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Já tinha tocado nesse assunto e voltei a insistir em como as eleições podem acelerar o cansaço em relação ao Facebook, no Brasil, na minha coluna desta edição do Link…

As eleições podem acelerar a desimportância do Facebook
Um ou dois temas monopolizam o feed

Alguns amigos e conhecidos meus abandonaram o Facebook. Cada um por um motivo diferente ou específico.

Não chega a ser uma onda como a de orkuticídios que começou quando a primeira rede social de sucesso no Brasil se popularizou demais (antecipando o termo “orkutização” que já abordei em colunas passadas). Mas são insatisfações diferentes que fazem muita gente deletar a própria conta ou abandoná-la.

Há quem não confie no fato de um único site centralizar tantas informações sobre tanta gente. Há quem se sinta incomodado com o incessante clima de oba-oba do site – curtições, fotos sorridentes, paisagens, viagens, festas. Há quem discorde das políticas de privacidade da rede social. Ou quem não goste do aplicativo do Feice para o celular. Ou quem cansou do humor nonsense ou das discussões intermináveis. Ou dos perfis falsos. Ou quem não quer manter toda sua vida em um único ambiente, permitindo que parentes, colegas de trabalho e amigos de infância se encontrem num mesmo lugar. Ou de gente que se aproveita do conforto da rede social para destilar ódio, inveja ou preconceitos de toda a ordem. Há quem também não goste de ser tratado como produto ou do excesso de publicidade na rede (que, na minha opinião, é o que vai acabar com o Facebook – não matando, mas o tornando desimportante).

Uma coisa é praticamente consenso inclusive entre os que resolvem continuar no Facebook: existe uma monótona rotina relacionada a um ou dois temas que acabam dominando o feed em uma rede de quase um bilhão de pessoas. Na semana passada, o Facebook anunciou que está às vésperas de atingir essa quantidade de usuários (foram 955 milhões em junho, segundo o instituto de pesquisa norte-americano Nielsen).

Você sabe. Basta entrar na rede social para ver um link que foi postado por dois ou três amigos. Dependendo do teor da notícia, é fácil prever que durante o resto do dia (e da semana), esse link será compartilhado por mais um tanto de outros usuários da rede. Tanto faz se é um vídeo, uma notícia, uma foto ou um tweet redirecionado.

O desdobramento desta primeira etapa são discussões intermináveis em que dois ou três usuários da rede – e amigos seus que, na maioria dos casos, só vão se cruzar porque são seus amigos – monopolizam o debate, deixando a discussão em segundo plano e partindo para ataques pessoais grotescos. Lá pelo trigésimo comentário o tema original da discussão já era. Assistimos a um ataque verborrágico de gente disposta a mudar o ponto de vista alheio a partir de uma discussão pela internet.

E nesta terça-feira começa o horário eleitoral em todo o Brasil e, com ele, efetivamente, as eleições de 2012. Isso significa que não bastasse ter de aturar todo o tipo de gente implorando por seus votos em cartazes, jingles, carros de som, faixas e pichações, ainda vamos ter o desprazer de ver amigos e conhecidos nossos – uns mais prezados que outros – transformando-se em cabos eleitorais amalucados, debatendo questões secundárias ou risíveis para justificar suas preferências políticas.

Idealmente, o Facebook seria uma arena perfeita para um debate político civilizado. Mas, se nem mesmo na televisão os principais candidatos conseguem manter a compostura, o que podemos esperar de eleitores que perdem as estribeiras para tentar aparecer ou convencer o outro de que seu ponto de vista é o melhor?

Por isso, vejo quatro opções desenrolando-se nos próximos meses. Na primeira, continua-se no Facebook e recebe-se uma enxurrada de santinhos digitais, todos eles lutando pela sua atenção, aos berros. Noutra, continua-se usando a rede, mas aprendendo a utilizar os recursos apresentados pela repórter Anna Carolina Papp na matéria nesta edição do Link – usando as ferramentas que a própria rede social oferece para conter a avalanche de opiniões alheias. Numa terceira, simplesmente deixa-se de usar o Facebook enquanto a eleição não termina. E na quarta, finalmente, abandona-se a rede social de vez.

Algo me diz que a última opção vai ser cada vez mais popular…

Na edição desta segunda do Link, falei sobre um dos principais dilemas do século digital.

A internet e a encruzilhada entre o consumidor e o cidadão
O mercado nos distrai de interesses reais

Duas matérias nesta edição do Link abordam assuntos aparentemente distintos: a matéria de capa, assinada por Tatiana de Mello Dias e Murilo Roncolato, fala dos problemas que usuários da telefonia móvel no Brasil têm com a péssima qualidade dos serviços das operadoras no País – que a revista inglesa Economist cogitou ser o equivalente do governo Dilma ao apagão elétrico do governo Fernando Henrique Cardoso. Outra matéria, do repórter norte-americano Farhad Manjoo, conta a assustadora história de como o repórter da revista Wired Mat Hanon, em quinze minutos, perdeu o controle sobre todas as suas contas digitais graças ao ataque de um hacker amador.

