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Minha coluna no Caderno 2 ontem foi sobre o Twitter em 2011…

O último ano do Twitter?
O passarinho azul subiu no telhado – e parece que vem outra bolha por aí…

Tweets, trending topics, retweets, seguidores, hashtags, unfollow, #FF, @username… Toda essa terminologia já era conhecida de um punhado de usuários do Twitter antes da explosão da rede social, em 2009. Em 2010, o mundo inteiro abraçou o site – até mesmo o Brasil, tradicionalmente acostumado a uma vida digital paralela à do planeta, entrou na rede em grande estilo, emplacando vários termos e hits nacionais para o resto do mundo. Mas se em 2010, o Twitter indicava ter embalado num crescimento que parecia não ter volta, 2011, no entanto, dá sinais que pode ser o último ano da rede social do passarinho azul. Ou pelo menos como a conhecemos.

O Twitter já vinha dando sinais de desgaste no fim do ano passado, quando o tráfego de dados na rede caiu drasticamente em outubro, segundo o site Alexa. Especula-se que a queda só não foi maior pois a rede social foi traduzida para novos idiomas e começou a agregar usuários em países em que ainda não estava presente. A queda de audiência poderia estar ligada à nova interface do site, que estreou no segundo semestre do ano passado e desagradou muitos de seus cadastrados.

A crise política no Egito também ajudou o Twitter a ganhar uma sobrevida e pareceu repetir o feito de 2009, quando o site foi crucial nas eleições presidenciais do Irã. Como disse o comediante norte-americano John Stewart à época: “Não foi o Twitter que salvou o Irã. Foi o Irã quem salvou o Twitter”. Não é exagero dizer o mesmo do Egito em relação ao site. Só que o momento é exatamente oposto: em 2009, a rede social ainda não tinha vivido seu grande momento popular.

O principal aviso de que, provavelmente, o passarinho do Twitter pode estar com seus dias contados veio na quinta-feira da semana passada, quando o jornal Wall Street Journal publicou que os executivos da rede social estariam conversando tanto com o Google quanto com o Facebook para tentar vender o site – e teriam ouvido ofertas que pagariam entre US$ 8 e 10 bilhões pelo serviço.

Uma vez comprado – seja por quem for –, uma coisa é certa: o Twitter vai mudar. E, pelo histórico dos dois possíveis compradores, pode até acabar. Mas isso ainda é terreno de especulação.

Mas um número citado pelo jornal chama atenção – o de que a rede, hoje com mais de 150 milhões de usuários, teria sido avaliada em US$ 4,5 bilhões em dezembro. Em menos de dois meses seu preço dobrou? E se lembrarmos que, nesta mesma semana, o blog Huffington Post foi vendido à America Online por mais de US$ 300 milhões, não duvide que estamos às vésperas de uma nova bolha digital, como a de 1999.

Minha coluna no Caderno 2 de ontem foi sobre o jornal do iPad…

Um jornal para o iPad
E o futuro (fechado) da Apple

Na quarta-feira da semana passada, depois de muita especulação, finalmente foi lançado o jornal sem papel imaginado pelo magnata das telecomunicações Rupert Murdoch. The Daily é um jornal que só pode ser lido no iPad. Funciona como uma revista eletrônica diária, cuja diagramação se adapta à forma como se segura o tablet, além de conter conteúdo multimídia, como vídeos, áudio e infográficos em movimento. Cada edição custa US$ 0,14 (a assinatura anual custa US$ 39,99), mas, nos dois primeiros meses, o aplicativo é gratuito para os clientes da operadora norte-americana Verizon.

Mas mais do que uma tentativa de ver como funciona um veículo feito para ser consumido em apenas um tipo de aparelho, a aparição do Daily acontece junto de uma mudança drástica na política comercial da Apple. A empresa agora só permite que se baixe aplicativos gratuitos para seu tablet se isso ocorrer em sua própria loja, a App Store. De graça, agora, só se for via Apple.

É um momento interessante e, talvez, crucial para a sobrevivência do modelo de negócios ao redor do hypado tablet. Não custa lembrar que o iPod, o MP3 player que fez a Apple voltar ao cenário digital no início do século, só foi um sucesso de vendas porque permitia a inclusão de músicas que pudessem ser adquiridas em outro lugar além da loja da Apple. Será que se o iPod só tocasse músicas compradas na iTunes ele seria o sucesso que foi? Acho que não.

Outra nuvem que paira sobre o novo negócio da Apple é a própria presença de Rupert Murdoch, cuja empresa, News Corp., comprou o MySpace por meio bilhão de dólares em 2005. Foi o suficiente para a rede social, então a maior do mundo, começar a desandar. O futuro do MySpace, hoje, é mais do que incerto. Mau agouro?

E quem pode desafiar o poder da Apple e de Murdoch são os próprios usuários, como o norte-americano Andy Bayo, que pegou o conteúdo do Daily e o transformou em um tumblr (http://thedailyindexed.tumblr.com), aberto para quem quiser ler. Sem pagar.

Cara Microsoft
“Queria continuar no Hotmail, mas…”

O rapper Dan Bull ficou conhecido no fim de 2009 quando fez uma carta aberta em forma de vídeo à cantora Lily Allen reclamando do fato de ela ter sido descoberta na internet e na época se voltar contra os downloads ilegais. O alvo da nova missiva musical do norte-americano agora é a Microsoft. Num longo e-mail cantado, ele reclama que a empresa só dá passos errados hoje em dia.

Esse texto é do meio de 2003 (the frila years), quando um trabalho sobre cibersegurança me fez “ter que” contactar um guru da cultura digital brasileira no meio de um monte de executivos num evento no Itaim.

O motorista de Carter
Em meio aos seguranças da matriz

Os ossos do ofício me carregaram para um almoço executivo. Não sou afeito a tais manifestações, mas o fato é que não havia alternativa. Era preciso encarar um exército de engravatados na parca tentativa de estabelecer-se um mísero contato. Ah, grande era das comunicações, esta que vivemos. Tantas formas de travarmos diálogo e nada como o contato olho no olho, de corpo presente, para dar início a uma conversação de facto.

(Há de se levar o problema da idade em consideração – e não estou sendo simplesmente etário-preconceituoso. O fato de meu interlocutor, por mais entusiasta digital que seja, não ter o mesmo vínculo com o email que nós, nascidos depois de 1970 [eu sei, você nasceu um pouco antes, mas entende-se como “nós” – a linha aqui não é muito definida…], faz com que o contato eletrônico fosse apenas uma “troca de cartões”, para ficarmos na metáfora condizente ao ambiente em questão. Por maiores que sejam as qualidades da revolução eletrônica, elas tendem a ser abraçadas com mais força por pessoas que passaram a maior parte de suas vidas em contato com ela. É uma relação de proporção direta – é muito mais simples para mim do que para o meu pai escrever para uma interface web pública porque eu me acostumei com esse formato devido a uma vivência muito maior que a dele. É como aquela teoria que diz que a atual geração de personalidades da televisão é melhor do que a anterior, dita clássica, justamente por ter crescido vendo TV. Mas com o tempo, todos terão crescido vendo TV e todos terão crescido com o computador – e essa falha de comunicação não acontecerá mais. Problemas de transição, tamos acostumados. Você entendeu).

