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Também falei nessa edição de segunda do Link sobre o Canv.as, o novo site do Moot, que deixou de ser fechado pra convidados na semana passada.

Canv.as é 4Chan organizadinho

Quando veio ao Brasil, no mês passado, o programador Christopher Poole, o Moot, estava às vésperas de lançar sua nova empreitada – o site Canv.as. “É uma espécie de versão domada do 4chan”, disse o criador do principal fórum de memes da internet.

O Canv.as estava funcionando só para convidados, mas a partir da semana passada quem quisesse conhecer o site já podia experimentá-lo. E a descrição feita por Moot disfarça o potencial de seu novo negócio.

Porque o 4chan é caótico por natureza. Um fórum de imagens em que qualquer um pode publicar o que quiser, sem nem mesmo se identificar, e que aceita qualquer contribuição, ingênuas ou escabrosas.

Já o Canv.as é organizado. Quem o utiliza deve se identificar e há um filtro que não permite publicar imagens mais tensas. Ele conta até com um editor de imagens online. Mas seu grande trunfo é a interface: tão simples de publicar quanto nos fóruns do 4chan, mas muito mais fácil de se encontrar.

O grande destaque do site é a forma como ele permite que seus usuários votem nas imagens que os outros sobem, de forma bem humorada. Será que Moot acertou de novo?

Escrevi sobre o Cowboys & Aliens no Divirta-se de hoje. O filme é bom, mas podia ser beeeem melhor…

Bom western, fraco sci-fi

A premissa de Cowboys & Aliens é esdrúxula desde o ponto-zero – recriar um conceito clássico da ficção científica, a invasão alienígena, num ambiente improvável, o velho oeste americano.

Não é propriamente pioneiro nesse sentido: ‘Batalha de Los Angeles’, do início desse ano, já brincava e bem com o mashup de gêneros (no caso, um filme de guerra sobreposto na premissa de invasão alien). Já o filme que fez o diretor Jon Favreau abandonar o terceiro Homem de Ferro não acerta em cheio como fez o filme de guerra.

E não foi por falta de brio. Na tentativa de se manter fiel ao gênero que determina o cenário da invasão, ‘Cowboys & Aliens’ recria um western com cara de clássico, bebendo na fonte dos faroestes crus feitos a partir de ‘Os Imperdoáveis’, de Clint Eastwood. A recusa de ser em 3D e sua fotografia escura e cheia de poeira combinam com atuações duras de Daniel Craig e Harrison Ford.

O filme só derrapa ao nos apresentar a alienígenas que misturam as baratas de ‘Tropas Estelares’ (1997), o ‘Alien’ da série clássica e o monstro de ‘Cloverfield’ (2008). O que sobra na parte western falta à parte sci-fi. Boa diversão, mas prometia mais.

Conversei com a senhora Huffington Post que esteve no Brasil na semana passada – e resumi o papo que tive com ela em na minha coluna do Caderno 2.

Arianna Huffington fala sobre o futuro do jornalismo

Na semana passada, Arianna Huffington esteve em São Paulo para palestrar em um evento e trouxe, na bagagem, uma informação que deixou todos em polvorosa: seu agregador de blogs, o diário Huffington Post, terá uma sucursal brasileira ainda em 2011. Seu site foi lançado em 2005 como duas operações conjuntas: de um lado, reuniu jornalistas para mudar a forma como as notícias são tratadas na internet, e do outro, oferece uma plataforma gratuita para blogueiros terem uma audiência maior.

A fórmula deu certo e o site se tornou referência para o jornalismo do século 21, ganhando relevância por cobrir de forma diferente tanto a crise financeira de 2008 quanto a eleição de Barack Obama, no mesmo ano. Sua sacada foi aprimorar a discussão com o público, tornando-o parte da notícia. Ela diz que, sem estatísticas, o jornalismo atual se esvazia, pois dá as costas para o que chama de “mais alta distinção” da profissão, que é contar histórias.

“Há tantos dados disponíveis hoje em dia, que parece que é possível justificar tudo apenas usando números”, ela me contou em entrevista na quinta-feira passada, dia 1º , no saguão do hotel Unique, em São Paulo. E afirmou que esse é um dos principais motivos do desinteresse do leitor pelas mídias tradicionais. “Esquecemos como contar histórias”, disse e concordou logo em seguida quando perguntei se esse era o motivo do sucesso do chamado “jornalismo cidadão” – em que, qualquer um, com um blog, pode se tornar um canal de notícias. Sem se encontrar nas notícias, o público começou a escrever sobre si mesmo.

