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E na minha coluna do Caderno 2 ontem continuei falando sobre porque eu acho que o iPad é só uma fase.

O futuro da televisão
E o que o celular tem a ver com isso

Na coluna da semana passada, falei sobre como os tablets dominaram a Consumer Eletronics Show (CES), maior feira de tecnologia para o consumidor do mundo, que acontece sempre em janeiro, em Las Vegas, nos EUA. Dizia que, por mais que o sucesso do iPad abrisse uma nova linha de produtos tecnológicos (lançados às pencas em Las Vegas), não seria o substituto do computador – seja desktop ou notebook – como o conhecemos.

Houve quem discordasse com veemência. Fãs da Apple têm dessa mania: se foi feito por Steve Jobs é o certo, correto e não tem por que discutir. Discuto, pois acho o iPad muito grande para a geração digital que hoje já se comunica mais com o celular do que com o computador. Mas um dos motivos que me fazem crer que o iPad é só um aparelho intermediário e não o computador do futuro parte de outras duas novidades que também foram atrações na CES da primeira semana de 2011.

Além de quase todas as principais empresas de tecnologia lançarem seus tablets, as outras duas atrações da feira foram novos modelos de smartphone e as chamadas “smart TVs”. Os novos celulares foram apelidados de “super smartphones” devido a um novo tipo de processador interno, que permite que esses aparelhos tenham um desempenho que os deixa mais próximos dos computadores atuais do que dos smartphones que estão no mercado.

As TVs inteligentes levam esse adjetivo pois se conectam com a internet e permitem um tipo de interação própria da rede na programação, um recurso que não só é inédito como vai de encontro à natureza da TV.

Explico: por décadas, a televisão se firmou como um dos principais aparelhos na casa das pessoas. Começou a ser desafiada a partir dos anos 80, com a chegada do computador, mas só na década seguinte passou a disputar as atenções familiares. Com a internet, o computador deixou de ser uma estação isolada de entretenimento e trabalho para assumir o papel de meio de comunicação.

E aí a TV começou a ser vilanizada. Enquanto o computador era festejado por permitir a interação, o diálogo, a colaboração e a participação, o televisor era tido como um aparelho que estimulava a passividade, o tédio e a apatia. Até a postura das pessoas frente às duas máquinas foi usada como metáfora para o que ambos faziam com seus usuários: o computador fazia o sujeito se inclinar para frente, como se o puxasse para dentro do monitor; a TV o largava para trás, deitado no sofá.

Isso começa a mudar com essas TVs que se conectam à internet, que ainda estão em sua infância. Online, a televisão corre o risco de recuperar sua posição central na casa – ou pelo menos de tirar esse trunfo do computador. É difícil apostar que ela volte a se tornar o principal aparelho do lar justamente por causa da evolução dos smartphones. São eles que vão fazer a ponte entre o lar e a rua, a TV gigante na sala e o conteúdo que você quer levar no bolso – o celular funcionando como uma espécie de versão em miniatura e acessório inteligente do aparelho principal. E é aí que o tablet – seja da Apple ou não – fica sobrando.

Minha coluna de ontem no Caderno 2 foi sobre a febre dos tablets na CES da semana passada – e você.

Pranchetas digitais
Você precisa mesmo de um tablet?

O iPad foi praticamente uma bomba-relógio – armada para estourar um ano depois. Os rumores sobre um possível tablet da Apple começaram logo após o Natal de 2009 e só eles foram suficiente para fazer as ações da empresa subirem de valor – e botar o mercado para correr. E na Consumer Electronics Show (CES) de 2010, realizada em janeiro do ano passado algumas semanas antes do anúncio oficial do iPad, havia quem anunciasse seu próprio tablet antes mesmo de saber se o da Apple era de verdade ou não. Quem tentou lançar o seu – a Microsoft foi uma das empresas que, a toque de caixa, quis sair na frente com seu Slate – ficou só com a fama de querer correr atrás da novidade alheia.

Corta para 2011 e voltamos a Las Vegas, para a mesma CES que tentou antecipar o que poderia ser o mundo dos tablets antes da Apple, e que surpresa… Todos têm seu tablet pronto para o mercado. Samsung, LG, RIM, Asus, Lenovo, Motorola e até a Microsoft apresentaram novas versões de dispositivos portáteis de acesso à internet que mais se parecem com uma prancheta do que um celular ou um laptop. Até o Google entrou na briga – não com um aparelho –, mas apresentou a nova versão de seu sistema operacional para celulares (o Android) que funciona também em tablets desse tipo. Por isso, não há dúvidas de que o tablet foi uma das principais estrelas da CES 2011, que começou na quinta passada e termina hoje.

Mas isso quer dizer que 2011 será o ano em que você comprará um tablet? É o que o mercado quer, mas será que você precisa de mais um aparelho digital portátil – além do computador?

Como disse na coluna da semana passada, é questão de tempo para que o desktop – o bom e velho computador de mesa – perca seu espaço como principal aparelho digital da casa. O celular já assume algumas dessas funções, o laptop já ultrapassou o número de computadores tradicionais vendidos no Brasil e a TV aos poucos começa a lançar seus tentáculos rumo à internet.

O tablet surge, em 2011, como um meio-termo entre o televisor, o celular e o PC. Mas ainda não é – nem acredito que vá ser – o principal aparelho eletrônico de uso individual. Seu reinado parece ter prazo limitado, até que alguém finalmente conecte esses três aparelhos (TV, celular e PC) sem precisar colocar uma prancheta eletrônica entre um e outro como ponte digital.

Por isso, por mais que o mercado pareça dizer que você precisa ter um tablet em 2011, resista à tentação consumista de um aparelho que deve se tornar obsoleto em pouco tempo. Mas se o seu negócio é ter as novidades quando elas saem, bem, isso é outra história…

Esperando o sol

Você não acha que os palhaços riem de você?

Somos espíritos de um mesmo deus
Portanto, somos o mesmo
O homem de hoje nega esta simples e bela verdade pela maior parte do tempo
E isto é triste

Capitalistas conformistas e racionalistas
Tiram seus carrões para trabalhar
Vestem-se iguais indo para seu trabalho rotineiro e chato
Recriminando pessoas como eu, que parecem diferentes
Eu sou o espírito de Deus
Você também
TUDO é DEUS
Isto não é maravilhoso?

O status quo funciona tão bonitinho com seus uniformes
Mas quando o importante é ajudar as pessoas
Veja como eles fogem
E isto é triste
Triste

A desumanidade piora e se torna mais enojante a cada dia que se passa
E quem não é corrupto em termos financeiros, é corrupto em termos morais
Eu sou o espírito de Deus
Você também
TUDO é DEUS
Isto não é maravilhoso?

Se você se acalmar e entrar em um estado de paz, poderá ver a beleza simples da vida
E tudo será uma questão se você virá ou não
Eu sou o espírito de Deus
Você também
TUDO é DEUS
Isto não é maravilhoso?

Os corruptos moralmente acham que estão dando o golpe no destino
E sequer percebem o que eles vão enfrentar no final
E eles seguem felizes, sem se preocupar com o mundo
Isso é triste

Há pessoas que tentam alcançar Deus das formas mais esquisitas
Mas mesmos os animais mais simples sabem que só há uma forma de estar em Deus
E mesmo que você seja uma pessoa boa, não precisa rezar
Eu sou o espírito de Deus
Você também
TUDO é DEUS
Isto não é maravilhoso?

Calma lá: nem virei poeta hippie, nem fui convertido a nenhuma doutrina oriental ou filosofia holística (nem tenho nada contra nenhum dos três, não me entenda mal). Isso aí é John Lennon – ou ao menos a tradução às pressas de uma interpretação para “I Am the Walrus”, dos Beatles, que eu encontrei na rede. A letra original é um surto dada, em que John empilhou referências cotidianas com o tempero surreal que estava descobrindo na fase elétrica de Dylan. A faixa começa com o mesmo tecladinho evasivo e autista que abria “Strawberry Fields Forever”, só que em vez de decrescente e intimista, vem bufão e autoritário, como um apresentador de circo.

