Acho que devia ser entre 2005 e 2006, no intervalo entre a primeira e a segunda temporada de Lost. Nos EUA, a série já estava mais que bombada. Por aqui, começava a dar sinais de que não seria só mais uma. Portanto, fomos convocados – eu, Carina Martins, Kátia Lessa e o big boss Lúcio Ribeiro – para elaborar um especial do tipo “enciclopédia”, para a Editora Abril.
É até difícil de lembrar, mas naquela época Lost lançava dezenas de perguntas por episódio, além de enfiar um zilhão de “pistas” que poderiam ter alguma relação com a história (com o passar dos anos acabamos descobrindo que a maioria não tinha). Foi um pesadelo definir os verbetes da tal enciclopédia. Como você explica os filósofos Locke, Hume e Carlyle em dez linhas apertadas?
Ao mesmo tempo, que série de televisão é essa que faz você pensar em filósofos? E em livros, de O Senhor das Moscas a Ardil 22, passando por The Shape of Things to Come e Matadouro 5. Era, no mínimo, um programa de televisão que poderia te levar a outras coisas. Poderia, porque esses outros caminhos não eram essenciais para a sua diversão. Dava para ficar ali só curtindo as emoções, tipo “caralho, tem um urso polar na ilha!” ou “meu Deus, existem outras pessoas lá!”. Sempre com um ponto de interrogação no fim. Talvez por isso, mas não só por isso, Lost também tenha funcionado na TV aberta.
E aí eu fico imaginando como seriam as “enciclopédias” de séries como Friends e Seinfeld – que eu adoro, veja bem. No máximo se limitariam a personagens, algumas referências do universo pop, talvez algumas locações. Duvido que alguma delas tivesse o verbete “taoísmo”.
Por falar em verbetes, lembrei-me que um grande número deles terminava com a referência “Ver: Dharma”. E nós nos esquecemos de colocar exatamente um verbete na enciclopédia… Adivinha qual? Por outro lado, no universo de Lost a falta de informação faz tanto sentido que, olha só, ninguém reclamou.
* Paulo Terron é o capo do With Lasers – e colecionador de autógrafos, olha isso:
A vinda de Robert Crumb e Gilbert Shelton à Flip deste ano foi recebida com entusiasmo por muitos e por desdém por alguns, que reclamam da ausência de literatura da festa em Parati. Como não me animo a ir em eventos de escritores e sou avesso a botecos (já me basta ficar sentado na hora de trabalhar), comemorei mais a vinda dos dois como mais uma vitória da combalidade contracultura, que restou ser paga para posar de outsider nesses tempos neocon (eles já estão passando, perceba). Mas ao mesmo tempo a conjunção de dois patronos do quadrinho underground acendeu uma lâmpada num quarto emocional do meu cérebro. Foi com Crumb e Shelton que eu comecei a traduzir livros.
Eu havia acabado de ser demitido da Conrad e fazia os cálculos para ver se a vida de frila pagaria minhas contas. E entre os frilas que pintaram um dos primeiros foi o convite do Rogério para uma tradução. Rogério no caso é o de Campos, que até hoje está na Conrad, que fundou com o Forastieri ainda com nome de Acme. Os dois já não andavam bem entre si – o que culminaria, mais tarde, com a saída do André da Conrad – e quando o Rogério soube que o André havia me dado o cartão vermelho, me chamou para frilar. Não gostei muito de ver que entraria no meio da rusga dos sócios por causa de um frila, mas quando o Rogério me disse que era para traduzir o primeiro lançamento do Crumb pela Conrad, o álbum Zap Comix, não esquentei com a briga do casal e além da proverbial colher estava disposto a gastar todo um faqueiro para entrar nessa parada. E com o aval do Rogério (“Roxéééério”) traduzi não só o Zap como dois volumes do gato Fritz, outros dois do Mr. Natural, além de ter ajudado na preparação de texto do Minha Vida, traduzido pelo Galera. Além dos Crumb, ainda fui tradutor, sozinho, dos dois volumes dos Freak Brothers, do Shelton, lançados pela editora.
