Um exercício de especulação
A essa altura do ano passado, o festival Planeta Terra não só já havia anunciado parte de seu elenco, como os ingressos haviam sido esgotados. Até agora, o máximo de especulação que eu ouvi falar foi que talvez o Hot Chip viria. Por isso, acho que está na hora de começar a cogitar o que pode vir por aí no maior festival de indie rock do Brasil.
Porque o Terra está numa encruzilhada. Depois do sucesso dos Strokes no ano passado (que fizeram os ingressos do festival esgotar em menos de um dia), há uma expectativa de que isso possa se repetir este ano. Não que o fenômeno dos Strokes seja único; há artistas que poderiam repetir o bom desempenho de bilheteria sem que o festival necessariamente caia no mainstream, mesmo porque o mainstream de hoje em dia tem um pezinho no indie. Nomes como Arcade Fire, Killers, Wilco, Arctic Monkeys ou Adele (no limite) poderiam fazer os ingressos se esgotarem bem mais rápido que nas edições anteriores à dos Strokes (que tiveram descontos de lotes e ficaram meses à venda).
O problema é que não é simples assim. A curadoria de um evento deste porte esbarra em obstáculos como agenda, cachê e disponibilidade dos artistas, além de compatibilidade com o gosto dos patrocinadores. E aí pode ser que o festival derrape: ao tentar garantir um nome de peso próximo ao dos Strokes, pode optar por deixar de ser um evento indie e ir para o escalão acima, onde o SWU e o Rock in Rio se engalfinham em torno de bandas que tocam no rádio e artistas cuja carreira terminou há mais de vinte anos, embora não tenham percebido ou consigam sobreviver com clássicos. Ou seja: um festival puramente comercial. O que seria uma pena, afinal o grande trunfo do Terra é justamente manter-se indie, trazendo artistas que nem tem disco lançado no Brasil na hora em que eles estão começando a acontecer no exterior.
E como sonhar não custa nada, faço aqui a lista do que seria um Planeta Terra perfeito para mim. Claro que apenas metade de um dos palcos que cogitei já deixaria o festival emocionante, mas resolvi partir pra utopia mesmo, misturando meu gosto musical com a vontade de ver (ou rever) determinados artistas ao vivo.
Assim, o palco indie começaria como…

…o Teen Daze faria aquele showzinho pré-por do sol…

…o Chromatics tocaria durante o por do sol…

…e terminando com o Xx, antes da meia-noite.
Enquanto o palco principal ficaria com…

…o Metronomy ao cair da tarde…
Tá bom, não? E você, o que sugere?
Também escrevi sobre a importância de Ray Bradbury na minha coluna na edição de segunda-feira do Link.
Ray Bradbury: o autor que nos despertou a paixão pelo futuro
Ele trouxe o futuro para mais perto do presente
De todos os grandes nomes da ficção científica, Ray Bradbury, que morreu na semana passada, era o menos geek. Enquanto outros autores igualmente importantes se deixavam levar por devaneios científicos (como Asimov, Heinlein, Clarke) ou metáforas tecnológicas (K. Dick, Gibson, Farmer, Burroughs), Bradbury se via como um escritor, não como um visionário ou um filósofo. E foi assim que trouxe o futurismo distante que encantava o pequeno público inicial do gênero mais importante do século 20 para as massas.
Seu truque era contar boas histórias sem se ater a detalhes técnicos ou precisões tecnológicas. Veja o exemplo de seu título mais popular, As Crônicas Marcianas, coleção de contos que narrava como os terráqueos invadiram o planeta vermelho, invertendo a lógica do pioneiro H.G. Wells, que fez marcianos invadirem a Terra num dos primeiros clássicos do gênero (Guerra dos Mundos, de 1898). Mas, ao escrever sua saga, Bradbury tinha menos Wells em mente – e mais o John Steinbeck de As Vinhas da Ira. Pouco importava a tecnologia que era usada para colonizar o planeta ou problemas considerados críticos por escritores mais científicos (como gravidade ou atmosfera). O que Ray queria era usar a ficção científica como gancho para falar sobre relações humanas.
O mesmo vale para seu livro mais reconhecido, Farenheit 451, o clássico onde a queima de livros simboliza a destruição de toda uma cultura para a manutenção da autoridade de controle. Ele poderia estar falando do futuro, mas também estava falando de seu tempo – afinal, o livro foi lançado em 1953, quando o macartismo norte-americano gritava denúncias contra qualquer suspeita de comunismo e instaurava o clima de paranoia e caça às bruxas nos EUA.
Usar o futuro como metáfora para o presente não é uma das principais condições da ficção científica, embora muitos tenham usado deste recurso (até mesmo escritores que não pertenciam ao gênero, como n’As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift, ou 1984, de George Orwell). Na verdade, Bradbury fazia o caminho inverso de uma das principais qualidades do gênero, que é permitir que cientistas, que normalmente se enfurnam em pesquisas e perdem o referencial externo, possam vislumbrar possibilidades criativas que não podiam cogitar antes. Com escritores deixando a imaginação correr solta, tecnologias e oportunidades que não haviam sido imaginadas anteriormente (como a viagem pelo espaço sideral, a teoria dos universos paralelos, a inteligência artificial, entre outros exemplos) passaram a entrar na rotina destes teóricos.
Bradbury ia na contramão. Em vez de assustar ou encantar o público com suposições apocalípticas e fantásticas, preferia tratá-las com indiferença, fazendo com que o público não-geek pudesse imaginar um futuro em que, mesmo com a onipresença de tecnologias novas e inéditas, parecesse com o seu presente. Assim, foi aos poucos acostumando o planeta com um futuro implacável, que não era trágico ou impossível. “É bom renovar o encanto”, escreveu nas Crônicas Marcianas, “a viagem espacial nos tornou crianças novamente.”
E aos poucos nos fez crer que a inevitabilidade de novas tecnologias não era algo a ser temido, mas aceito, como um presente da humanidade para ela mesma no futuro. Um Edgar Allan Poe otimista, Ray Bradbury não temia o desconhecido, mas o aguardava como uma criança em véspera de Natal. Não fosse sua habilidade de fascinar o público, talvez fôssemos mais temerosos em relação às novidades que nos assolam diariamente. Muitos até podem se sentir saudosos com esse futuro neoludita que, felizmente, não aconteceu. Pois para cada problema e paranoia criada pelo século digital (ausência de privacidade, excesso de controle, consumismo, déficit de atenção), tantas outras soluções e possibilidades benéficas surgem a todo instante, transformando nosso presente numa velocidade nunca vista na história.
Tudo graças a este artista que, antes de tudo, era um defensor dos livros e das boas histórias. “Meu trabalho é fazer que você se apaixone”, dizia. E, graças a ele, nos apaixonamos pelo futuro.
