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A minha coluna no 2 do domingo foi sobre o disco da Mallu Magalhães e a forma como ela vem o divulgando online.

Mallu ao vivo
Blogando vida e obra

“Último dia de mixagem. Terminamos Moreno do Cabelo Enroladinho e fizemos Lonely. Amanhã é o dia de refazer o que falta ou precisa. Temos uma ou duas prioridades, mas estamos contentes com o resto. Acho que estou prestes a sofrer aquela tristeza do pós-disco… Aquele vazio, aquela insegurança… Preciso arrumar o que fazer… Acho que vou inventar de gravar uns clipes.”

Assim Mallu Magalhães chega aos finalmentes de seu terceiro disco, num post em seu blog publicado na sexta passada, resumindo o dia anterior. “Dia 27 de julho de 2011… #54 em estúdio” é o título do post, um dos muitos em que, em seu site, mallumusic.com, descreve o diário da gravação do novo álbum.

Mas não apenas um diário de gravação. É o diário de Mallu. É um blog no sentido mais essencial do formato. Não são notícias, informações que poderiam render notinhas ou análises sobre qualquer conjuntura atual. São pequenas epifanias caseiras, recortes de um cotidiano íntimo, às vezes pessoal demais, que transbordam para a internet. No mesmo post em que comemora e lamenta o fim do processo de gravação, ela divaga: “Enquanto Victor (Rice, técnico de som do disco) timbrava os últimos detalhes de Moreno do Cabelo Enroladinho, eu bordava numa das aquarelas que havia pintado ontem. E um feixe de luz colorido veio banhar minha obrinha. Não demorou, Vic ficou também impressionado e sugeriu novas posições. Fotografei o tal arco-íris nos meus pés, cabeça e à minha volta. Só pode ser um bom e lindo sinal de alegria para o Pitanga.”

Muita gente torce o nariz, acha forçado, acha fake, acha bobo. “Haters gonna hate”, repete o meme-mantra da internet que pode ser traduzido como “sempre vai ter alguém que odeie”. E Mallu, coitada, sempre foi alvo desses ‘haters’. Desde que surgiu empunhando seu violãozinho aos 15 anos, cantando Dylan e Johnny Cash com sua vozinha frágil e virou um dos melhores exemplos brasileiros de uma artista que usou a internet para se estabelecer, ela é alvo de brincadeiras, chacotas, paródias e pragas. As coisas não melhoraram quando ela começou a namorar Marcelo Camelo – outro que, ainda nos Los Hermanos, cansou de ser vítima da fúria de um público xingando tudo confortavelmente nos computadores de casa. Juntos viraram motivo para piadas de toda a sorte – algumas boas, a maioria bobas. Mas não os abalou.

E, mais que isso, não abalou Mallu. Prestes a completar 19 anos, ela deixa o mesmo ar lúdico de suas letras e melodias invadir seu blog, abrindo seu coração e mente sem medo de se expor ao ridículo. Ela não bloga porque ajuda no marketing, porque o empresário pediu ou porque cai bem com o público. Não que esses motivos não existam, mas ela mantém o blog pelo mesmo motivo que faz música: é natural para ela. Portanto, como reza outro mantra online, “deal with it” (“lide com isto”).

O escritor norte-americano James Gleick é um Harold Bloom da ciência – como o inglês faz com a cultura, ele reorganiza tudo para tirar novos pontos de vista, mas sem zerar cânones ou destrui-los, criando genialmente novas formas de interpretação do passado a partir da justaposição de temas. Tivemos o prazer de publicar, no Link, um trecho de seu novo livro, The Information, em que levanta a possibilidade da informação (o dado, a mensagem, o código) ser a base de tudo no universo. A ilustra da página dupla, reproduzida acima, é do Jairo, que sai fora para um longo sabático (boa sorte, compadre!). Segue um trecho do artigo:

“Aquilo que jaz no coração de todas as coisas vivas não é uma chama, nem um hálito quente, nem uma ‘faísca de vida’, e sim a informação, palavras, instruções”, declarou Richard Dawkins em 1986. Já consagrado como um dos maiores biólogos da evolução, ele tinha capturado o espírito de uma nova era. As células de um organismo são nódulos numa rede de comunicações, sempre transmitindo e recebendo, codificando e decodificando. A própria evolução é a encarnação de uma troca contínua de informações entre organismo e meio ambiente. “Se quiser compreender a vida”, escreveu Dawkins, “não pense nas gosmas e melecas pulsantes e fluidas, e sim na tecnologia da informação”.