E vai além: “Também acredito que a liberdade de expressão individual se tornou uma espécie de entretenimento”, dispara. “A gente sempre ouve perguntas como “por que as pessoas atualizam a Wikipedia de graça?”, “por que as pessoas blogam sem receber por isso?”, mas ninguém se pergunta por que as pessoas assistem a cinco horas seguidas de programas ruins de televisão de graça. Fora que escrever, criar… São formas muito mais inteligentes de entretenimento. Mesmo que você tenha um público muito pequeno, mesmo que escreva apenas para si mesmo e para poucos amigos. A liberdade de expressão individual é algo que precisa ser realizado”.

Segura de si, mas sem o estereótipo da mulher executiva do mundo digital, ela esbanja simpatia e deixa a conversa sempre em tom informal, lembrando que isso também é um dos motivos do jornalismo atual estar distante do leitor online – e riu ao lembrar como seu site noticiou o escândalo do presidente do FMI Dominique Strauss-Kahn com a manchete “OMG IMF” (siglas em inglês para “Meu Deus, FMI!”), típica da linguagem online.

Sobre o Huffington Post Brasil, ela não tem nada definido. “Estou conversando com possíveis parceiros, mas quero lançá-lo ainda neste ano”.

Minha coluna no Caderno 2 de domingo foi sobre a importância de Steve Jobs.

O digital é pop
Porque Jobs é tão importante

A principal notícia da semana foi a aposentadoria prematura de Steve Jobs. Já é possível prever a preguiça do leitor ao ser confrontado, de novo, com um tema que, teoricamente, lhe diz respeito apenas lateralmente. Mas mesmo que você não ache o iPad tudo isso, mesmo que não tenha nenhum tipo de smartphone, mesmo que tenha horror a computadores e os tenha que usar apenas pela imposição do mundo moderno, é inegável a contribuição do pai da Apple para a paisagem do século atual.

Ele não é apenas o inventor do computador pessoal. O verdadeiro pai da nova máquina é seu parceiro Steve Wozniak, mas foi Jobs que viu potencial comercial num aparelho que parecia não ter lugar na casa dos anos 70. Foi ele também quem pensou em mudar a cara desse mesmo cenário ao cogitar um computador pessoal que não precisava ser montado peça a peça – bastava comprá-lo na loja e sair usando. Também surrupiou duas ideias que estavam no limbo das invenções do mítico laboratório da Xerox, o PARC, e tornou-as não apenas pop, mas também cruciais no desenvolvimento deste mercado: a interface gráfica (antes, para se usar um computador, era preciso saber uma série de comandos digitados em uma tela preta com texto escrito em verde) e o mouse.

Ele também não inventou a distribuição digital, mas foi esperto o suficiente para perceber que as gravadoras estavam perdendo o bonde da história ao processar os consumidores que aprenderam a baixar música graças ao Napster. Notou a lacuna no mercado e transformou, em 2003, seu programa para ouvir música em uma loja online, a iTunes Music Store, e convenceu, aos poucos, as mesmas gravadoras que lutaram contra o download ilegal a vender música pela internet através da nova plataforma, tornando sua empresa, na primeira década do século, mais importante para o mercado musical do que qualquer outra gravadora. Aproveitou a deixa para impulsionar as vendas do MP3 player que havia lançado em 2001. E o iPod virou sinônimo desse tipo de aparelho. O sucesso de ambas iniciativas o cacifaram para voos mais altos.

Em 2007 nos apresentou ao iPhone e mudou completamente o conceito de smartphone, que antes era associado a executivos teclando em BlackBerrys. Aproximou o telefone a um computador portátil e tornou-o fácil e divertido de usar, criando, na mesma tacada, o mercado de aplicativos. E pavimentou o caminho para seu iPad, lançado ano passado, que hoje ameaça a existência do computador pessoal que inventou décadas antes.

O que há em comum em suas invenções é a facilidade de uso, o acabamento visual e um certo ar moderno e cool, verniz que Jobs sempre priorizou. E, com isso, transformou o mundo digital para sempre. Antes, nerds e computadores eram antissociais e inacessíveis. Depois de Jobs, eles se tornaram corriqueiros e legais. Eis a medida de sua importância.

O futuro sem Jobs

Escrevi o texto na capa do Link dessa segunda-feira.