O fato é que lá estava eu, num hall de entrada de um prédio executivo num bairro executivo de São Paulo; desengravatado entre os engravatados. Confesso que a sensação de distanciamento objetivo é uma das minhas introspecções favoritas, mas é raro eu ter que senti-la fisicamente. Afinal, sou mediano em todas as minhas definições externas, talvez com a exceção da estatura e da tagarelice quando permitido (pelo cérebro). No entanto, não era a primeira vez que sentia que eu não pertencia ao grupo, falando em termos de aparência. Mas a ostensividade daquele ambiente fazia questão de impor-se a mim e a um ou outro gato pingado que não estivesse neste cosplay drag queen nazi corporate America chamado terno-e-gravata. KZ. Fuzilavam-me com o olhar, raios catódicos ao contrário que puxavam minha imagem para a parte de trás de seus cérebros, onde perguntavam-se: “Quem é esse? O que ele quer aqui? Conosco?”.

Mas você conhece a aura desses ambientes e sabe que tudo é muito fluido, tudo muito disfarçado – o jogo de cena é tudo. Por isso, nada de alardes ou testas franzidas. Apenas esgares medianos, olhares cruzados entre trocas de posições. As várias rodinhas de conversa ajeitavam os próprios quadris de quando em quando, para descansar a postura de pé , e nessa valsa disco music em câmera lenta (dois-pra-lá, dois-pra-cá, mas ninguém se encosta, a dança não é entre o casal, mas entre um grupo), quem ficava do lado de lá conseguia me ver melhor. Tantas perguntas, mas a hipocrisia reinante fazia tudo parecer muito natural. Natural a ponto de uma pessoa parar ao lado de um estande cheio de folders e começar a ler cada um deles. Foi o que eu fiz, para me distrair.

Falei em discoteca e é impressionante como esta antessala executiva me lembra uma pista de dança. Não uma pista de dança perfeita, mas essas pistas que a gente tá meio careca de encontrar: pouca mulher, várias rodinhas, música ruim, papo furado, xavecos fuleiros. Ugh. Melhor voltar pro folder: “…o sucesso da implementação de um novo serviço…”, o que é que tem mesmo?

Até que chega o bedel e recolhe o povo. “Acabou o recreio meninada, hora da refeição”. Todo mundo enfileirado rumo ao hall de elevadores, que levaria ao local da apresentação. Fui indo. Como quem não quer nada (eu só queria duas coisas), passei as outras rodas de conversa formadas na saída do elevador, no andar de cima, e fui logo para uma das mesas. Aos poucos, o salão foi enchendo e naturalmente chegaram ao meu redor.

Troca de sorrisos, troca de cartões, troca de funções. Estamos apresentando crachás uns aos outros, andando com etiquetas com nossos nomes, função e missão na lapela. Seguranças da matriz, agentes Smiths. Agentes de Adam Smith: Adão Smith, o primeiro homem executivo. Um dos abuletados brinca com o fato de quase todos estarem de terno (uma piada interna para menosprezar os que não estão?): “Certa vez li um artigo que dava dicas de como não ser confundido com um segurança”. Todos riram. Ele enfatizou seu próprio caso, afinal era negro – inegável -, e a loirinha a seu lado falou do fato de seu marido também sofrer do mesmo caso, em shopping centers. “Perguntam se ele não é o meu segurança”, ela diz. Todos riram. “Me confundem muito com o gerente”, diz um outro. Todos riram.

Mostre os dentes. Como um cavalo. É menos esforço do que o riso propriamente dito e tem o mesmo efeito. Fase insuportável, essa de apresentação. Todos contam historinhas idiotas, brincadeiras bestas, medindo-se. Nenhum toque a mais, tudo muito medroso. Parecem moleques no cinema, se mijando de medo de pegar na mão da menina. Observava tudo isso à distância, mas de vez em quando a abordagem virava-se para mim. Um clichê, uma frase de efeito, um caixa-surdo-prato verbal que demonstre a apreciação da piada recém-contada. Os garçons serviam bebidas e desajeitados executivos bebiam guaraná diet em copos de vinho.

Estamos em um limbo entre a etiqueta e a grossura, a finesse e o animal humano. Tudo aqui transpira fleuma de elite, mas o cheiro é de populacho. Quem esse povo todo pensa que está enganando? Certamente, a eles mesmos, isso é evidente. Mas, e fora deste circuito? É assim que eles funcionam? Provavelmente, não. Vejo esse arremedo de luxo como uma espécie de uniforme de irmandade, de pacto sinistro traduzido em polidez de araque. O garçom pergunta: “Vai mais aê, chefia?”. “Opa, rapaz!”, responde o bebedor. O vinho é caro, bem caro. Mas podia ser uma cerva, tanto faz.

Pergunto-me então o porquê deste travestismo social. Podiam realizar seus encontros em eventos informais, à beira da churrascaria, como bons executivos brasileiros em momentos de lazer. Mas, não. Algo naquele passeio de ternos e gravatas dava aos olhares a sensação de poder, de superpoder. Era como se pudesse estar na Sala de Justiça. Terno e gravata é um uniforme e tanto. Cosplay drag queen, blá-blá-blá, mas um uniforme de super-herói.

E todos me olhando como se perguntassem a razão de eu ainda estar em trajes paisanos.

O evento era o palco para meu contato, uma personalidade nova naquele universo, que preconizava o caos como solução para os problemas modernos – “problemas de transição”, suspiravam as paredes. Novas relações de trabalho, nova forma de encarar o consumidor, o papel da publicidade, revoluções culturais, o lugar da inovação, o novo governo. Era inevitável falar das mudanças de paradigma que estamos passando. E logo eu estava puxando a mesa para questões como música online e crise nas gravadoras, usando-as como exemplo imediato da ineficácia do mundo dos negócios a lidar com a, er, “mudança de paradigmas” que estamos assistindo hoje. Era mais ou menos a mesma coisa que o palestrante iria conversar, sabíamos. Metade da mesa se interessou pela conversa e logo o papo estava embalado.

Falávamos de horizontalização, do fim da hierarquia, da ação como melhor publicidade, do fato do mercado atual ser apenas o esqueleto mórbido do que já foi, só esperando a hora de ceder de uma vez. “O que é um banco”, perguntou-me o representante de universidade que estava do meu lado, “se não uma marca feita para lucrar a partir do trânsito de informações pessoais alheias? O que é a indústria automobilística, senão uma enorme gestora de várias outras pequenas indústrias? Essas duas instuições ganham muito dinheiro sem fazer praticamente nada, sem produzir nada. Não é à toa que estão em crise. E forçando outras crises”. Vieram à tona assuntos como software livre, a iminente queda de empresas gigantescas, o descrédito internacional dos Estados Unidos, propriedade intelectual e hábitos de consumo. Foi a melhor coisa que eu fiz, afinal de contas, ficaríamos apenas ouvindo o que cada um tem feito em sua própria empresa.

Resolvi tirar onda. E contei uma história que eu li há pouco, num livro do Tom Wolfe. Quase uma parábola, das diferenças das relações de poder entre a costa leste e oeste americanas e como esta diferença fez o lado de Nova York perder para o lado da Califórnia. Tudo a ver com a tal mudança de paradigmas… Como estava no meio de executivos da área, foi como se estivesse contando uma das lendas da Criação. Uns ficaram maravilhados, de olhos brilhando. Outros assentiam ceticamente, bebericando enquanto olhavam para a mesa.