A ascensão da teoria da informação foi facilitadora e cúmplice de uma nova forma de enxergar a vida. O código genético – não mais uma simples metáfora – estava sendo decifrado. Os cientistas falavam com grandiosidade numa biosfera: uma entidade composta por todas as formas de vida da Terra, transbordando de informação, replicando-se e evoluindo.

Jacques Monod, biólogo parisiense que dividiu um Prêmio Nobel em 1965 – por desvendar o papel desempenhado pelo RNA mensageiro na transmissão das informações genéticas –, propôs uma analogia: assim como a biosfera paira sobre o mundo da matéria não viva, um “reino abstrato” paira sobre a biosfera. Os súditos deste reino? As ideias.

“As ideias retiveram algumas das propriedades dos organismos”, escreveu. “Como eles, as ideias tendem a perpetuar sua estrutura e a se reproduzir; elas também podem se fundir, se recombinar, segregar seu conteúdo; de fato, também elas podem evoluir e, nesta evolução, a seleção sem dúvida desempenha um papel importante.”

As ideias têm um “poder de contágio”, destacou – “poderíamos chamá-lo de capacidade de infecção” –, e nisso algumas são mais fortes do que outras. O neurofisiologista americano Roger Sperry tinha apresentado uma ideia parecida anos antes, defendendo que as ideias seriam “tão reais” quanto os neurônios que elas habitam:

“Ideias interagem entre si e com outras forças mentais no cérebro, em cérebros vizinhos e, graças à comunicação global, em cérebros à distância. E elas também interagem com o meio externo que as cerca para produzir ao todo um rápido e imediato surto evolutivo que supera qualquer coisa que já tenha chegado à cena evolucionária.”

E acrescentava: “Não me arrisco a propor uma teoria da seleção das ideias”. Não precisava. Outros o fariam.

Dawkins deu seu próprio salto da evolução dos genes para a evolução das ideias. Para ele, o papel de protagonista cabe ao replicador, e isso não tem nada a ver com química. “Um novo tipo de replicador surgiu recentemente neste mesmo planeta”, proclamou Dawkins em seu primeiro livro, O Gene Egoísta, em 1976. “Ele está nos encarando. Ainda em sua infância, vagando desajeitado em seu caldo primordial, mas já está atingindo um ritmo de mudanças evolucionárias que deixa o velho gene para trás.” Esse “caldo” é a cultura humana; o vetor de transmissão é a linguagem, e o ambiente de reprodução é o cérebro.

A íntegra você lê aqui. The Information ainda não saiu no Brasil.

A minha coluna no Caderno 2 de ontem foi sobre os três bate-papos que realizei na Expo Y, semana passada.

O papel da opinião
O que é importante na internet

A velocidade e o excesso de informações da era digital tira o prumo de muita gente, tanto de quem começa a correr atrás de qualquer pequena novidade ao menor movimento quanto para quem se fecha completamente para o que se passa entre computadores e celulares. Talvez justamente por isso a opinião se torne um dos valores mais prezados desta época.

Por um lado, parece que todo mundo tem a obrigação de ter opinião sobre qualquer assunto – e, claro, usá-la nas caixas de comentários de blogs, redes sociais e outros ambientes virtuais. Por outro, os assuntos também vão ficando cada vez mais repetitivos e parecidos, caindo no problema indicado pelo escritor norte-americano Eli Pariser em seu livro The Filter Bubble. Ele alega que, à medida que as pessoas só querem falar sobre os mesmos assuntos de sempre, acabam se fechando nos temas de sempre e, aos poucos, fogem dos debates que interessam à sociedade.

Daí a importância de se ter opinião e de valorizá-la. Esse foi o tema debatido nas três entrevistas que fiz, em nome do caderno que edito, o Link, durante o evento Expo Y, que ocorreu na semana passada, no Pavilhão da Bienal, em São Paulo.

Para conversar sobre o assunto, chamei três nomes que já se tornaram referência em suas áreas: Bia Granja, organizadora do festival de internet YouPix, Tiago Dória, do blog que leva seu nome, e Carlos Merigo, editor-chefe do blog Brainstorm9. Cada um deles se tornou autoridade nos assuntos com que lidam diariamente, em seus veículos. O YouPix, de Bia Granja, começou como uma revista e se tornou o maior evento de cultura de internet no Brasil (ela faz questão de frisar a diferença entre “cultura de internet” e “cultura digital”. O Tiagodoria.com era um blog de links interessante que, aos poucos, foi começando a falar de suas principais áreas de interesse – comunicação e tecnologia – e em menos de uma década se tornou uma das principais referências online sobre as transformações que acontecem no jornalismo com a chegada das mídias digitais. Caminho parecido com o traçado por Merigo, que se especializou em publicidade, sua área de atuação.

