.


Jane Birkin e Jean-Claude Vannier – “Fuir le Bonheur de Peur Qu’il Ne Se Sauve”

Jane Birkin entra animada, falante, de jeans e camiseta regata, misturando inglês e francês e esbanjando toda a simpatia do mundo, como se ela pudesse ocultar o fato daquela senhorinha um dia ter sido um monumento à beleza feminina e logo depois engata “Fuir Le Bonheur de Peur Qu’il Ne Se Sauve” acompanhada apenas do piano de Vannier. Caetano entra na música seguinte, tímido e vestido como deve se vestir quando sai pra comer uma pizza (contrastando com os trajes de gala do resto da Orquestra), ele inicia o dueto de “Je Suis Venu Te Dire Que Je M’en Vais” com Jane enquanto ela se encosta nele como se abraçasse um velho namorado. Caetano, a princípio travado – parte da cena? Só ele sabe – logo se entrega ao corpo de Jane e os dois cantam um dos melhores momentos da noite. Caetano segue no mesmo nível e trasforma “Baudellaire” em uma música sua, mudando apenas a velocidade do andamento (incluindo até um trecho do velho samba-canção “Siga” no final da faixa).


Orquestra Imperial e Caetano Veloso – “Baudelaire”

O show termina com a celebração ao redor do disco Percussions, que Gainsbourg gravou com uma banda africana, e, assim, carnavalesco como temia incialmente, mas completamente dentro do contexto da noite (atenção para a caricatura assumida de Domenico em “New York U.S.A.” e na empolgação de Rubinho Jacobina em “Les Sambassadeurs”). A banda se despede com a última música lançada por Serge Gainsbourg, ironicamente batizada de “Requiem pour un Con” (“Réquiem para um Idiota”), em que cada músico vai saindo do palco e batendo continência para Vannier que termina sozinho no palco.

Logo em seguida entra Jane Birkin. Não há mais maestro, nem banda, nem tempo para apresentações ou agradecimentos. Sozinha ao microfone ela canta “La Javannaise”, uma das músicas mais bonitas do período pré-pop de Gainsbourg. Um encerramento perfeito para uma apresentação histórica que uma boa alma conseguiu disponibilizar para download. Assim, a impressão não é só minha.

Dan Brown, de novo

Dessa vez mexendo na história do mercado editorial:

Qual é o segredo do autor do ‘Código Da Vinci’?

Dan Brown volta às notícias com seu novo livro, ‘The Lost Symbol’: o e-book está vendendo mais do que o livro de papel

Vão falar em conspiração. Apesar do novo livro de Dan Brown, The Lost Symbol, mais uma vez abordar temas polêmicos, ele está prestes a entrar para a história por outro mérito: desde seu lançamento, na terça-feira passada, o livro ocupa, simultaneamente, as duas primeiras posições na lista dos mais vendidos em ficção na loja online Amazon. O detalhe histórico é que a versão eletrônica, o e-book, que só pode ser lida no Kindle, o e-reader lançado pela loja, está acima da versão em papel.

Aguardado desde o lançamento de O Código Da Vinci, que vendeu mais de 80 milhões de exemplares em todo mundo, o livro não criou uma expectativa de lançamento como se esperava, mesmo com o uso de ferramentas como o Twitter e o Facebook para promovê-lo. Mas sem vender um exemplar sequer, Lost Symbol já tinha conseguido seu pequeno lugar na história ao se tornar o primeiro livro a ser lançado tanto em formato eletrônico quanto em papel no mesmo dia. Até então, a cópia eletrônica sempre era lançada depois.

Mas bastou o livro chegar às lojas para conseguir suas primeiras marcas consideráveis. A primeira foi no terreno físico. Lost Symbol atingiu a marca de um milhão de cópias vendidas no primeiro dia de lançamento.