(Um parêntese pra falar deste teclado, marca registrada da psicodelia Lennon. Como as melhores coisas dos Beatles, ele foi inventado de forma quase casual, como um subproduto do andamento das baladas de Phil Spector. Mas diferente da versão de McCartney para o mesmo teclado, que é cheia de referências aos anos 40, pesa as duas mãos no tempo central da música e pode ser ouvido em faixas como “Let it Be”, “Hey Jude” e “The Fool on the Hill”, o de Lennon ganha um aspecto de sonho justamente ao alternar as duas mãos no tempo da música. Ele testou, consciente ou inconscientemente, outras formas deste andamento por todo Sgt. Pepper’s (“Lucy in the Sky with Diamonds”, “Being for the Benefit of Mr. Kite!”, a parte do meio de “A Day in the Life”), mas logo percebeu que não poderia fugir da fórmula mágica posta em prática em “Strawberry Fields” – não custa lembrar que ela foi a primeira música a ser gravada da fase Sgt. Pepper. “I Am the Walrus” seria apenas uma das muitas vezes que o teclado seria revisitado. Outras viriam em “Flying”, “Sexy Sadie”, a parte do refrão de “Happiness is a Warm Gun”, “I’m So Tired”, “Dear Prudence” e “Wild Honey Pie”. O auge deste formato é sublinhado pelo próprio Lennon, que usa a fórmula como base para a música que ele escolheu para ser lembrado, “Imagine”. Mas a influência deste tecladinho psicodelia Lennon pode ser percebida em todo lugar, em gêneros diferentes: nas guitarras góticas de grupos de nü-metal, no andamento teutônico dos electros mais câmera lenta, em boa parte das guitarras mezzo Sabbath das bandas de Seattle (Dust, do Screaming Trees é praticamente um disco em homenagem a este andamento). Até no pop brasileiro é possível encontrar filhos diretos do tecladinho, como “A Sua” da Marisa Monte e “Dois Rios” do Skank)

Gritando mansinho (daquele jeito), Lennon começa uma letra que parece não ter pé nem cabeça:

I am he as you are he as you are me and we are all together
See how they run like pigs from a gun see how they fly
I’m crying

Sitting on a cornflake, waiting for the van to come
Corporation t-shirt, stupid bloody tuesday
man you been a naughty boy, you let your face grow long
I am the eggman
They are egmmen
I am the Walrus
Goo goo ga joob

Mr. City policeman sitting pretty little policemen in a row
See how they fly like lucy in the sky
see how they run
I’m crying, I’m crying
I’m crying, I’m crying

Yellow matter custard dripping from a dead dog’s eye
Crabalocker fishwife pornagraphic priestess
Boy, you been a naughty girl you let your knickers down
I am the eggman
They are egmmen
I am the Walrus
Goo goo ga joob

Sitting in an English garden waiting for the sun
If the sun don’t come you get a tan from standing in the English rain
I am the eggman
They are egmmen
I am the Walrus
Goo goo ga joob

Expert texpert choking smokers
Don’t you think the joker laughs at you
ho ho ho
hee hee hee
ha ha ha
See how they smile like pigs in a sty, see how they snied
I’m crying

Semolina pilchards climbing up the Eiffel Tower
Elementary penguin singing hare krishna
Man you should have seen them kicking Edgar Allen Poe
I am the eggman
They are egmmen
I am the Walrus
Goo goo ga joob

Agora compare a letra inicial com a “interpretação” inicial feita pelo sujeito que a publicou online, cujo nome foi apagado pelo tempo. Minha parte favorita é quando ele “traduz” “Goo goo ga joob” para “Isto não é maravilhoso?”. Poderia ter traduzido como “Que loucura” ou como “Iabadabadu”, que daria na mesma – sem brincadeira. Pra “I Am the Walrus” (“Eu sou a Morsa”) virar “Tudo é Deus” é meio brabo, mas dá pra entender pelo contexto. No entanto, nem é preciso saber muito inglês pra ver que o cara forçou a barra pra chegar nesta interpretação.

Forçou mesmo?

Ou será que toda interpretação é uma forçação? Estamos acostumados às versões mais simples, às que nos parecem mais lógicas, mais racionais, mas sabemos que tudo pode ser interpretado de qualquer jeito. Racionalizando, é possível explicar os pedófilos, os satanistas, os nazistas e a América corporativa. Porque a linguagem é traiçoeira, ela separa a essência de qualquer coisa ao criar um símbolo que a represente, fazendo com que o símbolo se torne tão importante quanto a própria essência, substituindo a “qualquer coisa” inicial (“O homem branco fala com a língua partida”, diz um ditado indígena, em referência à língua da serpente e ao duplo sentido da linguagem).

Quando rotulamos o que queremos dizer com palavras, nos limitamos ao significado destas. Que, por sua vez, podem ser interpretadas de diferentes formas, de pontos de vistas díspares, contraditórios e complementares. Em uma simples palavra podem residir diferentes falhas de interpretação. E diferentes acertos. Afinal de contas, se estamos discutindo sobre pontos de vistas, podemos facilmente chegar à conclusão de que não existe um ponto de vista definitivo, Verdadeiro, com letra maiúscula. Ou que, se houver, não diz respeito àquilo que discutimos com palavras.

Parece contraditório, mas o fato é que a linguagem parece atrapalhar a comunicação. Não precisamos de gestos, palavras ou sinais para nos fazermos entender. Nós somos os nossos próprios sinais, a essência do que representamos e nos perdemos em símbolos para nos tentar fazer entender. Mas basta um olhar para dizer tudo. E mesmo que o olhar possa ser entendido como um símbolo, uma representação, há algo por trás do olhar que diz tudo. Um brilho, que tem tanto a ver com epifanias religiosas, psicodélicas ou físicas, como com sentimentos mundanos, como a paixão, o amor entre pais e filhos e com o ar dos animais. Negar este brilho é negar a própria experiência da vida, preferir se ater ao emaranhado burocrático de informações para conseguir algum tipo de destaque social – menosprezando o mesmo como “piegas” ou “perda de tempo”.

Então para que serve toda a trama da vida, suas nuances e diferenças, se o que basta é um mero sentimento de unidade final? Serve, justamente, como escada para chegarmos a esta conclusão – que nunca é completa. Viver a vida é entregar-se à experiência, à novidade, deixando a postura defensiva para trás. Claro que é fácil falar e que algumas destas defesas vamos carregar para o túmulo, de tão grudadas estão em nossa memória genética. Mas se não percebermos que a vida não tem manual de instruções, a possibilidade de nos afogarmos em frustrações torna-se onipresente.

É preciso tentar, ir em frente, ver a vida por outras perspectivas, outros pontos de vista. Não tome o que é certo pelo que os outros dizem – o dogma é só uma das armadilhas que a religião nos força a acreditar. É preciso saber como as coisas são por si só, e se você já teve vontade de fazer algo e não fez, criou um problema a mais desnecessariamente. Como dizem os keyseanos, “a longo prazo, estaremos todos mortos” – só se vive uma vez.

Por isso qual é o problema de uma interpretação de uma música nos levar a este nível de discussão? Descrito, este texto poderia soar idiota, sem objetivo, sem motivo – mas só há um jeito de descobrir, não é? E só a partir daí você deve tirar suas próprias conclusões… Ou você precisa de um lide? Ou da moral da história?

O que nos traz de volta à “I Am the Walrus”, desta vez interpretada por um amigo próximo de Lennon, Pete Shotton. Autor do livro John Lennon in My Life, lançado em 1983, Shotton não era apenas colega dos quatro Beatles nos tempos de Liverpool como continuou sendo um dos principais amigos pessoais de John, até sua morte em 1980. No trecho abaixo, Pete lembra de como Lennon escreveu a canção:

“Certa tarde, enquanto John escolhia os felizardos em uma sacola de correspondência de fãs, ele encontrou, para nosso encanto, uma carta de um estudante da escola de Quarry Bank (escola onde os Beatles estudavam). Após as costumeiras expressões de adoração, o jovem revelou que seu professor de literatura estava tocando músicas dos Beatles na aula, e depois que os garotos tinham sua oportunidade de analisar as letras, o professor dava sua própria interpretação sobre o que os Beatles estariam realmente falando. (Isto, claro, vindo da mesma instituição de ensino cujo diretor resumira os prospectos do jovem Lennon com as palavras: “Este garoto está destinado ao fracasso”).