Nenhum deles, no entanto, me olhava como estranho. Havia desconfiança no olhar de uns e entrega nos de outros. Mas todos estranhamente passavam a me ver com respeito, um respeito ao forasteiro. Engraçado o poder das palavras.

Entra o almoço, todos comem e em seguida o convidado é apresentado e põe-se a falar. No discurso, a história do software livre, da world wide web, da eletricidade, do movimento hip hop, da diferença entre hacker e cracker, da produção de hidrogênio, de que a esquerda e a direita sempre preconizaram a mesma coisa e só o movimento dos anos 60 realmente libertou as coisas. Muito para aquele público. Não para nós, daquela mesa do fundo. Ao meu lado, um cutucão e um sussurro: “Ele botou um microfone aqui nesta mesa, não foi?”, seguido de um riso cúmplice.

Não, nem foi. Não precisava. Depois da palestra, abriram para perguntas e comentários, e a maioria dos que pegou o microfone pigarreou contra a feliz novidade do século 21, que é o fim virtual da propriedade (se pudéssemos colocar nestes termos naquele local, talvez fôssemos expulsos, rapidinho…). Peguei o microfone e resolvi fazer o papel de escada, perguntando se toda mudança que ele falava não podia ser resumida na troca da verticalização para a horizontalização de poder. Foi quando uma mão pegou o microfone da minha e disse: “Conta aquela história”. Todos riram.

“Essa história deve ter sido contada muitas vezes, não apenas como uma espécie de amostra das diferenças de valores entre os executivos da costa oeste e da costa leste norte-americanas, mas como um dos inúmeros exemplos da mudança de paradigma que estamos assistindo. Robert Noyce era um jovem engenheiro do meio-oeste norte-americano que ganhava a vida como um dos primeiros cientistas a lida com o transistor, nos anos 50. Seu futuro seria brilhante: co-inventaria o microchip, inventaria o circuito integrado e o chip 1103 e daria início à produção dos microprocessadores nos anos 60 com sua própria firma, a Intel”.

“Mas no início dos anos 60, Noyce era apenas um dos líderes da Fairchild Semiconductors, uma das empresas mais bem-sucedidas do incipiente Vale do Silício, justamente devido às invenções de Bob – o 1103 e o circuito integrado. Sua doutrina de trabalho, capital para o sucesso daquele novo empreendimento, era a lei no Vale: não havia hierarquia, subdivisões de cargos, chefes disso, gerentes daquilo, privilégios, abonos, escritórios, vagas privativas. O estilo de Noyce, um dos dissidentes dos laboratórios Shockley, era uma das principais características do funcionamento das novas empresas de microengenharia – ou eletrônica, como começavam a chamar. Ali tudo era horizontal. O estacionamento era único, assim como o horário de trabalho. Não haviam paredes entre os funcionários, apenas divisórias de meia altura – até na sala de Noyce. Todos tinham exatamente a mesma escrivaninha, todos podiam convocar reunião a hora que quisessem, para tratar de quaisquer assuntos. Todos comiam a mesma refeição, usavam o mesmo tipo de roupa e eram igualmente instigados a sugerir, a dar idéias. Nada de ostentação, mesmo que todos ganhassem uma bela grana no que faziam. Trabalhar, para aqueles caras, era como estar na escola – sem professores”.

“Acontece que a Fairchild era uma empresa de um grupo nova-iorquino, investidor inicial no mercado de risco – à época – dos semicondutores e atual sócio da empresa. Os californianos viam os nova-iorquinos como pretensos europeus – ávidos por um poder feudal, de postos e cargos, funcionários exclusivos e secretárias pessoais, títulos de nobreza e lacaios à disposição. Para os novos executivos da costa oeste, os velhos executivos da costa leste eram uma monarquia decadente – com seus jantares em altos restaurantes, festas opulentas em clubes seletos, dinheiro queimado com marcas e exclusividades”.

“Um exemplo típico desta lógica decadente chocou-se com a realidade da Fairchild como um caminhão na parede da empresa, quando o presidente da Fairchild, John Carter, visitou a empresa. Com sua limusine e seu motorista, fardado como um militar prussiano, Carter foi conhecer a sede de sua rentável indústria de chips. Mas foi seu motorista que chocou seus funcionários”.

“Logo, todos estavam olhando pela janela, um funcionário que passa todo seu dia sentado, num carro, sem fazer absolutamente nada. Nada. Não era à toa que as empresas do Leste estavam perdendo dinheiro”.

E eu ali, sem terno-e-gravata, pensando naquela história. Pensando no que estaria errado naquilo tudo. Comendo uma imitação barata de petit-gateau. Que custou caro. Gastando meu tempo com coisas que eu já sabia, para falar apenas com uma pessoa.

Melhor não.

Sorri de volta e disse que não contaria, o resto da mesa insistiu, mas fiz charminho e devolvi o microfone de volta ao homem no palco. Ele falou da horizontalização e da verticalização mais ou menos como eu tinha imaginado, mas não iria surtir efeito. Não ali.

Depois, me apresentei pessoalmente ao sujeito que, para minha surpresa, já me conhecia. Trocamos “cartões”, discutimos idéias completamente distantes daquelas em discussão ali no local e ele me disse o que eu precisava saber. Contei rapidamente a história de Noyce e ele entendeu porque eu havia sublinhado a horizontalização num ambiente engravatado. Normal, mas meu trabalho estava feito. Com um nome e um telefone no bolso, segui meu rumo. Voltaria a me encontrar com aquela fauna futuramente, mas por enquanto, era só.

Minha coluna de ontem no 2 ainda seguiu falando da vinda do Wozniak ao Brasil.

Amigos digitais
O pai do PC e o futuro de sua invenção

Há uma semana, terminava a quarta edição da Campus Party, maior evento de cultura digital do País, e sua principal atração, mesmo com as presenças do ex-vice-presidente norte-americano Al Gore e do inglês Tim Berners-Lee, conhecido como o “pai da web”, não dá para dizer que nenhum deles chamou tanta atenção quanto o bonachão Steve Wozniak. Ele foi o criador do computador pessoal como o conhecemos (do formato monitor-teclado-mouse-gabinete) e foi cofundador da Apple – o grande trunfo de Steve Jobs foi perceber que poderia vender a invenção de Wozniak para o público em geral.

Sua palestra foi a mais disputada de todo o evento – e não era para menos, afinal os participantes da Campus Party se espelhavam em sua trajetória: um nerd sem vida social que, enfurnado em seu quarto e com uma ideia na cabeça, conseguiu mudar o mundo como o conhecemos e virar uma lenda viva. Grande parte de sua apresentação consistiu nisso: uma grande palestra de autoajuda em que Wozniak elegeu valores não convencionais no mundo dos negócios como o motivo para seu sucesso. Falou em trabalhar apaixonadamente, em alçar metas que os outros consideram impossíveis e no papel que o bom humor, a transgressão e a brincadeira têm na vida de pessoas que são consideradas geniais. Foi ouvido em silêncio quase solene, interrompido por risadas cúmplices e suspiros de admiração. Estava em casa, afinal.

Pouco antes de sua apresentação e da coletiva oferecida para o resto da imprensa, pude entrevistá-lo e, em vez de jogar a conversa para seu passado, preferi conduzir a conversa para o futuro de sua invenção.

