Trabalho Sujo - Home

Texto

Falando em Los Hermanos, desenterrei essa entrevista que fiz, por telefone, com o Camelo, na época do lançamento do Ventura, em 2003, para o site da Somlivre (ah, os anos frila…). Mesmo com o tom sépia de entrevista de época (recente), a entrevista toca em alguns pontos que ainda valem – seja sobre Los Hermanos, mercado fonográfico ou de música pop. No finzinho tem minha resenha do disco.

A terceira vinda dos Hermanos

“Nem se atreva a me dizer de que é feito o samba”, ameaça Marcelo Camelo, vocalista e guitarrista do grupo carioca Los Hermanos logo ao final da música de abertura (“Samba a Dois”), do terceiro disco de sua banda. O tom é imperativo e auto-suficiente, como é o vôo do pássaro (uma andorinha?) estampado na capa do novo álbum. Ao abrirmos o encarte do disco, percebemos que a capa é apenas um detalhe de um quadro em que o pássaro da capa deixa para trás um enorme navio numa noite de inverno (navio que já foi comparado ao Titanic – ou seria a indústria fonográfica per se?). O CD se chamaria Bonança, mas o grupo trocou o nome pouco antes do lançamento, chamando-o de Ventura.

Estariam então os Hermanos entregues à sua própria sorte? O tom sisudo e desconfiado que termina “Samba a Dois” nos faz entrar numa espécie de lado B de O Bloco do Eu Sozinho, o segundo disco da banda. Ventura é mais escuro e fechado que o disco anterior, embora isto não comprometa seu potencial pop (menos explícito, mas sempre presente). Tal tensão prossegue por todo o disco, que mais do que “abraçar o perdedor” – como explica Camelo sobre o enfoque do grupo em suas letras -, parece desafiar o vencedor, dedo em riste, sem medo do desafio e da chacota. Isso explica passagens ríspidas como “Não há ninguém capaz de ser isso que você quer/ Vencer a luta vã e ser o campeão” (“Tá Bom”), “Olha ali quem está pedindo aprovação/ Não sabe nem pra onde ir se alguém não aponta a direção” (“Cara Estranho”), “Olha lá quem acha que perder é ser menor na vida/ Olha lá quem sempre quer vitória e perde a glória de chorar” (“O Vencedor”), “Se não sou eu, quem mais vai decidir o que é melhor pra mim? Dispenso a previsão!” (“O Velho e o Moço”).

O ar agressivo, no entanto, é mínimo se comparado à ostensividade hormonal do pop brasileiro do século 21 – sempre enfático, cheio de si e autoritário, venha de rappers, bad boys, pagodeiros ou cachorras. Os Hermanos sentam-se quase sozinhos do outro lado da gangorra, indiferentes à solidão artística que enfrentam no atual cenário. Sabem que o verão vem, independente do número de andorinhas que vierem. E assim a tonalidade de Ventura varia do amargor próximo ao desespero à tranqüilidade mental induzida – temas explicitados metaforicamente, quase sempre representados por relações amorosas, bem ou mal sucedidas.

O grupo digeriu bem a passagem do megassucesso de “Anna Júlia”, de 1999, para o segundo disco. Decidida a sublinhar os aspectos ignorados do disco anterior, a banda injetou doses pesadas de MPB e de invenção no disco seguinte, muito além das referências ao samba e ao carnaval do primeiro álbum. O resultado foi um disco aclamado pela crítica, mas recebido como “difícil” e “experimental”. Exagero típico da falta de parâmetros da época em que vivemos, afinal O Bloco do Eu Sozinho, de 2001, era o disco mais pop e mais maduro de sua safra e, se os números ao redor do grupo diminuíam, uma base fiel de fãs foi sendo formada, seja seguindo o grupo em shows ou acompanhando a banda pela internet, através do site oficial (www.loshermanos.com.br – que publicou os bastidores da gravação do novo disco) do blog do tecladista Bruno Medina (http://instanteanterior.weblogger.com.br) ou dos muitos sites do grupo pela rede.

A transição do segundo para o terceiro disco é que parece ter sido conturbada. Não bastasse a expectativa natural dos fãs, a antiga gravadora do grupo, a Abril Music, fechou as portas no começo do ano e um ensaio com as músicas novas foi parar na internet. Ao mesmo tempo, o disco, que se chamava Bonança, trocou de nome, sendo batizado Ventura. A sonoridade também ficou mais pesada, seja nas guitarras (um pouco mais sujas) ou no fato de o teclado de Bruno Medina ter se tornado um elemento mais corpóreo do que decorativo, solando menos e engrossando a base estrutural das canções ao lado do baterista Rodrigo Barba e do baixista em estúdio, o produtor Kassin (do projeto + 2, com Moreno Veloso e Rodrigo Domenico).

Camelo e o outro vocalista e guitarrista, Rodrigo Amarante, deixaram pudores rock’n’roll de lado e se dedicaram à velha e esquecida arte do compositor de música brasileira – sem pós-modernismos, onomatopéias, gracinhas, palavrões ou romantismo vazio. Marcelo opta pela postura que dá o clima do disco – sincera e áspera, segura de si e melancólica -, compondo até como personagem feminina (em “A Outra”), característica clássica de um de seus ídolos, Chico Buarque, e levando adiante experiências líricas de O Bloco. Amarante dedica-se à interiorização do dia-a-dia, comparando elementos da rotina a sentimentos (“Parece que foi ontem que eu fiz aquele chá de habu pra curar da tosse e chulé e te botar de pé”, “Até quem me vê lendo o jornal na fila do pão sabe que eu te encontrei”) e finge encarnar vários personagens (“Um Par”, “O Velho e o Moço”). Mas em entrevista por telefone, o vocalista Marcelo Camelo explica que tudo ocorreu bem durante as gravações, fora a notícia do vazamento das músicas para a internet. E aproveita para falar sobre todos estes assuntos discutidos acima.

Quando este novo disco começou a existir?
Não tem um começo específico, porque ele foi composto durante a turnê do Bloco. A gente grava no sítio mais para ter uma paz, colocar as coisas no lugar e se desligar da cidade. Não entramos em um “processo de composição”, num universo de criação. A gente começa a falar no disco novo quando existe uma necessidade de expor várias canções novas que vão amadurecendo na turnê. A criação acontece o tempo todo, ela não existe só num período determinado. Foi assim com o Bloco, foi assim dessa vez.
Nosso trabalho exige uma produção sazonal: a gente lança o disco, faz uma turnê, compõe o disco novo e entra em estúdio. Enquanto isso, a gente vai passando por lugares diferentes, vendo gente diferente e, neste processo, vai surgindo uma necessidade de falar de coisas novas, que vão virando músicas. Então não existe esse afã inovador, essa vontade de mergulhar nas páginas em branco, pelo menos em termos de composição. Isso acontece uma vez que paramos tudo pra fazer o disco, mas até isso, o disco já começou faz tempo. A turnê é o processamento que você precisa pra pensar em novas idéias.

E como foi o lançamento do Bloco do Eu Sozinho?
A gente diminuiu muito os números em relação ao disco anterior, o que foi natural. Mas o engraçado foi que as pessoas não chegaram no Bloco pelos meios convencionais. Houve muita troca de arquivo pela internet, muito boca-a-boca, uma comunicação entre os ouvintes que aconteceu longe da grande mídia. Foi uma divulgação muito mais individual do que coletiva. Quase pessoal, talvez muito pelo fato do disco ser um disco mais pessoal.
Muitos dos que foram assistir a gente na turnê já tinham comprado o primeiro disco, mas de repente, por causa de “Anna Júlia”, ficou ridículo gostar de Los Hermanos. A gente virou Pokémon, tava em tudo quanto é lugar, parte do pessoal que comprou o primeiro disco deixou de lado. E foi convencido a voltar à medida que o Bloco foi crescendo.

E por que o Bloco cresceu?
Tem gente que gosta das letras, tem gente que gosta das músicas, e ficou mais fácil pegar um público mais amplo, que passou a prestar a atenção no grupo como um todo. A gente também tem um espírito bem brasileiro, mas sem ser caricatura ou afetado, que acho que as pessoas sentem falta. E tem também o fato da banda abraçar o perdedor como personagem, isso fala muito pras pessoas hoje em dia.
O fato é que a gente tinha consciência que, quando a gente tava dando um show pra 80 mil pessoas, 10% desse público realmente gostava da banda, sabia as letras e queria ver o nosso show. Depois do Bloco, passamos a dar show para mil pessoas, e todas elas sabiam tudo sobre a banda. Isso, ao mesmo tempo que diminuiu a banda em termos de mercado, aumentou em termos de credibilidade. O que foi ótimo, afinal continuamos fazendo o que queremos, e de forma sincera, sem precisar forçar a barra pra qualquer lado.
Hoje em dia, o pessoal vai no show e enche a gente de perguntas no final, sabe todas as letras, canta junto, pede o cover do Belchior (“A Palo Seco”, que o grupo toca nos shows). Isso no Brasil inteiro, de Recife a Porto Alegre.

Vocês se sentem mais próximos do público? Há uma cobrança pessoal por causa dessa proximidade?
Eu acho que as pessoas se atém aos detalhes porque nós somos uma banda que dá atenção aos detalhes, sabe? Mas se a gente não tivesse esse cuidado, o público não iria deixar de nos acompanhar. Agora, já que a gente optou por isso, o público se identifica e entende, por isso há essa demanda.

E como essa demanda se refletiu no disco novo?
De forma muito natural. Você sabe que a criação é um processo paulatino, não é um processo estanque. Ela está o tempo todo em ação, e você vai acumulando as coisas no caminho.

É a segunda vez que vocês gravam num sítio. Como o ambiente funciona neste processo?
Foi em outro sítio, em Petrópolis, não é o mesmo em que gravamos o Bloco. As pessoas pensam que é um troço sagrado, sacro, que só a gente e o Kassin (produtor do grupo) podemos estar ali, isolados. Não há nada ritual, fazemos o disco no sítio para poder nos dedicar mais a ele, para termos menos distrações. As pessoas acham que não podem visitar a gente, e a gente faz a maior festa quando alguém resolve nos visitar.