Minha coluna na edição desta semana do Link foi sobre como desativaram minha conta no Facebook.
O dia em que minha conta do Facebook foi desativada
Estamos às vésperas de um êxodo em massa do Facebookistão?
Sexta passada acordei, li o jornal, tomei café e liguei o computador. Abri meu e-mail e, quando comecei a abrir as abas subsequentes para continuar minha rotina matutina dentro da rede, um aviso a interrompeu: “A sua conta do Facebook foi suspensa”.
Um microssegundo de pânico (“Minhas fotos! Minhas mensagens! Meus contatos!”) foi seguido de um longo segundo de paz (“Imagine não ter que me preocupar mais com o Facebook…”). Enquanto a metade mecânica do meu cérebro abria novas abas para buscar “Como recuperar minha conta no Facebook” em fóruns específicos, a outra, a racional, procurava pelo telefone da assessoria de imprensa da rede social ao mesmo tempo em que eu pensava em você, caro leitor do caderno que edito, que pode passar por uma situação semelhante sem saber a quem recorrer.
Porque nem sequer há um e-mail para quem você possa mandar sua reclamação. O máximo que dá para fazer é acessar a página facebook.com/help e ver o que é que você pode ter feito para ter a conta suspensa. Milhares de perfis do Facebook são suspensos ou bloqueados diariamente pelos motivos mais diversos: os usuários infringem direitos autorais, publicam conteúdo impróprio ou tentam se passar por pessoas que não são. Outra possibilidade de ser defenestrado da rede social – ou ter algumas funções do perfil desabilitadas – é a falta de noção ao usar ferramentas básicas do site. Quem adiciona centenas de amigos no mesmo dia, publica fotos ininterruptamente ou convida desconhecidos para participar de grupos, por exemplo, pode ter desativado o recurso que usou sem parcimônia.
E enquanto tentava descobrir como fazer para minha conta voltar a funcionar (e em todas as dificuldades que alguém que não tenha contato direto com a equipe do site poderia passar), fiquei pensando que este tipo de atitude pode acabar frustrando o usuário casual.
Motivos para deixar o Facebook – como motivos para permanecer lá – não faltam. O site é constantemente acusado de utilizar informações valiosas sobre cada um de nós para transformar-se num negócio bastante lucrativo – isso sem contar as teorias de conspiração que acusam a rede social de ser uma máquina de espionagem governamental. Mas não chegamos àquela fase que aconteceu logo depois do auge do Orkut no Brasil, antes da tal “orkutização”, quando centenas de usuários da primeira rede social do Google resolveram cometer o que foi batizado, à época, de “orkuticídio”.
Mas os números de crescimento do Facebook vêm diminuindo. A rede passou os 800 milhões de cadastrados no final de 2011 e levou quase seis meses para atingir os 900 milhões de usuários que ainda não foram oficializados em comunicado, apenas nas especulações que precederam sua abertura de capital na Nasdaq.
E os casos de contas desativadas, por motivos diferentes, vêm aumentando. E se eu, que me encaixo na categoria hard user da rede social, pensei na possibilidade de uma vida sem Facebook, imagine quem entrou na rede porque os amigos insistiram (“todo mundo está lá!”) ou porque se sentiram por fora, mesmo sem ter intimidade com o meio digital…
Steve Coll, jornalista da revista norte-americana New Yorker, nem precisou passar pelo perrengue que passei para decidir deixar a rede social. No artigo “Deixando o Facebookistão”, ele explica a série de motivos que o fizeram abandonar o site e conta que, ao encontrar o botão escondido que permite desativar a sua conta, foi perguntado sobre os motivos da saída. Não encontrou as alternativas reais que motivaram sua desistência (sugeriu “regras cidadãs inadequadas” e “dúvidas sobre governança corporativa”) e escolheu a que mais se encaixa com sua insatisfação: “Eu não me sinto seguro no Facebook”.
No início da tarde de sexta-feira, uma mensagem chegou ao meu e-mail dizendo que minha conta havia sido desativada “por engano”. Vai entender… Mas não duvide se começarmos a ver, até o fim do ano, um êxodo massivo da maior rede social do mundo.
A teoria já foi discutida por Selton Mello e Seu Jorge no curta Tarantino’s Mind, da 300 ml. Vale o replay:
Resumindo: todo o universo dos filmes de Quentin Tarantino – à exceção de Jackie Brown, cuja história é de Elmore Leonard – está interligado entre si, seja por marcas, como os cigarros Red Apple (o Slusho de Tarantino) ou o Big Kahuna Burger (que, citado em Pulp Fiction, também reaparece em Reservoir Dogs e no trecho que Tarantino dirige no filme Grande Hotel)…
…Mas principalmente pelos personagens. Como explicou o Selton no vídeo acima, Vincent Vega (o Travolta em Pulp Fiction) e Vic Vega (Michael Madsen em Cães de Aluguel) são irmãos, o policial Scagnetti que só é citado em Cães de Aluguel é o mesmo que aparece em Assassinos por Natureza (cujo roteiro é de Tarantino). A maleta de Pulp Fiction é a que tem os diamantes do final de Cães de Aluguel e, diferente do que foi citado no vídeo acima, há uma teoria que diz que os filmes Um Drink no Inferno e os dois Kill Bill não pertencem diretamente a este universo, mas são filmes que são assistidos pelos personagens. Filmes violentos, cheios de referências à cultura pop – e o Sonny Chiba no início de True Romance (outro roteiro de Tarantino) é o mesmo que faz Hatori Hanzo em Kill Bill, que tem uma história parecida com a série de TV que Mia Wallace iria interpretar em Pulp Fiction, o Fox Force Five, onde era uma especialista em facas, como a Noiva de Kill Bill. A lista vai adiante sempre com elementos pequenos, vagos, em que a lição de Hitchcock (ele mesmo um easter egg humano em todos seus filmes clássicos) mistura-se com a sincronicidade de C.G. Jung. Não chega a ser um grande filme dividido em capítulos como sugere o papo de Selton e Jorge, mas um jogo de linguagens e de camadas de leituras que o Rob Ager tão bem definiu a explicar o 2001 de Kubrick. O próprio Tarantino já admitiu isso.
(Vale até abrir um parêntese pro Hitchcock:
Que figura!)
A novidade é que esta semana apareceu uma releitura deste universo que pode explicar a origem de toda verborragia pop e ultraviolência que unem a filmografia de Tarantino quase como uma tônica de narrativa, mais do que uma história em si. Traduzo abaixo o post que pintou no Reddit na terça passada, assinado por FrancisDollarHyde (spoilers se você não viu o filme mais recente de Mr. Q, Bastardos Inglórios – mas, porra, você ainda não viu esse filme? Vacilo). Veja abaixo:
E na minha coluna da edição de segunda do Link escrevi sobre a minha rendição ao Instagram.