Comecei o papo com a mesma argumentação que defendo aqui há duas semanas – de que aparelhos como o iPad e o Kinect estão mais próximos de degraus rumo ao futuro do computador pessoal do que de aparelhos que estarão em nossa rotina num futuro próximo. Ele concordou e disse que o que ambos aparelhos trazem de novidade diz respeito justamente à interação entre homem e máquina, mais do que novos tipos de produtos. E falou que, no futuro, eles lidarão com computadores como se fossem outras pessoas. “Se tornará bem difícil saber se você está lidando com um computador ou com uma pessoa de verdade”, profetizou.

Exagero? Pode parecer, mas quem diz isso não é um futurólogo ou um provocador, mas o sujeito que, nos anos 70, imaginou que os computadores, geringonças que ocupavam quartos inteiros nas décadas anteriores, seriam utilizados por qualquer pessoa, em casa. E se lembrarmos que boa parte da internet já funciona a partir de uma inteligência artificial bem diferente daquela que vimos nos filmes, não é difícil imaginar que, como o próprio Woz acha, teremos amigos digitais nas décadas a seguir.

McLuhan 100

2011 é o ano McLuhan – e escrevi a capa do Link sobre este assunto, além de traduzir um texto do David Carr sobre o novo livro do Douglas Coupland sobre o sujeito e entrevistar o filho do homem, Eric McLuhan.

O Século McLuhan

Woody Allen e Diane Keaton estão na fila do cinema, em crise (como sempre), enquanto alguém logo atrás deles exibe seu intelectualismo de araque (como sempre acontece em filas de cinema). O papo do coadjuvante começa a irritar Woody Allen, que inclui sua inquietação na briga com sua mulher.

Até que, em dado momento, o sujeito fala em Marshall McLuhan, sobre a influência da TV na cultura atual – é a gota-d’água para nosso herói, que vira-se para a câmera e lamenta a situação. O falastrão, então, interfere o lamento de Woody e começa a se gabar como acadêmico, que teria autoridade para falar sobre McLuhan. É quando Woody recorre a um absurdo genial – e puxa ninguém menos que o pensador canadense para a cena em que, sem pestanejar, crava: “Você não conhece nada sobre o meu trabalho!”.

E quem conhece? Teórico pop e acadêmico transgressor, Marshall McLuhan é o grande pensador da era digital. Um gênio que anteviu a vida eletrônica pautada pela comunicação total dos tempos da internet quando ela nem existia. A partir dos efeitos do rádio na cultura mundial, passou a analisar o impacto da publicidade e da mídia na vida das pessoas, pregando, nos anos 1960, uma transformação que ainda segue em curso. E em 21 de junho de 2011, ele completaria um século de vida, o que faz que este seja o ano de seu centenário.

Entre as comemorações, surge uma biografia que tem como título justamente a frase que McLuhan em pessoa profere no filme Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, de 1977, citado no início. You Don’t Know Nothing of My Work! assinado por Douglas Coupland, outro pensador pop que, em 1991, definiu seus contemporâneos como Geração X, e é uma tentativa de apresentar o trabalho de McLuhan à geração digital.

“Achei o livro divertido”, diz Eric McLuhan, o filho do pensador canadense que se propõe a ser seu sucessor intelectual. Michael McLuhan, irmão de Eric que toma conta do espólio do pai, não é tão otimista: “Achei um lixo. Seus insights sobre Marshall são poluídos com devaneios rasos como o que cogita que ele poderia ser autista – uma fantasia completa – e as páginas de blablabla e jogos de palavras que só distraem o leitor.”

O fato é que o autor de termos e expressões como “aldeia global” e “o meio é a mensagem”, por mais que seja popular, ainda está longe de ser compreendido. Como um Marx ou um Freud da era digital, ele antecipou problemas e discussões que só começamos a entender décadas depois de serem cogitados. Morreu em 1980, deixando sua obra em aberto para considerações alheias. O ideal seria, como no filme, puxar McLuhan do nada para o meio da discussão. É como diz Allen no fim da cena: “Quem dera pudesse ser assim na vida real.”

Entrevista: Eric McLuhan
“A aldeia global encolheu”

O sr. acredita que o trabalho do seu pai é compreendido?
É evidente que o trabalho de meu pai tem atraído a atenção de muitos na mídia atual. Há um dilúvio de material sobre ele – entrevistas e vídeos – repentinamente disponível online, mas só uma pequena porcentagem daqueles que estão interessados em seu trabalho tem alguma ideia do que ele estava falando. No geral, ele é tão incompreendido como sempre foi.

Como o sr. vê a obra de McLuhan à luz da web? A aldeia global ficou ainda menor?
A aldeia global foi criada para explicar os efeitos do rádio na primeira metade do século 20. Com os satélites e a web, alcançamos o teatro global, em que todos estão no palco e não há limites entre o elenco e o público. A aldeia global é parte do conteúdo do teatro global e talvez seja por isso que as pessoas a percebam de forma tão clara, pois ela não está mais no centro, e sim faz parte de algo ainda maior.

Gang of One

E por falar em Andy Gill, ressuscito aqui a entrevista que fiz com ele quando o Gang of Four veio para o Brasil, em 2006, que transformei em depoimento em primeira pessoa para uma edição da Bizz safra Ricardo Alexandre em que eu cuidei da capa – que era sobre o ativismo político de John Lennon logo que ele saiu dos Beatles. Para combinar com o tema, pedi para o Gill falar da influência da política em sua vida e arte.

***

“Eu comecei a ouvir música pop quando era garoto, ainda no rádio, mas não tinha consciência nenhuma sobre política, algo que só fui me dar conta à medida em que fui crescendo, como acho que é com todo mundo. E aconteceu à medida em que eu fui conhecendo outros artistas, como Jimi Hendrix – acho que Hendrix foi a primeira coisa que realmente me interessou no rádio –, os Rolling Stones, The Band, Dylan e, depois, mais tarde, dub e Velvet Underground.

Não sei se houve uma revelação política propriamente dita, algo que ficasse marcado na minha memória. Fui deixando de ser adolescente e percebendo meu lugar no mundo, questionando as coisas, acho que isso é bem natural para qualquer um. Mas havia algo nestas bandas que não era muito político, propriamente dito.

Eles pareciam usar a política como uma pose. Eu via os Rolling Stones cantando ‘Street Fighting Man’ e não parecia que eles estavam querendo fazer o que diziam na música. Era mais para acrescentar outro elemento de perigo à banda, coisa que eles já vinham fazendo desde o começo dos anos 60. Não era pra valer.

Outro aspecto era o de bandas como o MC5, que mandava tudo à merda, e parecia que estava apenas sendo panfletário contra ‘o sistema’, mais interessado em ir contra a sociedade careta do que em discutir política, de um jeito ou de outro. Esse era um problema muito específico em relação a várias bandas, que pareciam ter vagamente uma tendência de esquerda, anarco-alguma coisa, mas que não tinham vocação política e eram mais rock do que qualquer outra coisa.

E você tem artistas de esquerda mais tradicional, que cantam músicas de antes de terem nascido. Ou mesmo que componham estas músicas, como o Billy Bragg faz até hoje, não parecem atingir o coração das pessoas. Não me parecem relevantes hoje, nem me pareciam nos anos 80. Mesmo John Lennon, que queria se comunicar com as pessoas, estava preso no fato de ser uma superestrela.