Uma vez terminada a turnê e começada a gravação, o disco já tem uma cara ou isso vai se formando no estúdio?
Num primeiro momento é só um apanhado de quinze canções, que juntamos no caminho. A liga do disco, o que torna o disco uma coisa só, no fim das contas, como foi no Bloco, acaba sendo a nossa sinceridade para com as músicas. Tudo que a gente fez foi feito por nós mesmos, e a gente acredita nisso. Essa coerência nos faz bem e o público gosta. A cara do disco se faz também pela coincidência dos detalhes, e isso é fruto dessa sinceridade. Cada disco é fruto de um processo diferente e ele acaba tendo uma cara que se reflete nos detalhes do disco.

Houve alguma tensão durante a gravação do disco, pelo fato de ele ser o sucessor do Bloco?
Não, não houve. Há uma coisa que acontece nos shows, que é as pessoas cercando a gente, querendo que a gente tenha alguma resposta, como se a gente soubesse de algo que as pessoas não sabem. Mas é uma característica das nossas letras, eu acho natural que tenha esse retorno. Mas durante a gravação, não sentimos isso…

Como vocês reagiram às críticas que tacharam o Bloco de “disco difícil”? Porque ele é um disco pop, não tão rock quanto o primeiro, mas, mesmo assim, pop.
Eu também acho. Eu não sei, acho que muita gente achou que a gente iria se preocupar em fazer um outro mega-hit, coisa que a gente nem soube como fez no primeiro disco. Eu acho que o Bloco é um disco tão pop como o primeiro e como esse terceiro.

E quanto ao fim da gravadora Abril, no meio do processo?
As pessoas tendem a colocar a gente como salvadores do mercado fonográfico, líderes de uma nova geração de bandas, e a gente passa meio batido a isso tudo. Não podemos pular para o mercado independente porque precisamos de uma certa estrutura, que o mercado independente não nos dá – pagamos músicos convidados, a nossa equipe e temos essa facilidade de termos nos ritmo pra fazer as coisas. E fora dos palcos, a gente se cerca por uma equipe que cuida de tudo que não for música no trabalho do grupo, pra justamente só nos preocuparmos com a parte artística e criativa do processo. Por isso, a notícia do fim da Abril foi quase um quebra-molas, a gente passou por cima e nem percebeu.

Houve a mudança de nome…
Sim, o disco se chamaria Bonança, mas foi um nome que a gente deu pra gravadora antes do disco pegar o embalo, um nome de trabalho. A idéia era registrar a tranqüilidade que estávamos vivendo, o clima instaurado no sítio, a forma como as coisas estavam fluindo… Tudo dava uma idéia de bonança, mas fomos percebendo que, além de bonança ser um quadro estático, que não se mexe, também daria ao Bloco a condição de tempestade, como no ditado (“Depois da tempestade, vem a bonança”). Pareceria a descrição de um quadro, não o nome de um disco. Aí viemos com a idéia de ventura, que é mais dinâmico e que significa “sorte”, que tem tanto o lado de risco – desde os do mercado até os estéticos, como o risco que corremos de sermos populares – como o lado de ida, de jornada. O título fica assim aberto à interpretação, um convite.

Então a mudança não teve nada a ver com o vazamento das faixas do disco para a internet.
Não, nada a ver. E isso foi algo que não gostamos. Tentaram nos imputar um pioneirismo de algo que não tínhamos nem o controle, não tínhamos influência sobre isso. Mas eu me senti invadido, afinal aquilo foi um ensaio interno que fizemos pra nós mesmos, pra ouvir como ficava, não era pra mais ninguém ouvir. Senti uma certa fragilidade nessa situação. É como se lessem um bilhete que você escreveu pra um amigo ou pra uma namorada. Por isso eu nem quero saber se alguém achou esse disco melhor ou pior o que ouviu nestas gravações. Não dou ouvidos a essa comparação. É como se elas não existissem.

Mas elas mostraram que existia uma demanda no público por vocês.
A gente bem conhece a força da internet. Nosso site foi um grande aliado quando a gente ficou desprovido de mídia. Não conseguimos melhorar esse canal por falta de tempo, é verdade. O site é um dos 10 mais acessados do UOL, o que não é pouca coisa. Mas não dá pra concordar com esse tipo de vazamento.

Mas se vocês lançassem coisas de vocês, aprovadas, primeiro ou apenas no site?
Isso é legal, é algo que queremos fazer.

E quando vocês sabem que o disco está pronto?
A gente sabe. Na hora certa, a gente sabe. É a hora da colheita, que é uma mistura de alívio com recompensa, mas também tem uma certa tristeza, porque um disco, ao mesmo tempo em que é um fardo, um trabalho pesado, também é uma espécie de casa, de cobertor.

Vocês estão assumindo uma postura bem definida entre a música pop e a MPB…
Não gosto disso, acho uma constatação preconceituosa, que acaba dizendo que um gênero é melhor que o outro, que a arte naïf é pior que a arte moderna. Fazemos música brasileira por excelência, porque somos músicos e brasileiros. Se essa referência soa jovem, é porque somos jovens.

Perguntei isso porque queria que você falasse do momento em que a música brasileira atravessa, em que parece que apenas os artistas que cruzam fronteiras entre gêneros conseguem se satisfazer tanto profissional quanto artisticamente.
Entendo. Acho que o pessoal começou a perceber que essa tentativa de abraçar um gênero inteiro, de ser o melhor de todos, é uma causa emburrecedora, e perdida, pois cada vez está mais difícil juntar tantas pessoas em torno de um só tema, de um só grupo.
Fora que a gente – eu, você, a banda, os fãs – é de uma geração que recebeu muita informação, de uma variedade muito diferente. A gente ouve Lulu Santos, Weezer e Cartola, lê Dostoievsky, Garcia Marques e turma da Mônica, assiste filmes de arte e o Te Pego Lá Fora. Isso tornou nossa geração sem utopia, pois temos todas possíveis ao mesmo tempo – e nenhuma delas nos satisfaz, porque sempre queremos outra.
Acho mais legal assim, porque você tende a procurar por coisas que te falem por inteiro, não a apenas uma parte de você, sabe? A conexão entre as pessoas aumenta, embora fique mais difícil rotular, as pessoas reconhecem melhor o que querem. Talvez por isso o mercado esteja passando por essa crise. Mas talvez seja ela que torne possível esse tipo de vínculo entre as pessoas. A gente acaba falando desse sujeito que ganha e que perde, que vive seus altos e baixos, e isso fala com as pessoas. Parece aplacar a solidão moderna. O bom é que eu não preciso fingir, eu realmente acredito no que eu estou falando.

As pessoas não estão mais se identificando com o mercado.
Sim, porque não encontram eco de si. Tentam se achar no que é oferecido e não se acham. Ao mesmo tempo, acontecem milhares de sucessos menores, como a gente, que consegue esse tipo de identificação. Acho que o excesso de informação que a gente tem a disposição hoje faz com que a gente descubra que o tempo não é uma linha, não há vários tempos e épocas, e sim várias formas de contar uma mesma história. Arte é emoção e essas emoções não vão ser inventadas, elas já existem há muito tempo, antes da arte. Essas coisas são atemporais. O que muda é a embalagem, que acaba virando o conteúdo, entende?
Não é que os Beatles ou o Nirvana falaram coisas que as pessoas não esperavam ouvir, mas justamente o contrário. Eles falaram exatamente o que as pessoas queriam ouvir, e por isso fizeram sucesso. São fenômenos de convergência, funcionam como catalisadores de sentimentos. É política, é cultura – música é tudo isso. Esses caras e muitos outros – e nós – são veículos de uma ansiedade popular, que está cada vez mais confusa, perdida. E não só em arte, a gente percebe esta confusão de uma forma geral, em diferentes campos. E as pessoas acham que vão salvar alguma coisa reinventando tudo.
Mas não existe sentimento humano que não tenha sido inventado. Acredito que a gente consiga um público sem ter sucesso no rádio justamente por falar do ser humano como um todo, esteja ele triste ou feliz, ouvindo rock, samba ou MPB. Então não tem essa de “tá mais pra cá do que pra lá”, “é mais rock que MPB” ou “tá no meio dos dois”. Entendo essa necessidade de classificação, mas ela tá falindo, já deu o que tinha que dar. Você liga uma rádio rock e… Quer coisa mais rock’n’roll que o primeiro disco do Tom Zé? Não em termos de música, mas de atitude rock, mesmo. Mas nunca vai tocar numa rádio rock e as pessoas vão ser privadas deste sentimento, desta emoção. Quer dizer, não vão, porque elas vão procurá-la onde quer que ela possa estar. Essa crise de mercado, que é fruto de uma crise de identidade mundial, se é que dá pra chamar assim, é conseqüência disso.

***

Ventura – Los Hermanos
Mais sério e menos festivo que O Bloco do Eu Sozinho (em que o grupo afirmava tanto sua maturidade musical quanto a sensação de solidão no mercado fonográfico), Ventura é quase um disco gêmeo de seu antecessor. A ênfase é maior na MPB tradicional do que no samba, vedete do disco passado, e a tônica do disco, a mais incisiva da discografia do grupo, dá uma certa intensidade que era apenas insinuada em O Bloco, seguindo a evolução musical do quarteto carioca. Músicas como “Samba a Dois”, “A Outra”, “O Vencedor” e “Cara Estranho” habitam o meio-termo entre a música pop e a MPB e mostram que o grupo segue firme e forte rumo a um futuro não apenas promissor, mas ousado e inventivo, qualidades raras na música brasileira da virada do século.