Ao saber do anúncio da vinda dos dois, lembrei-me de quando ainda morava numa casa de vila na Vila Mariana e passava madrugadas de dias da semana entre originais em inglês dos quadrinhos, cópias xerocadas dos mesmos com anotações e algumas edições nacionais anteriores – com suas traduções coxais (quase chorei de raiva ao ler, mais de uma vez, “smack” sendo traduzido por “beijinho”). Lembrei de quando fazia o Mateus, a Pri ou o Arthur reler pela quinta vez o mesmo trecho específico, para termos certeza de que a tradução estava correta, ou de fazê-los esperar por duas ou três páginas que deviam ser entregues no dia anterior. Eles sabiam que era esmero – e me orgulho hoje de ter traduzido cada “man…” em final de frase por “bicho…”, de ter abrasileirado bem todas as gírias e de ter incluído um ou outro “altos massa” no meio dos balões.
Depois deles, me aventurei por outras traduças da editora – e além de quadrinhos também me percorri dois livros densos e deliciosos: a coletânea de contos Futuro Proibido (que deveria ter um volume 2, também traduzido, mas que nunca saiu) e o livro Chuva de Estrelas. O primeiro era uma antologia de ficção científica, que me deu o prazer de traduzir Burroughs, Ballard, Gibson, Rucker, Sterling, entre outros, e o segundo foi escrito pelo mesmo Peter Lamborn Wilson que também assinava livros como o libertário radical Hakim Bey e linka diferentes tradições religiosas ou filosóficas (xamanismo, taoísmo, sufismo) pelo mundo cuja iniciação se dá sem mestre e através dos sonhos.
Entrevistaria Crumb e Shelton com prazer, mas só sairia de casa para vê-los se soubesse que não ia pegar fila e que teria lugar marcado. Descer pra Parati para assisti-los então, só com muitas doses de boa vontade. Mas só de saber da vinda simultânea de ambos para o Brasil já foi bom o suficiente por abrir essa janela na memória. Bom saber.
Materinha de abertura da edição do Link de hoje.
O começo do fim
Falta uma semana para o fim de Lost. Mas o impacto da série de J.J. Abrams, que mudou a forma como a cultura é produzida e consumida, continuará a ser sentido ao longo do século 21
Em menos de uma semana, tudo terá terminado. A história que fez que a série Lost se tornasse uma das marcas mais fortes da cultura do século 21 chega ao fim no próximo domingo, quando irá ao ar o último episódio da série, chamado apenas de “The End”.
Mas o fim da série só reforça sua importância, que vai muito além da TV. Lost criou uma mitologia própria e obrigou o espectador a especular para além da trama original, buscando links em livros clássicos e na história da religião, da ciência e da filosofia para tentar desvendar seu enigma.
Some isso ao fato de que a série acompanhou a forma como a internet mexeu com a velha mídia e desdobrou-se online, usando a rede como plataforma para divulgar mais especulações. Lost não só contava uma história – chamava seu público para participar dela, como em um jogo.
Fora dos Estados Unidos, Lost foi ainda mais importante, pois pela primeira vez na história um produto ficcional teve audiência planetária em tempo real, mérito que antes era apenas de transmissões jornalísticas e eventos esportivos. O interesse pela série fez que telespectadores de todo o planeta não esperassem a exibição dos episódios em seus países e buscassem meios – online – para acompanhar a saga simultaneamente ao público de seu país de origem.
Lost também inaugura um novo tipo de narrativa, que explora as possibilidades da era digital como nenhum filme, livro ou disco conseguiu fazer até hoje. É o produto que melhor representa como será a cultura do futuro, em que o público pode escolher entre simplesmente acompanhar uma única história ou se entregar a um universo de ramificações infinitas.
A série faz que seus espectadores sejam ativos e busquem aumentar a história a partir de sua própria participação – mesmo que isso signifique apenas especular sobre o que pode acontecer. Parece pouco, mas não é.
“O mistério representa possibilidades infinitas”, disse seu criador J.J. Abrams em uma palestra no evento TED (sobre tecnologia, entretenimento e design) em 2007. “Representa esperança, representa potencial… O mistério é um catalizador da imaginação”.
Local e global
Um evento em cinco cidades
“O aspecto mais excitante da cultura digital é a combinação de uma internet global com tecnologias que detectam localização, permitindo que você conheça lugares ao seu redor. Estamos conectados globalmente de formas diferentes e ao mesmo tempo descobrimos novos lugares e pessoas que estão próximos a nós mesmos e que passariam despercebidos se não fosse a rede. As pessoas estão cada vez mais conectadas e mais regionalizadas, ao mesmo tempo. ‘Glocal’ e ‘lobal’”.