John e eu caímos na gargalhada com o absurdo da situação. “Pete”, ele me disse, “como era aquela música sobre o ‘Olho do Cachorro Morto’ que cantávamos na época do Quarry Bank?”. Pensei por um instante e a música me veio:

“Yellow matter custard, green slop pie,
All mixed together with a dead dog’s eye,
Slap it on a butty, ten foot thick,
Then wash it all down with a cup of cold sick”

(Meleca amarela, poço verde torto
Misturado junto com olho de cachorro morto
Taca no outro, três metros de burrice
Depois limpa com uma xícara de gripe)

“Isso!”, disse John. “Fantástico!”. Ele pegou uma caneta e começou a escrever: “Yellow matter custard dripping from a dead dog’s eye….” (“meleca amarela pingando do olho do cachorro morto…”) e assim foi a gênese de ” I Am the Walrus” (a Morsa – walrus – em si se materializou logo depois, praticamente saída de Alice Através do Espelho, de Lewis Carroll). Inspirado pela imagem de um professor de literatura fazendo considerações sobre o simbolismo em Lennon-McCartney, John criou as imagens mais ridículas que pôde imaginar. Ele usou “semolina” (um pudim sem gosto que éramos forçados a comer quando crianças) e “pilchard” (um tipo de peixe que dávamos aos nossos gatos). “Semolina pilchard climbing up the Eiffel Tower…”, cantarolava John, escrevendo com gosto considerável.

Ele virou-se para mim, sorrindo: “Vamos ver o que esses porras vão inventar sobre essa, Pete”.

Goo goo ga joob!

* Este texto foi publicado originalmente no dia 16 de agosto de 2003

E minha primeira coluna no Caderno 2 em 2011 foi sobre o… fim do computador.

Adeus, computador
Kinect, iPad e o celular em 2011

Um recorde foi batido duas vezes durante 2010: o de aparelho eletrônico que vendeu mais rápido na história. O detentor da marca anteriormente era o aparelho de DVD, lançado no final dos anos 90, mas na metade de 2010, o iPad da Apple, que só no primeiro dia nas lojas já havia alcançado a incrível marca de 300 mil unidades vendidas, garantiu o título. Em dois meses após seu lançamento, já havia mais de dois milhões de tablets passando de mãos em mãos pelo planeta.

Quase no fim do ano, o Kinect, acessório para os games da Microsoft, bateu o mesmo recorde, vendendo quase o dobro que o iPad no mesmo curto período de tempo.

Os dois aparelhos têm diferentes propósitos, mas são bem mais parecidos do que dá para supor. iPad e Kinect foram lançados visando ao entretenimento do consumidor final – o primeiro é um dispositivo portátil de conexão à internet, o segundo um acessório para o console de videogame Xbox 360. Também são os filhotes mais queridos de duas velhas rivais, a Apple e a Microsoft. E é aí que outras coincidências começam a ganhar até um ar de ironia.

Principalmente pelo caso de, graças à Apple e Microsoft, estarmos acostumados ao formato monitor, teclado, gabinete e mouse, para trabalhar, nos comunicar e nos entreter. Eis a ironia: as duas empresas estão apostando suas fichas em algo que não tem nada a ver com o formato digital que estabeleceram no final dos anos 70 e é central no dia a dia da maioria das pessoas do mundo: o computador pessoal.

Isso não quer dizer, no entanto, que já é hora de aposentar o velho desktop – mas já dá para dizer, sem exagero, que o computador já não é a central do mundo digital como foi há até poucos anos. Este lugar está passando para o celular, à medida que o telefone móvel ganha novos recursos e, claro, acessa a internet. Pode reparar – se ainda não aconteceu com você, é bem provável que ao seu redor muita gente já use o celular para traçar rotas em mapas online, para descobrir o telefone ou o endereço daquele restaurante ou em que cinema está passando aquele filme num determinado horário.
iPad e Kinect, portanto, só vêm acelerar o processo de distanciamento do computador.

Com o primeiro, ler um blog ou assistir a um filme comprado online tornou-se uma atividade tão trivial e corriqueira quanto ler um livro de papel. Com o segundo, controlar a ação de um videogame – e, consequentemente, daquilo que acontece na tela – não mais pressupõe ter um controle na mão, afinal você mexe no que está vendo apenas com o movimento do corpo, detectado pelo acessório.

Mais do que isso: ambos abolem por completo mouse e teclado, dando aos movimentos das mãos e do corpo liberdade para interagir com a tela. Isso é só o começo. Não vai demorar para que esse tipo de interação migre para a televisão, para o carro e para outros aparelhos com que temos de lidar diariamente.

Mas iPad e Kinect apenas aceleram um processo que, como já disse, é encabeçado pelo celular. E se você acha que nunca vai precisar do telefone móvel para acessar a internet, melhor pensar duas vezes. Se não dá para cravar que 2011 será o último ano do computador pessoal, já posso afirmar, sem dúvida, que você usará seu celular para acessar a internet em menos de um ano. Se já não estiver fazendo isso.

E na primeira edição do ano do Link, escrevi um texto sobre o que há em comum entre Wikileaks, Facebook e o ano que está começando

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WikiLeaks e Facebook são mais do que duas faces do tema privacidade: são a prova que, para encarar 2011, é preciso cautela, pois o Big Brother de George Orwell pode ser uma rede antissocial

Mark Zuckerberg agradece o prêmio que acabou de receber da Time, eleito “pessoa do ano de 2010” segundo a revista – que também já elegeu Hitler (1939), Stalin (1938 e 1942) e ‘Você’ (2006) como personalidade do ano. Mas no meio de sua fala de agradecimento, um problema na transmissão faz surgir na tela a imagem do jornalista australiano Julian Assange, fundador do WikiLeaks que invade o pronunciamento do Cidadão Zuck para falar algumas verdades sobre a escolha da revista.

Bebendo uísque numa sala de estar em algum lugar remoto do mundo – a janela mostra o exterior, à noite, e está nevando –, ele troça da escolha da revista (“Time, sempre à frente: descobriu o Facebook apenas algumas semanas depois da sua avó”) antes de falar uma verdade sobre a escolha da revista: “Vejamos: eu dou de graça para todos informações particulares sobre as corporações e sou um vilão. Mark Zuckerberg vende as suas informações particulares para corporações e ele é o homem do ano”. Hmmm…

A cena é, na verdade, um quadro do programa humorístico norte-americano Saturday Night Live: Zuckerberg é interpretado por Andy Samberg (conhecido por ter transformado em hit o quadro “Dick in a Box”, ao lado do cantor Justin Timberlake) e Assange é interpretado por Bill Hader (que vive um dos policiais na comédia Superbad – É Hoje). Mas, apesar de ser apenas uma piada, o quadro escancara a principal tendência para 2011 no que diz respeito ao mundo digital. Afinal, WikiLeaks e Facebook têm muito mais em comum do que simplesmente o fato de serem ambientes nascidos na internet.

Ambos sites lidam com dois temas urgentes nos dias de hoje: exposição e sigilo, que podem ser vistos como um só – privacidade ou segurança, dependendo do ângulo. A forma como os dois sites lidam com informações que em décadas anteriores se restringiam a círculos privados restritos (desde as altas cúpulas executivas ao recanto tranquilo de seu lar) acaba por torná-los gêmeos de índoles diferentes, como o citado quadro do Saturday Night Live faz crer.

Afinal, são quase gêmeos mesmo: embora tenha sido criado em 2004, foi só em setembro de 2006 que o Facebook abriu seus cadastros para qualquer um que não fosse estudante universitário (a rede social era restrita a esse tipo de usuário até então). E no mês seguinte, era registrado o domínio do WikiLeaks, site que só foi lançado de verdade em dezembro daquele ano.

Ambos lidam com uma questão crucial na era digital: de quem são os dados que circulam na rede? Mais do que isso – a quem pertence a informação no mundo pós-internet? Aquela foto que você tirou no réveillon é sua? E se alguém passou atrás na hora em que você tirou esta foto? E se esse alguém não queria ser visto naquela comemoração de ano novo? Você está infringindo seus direitos autorais ou sua privacidade? Ou será que, como prega o CEO do Google, Eric Schmidt, se você tem algo a esconder, talvez fosse melhor que você nem estivesse fazendo?