2004 em 1999

Mais auto-arqueologia: escrevi esse texto pra uma coluna que eu mantinha em alguns sites (entre eles, o CardosOnLine, o London Burning, o Senhor F e o Scream & Yell, não tenho certeza), chamada Tudo ou Nada. Rola o otimismo de sempre (tanto na parte do avanço tecnológico quanto no acesso pago), mas o futuro que eu imaginei em 1999 não é tão diferente do presente que vivemos… Acho engraçado o “walkman apropriado”, antes do iPod existir…


O Rio PMP300, um MP3 player lançado em 1998

Hora de trocar a música

Hoje tem uma festa. Uma festa mesmo, não essas noites organizadas por casas noturnas em que você precisa manusear dinheiro para pagar o triplo do preço de mercado (e o sêxtuplo do valor real) de qualquer coisa… Ou essas aglomerações de galera para arrecadar fundos cobrando álcool de cozinha como se fosse pinga ou bola como se fosse ácido. Uma festa mesmo: um monte de amigos e amigas conversando, dançando e rindo sobre tudo quanto é tipo de assunto, insumos complementares à disposição, sem horas pra começar ou acabar, sempre naquele ambiente meio sala de estar/meio beira da piscina, gente desconhecida querendo conhecer outras cabeças e aqueles desdobramentos típicos de qualquer boa festa, que podem ir do vexame em público a um prazer em particular. Pois é, tem uma festa dessas hoje.

Numa festa dessas, sabemos, não existe DJ. Não, o som praticamente se toca sozinho, à medida que cada enxerido dá uma zapeada pelos discos ao lado e coloca uma ou outra faixa, às vezes mudando radicalmente o ambiente com uma simples troca de música. É aí que todo mundo que se preocupa com a trilha sonora em um acontecimento destes (acredite, há quem não esteja nem aí pro que está tocando…) coloca um ou outro disco dentro do casaco (ou do porta-luvas) ou deixa aquelas fitinhas prontas pra ocasião bem à mão (na bolsa da esposa ou no bolso de trás). A festa dá aquela queda no astral e você saca o cartucho de som como uma arma secreta e – tcha-nã! – a bolsa volta a subir. Felizes são os momentos em que a música escolhida por um dos convivas é o equivalente sonoro das ações da Netscape em 1997, deixando todo o pregão social em polvorosa.

Mas aí tem aquelas horas em que você sabe exatamente que música tocar (“a faixa 5 do disco 2 daquela coletânea de funk da capa vermelha!”), mas – merda! – não está ali por perto. Você sabe bem: não dá pra colocar um remix legal da Nação Zumbi ou um Pixies velho de guerra na hora que a moçada tá dançando funk. O cérebro começa a se agitar, dá um looping nas possibilidades e te propõe uma salvação McGyver: baixar a música na internet e ligar as caixas de som da festa no computador. Nada que uma conexão de banda larga, uns dois metros de fio e um conhecimento incipiente de engenharia elétrica não possa resolver, mas, temos de convir, é preciso quase uma conjunção astral para isso acontecer. Sorte que a música anterior – “Melting Pot”, dos MGs – segura quase oito minutos de groove derretido, o tempo preciso para a tal conjunção de fatores entrar em ação e – sim – dar certo. Tá certo que o baixo e o grito do começo de “Play the Funky Music”, dos branquelas do Wild Cherry, é quase covardia e que o refrão proporciona uma reação bem próxima a uma chuva de dinheiro, mas tem horas que você sabe que certas coisas podem dar certo.

Pensando nisso, imaginei como essa conjunção de fatores (internet de alta velocidade + músicas de graça pela internet) poderiam facilitar a vida de muita gente. Quantas vezes você não olha para aquele punhado especial de discos e não leva nas festas porque sabe que sempre tem um gatuno de olho nos discos que dão sopa? Quantas vezes você até estava afim de colocar umas músicas para o povo dançar mas não tem a menor paciência de sair de casa? Quantas vezes você não quis fazer um programa de rádio só pra sua galera? Pois é, mil vezes. Mas, desenvolvendo melhor, o conceito “DJ remoto” (o cara fica em casa e transmite todo o setlist online, tendo uma recepção do público via webcam, sei lá) é só uma das primeiras possibilidades – e talvez a mais óbvia – do que vem por aí. E nem é tão “vem por aí” assim: o Future Sound of London já faz shows desse jeito, só pra citar um exemplo que me vem à memória. O grande barato é que a tal equação no parêntese da primeira frase deste parágrafo joga isso numa esfera mais popular e mais ampla, afinal, você não precisa nem tocar pra fazer os seus “shows”.

Mas, pense melhor: se baixar uma música na internet para tocar numa festa já é uma realidade, imagine isso daqui a cinco anos (que é o tempo médio – hoje – para essas mudanças bruscas surtirem efeito). Será que as pessoas ainda vão comprar discos? Quando eu digo “as pessoas”, eu não tô falando de eu e de você, que crescemos manuseando discos de vinil, passeando por capas e encartes como se fossem livros, encarando artistas de música como se fossem intelectuais orgânicos ou super-heróis de nossa época, filósofos e deuses contemporâneos que se revelavam pra gente em capas quadradas de discões de acetato. Eu tô falando dessa rapaziada que cresceu com CD, computador, MP3. Pra que você vai comprar 50 discos se você pode compactar tudo num CD-R e ouvir num walkman apropriado? Coleções de discos, pra essa molecada, são como aquelas pilhas de jornais e revistas que guardamos na parte de cima do armário, aqueles livros que temos certeza que um dia iremos reler mas que por enquanto ficam no quartinho do fundo, aqueles cadernos especiais que serão úteis algum dia, com certeza, mas que por hora param debaixo da cama. E isso hoje, não daqui a cinco anos.

Daqui a cinco anos, tudo estará online. Bastará que você tenha um código de acesso (mediante o pagamento de uma mensalidade, que pode ser descontada do seu salário, garantindo assim – no papel – o status social para cada categoria de emprego) que você pode desfrutar à vontade de todas ou de parte de todas as informações que flutuam no espaço virtual. Discos raros, livros em todos os principais idiomas (que serão, no máximo, uns dez), procuradores, receitas de bolo e poemas de Camões, noticiários, passatempos eletrônicos, filmes, enciclopédias, tradutores simultâneos, tabuadas, corretores ortográficos, websites, bibliotecas e cursos de faculdade inteiros, teses, teoremas e hipóteses, vídeos caseiros e diários particulares – todo este tipo de informação (em grande parte já disponível online) estará muito mais acessível, uma vez que ela será direcionada para um determinado público-alvo, que se molda uniforme à medida que a internet cresce. O passado será totalmente de graça, arquivado e usado de forma emblemática, como uma grife, da mesma forma que o Cartoon Network se vangloria do acervo Hanna-Barbera, a Rhino exibe orgulhosa suas caixas de discos e coletâneas ou a Globo requenta seus produtos no Video Show. O conhecimento – como já acontece hoje – não será aprendido e sim adquirido. Cada um será seu próprio editor de conteúdo – cortando, justapondo, inserindo, superpondo, penteando, afiando, contrapondo, realçando informações.

O que significa que, dentro de um tempo, não precisaremos mais levar discos ou fitas para festas. Ou livros para aulas. Ou pastas para o trabalho. Ou papéis para reuniões. Cada pessoa terá seu próprio acesso pessoal à internet, ao alcance da mão, como um minibrowser portátil que permite conectar-se com qualquer aparelho, seja ele um retroprojetor, um processador de texto ou um aparelho de som. Indo um pouco além, podemos imaginar uma festa – o exemplo-chave deste texto – onde cada um dance sua própria música, numa integração social/individual um tanto bizarra para nossa compreensão atual. Mas pense bem e veja como é simples: provavelmente DJs colocarão programas online de festas, medindo o entusiasmo das pessoas na hora e o gosto musical de cada uma delas, fazendo assim com que cada festa tenha sua própria discotecagem customizada por um DJ robô criado a partir de um DJ de verdade. Aí, se toca uma música lenta e o sujeito quer continuar pra cima, basta clicar em seu minibrowser portátil que o DJ automático toca outra música do jeito que você quer.

Imagine então uma festa, com cada um dançando de um jeito, cada um tocando sua própria trilha sonora dentro de sua cabeça, remixando músicas à sua própria vontade. Parece uma metáfora dos tempos que vivemos, não? Cada pessoa em sua casa, em seu computador, em seu cérebro, vivendo seu universo conceitual individual, com sua própria página de bookmarks, seus top 10, seus gostos e desgostos impedindo a aproximação dos outros que vivem em igual situação. Mas esta imagem é criada por gente que não está a par nem 10% do que acontece hoje, aqueles que ainda acham que computador é uma coisa muito impessoal – como se a máquina fosse alguém.

Isolados em grupo? Pra quem está olhando tudo de fora, pode ser. Mas estamos indo em direção a uma nova coletividade, onde interesses pessoais e públicos têm o mesmo peso. O nosso desafio é justamente equilibrar o coletivo e o privado, em detrimento tanto do gosto individual quanto o da massa. Talvez este seja um dos grandes desafios da História. Mas agora parece estar mais palpável, mais próximo. O que não dá é pra ficar na mesma, continuar do jeito que está. Vai lá e muda a música que está tocando. Não dá? Dá sim, dá um jeito. Basta você saber que música você quer ouvir e pensar rápido o suficiente para tê-la na agulha assim que a que está tocando acabar. Ação, bicho: ação.

Bruce Sterling esteve no Brasil na semana passada e eu pude bater um papo com o cara para a edição de hoje do Link.