O futuro sem Jobs
Ele não inventou nada, mas envernizou criações alheias com encanto e expectativa que mantiveram vivo o sonho americano

No início deste mês, no programa de entrevistas de Bill Maher, o astrônomo Neil DeGrasse Tyson, uma das principais autoridades em sua área no mundo atualmente, lamentou o fato de a crise econômica dos EUA ter obrigado o governo americano a cancelar o programa espacial. Ele disse que o rombo financeiro daquele país é astronomicamente maior do que todo o orçamento da história da agência espacial americana, a Nasa, e salientou que a importância de explorar o espaço vai além da astronomia: “Você se lembra de como era nos anos 60 e 70?”, explicava, “toda semana tinha uma matéria na revista Life sobre ‘a casa do amanhã’, ‘a cidade do amanhã’, ‘os transportes do amanhã’… Tudo isso acabou logo que paramos de viajar para a Lua. Nós paramos de sonhar.”

Ele se referia ao fim do sonho americano, que já vinha definhando desde o assassinato de Kennedy, passando pela Guerra do Vietnã e culminando com o escândalo de Watergate. É claro que o fim das viagens à Lua também mexeu com a autoestima do norte-americano, mas houve uma sobrevida, que aconteceu logo que os hippies ajudaram a transformar o Vale do Silício em uma das regiões mais inovadoras de todo o mundo. E é claro que essa transformação foi produto do trabalho de várias pessoas, mas um deles, o visionário, foi quem melhor encarnou o novo espírito.

Steve Jobs deixou, última quarta-feira, 24, o cargo de CEO da empresa que fundou em 1976 e que, há menos de um mês, chegou ao topo do mundo dos negócios, ultrapassando a Exxon Mobil no ranking das maiores de seu país. Uma trajetória fantástica, cheia de altos e baixos, que daria um filme bem mais interessante do que o feito sobre o Facebook, no ano passado.

Computador pessoal, interface gráfica, mouse, MP3 player, desenhos animados feitos em computadores, loja de distribuição digital, smartphone, tablet. Ele não inventou nada disso. Mas foi ele quem soube as cobrir com um verniz de encanto e expectativa a aparição de máquinas que apenas seguiam o conceito do sonho americano forjado nos anos 50.

São apenas eletrodomésticos, mas, como se referia Tyson em relação às invenções proporcionadas pela Nasa, eles nos ajudavam a criar uma noção de futuro. Nos davam uma perspectiva de horizonte próximo que nos fazia imaginar como seriam os próximos 5, 10, 50 anos.

A saída de Jobs da linha de frente da Apple coloca não apenas o futuro da empresa em xeque mas também o papel dos Estados Unidos na construção deste novo futuro. O país que regeu o século passado, o fez à base de produtos e aparelhos. Todo o chamado “imperialismo norte-americano” não seria bem sucedido caso não contasse com o aparato tecnológico que tornou carros, discos, tênis, jeans e camiseta, rádio, cinema, celulares e computadores parte do cotidiano de todo o planeta.

Mas o mundo mudou. E o presidente Barack Obama anunciou para seu país, no início do ano, que Google e Facebook, invenções norte-americanas, poderiam dar início ao que ele que se referiu como “o momento Sputnik da nova geração”, citando o primeiro satélite russo lançado no espaço, que deu origem à corrida espacial que colocou os EUA na Lua antes da União Soviética. Mesmo que isso aconteça, não veremos a possibilidade de um novo século americano. Pelo menos não do mesmo jeito que aconteceu no século passado.

Para começar, Google e Facebook não são produtos, são serviços. Ninguém os compra, todos apenas aderem a eles pelo fato de serem gratuitos. Não são palpáveis, não podem ser exibidos como símbolos de status e, por melhores que sejam, podem sim ser copiados e cair em desuso tão rápido quanto ascenderam. Além disso, ambos serviços vivem à sombra do fantasma e um totalitarismo digital, que faz o Google repetir “don’t be evil” (“não faça o mal”) como uma espécie de mantra para não cair em tentação e a figura de Mark Zuckerberg ser vista por mais de uma geração não como um visionário idealista, mas como um robô obcecado por controle.

Google e Facebook não têm ninguém tão carismático e reconhecido pelo público como a Apple tinha. Jobs segue a tradição dos grandes nomes que se consolidaram nos EUA, que une Benjamin Franklin, Henry Ford, Alexander Graham Bell, Levi Strauss, Thomas Edison e Bill Gates, homens que inventaram máquinas que deram origem a indústria inteiras, ao mesmo tempo em que personalizavam estas invenções. Jobs é o filho caçula desse cânone e, ao menos por enquanto, não surgiu ninguém que possa reivindicar o posto de prodígio temporão. Também não surgiu ninguém deste porte vindo da Índia, Rússia, China ou Brasil, o que dá alguma folga para os EUA.