O feito invejável veio logo que a semana terminava e, embora a Amazon não confirmasse oficialmente, estava no site: o e-book, lançado há menos de uma semana, era mais vendido do que a edição de papel, posto em pré-venda há seis meses.

No Brasil, a editora Sextante, que lançará o livro em dezembro, já criou um blog (www.sextante.com.br/simboloperdido) para divulgar o lançamento. Mas não há previsão sobre uma versão eletrônica do livro.

Mas o ponto é que, mesmo que no fim das contas o e-book ainda não desbanque o livro de papel, vimos, na semana passada, o primeiro passo dado rumo à popularização do livro eletrônico, fato de que até os mais céticos duvidavam.

E aí, já definiu pra qual dos dois festivais você vai? Planeta Terra ou Maquinária?

Eu já: vou pro Planeta Terra. Primeiro porque o festival vem provando há duas edições que dá pra fazer um festival decente, cobrando um único preço razoável para assistir a várias atrações na mesma e única noite. Segundo porque estou curioso pra saber como fazer funcionar um festival no Playcenter às vésperas do renascimento da Barra Funda. O bairro está passando por uma evolução imobiliária de larga escala e é questão de anos para vermos aquela região dos galpões transformar-se em um dos melhores lugares de São Paulo. E terceiro porque mesmo sem fechar as atrações principais (por enquanto, além do Maximo Park, do Metronomy e do Primal Scream, a especulação caía sobre a possibilidade de trazer Neil Young – imagina… -, Snow Patrol ou Sonic Youth – e acho que essa última leva), o festival ainda me parece mais interessante do que o Maquinária.

Esse, por sua vez, me parece acumular defeitos – quase todos vindo pela via pessoal. Não estou entre as viúvas do Faith No More, muito menos das do Jane’s Addiction, dois shows facilmente perdíveis (embora esteja cogitando pegar o FNM em outra praça), mas um festival que inclui estas duas bandas e ainda adiciona o Evanescence à mistura me parece o oposto de uma boa noite. Junte isso ao fato do evento acontecer na mesma Chácara do Jóquei que viu o fiasco de produção pós-show do Radiohead esse ano e já tenho ingredientes para deixá-lo fora da minha mira.

Há quem diga que um dos festivais vai dar com os burros n’água. Exagero. São Paulo é uma cidade grande o suficiente para comportar dois – ou mais – eventos de tais proporções no mesmo dia. Fora que eu acho que, além de não competir diretamente, os dois festivais ajudam a fazer uma separação que não diz respeito especificamente a gênero musical ou a faixa etária, mas a uma combinação dos dois misturada com o momento atual do pop no Brasil.

Não são dois festivais de música pop e pronto. Um soa mais pesado e tem apelo mais juvenil, o outro soa mais indie e tem um enfoque um pouco mais adulto. O problema é que, no Brasil, não existe a possibilidade de se encarar música pop e idade adulta ao mesmo tempo. Aqui ou você gosta da Alta Cultura ou é apenas um moleque. É uma piada de mau gosto que faz com que aconteça alguns absurdos que já nos acostumamos: a ausência de uma revista de música num país essencialmente musical, a insistência de artistas juvenis de outrora em continuar insistindo no mesmo hit do passado, a existência da MPB como gênero musical (e chancela instantânea de bom gosto), o melhor da cultura brasileira dos últimos 30, 40 anos sendo tratado como descartável e passageiro, até ser descoberto por algum gringo desavisado.

E você, vai em qual dos dois?