Assim, foi fácil saber o que queríamos quando montamos o Gang of Four. Já tínhamos base para saber o que não queríamos. Não queríamos soar panfletários, nem partidários. Não queríamos soar de esquerda ou de direita. Queríamos que as pessoas pensassem em política de uma forma menos maniqueísta. Quando falamos de política, parece que estamos falando apenas dos políticos, mas quem vota neles somos nós e podemos fazer política o tempo todo, em qualquer lugar ou hora.

O fato de termos surgido durante o punk nos deixou ainda mais vacinado em relação a isso. Logo as pessoas estavam tachando o punk de político, Malcolm McLaren lançou esse conceito na primeira hora. Mas era exatamente a mesma coisa de antes. Não era política, era um assessório chamado política. Não queríamos isso.

Quando eu e o Jon (King, vocalista da banda) começamos, nos perguntávamos: ‘O que motiva as pessoas? O que as faz fazerem o que fazem?’. É claro que você pode resumir isso em apenas ‘economia’, mas não é só isso. As pessoas ainda estão fazendo as mesmas coisas que faziam no século passado, o marido ainda trazia o dinheiro para casa enquanto a mulher cuidava da comida e dos filhos. O mundo havia mudado, mas essas relações ainda não. Pelo contrário, elas haviam se tornado prisões: família, emprego, propriedade. As pessoas se prenderam nisso de uma forma que acham que isso é a vida delas.

Temos uma música chamada ‘Natural’s Not In It’ que fala exatamente sobre isso. Tudo aquilo que chamamos de “natural”, na verdade, é artificial, é criado pelo homem. Seja a sociedade, o conceito de justiça, de bom senso… Tudo isso é invenção humana, nada disso é natural. As idéias não são naturais. Qualquer uma delas, todas elas – são inventadas.

E não queríamos ser os portavozes da nova esquerda. Para isso, tiramos todas as referências de política de nossas letras e títulos – você vê os nomes das músicas e não diz que o conteúdo delas é política –, tudo que pudesse lembrar a política dos jornais tava fora. Não queríamos dizer ‘você está certo’, ‘você está errado’, ‘você é de esquerda’, ‘você é de direita’. Não queríamos nos separar das outras pessoas. Queríamos, sim, lembrar pra elas que, esquerda ou direita, estamos nesse barco juntos.

Mas a forma que você colocou é bem razoável. É isso: o Gang of Four não era uma banda de protesto, mas uma banda de crítica. Uma crítica à sociedade, à forma que vivemos, à música, ao rock, ao punk rock, às outras bandas, a nós mesmos. Era mais ou menos como o Situacionismo dos anos 60, não queríamos nos levar a sério, mas não queríamos só isso.

E aí tem o outro elemento que, pra nós é crucial, que foi o ritmo. Não queríamos soar como rock, não queríamos ser mais uma banda de rock. E tanto eu quanto Jon já vínhamos pensando em experimentar com ritmo, somos fãs de dub até hoje, de krautrock, do James Brown. Mas seria ridículo tentar recriar a atmosfera de qualquer um desses artistas na Inglaterra dos anos 70.

Por isso partimos do zero, da tela em branco, e fomos acrescentando as coisas à medida em que começamos a tocar. E as coisas foram se encaixando. O legal é que não pensamos nessas coisas, elas simplesmente foram entrando em seu lugar. Põe um prato aqui, um bumbo ali, um riff mais à frente. Começava com um baixo solto, entrava a bateria reta, a guitarra fazendo ruídos e o vocal – mesmo que a letra importasse – funcionava como um instrumento. As coisas iam entrando em sintonia sem que pensássemos nisso. Em vez de fazer canções de amor, fazíamos canções de antiamor – o que é diferente de uma canção de ódio, veja bem.

Foi quando começamos a por elementos de disco music na mistura. Primeiro porque adorávamos disco. A cena começou a ficar ruim devido à forma que a mídia explorou o tema, com filmes como ‘Os Embalos de Sábado à Noite’ e todo o tipo de banda gravando disco music. Mas antes de ficar massificado, era uma cena bem interessante e – como você colocou – política, por libertar a canção de um formato estagnado e deixar as pessoas mais soltas, em vários sentidos.

Eu entendo perfeitamente a raiva que as pessoas que gostam de rock tem com a dance music. Eles vêem um DJ tocando e acham que ele não é um músico. Eles vêem as pessoas se entregando à dança e acham que elas estão se alienando. Mas eles não percebem que a disco music – que depois se subdividiu nas diversas formas de música pop que hoje dominam o mercado, do novo rock ao hip hop – é tão ou mais rock’n’roll do que o próprio rock. Porque liberta as pessoas de diversas amarras e, se na época do punk, o rock já dava sinais de conservadorismo, hoje ele é o próprio sistema. Por isso, apesar de entender a raiva do rock, eu a acho ridícula.

Tanto que fomos vítimas dessa raiva quando, no nosso terceiro disco (Hard), fomos acusados de sermos traidores, só porque queríamos mexer com música pop e com sintetizadores. Na verdade, o disco não saiu legal, porque quem ia nos produzir era o Nile Rodgers, mas ele foi substituído em cima da hora devido a uma confusão da gravadora. E o produtor que entrou no lugar, não sabia nada da gente, então o Hard é um disco que eu não gosto tanto, embora algumas faixas – como ‘A Man with a Good Car’ ou ‘Woman Town’ são faixas que eu gosto. Mas os fãs odiaram! Embora hoje muita gente goste deste disco, o que eu acho ao mesmo tempo estranho e interessante, esse poder do tempo”.

E quando as redações começarem a virar assunto?

A pergunta surgiu no meio do debate da Campus Party que eu participei, feita pelo Gil Giardelli, e a Ana Brambilla discordou num dos pontos em que eu e o Forastieri concordamos (o Vinícius comenta o debate melhor do que eu, além de linkar os vídeos). Pra mim, WikiLeaks é jornalismo, ponto.

Se é bom ou mau jornalismo, isso é outra história – mas agora que temos um player jogando no ventilador notícias que não vêm via release de assessoria de imprensa nem com post-it grudado escrito “leia com atenção”. Sim, há a possibilidade de haver interesses escusos e de que seu criador estaria guiando a mídia tradicional de acordo com a sua agenda, mas o não dá para fugir que o site de Julian Assange propõe ao jornalismo tradicional o mesmo enigma digital que a indústria fonográfica enfrentou com o Napster, que pairou com o YouTube sobre o cinema e a TV, que o mercado editorial começa a ter de lidar com o Kindle. São os papéis do Pentágono e Watergate numa mesma tacada, sem intermediários e com um posterboy ególatra o suficiente pra se deixar virar ícone (pessoalmente, não grilo com isso, mas há quem se incomode).

E, na longa véspera de uma revelação que o site promete desde o ano passado sobre um grande banco americano, começam a sair as primeiras reações da mídia tradicional ao contar como foi lidar com Assange. Quem começou foi Bill Keller, editor-chefe do New York Times, que escreveu um texto gigantesco para a capa de sua revista dominical, lembrando a tradição de seu jornal, acusando Assange de manipulador, dizendo que WikiLeaks não é jornalismo e defendendo a imparcialidade sobre a notícia. Chama o jornal inglês Guardian, um dos veículos escolhidos por Julian para expor seus segredos de “abertamente de esquerda” e desqualifica Assange como excêntrico:

“He was alert but dishevelled, like a bag lady walking in off the street, wearing a dingy, light-coloured sport coat and cargo pants, dirty white shirt, beat-up sneakers and filthy white socks that collapsed around his ankles (…). He smelled as if he hadn’t bathed for days.”