Os assuntos abordados foram os mais diversos dentro de suas áreas, mas todos chegaram a um mesmo consenso: que não adianta ter opinião sem ter responsabilidade sobre ela, que ser transparente e franco é uma obrigação e que é preciso respeitar o leitor e que isso não necessariamente quer dizer publicar o que ele quer ler, mas também o que ele nem sequer imagina que quer ler. Valores que já tinham sido estabelecidos no mundo offline e que, aos poucos, começam a fazer a diferença também online.

O Brancatelli fez uma matéria sobre como os aplicativos feitos a partir de dados públicos podem facilitar a vida da cidade e do cidadão no Metrópole de quinta-feira – e me pediu para dar uma força e falar do contexto mais amplo desse cenário.

Dados abertos: em prol da qualidade de vida

A internet, para muitos, vem como uma ameaça. Afinal, tanto o antigo CEO do Google Eric Schmidt, quanto o dono do Facebook, Mark Zuckerberg, já avisaram que a privacidade acabou. A WikiLeaks de Julian Assange paira sobre a cabeça do status quo com a possibilidade de desvendar segredos bem guardados a qualquer minuto. Hackers ativistas do grupo Anonymous avisam: “Não tentem consertar suas duas caras escondendo uma delas. Em vez disso, tentem ter só um rosto – honesto, aberto.”

Há uma mudança drástica, sutil e otimista no meio dessa paranoia. Afinal, ela requer mais dados abertos para a maioria das pessoas, transparência de governos, empresas e, por que não, do cidadão. E esses dados podem melhorar ainda mais a qualidade de vida das pessoas, principalmente em uma cidade como São Paulo.

Imagine se todos os motoristas pudessem dizer onde estão seus carros? Isso tornaria mais fácil a localização de engarrafamentos. E se pudéssemos detectar mais facilmente pontos de alagamento na época de chuvas? Ou acompanhar o orçamento de obras públicas desde o início? O mundo pode melhorar – e bastante.

E a minha coluna no Caderno 2 de domingo foi mais sobre o Google +, que ainda foi destrinchado nessa edição tanto pela Tati, quanto pelo Tom Anderson e pelo Asta. A minha parte segue abaixo, a deles, nos links.

Mais uma rede social?
O Google + não é só isso…

“Fulano de Tal te convidou para participar do Serviço Xis.” Esses avisos pintam a toda hora no e-mail. Alguém entrou em alguma novidade da internet, se cadastrou e enviou convite para uns conhecidos. E aí chega o convite na sua caixa postal. No começo era só um Orkut ali, um Last.fm acolá, um MySpace mais adiante, mas depois de alguns anos, os convites para novos serviços – principalmente para novas redes sociais – começaram a se tornar frequentes. Foursquare, Facebook, LinkedIn, Twitter, StumbleUpon e tantos outros sites ou aplicativos para celular ou joguinhos (tanto originais quanto clones brasileiros copiados toscamente) que mandam mensagens robóticas e monotemáticas que, quanto mais chegam, mais parecem meros e-mails de spam, fazendo propaganda de um produto que não queremos comprar – nem de graça, não insista.

Até que, há pouco mais de duas semanas, enquanto desfrutava minhas férias, outro convite apareceu. Chamava para o Google + (Plus), nova tentativa do maior site do planeta de domar a movimentação social da rede.

Não era a primeira vez. Começou antes de todo mundo, inclusive, ao lançar o Orkut, mas os Estados Unidos estavam muito ocupados com a primeira rede social a fazer sucesso por lá (o Friendster) e não deram bola. Os brasileiros não tinham nada parecido e invadiram geral. Em poucos meses, havia mais brasileiros do que norte-americanos por lá. E o Friendster começou a perder audiência para o então novíssimo MySpace, que se tornou a maior rede social daquele país para logo depois se tornar a maior do mundo. Depois veio o Facebook que enterrou o MySpace (que foi vendido, também durante as minhas férias, por US$ 35 milhões, menos de um décimo do preço que custou quando foi comprado pela News Corp. a US$ 580 milhões, em 2005). Mas isso é outra história.