Banda Black Rio (com Mano Brown) – “Mente do Vilão”

O privilégio de ter leitores bem informados é ouro. O Peu escreveu pra dar nome aos bois sobre o tal Tá na Chuva, CD de inéditas dos Racionais que está circulando online:

“Cara, não dá pra cair nessa compilação sem vergonha q nego lançou na net, a começar pela capa tosca… Vamo lá:

“Mãos” é uma gravação que tem uns 5 anos e já saiu no disco do Almir Guineto

“Quem procura acha” é um rap super antigo, dum tal grupo Sabedoria de Vida, apadrinhado na época pelo Mano Brown que só aparece na introdução. Já foi lançada faz uma era, chegou a tocar na rádio 105 fm e nem a música nem o grupo vingaram… ouvindo o som se entende por que…

“O jogo é hoje” é uma música feita para uma coletânea produzida pelo Mano Brown pra Nike, cd promocional sobre futebol, batalha das quadras, alguma campanha dessas

“Inimigo é de Graça” – Musica do Utime, grupo produzido e lançado pelos Racionais mas já lançada no cd deles


Possemente Zulu (com Mano Brown) – “Nova Função”

Faltou ainda “Mente do Vilão” (lançada pela ‘nova’ Banda Black Rio, que constrange semanalmente pelos bares e casas noturnas de são paulo os geniais criadores da ‘original’ BBR) e “Nova Função” do PosseMenteZulu que às vezes são divulgadas na net como sendo músicas novas dos Racionais…


Racionais MCs – “Canto de Oração & Oya”

De tudo, as únicas que são novas mesmo, e que acredito que podem sair num possível cd deles (tenho grande dúvidas se eles ainda têm pique para lançar um cd no formato tradicional) são “Oya”, “Tá na chuva” e “Mulher Elétrica”, que eles já estão inclusive tocando em shows. De resto, essa nova versão pra “Artigo 157″ ficou animal. Mas na boa, se eles lançarem um disco novo recheado de gravações para outros projetos e Remixes, é sinal de que deviam ter parado de vez… ou apelam logo para um Acústico fim de carreira, com direito a Fim de Semana no Parque, Voz Ativa e Um Homem na Estrada…”

Valeu, Peu, pente fino bonito que certamente será copiado em algumas matérias que começarão a aparecer sobre o grupo (você sabe que um dos meus passatempos favoritos é dar idéias de pauta, via Trabalho Sujo, pra editores de cultura preguiçosos espalhados pelo Brasil). Mas é quase certo, portanto, que esse disco não é oficial – se for, concordo contigo que é vacilo master dos caras de reaparecer com uma compilação mezza boca dessas (salpiquei esse post com as faixas que o Peu cita e que eu não havia linkado no post oriiginal).

Mas é um alívio, afinal, isso quer dizer que o grupo realmente pode retomar seu papel de liderança (quase política) e voltar o foco para a música. Descaradas, no entanto, ficam as intenções de Brown, Blue, Edy e Kléber. O zunzum que que apelida informalmente a nova fase do grupo de “Racionais Paz & Amor” (numa clara referência ao “Lulinha Paz e Amor” do presidente da República) não veio do nada…

Céu – Vagarosa

Céu sorri. Preguiçosa, estica-se pequena num cenário de graves quentes, timbres analógicos e percussão minimalista. Efeitos sonoros (o crepitar do vinil, um lento scratch) e teclados elétricos da idade da pedra ajudam a desenhar uma paisagem descrita em câmera lenta. Envolta na névoa branca da psicodelia jamaicana, ela, no entanto, não é uma Alice recém-chegada no país das maravilhas do dub. Pelo contrário – pela cor amarela das pontas dos dedos das faixas de Vagarosa dá pra perceber que ela mesma é a patroa, a própria Lagarta fumando em seu narguilé, enquanto recosta-se sobre seu sofá-pufe em forma de cogumelo. Ela é nativa.

Embora não pareça. O sorriso estampado na capa do primeiro disco foi bookmarcado pela Apple e ajudou a vender a loja de MP3 de Steve Jobs como uma de suas artistas favoritas, quase sempre apresentada junto de seus produtos como exemplo da pluralidade da empresa. Seu sempre referido berço musical (“filha do maestro Edgar Poças, o criador da Turma do Balão Mágico, começou cedo no meio artístico”, todas as matérias irão dizer) também a coloca como refém de uma inevitável carreira musical, quando, na verdade, muitos dos méritos são seus.