O PC morreu e ninguém percebeu
Escritor, ensaísta e guru digital, Bruce Sterling esteve no Brasil na semana passada e falou sobre como as três principais tendências do mundo digital em 2010 – Facebook, geolocalização e aplicativos – se convergem em um ponto: a morte do computador pessoal

Na retrospectiva que estamos fazendo no Link, elegemos três assuntos com os principais temas de 2010: Facebook, geolocalização e aplicativos. Você concorda com a escolha? O que estas três tendências têm em comum?
O que há de importante sobre essas três coisas é que nenhuma delas precisa do sistema operacional da Microsoft. Por um bom tempo, ter um computador dizia respeito apenas ao sistema operacional e ao processador. E o Windows criou uma simbiose com fabricantes de chip: lançava um sistema operacional logo que um processador mais rápido chegava ao mercado. E isso tornou-se sufocante, não havia mais nenhum entusiasmo. E até a Microsoft teve um hit neste ano, com seu dispositivo de detecção de movimento, como é o nome mesmo…

Kinect.
Kinect! Kinect é o aparelho eletrônico doméstico que mais vendeu em todos os tempos – e está vendendo duas vezes mais rápido do que o ex-detentor desse título, que era o iPad. E o que há em comum entre Kinect e iPad? Eles não têm nada a ver com os velhos computadores. Quando coisas assim aparecem, eu procuro o que morreu. Se as pessoas estão olhando para aplicativos, geolocalização e redes sociais, em que elas pararam de prestar atenção? O computador pessoal morreu neste ano e ninguém percebeu. Qual é a definição de computação pessoal: eu tenho um computador e ele é meu e tem todas as minhas coisas! Se você oferecer um desses para alguém hoje, um computador em que você não pode entrar na internet, nem compartilhar nada, que só serve para processar dados e, sei lá, editar filmes… Mesmo que ele seja ótimo, ninguém vai querer! Talvez se você pagasse, alguém teria o computador verdadeiramente pessoal.

Você definiu o Facebook como uma favela…
Sim, como as favelas brasileiras, devido à organização política. Ninguém imaginava que ele cresceria tanto, que funcionaria desse jeito, não há um modelo de negócios e ele está crescendo cada vez mais, só no boca-a-boca. Não tem outdoor, programa de TV…

Há o filme.
É, mas o filme não vai fazer ninguém entrar no Facebook. E, principalmente, o Facebook é gerido por um moleque de 26 anos que age como… um cacique (fala em português). É estranha essa estrutura tão grande online, mas ela não é tão incomum se você pensa em termos de cidades, daí a comparação com favelas e metrópoles do terceiro mundo, que crescem sem planejamento.

Então, de certa forma, o mundo está mais terceiro-mundista?
Não sei se terceiro-mundista, pois há favelas no mundo todo. A internet cresceu de forma muito rápida e usa estruturas muito próximas às de casas de lata – junta o que tem à mão, coloca tudo no mesmo lugar e vê se funciona. Se não funcionar, começa do zero. Tudo é beta o tempo todo, o novo é construído sobre o velho, não importa se vai aguentar o peso, se haverá deslizamentos, spam, pornografia, pirataria. Tudo o que você quiser está lá. De vez em quando tem uma batida policial, “vamos derrubar os serviços de compartilhamento de arquivos”. Talvez alguém vá preso, mas quando a polícia vai embora, tudo volta a ser como era. Cada um usa a internet como achar melhor, por isso há uma estrutura semelhante à de uma favela. Não é uma favela literal, mas uma favela cultural.

E como a estrutura do digital afeta o resto do mundo?
Hoje essas estruturas são simbióticas, não somos mais inocentes como éramos antes. O que acontece no mundo digital tem consequências ainda mais graves no mundo real do que antes. Um dos temas deste evento que me trouxe ao Brasil (o festival Arte.mov) é a relação entre arte eletrônica e contexto urbano. Veja um exemplo: pergunte a um jovem, entre 18 e 25, se ele prefere um carro ou estar no Facebook. São escolhas excludentes, quem tiver um carro não entra no Facebook e vice-versa. Tenho quase certeza de que ele escolherá o Facebook. Carros serviam para ir até onde as garotas estavam. Agora basta ir ao Facebook. Além disso, as pessoas estão deixando de gostar de carros pois não dá para usar aparelhos eletrônicos enquanto se dirige. É melhor ir de ônibus usando seu iPhone ou iPad, pois você consegue fazer mais coisas no tempo de locomoção. Essa é uma mudança enorme. Meu amigo Adam Greenfield disse há dois anos que o dispositivos portáteis mudariam mais a cidade do que os carros mudaram. E os carros mudaram as cidades de forma profunda. Quando eu ouvi isso, pensei que era um hype forçado. Mas hoje vejo que ele estava certo.

Isso vai acontecer rápido?
Depende. Talvez baste uma grande crise, seja em energia, combustíveis, exportações, não importa, para as pessoas, preferirem redes sociais a carros. E eu acho que há uma tendência que é o consumo colaborativo: vamos compartilhar objetos físicos via redes sociais. Por exemplo, eu quero pegar um carro, encontro alguém disposto a emprestá-lo, acho o carro no Google Maps, vou até ele e mando, via celular, uma mensagem que destrava porta. Ando uma hora com o carro, estaciono onde for e vou embora.

As pessoas vão sair mais de casa e ficar menos tempo vidradas no computador?
Eu gostaria de dizer que sim, mas não acho que isso vá acontecer. As pessoas se reúnem fora de casa para eventos em que vão assistir a alguma apresentação de conteúdo, como um debate político ou um show. Mas essas apresentações têm o formato de mídia antigo, em que poucas pessoas falam para muitas ao mesmo tempo. E os dispositivos portáteis militam contra isso. Já há casos de pessoas que não conseguem assistir a um filme de duas horas sem mandar um SMS. Quer dizer, vai ser cada vez mais complicado para as multidões se verem como grupo. Mas, certamente, as pessoas sairão das mesas, já que você não precisa de um monte de cabos. Haverá menos dores na coluna pelo simples fato de não ser mais preciso ficar sentado.

Outra grande tendência de 2010 foi a divisão da internet em espaços fechados, sem comunicação entre si, como Facebook, Google, as redes iTunes e a PlayStation Network. Tim Berners-Lee acabou de escrever um artigo para a revista Scientific American em que mostra como essas redes fechadas podem acabar com a natureza livre da internet.
Google, Facebook e Apple querem criar silos verticais que unam seus amigos, seus dados, seus contatos, o algoritmo do seu coração, o que for, como se fossem coisas que pudesse ficar isoladas umas das outras. Embora eu reconheça que essas iniciativas realmente ameaçam a liberdade da web, por outro lado, eu acho que elas são muito frágeis. Não é preciso muito para acabar com a Microsoft. A própria Apple, que já morreu em outra oportunidade, é basicamente o Steve Jobs. Se ele morrer, ela morre junto. Acho que o Google é quem pode sobreviver por mais tempo, mas, mesmo assim, são só dois ex-estudantes esquisitos de Stanford. Se você for um ditador de um país qualquer e estiver com raiva do Google, basta matá-los. Veja Bill Gates. Você acha que ele queria destruir a Microsoft quando saiu? Ele só ficou entediado e preferiu ir curar a malária. É um tipo de idealismo de poetas, pintores, artistas. E não é só Gates que é assim, todos eles são assim.

Você esteve no Brasil há dez anos e agora está de volta. O que mudou?
O país tem crescido muito e ganhou importância. Mas, principalmente, a população é jovem. Estamos vendo, especialmente na Europa, o lado sinistro de ter uma população velha. Ninguém faz nada novo. A Europa perdeu a capacidade de esquecer. O Brasil é o oposto. Ninguém olha para trás, o que é saudável. Claro que é bom conhecer sua história, mas é ruim ficar preso apenas a ela. Fora que esta é a geração mais conectada e mais culta do país, não no sentido da educação formal, mas de saber o que está acontecendo. E parece ter medo de arriscar.

E em termos de cultura digital brasileira?
Eu não gosto do tecnobrega. Parece umas crianças brincando no quintal. Tudo bem, tem o lado pirata, de reciclar músicas para criar músicas novas, mas isso não é muito diferente de roubar eletricidade da rede pública. Adoraria dizer que a aproximação do então ministro Gilberto Gil com a cultura do software livre irá solucionar os problemas do Brasil, mas isso não vai acontecer.
Seu país tem aspectos que são bem brasileiros e não são nada legais, como o que aconteceu na recente campanha eleitoral, em que aconteceu uma espécie de guerra fria online entre os eleitores dos dois principais candidatos. É inevitável que vocês verão problemas como estes acontecer com mais frequência. Basicamente porque as falhas que existem na sociedade acabam sendo reproduzidas no meio virtual.
O que eu acho que será bem interessante ver é que há a possibilidade de conexão entre os países em desenvolvimento. O Brasil pode se tornar realmente forte ao se conectar com países como Índia ou China. Isso seria incrível: o imperialismo cultural brasileiro. A internet já foi americana, há trinta anos. Não é mais. E agora a internet está com quase a mesma população do mundo e os EUA são só uma porcentagem deste total, como o Brasil. O que conta e o que me interessa é o que estes países podem fazer em escala global.

Esta não é, no entanto, a primeira vez que entrevisto Sterling – apenas a primeira vez pessoalmente. Certa feita já havia entrevistado o sujeito, mas para a Folha de S. Paulo, no falecido caderno Mais, à época do centenário de Júlio Verne, em 2005. Ó só:

O pai da matéria
O escritor cyberpunk Bruce Sterling fala sobre o papel de Júlio Verne, cuja morte completa 100 anos, como fundador da ficção científica

Bruce Sterling animou-se para conversar sobre Júlio Verne. Um dos pais do último grande cânone da ficção científica no século passado, o gênero chamado de cyberpunk, Sterling não é apenas um dos inúmeros frutos da árvore genealógica que o escritor francês, autor de livros como “20 Mil Léguas Submarinas” e “Cinco Semanas Num Balão”, plantou no final dos 1800. Mais do que isso, Bruce é um entusiasta fervoroso do papel de Verne como pai da matéria.

“Quando Júlio Verne inventou a ficção científica”, disse Sterling em sua palestra no sexto Simpósio Internacional de Arte Eletrônica (o ISEA), em 19 de setembro de 1995, em Montreal, no Canadá, “ele descobriu quase acidentalmente que a França do século 19 era um grande mercado para tecno-romances. Ele encontrou e alimentou o enorme apetite cultural da época por tecnologias futuristas como o balão de ar quente, o submarino elétrico, o navio de guerra equipado com aeronaves, o canhão lunar”.