Enquanto MySpace e Facebook dominaram a segunda metade da década passada, o Google tentou comer uma fatia desse mercado, em vão. Lançou o Google Wave, um serviço que transformava o e-mail em um enorme bate-papo contínuo, com uma interface poluída e caótica. Depois correu atrás do Twitter, ao inventar o Google Buzz, e se envolveu em processos de invasão de privacidade. E aí surge esse Google + e todo mundo suspira achando que “putz, lá vem outra tentativa do Google para barrar o Facebook…”.

Mas engana-se quem acha que o Google + s é só uma rede social. Apesar de parecer reunir elementos de sites já estabelecidos (ele tem o fluxo de informações do Facebook, uma área de trending topics como a do Twitter, entre outros), o novo site não é, propriamente, um novo serviço. Ele apenas concatena as diversas arestas do site (Gmail, Google Docs, Agenda, fotos e posts – já anunciou que mudará o nome do Picasa e do Blogger) e cria um ambiente em que seus serviços possam funcionar de forma integrada. É um passo importante para o Google fugir da possibilidade de virar uma nova Microsoft (uma empresa gigante, com muitas áreas diferentes, que mal conversam entre si) e de continuar fazendo sentido num mundo que poderia, aos poucos, deixar de precisar dele. Ao que tudo indica, vai funcionar: em menos de um mês, o novo site já tem 10 milhões de usuários. E correndo o risco de dobrar esse número na semana que vem. Não é pouco.

Minha coluna no Caderno 2 de ontem foi sobre o novo livro de Simon Reynolds.

Cultura reciclada
O pop vai comer a si mesmo?

A história da cultura pop também é a história de uma cultura que se inventa e reinventa a partir de si mesma. Sempre foi assim. Escolha o início desta cultura que lhe convier (não há consenso sobre qual é o começo específico desse tipo de abordagem da cultura) e os conceitos de criação e recriação se misturam constantemente.

Exemplos? Arthur Conan Doyle foi tachado de simplificar os contos de Edgar Allan Poe e transformá-los em uma fórmula ao criar Sherlock Holmes, no final do século retrasado. Matou o personagem em um livro e deixou seus leitores de luto – a ponto de surgir uma campanha pela volta do personagem na forma de bandanas pretas amarradas aos braços.

Outro: quando os EUA entraram em crise após o crash da bolsa de 1929, uma das formas de manter a população entretida foi o incentivo do consumo de itens ou serviços que custavam muito pouco. Foi preciso que toda uma indústria fosse inventada a partir de amostras de manifestações culturais já existentes. Foi assim que o teatro foi mastigado para virar o cinema como o conhecemos hoje; que a música popular tornou-se o principal gênero musical do novíssimo mercado fonográfico (que começou apostando na música erudita); que a literatura pulp, as revistas e os quadrinhos floresceram nas bancas de jornais.

Mais um: quando começaram, os Beatles eram apenas fãs de música norte-americana e não faziam distinção entre soul music, rhythm’n’blues ou country. Consumiam tudo como cultura americana e misturaram todos esses gêneros naquilo a que hoje chamamos de rock. Os próprios Beatles são protagonistas de outro momento tido como marco zero desta cultura, quando conheceram Bob Dylan pessoalmente e a admiração mútua mudou suas carreiras: os Beatles começaram a ficar mais sérios e intelectualizados enquanto Dylan abandonou as canções de protesto e empunhou uma guitarra elétrica.

São inúmeros exemplos que corroboram a tese do novo livro do renomado escritor e ensaísta inglês Simon Reynolds, Retromania: Pop Culture’s Addiction to Its Own Past (sem previsão de lançamento no Brasil). Mas seu foco não é a história da cultura pop, e sim seu passado recente. Ele concentra-se na onipresença da web e na era de consumo desenfreado que vivemos, em que assistimos a filmes sendo refeitos, músicas sendo remixadas, discografias relançadas em caixas suntuosas, artistas tocando discos antigos na íntegra ao vivo e o YouTube se tornando um enorme arquivo com tudo do século passado. E o livro instiga uma reflexão: será que vai chegar uma hora em que a cultura não terá nada novo – e apenas se repetirá? Acho exagero, mas é uma boa pergunta.

Minha coluna no Caderno 2 foi, mais uma vez, sobre Super 8, J.J. Abrams e Spielberg.

J.J. Abrams & Spielberg
…e o futuro do cinema

Super 8, o novo filme de J.J. Abrams, estreou na sexta-feira passada nos EUA. É um momento decisivo tanto para sua carreira quanto para a de Steven Spielberg, que produz o filme. Para Abrams, a expectativa diz respeito à primeira incursão do diretor e produtor no cinema em um título próprio. J.J. é conhecido como Midas da TV graças à sequência de seriados bem-sucedidos que produziu: Felicity, Alias, Lost e Fringe. Mas, no cinema, só dirigiu dois filmes, o terceiro Missão: Impossível e a nova versão para o cinema da série Jornada nas Estrelas. Não havia dirigido nenhum filme cuja ideia original fosse sua, até agora.