O Guardian, por sua vez, veio com sua versão dos fatos, peitando principalmente o fato do WikiLeaks mudar a paisagem do jornalismo em tempos digitais, citando a Hillary, e do site ter mirado nos EUA. Escreve seu editor-chefe Alan Rusbridger:

Unnoticed by most of the world, Julian Assange was developing into a most interesting and unusual pioneer in using digital technologies to challenge corrupt and authoritarian states. It’s doubtful whether his name would have meant anything to Hillary Clinton at the time – or even in January 2010 when, as secretary of state, she made a rather good speech about the potential of what she termed “a new nervous system for the planet“.

She described a vision of semi-underground digital publishing – “the samizdat of our day” that was beginning to champion transparency and challenge the autocratic, corrupt old order of the world. But she also warned that repressive governments would “target the independent thinkers who use the tools”. She had regimes like Iran in mind.

Her words about the brave samizdat publishing future could well have applied to the rather strange, unworldly Australian hacker quietly working out methods of publishing the world’s secrets in ways which were beyond any technological or legal attack.

Little can Clinton have imagined, as she made this much praised speech, that within a year she would be back making another statement about digital whistleblowers – this time roundly attacking people who used electronic media to champion transparency. It was, she told a hastily arranged state department press conference in November 2010, “not just an attack on America’s foreign policy interests. It is an attack on the international community.” In the intervening 11 months Assange had gone viral. He had just helped to orchestrate the biggest leak in the history of the world – only this time the embarrassment was not to a poor east African nation, but to the most powerful country on earth.

O debate segue em aberto, mas eis um novo efeito colateral: sobre o jornalismo. Cada vez mais os bastidores do jornalismo se tornarão notícia e interesse geral e um filme sobre WikiLeaks (cada vez mais palpável) poria a público como as coisas realmente funcionam nas redações como o filme sobre o Facebook começou a expor as entranhas do Vale do Silício. Mas antes de entrarmos na paranóia sobre quem detém o monopólio da notícia, o que é exclusividade no século 21 e a velha discussão entre transparência e segurança, deixo o recado do professor Timothy Garton Ash, que foi ao Fórum Econômico de Davos justamente pra falar sobre WikiLeaks:

“Every organization should think very hard about what it is you really need to protect. You’re probably protecting a whole lot you don’t need to. And then do everything you can to protect that smaller amount”

Ou seja, quem tem, tem medo. Se não tem, é bom ter. Como digo: paranóia é precaução.

Steve Wozniak e eu

A entrevista que fiz com Steve Wozniak foi para o caderno de economia de hoje:

Conversaremos com os computadores como se fossem pessoas’
Steve Wozniak, cofundador da Apple, acredita que 0 computador se tornará o melhor amigo das pessoas

Ele hipnotizou centenas de participantes da Campus Party ao contar sua trajetória no sábado, numa palestra que teve mais olhares atentos que a do ex-vice-presidente americano Al Gore, na terça-feira. Não era para menos: não bastasse ser um dos maiores nomes da história da computação, a história de Steve Wozniak, cofundador da Apple, é muito parecida com a da maioria dos participantes do evento que terminou ontem. Um nerd por excelência, o ex-parceiro de Steve Jobs falou ao público sobre a importância do bom humor e da paixão quando se quer escolher qualquer tipo de carreira enquanto contava a todos como inventou o computador como o conhecemos hoje. Antes da apresentação, Wozniak falou ao Estado sobre outro assunto: o futuro da computação pessoal.

Em 2010, assistimos à entrada de dois novos aparelhos no mercado que causaram impacto na história da computação: o iPad, da Apple, e o Kinect, da Microsoft. Ambos são computadores pessoais, mas não são como o computador pessoal que o sr. concebeu.
Claro, apesar de que as maiores mudanças nos computadores normalmente acontecem em novas formas de interação entre o ser humano e eles. É a forma como nós usamos nossos corpos, nossa visão… E essas formas de interação estão ficando cada vez mais humanas do que eram anteriormente. Acho que essa tendência vai continuar para sempre. Os computadores do futuro vão permitir diálogos como se eles fossem pessoas de verdade. Eu não acho que o reconhecimento de voz já está nesse ponto, mas tenho tantos aplicativos nos meus telefones que funcionam tão bem só com a voz que eu não quero voltar a seguir determinados procedimentos ou digitar comandos…

…Nem sequer usar o mouse.
Eu não quero usar o mouse, não quero usar o teclado, eu não quero ter de dizer para o computador que ele deve rodar um determinado programa. Eu só quero dizer: “Faça uma reserva para seis pessoas hoje à noite numa determinada churrascaria nesta cidade aqui”. E quando você faz as coisas de forma humana, você não faz a mesma coisa sempre do mesmo jeito, você não diz a mesma frase exatamente do mesmo jeito todas as vezes que fala. Por isso, o reconhecimento de voz deve entender que você fala a mesma coisa de várias formas diferentes. E você não precisa mais se preocupar com erros de digitação se os comandos são pela voz. Então é realmente maravilhoso poder dizer… “Bom Deus” (suspira, como se estivesse aliviado). As partes complicadas dos computadores vão ficar para trás, até chegarmos a um ponto em que ele poderá olhar no meu rosto e dizer se estou cansado.

Então o sr. acha que tanto iPad e Kinect quanto os celulares atuais são estágios intermediários rumo a um outro tipo de computador ainda melhor?
Sim, são ótimos estágios, como o próprio computador pessoal também foi. O PC só foi possível porque um certo tipo de tecnologia tornou-se disponível a um certo preço. E o mesmo aconteceu com outros tipos de tecnologia para que o iPad se tornasse viável: a tecnologia flash NAND para armazenamento de dados, fazendo com que não fossem necessárias peças enormes que consumiriam muita energia; a tecnologia de telas sensíveis ao toque, telas de alta resolução, baterias leves… Muitas dessas tecnologias vêm ao mesmo tempo, a um preço acessível, e permitem que determinados produtos façam sentido.

Há uma frase que diz que a tecnologia funciona de verdade quando as pessoas nem sequer percebem que a estão utilizando. O sr. acha que chegaremos a um ponto em que a tecnologia não será nem vista pelas pessoas?
É difícil negar isso, mas também é difícil pensar em exemplos para hoje em dia. Será que eu vou ter pequenos implantes nos meus olhos que farão que eu veja o mundo da forma como determinada tecnologia quer que eu veja? Se for assim, quem está no controle? Estamos ficando cada vez mais dependentes da nossa tecnologia de forma que nem podemos desligá-la. Se nós pudermos desligá-la, estamos no controle; mas não podemos mais. E se tivermos carros que dirigem sozinhos? Uau, cara… Nós temos de ir, temos de confiar nisso, mas podemos chegar ao ponto em que a tecnologia talvez não precise mais da gente.