Assim Drew Hemment, diretor do festival inglês FutureEverything, se anima com as possibilidades de uma nova geografia pós-internet. Ele é um dos idealizadores do evento GloNet, que será realizado na próxima quinta-feira, 13, em São Paulo e em outras quatro cidades do mundo. Além de São Paulo, Manchester na Inglaterra, Istambul na Turquia, Vancouver no Canadá e Sendai no Japão também sediam simultaneamente o evento, cujo mote é Geografia Imaginária.
“A cultura digital permite que possamos viajar sem nos movermos”, continua Hemment. “Cada vez mais pessoas têm acesso à internet e a serviços gratuitos como o Skype, que nos permite pular entre fusos horários e culturas apenas apertando um botão. Isso faz com que o mundo fique mais unido e pode criar choques culturais interessantes.”
Esta geografia digital não é apenas o tema de palestras e workshops que ocorrerão no Masp, mas também faz parte da própria dinâmica do festival, que pressupõe a interação entre os participantes das cinco cidades do evento.
Hemment é especialmente entusiasmado com o Brasil e diz que o País é conhecido mundialmente como o epicentro da cultura livre e da filosofia open source. O artista já passou pelo País, onde fez amigos, e adaptou a ideia dos Pontos de Cultura do Ministério da Cultura brasileiro em sua cidade-natal, Manchester. Ele se diz “fã” do Brasil e de São Paulo e diz que a cidade preserva muitos aspectos locais mesmo sendo uma metrópole global.
E é essa uma das principais questões levantadas pelo GloNet: como os âmbitos globais e regionais sobreviverão em uma sociedade totalmente conectada. “Prevejo a emergência de um novo tipo de regionalismo”, explica. “A cultura digital permite tanto conexões locais quanto globais. Em muitos lugares do mundo há um renascimento de estabelecimentos comerciais e comunidades regionais, que atualmente compete com a tendência de uma globalização ruim, sem os prazeres e diferenças que cada região pode ter.”
GloNet 2010
Realizado pelo Vivo Arte.mov em parceira com o British Council e o festival inglês FutureEverything, o evento será realizado na próxima quinta-feira, a partir das 11 h, no Masp em São Paulo. O programa conta com palestras de Lucas Bambozzi (Geografias Transitórias), Guilherme Wisnik (Cidade genérica x site-specific), Jorge Menna Barreto (Especificidade e (in)traduzibilidade), Giselle Beiguelman (Estéticas do Open Source), além de videoconferência e workshop com os artistas ingleses Paul Sermon e Dave Mee. O Masp fica na Avenida Paulista, 1.578 (telefone: 11 3251-5644) e a entrada para o GloNet é gratuita.
DEPOIS DE LOST
www.scariestthingieversaw.com. O endereço do site A Coisa Mais Assustadora Que Eu Vi apareceu em um microssegundo no trailer de Super 8, produção de Steven Spielberg com o criador da série Lost J.J. Abrams. Ainda vazio, o site deve iniciar mais uma mania online.
E Alice é pior – e melhor – do que eu esperava. Consegue mostrar que Tim Burton, quando quer, não fala nada com nada, passa o filme inteiro delirando na possibilidade vazia de um diretor de arte assumir a direção de um filme. Visualmente Alice é lindaço, delírio psicodélico vitoriano detalhista, quase artesanato digital. Mas cadê a história? Em vez de nos importarmos com os personagens e com o que acontece com eles, tem-se a sensação de estar num parque temático sobre Alice no País das Maravilhas – e na versão Disney, só que humanizada. Se na Fábrica de Chocolates Burton já tinha exagerado no açúcar ao misturar sua história com a do filme, em Alice dá pra sentir a gana do merchandising em cada flor falante, em cada bicho colorido que aparece do nada. Pelo menos a minha queria Mia Wasikowska não compromete, como eu havia lido por aí.
Mas vou falar melhor do filme depois, estou terminando de ler algo que tem a ver com o assunto do filme e achei melhor falar dos dois ao mesmo tempo. Em breve…
Estou há um tempinho para falar um pouco mais sobre This is Happening, o terceiro disco do LCD Soundsystem. Já havia comentado sobre o ar de tristeza e desilusão que paira sobre o álbum na minha coluna no Caderno 2, mas vale tentar se aprofundar um pouco na aparente exaustão de um dos grupos mais importantes da década passada.