Spielberg, por outro lado, tem outro tipo de preocupação. Diretor que se firmou ao reconectar o público de cinema com uma audiência adolescente, à medida que foi se estabelecendo como diretor, começou a ir rumo a assuntos sérios, o que lhe rendeu alguns Oscars que não fossem de efeitos especiais. Mas ao remoer lembranças de guerra e conflitos judeus, deixou de lado a diversão e o entretenimento puros e simples. Tentou retomá0-los ao voltar à ficção científica no início do século, visitando Kubrick (Inteligência Artificial), Philip K. Dick (Minority Report) e H.G. Wells (Guerra dos Mundos), mas sem conseguir vincular-se a um público mais jovem. Só conseguiu recuperar isso ao produzir os filmes de Michael Bay (especialmente Transformers), mas sua marca não era percebida como assinatura.

Até que J.J. Abrams resolveu fazer uma homenagem ao ídolo e o chamou para esse tal Super 8. Abrams, que é conhecido por empilhar referências em suas obras, resolveu transformar o filme em uma grande ode ao cinema de Spielberg, especificamente à sua filmografia nos anos 80.
E, como é do seu feitio, Abrams não deixou barato e levou seu novo filme, mesmo antes do lançamento, a diversas mídias diferentes – colocou gente para montar um curta a partir de pedaços soltos pela web e até a criar uma HQ que seria concluída pelo público.

As primeiras impressões sobre o filme não são suficientes para tentar prever algum sucesso, mas tudo indica que Spielberg e Abrams conseguiram alcançar o que estavam tentando: uma história fantástica, um thriller de ficção científica e uma fábula pré-adolescente.

Mas a premissa inicial de Super 8 – em que uma turma de jovens brinca de fazer cinema e, sem querer, filma algo que não devia – parece ser outra homenagem de Abrams, desta vez a uma previsão de Francis Ford Coppola, em uma entrevista dada nos anos 70: “Um dia, uma gordinha em Ohio será o novo Mozart e fará um lindo filme com a câmera portátil de seu pai e quando isso acontecer todo esse profissionalismo em relação a filmes será destruído para sempre e o cinema se tornará uma arte”. Ainda não chegamos lá, mas será que um dia chegaremos? Super 8 chega ao Brasil apenas em agosto.

Abaixo, uma análise sobre o que quer dizer esse iCloud que a Apple acabou de lançar, que fiz pro caderno de Economia do Estadão.

Apple quer dominar a internet como Google e Facebook

Em algum momento na virada do século, a Apple deixou de ser uma empresa que fabricava computadores para convencer seus consumidores a comprarem outras coisas. Tanto o iPod quanto a loja iTunes vieram no vácuo deixado pelas grandes gravadoras, que perderam o bonde da história ao processar quem baixava música de graça na internet. Steve Jobs percebeu a lacuna no mercado e correu para vender música via internet – e, de quebra, convencer as pessoas a comprar seu MP3 player.

Depois do iPod veio o iPhone, a App Store, o Macbook Air, a Apple TV e o iPad e, em menos de dez anos, a empresa tinha deixado de ser uma fábrica de computadores para criar sua estratégia digital que integra máquinas e rede num só ecossistema. Mas, comparando com seus dois maiores rivais neste universo – Google e Facebook –, a Apple ainda é uma empresa que fabrica aparelhos, mais do que uma marca que domina a internet propriamente dita. Nesse sentido, ela está mais próxima da Sony e da Microsoft (que dominam seus nacos de rede com suas máquinas de jogar – o PlayStation e o Xbox).
Por isso, o anúncio de ontem é um passo decisivo para a empresa. Afinal, o iCloud parece ser apenas um HD online em que você pode armazenar o que comprar via iTunes e acessar de qualquer aparelho, sem precisar carregar arquivos de um lado para o outro.

Mas é mais do que isso. É a tentativa da Apple de dominar a internet como nunca conseguiu – o jeito que fez Google e Facebook serem duas das maiores empresas do mundo hoje. Afinal, tudo que você precisa dessas duas marcas está online. Se você quer qualquer coisa dessas duas empresas, não importa em que computador ou celular você esteja – basta login e senha para ter acesso à grande parte dos serviços oferecidos pelas duas.