São questões sem resposta – ainda. Mas algumas dicas sobre o futuro deste debate apareceram em algumas capas de revista durante o ano que passou. Uma delas foi da Wired de agosto, que declarou a morte da web. Polêmica, a capa abriu um debate sobre a natureza da internet e como nos relacionamos com ela. A revista advogava que, uma vez que as pessoas estão acessando a rede cada vez mais por telefones celulares, a interface feita para computadores no início dos anos 1990 (a World Wide Web) estava perdendo espaço para outras formas de utilização da internet.

Fato: a internet não pertence mais apenas aos computadores. E, uma vez que está à disposição de qualquer aparelho que se conecte a ela, dá para subir informações de qualquer lugar. Seja comentar em um blog, publicar uma foto ou atualizar sua conta no Twitter. Deixando de lado a questão técnica sobre a natureza da rede, levantada pela revista, e trazendo o assunto de novo à nossa discussão, o fato de a internet não ser mais uma rede e sim várias faz com que se perca completamente o controle sobre qualquer coisa que seja publicada online.

Outra capa pegou carona nesta discussão para ampliá-la: na edição de dezembro da revista Scientific American trouxe ninguém menos que Tim Berners-Lee, criador da World Wide Web, para escrever sobre estas mudanças que estão ocorrendo na rede. No artigo “Vida Longa à Web”, o cientista reclamava que estas diferentes sub-redes criadas dentro do ambiente digital poderiam matar a essência da internet como a conhecemos hoje.

Redes fechadas de venda de conteúdo (como as criadas pela Apple, Microsoft, Sony e Nintendo) ou ambientes que se esforçam para trazer todo o conteúdo online para o mesmo lugar (como tentam Google e Facebook) tornam a navegação fragmentada e a rede, que antes permitia a comunicação de todos com todos, se tornaria menos entrelaçada e os diálogos, dispersos, isolados. Esta balcanização da rede poderia deixar a internet mais estagnada, menos frutífera, mais controlada.

O que nos leva à terceira capa de revista, com Zuckeberg eleito como personalidade do ano pela Time no fim de 2010. Seria Mark o criador de um ambiente propício à interação, ligando milhões de pessoas entre si (“O conector”, diz a legenda de sua foto na capa da revista)? Ou ele é o dono de um império de informações construído a partir de nossos dados? A quem pertence as informações contidas no Facebook? A todos que estão lá ou à empresa fundada quase no susto por um ex-estudante de Harvard?

Se estas questões seguem em aberto, elas voltam para nós como um alerta: cuidado com o que você publica online. Mas tal ressalva não depende de cada um de nós, uma vez que basta fazer compras na Amazon para que seus dados – sua lista de compras, seus hábitos de consumo – se tornem públicos (ou, ao menos, públicos para a Amazon). Usar a internet quase que pressupõe a autopublicação e mesmo que você apenas “curta” um link que um amigo colocou no Facebook, você está publicando algo.

Por isso é bom entrar em 2011 com isso em mente: uma vez online, seus dados não são mais seus. Mesmo que isso ainda não seja regra, é bom trabalhar sabendo disso – é uma lógica que vale tanto para pessoas quanto para empresas e instituições. Afinal, a qualquer minuto alguém pode levantar diversos dados sobre você e jogá-los para todos – vide o que fizeram com Julian Assange depois que ele começou a vazar documentos confidenciais dos Estados Unidos. E pode ser que, depois de uma década “social”, comecemos a encarar a internet como uma rede de potencial antissocial, em que todos estão vigiando todos. Em algum lugar, George Orwell, autor do clássico 1984, sorri sem graça.

O primeiro ano 10

“Sinto no ar… Coisas boas… Que estão pra chegar!”

2010 foi um ano intenso, em todos os sentidos. Felizmente, só o lado bom dessa intensidade toda me pegou de jeito – e por isso só posso terminar estes 12 meses agradecendo as companhias sensacionais que facilitaram a confluência de bons fluidos pro meu lado, gente que já está comigo há algum tempo, mas cujos laços foram fortalecidos bastante este ano.

No trabalho foi um ano de afirmação e óleo nas engrenagens – foram feitas mudanças e melhorias aqui e ali para transformar o Link no melhor suplemento de jornal do Brasil, seja em que área for. Migramos o site para WordPress, abrimos 13 novos blogs (entre eles o de David Pogue, do New York Times), falamos sobre o novo RG digital, trolls, early-adopters, política 2.0, 4chan, crowdsourcing, legislação digital, virais, lolcats, acervo eletrônico, direitos autorais, o avanço do Facebook no mundo e no Brasil, Wikileaks – temas que poucas vezes são associado ao velho clichê de caderno de informática, abandonado há eras em prol da cultura digital.

Publicamos em 3D (e eu fui lá fazer o vídeo – em 3D – para explicar a novidade) e fizemos debates na Livraria Cultura (e eu fui lá mediar uma das mesas, sobre leitura em tempos digitais) e ainda tivemos o auxílio luxuoso de bambas como o Dahmer, a Chiquinha, o Cersibon, o Bráulio Tavares, a Juliana Cunha. Pessoalmente, quatro trunfos, conhecer os estúdios de Peter Jackson na Nova Zelândia, fazer um especial sobre Lost num caderno de cultura digital, visitar a fábrica de vinil em Belford Roxo e entrevistar Bruce Sterlingfora que ganhei uma coluna no Caderno 2 e um blog que leva meu nome. E nada disso aconteceria tão bem não fosse o fato de estar cercado diariamente por essa usina criativa que são os rapazes e moças que formam a equipe do caderno, gente que, pessoalmente, viveu uma série de altos e baixos emocionais durante o ano – só quem viveu, sabe. Não preciso citar nomes: só vocês sabem o quanto cada um de nós ajuda a equilibrar o balanço desse barco. Pode vir, 2011!

O fim de Lost também encerrou outro ciclo, que, pela inércia, virou rotina. Começou com uma desculpa para formalizar o encontro pra falar bobagem entre eu e o Ronaldo no Comentando Lost, mas os encontros semanais continuaram e deram origem ao Vintedez, programa que terminou esta semana, mas que – spoiler! – seguirá reencarnado em breve (mistéééério). Os bate-papos com Ronaldo – ou EVANGELISTA, como sutilmente mudou o nome de seu blog – sempre culminam em almoços prolongados que se estendem por horas de discussão sobre qualquer assunto. Terapeutas involuntários um do outro e debatedores de um programa de entrevista que ainda não está sendo filmado, eu e Ronaldo usamos a web 2.0 como desculpa para afinar amizade. Que deve ir pro plural, uma vez que uma das metas para 2011 é trazer mais gente para a conversa. É a tal da compreensão, Ronaldo!

Aqui no Sujo, fritei. Além de ter usado o site como muleta para as horas livres em frente ao computador, desopilando opinião e repassando informação com o fôlego do nadador que, no fundo, sou (resolução de ano novo? Nah). Mas de um tempo pra cá, o ritmo reduziu e a tendência, como você já deve ter percebido, é revirar arquivos. E também trazer mais gente: duas experiências neste ano me abriram a cabeça para a colaboração em massa. Primeiro, a coletânea OViolão, que, com o Bruno, consegui reunir parte da nata da nova música brasileira em uma compilação de MP3. Depois foi a maratona Lost, a princípio solitária nas terças-feiras do primeiro semestre, e depois coletiva, com a semana de especiais sobre a série (fuce a tag, ela é demais). Isso é só uma amostra do que deve rolar com mais freqüência no ano a seguir.

Não apenas no Sujo, mas como nOEsquema. Foi um ano em que os quatro quase não se viram, se falaram ou armaram algo maior. Todo mundo enrolado com um monte de coisas, colhendo frutos que foram plantados muitos anos antes de estarmos no Gardenal. Aliás, um breve encontro com Bruno e Arnaldo no Rio no início do segundo semestre serviu apenas para engatilhar a certeza de que, embora isolados, ainda somos OEsquema. Mini não esteve nesse encontro, que certamente há de acontecer em 2011. Que trará ainda mais novidades, behold.

E, claro, 2010 foi o ano que eu casei. Mas não vou amolar mais vocês com o meu casamento porque a esposa me chama para descer para a praia – e é só essa conjunção (esposa e praia) que importa agora.