As duas situações parecem apenas descrições de problemas modernos, que não existiam há quinze anos. Mas, na verdade, são desdobramentos ágeis de uma tendência que atravessou todo o século 20 e foi reforçada nas últimas décadas até ganhar força e velocidade graças aos meios digitais: a lenta transformação do cidadão – e de seus direitos – em mero consumidor.

Isso é bem preocupante. Afinal, todos os direitos do cidadão, uma das principais provas da evolução da humanidade, são substituídos pelos direitos de quem tem dinheiro para pagar pelas coisas. Esta mercantilização da cidadania foi acelerada com o movimento que aconteceu logo depois da criação da World Wide Web, que completou 21 anos há uma semana. O engenheiro inglês Tim Berners-Lee criou o padrão que permitia acessar à internet (que existe desde os anos 60) sem a necessidade de digitar comandos ou de conhecer sites específicos, o que abriu espaço para o surgimento dos programas da navegação gráficos, primeiro com o Netscape e depois com o Internet Explorer. Foi a partir daí que a internet deixou de ser uma rede de contatos entre acadêmicos e entusiastas da tecnologia para ganhar o mundo.

E na metade dos anos 90, houve o primeiro salto de popularidade da rede, quando a maioria das pessoas descobriu que existia “um negócio chamado internet”. E, neste mesmo momento, empresas entraram online, ajudando a batizar essa primeira safra de “o início da internet comercial”.

A partir disso, a popularização da rede quase sempre esteve associada à criação de novas empresas ou como empresas que existiam antes deste momento souberam aproveitar-se desta nova realidade. E, como empresas fazem, entraram nessa para ganhar dinheiro. Até mesmo empresas que não cobram pela utilização de seus recursos – como o Google e o Facebook, por exemplo –, acabam cobrando outro tipo de moeda de seus consumidores: seus próprios dados pessoais. Ecoa na rede um novo ditado que é muito preciso: “Quando você não paga por nenhuma mercadoria, a mercadoria é você”.

Governos e instituições não-comerciais levaram mais tempo para entender a nova realidade e alguns ainda tateiam no escuro. Mas, como as empresas e a lógica comercial dominaram a internet nos seus primeiros dias de maior popularidade, questões de cidadania ficam em segundo plano em relação a questões de mercado.

(E antes que algum neoludita venha reclamar que isso “só poderia acontecer por causa dos computadores e da internet”, lembre-se que o sistema financeiro sabe muito mais sobre cada um de nós – e bancos estão aí há muito mais tempo.)

Por isso a atenção que damos, no Link, a temas como privacidade, à criação de novas leis, à forma como governos e empresas lidam com a inevitável inclusão digital, o futuro dos direitos autorais. Questões políticas que podem parecer tediosas e complicadas, ainda mais se comparadas a tweets engraçadinhos, computadores elegantes, smartphones encantadores, serviços online práticos e úteis.

Temas que podem não ter o apelo sedutor da internet comercial, mas que devem ser acompanhadas de perto, para que a política – e a noção de cidadania – não caia por terra de vez como já acontece na vida offline. Ninguém disse que iria ser fácil…


“Tem Blur na foto”, disse o Piangers no Insta

Piangers, ídolo, foi pra Londres cobrir a olimpíada (cheque a hashtag #piangersemlondres) e conseguiu entrar num dos shows que o Blur tá fazendo nesse verão em Londres (eles vão encerrar os jogos olímpicos deste ano). Pedi pra ele contar como foi pra cá e eis seu relato:

Só se fala no Blur nesse verão londrino. A banda se reuniu pra fazer shows exclusivos pra BBC, pra festa de encerramento das olimpíadas e pra um show especialíssimo, no último dia 1o de agosto, apenas para 200 pessoas no 100 Club, mítico bar da Oxford Street e marco importante da cena punk londrina. Felizmente, eu estava nesse show.

Um dia antes as pessoas tinham que se inscrever no site da marca que promovia o evento. No dia do show pela manhã apenas 200 felizardos receberam a confirmação de presença. Eu tinha me inscrito com quatro emails diferentes, portanto recebi quatro negativas. “Devido à grande procura não será possível liberar sua entrada no clube”. Mais ou menos isso, tudo muito educado, mas já era o segundo show do Blur que eu era barrado (o primeiro rolou um dia antes, no Maida Studio, para uma gravação da BBC).

Às 18 horas fui até a frente do local. Uma fila de hipsters, indies, shoegazers e dickheads se formava civilizadamente. Minha amiga fotógrafa já conversava com os organizadores – o truque era dizer que nosso nome estava na lista. Às 18:30 a porta abriu. Educação inglesa, todos calmamente entrando pela minúscula porta do clube, um cara gordo organizando a entrada. “Guess list!” mandou minha amiga pro cara. Ele inacreditavelmente estendeu o braço para segurar a fila, permitiu nossa passagem pelo lado, e com um sorriso no rosto disse: “Enjoy”.