Vagarosa, seu segundo álbum, começa com um pequeno prelúdio em samba (“Sobre o Amor e Seu Trabalho Silencioso”) tocado apenas ao cavaco e disfarça na largada, mas reforça seu mote logo na primeira frase: “Vai pegar como bocejo”. É a primeira de uma série de metáforas que reforçam, no decorrer do disco, seu clima lento e sossegado – e também é mesma conclusão do refrão da primeira música de fato: a irresistível “Cangote”, que instaura a vibe de sauna canabista que impregna as paredes do álbum, que esparrama-se e rola por sobre timbres cirurgicamente aquecidos pelos produtores Beto Villares e Gustavo Lenza que, ao lado da cantora, recepcionam nada menos que a fina flor da música brasileira atual.

Por Vagarosa passam luminares da primeira década do século no país: Fernando Catatau, BNegão, os Sebozos Postiços (Lucio, Pupilo e Dengue), os teclados de Bactéria (Mundo Livre S/A) e Chiquinho (Mombojó), os sussurros de Thalma de Freitas e Anelis Assumpção, Curumin e Guizado, além do veterano baterista Gigante Brazil e do highlander Luiz Melodia, único responsável por tirar o disco do clima esfumaçado do Sumaré e trazê-lo para o samba de alguma das duas Lapas – a paulista ou a carioca -, na deliciosa “Vira Lata”.

Mas entre tantos convidados ilustres, Céu ainda é a patroa. Como no primeiro disco, o novo também funciona na medida de sua voz – por vezes inflexível e hipnótica (“Papa”, “Sonâmbulo”, “Nascente”, “Ponteiro”), por outras sedutora e caliente (“Cordão da Insônia”, “Grains de Beaute”, “Bubuia”). Ela equilibra timbres e músicos com sua batuta vocal e a pós-produção só salienta ainda mais sua presença musical, tratando arranjos de cordas e de metais, convidados e instrumentos como samples vivos. Vagarosa é um disco quase gêmeo de 3 Sessions in a Greenhouse, de Lucas Santtana, mas enquanto Lucas convidava o ouvinte para entrar no universo dub em pleno estúdio, Céu deixa seu espectador do outro lado do vidro, transformando-se – e a todos em seu disco – num animal de zoológico, encarcerada como atração turística. Questão de ponto de vista: do lado de lá, ela está livre em sua nação de sons e sonhos, cantando para ouvintes encarcerados do outro lado do vidro. Ao pegar carona com o dub, Céu deixa os clichês de MPB anos-luzes no passado e livra-se de toda uma herança secular brasileira (o compromisso com o samba é assumido de forma quase didática, através da participação de Melodia e pelo cover de Jorge Ben com os Sebosos Postiços, em “Rosa Menina Rosa”) para abraçar uma sonoridade mais próxima de nossos dias do que os dos ídolos de nossos pais, que ainda teimam em dar a benção para quem quer se aventurar nesse métier. Céu nem olha pros lados, chama os amigos, mira pra frente – e vai embora. Sorte nossa.


Céu – “Comadi


Foto: Rafael Neddermeyer

Comece a reparar: primeiro Beatles, depois os Stones… Vem aí uma nova safra de caixas de CD, todas aspirando o caráter definitivo, épico, completista. É o último e longo suspiro da indústria fonográfica como a conhecemos, que exalará todo seu catálogo em diferentes formatos tácteis antes da distribuição digital, antes uma ameaça, tornar-se regra. E não é só na música, não; filmes e séries já estão nessa há até mais tempo.