Ouvido de forma superficial, This is Happening parece monótono e repetitivo, mas isso não é a base de toda a lógica por trás do LCD Soundsystem? Tanto hits de pista “Yeah”, “Tribulations”, “Time to Get Away”, “Daft Punk is Playing in My House”, “Movement” e “Losing My Edge” quanto os instrumentais insistentes de “Big Ideas”, “All My Friends” ou da versão para “No Love Lost” do Joy Division têm a repetição exaustiva como elemento-chave em sua construção sonora – sensação que se repete em outras faces do grupo, seja nos remixes, nas discotecagens de Murphy ao lado de Pat Mahoney ou na faixa de 45 minutos que compôs para a Nike. Mas essa repetição não é um conceito próprio. Ela reza num cânone que reflete uma tradição que já ultrapassa décadas e conta a história da reinvenção de Nova York no final do século 20.
Nos anos pós-Watergate, os Estados Unidos aos poucos foram perdendo o brilho reluzente do sonho americano que era vendido para o resto do mundo, desbotando e decompondo em público. E Nova York acompanhava esta decadência, mas enquanto o sorriso de Sinatra cantando “New York New York” e a imponência dos arranha-céus ia murchando (culminando, literalmente, no 11 de setembro), uma nova Nova York começou a se reinventar à partir do pouco que tinha.
É a Nova York multirracial filmada por Scorsese nos anos 70, do hip hop, do CBGB, das festas frequentadas por Andy Warhol, Pelé e Mick Jagger, do grafitti, dos subúrbios decadentes, da cocaína e do crack, dos yuppies e dos portorriquenhos. Toda a materialização vertical da utopia capitalista do meio do século sucumbia ao movimento de outsiders pelas calçadas, nas ruas, no metrô, empurrando carrinhos de supermercado e bebendo algum tipo de álcool em uma garrafa envolta por saco de papelão ou saindo de uma noite inacreditável às seis horas da manhã com uma modelo em cada braço.
Esta nova Nova York tem um período especificamente crucial no início dos anos 80, quando o punk dos Ramones, os resquícios da disco music e o início do hip hop encontram-se entre beats eletrônicos, guitarras fazendo base e muita, muita percussão. Se o pós-punk americano consegue ser radicalmente diferente do britânico (sendo, muitas vezes, resumido como new wave), em Nova York ele ganha características bem específicas, calcadas principalmente no ritmo. Artistas como Liquid Liquid, Bush Tetras, ESG, Newcleus, Y Pants e Arthur Baker são os que melhor sintetizem esta mudança, mas ela ecoa nos descendentes diretos do CBGB (especialmente quando o Blondie chama Grandmaster Flash para tocar em “Rapture” e principalmente nos Talking Heads), nos filmes de Spike Lee e vai descambar na Manchester dos anos 80, quando esta Nova York decadente, mesmo que imaginária, vira uma espécie de luz no fim do túnel da banda que sobrou após a morte do Joy Division (não dá para separar a ascensão do New Order e a criação da acid house inglesa sem a influência da grande maçã).
Eis todo evangelho do LCD Soundsystem, a Paixão perseguida por James Murphy. Esse imaginário reverbera tanto na estética de seus próprios álbuns – o globo espelhado no fundo branco da capa do primeiro disco, o “som de prata” que batiza o segundo – quanto ao compor um novo e desiludido hino para sua cidade (“New York I Love You But You’re Bringing Me Down”), mas principalmente propulsiona o grupo como força-motriz. O ritmo portanto é robótico e emborrachado ao mesmo tempo, repetitivo e percussivo, estéril e oco como estética. Lembre-se que esta Nova York é a mesma do Velvet Underground, da no wave e que Yoko Ono viu John Lennon ser assassinado – não espere que ela seja agradável e receptiva.
Gravado em uma mansão em Los Angeles, This is Happening é, mais que os discos anteriores, uma tentativa de recriar esta Nova York à distância para que Murphy siga lamentando que a cidade que chama de lar já não é o que ela foi um dia, com músicas que vão muito além dos quatro ou cinco minutos habituais da canção pop. “Ninguém mais é perigoso”, resmunga em “One Touch”, enquanto pede para ir para casa em “All I Want” (que soa como se “Hey Mr. Rain” soaria se tivesse sido composta pelo New Order) – e isso num disco que encerra com uma música chamada “Home”. “You Wanted a Hit” – com nove – acaba funcionando como miolo do disco, mesmo anticlimática e reclamona. Ele não está só negando o hit, mas também a necessidade de ser legal – “We won’t be your babies anymore”, despreza, acrescentando uma única condição, “til you take us home”, sobre riffs de rock, solo com microfonia, grooves cíclicos sintéticos e teclados ambient.