Pode parecer idiota mas eu pensei em cair fora porque abomino esse tipo de babaquice. Mas, poxa-vida, era o Blur. No 100 Club. Com um palco baixinho. E eu na primeira fila porque entrei cedo. Dessa vez vou me permitir ser brasileiro. Pedi duas Guiness e esperei por 3 horas até começar o show do Blur.

As bandas de abertura eram Swiss Lips, uma boy band eletro-rock cabeça que frequenta Bricklane e canta em falsete malzassa; Savages, uma banda só de garotas legal pacas com uma vocalista que é a cara da Mallu Magalhães, mas faz show como se fosse o Iam Curtis; e The Bots, dois irmãozinhos de Los Angeles, um de 18 que toca guitarra como se fosse a reencarnação do Hendrix e um de 14 anos que toca bateria e tenta ser o Mitch Mitchell. E finalmente, o Blur.

A banda entrou no palquinho e começou um empurra-empurra insano, a pequena multidão se apertando no palco, os seguranças empurrando a pequena multidão, a multidão empurrando um fotógrafo, o fotógrafo empurrando o PA – que quase caiu em cima do Graham Coxon. O Damon Albarn jogando água em todo mundo – molhou todo o meu iPhone que registrava o momento histórico – e o Alex e o Dave rindo de tudo. Aparentemente apenas o Coxon não se divertia, pra variar.

Do meu lado tinham uns ingleses gordos (“Nos conhecemos na fila”, disseram) e um deles usava um óculos completamente embaçado pelo calor. O Blur foi de “Girls and Boys” pra abrir, a primeira música de Parklife, depois “Jubille” do mesmo disco. O lugar estava completamente insustentável, as paredes suadas, as pessoas apertadas como numa disputa por comida no Zimbábue. Veio a minha favorita “Beetlebum”, o lado B “Young and Lovely”, “Colin Zeal”, “Oily Water” e “Bugman”, quando eu tive certeza que ia morrer esmagado.

Nesse som o Albarn pegou os óculos do gordo do meu lado e cantou “Advert” toda de óculos. Entre esse tipo de brincadeira com a platéia (“This is fun? Ãh? This is fun?”) ele jogava água em todo mundo. A farra terminou com a linda “Under the Westway”. Os gordinhos bêbados choravam abraçados do meu lado. Eu tinha Guiness por toda a minha camiseta. Meu tênis não vai se recuperar dessa tão cedo. E pra fins de divulgação, meu nome estava na lista.

Abaixo, os vídeos que achei do show citado.

Continue

Aproveitei o tema da capa desta semana do Link para falar um pouco sobre software livre.

O software livre está no centro do avanço tecnológico
E sua expansão está apenas no começo

Embora já exista há décadas, não faz nem dez anos que a mentalidade open source e o conceito de software livre começou a se popularizar de fato. Até o início da década passada, era bem difícil encontrar quem entendesse a lógica por trás destas ferramentas – e muito mais difícil quem as utilizasse. Mesmo os que tentavam se aventurar por este universo à parte, se não soubessem nada de programação ou computação, penavam entre códigos, interfaces e comandos.

Mas, de dez anos para cá, o que antes era uma realidade completamente diferente começou a se aproximar da que vivemos. Primeiro pelo simples fato de que o universo digital se impôs até para quem era avesso à utilização de qualquer tipo de máquina. A sensação de que “todo mundo virou nerd” (um clichê repetido como uma espécie de repulsa à onipresença digital) forçou muita gente a perder o medo do computador e entender que estas máquinas, que eram vistas por muitos como aparelhos feitos para nos controlar, são as ferramentas mais sofisticadas desenvolvidas pela espécie humana, que se caracteriza justamente pela invenção de ferramentas.

Mas isso é apenas uma parte da história. A outra está na ponta de lá, entre os entusiastas do software livre que, a partir do Linux criado há mais de vinte anos, entenderam que era preciso tornar mais intuitiva e amigável a utilização das ferramentas caso quisessem atrair mais gente para sua comunidade.
O resultado deste esforço foi a criação de sistemas operacionais menos complexos e abertos para quem nunca se dispôs a entender a parte técnica do uso de computadores. Isso não só fez mais gente encarar a novidade com menos temor (como fez a repórter Tatiana de Mello Dias, como ela mesma conta em seu relato nesta edição), como fez mais gente se dispor a aprender a programar.

No entanto, o que tem tornado o software livre e a lógica do open source mais presente e menos complexa não está nem tanto ao céu do idealismo de quem lida com estes conceitos há anos nem tanto à terra dos “novos nerds” – e sim entre este dois universos, graças à ascensão de tendências e empresas decorrentes da popularização da realidade digital deste começo de século.