Para a Apple, o iCloud é um passo no escuro, pois quase tudo que a empresa propõe pressupõe dinheiro. Até criar uma conta para usar aplicativos gratuitos requer que você cadastre um número de cartão de crédito. Já Google e Facebook pedem, pelo menos a princípio, nome de login e e-mail para confirmação. Depois vão associar sua conta ao seu número de telefone, aos lugares de onde você acessa aqueles serviços, quem são seus contatos, com quais pessoas você se conecta com mais tempo… E, aos poucos, vamos “pagando” ambos com nossos dados. Será que a Apple conseguirá nos convencer disso? Resta acompanhar os próximos capítulos…

Semana passada, entrevistei o Clay Shirky pela segunda vez (a primeira foi em novembro de 2009, em Nova York), e aproveitei a passagem do pai do conceito de crowdsourcing para perguntar-lhe sobre se o que vem ocorrendo nos países árabes e na Espanha tem a ver com o século digital e quais os desdobramentos desses acontecimentos na política do futuro, a curto prazo. No vídeo abaixo, ele repete pro vídeo o que já tinha falado na entrevista e se aprofunda no assunto a seguir.

“Você não pode ser uma economia moderna se as pessoas não tiverem celulares em seus bolsos”
Clay Shirky explica como as revoluções no Oriente Médio e na Espanha nasceram em nova paisagem de mídia, criada por celulares e redes sociais

Quando entrevistei Clay Shirky pela primeira vez, em novembro de 2009, em Nova York, ele estava começando a ser reconhecido como um dos principais pensadores da cultura digital, graças ao seu Here Comes Everybody (2008, ainda não publicado no Brasil) e terminava a pesquisa que se tornaria seu livro do ano passado, Cognitive Surplus (lançado no Brasil com o título de A Cultura da Participação, leia abaixo). Na época, ele festejava a condição do Brasil como um dos primeiros países a abraçar a cultura digital como regra – e como a natureza coletiva e desregrada do País conversava com o tema principal de seu livro, o crowdsourcing, que permite que multidões produzam algo coletivamente sem que necessariamente se conheçam pessoalmente.

Três anos depois, Shirky visita o País mais uma vez num cenário global bem diferente. Ao mesmo tempo em que o Brasil cresce para se tornar um dos principais agentes políticos do mundo – e sua população cada vez mais submerge no mundo digital graças às redes sociais e celulares –, pipocam pelo planeta levantes e revoltas populares que têm a internet como principal ferramenta. E meu novo papo com ele inevitavelmente girou ao redor destes dois temas.

O que une os acontecimentos recentes nos países árabes e na Espanha em termos do impacto das tecnologias digitais na atual paisagem política?
Bem, se você olhar para Tunísia e Egito já dá para traçar um padrão em que três mudanças só ocorreram graças à nova paisagem de mídia. Um: ela permite que as pessoas sincronizem suas visões de mundo rapidamente. No Egito há o movimento kifaya, que significa “basta”. Nele, emboras várias pessoas divergissem sobre muitos assuntos, todos concordavam que já tinham tido o suficiente de Mubarak. Esse movimento começou em 2004, anos antes do levante de 25 de janeiro deste ano. Foi ele que permitiu que pessoas pudessem perceber que achavam ruim a vida sob aquele governo, que outras pessoas também haviam percebido isso, mas, mais importante, que todo mundo sabia que todos achavam que a vida estava ruim. É quando há essa sincronização. E quando a população está sincronizada, é hora de partir para a ação.
A segunda mudança foi a coordenação, e Egito e Espanha ilustram, que é a habilidade das pessoas se organizarem para fazer um ato contra o governo sem usar qualquer tipo de mídia financiada pelo Estado. É uma mudança formidável e fácil ser percebida.
E a terceira mudança é a documentação, o que para mim é a mais surpreendente. Acontece que, até o Kadafi, até o mais maluco de todos os tiranos no atual cenário político, não gosta de assassinar seus próprios cidadãos à luz do dia. Mesmo quando ele estava sob a maior pressão militar possível, ele ainda fazia seus guarda-costas revistarem todas as pessoas que saíam do país em busca de celulares ou câmeras, pois não queria que nenhuma prova vazasse para fora de suas fronteiras.
Na China, quase ninguém conhece a foto icônica do sujeito parando sozinho os três tanques na Praça da Paz Celestial. O governo conseguiu manter, de forma bem sucedida, aquela imagem fora da consciência pública. Hoje, é quase impossível que haja um massacre daquelas proporções em qualquer lugar do mundo e que ele não seja documentado por câmeras de celular e enviado para o mundo imediatamente ou em poucos dias.
São essas três mudanças – sincronização, coordenação e documentação – que estão em ação em qualquer um desses novos movimentos políticos que vemos ao redor do mundo.