This is Happening, portanto, é repetitivo por definição, como se cada beat anunciasse a chegada do agora, sem se preocupar com passado ou futuro. Carrega a mesma tensão já associada ao LCD Soundsystem desde os primeiros singles, mas também uma melancolia quase infantil, como se James Murphy quisesse recobrar a periculosidade que sua própria cidade lhe transmitia quando começou a gostar de música. E este sentimento não é exclusivo dele.
Jonathan Richman – “Cosi Veloce!” / “Let Her Go Into The Darkness”
Aproveito a deixa do Coachella do Bruno para falar de dois shows que vi nas últimas semanas. O primeiro foi o de Jonathan Richman, pai dos Modern Lovers, um dos sujeitos responsáveis por manter acesa a tocha do foda-se entre o Velvet Underground e os Ramones no início dos anos 70. Desde os Modern Lovers – e isso faz teeeempo -, que o sujeito não volta ao rock de verdade, preferindo ficar na posição de trovador ao violão, cantando músicas próprias e alheias ao violão como um velho bardo da Idade Média enquanto se dirige ao público batendo papo o mesmo tanto que toca música. Além do inglês nativo, Richman já gravou em francês, italiano, espanhol e hebreu, e ele curte a conversa com sua platéia enquanto se apresenta ao lado do baterista Tommy Larkins. Eu já tinha visto o sujeito se apresentando nesse formato em Paris, cidade em que ele tem um culto forte, e o clima de reencontro pairava mais sobre o show do que qualquer outro – eram fãs revendo o velho ídolo de sempre, as músicas completadas pela audiência como um diálogo (veja versão que filmei de “I Was Dancing in a Lesbian Bar“, com um clima quase um karaokê de turma), quase todo em francês. Por isso fiquei curioso – e um tanto quanto cético – quando soube que Richman viria ao Brasil e estava sendo vendido como um velho ídolo punk. Além de ser o oposto do tipo de apresentação que ele faz hoje, some-se a isso o fato de que ele não sabia falar a nossa língua e pronto, tínhamos uma receita para uma falha de comunicação – e não para um diálogo.
Jonathan Richman – “Blowing in the Wind” / “I Was Dancing in a Lesbian Bar” / “Pablo Picasso”
Não que o show não tenha sofrido com isso, mas o atrito foi bem menor do que o possível – e em grande parte devido à benevolência do público, disposto a cooperar. E foi preciso que Richman enrolasse a letra de “Blowing in the Wind” para que os presentes entendessem a lógica do show. Desculpando-se por não falar português com frequência, Richman compensava a falta de entrosamento racional com dancinhas e cocalhos, numa tentativa ridícula – mas felizmente eficaz – de conectar-se com o público. Em vinte minutos todos já tinham entendido qual era – e depois de mais uma hora Richman fechou o show como se estivesse se despedindo de um público que já conhecia faz tempo.
Jonathan Richman – “Arrivederci”
Outra prova de que 2010 está sendo um ano interessante é esta capa da Fortune 500 acima, que foi encomendada para o Chris Ware e gentilmente recusada pelos editores da revista. Ware é um dos grandes gênios (sério) do século 21 e é uma espécie de terceiro irmão Coen, só que ainda mais melancólico e obcecado. O detalhismo de suas obras ultrapassa de longe a nerdice Revell e levam os quadrinhos para um nível de profundidade microscópica, exposto nesta capa para a Fortune, que seria um mero frila para Ware, que não deixou barato e expôs tudo que achava do sistema que sustenta a lista das 500 pessoas mais ricas do mundo.
O desenho não é nada sutil, com helicópteros levando dinheiro estatal para personagens gordinhos no topo da pirâmide, cassinos, o fim do petróleo, Guantánamo, China, México e o resto do mundo sob os EUA. Era uma situação perfeita para Chris: se a Fortune publicasse sua capa (difícil, ele deveria saber) seu recado seria dado, se não ela inevitavelmente apareceria online e daria seu recado. E o melhor dessa história é que há, sei lá, três anos, um desenho desses ia ser considerado anacrônico, revanchista, recalcado… Os ventos estão mudando de rumo de novo.