Um oásis de quietude dentro do oba-oba das redes sociais
Comecei ‘lurker’ e logo passei a fotografar o céu
Me rendi ao Instagram.
Não havia aderido ao aplicativo de fotos pelo simples fato que não tenho iPhone e o aparelho era o único que permitia o uso do aplicativo. Até o mês passado. A versão para o sistema operacional móvel do Google chegou e instalei o programinha no meu telefone para ver como ele funcionava.
A princípio, me comportei apenas como um lurker (no jargão digital, lurker é aquele que só observa e não participa – boa parte dos usuários do Twitter, por exemplo, são lurkers, o que quer dizer que nunca twittaram, se limitando a ler o conteúdo dos outros). Muitos no Instagram também se comportam dessa mesma forma, sem publicar nenhuma foto e, portanto, sem seguidores.
De cara, percebi uma mudança drástica em comparação com outras redes sociais. Por não prezar por textos, os usuários do Instagram se comunicam por fotos. Mas há uma diferença crucial entre a publicação de fotos no Instagram e, por exemplo, no Facebook. Ao permitir apenas fotos – e não vídeos, textos, links e todo tipo de conteúdo que pode ser compartilhado e curtido no Feice –, o Instagram tem um ar zen, que mistura a contemplação com a paciência, o silêncio com a luz.
Por isso ele é bem diferente do oba-oba típico do Facebook. Sim, as pessoas postam fotos de comida, dos próprios animais, de paisagens, dos amigos, mas os ângulos são diferentes e a abordagem, díspar. Quando você sai para jantar com amigos e posta fotos no Facebook, a imagem é quase sempre da mesa cheia, todos sorridentes, olhando para a câmera. No Instagram, o foco vai apenas para o prato. As fotos de festas são difusas, quase impressionistas, ao contrário da eterna coluna social das fotos de festas no Facebook, em que é possível taguear todos os amigos que foram ao evento. Enquanto no Facebook e no Twitter há uma urgência em mostrar o que está acontecendo naquele exato momento, no Instagram, a impressão que temos é que o tempo parou. Para sempre. E sempre num momento lúdico, tranquilo, satisfeito – nada eufórico, corrido ou megalomaníaco como em outras redes sociais.
Por isso, antes de começar a tirar fotos e postá-las no Instagram, me limitava a ver os recortes visuais para a vida de amigos e conhecidos. Empurrando a barra de rolagem para baixo com o polegar, entrava em um oásis de tranquilidade e calma sempre que lembrava de visitá-lo. Como é uma rede que se movimenta basicamente pelo celular, os comentários são poucos e breves, quase sempre no tom contemplativo das fotos. Não há discussões ferrenhas, confrontos de opiniões nem listas intermináveis de bate-bocas entre pessoas que mal se conhecem. Pelo mesmo motivo, não é preciso ficar checando a rede o tempo todo. Tira-se alguns momentos do dia para visitar esta clareira pacífica na selva de informações que a internet se transformou.
Depois de um tempo, comecei a publicar fotos. E entre trechos de livros, rótulos de discos de vinil, imagens tiradas da TV ou de cantos específicos de lugares onde estou, comecei a tirar fotos do céu. Deve ser um dos três principais clichês do Instagram (os outros dois são fotos de comida e de bichos), mas deixei a arrogância de lado e comecei a tirar fotos do céu.
Foi quando percebi uma mudança na minha rotina. Não dirijo, vivo de táxi para cima e para baixo e quase sempre alterno o olhar entre algo dentro do carro (quase sempre o celular, maldito Angry Birds!) ou para a rua, sem atenção. Mas foi só começar a fotografar o céu que me peguei algumas vezes olhando para cima enquanto o taxista me levava rumo ao meu destino.
E semana passada o Facebook anunciou a primeira novidade relacionada ao Instagram após comprá-lo por um bilhão de dólares, ao revelar um aplicativo que permite que se tire fotos com os filtros vintage da outra rede social. Mas o Facebook Camera é mais poluição informativa para uma rede social em polvorosa. A graça do Instagram está em ser um canto de quietude e introspecção longe do desfile de egos e opiniões deformadas que infestam a internet.
A foto que ilustra o post saiu deste disco
Minha coluna na edição do Link desta semana foi sobre o cofundador brasileiro do Facebook.
A contribuição histórica de Eduardo Saverin ao Facebook
Brasileiro revoltou norte-americanos ao renunciar à sua cidadania
Já é bem conhecida a saga de como um brasileiro foi passado para trás por um dos maiores nomes da história da internet e perdeu a oportunidade de entrar para a história. Na semana em que o Facebook finalmente se tornou uma empresa pública, abrindo capital na bolsa de valores Nasdaq, o site Business Insider revelou detalhes sobre como Mark Zuckerberg decidiu que Eduardo Saverin não faria mais parte da empresa que fundaram juntos.
A história é o ponto central do filme A Rede Social, de 2010, que mostra como dois alunos de Harvard, a partir de um fora que Zuckerberg tomou de uma garota, começaram um serviço online que, a princípio era fechado apenas para estudantes da universidade, mas que aos poucos se tornou um dos sites mais acessados da história da internet. Só que, em dado momento, os dois divergem sobre como gerir a rede social e Zuckerberg decide tirar da empresa o primeiro diretor financeiro. O golpe foi tão duro que Saverin foi banido da história da própria rede até que o filme tornasse sua história pública – e, através dos tribunais, conseguisse reaver 4% das ações da rede (quase nada, em comparação aos 30% que teve antes de ser defenestrado por Mark).
Nos e-mails que foram divulgados pelo Business Insider, Zuckerberg não é nada lisonjeiro ao se referir ao ex-sócio: “Ele se ferrou…”, escreveu. “Ele deveria ter criado a empresa, obter financiamento e bolar um modelo de negócio. Ele falhou nas três. Agora que eu não vou voltar para Harvard não preciso me preocupar em ser espancado por capangas brasileiros.”
Mas o tom das conversas de bastidores no início da rede social não foi a única vez que Saverin apareceu no noticiário dos últimos dias. No dia 11, a agência de notícias Bloomberg anunciou que o brasileiro renunciou à cidadania norte-americana para morar de vez em Cingapura. Foi o suficiente para gerar especulações em relação ao motivo da decisão: Saverin estava deixando os EUA para fugir de impostos.