A saída de Jobs de cena não é, como parece, o anúncio de sua morte. E, sim, o ocaso final do sonho americano. Aquele em que é possível chegar e acontecer, mostrar que é possível sair do nada e se tornar alguém apenas com uma ideia e a própria perseverança. Foi Jobs quem proveu os aparelhos que mantiveram o sonho americano vivo até hoje. Ao deixar seu principal palco, pode estar apressando a saída dos EUA do pódio do imaginário mundial, mesmo que a contragosto. E assim, quem sabe, começamos para valer o século 21.

Escrevi sobre o novo filme da série O Planeta dos Macacos no Divirta-se dessa sexta. O filme vale – e muito.

Destreza e graça

Esqueça o ‘Planeta dos Macacos’ de Tim Burton (aquele acinte à história da ficção científica). Planeta dos Macacos – A Origem não tenta inventar moda nem reescrever nenhuma história. Pelo contrário. Parte do pressuposto tão em voga na ficção científica do século 21 que dispõe-se a contar o que aconteceu antes da história que todos conhecem.

Vale um parêntese: (assistir ao primeiro ‘Planeta dos Macacos’ ou às suas quatro continuações – produzidas entre 1968 e 1973 – não é um pressuposto imprescindível para ver o novo filme, mas há uma série de referências e cenas rápidas que farão os fãs dos originais sorrir em silêncio – como a rápida citação a ‘Os Dez Mandamentos’, com Charlton Heston, o protagonista do primeiro filme.)

‘A Origem’ acompanha a carreira do cientista Will Rodman (James Franco, ótimo como sempre), que tenta desenvolver uma droga para curar o mal de Alzheimer, que aflige seu pai (John Lithgow). Mas, ao testá-la em chimpanzés, Rodman percebe que sua invenção vai além do proposto e aumenta a inteligência dos bichos-cobaia. E leva um deles para a casa, para logo perceber que seu remédio tem funcionado bem demais.

O que vemos a seguir é o auge de uma parceria já consagrada: a do ator Andy Serkis e do estúdio de efeitos especiais Weta, de Peter Jackson. Serkis pode ser desconhecido à primeira lembrança, mas é o mesmo ator que vive o Gollum na saga ‘O Senhor dos Anéis’ e o personagem principal de ‘King Kong’ (2005). Sua interpretação magistral e efeitos especiais de primeira fazem o macaco de Rodman, batizado Caesar, um dos principais eventos cinematográficos do ano.

E, para quem teme que o filme seja apenas ação e ficção científica, o trunfo de seu diretor (o novato Rupert Wyatt, em seu segundo filme) é equilibrar isso com cenas tocantes da relação homem-animal. Há certa demagogia, mas na medida certa, sem nunca tornar o filme piegas.

Também convém observar a câmera de Wyatt, que balança entre árvores, prédios e carros como a graça e a destreza de um animal selvagem – uma espécie em extinção.

Escrevi sobre a saída de Jobs do cargo de CEO da Apple no caderno de Economia dessa sexta, no jornal.

É preciso avisar que Steve Jobs não morreu
“News of my death has been greatly exaggerated”

A notícia da aposentadoria de Steve Jobs pegou todos no susto. Sua empresa, criada numa garagem californiana no meio dos anos 70, foi apontada há pouco como a mais valiosa do mundo. A Apple se beneficiou da recente crise econômica que desvalorizou os papéis nos EUA e fez que a antiga líder, a Exxon Mobil, caísse momentaneamente para o segundo posto.

Não é só isso: com a consolidação de seu iPad no mercado, a Apple não apenas ditou um parâmetro para o mercado – ainda sem concorrentes à altura, apesar das inúmeras tentativas –, como corre o risco de reinventar o computador pessoal mais uma vez, se seu tablet aposentar de vez o desktop.

E, de uma hora para a outra, vem a notícia de sua aposentadoria inesperada. Principalmente porque, depois de pedir afastamento por problemas de saúde, ele voltou à ativa, mesmo que por exigência do conselho da empresa, para anunciar o novo modelo do iPad. Parecia que em pouco tempo ele voltaria à ativa de fato e, em breve, revelaria mais um novo produto, além das já anunciadas – embora ainda especuladas – versões do iPhone (a quinta) e iPad (a terceira).

O impacto da notícia, por mais importante que seja, teve um tom fúnebre. Há até fãs da marca fazendo vigília em Apple Stores, como se o criador da empresa tivesse realmente falecido. “Cadê seu Deus agora?”, perguntam engraçadinhos na internet, provocando os fãs dos aparelhos Mac.

Mas a aposentadoria de Jobs é o ponto final em sua carreira? A não ser que seu estado de saúde seja realmente crítico (o que não descarta a possibilidade de sua morte acontecer entre a redação deste texto e sua publicação), a notícia da última quarta é apenas mais uma das inúmeras adversidades que Jobs enfrentou em sua biografia.