Se passamos esses primeiros dez anos do século assistindo à briga entre indústria e público, a próxima década consolidará o consumo de arquivos digitais pela internet como principal forma de vender produtos, principalmente no setor de entretenimento. A discussão vai deixar de ser pirataria para cair para o preço – e se hoje já descobrimos que o download é a forma de consumo de música que menos agride o ambiente (como se precisasse de um estudo pra descobrir isso, mas enfim), já já essa discussão deixa de ser apenas de tom ecológico para recair sobre aspectos trabalhistas. Afinal, se não é preciso uma série de etapas que incluem a fabricação, o transporte e a distribuição de um pedaço de plástico fabricado em escala massiva, quando o CD sair de cena, é inevitável que essas fases deixem de existir e, pelo menos em tese, isso deveria se refletir no preço.

Fora que as lojas – sejam de conveniência ou megastores – ainda têm uma sobrevida maior, mas vão ter que se reinventar como espaço de interação social mais do que simples supermercados. E eu isso eu já falo há um tempo – em alguns anos vão aparecer lojas de amostras grátis de produtos, que podem ser tanto aplicativos para o celular e todo tipo de conteúdo digital gratuito, bocas-livres com marca em tudo (até na banda que fará o show) e uma mistura de loja de R$ 0,99 (lembra delas?) com self-service daqueles que você só paga um valor e come à vontade, só que em vez de “all you can eat”, “all you can carry” – e sem carrinho nem cesta, eis o truque. Imagino esse último tipo de loja como uma versão moderna da pesquisa de mercado. Todos clientes são betatesters e, em vez de pagar, tem de falar de seus hábitos de consumo. E isso não quer dizer ser entrevistado por um adolescente com uma prancheta, mas simplesmente preencher o cartão-fidelidade da loja que lhe dá acesso aos produtos gratuitos.

O melhor festival brasileiro vai virar um fim de semana no parque

A notícia surgiu nesta quinta-feira e foi recebida com cara feia pela maioria das pessoas a quem perguntei a opinião sobre o assunto. Mas, não sei não, viu: acho que a ida do Terra para o Playcenter pode ter sido mais um acerto de um festival cuja curta história já conta com bons pontos a favor.

Primeiro o fato de sua linha editorial ter um corte definido e específico (é um festival indie, no fim das contas), mas que não necessariamente é restrito, que permitiu que suas duas primeiras edições tivessem elencos bem diversos: a primeira contou com com Lily Allen, Devo, Datarock, Cansei de Ser Sexy e Rapture, enquanto a segunda teve Offspring, Animal Collective, Jesus & Mary Chain, Spoon, Kaiser Chiefs e Breeders.

Outra bola dentro do festival foi a pontualidade entre os horários das atrações, matando todo um histórico de descaso com o público já tradicional em eventos brasileiros desta natureza. E além das instalações funcionando perfeitamente, o Terra ainda tira a onda de cobrar o preço de um único ingresso – barato para os padrões paulistanos – para assistir todas as bandas que o festival trouxe. E aí mais um ponto positivo – ele dura apenas uma noite. Junte isso ao fato do evento ter transmissão ao vivo via internet e eis aí todos os motivos do Terra ser o melhor festival brasileiro hoje.

O Playcenter está longe de ser um lugar perfeito, mas me diga onde é esse lugar, aqui em São Paulo – o Motomix do ano passado (de graça) funcionou melhor no Ibirapuera do que o falecido Tim Festival. O parque – lógico – vive a má fase da inevitável decadência após seus dias de Disneylândia brasileira, que deu origem a problemas de segurança (relatos de assaltos ou arrastões pela região desde o início da década deram uma má fama especial ao lugar), mas lembre-se que o Terra em edições anteriores aconteceu quase em Interlagos, enquanto o Playcenter é quase no centro da cidade, em comparação (fora que inclusive facilita a vinda de caravanas de ônibus de outras cidades, uma vez que o Playcenter é na Marginal Tietê).