E aí, como vimos em filmes de ficção científica, pode ser que a tecnologia queira descartar o fator humano, pois atrapalha…
É o que eu estou sugerindo – e isso já está acontecendo, mais do que podemos admitir. Quando as coisas acontecem devagar, você não as percebe acontecendo, mas quando estamos numa curva exponencial, as coisas podem mudar de uma vez só. Você consegue desligar seu computador? Consegue se desconectar da internet, desligar seu celular? Por quanto tempo? Por um ano? E se conseguir, que tipo de vida terá? E se todos resolverem fazer isso? Seria uma vida bem diferente da que levamos agora.

Mas até chegarmos a esse estágio, a tecnologia terá de evoluir bastante. Que estágios deveremos percorrer nos próximos dez anos?
Num futuro próximo, não muito próximo, mas também não muito distante, se tornará bem difícil saber se você está lidando com um computador ou com uma pessoa de verdade. E será tão bom: falar, entender, combinar palavras e deixar que o computador faça o reconhecimento das palavras e até crie um tipo de relacionamento com as pessoas…

Mas o sr. acha que no futuro teremos amigos digitais?
A ficção científica quase sempre fala em guerra entre homens e máquinas, quem será o vencedor, mas eu acho que criamos a tecnologia para melhorar nossas vidas. Estamos lidando com ela gradualmente, não há nenhuma batalha. Criamos a coisa mais próxima do cérebro humano que é a internet. Antes, perguntávamos para uma pessoa sábia quando precisávamos saber de alguma coisa, agora temos a busca do Google. Isso significa que parte de nosso cérebro já está fora de nossas cabeças, porque a internet cresceu tanto e nós não a criamos para ser um cérebro. Criamos a internet para colocar as pessoas em contato individualmente – e quando havia bilhões de pessoas em contato entre si, de repente, ela criou essa capacidade de funcionar como um cérebro.

E isso não assusta?
Não, porque você não se assusta com isso. Não passamos por uma fase de medo. Nós simplesmente aceitamos que o Google seja mais inteligente do que qualquer pessoa que conheçamos. Todos nós aceitamos.

Não é assustador pensar em um futuro em que as pessoas terão apenas amigos digitais?
Quando cresci eu era muito tímido, era um outsider. Eu ficava de fora de conversas normais, dos ritos sociais. E não tinha com quem falar. Tinha receio. Em todo lugar que eu ia, tentava ser o mais discreto, falar o mínimo possível, fazer o meu trabalho e cair fora. Agora esse mesmo tipo de pessoa passa o dia inteiro em seu quarto com um computador, com as portas fechadas, e tem relações sociais com pessoas de qualquer lugar do mundo, mesmo que sejam com pessoas tão restritas socialmente quanto ele.

Mas não existem pessoas digitais hoje em dia.
Imagine você se apaixonar por alguém que você não sabe se é uma pessoa ou um robô. Oh, cara (ri)… Mas eu não acho que isso vai acontecer. Mas há quem se apaixone por seus computadores, então tudo bem.

E como será o computador do futuro?
A questão é em quanto tempo no futuro… Eu acho que teremos um tipo de computador que, quando um aluno for para a escola, ele quer ficar com aquele computador como se fosse seu melhor amigo, que sabe tudo sobre ele, seus sentimentos, crenças e filosofias, mais do que um professor humano. Não consigo chutar em quantos anos isso acontecerá… Dez, vinte, trinta… Mas eu não estou falando em cem anos…

O que o sr. achou da Campus Party?
Eu fui a algumas outras Campus Party e percebi que esse tipo de evento seria onde eu estaria se eu estivesse crescendo hoje. Sendo eu o tipo de pessoa que sou, que acredita no que eu acredito, nos meus computadores, na interação com outras pessoas parecidas. Eu estaria aqui, eu seria um campuseiro. Eis a grande atração: jovens cheios de ideias que querem explorar o que eles querem estar fazendo neste mundo dos computadores, o que isso vai significar para eles, o quanto isso é importante para eles, que mudanças e diferenças eles podem fazer…

As pessoas aqui falam em “orgulho nerd”.
Fico tão feliz em ouvir isso! Foi a melhor coisa que eu ouvi durante todo o dia de hoje! Há um tipo de evento que acontece tanto nos EUA quanto em alguns outros países chamado First Robotics. São times de segundo grau que constroem robôs, que são meio caros, do tamanho de pessoas, e eu vou julgar esses concursos sempre que posso. É um dia em que eles são tão importantes quanto os astros do cinema, os jogadores de futebol ou qualquer tipo de celebridade. É quando os geeks têm seu dia!

Minha coluna de ontem no Caderno 2 foi sobre as mudanças de chefia no Google e na Apple.

Terreno movediço
Executivos no mercado digital

A semana passada foi agitada no mundo digital – e nem estou falando da Campus Party, maior evento relacionado à tecnologia do País, que começou segunda e termina hoje – e sim da súbita saída de dois nomes fortes da indústria eletrônica. Primeiro foi Steve Jobs, o pai da Apple, que pediu licença de saúde mais uma vez na segunda-feira, fazendo as ações de sua empresa caírem. E no fim da quinta-feira, o CEO do Google, Eric Schmidt, anunciou que deixaria o cargo que assumiu em 2001, deixando a vaga para um dos criadores do site, Larry Page.

As duas saídas não seriam motivo de alarde caso a área de atuação das duas empresas não fosse um mercado tão novo. Executivos vêm e vão de empresas, essa é a natureza desse tipo de cargo. Mas quando se fala do mercado de computadores e da internet as coisas não são tão certas assim – e o terreno movediço da indústria digital ainda não conhece cabeças aptas a pular de empresa para empresa.

A saída de Jobs é um ótimo exemplo. É a segunda vez que ele deixa o cargo por motivos de saúde. Mas, no início dos anos 1990, ele não saiu da Apple – e sim “foi saído”, como dizem. O conselho da empresa que criou simplesmente o demitiu. Sem emprego, Jobs foi bater na porta da novata Pixar, um estúdio de animação digital que estava tentando fazer seu primeiro longa-metragem. Ajudou o estúdio de John Lasseter a lançar o primeiro Toy Story e a se firmar como a principal grife no cinema de animação. Enquanto isso, sem Jobs, a Apple patinou tanto a ponto de ter de chamá-lo de volta para o cargo, no fim do século passado. Em casa, começou a pôr sua cabeça para funcionar e criou, na sequência, o iPod, a loja iTunes, o iPhone e o iPad. Seus sócios agradecem.

Outro executivo que saiu e não voltou foi Bill Gates, que fundou a Microsoft e a transformou em uma das empresas mais sólidas no mundo digital do século 20. Em 2006, ele anunciou que sairia da empresa para cuidar de sua fundação de caridade. Desde então, a Microsoft – sinônimo de computadores há até dez anos – foi perdendo a importância cada vez mais.

Qual é o problema? Esse mercado é muito novo e os executivos não se guiam por modelos de negócio estabelecidos. Quando entrevistei o escritor e articulista Bruce Sterling no fim do ano passado, conversamos sobre esse assunto. E ele disse que as empresas digitais ainda são muito presas ao culto à personalidade de seus criadores. “Se Steve Jobs morrer, a Apple morre com ele”, alfinetou.

Essas mesmas empresas sofrem com o fato de que seu negócio pode, em anos, deixar de existir. Vide o MySpace, que era o gigante das redes sociais até outro dia e está às vésperas de fechar suas portas. Não duvide se o destino de Google e do Facebook também for parecido. Na economia digital, tudo que parece sólido apenas parece sólido.