A especulação irritou os norte-americanos, que o acusaram de sair do país com dinheiro ganho lá. O jornalista Farhad Manjoo chegou até a dizer que Saverin era um mal agradecido, em um longo artigo em que explicava por que Saverin havia sido salvo pelos EUA, ao lembrar que sua família mudou-se de São Paulo para os EUA pois havia descoberto que o nome de Eduardo, com 13 anos à época, estava numa lista de possíveis sequestráveis no Brasil.
Mas Manjoo foi além e disse que Saverin era “ingrato e indecente”, pois além de seu país ter acolhido o brasileiro, ainda foi graças aos EUA que Eduardo Saverin conheceu Zuckerberg. E que se não fossem os Estados Unidos, que inventaram a internet, ele não seria nada. A confusão ao redor do brasileiro foi tanta que até mesmo senadores norte-americanos colocaram em pauta a possibilidade de bani-lo para sempre do país.
Um exagero do tamanho das proporções que o Facebook têm hoje.
Mesmo porque, traidor (dos EUA) ou traído (por Zuckerberg), Saverin tem um mérito único: foi a primeira pessoa a perceber que o site que seu colega de faculdade estava criando poderia ser lucrativo. E desembolsou parcos US$ 15 mil para comprar os primeiros servidores do hoje gigante digital.
Pode-se fazer uma série de especulações sobre este momento, principalmente em cima do fato de Zuckerberg poder ter criado o Facebook com outro investidor. Mas a própria criação do site é marcada por confusões. O filme de David Fincher também conta como Mark poderia ter copiado os códigos de programação de um site semelhante que estava sendo criado na mesma época, em Harvard, pelos gêmeos Winklevoss. Do mesmo jeito, um primeiro investidor na ideia de Zuckerberg poderia roubá-la dele.
Não foi o que aconteceu. Saverin investiu no Facebook e a história depois disso todos conhecemos. E o mérito de ter sido o primeiro a perceber a possibilidade da rede social crescer e dar dinheiro é de Eduardo. Seja ele cidadão norte-americano, brasileiro ou de Cingapura.
E a matéria de capa do Link desta semana é a entrevista que fiz com o fundador do Tumblr, David Karp, que vem ao Brasil começar a internacionalização de sua plataforma – e nesta mesma semana inauguramos o Tumblr do Link.
A orkutização do Tumblr
O criador do Tumblr chega ao Brasil para promover a expansão internacional do site e fala, com exclusividade ao Link, sobre o rumo da plataforma que está substituindo os blogs
David Karp, criador do Tumblr, chegou ao Brasil no fim de semana para uma série de eventos que marcam o início da internacionalização do site criado por ele há cinco anos. O primeiro aconteceu em Curitiba, no domingo, e os próximos têm data marcada para esta semana: dia 25 há uma festa no Rio de Janeiro (no Espaço Sacadura) e dia 26 em São Paulo (no antigo Masp, no centro).
Uma plataforma de autopublicação simplificada, o Tumblr é uma das principais redes sociais do mundo, e Karp diz ao Link que escolheu o Brasil para começar sua expansão internacional por achar que nosso comportamento online reflete bem a natureza de seu site, que, como ele diz, quer que funcione como um ponto de convergência para criadores online. Conversei com ele na semana passada pelo telefone sobre a relação de seu site com a nossa cultura digital.
Por que começar a expansão pelo Brasil?
O Brasil é uma comunidade incrível. Não só pelo fato de crescer e usar a internet de forma ágil, mas também pela sensibilidade criativa. E não é algo que esteja restrito a uma comunidade de early adopters ou às pessoas fascinadas por tecnologia ou a uma região específica – é o país inteiro. Acho que o Tumblr toca num nervo que mexe com a noção de cultura daí, uma sintonia que não atingimos nem nos EUA. A impressão que tenho é que o seu país é um caldeirão para novas formas de produzir artes e uma nova cultura. É claro, para mim, que a cultura brasileira celebra a criatividade mais consistentemente do que os EUA hoje em dia.
Como o Tumblr se encaixa num cenário que já tem Twitter, Facebook e Google? A impressão que tenho é que vocês lidam com nichos em vez de lidar com a massa…
O motivo pelo qual várias comunidades diferentes são atraídas pelo Tumblr é a diversidade. Apesar de parecer que o Tumblr é uma plataforma para fotos e vídeos, eu o considero um lugar para mídias em geral. Pode ser mais uma vontade minha do que a realidade, mas acho que ele tem mais a ver com diversidade e liberdade de expressão do que com algum tipo específico de mídia ou de conteúdo. Por exemplo, o Twitter é ótimo para quem usa o celular se expressar e é bom para frases de efeito ou piadas de comediantes. Já o Instagram e o Flickr são ótimos para fotografia, e o YouTube tornou-se um padrão para vídeos. Mas vejo o Tumblr como algo atraente e excitante para criadores em geral, e queria que ele se tornasse um ponto de convergência para comunidades criativas.
Quando o Tumblr começou, há cinco anos, a internet no celular ainda era rudimentar, não havia a economia de aplicativos e redes sociais não eram algo tão presente. Como continuar relevante nos próximos cinco anos?
Começamos como uma plataforma de publicação e era o que queríamos: ser uma plataforma simples e fácil de usar. Acontece que surgiu uma rede de mídia diferente desde que criamos o Tumblr. Assim, funcionamos como vitrine para esta nova rede. A tecnologia muda de forma muito rápida e os criadores acompanham a velocidade dessas mudanças. Sobre internet móvel, acho que estamos ainda arranhando a superfície de algo completamente novo, por isso não acho que estamos defasados em relação ao que virá. E há tantas coisas sendo criadas agora – linguagens de programação, hardwares, novas tecnologias – e eu não vejo nenhuma grande empresa de tecnologia lidando com isso hoje. No máximo o YouTube, mas acho que eles têm uma abordagem bem diferente da nossa.
Qual é a sua abordagem para estas mudanças de formatos e plataformas?
O telefone celular, sem brincadeira, é a máquina de produção de mídia mais sofisticada que já existiu. Antes você precisava de uma filmadora, ligava-a ao computador, esperava o vídeo ser transferido, para aí sim editá-lo muito lentamente. Agora, você faz tudo isso em um só aparelho de 100 dólares. É incrível. O que nos deixa muito animados com essa mudança para dispositivos móveis é que ela torna muito mais fácil produzir qualquer coisa que, se não fossem os celulares, as pessoas não produziriam – e talvez não se descobrissem como criadores. Os aplicativos que já foram criados para esta máquina – o Instagram, o Cinemagram… – não estão nem no começo da história.
Ao mesmo tempo, você tem uma nova plataforma que também é um aparelho – o tablet. Para mim, a maior qualidade dele é trabalhar com a exploração e descoberta na navegação, o que é parecido com a natureza do Tumblr. Meu blog, por exemplo, tem posts de todos os assuntos, em todos os tipos de mídia. Algumas coisas eu criei, outras eu repostei de outros. E quando eu vejo os blogs desses outros criadores, também vejo que eles também têm suas coleções de tópicos e mídias.