Mia volta à ativa com uma música incômoda de mensagem simples, mas “Born Free” já é uma das coisas mais importantes de 2010 só por causa desse vídeo dirigido pelo Romain Gavras (filho do Costa-Gavras), que já tinha dirigido o polêmico “Stress” para o Justice. Se liga:
Mas não há mera polêmica aqui. Sob um verniz quase didático de publicidade-choque Benetton há uma série de paralelos desagradáveis sobre o mundo que vivemos hoje em dia. Não é só o regime militar que maltrata a vida de gente por etnia nem uma Swat americana que faz às vezes de SS ao mesmo tempo que de exército israelense ou polícia de terceiro mundo, com crianças terroristas que poderiam ser palestinas, brasileiras ou irlandesas. É também uma tentativa de fazer a cultura pop voltar a ser crítica, política, militante – e desagradável. Em nove minutos Mia e Romain pulverizam a importância de “Telephone” de Lady Gaga, tornam todo o cinema político do século 21 obsoleto e destratam todo entretenimento cultural como coluna social.
Todo esse papo saudosista de Brasília me fez desenterrar um texto que escrevi há quase dez anos, quando as lan houses começaram a aparecer. Publiquei o texto na coluna que mantinha na Fraude do Eduf (chamada Paranóia é Precaução) e também no Trabalho Sujo (na era Geocities). Tudo começou com um papo sobre pauta que me ativou a memória do meu primeiro contato exterior com os videogames (no caso, os fliperamas), que se deu ao mesmo tempo em que conheci o lado barra pesada da vida, felizmente como conheço até hoje, mera testemunha. O lugar chamava-se – chama-se – Conic e foi ali que eu comecei a perceber que a vida poderia ir muito além…
Boca do lixo
A porta de entrada para o underground
Outro dia, tava trocando uma idéia com o Tom Leão por email e ele me perguntou se eu não queria fazer um box em primeira pessoa pra uma matéria que ele tava fazendo. Falava de fliperama e da mutação em lan houses e queria um depoimento sobre a mutação de um prisma mais, er… old-skool. Meu péssimo hábito de ver emails sem freqüência me fez perder a deixa, mas já que ele tocou no assunto…
Fliperamas, no meu tempo, eram a boca do lixo. Desculpe soar saudosista e nostálgico, mas de vez em quando isso acontece. Imagine um bar, imundo, azulejado, cheio de gordura, mal-iluminado, naqueles lotes comerciais verticais, um simples corredor paralelo ao balcão e as poucas mesas enfileiradas à parede contrária. No fundo, a chapa de um lado e o caixa do outro. A clientela, tipica e rala, beira os quarenta anos, está desempregada e entregue ao ócio, a barba por fazer, quase sempre meio bêbada.
Agora tire o balcão e a chapa e as mesas, colocando, lado a lado, na parede em que ficavam as mesas quadradas de lata, máquinas de pinball, uma do lado da outra. Uma mais velha que a outra. Todas tão reconhecíveis quanto cada um dos mesmos velhos clientes, moleques grandes com mais de vinte anos, que têm a mesma expressão da clientela do bar do parágrafo anterior: quase-quarentona, desempregada, ociosa, barba por fazer, meio bêbada.
Eis um típico fliperama da minha infância nos anos 80. Viagens ao Rio e a algumas cidades do nordeste além de papos com conhecidos gaúchos e paulistanos vieram comprovar que aquele formato era quase universal, variando apenas de acordo com o tamanho do imóvel em questão. Mas o fato é que, nos anos 80, casas de jogos eletrônicos eram exatamente o contrário do que são hoje.
Você sabe o que é lan house? Imagine um cybercafé interligado num mesmo videogame do tipo Doom (daqueles que o jogador assume a mira em 3D do protagonista – a próxima vez que ler as letras FPS, saiba que elas significam First-Person Shooter – este tipo de jogo). Todas as pessoas no local estão na mesma partida, se agredindo mutuamente enquanto engolem litros de gatorade ou energético. Jogadores hardcore varam noites inteiras destruindo adversários menos encanados, que compraram poucas horas, apenas para matar o tempo e se inteirar socialmente. Pois qualquer máquina de lan house é um computador como o que você está lendo este texto agora, e você pode trocar as horas de combate virtual por uma seção interminável de ICQ ou pela típica zoeira fundo de ônibus que são as salas de bate-papo. Ou fazer tudo ao mesmo tempo: assim, a molecada gasta suas verdadeiras jovens tardes. Marcando encontros online e os consumando offline, como um correio elegante moderno. Assim é uma lan house – um paintball virtual e um shopping center sem corredores, tudo num lugar seguro e confortável.