2010 foi ótimo, o melhor ano da minha vida – e tendo eu te visto pessoalmente ou não. O mantra segue intacto: “Só melhora”. Fico offline até o meio da semana que vem, quando começo a contagem regressiva das 100 melhores músicas de 2010. Enquanto isso, fiquem bem – e juízo.

E se preparem que 2011 vai ser “o” ano! Os anos 10 só começaram – e não têm esse nome à toa!

PS – E no ano que vem comemoro direito os 15 anos do Trabalho Sujo, que rolaram no fim de novembro e eu deixei passar quietinho…

E a minha última coluna do ano do Caderno 2 fala sobre como a cultura está deixando de ser produto para virar serviço – ao menos no que diz respeito ao mercado.

O digital inevitável
Cultura enquanto serviço

Você lembra como fazia, há dez anos, para ouvir um determinado artista que alguém tinha comentado? Era preciso esperar que o disco fosse lançado por alguma gravadora e, caso o artista fosse estrangeiro, torcer para que o álbum saísse no Brasil. Se a obra em questão fosse audiovisual – filme ou programa de TV – o processo era mais complexo, pois os lançamentos eram ainda mais escassos.

Dez anos dentro do século 21 e como é que um cidadão online descobre sobre determinado artista ou filme? O método mais simples e popular é o YouTube. O site de vídeos do Google tornou-se um imenso repositório de cultura que abriga trechos de shows, programas de TV, trailers de filmes, vídeos de gente filmando discos raros em vinil sendo tocados, artistas que se lançam primeiro em clipes e músicas que outros usuários sobem no site sem autorização dos autores.

Desde que o Google comprou o YouTube há a promessa de limpar o site de conteúdo autoral indevido. Filtros foram criados para detectar vídeos colocados à revelia de seus donos, parcerias foram feitas com estúdios de Hollywood e gravadoras multinacionais, mas o YouTube ainda segue uma imensa terra-sem-lei no que diz respeito a direitos autorais.

(A culpa dessa rixa entre a internet e os velhos produtores de conteúdo pode ser posta nas gravadoras majors que decidiram “resolver” o “problema” da música digital processando quem baixava MP3 sem autorização. Caso fizessem uma associação com o Napster, o primeiro software que permitiu o download digital em escala massiva, talvez hoje estivéssemos felizes por pagar por MP3 legais e de excelente qualidade musical. Mas divago.)

Além do YouTube, no entanto, há outras formas de se consumir conteúdo digital sem que isso necessariamente esteja associado a downloads ilegais. Mesmo porque boa parte dessas alternativas, como o YouTube, nem cogita a possibilidade de download. São serviços pagos por assinatura em que é possível se ouvir qualquer tipo de música, em qualquer computador, a qualquer hora.

São nomes estabelecidos na última década (como as redes da Apple, Sony, Microsoft e Nintendo) e novatos que já fazem muito barulho (como a locadora online Netflix ou os serviços de assinatura musical como Spotify e Grooveshark). Nenhum deles está disponível no Brasil, mas já são uma tendência sem volta: o conteúdo cultural em vez de ser estocado em lojas e prateleiras agora é reunido em HDs e servidores. Cultura, aos poucos, deixa de ser um produto para se tornar um serviço. E se isso já começou a mudar a forma esse consumo, vamos começar a ver como isso afeta a produção cultural. O digital inevitável irá, necessariamente, mudar conceitos como “disco”, “livro” e “filme” – novos artistas já estão fazendo isso. Os anos 10 estão só começando. Feliz 2011!


Foto: Daily Kos (2009)

Jornalismo autêntico
Ação e reação, prega Al Giordano, do Narco News

Al Giordano é editor do Narco News, site de notícias que cobre a guerra contra as drogas promovida pelos EUA de um ponto de vista heterodoxo, e ele encerrou ontem, domingo 16, o evento Mídia Tática Brasil, discutindo mídia, resistência e o que ele chama de “jornalismo autêntico”, uma versão moderna do intelectual orgânico proposto por Antonio Gramsci. Abaixo, um apanhado em texto corrido de diversas respostas que ele me deu num pingue-pongue antes de sua palestra.

“Não planejo trabalhar por aqui, não da maneira convencional. Vim como turista, para ouvir, aprender, conhecer a linguagem que me permita conversar, não apenas trabalhar. Estou de folga. Seis anos atrás saí das telas de computador, das redações, dos deadlines, TVs, telefones, tudo isso e fui para o Chiapas no México e passei uma parte considerável de um ano inteiro entre comunidades zapatistas, apenas ouvindo e aprendendo.

Foi a melhor coisa que eu já fiz. Três anos depois, o Narco News nasceu, baseado em boa parte nas táticas e estratégias que estudei nas montanhas e selvas de Chiapas. Acho que, para nós que trabalhamos com tecnologia de mídia ou jornalismo, é importante sair da tela de vez em quando, e é aí que você tromba com notícias de verdade, notícias sobre pessoas. O Narco News, apesar de ser uma operação que trabalha com um orçamento muito baixo sem publicidade ou venda de produtos, hoje é gigantesco em termos de leitores e de impacto internacional, especialmente neste hemisfério. Ele quebra os bloqueios de informação além das fronteiras e idiomas. E há um time talentoso que entende o jornalismo autêntico como eu, por isso estou dando um tempo.

Nosso editor convidado, Gary Webb e o chefe do escritório andino Luis Gómez, são os porta-vozes do Narco News quando estou fora. Este jornal internacional online começou em inglês em abril de 2000 e depois de um tempo tinha cerca de 100 mil hits por mês. Agora chegamos aos dois milhões mensais. Passamos a nos comunicar em espanhol em janeiro de 2002 e agora começamos a publicar em português… O processo está apenas começando. Somos uma pequena redação nômade, viajando pela América Latina e publicando online nossas matérias sobre a guerra contra as drogas, a mídia e a democracia.

No mês passado, organizei a Escola de Jornalismo Autêntico Narco News na Isla Mujeres e na Península Yucatan, ambas no México. Tínhamos 26 alunos matriculados, seis do Brasil, e Renato Rovai, editor da revista Fórum, foi um professor brilhante e editor do Narco News em português durante os dez dias do curso.

Vi entre os participantes brasileiros um brilho, uma esperança, um sentimento do que pode ser feito, que me intriga muito. Nos EUA, como todo o mundo sabe, o pensamento livre e revolucionário é desanimado e sublimado. Não vivo mais lá há seis anos. Tenho falado espanhol em minha vida cotidiana, em algum lugar do país chamado América (se refere à América Latina). Acho que é hora de aprender português e estudar o que acontece em seu país. Se o Narco News é trilíngüe, por que seu editor não deveria ser também? Talvez o “vírus da mídia” que nivela o campo de ação esteja fervendo no Brasil.

Você deve entender que o mundo anglófono tem um problema de linguagem: esqueceu de falar vários idiomas. Se eles ensinam uma língua estrangeira na escola ou é espanhol ou francês. Talvez alemão ou italiano ou latim. Português, muito menos o brasileiro, está muito atrás e os EUA em particular são uma cultura muito etnocêntrica. Muitas pessoas nos EUA sequer falam uma segunda língua. E isto trava seu crescimento.

Há um entendimento que o Brasil é país muito rico em termos tecnológicos, um dos principais produtores de software do mundo, conhecido por sua aviação e computação e que é um gigante econômico, mas não é isso que me interessa em relação ao seu país. O que me interessa é a sociedade, as pessoas. Um de nossos correspondentes, a jornalista autêntica carioca Karine Muller, acabou de postar uma reportagem muito interessante sobre o que acontece no Rio, no Narconews. Prefiro ouvir dela, porque ela é quem mora lá. É a cidade dela, a voz dela, e não a de um gringo, que deve ser lida e ouvida sobre os acontecimentos no Rio.

Nosso time de colaboradores tem crescido exponencialmente com a Escola de Jornalismo Autêntico: correspondentes na Argentina, Bolívia, Brasil, Colômbia, Equadro, México, Peru, Venezuela, Europa, EUA… Os leitores foram recentemente apresentados a eles e verão ainda mais gente aparecer em breve. É um processo excitante. Mas enquanto isso, as condições objetivas para a revolta de massa contra a Tirania da Mídia estão se ajustando e o assunto está se agitando em grandes pontos da América do Sul. Sou um jornalista e sei quando sinto o cheiro de uma boa história. Também sou um revolucionário que faz com que esta história continue indo. E eu acho que o jornalismo autêntico de hoje não pode apenas ser ambos, como DEVE ser.