É uma rede muito complicada de se explorar (ri). Há tantos pontos de conexão que você pode navegar por horas, dias na rede de uma única pessoa! Isso é muito difícil de se fazer em um browser! É um ambiente que você só pode subir e descer, que você tem de abrir abas, e muitas abas abertas são um pé no saco… Não são bons para isso. Se você tenta abrir doze abas do YouTube em um browser, vira uma bagunça. Browsers não são a melhor forma de navegar. Tablets, por outro lado, tornam a navegação mais divertida. Permitem que você explore a rede de uma forma não linear.
Em suas pesquisas sobre o Brasil você deve ter ouvido falar na expressão “orkutização”, que significa se tornar popular, com tom pejorativo. É algo que você teme ou quer para o Tumblr?
Conheço o termo. Um de nossos primeiros investidores é um dos CEOs do Fotolog (John Borthwick), e sempre conversamos sobre o papel do Fotolog e do Orkut na difusão da internet no Brasil. Mas há algo de interessante no fato de o Orkut ter sido uma empresa dentro de outra maior ainda, que era o Google. Foi por isso que ela não ganhou a atenção que deveria, mesmo sendo uma das maiores redes sociais do planeta. Na indústria de tecnologia comenta-se à boca pequena como o Orkut foi negligenciado pelo Google, como o Google esqueceu que tinha o Orkut. Se for verdade, precisamos entender como uma rede tão cheia de gente pode se tornar uma comunidade tão sem inspiração a ponto de ser mal vista.
Não acho que tenha a ver com alguma faixa de renda ou etária. Acredito que a tendência de crescimento, da inclusão de cada vez mais gente, é a regra desse tipo de mercado, por isso você tem de aprender a lidar com as massas e, principalmente, se preparar para isso. Por isso, se falar em “orkutização” parece que nos referimos a uma favela online é porque as pessoas que gerenciavam aquela rede foram descuidadas com a infraestrutura do design. É o tipo de decisão que pode erodir qualquer tipo de comunidade virtual. Nos preocupamos bastante com isso: com a possibilidade de a comunidade Tumblr ser arruinada pela negatividade, pela falta de inspiração, por qualidades genéricas que podem transformar a rede social em um lugar em que não queremos estar.
Aproveitei a última notícia antes da morte do MCA para falar, mais uma vez, da importância do Paul’s Boutique, na minha coluna do Link dessa semana…
A obra-prima que não pediu licença ao direito autoral
Paul’s Boutique, dos Beastie Boys, não poderia ser feito sob regras atuais
Um dia antes da morte de Adam Yauch, sua banda, os Beastie Boys, foi notificada pelo uso indevido de trechos de duas canções do grupo TroubleFunk. Yauch – também conhecido como MCA – morreu no último dia 4, vítima de um câncer na garganta contra o qual lutava desde o fim de 2009. No dia 3, a empresa que representa os direitos do grupo de funk de Washington, TufAmerica, entrou com uma ação pedindo indenização pelo fato do trio de Nova York ter usado trechos de duas músicas em seus dois primeiros discos.
Um pedaço de “Drop the Bomb” foi utilizado nas faixas “It’s the New Style” e “Hold it Now, Hit It” do primeiro disco dos Beastie Boys, Licensed to Ill, de 1986. Outro trecho da mesma música apareceu no disco seguinte, na faixa “Car Thief”, do álbum Paul’s Boutique, de 1989. O mesmo disco ainda trazia um trecho de outra música do TroubleFunk, “Say What”, na faixa “Shadrach”.
O verbo-chave no centro desta disputa é o neologismo “samplear”. O termo é um anglicismo que vem da palavra “sample” – amostra, em inglês –, mas começou a ser utilizado desta forma depois que a empresa japonesa Akai decidiu categorizar o modelo S900 de seu gravador digital como “sampler”. Com ele, era possível selecionar um trecho de áudio e repeti-lo por várias vezes, tornando possível a utilização de pedaços de músicas para a composição de novas canções. Este tipo de gravador já existia antes do Akai S900, mas foi graças a esse modelo – muito mais barato que seus antecessores – que a prática começou a ser mais difundida.
E os primeiros a utilizar o novo aparelho como instrumento musical foram os órfãos da disco music, que inventaram a música eletrônica como a conhecemos hoje. Depois que a discoteca implodiu no fim dos anos 1970, uma geração de novos fãs perdeu o referencial de onde conseguir novas músicas. E, aos poucos, foram eles mesmos se transformando em compositores, primeiro utilizando toca-discos para reproduzir trechos instrumentais. Foi assim que surgiram as dezenas de subgêneros da música eletrônica, como o techno de Detroit, o house de Chicago, o Miami Bass em Miami, o jungle em Londres, o funk carioca no Rio de Janeiro. Todas estas cenas musicais ficaram deslumbradas com o surgimento do novo aparelho.
Inclusive os de uma nova cena nova-iorquina que, diferentemente de seus parentes citados acima, dava mais ênfase ao vocal do que à base musical. O hip hop surgiu no mesmo momento em que a disco music foi induzida à overdose de exposição pela indústria fonográfica que a criou. Em 1979, o grupo Sugar Hill Gang lançava a música “Rapper’s Delight”, em que um trio de MCs rimava sobre uma base que consistia num loop de um trecho da música “Good Times”, do grupo Chic. Foi o início de uma das manifestações culturais mais influentes das últimas décadas.
Quando o sample surgiu, as bases usadas em discos de vinil deram lugar às bases que usavam o sampler como disparador de trechos. O DJ seguiria como o principal instrumentista do gênero até hoje, mas, no final dos anos 80, houve uma renascença musical criada a partir de artistas que usavam trechos de músicas alheias para compor novas músicas. Mas ninguém foi tão longe quanto os Beastie Boys – especialmente em Paul’s Boutique.
São centenas de trechos de discos, músicas, filmes e programas de TV usados ao longo de suas quinze músicas. O resultado dá a impressão de uma audição esquizofrênica, mas o disco é tão bem costurado que foi chamado de o “Dark Side of the Moon do hip hop”, em referência ao clássico disco do Pink Floyd, pela revista Rolling Stone.
Quando foi lançado, deu origem a uma série de questionamentos em relação a tal prática, que era inédita – os beasties não perguntaram se poderiam fazer, simplesmente foram fazendo. E deram origem a uma obra-prima da música moderna que seria impossível de ser realizada hoje em dia sem que a banda desembolsasse algumas centenas de milhares de dólares para gravar o disco. Mas, sem pedir licença, criaram um dos principais marcos da cultura do remix.