A Vila dos Galpões, onde o festival aconteceu, tinha que ser erguida do zero com a exceção dos tais galpões que a batizam, ao passo que o Playcenter já conta com estrutura própria. É evidente que a produção do festival sabe dos pontos negativos do velho parque (que irá funcionar durante o festival, veja só). Se ela tomar as medidas básicas para tornar a noite agradável, poderá transformar o festival em mais uma etapa na transformação da Barra Funda, que está deixando de ser um bairro de galpões abandonados para se tornar um dos principais bairros da São Paulo do século 21.

E, se alguém se importar, eis minhas dicas para o festival desse ano, levando em consideração que Green Day e Faith No More já estão fechados:

Palco Indie
Guizado
Momo
Fleet Foxes
Grizzly Bear
Passion Pit
Of Montreal
Sonic Youth
My Bloody Valentine

Palco Principal
Copacabana Club
Nancy
Black Keys
Hot Chip
Arctic Monkeys
Franz Ferdinand
Green Day
Faith No More

Já falei: é o maior artista brasileiro vivo

Não canso de falar sobre a importância da fase atual do Laerte para a história da cultura brasileira, independente do impacto popular em nossa época. Já disse que o considero o artista brasileiro mais importante hoje, uma espécie de Millôr total, que transformou a tira de três quadrinhos em seu hai-kai e a proporção retangular em sua tela em branco portátil. Se tem um cara que o Brasil devia bancar para fazer sua arte, este é o Laerte – muito na frente de qualquer cineasta da nova ou velha geração, de qualquer dramaturgo ou medalhão ou nova musa da MPB. Por isso, recomendo o texto que o Nasi escreveu para o Universo HQ cujo título (Sinto muito, mas o Laerte é mais importante do que você) exprime a síntese de sua defesa da atual fase do quadrinista paulistano:

Entendeu?

Não importa. A pergunta a ser feita nesta fase de Laerte é outra: o que você sentiu?

Muitas dessas tiras provocam a introspecção. Mexem com sentimentos que estavam anestesiados.

É um baque para quem espera dar uma risada no último quadro para anuviar dos problemas. Algumas tiras têm o poder de transformar o dia de seu leitor – nem sempre para melhor.

Nasi ainda fala da perseguição que vem acompanhando a nova fase do autor, cada vez mais percebido por uma parcela conservadora de seus leitores como incômodo e experimental demais, para ficar em adjetivos publicáveis.

Aproveito a deixa para sugerir um site que compila boa parte da atual produção do sujeito. Vem por aqui.

UHUUU! vem aí

“Urru? U, érre, érre, u?”. Encontrei o Catatau no show do Tommy Guerrero e, depois de perguntar sobre o nome do disco novo, demorei pra entender, soletrando pra me certificar do que tinha ouvido. “Nao, U, agá, u, u, u”, disse, rindo, o Cidadão Instigado em pessoa. “Que porra é essa?”, perguntei no susto, e Fernando sequer desfez o riso do rosto para responder. “Porra, Matias, tu sabe que eu sou do body board, né?”. Pior que sei – Fernando realmente surfava nas praias de Fortaleza quando era adolescente, mas como um um grito de felicidade tão sincero se encaixa no conceito da banda prog-brega imaginada por por Catatau durante um surto de depressão quando se viu sozinho em São Paulo? Porque o Cidadão Instigado, conceitualmente, é isso: um sujeito oprimido por diferentes pressões (sociais, emocionais, políticas, psicológicas) que perde sua própria identidade a ponto de se assumir apenas como um cidadão instigado por tais pressões para conseguir manter um fio de sanidade (ou pelo menos foi isso que eu entendi entre vários papos que tive com o Catas). Semanas depois, há poucos dias, Uhuuu começa a dar o ar de sua graça com a extensa “Escolher Pra Quê?”, disponibilizada no MySpace do grupo há poucos dias. É uma faixa que já nasce clássica no repertório do grupo, pois saúda de forma exemplar alguns dos pilares da sonoridade do grupo – rock pra dançar pelo prisma do Pink Floyd (vocé sabe, o groove tenso de “Another Brick in the Wall Pt. 2” e “Money” e aquela tensão de “Dogs” que já haviam feito “Os Urubus Só Pensam em Te Comer” um dos pontos centrais dos shows do Cidadão), a melodia com aquela latinidade Roberto Carlos via Odair José, arranjos e timbres assumidamente retrô, às vezes derrapando pro brega, o solo de guitarra dramático e com pena de si mesmo (George Harrison feelings) e o vocal indefectível de Fernando. E, no meio da música, surge um refrão que, além de redentor, ainda carrega – e explica – o título do álbum.