“Hoje, ao fim do século 20”, continuou, “eu sinto uma grande senso de solidariedade para com meu ancestral espiritual quando falamos de assuntos como realidade virtual, telepresença e vínculos diretos entre nosso cérebro e o computador. Mesmo quando estou aqui, em frente de vocês, eu mal consigo esconder minha gana natural em inflar estes enormes balões hi-tech prateados com o ar quente da imaginação”.

O paralelo que Sterling traça entre sua própria obra e a de Verne não almeja a autocelebração – é quase como um exercício dos limites que qualquer escritor que lide tanto com ficção científica quanto com as transformações da tecnologia atual em nossa sociedade deveria fazer consigo mesmo. Autor de livros como “Piratas de Dados”, “Tomorrow Now” e da coletânea “Mirrorshades: The Cyberpunk Anthology”, Bruce, tecnófilo e enciclopédico, briga para que um autor francês seja considerado o pai de um gênero cujas grandes obras foram escritas em inglês.

Verne, cuja morte completou 100 anos no último dia 24 de março, foi celebrado por Sterling nos prefácios que este escreveu para novas edições de “Volta ao Mundo em 80 Dias” (Around the World in Eighty Days, Random House, 2003) e “A Ilha Misteriosa” (“The Mysterious Island, New Amer Library Classics, 2004), e no já clássico ensaio “Midnight on the Rue Jules Verne, em que repassa a biografia do francês de forma a enaltecê-lo. “Uma espécie de tradição popular na ficção científica circunda seu pai fundador Júlio Verne. Todos sabem que ele era o cara quando a megalópole moderna da FC era apenas uma vila do século 19. Há um monumento em bronze em sua homenagem na parte velha da cidade, o Vieux Carre. Vocês sabem, aquela parte que foi construída pelos franceses, antes de existirem os carros”.

Qual é a principal contribuição de Júlio Verne neste primeiro século após sua morte?
Ele inventou um novo tipo de romance, que tornou-se tão conhecido e lucrativo a ponto de pavimentar o caminho para um gênero inteiro que existe até hoje.

Pode-se dizer que ele era um escritor de literatura fantástica que gostava de tecnologia?
Acho que é mais apropriado dizer que Júlio Verne escrevia sobre tecnologia, ainda que se permitisse algum exercício de literatura fantástica.

Suas idéias ajudaram no desenvolvimento da ciência e da tecnologia que veio depois da publicação de seus livros ou ele apenas estava a par do que acontecia na época?
Verne tinha conexões muito boas com o mundo científico, especialmente entre geógrafos e exploradores. Ele pôde tornar públicas muitas tecnologias ainda incipientes, como a energia elétrica, que eram apenas curiosidades de laboratório em sua época. Muitos de seus jovens leitores ficaram tão intrigados por seus livros que se profissionalizaram em campos técnicos – desta forma, ele também agia como recrutador de profissionais técnicos.

Não é interessante o fato de o principal escritor da Revolução Industrial ser francês?
Não, de forma alguma. A França era um centro de poder científico e industrial com alcance global. Se a França não tivesse saído tão ferida nas guerras da Europa continental, provavelmente estaríamos falando em francês agora. Na época de Verne, a memória de um conquistador mundial como Napoleão ainda era muito recente, enquanto os revezes assustadores da Guerra Franco-Prussiana, da Primeira Grande Guerra e da Segunda Guerra Mundial ainda iriam acontecer no futuro. Os franceses são um povo ótimo, mas sua condição geográfica não foi justa com eles.

O que você acha da obra de Verne em termos literários?
Bem, ele não é de forma alguma um literato elegante, mas acho que Verne é melhor escritor de prosa do que o que seus críticos dizem. Ele é muito bom ao construir cenas dramáticas com reviravoltas surpreendentes. Mas sua grande virtude era sua pesquisa meticulosa. Eu não consigo lembrar de outro escritor de histórias fantásticas que o consiga equipará-lo neste quesito. Ele era capaz até mesmo de escrever enciclopédias, o que ele, na verdade, também fez.

Qual era a importância política de um escritor de ficção científica tão popular em sua época?
Verne é um autor lembrado por todo o planeta e não há dúvidas de seu orgulho de ser francês, mas poucos livros seus se passam na França. Ele era um escritor europeu que não temia olhar para além da fronteira. Se uma Europa futura quiser assumir um papel de líder global, ele pode ser um interessante exemplo a ser seguido. Ele seria um exemplo ainda mais interessante a ser seguido por novos escritores de ficção científica que tentem trabalhar com os grandes poderes em desenvolvimento de países emergentes como Índia, China e Brasil. Imagine uma “Volta ao Mundo em 80 Dias” moderna, em que Aouda é o personagem principal e todo o livro seja indocêntrico. Seria uma obra bem interessante.

Antes de ser publicado, Júlio Verne foi descartado por diferentes editores como sendo “científico demais”.
Escritores recebem críticas e são rejeitados pelas razões mais improváveis. Eu acho que o verdadeiro motivo pelo qual Verne era dispensado com freqüência é que ele simplesmente não era um praticante literato convencional. Ele nunca passou muito tempo discutindo romances com escritores; as raízes de sua literatura estão no teatro. O status quo literário não é muito agitado, mas se você o ignorar, é muito provável que eles lhe paguem na mesma moeda. E eles não sabiam o que fazer com Verne. Ele deixou Paris, que era a capital da vida literária, para trabalhar em Amiens. Ele se marginalizou por opção.

Mesmo sendo contemporâneo de autores como Alexandre Dumas e Victor Hugo, Júlio Verne é o autor mais traduzido de todos os tempos. Qual é o motivo de sua popularidade?
Acho que você deveria perguntar porque Dumas e Hugo são menos populares hoje em dia. E eu acho que é porque suas obras estavam envolvidas com as tensões culturais de seus tempos que cada vez mais tornam-se parecidos com artefatos do passado. Verne tinha uma visão mais remota e abstrata dos assuntos da pauta de sua época, por isso seus livros envelheceram melhor.

Ele pertence a uma geração de escritores que viu o declínio da dominação mundial francesa e a ascensão do Império Britânico. Suas obras refletem esta mudança de poder?
Acho que a grande mudança no trabalho de Verne acontece logo após que ele se torna um político eleito. Uma vez que ele se tornou uma autoridade local e estava envolvido com o governo diário de uma cidade, ele passou a entender que o mundo não dá margem para super-heróis fantásticos como o Capitão Nemo. É quando seu trabalho torna-se mais quadrado e pessimista – como se alguém o levasse para trás das cortinas, onde ele pudesse ver as alavancas e as engrenagens. Isso pode ser um pouco desapontador.

Quais são seus livros favoritos de Júlio Verne?
“Vinte Mil Léguas Submarinas” é sua obra-prima. Mas meu livro preferido é “Paris no Século 20”. É uma obra de texto fragmentado, mas ao mesmo tempo é uma das visões mais impressionantes do futuro jamais imaginada por um romancista.

***

Júlio Verne no Brasil
Algumas obras do autor francês que estão em catálogo no país

Volta ao Mundo em Oitenta Dias (Ed. Ática, 2000, 248 págs. R$ 19,90)
Cinco Semanas Num Balão (Ed. Ática, 1998, 304 págs. R$ 19,90)
Paris no século XX (Ed. Ática, 1995, 224 págs. R$ 20,00)
Viagem ao Centro da Terra (Ed. Ática, 2000, 232 págs. R$ 19,90)
A Jangada – 800 Léguas Pelo Amazonas (Ed. Planeta, 2003, 371 págs. R$ 38,00)
20 Mil Léguas Submarinas (Ed. Ediouro, 2004, 184 págs. R$ 24,90)
Da Terra À Lua (Ed. Melhoramentos, 2004, 128 págs. R$ 19,90)
O Raio Verde (Ed. Melhoramentos, 2005, 128 págs. R$ 19,90)

Minha coluna no Caderno 2 ontem foi sobre o Wikileaks.

O futuro do segredo
Wikileaks e a geração digital

A lista de documentos distribuídos pelo site Wikileaks foi o principal assunto da semana passada, quando uma série de arquivos antes confidenciais causaram uma crise diplomática mundial sem precedentes – transformando seu porta-voz, o jornalista australiano Julian Assange, no nome mais importante do mundo agora.

Mas fora a polêmica instantânea, há implicações nesta história que dizem muito mais respeito a como o mundo funcionará no século que começa. É uma questão que não fala somente a estadistas e governantes, mas também para cada um de nós.

“Imagina se tivesse um Wikileaks revelando DMs, e-mails e SMSs de qualquer pessoa que você escolhesse? Na boa, o mundo acabava em meia hora”, twittou o escritor Antonio Prata, colunista do caderno Metrópole. Não acho que o mundo acabaria (mais provável que ele se tornasse uma mistura de filme de Woody Allen com Ingmar Bergman, numa discussão sobre relacionamentos global interminável), mas, por baixo da brincadeira de Prata, repousa uma mudança que já está acontecendo na cabeça da geração digital.

Lembra quando, nas festas da sua época da escola, alguém trazia uma máquina fotográfica? Quem não queria ser fotografado sumia – e o fotógrafo era acompanhado à distância por quem quisesse ficar longe de seus registros. Que eram mínimos: o melhor filme permitia apenas 36 fotos, que custavam caro para serem reveladas.

A geração eletrônica, no entanto, anda com câmeras nos bolsos. Toda ela – afinal, hoje em dia qualquer celular tira foto. E as fotos são instantâneas – como não é mais preciso revelá-las, basta clicar e subir para a internet de onde quer que você esteja. Fotos são tiradas o tempo todo e parte delas aparece online, nos Orkut e Facebook da vida. O mesmo vale para registros de áudio e vídeo – e assim temos uma geração que passou toda sua vida no holofote, mesmo que particular.