As pessoas estão chegando à conclusão que a mídia se tornou, em nosso tempo, uma espécie de Estado, mais poderoso que governos. No caso da mídia de emissão – TV e rádio -, poderosos interesses econômicos tomaram conta das ondas públicas, espaço que deveria ser patrimônio de toda humanidade, e colocou-o a serviço apenas daqueles que podem pagar anúncios.

Por que isto é ruim para eu e você? Anunciantes querem espectadores e ouvintes com dinheiro para gastar, emissoras dependem de anunciantes e assim os grandes pólos de mídia pararam de servir à maioria. Que maioria? Aqueles de nós que não têm dinheiro para gastar. A mídia sintoniza seus produtos com os ricos e o resto fica à míngua. A maioria das pessoas, sem riquezas, não têm nenhum acesso, muito menos acesso proporcional, ao nosso espaço de transmissão de ondas. E isso é igual em todo o planeta.

E não estamos falando de tecnologia! Muito pelo contrário: o ser humano de hoje trava uma guerra de 24 horas por dia entre o indivíduo e a tecnologia. Para cada vantagem que a tecnologia trouxe aos esforços de resistência, eles trouxeram dois problemas adicionais: a total vigilância oferecida pelas tecnologias de comunicação – internet, telefones celulares, rádio pirata e TV – em relação àqueles que as usam, e o fato que, em muitos casos, os donos ainda podem desplugar tudo quando o momento revolucionário começar.

Atos heróicos de resistência, sim, são possíveis neste mar caótico de mídia e, na melhor da hipóteses, pode preservar e expandir liberdades. Mas estes atos são feitos por humanos, não por telefones celulares ou sites na web. Se uma brecha no sistema nos permite usar telefones celulares, nós usaremos. Esta brecha pode fechar amanhã e aí estaremos usando outra coisa. Eu acho o uso tático de celulares fascinante. Mas só humanos comprometidos com suas missões, num sentido de guerrilha, e o compromisso de revolucionários autênticos poderá derrubar o Rei Mídia. As grandes revoluções através da história podem ter acontecido com armas, mas elas não eram sobre armas. Em muitos casos, trouxeram mais paz e justiça e menos uso de armas. A revolta das massas que acontecerá contra o Tirano Mídia acontecerá com tecnologia, mas não é sobre tecnologia. Ao contrário, pode resultar num uso menor de tecnologias de dominação e certamente no menor abuso destas.

Eu não sei qual é a solução contra esta ditadura. Eu já me fiz muitas perguntas, tanto no Narco News, como em outros lugares. Eu estou muito empolgado com o fato que pessoas criativas e talentosas estejam pensando e trabalhando neste problema de mídia no Brasil. Sei de um lugar que está passando por uma batalha tensa sobre o papel da mídia na sociedade, que é a Venezuela. Muitas dessas idéias discutidas no Mídia Tática atingiram um nível de participação popular junto às massas venezuelanas a ponto que o que tem acontecido lá merece estar nos holofotes dos pensadores e agentes desta Renascença da Mídia Autêntica. A Venezuela em 2002 deve ser visto como um farol que nos ajuda a saber o rumo nas batalhas que virão.

Quem se importa com o que a mídia corporativa diz? Temos que substituí-la, tirá-la de lá e deixar o caminho livre. São mercenários. É nosso trabalho deixar a audiência baixa. Os agentes da mudança sempre são retratados como maus e é trabalho deles agir assim. Ignore o que a mídia comercial diz. Melhor ainda – amarre-os em suas próprias regras, porque eles estão rompendo todas as regras que eles mesmos estabeleceram a respeito de bem estar, verdade, democracia e outros de seus slogans.

No Narco News, nós seguramos eles em sua própria retórica. Muitas de nossas histórias mais populares estão no campo da crítica de mídia, mas não é uma crítica singela. Nós vamos atrás de repórteres e empresas de mídia corruptas e antiéticas pelo nome. Torna-se muito pessoal para muitos deles. Alguns perdem seus empregos depois que os denunciamos. Achamos que os repórteres da mídia comercial deveriam prestar atenção e perceber que estamos seguindo-os em sua própria retórica. E digo isto como alguém que foi um jornalista comercial – para jornais, revistas, TVs, rádios, internet e na maior parte matérias investigativas sobre crimes e política – em meu país por quase uma década. Jornalistas perderam seu rumo. Não é suficiente ser uma “alternativa” e pedir permissão para reformular as coisas. A Renascença do Jornalismo Autêntico está viva e bem em nosso hemisfério. Estou indo ver como as coisas andam no Brasil.

Claro que, enquanto estiver em São Paulo e no Brasil, estarei ouvindo meus colegas e todas as pessoas que eu encontrar, sobre suas soluções para o problema da mídia. Eu iria a São Paulo de qualquer jeito e fui convidado ao encontro do Mídia Tática. Acho que eu estou no lugar certo, na hora certa, vê? Bastou planejar uma folga da maldita tela que fui ao econtro de notícias de valor. É aí que as notícias são encontradas: longe da Tela”.


Foto: Atti Ahonen (2010)

Derek Holzer é o cara que deu origem ao Next Five Minutes, o encontro de novas mídias e resistência eletrônica que proporcionou a criação do Mídia Tática Brasil, que aconteceu entre os dias 13 e 16, nas mediações da Paulista, aqui em São Paulo. Derek foi o principal destaque do primeiro dia e fala, às 20 horas, na palestra “Desvendando a Mídia Tática”. Conversei com ele pouco antes de pisar em solo brasileiro.

O que você espera em relação ao Mídia Tática Brasil e à cena brasileira?
Honestamente, espero mais aprender do que ensinar. Você deve achar que esta cultura de “resisitência eletrônica” que falamos seja global – talvez universal – mas é fato neste assunto que qualquer tipo de movimento político cultural está profundamente enraizado com a cultura local de onde ele nasce. Muito da net.art inicial saiu do desejo de europeus ocidentais e orientais em encontrar uma rede eficaz e sem mediação para comunicar as descobertas de ambos mundos. Mais recentemente, contudo, ela se tornou um meio de exploração muito formal na Europa e um fetiche sobre o design criado por uma cultura corporativa na América do Norte. Em cada caso, com notáveis exceções, eu diria que os agentes foram de alguma forma seduzidos rumo a uma estetização das ferramentas de seu próprio negócio, e para longe do uso destas ferramentas no compromisso com preocupações sociais mais profundas. Além disso, meu interesse em visitar o Brasil é muito próximo àquele que me levou à Europa Oriental há alguns anos: ver uma comunidade eletrônica que ainda está se desenvolvendo e aprender quais, se algum, outros modelos estão sendo importados e nível de pensamento crítico que acompanha a adaptação destes modelos.

Como você vê o evento dentro desta nova resistência eletrônica mundial?
Estou muito impressionado com a coerência da programação e certamente mal posso esperar para ouvir o que os palestrantes locais têm a oferecer. Mesmo nesta cultura de ciberativismo e ciberteoria, o culto ao “rockstar” existe. Numa tentativa de se legitimizar melhor, muitos eventos em países com cenas de novas mídia chamadas de “em desenvolvimento” se entopem com os mesmos nomes que estão apresentando os mesmos trabalhos há oito anos. As vozes locais são simplesmente sufocadas. É bom ver, neste evento, as vozes locais estão realmente no primeiro plano. Acho que os brasileiros têm muito a ensinar uns aos outros, como têm a aprender com artistas da Europa e dos Estados Unidos.