Afinal, o Google é um dos principais responsáveis pela popularização deste conceito, ao trabalhar em plataformas abertas. A mesma lógica de API abertas que tornou tanto o Facebook quanto o Twitter gigantes de popularidade também veio do software livre. Até mesmo empresas fechadas como a Apple, ao criar a economia dos aplicativos, também abriu a possibilidade de mais gente tentar entender de programação.

A febre das startups talvez seja a principal tendência destes últimos anos, quando falamos de software livre. Os programadores deixaram de ser vistos como criptólogos antissociais e aos poucos passaram a ser cortejados por suas habilidades, mudando o perfil destes entusiastas e a forma como eles são encarados agora pelo mercado. Foi-se o tempo em que software livre era praticamente sinônimo de “comunista” (as aspas se referem ao tom pejorativo da crítica do passado) e hoje lidar com open source é uma credencial que gabarita muito empreendedor.

Mas esta tendência não deve parar tão cedo – e deve caminhar para um momento em que escrever programas deixe de ser uma atividade essencialmente técnica para entrar em nossa rotina. Programadores gostam de dizer que escrever código é uma arte e o auê em torno das startups já fez muita gente comemorar que a programação de software é o “novo rock’n’roll”.

Mas é questão de tempo para que a lógica não-proprietária de programação habilite cada vez mais gente para entrar neste universo e comece a pegar gosto pela linguagem e pelo assunto. E, aí sim, pode ser que veremos programas que são verdadeiras obras de arte – mesmo que não saibamos programar. Afinal, reconhecemos que alguns carros ou instrumentos musicais são ícones culturais mesmo sem entender sua parte técnica. No futuro, isso ocorrerá com os softwares também.

E eu falei sobre essa tal “camada social” que estamos assumindo na minha coluna do Link dessa semana, que foi um especial sobre redes sociais.

Dicas para lidar com a onipresença das redes sociais
A distância entre online e offline está diminuindo

Na manhã da quinta-feira da semana passada o Gtalk morreu. Ficou sem funcionar por algumas horas, sem nem sequer exibir a velha mensagem em inglês “…And we’re back!” tão característica dos curtos momentos de ausência do programa de troca de mensagens do Google. Mas na semana passada o programa não voltou a funcionar tão rápido. Entrou a tarde da quinta-feira e nada do bicho voltar ao ar. Era um mau sinal.

Caiu a noite e, com ela, caiu o Gmail. O serviço de buscas do site ia e voltava, sem manter nenhuma estabilidade. O YouTube carregava pela metade – os vídeos relacionados não apareciam, apenas o vídeo principal, que só carregava nos primeiros minutos e depois travava. O Google Images não funcionava. Por instantes, cogitei que a pauta que mais temo depois da morte de Steve Jobs pudesse se concretizar – e o Google tivesse parado de funcionar de vez.

Não foi o caso. O bug no Google Talk obrigou a empresa a mexer em seus serviços deixando-os instáveis por toda a quinta-feira – e isso apenas para parte de seus usuários. Outros nem sentiram a alteração. Na madrugada de quinta para sexta, a situação havia se normalizado e os serviços voltaram ao normal.

Mas entre quinta e sexta eu precisava falar com a artista plástica Pacolli, que mora em São Francisco, nos Estados Unidos, e fez as ilustrações desta edição. Meu contato com ela era via Gmail e não sabia do alcance da pane no webmail do Google. Bateu aquele micropânico típico de quando a internet sai do ar. Mas logo lembrei do Facebook e do Dropbox – e antes dos serviços do Google voltarem a funcionar.

(Antes que algum saudosista comece a lamentar sobre a fragilidade da internet e de como era bom no tempo em que só existiam mídias físicas, antecipo-me para comemorar a felicidade que é trabalhar em jornalismo à medida que a internet vai se popularizando. Já passei por redações offline ou da era da conexão discada e isso é uma realidade que, por mais que os nostálgicos suspirem sobre como era romântico naquela tempo, nem sequer cogito em retornar.)

Começo a editar a matéria que a repórter Tatiana de Mello Dias escreveu para esta edição especial sobre redes sociais. Logo no início de seu texto, ela fala sobre nossa compulsão por nos fazermos presentes online, que caminha junto à nossa insegurança em relação ao que podem saber sobre nós mesmos apenas a partir do que publicamos online.

É um dilema moderno, e Google e Facebook insistem em dizer que a privacidade acabou. Mas não é bem assim.

Por um lado, estamos sim despejando informações sobre nós mesmos sem perceber. Por outro, estas mesmas informações facilitam bastante a utilização de serviços e ferramentas digitais em nosso dia a dia.

Qual é a melhor saída, então? Ficar completamente offline? Escolher a rede social que melhor se encaixa em seu perfil e especificar bem o que publica lá? Entender que o mundo agora é assim mesmo e não se preocupar com nada que você coloca na internet?