(Recomendo, inclusive, safaris antropológicos nestas casas. Essa molecada tem mais cérebro que a geração anterior, de miolos derretidos como manteiga no copo gigantesco de pipoca, embora seja predominante – e presumível – seu claro posicionamento ideológico: sectário, individualista, preconceituoso, reacionário e direitosos. Mas são garotos e garotas de 14, 16 anos e o contato comunitário que a lan house aos poucos reacende é diametralmente oposto ao desfile de status que o shopping center se tornou. Fora que é uma molecada que cresce sem ranços artísticos e escuta Racionais, trilha sonora da Malhação, Anderson Noise e Nirvana sem distinção. Não tem dessas de “música de botão”, “não gosto porque não é cool” ou quebrar discos ruins – espasmos fascistas disfarçados de “gosto musical” que o rock’n’roll deixou de herança. Fora que das lan houses, os moleques vão pras raves – ou seja, uma adolescência não muito diferente da minha, que pulei dos fliperamas de rua para as festas de faculdade – só que há a mentalidade inclusiva da eletrônica, que é radicalmente diferente)
Quanta diferença. Casas de diversões eletrônicas, para os nascidos nos anos 70, significavam tudo que os pais não queriam para os filhos. A atmosfera, a vizinhança, as más companhias – tudo favorecia à degeneração do caráter dos filhos da classe média. Fliperamas de rua não eram casas seguras de lazer. Posicionados em endereços nada convidativos, estes estabelecimentos não apenas expunham jovens crianças à degradação humana, mas as entregavam a um mundo estranho e proibido. O underground.
Foram os fliperamas que me levaram ao Conic, por volta de 1985, 86… Faz muito tempo que eu não vou a Brasília, o que dizer de visitar o centro comercial do B, que cedeu às forças do mal… Brasília é o tal do aeroplano visto de cima, com duas metades bem distintas, norte e sul, as asas. O centro comercial da asa norte, de frente ao imponenente Teatro Nacional, floresceu como o principal shopping da cidade, chamado Conjunto Nacional (cuja fachada de neons é cartão postal candango). Atravessando o Eixo Monumental (a avenida que se estende pelo corpo do avião do mapa), damos de cara com o Conic, o Conjunto Nacional da Asa Sul. Há um estranho desequilíbrio nas forças racionais da capital, afinal a Asa Sul sempre foi, à maneira carioca, sinônimo de modernidade e contemporaneidade, enquanto a asa norte assumia ares de subúrbio. Mas, próximo ao encontro das asas, era o shopping do lado norte que se destacava, enquanto o do lado sul…
Haviam dois cinemas que ligavam o Conic com a vida real: o Atlântida (um dos principais palcos cinematográficos de Brasília, que viu a insólita e incendiária sessão de estréia de Rock Estrela) e o Bristol, além de algumas lojas de roupa no lado que ficava logo em frente ao posto do Touring. Eram eles quem fingiam-se como fachada família do Setor de Diversões Sul (nome técnico do Conic). Mas qualquer família em Brasília sabia o que acontecia nos corredores do fundo do shopping center.
Era o submundo. Havia o Cine Ritz, pornô, e uma loja de camisetas de heavy metal. Três famosas casas de massagens e o Teatro Dulcina. A infame Berlim Discos (a Baratos Afins de Brasília) e escritórios de advocacia de fachada. Lojas de instrumentos musicais, palco de bandas iniciantes, moleques matando aula, brigas de galera, skinheads, policiais fumando beque, cola de sapateiro debaixo da rampa, meninas dark, universitários, gangues punk, troca de fitas, sorrisos de putas e tchauzinhos de travestis. E fliperamas de rua.