Quais são as relações entre esta cultura eletrônica, o movimento antiglobalização e as recentes passeatas antiguerra?
Uma coisa que eu acho que separa os novos desenvolvimentos na resistência eletrônica, seja em relação à globalização das corporações ou mobilizações massivas antiguerra, é que há uma vontade de encontrar os oponentes de frente, usando suas mesmas ferramentas e táticas contra eles. Um excelente exemplo disso é o site do Gatt – um site falso para a Organização Mundial do Trabalho que recentemente anunciou o fim da OMC e sua reformulação como uma organização dedicada à Declaração Universal dos Direitos Humanos. Este anúncio foi levado a sério em muitos lugares, incluindo no Parlamento Canadense, onde gerou uma discussão sobre como isto afetaria as leis de comércio de madeira. Este tipo de tática não era apenas impossível para uma geração ou duas antes da nossa, mas também sequer seria considerada, uma vez que o foco naquela época era muito maior na criação de comunidades utópicas contraculturais que foram rapidamente assimiladas, cooptadas, desarmadas ou tornaram-se guetos graças à influência da mídia mundial homogeinizadora. David Garcia e outros criaram um marco para a cultura de resistência e suas relações com a mídia nos grupos ativistas de conscientização contra a Aids, como o ACT-UP no meio dos anos 80. Com seu apelo militante “fora do gueto e dentro da mídia de todo o jeito possível”, eles definiram uma estratégia que ainda é a base da maior parte do ativismo de mídia atual.

Fale de sua experiência com rádio online.
Como meu primeiro envolvimento com esta nova cultura de mídia aconteceu através da net.radio, eu me sinto muito próximo a este movimento. Um dos primeiros players-chave em net.radio foi o Re-Lab em Riga, na Latvia. Para eles, net.radio era uma forma de estabelecer conexões com outros artistas através do mundo à medida que se tornava caro realizar estes encontros pessoalmente: requerimentos de visto, passagens de avião e por aí vai (muitos brasileiros são familiarizados a esta situação, tenho certeza). Para os pioneiros da net.radio na Latvia, a comunicação não era necessariamente um modelo de transmissão de rádio um-para-muitos. Em vez disso, era uma rede ponto-a-ponto que compartilhava experimentos de áudio entre um grupo fechado entre a Europa oriental e ocidental. O foco estava na participação, mais do que na audição e o resultado final quase nunca era tão importante quanto o processo de comunicação pelo caminho.
Isto, claro, pavimentou o caminho para o que aconteceu depois, especialmente a explosão do Centro de Mídia Independente depois das passeatas de Seattle em 1999. Net.radio então passou para o modelo um-para-muitos (ou talvez muitos-para-muitos) de novo, quase sempre usando combinações híbridas de internet, rádios piratas, livres, comunitárias e universitárias para espalhar a mensagem o mais distante possível.
Em minha própria experiência, vi meu projeto na República Tcheca, Radio Jeleni, ir de uma média de três a 3 mil ouvintes por dia durantes os protestos contra o Banco Mundial e o FMI durante o outono do ano 2000. No fim das passeatas, quando a atenção global voltou-se para o “next big thing”, a audiência voltou aos três, refletindo o momentário, mas impermanente, mudança do modelo P2P ao modelo de radiodifusão tradicional. Para mais informações sobre este modelo ponto-a-ponto de comunicação, sugiro o ensaio de Eric Kluitenberg, Mídia Sem Público (Media Without an Audience), que é altamente baseado nas experiências dos primeiros inovadores de net.radio, há seis ou sete anos.

Como eventos deste tipo podem atingir um público maior?
Eu tenho alguns comentários sobre isso, talvez não um plano, mas alguns conselhos.
Primeiro: considere seu público. Muita discussão acontece – e ainda assim é muito necessária – no tópico de tática mídia em um nível “expert”. Isto é, num nível em que os envolvidos são praticantes de mídia. Estas discussões devem ser as mais transparente possíveis para atrair o público, refletindo a idéia de uma mídia transparente sobre a mídia fechada do sistema, mas nunca devemos confundi-las com eventos para o público em geral. Discutir táticas de comunicação com o grande público não é o mesmo que comunicar idéias com este mesmo público. O “produto final” de um evento como o Mídia Tática, na minha opinião, deveria ser tão eficaz em dar informação como qualquer outra mídia, mas deve convidar dez vezes mais à participação. Nada é menos convidativo à participação do que a metadiscussão de insiders, o que faz com que a maioria das pessoas tenha este sentimento que esta coisa de cultura eletrônica é só para experts, geeks e freaks.
Segundo: mantenha a nível local. E isso em várias maneiras. Convidados estrangeiros podem trazer novas idéias, mas olhe o que eles fizeram com a política na América Central, os sistemas de saúde de vários países africanos ou as transições econômicas na Europa Oriental ou na região do Báltico! Use-os com muito cuidado e alto teor crítico. Há uma impressão em vários lugares que visitei e apresentei projetos que as pessoas irão escutar idéias estrangeiras de forma mais receptiva do que as locais. Enquanto isso é parcialmente verdade, idéias que vêm da Holanda pro Brasil, por exemplo, podem ser facilmente menosprezadas como pertencendo “à outra cultura” ou sendo “imperialista” ou coisas do tipo. Por isso, tenho um conhecimento muito limitado do Brasil e de sua cultura. Como posso fazer algo em termos de mídia para seu povo? Muito melhor seria prover a melhor informação e inspiração que eu posso e deixar os brasileiros fazendo eles mesmos suas mídias. Desta forma, a infraestrutura da Holanda e do Brasil podem ser tão diferentes como a temperatura. O que funciona em Amsterdã – rádio pirata, internet de banda larga e TV a cabo não-comercial e independente – pode não ser a solução ideal num país com restrições fortes sobre o rádio, uma infraestutura de internet mais fraca e bem menos dinheiro para emissoras alternativas. Encontrar suas forças na distribuição pública, mais do que se basear inteiramente em modelos integralmente importados, te deixa muitos passos à frente do gueto de mídia que prega apenas para os convertidos.
Terceiro: fique tranqüilo. Permitir-se ser estereotipado é o equivalente a ser cooptado ou marginalizado pela mídia mainstream, que come aquilo que pode usar e caga aquilo que não pode. O arquétipo de mídia do “hacker”, por exemplo, é útil pois cria paranóia. A paranóia é útil porque vende coisas – tudo, de programas antivírus a programas de defesa nacional. Da mesma forma, tempo gasto desconstruindo mitos sobre o trabalho de alguém é tempo desperdiçado. Entrar em uma discussões como se ele é mais um phreak de computador em busca da glória do que um ativista de verdade, ou pior ainda, tentar separar em público um do outro, é usar a terminologia alheia e reforçar os arquétipos da mídia. Fique mais calmo, mude suas táticas antes que elas tornem-se estagnadas, negue ou subverta rótulos criados para você e você descobrirá que a reação do público ao inesperado é muito maior do que ao esperado. Recentes ações do Critical Art Ensemble e outros no campo da biotecnologia merecem ser citadas. Quem poderia prever, ainda mais encontrar um arquétipo de mídia que possa ser usado para, um grupo de ativistas que reverteriam a engenharia de plantas modificadas geneticamente, tornando-as vulneráveis aos herbicidas que supostamente elas seriam imunes? “Genoterroristas”? “Agrohackers”? Quando algum rótulo grudar, os efeitos da ação já terão sido sentidos.

Como o Brasil é visto pela comunidade eletrônica global?
Eu não tive tempo de perguntar ainda. Volto em algumas semanas com a resposta! Falando sério, eu acho que há muita atenção se voltando para a América do Sul à medida em que os experimentos laboratoriais econômicos feitos pelo Fundo Monetário Internacional e outras entidades financeiras que governam o mundo começam a falhar, um após o outro. O Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, também mostrou apoio popular numa escalada pela resistência determinante às regras econômicas globais em detrimento aos direitos humanos sobre privilégios de negócios. Minha esperança pessoal é que os brasileiros provem estar prontos para criar suas próprias idéias no front eletrônico, mais do que se tornar um grupo de markting para esquemas de design coloridos vindos do exterior, pois estão no front social. Saberia exatamente sobre isso a partir desta semana.

O Mídia Tática Brasil deu início aos seus trabalhos nesta sexta, 7 de março, com uma mesa redonda histórica – literalmente. Afinal, foi a primeira vez que duas forças antagônicas do pensamento pós-eletrônico se encontraram pessoalmente: de um lado, o americano John Perry Barlow, vice-presidente da Electronic Frontier Foundation e autor Declaração de Independência do Ciberespaço; do outro o inglês Richard Barbrook, do Hypermedia Resource Center e autor do Manifesto Cibercomunista. Só isso bastaria para a noite no Sesc Avenida Paulista ser rotulada com o adjetivo citado no início, mas se levarmos em consideração que tal encontro aconteceu no Brasil, num evento de natureza inédita por aqui e com a chancela do governo federal, podemos crer que as implicações são muito mais profundas do que em qualquer outra circunstância – especialmente para nós, brasileiros.