Todas essas saídas são soluções radicais e não parecem ser o melhor a ser feito. As redes sociais, como Tati explica em sua matéria ao entrevistar diversos especialistas, já fazem parte de nosso tecido social. Sair delas é mais ou menos o equivalente a não andar a pé na rua ou não sair de casa à noite. As pessoas – físicas ou jurídicas – estão lá, aos montes. E continuarão entrando.

Creio que o segredo está no entendimento de como cada rede funciona de acordo com seus hábitos. Não há motivos para ter uma conta no Last.fm se você não escuta música no celular ou no computador. Como também não faz sentido ter uma conta no Instagram se você não gosta de tirar fotos.

A internet em si é uma rede social e este “momento redes sociais” que vivemos há dez anos há de ser diluído entre milhares de serviços e sites. Se usasse apenas a rede do Google, talvez não conseguisse falar com Pacolli nem receber suas ilustrações a tempo do fechamento desta edição. As principais dicas sobre o uso de redes sociais valem para quase tudo na vida: use com moderação e prefira a variedade.

E a minha coluna desta edição do Link foi sobre o assunto da capa, que falou sobre a chegada da internet aos carros.

Conectar-se à internet é só o início do automóvel do século 21
Conectividade mudará a forma de dirigir

Eu sou o passageiro. Me penalizo mentalmente recitando a infame versão do Capital Inicial para “The Passenger”, de Iggy Pop, sempre que entro num carro. Não dirijo há mais de cinco anos e sempre que entro num carro vou para o banco do carona ou para o banco de trás, por ser vítima de um acidente que me impede de retomar a direção. Isso será resolvido em breve, mas divago.

Não usava celular quando parei de dirigir, mas naquela época telefone celular não era sinônimo de computador de bolso e sim de telefonia móvel. Por isso, nunca usei o celular enquanto dirigia, o que me dá uma certa aflição quando vejo alguém com uma mão no volante e outra no telefone. Ou apertando o celular entre o ombro e a cabeça para usar as duas mãos ao dirigir. Meu inconsciente cogita as piores hipóteses, principalmente quando estou no carro em que o motorista fala ao celular. (Não estou culpando os que fazem isso – talvez se dirigisse hoje em dia provavelmente fizesse o mesmo.)

Mas desde que deixei de ser motorista para ser passageiro que o celular vem mudando e hoje é um companheiro inseparável ao táxi. Se antes eu folheava livros e revistas, hoje me dedico a responder e-mails, checar redes sociais e jogar Angry Birds, meu maior vício virtual portátil. E se me dá agonia pensar num motorista dirigindo e conversando ao telefone, é inevitável ficar preocupado sempre que vejo alguém dirigindo e olhando para o celular ao mesmo tempo. Já peguei carona com quem mandava SMS ao mesmo tempo em que passava marcha e girava o volante – não duvido que tenha gente que faça o mesmo enquanto compartilha links no Facebook ou tira fotos para publicar no Instagram.

Mas, ao mesmo tempo em que o celular virava um computador de bolso, outros acessórios eletrônicos começaram a aparecer no carro. Primeiro veio o GPS, depois o aparelho de DVD portátil e em pouco tempo esses equipamentos permitiam até mesmo assistir à televisão. Na paralela, você poderia conectar o telefone ao som do carro e usar o telefone para chamadas de voz sem ter que segurar o aparelho com as mãos.
O que estamos às vésperas de presenciar é uma convergência entre estas tecnologias e o próprio carro. Mais do que isso: se o telefone em cinco anos virou um computador de bolso, em menos tempo que isso o carro se transformará em um computador que lhe conduz.

Isso nos leva a um futuro incrível de aplicativos que dão dicas de como estacionar direito, computadores de bordo que avisam em qual posto você deve parar para abastecer antes de ficar sem gasolina, bancos que se regulam automaticamente de acordo com quem assume o volante, automóveis que avisam à portaria que estão chegando e abrem o portão da garagem. Este futuro culmina-se com carros que dirigem sem precisar de motoristas, algo que já vem sendo testado por diferentes empresas, inclusive pelo Google.

Mas este é um futuro ideal, que não conta com pane na rede, sinal fraco de 3G, incompatibilidade de sistemas operacionais e de formatos, sites fora do ar.

Acha pouco? E que tal saber que, tal como ocorre com as redes sociais hoje, seu carro poderá ser localizado onde estiver, mesmo que você não queira permitir? Ou que você possa trabalhar – sob a supervisão do seu chefe – desde que entra no carro?

Mas há também possibilidades que só foram supostas. Alguém já deve ter pensado numa rede social que funciona no trânsito, um Foursquare de carros, que indica onde seus amigos estão naquele momento – ou que permita que você possa seguir determinados perfis que avisam qual é o melhor rumo a ser percorrido na hora em que o trânsito para. Será que os helicópteros que sobrevoam São Paulo para registrar como andam as principais vias da cidade se tornarão obsoletos?