Para começar, não é a primeira vez que ele sai da Apple – isso aconteceu em 1985, quando pediu demissão da própria empresa que criou após uma disputa de poder interna. E não é o primeiro problema de saúde que enfrenta – venceu um câncer de pâncreas no início da década passada e passou por um transplante de fígado em 2009.

Não é à toa que a maioria das biografias escritas a respeito dele têm um tom de autoajuda e de superação; motivo semelhante de suas aparições terem tom religioso. Fui a um desses cultos, quando ele apresentou o finíssimo Macbook Air, em janeiro de 2008, em San Francisco – que nem é dos principais aparelhos de sua empresa. Mas a simples presença de Jobs no palco era o suficiente para encantar seus fãs (não à toa, carisma ele tem de sobra) e, logo depois, fazer as ações da empresa subirem. Deixar a Apple, portanto, não é o fim.

Falei sobre a participação do Moot no YouPix da semana passada em minha coluna de ontem no 2.

Moot entre brasileiros
O criador do 4chan amou o País

“Moot has left the building”, brinquei com o Luiz, da produção do YouPix, quando ele me falou que o criador do 4chan havia acabado de sair do hotel em direção ao Porão das Artes, no prédio da Bienal, onde aconteceu, de quarta a sexta passada, a última edição do maior festival de cultura de internet do Brasil. Mediaria, na quinta-feira, o bate-papo de Christopher Poole, o Moot, com o público do evento. Estava, portanto, esperando a chegada do rapaz de 22 anos no lugar para conversar pessoalmente com ele, antes de irmos ao palco. Já havia falado com ele pelo telefone, quando o entrevistei para a capa do Link da semana passada, e queria me apresentar para ele, que era o principal nome da edição do evento neste semestre.

A razão de sua importância é o fato de Moot ter criado, aos 15 anos, um fórum de troca de imagens chamado 4chan. Se apropriou de um formato de publicação japonês que permite que as pessoas se comuniquem através da troca de imagens, formato parecido com o de um fórum, só que bem mais simplificado. A facilidade de uso era uma de suas principais características. A outra era o fato de que ele não exigia que seus usuários se identificassem para publicar o que quisessem no fórum.

Isso transformou o 4chan em uma enorme fábrica de piadas visuais que só faziam sentido para seu pequeno grupo inicial de usuários. Mas suas qualidades (a facilidade de uso e o anonimato) o transformaram em um sucesso em escala global. O fato de suas mensagens serem imagens tornava o 4chan universal, pois bastava um pingo de conhecimento de inglês e de internet para começar a se entender no site. E assim, as piadas internas, antes restritas a um grupo de veteranos, começavam a ganhar toda a internet.

E assim surgiram o Rick Roll, os LOLcats, as ragefaces e uma série de outros memes que são comuns a quem passa parte de sua vida conectado à rede. E foi no 4chan que, graças ao anonimato, o grupo de hackers Anonymous pode se conhecer e começar a se organizar, para depois partir para ação, como fizeram neste ano.

Moot chegou e nem ele acreditou no assédio. Todos queriam tirar fotos com ele. “Eu nunca passei por isso, nem nos EUA”, disse, fascinado. E, ao subir no palco, em vez de ficar acanhado com o tamanho do público, sentiu-se em casa. Contou a história do 4chan e de seu novo site, o Canvas (“meu primeiro emprego”), falou de como percebeu que o site havia fugido de seu controle (“quando o FBI ligou em casa, me procurando”) e respondeu, às gargalhadas, a provocações e piadas do público. Ao final, foi apresentado ao vídeo viral brasileiro mais popular do ano (o funk carioca “Sou Foda”) e o blogueiro Maurício Cid, do blog Não Salvo, o botou para dançar. Moot adorou os brasileiros e confirmou sua teoria – de que nós entendemos a internet melhor do que o resto do mundo.

Falei do Super 8 na minha coluna no Caderno 2 de domingo.

A nova inocência
‘Super 8’ e o coração de uma geração

A promessa se confirmou. Super 8, que estreou neste fim de semana no Brasil, o terceiro filme de J.J. Abrams é tudo aquilo que parecia ser quando seu trailer de pouco mais de um minuto apareceu online há um ano. Ele é conhecido como Midas da TV pós-internet ao usar pistas e dicas colocadas online para aumentar a exposição e, portanto, a audiência de suas séries. Alias, Lost e Fringe são os melhores exemplos desse tipo de estratégia que também foi testada e aprovada no cinema. Mas até Super 8, J.J. só havia lidado com obras alheias – sua estreia na direção foi no terceiro Missão: Impossível e seu segundo filme acertou na mosca ao conseguir trazer a mitologia de Jornada nas Estrelas para uma nova geração.