Neil Young e eu

Eis a íntegra do texto sobre o melhor show que eu vi na vida que escrevi para o Caderno C quando ainda trabalhava em Campinas.


Clicando na foto, você pode ler o texto na página e descobrir qual foi o pior show do terceiro Rock in Rio, na minha opinião

O tempo não existe
Neil Young e o Crazy Horse fazem um show histórico no Rock in Rio 2001

“Você é como um furacão
Há calma em seus olhos
E eu estou sendo levado
Para algum lugar mais seguro
Onde está o sentimento
Quero te amar
Mas estou sendo levado”
(Like a Hurricane)

Quando Neil Young deixou o palco quase às três e meia da madrugada de domingo, o público presente sabia que havia assistido um dos maiores shows de suas vidas. Com sua rara percepção sobre a existência humana, o velho caubói conduziu os mais de cem mil espectadores da noite mais tranqüila do Rock in Rio 2001 a um universo paralelo, onde rock e realidade podem ser a mesma coisa. Esqueça a entrega messiânica do R.E.M., o freak show de Axl Rose e o teatro épico do Iron Maiden. Quando Young e seus velhos companheiros do Crazy Horse subiram ao palco, fizeram uma apresentação antológica, um dos melhores shows de rock já vistos no País. Em pouco menos de duas horas, o velho Young nos mostrou que é possível fazer rock e dizer a verdade, ao mesmo tempo.

Por que a verdade? Porque todos os aparatos do showbusiness se esfacelam à presença do pistoleiro sonoro. O Palco Mundo, hi-tech e hiperbólico, se tornou uma simples garagem caipira, com quatro peões trocando horas de ócio por um exercício artístico superior, onde melodia e barulho fazem parte da mesma linha lógica de raciocínio. Young abre mão de conceitos civilizados e medidas de tempo e espaço, transformando onde quer que esteja em seu pequeno e preciso mundo particular. Aqui, o instinto é a razão e a natureza é o fluxo vigente. Seja no maior festival de rock do mundo ou no quintal de sua casa, o velho bardo canadense não precisa de nada além de sua guitarra para explicar como a vida é simples.

Quando adentrou ao palco principal, colocou o público presente nesta realidade alternativa. A imagem, finalmente palpável a olhares brasileiros, era um clássico perene: quase dois metros de altura, um jeito desengonçado de tocar guitarra (pernas arqueadas, passos largos e trôpegos, entortando-se para os lados à medida que distorcia o som), camiseta de banda (o equivalente norte-americano de camiseta de candidato, no caso, da banda inglesa Placebo), calça jeans e um estratégico chapéu de caubói. Nas mãos, uma coleção de guitarras Gibson Les Paul tão clãssica quanto o dono. Entrou acompanhado de sua corja de bandoleiros musicais: o rotundo guitarrista Frank Sampedro, o baixista Billy Talbot e o baterista Ralph Molina. Vestidos como se estivessem indo para mais uma noitada em um bar de beira de estrada, o grupo começou a aula com “Sedan Delivery”, do clássico-mor Rust Never Sleeps.

Para delírio do público, a banda emendou o “Hey, Hey, My, My (Into the Black)”, hino country rock de celebração rock’n’roll, cantado em uníssono pela turba. Entre uma música e outra, a banda se entregava à desconstrução sonora, à distorção contemplativa, ao ruído em estado bruto. Era didático: não há diferença entre ordem e caos quando se vive a vida do jeito certo, aproveitando cada minuto, degustando cada experiência, sorvendo sentimentos e sensações independentes de sua origem.

“O amor e só o amor sobrevive”, canta com sábia experiência o cristianismo caipira de “Love and Only Love”, “o ódio é tudo que você acha que é”. A sabedoria se esconde nas entrelinhas de uma velha canção sertaneja, que canta o amor e o ódio com a mesma intensidade. A microfonia arrefecia para a brisa campestre do country americano, dando a deixa perfeita para a belíssima e clássica “Cinnamon Girl”, de seu primeiro disco com o Crazy Horse (Everybody Knows This is Nowhere, de 1971). Cada música terminava com uma seqüência de acordes bradados num mesmo ataque, como se toda vez pronunciassem um fim épico. Mas a música crescia a partir dos pedaços de ruído trepidados pela banda e inevitavelmente a coda de barulho tornava-se uma canção à parte, sem refrão, letra, introdução, solo: apenas uma parede de ruído, como se, ao desvendasse a alma por trás do esqueleto formulaico de cada uma das faixas. Nas filigranas da microfonia, poesia indizível, sentimento intraduzível, força que não se fala – se sente.

“Fuckin’ Up” voltou ao território do rock em estado bruto, para o melhor momento do show – e da minha vida neste meio, embora vocês não precisassem saber disso. A seqüência “Cortez the Killer” e “Like a Hurricane” e traduzia toda a força natural de Neil Young: a primeira faixa trazia seu hino maior de amor aos povos ditos primitivos, contando a história do colonizador Hector Cortéz, que dizimou a população asteca após ser bem recebido pela mesma. A segunda (com Sampedro ao teclado), sua maior balada de amor, a dura e recofortante constatação que amor carrega o bem e o mal, o hoje e o sempre, o pequeno e o grande. Ambas músicas se misturaram, num épico sem duração. O relógio – essa maquininha que inventamos para regrar o que não tem regra – marcaram 23 minutos ao todo, mas durante estas duas canções, o tempo parou, estático, e Neil Young o segurou na mão (com os dedos sangrando), como uma pequena e opaca gema bruta. Impossível segurar as lágrimas. “Rockin’ in the Free World” veio de brinde, para sacramentar a geração grunge (foi gravada pelo Pearl Jam) e calar a boca do lema piegas do festival. Mundo melhor, quis dizer Young, é um mundo livre. Keep on rocking.

A banda saiu e voltou com a excelente “Powderfinger”, outra de Rust Never Sleeps. “Me proteja da pólvora e do dedo”, berrava a familiar voz esganiçada, “cubra-me do pensamento que puxou o gatilho/ Pense em mim como aquele que você pensava que não iria embora tão jovem, com tanto a fazer”. A contrapartida, “Down By The River” (também de Everybody Knows…), veio em seguida, fazendo o público brasileiro cantar numa só voz o pesar da culpa de um amor mal resolvido. Felizaço, agradeceu ao público com a última, o libelo feminista “Welfare Mothers”. Ergueu sua guitarra com um largo sorriso e bateu no peito, sem dizer uma palavra ao público. Não precisava.

O tempo voltou ao normal quando as luzes acenderam, mas a lição havia sido profetizada. Para que peder-se com bobagens como dinheiro, fama, sucesso e sorte se tudo que precisamos para viver está dentro de nós? Basta descobrir o amor à vida e cultivá-lo – mas para isso, é preciso que largar tudo e voltar para o campo, pegar a esposa e demitir o emprego, plantar o dia e colher a noite numa safra atemporal. Viver é simples.

SETLIST

“Sedan Delivey”
“Hey, Hey, My My (Into the Black)”
“Love And Only Love”
“Cinnamon Girl”
“Fuckin’ Up”
“Cortez The Killer”
“Like a Hurricane”
“Rockin’ In The Free World”
“Powderfinger”
“Down by the River”
“Welfare Mothers”