O fato é que o carro do século 21 começa a engrenar. Ele pode até voar daqui a algumas décadas, como no futuro dos Jetsons. Mas antes disso, prepare-se para a grande reinvenção do carro a partir da internet. Se ela já mudou tanta coisa, não ia deixar de mudar até como nos locomovemos.

Uma frase no livro novo do Arnaldo fez a Pitty escrever um post no Facebook sobre arte e trabalho, que o Bruno republicou na fanpage do URBe (já curtiu?) – daí eu perguntei pra ela se podia publicar aqui, ela ficou encabulada, porque escreveu o texto sem maior pretensão, mas no fim liberou. A discussão é bem pertinente – e a foto que ilustra o post foi tirada pela Pitty, no SXSW desse ano:

“As pessoas gostam de falar mal das bandas que cedem às pressões do mercado, mas fazem a mesma coisa todo dia de 9 às 6.”

Arnaldo Branco, em seu novo livro, sintetizando um pensamento que volta e meia me ocorre.

Mas aí me ocorreu um outro: por quê sentimos isso em relação a arte e não a um emprego, entre aspas, comum? Talvez porque intuimos (ou nos condicionamos, ou aprendemos) que a arte é sagrada, e partindo desse suposto caráter “divino” não pode ser maculada ou influenciada por quaisquer questões demasiado terrenas tais como ter que pagar o aluguel no final do mês. E talvez não sintamos isso em relação a empregos “comuns” por uma culpinha cristã: se você exerce uma atividade que não gosta e é extenuante, sua compensação, se não emocional e intelectual, deve ser financeira. Se escolheu fazer o que gosta- privilégio de desaforados pois “estamos aqui para sofrer”, nada mais justo que seja punido por esta insolência com a miséria.

Romantizamos os artistas falidos, os que sofreram, passaram perrengues em nome da arte porque aos nossos olhos tornam-se mártires: penaram e pagaram com sua própria existência para que outros artistas, num futuro mais brilhante pudessem exercer o ofício dignamente. É um quase se “jesusificar”; eu me sacrifico para que um dia possa ser melhor. É como uma promessa de pureza, pueril e idealista; idealizada e nobre, porquanto bela.

Gosta-se de heróis, precisa-se deles… mas confesso maior simpatia pelo anti-herói, aquele que não é necessariamente o antônimo, mas que apenas se permite ser humano e fazer suas cagadinhas pelo meio do caminho. Que se desvela do tal suposto caráter divino, que abdica de ser santo e mártir e assume que pagar as contas é algo bem legal. E mais ainda, que é mágico: constrói com maestria a ilusão de que está jogando o jogo e dá a volta em todos os mecanismos, e os usa a seu favor.

No final, o mais legal e o mais difícil é aquele que consegue abarcar o melhor dos dois mundos; o divino e o terreno. Que consegue manter sua arte imaculada no sentido de liberdade criativa, mas que não se sente culpado de ser remunerado por ela. E que entende que certas concessões se justificam lá na frente, que tudo tem peso e medida, e que recuar no campo de batalha é só estratégia para se posicionar melhor e mais forte.

Voltando a Arnaldo: talvez por conveniência, talvez por covardia, ou quem sabe por justiça; a sentença me vestiu como o mais bem cortado terno.

Valeu, Pitty.

Na edição de segunda do Link, falei da relação entre os óculos do Google e a nova série de Bryan Singer, H+

O dia em que iremos usar chips implantados no cérebro
Do Google Glasses à nova série de Bryan Singer

Há três semanas, o Google mostrou que tem anos de vida pela frente ao desvendar, entre suas novidades, sua linha de hardware. O tablet Nexus 7 já era especulado. E a central de mídia Nexus Q, por mais diferente que fosse seu design esférico, é um hub digital como muitos que já existem no mercado.

O Google Glass apareceu na cara de Sergey Brin e o cofundador do Google explicou que abriria a geringonça para os desenvolvedores que quisessem criar ferramentas para aprimorar seu uso. De fora, os óculos parecem diferentões – fazem as vezes de câmera, computador e monitor. Dá para filmar sem usar as mãos, além de obter informações, na própria “lente”, sobre o que se vê através dos óculos. No futuro, usando o Google Glass, você olharia para uma rua qualquer e, pela parte de dentro das “lentes”, seria possível identificar os estabelecimentos sem sequer ler as suas fachadas.

Imagine este futuro próximo cheio de pessoas usando óculos que permitem que elas se comuniquem sem falar ou usar as mãos; que façam buscas online só com o olhar; que filmem e tirem fotos sem que se mexam. Quem reclama da onipresença e do vício de duas ou mais gerações de telefones celulares tem motivos de sobra para se preocupar com esse futuro. Que, inevitavelmente, nos leva à assustadora profecia em que chips serão instalados nas pessoas.