Com Super 8, ele partiu para uma história nova e autoral. E, para isso, resolveu aliar-se a um de seus ídolos do cinema, Steven Spielberg, que chamou para produzir o filme. E como J.J. não é bobo nem nada, aproveitou a deixa para fazer o que melhor sabe: puxar links e referências para enriquecer seu trabalho – e fazer fãs enlouquecidos procurarem por essas pontas soltas dentro e fora da internet.

E o alvo, nesse caso, foi o próprio Spielberg. Mirando no ídolo como se olhasse num espelho, ele procurou um ponto em comum em sua filmografia para captar algo específico para a própria carreira. E escolheu os anos 80 consagrados pelo diretor. Depois de salvar Hollywood da bancarrota ao criar o formato blockbuster em Tubarão (1975), Spielberg se dispôs a dar a tônica de seu tempo. E, ao dirigir filmes como Contatos Imediatos do Terceiro Grau e E.T. e produzir outros como Goonies e De Volta para o Futuro, ele fez questão de celebrar seu novo público – os adolescentes dos anos 80. Walkman, videogame, computadores, rock, skate, grafitti – tudo que parecia modismo ou descartável para uma geração mais velha que a sua foi canonizado por Spielberg nesses filmes. Mais que isso, deu a uma geração que poderia crescer desesperançosa uma sensação de pureza e ingenuidade. Próxima àquela impregnada nos anos 50 dos EUA.

E agora J.J. Abrams quer repetir o feito. Já havia apostado na recuperação dessa inocência em sua primeira produção, o seriado Felicity, e todas as suas séries, por mais estranhas que fossem, nunca deixavam a emoção de lado. Lost era sobre amor e amizade, Fringe e Alias também tratam sobre a relação entre pais e filhos. Ao retratar o início dos anos 80 com o mesmo cuidado que Spielberg deu aos anos 50 (a conexão da viagem no tempo de De Volta Para o Futuro, que interliga 1955 e 1985 é crucial para entender isso), ele está às vésperas de conquistar corações e mentes da geração digital. De uma vez por todas.

A íntegra da entrevista que fiz com o “Moot”, do 4chan, que saiu na capa do Link de hoje. Quinta-feira estarei mediando o papo com ele no YouPix.

Moot exclusivo
Em entrevista exclusiva, criador do 4Chan fala sobre Facebook, anonimato e o Anonymous, movimento político surgido dentro do fórum criado por ele aos 15 anos

É sua primeira vez no Brasil. O que você sabe sobre o País?
Eu não sei nada muito específico, mas sei que, depois dos Estados Unidos, é um dos países que melhor entendem a natureza da internet. Tanto o 4chan quanto o Canvas têm muitos acessos vindo do Brasil. E sei que é um país forte em redes sociais e em jogos sociais, e que é um dos países que mais se envolvem com novas tecnologias e com a cultura da internet.

Você se vê como uma autoridade digital?
Eu não sou uma autoridade, mas um ponto de vista alternativo contra o consenso emergente que é a favor da identificação online e pró-Facebook. Eu me vejo como uma pessoa que se dedicou a ter uma opinião diferente, mas não uma autoridade.

Mas você sente alguma responsabilidade ao assumir esse papel? Seu público o vê como alguém próxima da geração digital, em vez de ser um CEO querendo vender algum produto…
Sim, acho que um dos motivos pelos quais eu tenho falado em público sobre assuntos como identidade e privacidade online é porque não há muitas pessoas que advogam a favor de alternativas. O 4chan se encaixa naturalmente nisso, mas quando eu o comecei há sete anos, quando tinha 15 anos, a questão do anonimato não era tão discutida e eu nem poderia prever que o fórum se tornaria um paraíso para quem posta sem se identificar. Mas o percurso até aqui foi muito esclarecedor e educativo nesse sentido; eu aprendi muito e passei a valorizar esse tipo de comunidade e a interação que esse estado de liberdade permitia. E assim fui parar em um lugar bem diferente de onde está o consenso vigente e acabei me tornando uma voz que vai ao encontro a essas tendências.



Ilustração de Fernando Bueno e infotipográfico de Jairo Rodrigues publicados na edição do Link de 19 de abril de 2010,  que teve o 4chan na capa.