E como essas três mudanças vão mudar a forma de fazer política em um futuro próximo?
O que vemos no Oriente Médio é algo que chamo de “o dilema dos ditadores”: você não pode ser uma economia moderna se as pessoas não tiverem celulares em seus bolsos! E se você dá para todos uma câmera que permite transmitir fotos e vídeos, você também não pode impor um blecaute de comunicações em seu país. Ao desconectar todos os telefones, você também está desconectando toda a atividade econômica. No curto prazo, o que vamos ver é que os governos ditatoriais tendem a se tornar ainda mais ditatoriais.

Mas esse movimento de sincronização também ocorre entre países, não?
Sim, o fato de estes movimentos terem se espalhado pelo mundo faz parecer que há algo no ar. Há manifestantes em Wisconsin, no meio-oeste americano, levantando cartazes com referência a Cairo. Os EUA são conhecidos por não prestarem atenção no resto do mundo, por isso quando um evento que acontece fora de suas fronteiras penetra na consciência dos americanos, isso é uma grande coisa. E aí gente em Wisconsin começa a pensar no Cairo, as pessoas na Espanha começam a se ver como parte de um movimento político transmediterrâneo, que os conecta com os árabes… Surge a possibilidade de esse movimento espalhar-se globalmente, da mesma forma sincronizada que aconteceu em 1968. E, mais uma vez, isso aterroriza os governos da China, de Mianmar e da Coreia do Norte. Eu poderia tentar adivinhar que há dois cenários possíveis: em um há um resultado modestamente positivo para uma dúzia de países no Oriente Médio, e em outro temos a sincronização mundial de fervor antiautoritário, mas eu não faço ideia do que iremos ver.

Outro movimento global que vem acontecendo é o que coloca a natureza livre da internet em jogo, no debate sobre a neutralidade de rede.
O mais curioso é que a maior parte dos negócios se beneficiaria disso, pelo mesmo motivo que se beneficia quando as companhias telefônicas não cobram comissão pelas vendas que são feitas pelo telefone. O mundo dos negócios precisa que os meios de comunicação sejam abertos para que ele funcione – foi assim com os correios e com o sistema telefônico. Só dois tipos de negócio querem destruir a neutralidade de rede: empresas de telecomunicação e de conteúdo.
É bem provável que nós, nos Estados Unidos, percamos a neutralidade de rede pois as empresas de conteúdo conseguem pressionar o Congresso. Mas eu não acho que iremos ver a neutralidade de rede cair no resto do mundo.
Não acho que isso irá acontecer, por exemplo, na Coreia do Sul. Acho que eles reconhecem que sua economia precisa manter-se aberta e se eles forem taxar cada menor negócio e transação de consumo isso não será bom para sua economia. Eu espero que os países que já estão discutindo a questão da neutralidade de rede de forma mais incisiva optem pelo modelo aberto, mas não posso subestimar o fato de que ela pode ser sequestrada por interesses de negócios que se sentem ameaçados por uma nova competição.

Você não acha que a indústria de conteúdo norte-americana já está sendo ameaçada pela produção de conteúdo de outros países? Filmes da Índia, desenhos animados do Japão…
Com certeza. Isso já está acontecendo. E esse momento acontece através do vídeo. Minha filha, por exemplo, foi para uma festa de aniversário em que a diversão eram danças de Bollywood! A ideia de Bollywood já é comum o suficiente na cultura norte-americana para fazer parte de festas de aniversário infantis. Os EUA estão muito acostumados a ser um exportador de indústria cultural e não perceber o que acontece no resto do mundo e acho que isso está mudando. E um dos fatores dessa mudança é o YouTube, que não respeita barreira geográficas. Vamos começar a ver a mesma coisa que aconteceu com a música nos anos 90 – que começou a importar a pureza de artistas tão diferentes quanto Sun Ra ou Buena Vista Social Club ao mesmo tempo em que havia o polo oposto, com a cultura do remix. Acho que vamos ver isso acontecer isso em vídeo. Uma mudança que já dá para notar é que geração de hoje é culturalmente menos insular que a geração de seus pais. Isso mudará a cultura americana, nos tornará mais permeáveis como consumidores e produtores.