Profecia literalmente apocalíptica: “E fez que a todos, pequenos e grandes, ricos e pobres, livres e servos, lhes seja posto um sinal na sua mão direita, ou nas suas testas / Para que ninguém possa comprar ou vender, senão aquele que tiver o sinal, ou o nome da besta, ou o número do seu nome”, é o que diz o Apocalipse de São João, no capítulo 13, versículos 16 e 17.

O detalhe que não foi lembrado na apresentação do Google Glass é que tanto Brin quanto o outro fundador da empresa, Larry Page, já haviam cogitado uma versão ainda mais sinistra destes óculos ao jornalista Steven Levy, que escreveu um dos livros-chave sobre a ascensão do Google, In the Plex, que ainda não foi lançado no Brasil.

“Isto será colocado dentro do cérebro das pessoas”, disse Page. “Quando você pensar em algo e não souber muito sobre aquilo, você receberá mais informações automaticamente.” “É verdade”, continuou Brin, “no final, vejo o Google como uma forma de acrescentar o conhecimento do mundo ao seu cérebro. Hoje você liga o computador e digita uma frase, mas dá para imaginar como isso será mais fácil de fazer no futuro quando tivermos dispositivos acionados pela voz ou computadores que prestam atenção no que acontece ao redor deles.” Page completa. “No fim, teremos um implante em que basta você pensar em algo para que ele lhe traga a resposta.”

Assustador é pouco. (Mas pode ser que haja um certo medo reacionário em relação ao novo, ativado por nosso cérebro reptiliano, que só pensa em atacar ou fugir.) Ao mesmo tempo, parece encantadora a ideia de não precisar de um smartphone para consultar os horários do cinema mais próximo ou ligar o computador para checar a grafia de um sobrenome estrangeiro. O problema não está na nossa aparentemente inevitável evolução ciborgue, mas no fato de que esta tecnologia, maravilhosa na teoria, pode dar errado na prática.

É a premissa do seriado H+, do diretor Bryan Singer (o mesmo de Os Suspeitos e dos primeiros X-Men). Um futuro próximo em que as pessoas implantam um chip na nuca que as permitem viajar por mundos virtuais sem que isso seja percebido como uma não-realidade. Na série, que estreia em agosto e apenas na web, um vírus infecta a rede e as pessoas que possuem o chip implantado simplesmente morrem.

Mas há outra opção: a de nos atermos tanto aos mundos virtuais que nem sequer fazemos mais distinção entre o que é realidade e o que não é.

Parece radical? Sim. Mas não é preciso esperar os chips chegarem. Afinal, muitos já usam a internet como uma forma de se descolar da realidade. O problema, como sempre, não é a tecnologia, mas o que fazemos com ela.

E na minha coluna no Link dessa semana foi sobre como o Google deve sobreviver ao Facebook.

Está cansado do Facebook? Espere só a eleição começar…
Google pode sobreviver à ascensão do ‘Feice’

Todos querem saber qual será o “próximo Facebook”. Ou pelo menos a rede social vai substituí-lo. Isso em menos de uma década após o Orkut ter aparecido no Brasil dando início a uma sucessão de novos serviços de relacionamento online que foram ganhando adeptos – e ultrapassando os anteriores – pouco depois de os primeiros usuários perguntarem-se “para que serve isso, afinal?”.

Orkut, MySpace, Twitter, Facebook, Tumblr. LinkedIn, Pinterest, Instagram. A lista continua para todos os lados, levando em conta a quantidade de redes sociais de nicho que não param de surgir. Mas a apreensão em relação ao substituto do Facebook não vem apenas a partir da substituição sazonal que já nos acostumamos em relação a este tipo de site. Pelo contrário – a expectativa de uma nova rede social está mais ligada a uma espécie de fadiga que cada vez mais as pessoas estão sentindo em relação à maior rede social do mundo.

Veja o que aconteceu na semana passada, por exemplo. Desde a segunda, à espera da final da Taça Libertadores, que aconteceria na quarta, a rede social foi tomada por uma polarização drástica – corintianos versus anticorintianos versus pessoas que “não supoooooortam ouvir falar em futebol”. Pior que isso é que estes grupos resolveram entupir suas próprias timelines com uma avalanche de imagens, mensagens e links relacionados à disputa. Eu, corintiano, não reclamei. Mas houve quem cogitasse seriamente sair do Facebook.

Isso fora as práticas nada agradáveis que a rede social sempre tenta esconder, como a mudança do e-mail pessoal exposto no perfil de cada um. O Facebook simplesmente sumiu com o e-mail que cada um de seus usuários dispôs para entrar na rede, trocando-o pelo próprio e-mail @facebook.com. É só mais uma na enorme lista de ações desagradáveis praticadas pela rede social.

Mas haverá mesmo uma rede social que suplantará o Facebook? Há quem ainda aposte na tal “camada social” que o Google criou para interligar todos seus produtos, o Google Plus. Mas como há uma oferta cada vez maior de redes sociais de nicho no mercado, não duvide que a presença do Facebook possa ser substituída por vários destes diferentes serviços, cada um deles voltado para uma atividade ou grupo de amigos.