“Pra que tanta indecisão?
Uhuuu!
Se o sol está aí pra nos assar!
Pra que tanta indecisão?
Uhuuôu!
Se a chuva invade e alaga, como um grande mar?”

O título do disco do Cidadão tem mais a ver com a resposta moleque ao drama hamletiano. “Ser ou não ser? F.O.D.A.-S.E.”, grita Catatau descendo a onda em sua prancha de peito, lembrando daquele velho papo sobre o que realmente importa é a jornada e não o destino, e uma filosofia que carrego no peito – que o sentido da vida é uma emoção, e não uma explicação. Afinal, o que foi vivido foi sentido – uhuuu!


Cidadao InstigadoEscolher Pra Quê?

Polêmica gratuita


Malcolm Gladwell, Chris Anderson e Seth Godin

Pensadores pop discutem sobre o preço do futuro

Em Free, Chris Anderson diz que era digital tornará serviços gratuitos

Nem bem o novo livro de Chris Anderson saiu e ele já causa polêmica. Editor da revista Wired, Anderson criou o conceito da “cauda longa” no livro de mesmo nome (publicado pela editora Campus), em que adapta preceitos econômicos para a era digital. Nele, o autor compara os estágios da indústria cultural antes e depois da internet para sacramentar que estamos saindo da era do mercado de massas para a do mercado de nichos.

Free (trocadilho de “livre” e “gratuito” em inglês), o novo livro de Anderson que será lançado amanhã nos EUA, vai além. Vislumbra que a batalha dos preços dos produtos está passando por uma mudança radical, em que a disputa deixa de ser entre quem tem o preço mais baixo e passa a ser entre quem cobra algo e quem não cobra nada. A partir de exemplos que vão do valor estipulado pelo consumidor para o disco mais recente do Radiohead à publicidade em videogames, passando pelos serviços do Google e a briga entre a Microsoft e o Linux, Anderson profetiza que o futuro não terá preço.

Um dos primeiros comentários sobre o livro veio do escritor Malcolm Gladwell, autor dos best-sellers O Ponto de Virada e Fora de Série (publicados pela editora Sextante). Colunista da revista New Yorker, ele dedicou um longo texto ao livro, em que desancava as teorias de Anderson, perguntando se um jornal como o New York Times seria produzido nos moldes dos grupos de voluntários que alimentam sem-teto.

Anderson rebateu em seu blog na Wired, mas não foi incisivo – limitou-se a dizer que se o que Gladwell dizia era verdade, seus leitores não poderiam ler aquele texto online gratuitamente.

A discussão está longe do fim, afinal o livro sequer foi lançado, mas outro pensador pop entrou na discussão. Seth Godin, um dos principais pensadores do universo digital hoje e autor de livros como O Futuro Não é Mais o Mesmo, A Vaca Roxa e Sobreviver Não é o Bastante (publicados no Brasil pela Campus), comentou a discussão em seu blog, num post batizado “Gladwell está errado“: “Como todas indústrias que estão morrendo, os velhos modelos irão reclamar, criticar e demonizar o novo. Não vai funcionar. A razão é simples: Num mundo livre/gratuito, todos podem participar. E isso é uma mudança enorme”.