Não dá para ter a menor idéia do impacto que os Beastie Boys tiveram quando apareceram para o resto do planeta há mais de um quarto de século. Não lembro quando foi que ouvi falar deles pela primeira vez – provavelmente via Bizz, mas o rádio também era uma boa fonte de notícias sobre música naqueles tempos -, mas a mera descrição do trio desafiava a compreensão daquela década tão careta: era um grupo de rap formado por adolescentes nova-iorquinos brancos rimando palavrões e perversões sexuais sobre riffs do AC/DC e do Led Zeppelin. Isso numa época em que o rap tinha meros cinco anos de idade e só há pouco começava a descobrir seu papel social como “a CNN dos negros”, resumiria Chuck D anos depois. Num tempo em que não se sampleava música dos outros (o verbo sequer existia) e os gêneros musicais eram separados por paredes mais firmes que o Muro de Berlim. Quando era moralmente antiético falar palavrões em público – um dos trampolins para o sucesso dos Sex Pistols fora da Inglaterra foi o fato da banda falar “fuck” em um programa de TV. A simples aparição dos Beastie Boys já havia gerado controvérsia o suficiente para que a sociedade norte-americana discutisse a criação de um selo nas capas de discos indicando que o conteúdo musical era impróprio para menores. Essas pequenas notícias se misturavam ao fato de que os Beastie Boys eram nomes com uma popularidade em clara ascensão e seu primeiro disco – Lincensed to Ill – vendia mais a cada semana – até se transformar no primeiro disco de rap a chegar ao topo da parada da Billboard e o disco de rap mais vendido nos anos 80.
Mas lembro-me direitinho da primeira vez em que pude ver o trio em ação – as fotos faziam o grupo parecer apenas três moleques tirando onda de popstar, não uma banda de verdade. E o clipe de “No Sleep Till Brooklyn”, que gravei num velho VHS que tenho em algum lugar aqui em casa, mostrava que não era só isso. Eles sim eram três moleques tirando onda de popstar, mas também eram personagens de um filme adolescente, um trio de comédias, rindo de coisas que ninguém ria porque não tinham a faixa etária adequada para entender aquele humor.
O clipe começa com um empresário esperando uma banda aparecer para fazer o show. Batem à porta, são os Beastie Boys. “Nós somos a banda”, MCA é o primeiro a abrir a boca. “A banda? Cadê seus instrumentos?” e Ad-Rock mostra um disco. “What the…”, pausa o empresário antes de quebrar o vinil na cabeça do jovem Jerry Lewis e bater a porta na cara dos três. Batem à porta de novo, são os Beastie Boys com perucas e uma guitarra no ombro, falando como se fossem roqueiros de araque. O empresário sorri feliz e os coloca para tocar no palco, mas logo que a música começa o grupo começa a se desfazer de sua fantasia – na marra – para mostrar que são do rap. E da quebradeira.
O que se assiste é uma crítica pesada à indústria fonográfica e seus mecanismos de sucesso, contrapondo a arruaça contínua daquele hip hop branco com os piores chavões do rock fonográfico dos anos 80 – o hair metal, a importância do solo de guitarra, as groupies, as fantasias, o comportamento no palco. O clipe começa com os três fantasiados de banda de hard rock fuleira e antes do refrão ser cantado pela primeira vez, o grupo é deixado usando apenas cuecas para logo depois surgirem com seu próprio uniforme: jeans, camiseta, tênis, boné, óculos escuro, jaqueta de couro. Não bastassem tirar o rock do palco para substitui-lo com uma letra que é pura tiração de onda (lembro de ter detectado “Beastie Boys always on vacation” na primeira vez que ouvi a música – e do impacto deste conceito), os Beastie Boys ainda destroem o palco (Ad-Rock usa um taco de beisebol para destruir amplificadores, Mike D quebra uma guitarra, Yauch metralha – ! – uma parede de Marshalls) e fogem com o dinheiro, encerrando o clipe com uma cena em que arrombam o cofre da casa noturna como se fossem os irmãos Marx (britadeira, pé de cabra, estetoscópio). Com o cofre aberto, eles fogem com o dinheiro em sacos com um cifrão desenhado, não sem antes passar pelo palco e exibi-lo ao público. Os irmãos Metralha venceram.
De repente eu consegui entender o impacto dos Sex Pistols no final dos anos 70, os cabelos compridos dos Beatles no início dos anos 60, Elvis não ser filmado do quadril para baixo em sua primeira apresentação no programa de Ed Sullivan. Tinha apenas doze anos, mas gostava de ler sobre os mitos e causos da história do rock, que transformaria em mitologia pessoal durante minha adolescência, e inevitavelmente me levaria a definir alguns rumos na minha vida (não estou escrevendo isso por outro motivo, afinal). E sempre que tentava absorver o impacto de um Led Zeppelin ou dos Mutantes em seu tempo, sentia que estava perdendo algo. Justamente o ponto central da transgressão, afinal uma vez que ela transgride, estabelece um novo limite. Os quadris de Elvis eram quase ingênuos, nasci na mesma época da disco music, assistia às Chacretes na TV no sábado à tarde. Os cabelos dos Beatles eram longos na época da Beatlemania? Por que tinham franja e deixavam cobrir as orelhas? A regra entre todos os artistas nos anos 80 eram cabelos compridos – e tanto pra gente do rock quanto do country, da MPB, do jazz, da dance music. Era impossível entender como homens de cabelos compridos podiam ser algo transgressor. Mesmo o palavrão dos Sex Pistols era minimizado pelo refrão de “Bichos Escrotos” dos Titãs ou pela íntegra do terceiro disco do Camisa de Vênus, o censurado Viva!
Aí vêm os Beastie Boys e facilitam o entendimento destes choques anteriores para a minha geração. Havia o fator putaria, originalmente concentrado nos quadris de Elvis e expandido para jaulas que, nos shows dos Beasties, abrigavam go-go girls – algumas delas puxadas do próprio público. Havia o fator diversão e acabação, uma versão turbinada da Beatlemania com PCP no lugar de anfetamina e o ethos do hard rock substituindo o cânone da primeira geração do rock’n’roll. O choque dos Sex Pistols também estava no DNA do trio, que parecia ter surgido com o único intuito de escandalizar o público. Outras formas de afrontas históricas do mundo pop eram referidas à medida em que a banda crescia – quartos de hotel destruídos como nos clássicos causos do Led Zeppelin, o grupo se apresentava com um pênis inflável gigante como os Stones faziam no início dos anos 70, eram comuns brigas entre a banda e o público, um gesto que ecoava shows de artistas tão diferentes quanto o Pink Floyd e o Clash. E por pouco não batizaram seu primeiro disco de Don’t Be a Faggot – Não Seja Viado, em português claro.