Há quem aposte que o futuro será assim e cada uma de nossas vidas será um reality show pronto para ser assistido por quem se dispuser a nos procurar. Google e Facebook são os primeiros a levantar essa bandeira, com seus respectivos CEOs (Eric Schmidt e Mark Zuckerberg) afirmando categoricamente que a privacidade acabou.

É claro que essa é uma discussão interminável, mas com vidas publicadas em blogs, YouTube e redes sociais numa ponta e o Wikileaks na outra, uma coisa está ficando cada vez mais clara: será muito difícil manter segredos nos anos que vêm por aí. Não que isso seja especificamente ruim…

Narrativa 2.0
Tim Burton brinca com o Twitter

No fim de novembro, o diretor Tim Burton propôs a seus fãs uma experiência conjunta: escrever uma história no Twitter. Criou o site BurtonStory.com, que redireciona todos os tweets marcados com a hashtag #BurtonStory para lá. O tweet de abertura, escrito por Burton, dizia que “Stainboy, usando sua óbvia expertise, foi chamado a investigar a misteriosa gosma brilhante no chão da galeria” – e daí em diante, a história seguiria em modo 2.0. E sempre que uma parte é aprovada pelo autor, ela aparece no site, dando gancho para uma nova leva de sugestões.

E já que a vaibe é a ressurreição de textos, eis o Discoteca Básica que fiz sobre o Revolver, dos Beatles, na penúltima encarnação da Bizz, em 2001.

A mudança de ares de uma era resumida em um disco
Antes de abandonar os palcos, os Beatles começaram a experimentar em estúdio, guiados por música erudita, pop norte-americano, aventuras técnicas e drogas psicodélicas, continuando à frente de seu tempo com o fundamental Revolver

Paul McCartney incentivando os Beatles a fazerem pequenos trechos de sons superpostos, inspirados em John Cage e Karlheinz Stockhausen. John Lennon querendo soar como o Dalai Lama no alto do Himalaia ao cantar letras inspiradas na versão do Dr. Timothy Leary para O Livro Tibetano dos Mortos. O dedo oriental de George Harrison em uma canção sem mudanças de acordes. A bateria frouxa e hipnótica de Ringo Starr, mais tarde ressuscitada por moderninhos como Beck (“New Pollution”) e Chemical Brothers (“Setting Sun”). O produtor George Martin obrigando funcionários dos estúdios Abbey Road a sincronizarem gravadores em colagens aleatórias de som. O técnico Ken Townshend inventando os vocais ADT (Artificial Double Tracking) e o engenheiro de som Geoff Emerick metendo a voz de Lennon numa caixa Leslie dentro de um órgão Hammond. E isso tudo no primeiro dia de gravação do sétimo disco dos Beatles, a quarta-feira dia 6 de abril de 1966, para uma única canção. A música se tornaria “Tomorrow Never Knows”, mas ali, no início do álbum, o grupo assinalava a faixa como o começo de uma nova fase, batizando-a sem modéstia de “Mark I”.

Fato – afinal, um ano antes estavam gravando a popzinha “You’re Going to Lose that Girl” e dois anos antes era a vez do rock “A Hard Day’s Night”. A distância era muito grande. “Tomorrow Never Knows” era o início de uma era de experimentação na música popular que iria explodir na renascença psicodélica do ano seguinte, transformando o horizontes da cultura pop no caleidoscópio de referência que conhecemos hoje. Com Revolver, os Beatles entravam numa escalada artística que iria dar em obras-primas como Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, o Álbum Branco e Abbey Road, finalmente atingindo o topo do mundo pop. Até então, com o jovem e moderno Rubber Soul, eram uma banda pop exercitando todo seu potencial. De 1966 em diante, passariam a explorar as novas fronteiras da arte contemporânea, mas sem perder o senso de perfeição que haviam mirado no álbum anterior.

De repente, descobriam as vantagens da manipulação sonora depois de gravada. “Revolver estava sendo conhecido como o disco em que os Beatles diziam: ‘OK, está ótimo, agora vamos inverter isto ou acelerar ou arrastar”, lembra Emerick no livro The Complete Beatles Recording Sessions, “eles tentaram tudo de trás pra frente, só pra ver como soava”. “Quando experimentamos o som de trás pra frente, eles passaram a inverter tudo”, concorda George Martin em seu Summer of Love – The Making of Sgt. Pepper. As inovações técnicas iam além da distorção, aproximando a microfonação o máximo possível: microfones dentro de instrumentos de sopro, grudados em violoncelos, colados na bateria. “Eles ouviam um monte de discos americanos e ficavam perguntando: ‘Como podemos ter este som?’”, recorda o produtor.

Mas enquanto a técnica entusiasmava o lado juvenil de George, Geoff e Ken, o grupo estava sendo ousado mesmo nas novas composições. As drogas exerciam um papel fundamental na nova fase do grupo. “Dr. Robert” cantava sobre um médico pronto para levantar o astral de quem quisesse, uma versão musical para Max Jacobson, o farmacêutico-mor da marginália nova-iorquina; “Got to Get You Into My Life” é sobre o entusiasmo de Paul McCartney com fumo (“é o meu primeiro arroubo sobre maconha”, confessa Paul na autobiografia Many Years from Now); assim como a preguiçosa “I’m Only Sleeping”, de Lennon; e as duas faixas que fechavam cada um dos lados do vinil – “She Said She Said” e “Tomorrow Never Knows” – são sobre viagens de ácido: a primeira disfarça um tour lisérgico que Lennon teve com o ator Peter Fonda (vertido em “she” na faixa, para não dar na cara) e a segunda escancara a exploração de realidades induzidas em versos nada discretos (“Desligue sua mente”, “ouça as cores do seu sonho”).

Por outro lado, abriam continuavam entrando em portas musicais abertas nos discos anteriores. “Eleanor Rigby” é a evolução natural de “Yesterday”, com “cordas à Bernard Herrman”, como pediu Paul ao produtor Martin. “Taxman”, “Yellow Submarine” e “I’m Only Sleeping” brincavam com efeitos sonoros e arranjos superpostos. “Love You To” é George Harrison em sua primeira incursão de cabeça à cultura hindu que havia flertado em “Norwegian Wood”. “Here, There and Everywhere” e “For No One” – esta com solo barroco de trompa – transformavam Paul McCartney num jovem Schubert, compondo pequenas sinfonias em vez de baladas de amor. “Good Day Sunshine”, “Got to Get You Into My Life” e “I Want to Tell You” fazem a ponte com o pop norte-americana, enquanto “Dr. Robert” e “And Your Bird Can Sing” ajudavam a country music em sua própria evolução. Os assuntos abordados pelo disco iam da cobrança de impostos a contos infantis, passando por existencialismo, psicodelia, fossa amorosa, amor à vida, paixão latente, crítica social e metáforas diversas.

Poucos meses depois do lançamento do disco (no dia 5 de agosto de 1966), o grupo encerrou definitivamente a primeira fase de sua carreira, ao anunciar que não iria mais tocar ao vivo. A partir daí, o desafio do grupo seria sintetizar os anseios e dúvidas de uma geração – e assim fizeram ao serem os primeiros a darem o primeiro passo adiante, até seu fim, em 1970. Revolver encontra o grupo no exato momento da mudança, um sofisticado registro da melhor música pop de 1966 que flagra a mudança de parâmetros de toda uma era. “A mudança toda foi gradual”, conta John Lennon no livrão Anthology, “mas estávamos conscientes que, se havia uma fórmula ou algo do tipo, esta era mover-se para a frente”.

Revolver
1966
Produção: George Martin
A capa do disco já havia sido criada por Robert Freeman (uma colagem em espiral das metades de cima dos rostos dos quatro Beatles repetidas vezes) quando o grupo pediu ao velho amigo Klaus Voorman para recriá-la. Voorman, um dos ‘exis’ (grupo de jovens artistas existencialistas alemães no começo dos anos 60), conheceu o conjunto na época em que eles tocavam em Hamburgo, antes de gravarem o primeiro disco. A capa proposta por Klaus agradou em cheio: “Gostamos da forma que ele nos colocava como pequenas coisas saindo do ouvido das pessoas. E ele nos conhecia o suficiente para nos capturar de uma forma bonita em seus desenhos”, lembra Paul, “nos sentimos elogiados”. Na colagem da capa, Voorman usou duas fotos (uma de John e outra de George) que já haviam saído na contracapa do disco anterior, Rubber Soul. – As faixas “Paperback Writer” e “Rain” foram gravadas nas mesmas sessões de Revolver, mas serviram de aperitivo ao público para o novo álbum, sendo lançadas como um compacto no primeiro semestre de 1966 (em maio nos EUA e em junho na Inglaterra). “Rain” trazia a primeira gravação invertida da história da música gravada à luz do dia. “Fomos nós os primeiros”, resmungava John Lennon, “não foi nenhum Jimi Hendrix ou o fuckin’ The Who”.