Como você se sente diante do rótulo de anti-Mark Zuckerberg?
Não gosto desse título. Primeiro porque é importante separar o Mark do Facebook, quem ele é como pessoa e quais são os interesses de sua empresa, embora ambos se confundam. Ele tem uma opinião, eu tenho outra e tenho certeza de que há muitos assuntos em que concordamos e outros tantos em que discordamos. Eu não acho que ele queira que o mundo seja apenas de um jeito, e é claro que ele favorece o que ele imagina que é o Facebook, que é uma plataforma de identidade. E é claro que ele quer que todo mundo a utilize. Por mim, tudo bem, podem usar, mas acho que não deveria ter apenas uma dessas e sim várias alternativas. As pessoas acabam colocando a gente em pólos diferentes – ele como um cara que é 100% a favor da indetificação e eu como um cara 100% a favor de todo o tipo de anonimato, e ambas afirmativas são falsas. Concordamos em muitos pontos e não somos tão diferentes assim. Estamos em pontos opostos deste espectro, mas não nos mais extremos.

Você, portanto, não se considera o líder do movimento pró-anonimato.
É. Gosto de dizer que sou apenas uma voz de uma parte da história que não tem tanta representação. Há muitos que defendem a necessidade de se identificar online e, infelizmente, poucos que veem as coisas de outra forma.

O Facebook virou uma rede global depois de começar atuando só em universidades, depois só nos EUA e, finalmente, atingindo o resto do mundo. Já o 4chan sempre foi global, desde o início. Por quê?
Um dos motivos que tornou o 4Chan multicultural desde o início é o fato de ele usar imagens como principal meio de comunicação. E imagens transcendem a barreira da linguagem e da cultura. E elas também são inclusivas, permitindo que todos possam entender sem precisar ter o contexto da linguagem. Acho que isso, principalmente, e o fato de seu funcionamento ser muito simples, até para quem mal entende inglês. Basta sair clicando no site para entender como ele funciona.

Há também o fato de boa parte do texto nestas imagens é escrito num inglês mal-falado. Costumo brincar que o idioma universal não é o inglês, mas o inglês mal-falado.
(Ri) É verdade.

E foi difícil sair do anonimato e se assumir como uma pessoa pública?
Foi sim, eu sou muito na minha. Mas por outro lado, vi que era inevitável, que uma hora ia acontecer, se eu não me revelasse, alguém iria fazer isso. Quando vi que, aparecendo em público, eu poderia falar com a revista Time ou com o Wall Street Journal e falar o meu lado da história, sem que alguém falasse por mim.

O que você do grupo de hackers Anonymous, que começou dentro do 4chan?
Acho fascinante. Eu mesmo nunca participei de nada deles, só era o dono do lugar em que a apareceu uma fagulha que depois virou incêndio. Não tenho nada a ver com eles e sou apenas um observador casual, como qualquer um. Mas é fascinante observar uma organização tão pioneira e com motivações básicas, formada basicamente por jovens, aparecer de uma hora para a outra na internet. E o que os torna ainda mais especiais foi a rapidez que eles conseguiram não só dominar a internet mas também sair dela, transformar a presença online em presença de fato. E isso é algo que pouquíssimos conseguiram. Por isso acho que vai ser algo que as pessoas vão se referir daqui a dez anos ou mais como um marco importante na história do ativismo online.

Há quem trate isso apenas como modismo, algo passageiro…
Um modismo? (Pausa para pensar) Ativismo não é nada novo e as pessoas se organizam em prol de causas pela internet desde que ela existe. Acho que a cada dez anos esse idealismo assume uma nova forma e acredito que essa é a nova forma que está sendo apresentada hoje e que deve funcionar entre 2010 e sei lá quando, mas, fundamentalmente, é a mesma lógica, o mesmo ativismo, de formas diferentes.

E qual é a sua opinião sobre o WikiLeaks e Julian Assange?
Eu também não me considero um especialista nesse assunto. Mas eu não vejo motivos para, por exemplo, o Anonymous ter um só porta-voz. O que aconteceria se apenas uma pessoa fosse presa ou tivesse problemas? Vimos o que aconteceu quando isso aconteceu quando pegaram um deles, que foi silenciado e censurado, e isso fez o WikiLeaks perder muito de sua auto-estima e também de seu momentum e Julian hoje vive sob forte escutínio. Eu gostava mais do WikiLeaks quando os via como um grupo de indivíduos que se reuniam em prol de um único objetivo, não acho que Julian Assange represente esse grupo, que considero mais democrático.

Você não temia que isso também pudesse acontecer com você em relação ao 4chan? Não achava que, ao assumir que era o dono do fórum, você pudesse representar valores diferentes do grupo que representa?
É sempre possível que alguém venha dizer que nós fizemos algo errado, mas nós não violamos nenhuma lei, nem sequer hospedamos arquivos que possam infringir direitos autorais, por exemplo. Temos uma regra número 1 no site que é “não infrinja a lei”.