Todos tinham a mesma cara: corredores imundos e engordurados, à meia-luz da tarde seca, com dois ou três fregueses grudados perto de uma ou outra máquina. Foi um acordo conjunto. A W3 havia ficado pequena para minha turma e todos os fliperamas de rua tinham nossas marcas. Era tempo de gangues e abreviaturas. Todos marcavam suas iniciais em todos os lugares, assinalando território. Tempo do império MTZ, de cyberpunks do terceiro mundo, pichando muros e scores de máquinas de pinball.
Mesmo sem saber, em nossa ingênua liberdade, éramos isso. Vivíamos a violência das ruas por puro glamour primitivo, latas de spray e joysticks mirando na apatia do sistema. Andávamos de skate e bicicleta, cheirávamos tudo o que parecia fazer mal (além de clorofórmio e lança-perfume) e entrávamos em brigas sem pestanejar. No som, ouvíamos fitas piratas de bandas de Brasília (o show do Legião na sala Villa-Lobos e o festival Rock na Rampa, com Beta Pictoris, Escola de Escândalo e outras dez bandas eram obrigatórios) e bandas que as influenciaram: Joy Division, Sex Pistols, Cure, Jam, Echo & the Bunnymen, Television, Buzzcocks, Clash, Bauhaus, Gang of Four, Talking Heads, Ramones, Dead Kennedys. Procurávamos uma menina que fosse cool como a Siouxsie e normal como a Molly Rigwald, visual que todas as meninas tentavam imitar – tirando as patricinhas, que giravam os olhos pra cima, meio assustadas, meio exultantes, quando descobriam, na marra, aquele universo.
Depois da W3, restava o Conic. O prédio, baixo (deve ter uns dez andares) e horizontal, nos olhava como uma risada cínica. Três moleques de BMX surradas, cruzados novos com a cara do Juscelino enfiados nos tênis sem meia, encarando o prédio como se este fosse cérbero. Cine pornô, teatro, drogas, punk, metal, cola, sexo, brigas, violência. Era como se o universo de perdedores e vagabundos das tiras do Angeli realmente existisse. Era o antônimo de sociedade, mas não era a barbárie. Este universo funcionava, à sua maneira, melhor do que o mundo que conhecíamos. Não sabíamos nada disso, mas era como se soubéssemos, o dia em que resolvemos, para jogar fliperama, entrar no Conic.
A princípio, uma volta de reconhecimento. O zerinho-ou-um definiu quem iria, sozinho, ao caixa, comprar cinco fichas e gastar apenas quatro, salvando a última longe dos olhos do caixa. Anos de perícia em bancas de jornal e supermercados nos qualificavam para aquele momento. O escolhido foi, jogou quatro partidas de 1941 e voltou como se tivesse jogado cinco. O golpe perfeito, se gabaria a seguir, orgulhoso de fingir cinco partidas com apenas quatro fichas. As preocupações da adolescência…
Em nossas baiques, descemos a rampa do Touring e pedimos “chumbo de pneu”. Simples assim. Prática comum entre os brasilienses, a extração do metal, ainda mole, dos vãos internos de pneus de borracha era “a” tática dos jovens brasilienses contra os “senhores do fliperama”. Simples, bastava dois sabonetes e uma ficha original para criar um molde. Depois, tirava-se a ficha e colocava-se o chumbo mole no vão esculpido entre os dois sabonetes. Há quem fizesse com couro, mas os resultados não eram satisfatórios, pois às vezes a ficha falsa caía, mas era tão leve que não pressionava o botão no interior da máquina.
Com as fichas feitas no sabão, não tinha segredo. Bastava comprar cinco fichas e, num processo inverso ao original, jogar dez partidas como se fossem cinco. Com o tempo, era preciso trocar de estabelecimentos, mas os três sujeitos do Conic caíam bonito na ficha de chumbo. Cheguei a comprar uma ficha falsa das mãos daqueles caras, prova que guardei do golpe perfeito.
Mas, aos poucos, o fliperama perdia o ar desafiador e era assimilado. Logo, o imenso sorriso cínico do Conic também era nosso. E todas as putas, os traficantes, os metaleiros, as meninas dark, as brigas, as alunas do teatro, as latas de cola, os discos punk, as camisas de metal, o sexo descompromissado, o cinema pornô, os advogados traficantes, os policiais corruptos – tudo era nosso.
E ao mesmo tempo, não era. E ao mesmo tempo, nós éramos dele. Uma sensação estranha, um sentimento de familiaridade com o desconhecido. É isso que chamamos de underground.