Um monte de gente já tinha me avisado, mas a preguiça e vontade de ficar ouvindo música no YouTube fizeram que eu deixasse pra postar esse vídeo só agora – deixo o crédito pro Guilherme, que se dignou a deixar o link num comentário (boa, vou falar sobre a área de comentários, velho assunto digital que merece sempre ser revisitado). O TENSO foi um meme que eu descobri quase sem querer online (e cuja paternidade depois foi requerida pelo VT do UOL Games, a versão brasileira do 4chan, que a gente já até falou no Link há uma cara). Não vou explicar o que é o TENSO, o vídeo acima faz justamente isso (ainda que em inglês) e basta dar uma fuçada na tag pra ele que eu criei no Sujo há quase dois anos para entendê-lo. O legal do vídeo feito pelo sensacional Know Your Meme, do Rocket Boom (Ellie Rountree <3!) é que ele consolida justamente o que eu havia acusado em março do ano passado, quando comecei a trazer o TENSO à baila – que é uma mania de internet tipicamente brasileira que abriu a trilha para tropicanalhices digitais como Cala Boca Galvão, os botões de Instantrimshot que disparavam frases e sons velhos conhecidos de nossos ouvidos e as abomináveis gírias do Twitter. O microdocumentário ainda arrisca uma árvore genealógica que concatena memes da mesma natureza nascendo em lugares diferentes da rede. Parece uma bobagem (e, em grande parte, é), mas é um retrato instantâneo de uma transformação comportamental que está em curso: a forma como o brasileiro se relacionará com o ambiente digital. Isso não é nem o começo direito…

Leia mais:
Tag TENSO
Um meme essencialmente brasileiro e uma nova forma de comunicação

Volto a desenterrar textos e hoje separo uns aqui que fiz para o vintage The Bambas, e-zine que o Camilo fazia com o Tomate nos idos de 97/98 e inspiração direta para eu fazer o 1999 com o Abonico. Esse primeiro é sobre a importância do disco ao vivo do Iron Maiden para a minha (e provavelmente sua) formação – e foi publicado numa seção chamada “Na Moita”, em que os convidados eram provocados a falar de um disco que pudesse causar algum tipo de constrangimento público. Nunca me envergonhei do Iron, pelo contrário – não à toa escrevi o texto abaixo.

“Você deve ir até o fim”. E é claro que iríamos. Afinal, por mais assustadores que pudessem ser os 100.08 minutos orgulhosamente estampados na contracapa do disco duplo, eles eram preciosíssimos. Era a maior banda de heavy metal do planeta em seu melhor momento fazendo o que fazia de melhor no melhor lugar possível, o palco. Desde que se apresentaram no Rock in Rio, trazendo o mostrengo Eddie e a incrível múmia-esfinge, que cuspia fogo pelas ventas, o Iron Maiden era sinônimo de rock pesado e seus shows eram momentos de catarse coletiva e profissionalismo.

Historicamente, Live After Death, o disco em questão, marca o começo do declínio do Iron. A importância primordial do grupo encontra-se logo em seu início, quando, após o impacto do punk, o grupo liderou a chamada New Wave of British Heavy Metal – um dos melhores nomes de gêneros musicais da história. Mas no começo, o Iron era uma banda de rock pesado, não uma de heavy metal. Discos como Iron Maiden e Killers estavam repletos de energia e vigor, mas o metal clássico (desenvolvido pelo Led Zeppelin) passava longe dali. Muito por conta do vocal de Paul D’Ianno, uma espécie de Dee Dee Ramone do metal, pela guitarra suja de Dennis Stratton e por sua atitude rebelde: eram a primeira banda desde o The Who a tocar de verdade no tradicional Top of the Pops, em vez de fazer playback.

Com cacetadas como “Prowler”, “Charlott the Harlott”, “Running Free”, “Killers”, “Wrathchild” e “Murders in the Rue Morgue”, o Iron de Paul D’Ianno injetava doses pesadas de rock no cansado metal do final dos anos 70 – um gênero que havia se dividido entre o pop (Cheap Trick, BTO), a paródia (Queen, Ozzy Osbourne no começo) e a falta de criatividade (Led Zeppelin, Deep Purple), cambaleando devido ao impacto do punk. O Maiden em seus primeiros anos era uma injeção de adrenalina no metal. Se foi o punch do punk que salvou o metal nos anos 80, a Dama de Ferro em seus primeiros dias era o Buzzcocks da época. Só que D’Ianno fazia jus ao espírito rocker da banda e, depois de brigas e bebedeiras, foi chutado pra fora do grupo.

A entrada de Bruce Dickinson (do épico Samson) e do guitarrista Adrian Smith ampliaram a importância do baixista Steve Harris. Principal compositor da banda, Harris descobriu uma fórmula secreta: compunha canções sobre o cavalgar de seu baixo, deixando campo livre para os dois guitarristas (Smith e o fundador Dave Murray) trabalharem riffs em duas vozes (as famosas terças e quintas, o pit-shifter humano) trotando por sobre o baixo, que guiava a canção ao lado da bateria (de Clive Burr, que entrou no lugar do fundador Doug Sampson). O vocal berrado de Bruce era mais versátil que o de D’Ianno e às vezes descambava para o operístico. O tempero era acrescido pelo tema mais clássico do heavy metal, o que faz o vínculo do gênero com o blues – o satanismo. E The Number of the Beast (com clássicos como “Hallowed Be Thy Name”, “The Prisioner”, “22 Acacia Avenue” e “Run to the Hills”) transformava o Iron em uma banda de metal clássico.

Piece of Mind continuava a linha ascendente da carreira do grupo (e dava espaço para a entrada do baterista Nicko McBrain, com estandartes do gênero como “The Trooper”, “The Flight of Icarus”, “Where Eagles Dare” e “Revelations”), que prosseguiria em Powerslave. O disco do Egito, com o mascote Eddie feito faraó na capa, cortesia do genial Derek Riggs (talvez o principal motivo pros fãs do Iron entrarem no culto à banda), e a presença de hinos como a faixa-título, “The Rhyme of the Ancient Mariner”, “2 Minutes to Midnight” e “Aces High” mostravam que a banda chegava à maturidade. A instrumental “Losfer Words (Big’Orra)” mostrava que a banda estava mais precisa e segura que nunca, e qualquer som que eles tocassem juntos teria a cara do Iron Maiden.

Começava então o declínio. Somewhere in Time, o disco futurista, mostrava a banda muito mais preocupada com um conceito do que com as canções, desperdiçando boas sacadas melódicas e instrumentais maduros com um tema forçado, como “Caught Somewhere in Time”, “Heaven Can Wait” e “Deja-Vu”. Embora menos inspirado, o disco ainda traz bons momentos do grupo, como a olímpica “The Loneliness of a Long Distant Runner” e a literária “Stranger in a Strange Land” mostravam que o grupo ainda podia produzir bons momentos em conjunto. A bela balada “Wasted Years” (a única que fugia do padrão de todas as outras baladas da banda) mostrava que Adrian Smith sabia compor e que queria seu espaço na banda.

O último bom momento do Iron vem com Seventh Son of a Seventh Son. Aqui, o conceito toma conta do disco de vez e Steve Harris enfrenta um momento de megalomania semelhante ao que Roger Waters enfrentou em The Wall. As melhores faixas do disco (“Can I Play With Madness”, “Only the Good Die Young”) são justamente as que fogem do tema central, que trata, novamente, de satanismo (o sétimo filho do sétimo filho será o anticristo, segundo algum lugar da Bíblia), só que épico e preciosista.

Depois era a lama. No Prayer for the Dying tentava voltar ao espírito rock’n’roll do grupo, com músicas risíveis (como “Holy Smoke” e “Bring Your Daughter to the Slaughter”), o pavoroso Fear of the Dark (com aquela capa horrível e bobagens como “Afraid to Shoot Strangers”, “Wasting Love”, “Be Quick or Be Dead” ou “From Here to Eternity”). A segunda pior fase da banda conta com o versátil Janick Gers no lugar de Adrian Smith, mas a mágica já havia passado. Os últimos discos com Bruce são ao vivo (A Real Live One e A Real Dead One) e a banda mostra que sabe o que os fãs já sabiam: as músicas velhas eram bem melhores que as novas. A entrada do pífio Blaze Bayley empurra a banda no esquecimento.

Por isso, Live After Death é o melhor disco do Iron. Se ser adolescente à época de seu lançamento significava curtir o melhor que a vida podia lhe dar, ter doze anos mostrava o mundo que lhe esperava. Do discurso de Wiston Churchill no início até o fim apocalíptico de “Phatom of the Opera”, o disco era uma viagem a uma dimensão paralela, um paraíso de energia, barulho, som e testosterona chamado “show do Iron Maiden”. Pra quem viu o show da banda no Rock in Rio, o disco era ‘o’ souvenir; pra quem não pôde ir, era ‘o’ consolo.

Talvez este disco seja o responsável por algumas notas baixas no boletim da sexta série, pelos cadernos acabarem mais cedo (cheios de desenhos nas últimas páginas), pelas minhas primeiras camisetas pretas (usadas sob o uniforme do colégio), pela vontade de deixar o cabelo crescer e pelo um de meus primeiros porres (lembro a cena direitinho, ao redor de uma fogueira, num terreno baldio, com Velho Barreiro e “2 Minutes to Midnight” tocada pontualmente). Foi o primeiro disco que meus pais pediam pra tirar – e olha que meus pais me agüentaram ouvindo 12 horas por dia Thriller, quando tinha oito anos, e a coletânea New Wave Mamão com Açúcar (com Pretenders, Billy Idol, B-52’s, Prince, Devo, Wham!, Depeche Mode e Huey Lewis and the News), aos dez. Foi o meu primeiro disco duplo, que quase perdi quando troquei com um amigo meu por um disco da Sinéad O’Connor (dá pra acreditar?). Comprei o CD, mas qual decepção ao ouvir que faltava um lado inteiro do disco (o quarto, com “Wrathchild”, “22 Acacia Avenue”, “Children of the Damned”, “Die With Your Boots On” e a versão definitiva de “Phatom of the Opera”). Nem o encarte, cheio de informações (turnê completa, letras, equipamento completo e o escambau) compensava. Corri feito um desesperado atrás da lendária versão japonesa (que contava não só com o lado perdido, mas com dois lados inéditos, num sonhado CD duplo), mas acho que não passava de uma lenda urbana. O fato de alguém (um amigo de um dos meus irmãos, tenho certeza) ter roubado o CD me levou a bater na porta do dono do disco da Sinéad (um cara com quem eu não falava há anos) atrás do meu disco.

Hoje, graças a deus, ele está aqui, na minha frente, rodando enquanto digito este texto no computador. Sulcos que alimentaram minha fome por uma adolescência decente, que me fizeram ter vontade de parar de deixar de ser criança e cair num universo inseguro de farra, problemas e responsabilidades. Parte crucial do meu desenvolvimento como ser humano (mais “na moita” que isso, impossível), Live After Death é a minha porta de entrada num mundo de sonhos, um dos muitos rosebuds musicais que tive. Não tenho vergonha de admitir isso.