Eram o gêmeo mau de Ferris Bueller, o Charlie Sheen que a irmã de Ferris encontra na delegacia ao final de Curtindo a Vida Adoidado, o prenúncio da vinda de Bart Simpson. Um filme de humor negro de John Hughes, o Clube dos Cafajestes de John Landis às vésperas do século 21. Não foi por outro motivo que conseguiram levar o hip hop para um público que adorava aquele novo ritmo, mas se identificava de outra forma – menos racial – com a violência, a pobreza e a opressão da cidade grande. Não eram uma gangue de rua, eram uma turma do fundão.
E, como os quadris de Elvis, os cabelos dos Beatles e o “fuck” dos Sex Pistols, aquilo só horrorizava os mais velhos. Quem regulava na faixa etária do grupo – ou menos, como era o meu caso e de toda a minha geração nascida nos anos 70 – sentia até um certo alívio ao vê-los em ação. Parecia que havíamos sido libertado de um pop careta que aos poucos transformava o rock’n’roll em uma guitarra de plástico de videogame. Os Beastie Boys apavoravam uma cena que tinha como seus principais nomes gigantes como Prince, Bruce Springsteen, Dire Straits, Supertramp, Madonna, Van Halen, Michael Jackson – carreiras surgida com a transformação de todo o excesso cafona dos anos 70 em um modelo de negócios. Richard Gere no papel de Elvis Presley. Os Beastie Boys apareciam como três personagens dos Looney Tunes segurando o riso em uma cerimônia religiosa, como se Peter Sellers em Um Convidado Bem Trapalhão fosse Didi, Dedé, Mussum e Zacarias. Tudo isso dentro do imaginário clássico do rock que fez com que o trocadilho infame do nome do grupo os colocasse eternamente entre os Beach Boys e os Beatles nas prateleiras de disco.
E isso tudo foi apenas o primeiro momento da banda (na verdade, o segundo; o primeiro foi a brevíssima carreira como uma das primeiras bandas de hardcore de Nova York, que penava por ser do Brooklyn numa época em que Nova York era sinônimo de Manhattan). Para além do primeiro disco, quando romperam com o produtor que os colocou no mapa (o mesmo Rick Rubin que gravaria os melhores discos do Red Hot Chili Peppers e ressuscitaria a carreira de Johnny Cash) e com a gravadora que os lançou (a pioneira Def Jam de Russell Simmons, que também lançou o Run DMC e LL Cool J, entre muitos dos primeiros nomes do hip hop).
Assinaram com a Capitol Records e mudaram-se para Los Angeles, onde conheceram a dupla de produtores Dust Brothers e piraram na nova autonomia na Costa Oeste dos EUA. Com rimas que pareciam falar sobre qualquer tipo de assunto (a história da ciência, beisebol, Bob Dylan, perseguições policiais, filmes dos anos 70), elas encontraram a base perfeita na colagem magnífica feita pela dupla John King e Mike Simpson (que anos mais tarde produziria o disco Odelay, do Beck). Os Dust Brothers levavam a iniciante arte do sample para uma outra dimensão, colidindo trechos curtos de filmes e músicas com bases tiradas de loops improváveis. Paul’s Boutique, o segundo disco dos Beastie Boys, é uma enorme colagem caótica de referências enciclopédicas tanto nas vozes dos três MCs quanto na sequência interminável de citações musicais usadas sem que, na época, houvesse qualquer tipo de legislação sobre tal uso de samples. Por isso, um disco que originou discos que só puderam sair em determinados países específicos, devido ao excesso de citações (o belga As Heard on Radio Soulwax Pt. 2, do 2ManyDJs, e o australiano Since I Left You, dos Avalanches) teve uma máquina de marketing global a seu favor. Não foi nem de longe o sucesso instantâneo do primeiro disco. Mas funcionou como o Sgt. Pepper’s para seu público – a colagem não estava mais na capa, e sim no próprio som, e era – é – possível debruçar-se sobre o Paul’s Boutique repetidas vezes, contemplando apenas algumas facetas de sua genialidade. Não à toa a mesma Rolling Stone que cravou “Três idiotas compõem uma obra-prima” sobre Licensed to Ill, explicava que Paul’s Boutique era “o Dark Side of the Moon/Pet Sounds desta nova geração”.
Em dois discos, o trio foi de um extremo a outro e assim mapeou sua área de atuação – entre o mais brega e o mais cool, o mais inconsequente e o mais canônico -, abrindo o caminho para dominar os anos 90. Foi o que fizeram – e, à medida em que a década passava, foram aos poucos deixando a irresponsabilidade de lado para ampliar ainda mais os próprios horizontes. Logo tinham sua própria gravadora (a Grand Royal, que lançou Luscious Jackson, Sean Lennon, Ben Lee, entre outros), seu estúdio, sua quadra de basquete, sua revista (a impagável Grande Royal Magazine) e eram responsáveis não apenas por uma banda, mas por uma carreira. O conceito mágico de “No Sleep Till Brooklyn” (“Beastie Boys always on vacation”) poderia ser adaptado para o mundo dos negócios. A maturidade financeira, no entanto, foi conseqüência de outro amadurecimento, o individual. O primeiro a rever seus conceitos em público foi Adam Yauch, que abria sua participação no quarto disco da banda, Ill Communication, desculpando-se pela misoginia dos discos anteriores, como diz na letra de “Sure Shot”:
“I want to say a little something that’s long overdue
The disrespect to women has got to be through
To all the mothers and the sisters and the wives and friends
I want to offer my love and respect to the end”
O mesmo beastie boy que era obcecado por armas também fez seu mea culpa sobre o assunto mais tarde, ao assumir o budismo como religião e o Tibet como causa – foi Yauch quem bolou o Tibetan Freedom Concert, concerto beneficente que em 1996 reuniu nomes como De La Soul, Fugees, Sonic Youth, Beck, Foo Fighters, Björk, Smashing Pumpkins, A Tribe Called Quest, Pavement, John Lee Hooker, Red Hot Chili Peppers, Rage Against the Machine, Skatalites, Yoko Ono e os próprios Beastie Boys, entre outros, e que se repetiu por mais cinco anos. Sua voz ríspida e grave já era o contraponto perfeito para as vozes esganiçadas de Mike D e Ad-Rock e o fato de assumir o baixo quando o trio voltava a ser uma banda (com Mike na batera, e Ad-Rock na guitarra) reforçava o papel de terra firme que MCA tinha junto ao trio. Suas contribuições para o imaginário da banda reforçam este papel: além de diretor de clipes sensacionais sob o pseudônimo de Nathaniel Hornblower (mandando um “Imma Let You Finish” impagável na MTV anos antes de Kanye West), tinha sua própria produtora de filmes (sem sua Oscilloscope não teríamos Precisamos Falar Sobre Kevin, Exit Throught the Gift Shop de Banksy, A Film Unfinished, O Mensageiro, o Howl com James Franco, entre outros) e dirigiu seu documentário sobre basquete (Gunning for That #1 Spot) e outro sobre sua própria banda (Awesome; I Fuckin’ Shot That!, com imagens feitas pelo público), além de ter feito um dos riffs de baixo mais emblemáticos da história do rock, com “Sabotage“.