Nesse sentido, qual é o papel do Brasil enquanto grande exportador de conteúdo?
Eu acho que vai ser cada vez mais difícil acontecer um novo tipo de imperialismo cultural, como o dos EUA no século 20, que tinha a ver com nossa postura de “líderes do mundo livre” em um ambiente bipolar. Isso tornou muito fácil para a cultura norte-americana se espalhar a ponto de podermos falar em imperialismo cultural.
Mas agora estamos num mundo multipolar, em que instituições não-estatais têm um impacto maior na geografia do que governos. Um mundo em que os indivíduos podem participar mais.
Um dos meus ex-alunos fez um trabalho sobre a cena de funk carioca no Rio de Janeiro e sempre me falava da enorme encruzilhada de remixes e tradições que se misturava nessas músicas. Assim, acho que a posição do Brasil como exportador de cultura é mais a de se tornar um ecossistema mais do a que um simples transmissor, como os EUA do século passado.

E qual é a maior contribuição do Brasil para o mundo nessa paisagem digital?
Vocês podem abraçar a cultura aberta e ser uma economia em crescimento ao mesmo tempo. O que os estúdios de Hollywood, os canais de TV e as gravadoras querem fazer as pessoas acreditarem de forma muito desesperada é que se não houver uma indústria cultural que controle rigidamente esse mercado duas coisas acontecerão: não haverá cultura e isso será ruim para o crescimento econômico. E o que eu acho que o Brasil está mostrando para o resto do mundo é que não só dá para ser uma cultura aberta e uma economia em ascensão como as duas coisas podem ajudar-se entre si.

Minha coluna no Caderno 2 desse domingo fala sobre o fato da DC ter dado um boot em sua cronologia – pra sobreviver na era digital. Será?

Dilema digital
Quadrinhos no século eletrônico

A encruzilhada digital é implacável. Indústrias estabelecidas no século 20 graças à cultura de massas penam, no novo século, para se adaptar a uma realidade que celebra a cultura do nicho. Mais que isso, numa cultura digital, em que tudo pode ser copiado e reproduzido sem que o autor tenha controle da distribuição, fica cada vez mais complicado gerir um negócio que lide com a produção de conteúdo feita para milhões de pessoas.

A indústria do disco sentiu isso na pele ao servir de boi de piranha digital quando assumiu o papel de primeiro antagonista da web e processou quem baixava MP3 sem pagar. Hollywood sente dolorosamente essa mudança, quando o download de filmes via torrent a obrigou a apostar em superproduções e em novas tecnologias, como as salas Imax e 3D. Emissoras de TV do mundo inteiro veem suas programações escoarem para fora da grade rumo ao YouTube.

Música, cinema e TV estão sempre nas notícias quando se fala nesse assunto, mas uma indústria que é a cara do século 20 e está quase sempre à margem dessa discussão vem penando para retomar sua importância na era digital: os quadrinhos.

E quando se fala em indústria dos quadrinhos, dois nomes se destacam: Marvel e DC, editoras que criaram o conceito de super-herói moderno. A primeira tem se mexido drasticamente para continuar relevante nos dias de hoje, principalmente longe das revistas. Seu principal feito foi se transformar em estúdio de cinema para levar seus personagens para um público que não lê páginas em papel. A Marvel também pulou no iPad na primeira hora, criando um dos aplicativos mais festejados logo que o tablet apareceu. Mas a conta ainda não fechou – e a Marvel continua em busca de alternativas para fazer suas histórias em quadrinhos sobreviverem no século 21.

Sua principal rival, a DC, começou a se mexer de verdade na semana passada, quando anunciou que iria zerar sua linha de super-heróis e recomeçar a contagem de suas revistas, todas com um novo número 1. Não é a primeira vez que a editora que inventou o Super-Homem e o Batman tenta isso. Nos anos 80, conseguiu reiniciar seu universo com a saga Crise nas Infinitas Terras, em que permitiu que seus heróis pudessem fazer sentido no fim do século passado.

O novo reinício mira no digital. Além dos novos números 1, a editora deverá publicar, digitalmente, as mesmas histórias exatamente no dia em que elas chegam às bancas. O preço deverá ser mais barato que o das versões impressas, pois a editora quer que seu novo público volte para o papel uma vez que sentir o gosto dos novos títulos online.

Mas isso pode dar bem errado, já que, assim, eles podem matar um de seus principais redutos, que são as lojas de quadrinho – como a música online fez com as tradicionais lojas de disco. A estratégia trará novos leitores se der certo. Mas se der errado, pode afugentar até os velhos. Ninguém disse que seria fácil.