Outro texto pro The Bambas, outro texto pra seção “Na Moita”, desta vez assumindo um prazer confesso: como eu gosto de Sgt. Pepper’s.

Tinha eu treze anos de idade, quando excursionava com a banda pelo Mato Grosso. Não, eu não tinha uma banda que ia pro Mato Grosso com treze anos de idade. Eu tocava numa banda de escola, dessas de desfile (tocava – e acho que ainda toco – trombone de vara), quando, passando por Cuiabá (depois de voltar da Bolívia, onde havia passado por uma experiência nada feliz quando fui perseguido por um sujeito que queria que eu pagasse o uso de um banheiro público – “vinte pessos” pra mijar, tá louco!) cacei em uma banca algo pra ler. Já lia a Bizz na época e comprava aqueles pôsteres-biografias da Somtrês (Genesis, Rush, Sabbath, Purple, Led, Floyd, Jethro Tull – uma aula e tanto de rock clássico), portanto já havia me habituado a ler sobre música. O próximo passo (que deveria ser o de qualquer leitor) seria me aprofundar naquele assunto.

Então comprei, numa dessas edições dois em um, um pacote que incluía duas biografias de bandas que eu achava que sabia tudo: os Beatles (capa amarela e aquela foto que eles estão enrolados na bandeira do Liverpool) e os Rolling Stones (capa preta e vermelha com um close em auto-contraste de Mick Jagger). Os primeiros tinham revolucionado o rock com seu iê-iê-iê, se separaram, o John Lennon morreu e o Paul McCartney cantava Say Say Say com o Michael Jackson (lembro de ter pego o Pipes of Peace quando era moleque só por causa de Say Say Say – de Michael, claro) e os segundos eram inimigos dos primeiros, eram mais malvados, hoje eram velhos e usavam roupas com cores escandalosas para dizerem que eram garotões.

Qual minha descoberta ao saber que ambos grupos eram muito mais que eu havia pensado. Mas o que fisgou foi os Beatles. Tudo que eu conhecia dos Beatles eram aquelas canções do começo, “I Wanna Hold Your Hand”, “Can’t Buy Me Love” e “She Loves You”, e achava – embora não imaginasse como – que elas foram responsáveis pelo status que o grupo carrega até hoje. De repente, começavam a me falar de viagens de ácido, e das iniciais de “Lucy in the Sky with Diamonds”, de um assassinato em massa que tinha sido descrito subliminarmente num disco da banda, da possibilidade de um dos integrantes ter morrido, ter sido substituído e que “dicas” dessa verdade apareciam nas capas dos discos, de óperas rock compactas, de experimentações radicais e infantis no estúdio e de resultados espetaculares, de ponto de partida para a psicodelia, para o rock progressivo, para o rock clássico – os caras eram o vórtice de todo o rock, todo o universo que eu aos poucos me considerava parte tinha sido criado pelos caras.

E, no olho do furacão, sentava-se Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band. 50% dos adjetivos ligados à banda saem deste disco e, em outra viagem da banda, desta vez à Goiânia, me dei de cara com o próprio. Se eu for na capital de Goiás, eu posso lhe mostrar a loja que eu comprei Sgt. Pepper’s – e nada mais – tamanho o impacto do encontro. Aquela capa populosa e colorida olhou pra mim (George Harrison, em particular) e me perguntou se eu ia deixá-la lá, com toda sua mitologia em potencial reservada para um encontro posterior. Na hora é um dilema horrível, o dinheiro pro disco era o dinheiro do lanche, mas lembrar-se disso é uma sensação maravilhosa. Quantos discos me perguntaram isso e a quantos eu não cedi: Astral Weeks, Tommy (esse, assumo, roubei), The Piper at the Gates of Dawn, Dark Side of the Moon, London Calling, Let it Be, Led Zeppelin IV (Thick as a Brick até hoje me olha assim, mas eu me seguro). Discos que tinham sido alimento de uma geração foram tratados por mim como micropontos de ácido sonoro, viagens para universos paralelos, plantas medicinais que mostram a revelação sonora. Tanto que contaminei a família – furava tantos os vinis no som da sala que todo mundo relaciona o som destes discos a determinadas épocas da vida. É batata: põe o Dark Side of the Moon, o assunto é tal, põe o Tommy, o assunto é outro.

Mas Pepper, como hoje me acostumei a chamá-lo, foi o primeiro. O impacto que o disco causou em mim é bem diferente ao dos que o ouviram pela primeira vez, em junho de 67, mas havia alguma semelhança em ambas audições. Com a exceção que eu sabia o que estava por vir, só não sabia como. Impacto semelhante eu só tive com Paul’s Boutique, dos Beastie Boys, um disco que, tamanha a quantidade de referência, se explica, como se tivesse uma bula, uma resenha junto com o som. Pepper ecoou na minha cabeça como um tiro ao contrário – abriu-a para horizontes sonoros sequer sonhados com um impacto direto. Todo o turbilhão de cítaras, animais de fazenda, circo, jazz anos 40, orquestras, rock pesado, octeto de cordas, última nota que só os cães ouvem se encaixavam perfeitamente no que o segundo volume da história do rock da mesma Somtrês (com 12 páginas dedicadas à Pepper, com ilustrações de Negreiros) dizia sobre “para algumas pessoas, esse disco provoca uma sensação única, quase lisérgica”.

Minha (ex-)mulher não se conforma(va) de eu saber a ordem das músicas dos discos. Pois pra mim, isso é o equivalente a perguntar-se sobre o que você estava fazendo quando o Senna morreu. A seqüência das músicas no disco é o público encontrando o privado, o inatingível se tornando íntimo, é o momento de personificação do fato, quando você o atrai para si. A ordem das músicas de Pepper é uma cabala mágica no meu hipocampo, se toca uma música só do disco no rádio, eu continuo o disco até o fim na minha cabeça.

Depois descobri que o big bang beatle estava no disco anterior, Revolver, e cujos ecos já haviam surgido originalmente no pastoril Rubber Soul. Depois, Abbey Road se tornaria o melhor disco dos Beatles, o mais importante, o disco que o grupo deu mais de si, pois sabia que era o fim e queria ser imortalizado. Até Let it Be (com produção coxal de Phil Spector), das gravações de Get Back, que queria voltar ao começo com a mesma disposição que gravaram o disco final, era um grande disco. O álbum branco era os quatro separados, poderes à parte, desconstrução do conjunto. Ou seja, Sgt. Pepper’s é apenas um dos grandes discos dos Beatles.

Mas para mim, ele tem esse caráter de revolucionário. Mesmo tendo sido gravado um ano depois de discos transgressores (como Blonde on Blonde e Freak Out!) e no mesmo ano de outros discos cabulosos (Piper, The Velvet Underground & Nico, The Doors), Pepper é um disco mágico pra mim pois me apresentou ao passado que eu procurava da maneira mais coesa possível. Como uma caixa de Pandora, ele libertou os males do mundo para o rock brincar, dando-lhe não só sobrevida como a capacidade de se reciclar (e sempre encontrar sobrevidas). Era a segunda vez que os Beatles salvavam o rock e desta vez havia sido definitivo. Não tem mais volta.

E a minha coluna desta semana no Caderno 2 foi sobre o debate que mediei no YouPix.

Ofuscados pelo telão
Diálogos simultâneos no YouPix

Semana passada, participei do encontro YouPix, evento da revista eletrônica Pix para discutir diferentes aspectos da cultura digital. Entre os temas da semana, assuntos recorrentes aqui neste espaço, como a cultura do remix, modinhas da internet e discussões sobre mídia. Os nomes que passaram pelo Museu da Imagem e do Som (MIS) de São Paulo eram uma boa amostra da produção eletrônica brasileira, incluindo gente como Chico Barney, Tiago Dória e Giselle Beiguelman.

Mediei um debate chamado Os Novos Influenciadores, que reunia personalidades completamente diferentes como o blogueiro PC Siqueira, que apresenta o videocast Mas Poxa Vida; o jornalista Bob Fernandes, do Terra Magazine; o blogueiro Mauricio Cid, do Não-Salvo; e o publicitário Marcelo Tripoli, da agência iThink. Mas o papo que devia fluir para uma discussão com o público ganhou uma inesperada mão dupla, e dois diálogos aconteciam paralelamente.

E na medida em que o assunto era discutido no palco, aos poucos o público estourava de rir. As gargalhadas surgiam no meio de uma fala, muitas vezes entre as palavras, e não tinham nenhuma conexão com o que estava sendo dito no palco. Culpa do Twitter e de um telão.

Explico: a organização do evento colocou, à direita do palco, um telão em que eram exibidos os tweets feitos com a hashtag do evento (#youpix). Quem escrevesse algo no Twitter com essa marcação, tinha seu texto exibido no telão. Muitas vezes, os tweets eram comentários sobre o que já havia sido discutido no palco, quase todas as vezes engraçadinhos, e logo o público que assistia ao evento – que estava sendo transmitido via internet – começou a twittar piadas e gracinhas para entreter-se uns aos outros.

O detalhe é que quem participava do debate não lia o que estava escrito no telão, pois ele estava na lateral do palco. Assim, havia duas discussões: uma feita entre os debatedores e outra puxada pelo público.

Na hora, lembrei da participação de Mark Zuckerberg no festival South by Southwest Digital, de 2008, quando o público, irritado com a discussão que acontecia no palco, começou a twittar e reclamar sobre a qualidade do papo. Não temi um levante vindo da audiência, como o que ocorreu no evento no Texas.

Mas, para o bem do diálogo, seria mais interessante se o evento dispusesse um monitor com os tweets do telão voltado para os debatedores. Assim, a discussão e as brincadeiras virariam uma coisa só. Uma dica para a edição do ano que vem.