Soube de sua morte de forma quase casual – Douglas veio comentar algo comigo achando que eu já tinha ouvido a notícia -, e até agora a ficha não caiu direito. Assisti a dois shows dos Beastie Boys na vida (o histórico concerto em 1995 no Olympia, com abertura do Planet Hemp, e a apresentação strictly hip hop que fizeram dez anos depois no Tim Festival no Rio de Janeiro) e os encontrei comprando discos na Tracks, na Gávea, após o segundo show, indo cumprimentá-los pelo show e pela influência positiva em minha vida. O sorriso de MCA ao ouvir aquilo me pareceu sincero por ser familiar – parecia que eu estava só encontrando pessoalmente um amigo que já conhecia faz tempo. E mesmo que a idéia de sua ausência no planeta ainda não tenha sido digerida (nem por mim nem por tantos outros marmanjos compadres e meninas espertas com quem tive a oportunidade de lamentar a passagem do cidadão, todos engolindo em seco e segurando a lágrima no olho), uma coisa eu soube na hora da notícia: não haveria mais Beastie Boys.
Adam Horovitz e Michael Diamond sabem disso melhor que a gente. Eles eram três e os dois restantes vão continuar sendo beastie boys para o resto da vida. Mas a tríade perfeita deformada pela morte de Yauch foi dissolvida, não faz o menor sentido tentar voltar com o grupo, embora isso não invalide a continuação de suas carreiras musicais. Mas soube – no momento em que ouvi a notícia na redação em que trabalho todos os dias – que aquele grupo que me ensinou o conceito de ousadia e diversão que funciona até hoje como um dos nortes da minha vida, não existiria mais. E que só me restava agradecer por tantos anos de farra, folia e expansão de consciência.
Namasté!
E na minha coluna no Link desta segunda, comentei um artigo escrito na Forbes sobre o futuro do Google e do Facebook.
Como a web 3.0 pode tornar Google e Facebook obsoletos
Futuro Jetsons: Aparelhos conectados vão se adaptar à rotina
Na semana passada, o especialista em tecnologia da revista Forbes, Eric Jackson, fez uma profecia controversa. Dizia que, talvez, em cinco anos, grandes nomes digitais como Google e Facebook podem perder completamente a importância. Parece alarmista, mas a tese de Jackson tem embasamento.
Ele diz que o Google era um típico site da web 1.0, quando o mais importante era a organização da rede. Em sua infância nos anos 90, a web já era composta de milhares de sites – longe dos bilhões atuais – e seu público ainda tateava em suas primeiras navegações. Era preciso que alguém facilitasse o rumo naquele primeiro momento – época em que todo site tinha uma seção de links recomendados, lembra? Foi a partir dessa necessidade que surgiram sites como o Yahoo (um diretório de sites) e a Amazon (que organizava as compras online). O Google foi o principal nome da última fase desta infância e resumia os anseios do cidadão digital oferecendo apenas um campo de busca. “O que você quer saber?”, parecia perguntar.
Veio em seguida a web 2.0, oferecendo ferramentas para as pessoas publicarem o que quisessem online, sem precisar saber nada de códigos ou linguagens de programação. Surgiram os blogs, os sites de hospedagem de vídeos e fotos, podcasts e outros megafones virtuais para ampliar o alcance do conteúdo produzido pelos usuários. E quando todos se perguntavam quem poderia se interessar em assistir a um vídeo feito sem muito cuidado ou ver fotos feitas com celular, surgiram as redes sociais, que responderam à pergunta mostrando que os consumidores dos conteúdos gerados por pessoas comuns eram elas mesmas, em nichos. Foi nesse território que surgiu o segundo maior site da década , o Facebook.
Mas, do mesmo jeito que o Google patina para entrar na camada social dominada pelo Facebook, a rede social também pasta na hora de conseguir se transferir para a internet móvel. Todo aplicativo do site feito para funcionar em dispositivos portáteis ficam muito aquém da experiência em desktops ou laptops. Segundo Jackson, eis o problema do Facebook. Do mesmo jeito que o Google não conseguiu – apesar de todas as tentativas – entrar na era da web 2.0, o Facebook também não conseguirá entrar na web 3.0, que, segundo ele, é a web em que os celulares e smartphones são os principais dispositivos de acesso.
Permita-me discordar. Primeiro porque a web 2.0 está essencialmente associada à mobilidade. Não apenas de tablets e celulares, mas também de computadores portáteis. Fotos são tiradas pelo celular e compartilhadas em diferentes redes sociais quase que simultaneamente. Os protestos (Primavera Árabe, Occupy, entre outros) que vimos no ano passado foram protagonizados por celulares e câmeras portáteis, não por desktops.
Discordo também do fato de a web 3.0 ser a internet móvel. O que convencionou-se chamar de web 3.0 é a tal web semântica, que entende o que seu usuário quer e oferece exatamente aquilo que ele precisa. Assim, se a web 1.0 perguntava o que você queria, a web 2.0 traz o que você quer sem mesmo que você saiba que queira (pense na quantidade de assuntos que conheceu graças a links de amigos no Facebook). A web 3.0 facilitaria isso ainda mais – e você nem perceberia que está entrando na internet ao receber tais informações.
Eis meu ponto: a web 3.0 não é de computadores e celulares, mas de todos os aparelhos da sua casa, que, aos poucos, conectam-se à internet. Primeiro a TV, e depois logo virá o rádio, o carro, a cozinha e tudo que puder ser conectado. Não é simplesmente um navegador que, a partir de seus hábitos online, lhe entrega o que você nem sabe que está procurando e, sim, um futuro dos Jetsons – sem o carro voador. Você acorda e em dez minutos a água do banho está esquentando. E logo que você desliga o chuveiro, a cafeteira começa a preparar seu café. A web 3.0 nos desconecta de aparelhos, por completo.
Mas concordo em um ponto com Jackson: o Google desta web 3.0 ainda não surgiu. E pode sim tornar Google e Facebook obsoletos em pouco tempo.