Mas o que deveria ser um embate de forças e idéias, tornou-se um motivo para ambos defenderem seus pontos de vista ao mesmo tempo que espezinhavam-se mutuamente. Tirando todo o debate ideológico e informacional, o que se assistia era à velha arenga entre ingleses e norte-americanos: um acusava o outro de ser radical demais, caricato demais, previsível e ingênuo demais. Cada um à sua maneira: Barlow exibindo aquele showmanship ianque que substitui o carisma por uma arrogância sarcástica [“De onde eu venho, do Wyoming, ser chamado de stalinista é um insulto”, depois que Barbrook apenas citou o stalinismo como parte do cânone do comunismo]; Barbrook arregalando os olhos à cada declaração de efeito do americano, engolindo gargalhadas em tom de desprezo e cuspindo sua franqueza britânica como o punk acadêmico que é [“Deus me perdoe por concordar com John Barlow”, disse antes de concordar com o óbvio de uma proposição do público – que a fome seria um problema mais urgente que a inclusão digital]. O clima tenso e animoso era cortado pelas piadas populistas de Barlow e pelos comentários irônicos de Barbrook.

Sentado na ponta à esquerda da mesa, Barlow é, fisicamente, o que aconteceria com Chuck Norris se ele se tornasse pastor evangélico de TV. Sua atuação era puro showbusiness, naquele tipo de entonação “como eu sou foda” que o Jô Soares faz para agradar sua claque. Parte do público [auditório lotado, gente em pé e nos corredores], deslumbrou-se com o papo furado caubói: “Fiz parte de uma banda, que não é muito conhecida aqui no Brasil… O Grateful Dead”, “Eu coloquei o Timbuktu online”, “Não fui a Davos este ano”. Jocoso, defendia o ciberespaço como um fim em si mesmo, um universo paralelo que deve adequar-se à realidade offline.

Já Barbrook, no canto direito, parecia uma cruza de Ken Kaniff [um dos personagens sórdidos do Eminem] com um dos caras do Madness. Chapeuzinho de palha e blaser um número menor, movimentava-se constantemente durante o discurso de Barlow. Dirigia-se rispidamente ao microfone, falando em tom sério quando apresentava os conceitos de sua Gift Economy e mostrava esgar ao discordar do que seu colega de mesa propunha. Insistia constantemente que não há diferença entre o ciberespaço e a vida real, que um é apenas a projeção do outro; enquanto Barlow filosofava sobre um ser como a mente [o ciberespaço] e outro como o corpo [a realidade].

Ficaram trocando farpas, Barbrook se referindo à Barlow como neoliberal e Barlow chamando Barbrook de nervosinho. Mas não deixa de ser notável o fato de Barlow reduzir a internet à lógica capitalista, desprezando conceitos fundamentais da rede em prol de opiniões controversas como “se a Internet fizesse alguma diferença, eu estaria preso” [como disse ao Pedro Dória, do Nomínimo]. Barbrook contrapôs-se de imediato: “Se a internet não fizesse diferença, eu não estaria aqui”.

Parêntese para o ministro: Gil, que mediava o debate, no centro da mesa, veste bem o traje de ministro da cultura, mostrando-se desenvolto para abordar as ramificações da discussão, todos parentes do tema central, inclusão digital. Mais do que isso, traçou paralelos didáticos a respeito de proteção de patentes e direitos autorais eletrônicos e aproveitou uma deixa para registrar em público sua opinião sobre a reforma da previdência [“se formos nos basear em direitos adquiridos, a escravidão não teria acabado”].

Constantemente bilíngüe [brasileiramente britânico], mostrou-se um tanto equivocado sobre alguns conceitos [não é possível chamar de “ciberanarquista” um sujeito que defende o direito de propriedade [como se referiu a Barlow], nem dizer que “o capitalismo deu certo” em mais de 200 anos e “o comunismo deu errado em menos de 80”]. E, claro, aproveitou o microfone para cantarolar [“vestiu uma camisa listrada e saiu por aí…”, cantou à menina de camisa listrada que recolhia as perguntas do público], o que eu, pessoalmente, acho do caralho. Mídia tática é isso aí.

Mas se como ministro Gil foi correto, o mesmo não pode se dizer de sua atuação como mediador. Descaradamente puxou a sardinha pro lado de Barlow, a quem servia de anfitrião na semana passada. Os dois trocavam elogios como velhos camaradas e em alguns momentos o ministro deixou escapar o desprezo por alguns conceitos de Barbrook. Mesmo na mediação propriamente dita, quando se dirigia aos dois a fim de confrontar algum tema, virava o corpo para o lado de Barlow e terminava o debate concordando com o amigo. Não deixa de ser irônico o fato de Gil ter passado boa parte do debate voltado para a direita.

Fossem apenas as inconveniências ideológicas dos gringos, até passaria. Mas Gil falhou ao não estender o debate aos outros presentes: Danilo Miranda, do Sesc; João Cassino [que veio no lugar de Beá Tibiriçá], dos Telecentros, Ricardo Rosas, da organização do Mídia Tática, e Evandro Prestes, do Online Cidadão, apenas comentaram em uma ou outra oportunidade.

O debate ficou mais tenso quando recorreram ao tema da pirataria – Barbrook levantando a bandeira preta ao aplaudir a pirataria como vitória do povo sobre as corporações; Barlow baixando o polegar ao simplificá-la como crime organizado. Levantou-se a questão sobre a troca de arquivos via internet, que acabou respingando em Gil que, ao ser confrontado por uma pergunta do público que pedia a opinião sobre do ministro sobre o assunto, “como integrante da indústria fonográfica”. Encurralado, mostrou o crachá: “Eu, como ministro, tenho que defender a lei, o estado de direito”, safou-se, salientando que, no entanto, as leis precisam ser revistas devido à mudança dos meios.

Interessante observar que, a despeito de suas posições o ciberespaço em relação à realidade, os textos-chave de John e Richard proclamam seus conceitos básicos usando paralelos com o mundo real: Barlow emulou a Declaração da Independência de seu país, Barbrook o célebre Manifesto Comunista escrito em Londres por Karl Marx e Friedrich Engels. Ambas analogias são conservadoras e reacionárias [mesmo que Barbrook tenha usado sua referência ironicamente], nenhuma vislumbra um texto-chave a partir de uma base nova e eletrônica – nada de paralelos com o morto-vivo universo da palavra impressa.

O debate terminou como o fim de uma guerra de nervos: sem conclusão, conceitos em aberto, os participantes virando-se para lados diferentes. Mas vale sublinhar aqui a experiência descrita por Evandro Prestes, do Online Cidadão, que não apenas ilustra o papel do Brasil na nova cultura eletrônica, como prova que o uso da cultura como intermediação dos conceitos de tecnologia e liberdade pode ser a saída mais eficaz para este embate. Ele contou como a grande maioria da população que não é familiarizada à internet se sente desconfortável com as regras impostas pelo computador, deixando pouco espaço para a intuição. Até que ele encontrou um sujeito feliz, passeando pelas páginas, clicando nos links, abrindo novas janelas, pulando de site em site. Entusiasmado, começou a conversar com o novato internauta que, ao perguntado sobre o que ele estava lendo, respondeu, sem pestanejar, que não sabia ler. O fato, que fez a maioria dos presentes na palestra apiedar-se do caso citado, no entanto foi encarado de outra forma por Cassino: “Ele estava desenvolvendo todo o deslumbre, o lado lúdico, e entusiasmado com o universo do computador”, coisa que os outros não conseguiam – pois têm dificuldade de ler. E, alfinetando não apenas o ministro presente como o público do debate, concluiu que “inclusão digital também é para vocês, da cultura”. Ao tratar a cultura como algo alheio a seu universo, Prestes mostrou o imenso abismo no debate eletrônico brasileiro – e, ao mesmo tempo, jogou a corda para o outro lado, disposto a construir a ponte. O lance é saber se alguém vai pegar.