O que seus pais acham disso?
Eles me apoiam, acho. Não é um assunto que vem à tona o tempo todo e a reação deles é quase sempre “que interessante” (ri). Às vezes eles vêem algo nos jornais e vêm me perguntar, mas não é um assunto recorrente. Mas eles sempre me apoiaram.

Eu queria que você falasse um pouco sobre sua primeira empresa. Como vai o Canvas?
Estamos indo bem. É bom diferenciar o Canvas do 4chan, mas estamos trabalhando num software de comunidade, que é um produto e que, além disso, exige que você se registre e se identifique, mesmo você tendo a opção de aparecer como anônimo nos posts. A ferramenta também é diferente, pois tem recursos de edição e remix dentro do próprio sistema, que permitem incluir links externos, vídeos, imagens e outras formas de interação online.

O 4chan foi concebido para ser o site mais simples possível de usar, estamos trabalhando o Canvas da mesma forma, só incluindo recursos mais modernos. E há também o fato do software ser bancado. Eu banquei o 4chan pelos últimos anos e o fórum apenas se sustenta, não fatura milhões de dólares mas também não perde milhões de dólares. É cada vez mais um hobby para mim. Já o Canvas é uma empresa com dinheiro de investidores – nos últimos 14 meses nós arrecadamos US$ 3,6 milhões. E aí com esse dinheiro você começa a ter de pensar em uma equipe, em ritmo de trabalho e é claro, com as expectativas – que, em nosso caso, apostam em uma grande plataforma milhões de jovens meio parecida com o 4chan, mas diferente de muitas formas. É uma experiência muito nova para mim, é a primeira vez em que eu me vejo envolvido com uma equipe de verdade, acionistas, funcionários, todos pensando em construir algo.

É um universo bem diferente do que você lidava quando era apenas do 4chan. Já chegou a se chatear?
Tivemos a sorte de ter um dos melhores financiadores dos EUA. A maior parte do nosso dinheiro foi levantado pelo Fred Wilson, da Union Square, que foi um dos prmeiros a investir no Twitter, na Zynga, no Foursquare. Ele é um cara ótimo e tivemos sorte de pegar um investidor que entende o nosso negócio e quer nos ajudar. Então é justamente o contrário, não dá para ficar chateado: cada vez que você senta para conversar com esses caras, aprende algo novo sobre o mercado, os negócios ou o produto. É um aprendizado diário.

Tanto o Canvas quanto o 4chan apostam na comunicação através de imagens e colagens visuais. Você acha que esse tipo de comunicação – junto com vídeo e voz – podem mudar o aspecto ainda escrito da web?
Acho que você tem razão. A linguagem visual tem um apelo maior. O texto está conosco há muito tempo na web e ele parece, de alguma forma, achatado, sem dimensão e, portanto, enfadonho. Mas com recursos multimídia, qualquer um hoje pode fazer fotos, vídeos ou material em áudio e assim criar experiências multimídia, às vezes até sem perceber.
Eu não vou me surpreender se a linguagem visual – foto e vídeo – se tornar a principal forma de comunicação da internet. Estamos vendo, pelo menos nos EUA, um grande mercado para fotos e vídeos. Em 2004 ou 2005, quando o Flickr e o YouTube apareceram, nós vimos um grande interesse nisso porque as câmeras digitais haviam ficado mais baratas e melhores e isso foi um fator determinante para que o que chamamos de web 2.0 decolasse. As pessoas começaram a entender que um site não precisava ter apenas texto, que poderia ter fotos e vídeos, e começaram a produzir esse tipo de conteúdo. Tenho a sensação de que isso está acontecendo de novo. Não que seja a web 3.0, mas é como se fosse uma segunda corrida do ouro em busca de fazer aplicativos que tenham um apelo maior junto à cultura visual e multimídia.

E, para terminar, há algo que você queira fazer no Brasil, especificamente?
Eu não tenho muitos planos, na verdade. Estou muito animado, pois tenho um amigo que foi para São Paulo há dois anos, Anthony Volodkin…

Sim, do Hype Machine. O entrevistei quando ele esteve por aqui.
O Anthony é ótimo e ele só tinha coisas boas para dizer sobre o YouPix, a cidade e as pessoas que conheceu. Disse que teve uma experiência incrível. Sei que boa parte do público que consome cultura de internet no Brasil é da periferia, que eu sei que existe, mas não conheço nada. Queria ver se consigo fazer algo intenso, um curso intensivo de realidade brasileira.