O que nos leva à discussão sobre o tempo de validade do Facebook. Mesmo que continue crescendo, a rede social cada vez mais age como um player de publicidade, interligando seus milhões de cadastrados a empresas que queiram ter acesso a esta base de dados de usuários. Tudo bem que o Google também age como uma empresa de publicidade e que é daí que vem sua maior fonte de renda, mas ele não oferece apenas um ambiente digital de relacionamentos, mas uma série de recursos – mapas, e-mail, o YouTube, o sistema operacional Android, o navegador Chrome, entre muitos outros – que convergem rumo às palavras-chave que caracterizam seu modelo de negócios.

Já o Facebook apenas aprimora um formato já existente. A maior novidade oferecida pela rede ainda é especulação – depois do botão “Curtir”, eles estariam prontos para lançar o botão “Querer”. Mas este botão só facilita a vida dos possíveis parceiros do Facebook, e não oferecem novas formas de interação que vão além das já existentes.

O Google, por sua vez, segue expandindo seus tentáculos. Mostrou no mês passado um novo sistema operacional, um tablet e até seus óculos futuristas, que tiram fotos e filmam, além de enviarem dados por suas lentes. Tudo termina em publicidade, mas são atividades e produtos realmente novos.

A fadiga em relação ao Facebook, por outro lado, está só no começo. E para quem lamenta o cansaço a partir de um jogo de futebol, não esqueça que as eleições vêm aí. E que ela pode dar início a uma evasão em massa da rede social.

Por mais que permaneça atuante por muito tempo (o MySpace ainda existe, não custa lembrar), cogito que o Facebook deve aos poucos deixar de ser tão central em questão de um ano ou menos. Já o Google, por ampliar seu horizonte cada vez mais, deve seguir importante por mais tempo que isso.

A redescoberta da ingenuidade

Começou ainda no Alberta. Tentei postar uma foto tirada da cabine da pista da Noite Trabalho Sujo (a foto da Bárbara tirando fotos da cabine acima), como faço toda madrugada de sexta pra sábado e o Instagram não respondia. Pensei que fosse o sinal de Wi-Fi da casa, mas saí pra pegar ar e sinal de telefone – e o 3G também não dava sinal de vida no aplicativo. Desisti, voltei pra festa e quando acordei horas depois, retomei o ritual depois de fotografar o céu (“#CliMatias”, diz o Bruno). E nada. Pensei que o problema fosse só comigo, mas bastou abrir qualquer rede social para perceber que um certo volume considerável de pessoas resmungando sobre o fato. O Twitter do Instagram avisava que uma “tempestade elétrica” tinha tirado os servidores do ar. A mesma tempestade atingiu Netflix e Pinterest, que voltaram a funcionar aos poucos. Mas nada do Instagram. Como tinha um programa pré-almoço na agenda saturnina e não queria perder meu registro diário. Fui para o Twitter e twittei um instagram por escrito:

Em questão de segundos, minha fiel colaboradora do Sujo Gi Ruaro, lá de Londres (que recém casou, podem dar os parabéns), pegou carona na minha idéia e a expandiu em uma hashtag:

Como o meu tweet anterior já havia sido replicado algumas vezes, resolvi aproveitar carona na hashtag da Gi e tuitei meu instagram por escrito de fato:

Quando cheguei no Parque do Ibirapuera, onde iria me encontrar com um casal de amigos em um piquenique, o instinto me levou a procurar algum sinal de vida na rede social do aplicativo de fotos com filtro, ainda sem sucesso. Mas bastou passar pelo Twitter para ver que…

A hashtag havia colado. Tanto de maneira sincera – gente tuitando o que deveria estar postando no Instagram – quanto, principalmente, irônica – gente ridicularizando fotos e atitudes na rede social:

Até O Globo

…e a Fernanda Paes Leme entraram na onda:

A avalanche de tweets colocou a hashtag no topo dos trending topics no Brasil (meta pra muito xoxomidia tupiniquim) e explicitou três aspectos que já venho percebendo há algum tempo – dois óbvios, um nem tanto. Os dois primeiros beiram o ridículo da evidência: o Instagram popularizou-se de vez no Brasil a ponto de sua linguagem ter sido completamente assimilada pelo menos por quem está online (o que não é pouca gente) e que os trending topics do Twitter já não são o que foram um dia; medem o pulso de uma rede social específica, não mais o de toda comunidade online.

A terceira constatação é bem interessante e diz respeito à utilização da ironia. Diferente de uma forma de humor (como pensa a maioria dos que se acham irônicos), ironia é uma figura de linguagem que quer dizer justamente o contrário do que está sendo exposto. A frase “só uma pessoa muito inteligente para perceber isso”, por exemplo, é irônica ao sutilmente xingar de burra a pessoa em questão.

O problema é que a ironia funciona melhor em doses homeopáticas. Muita ironia cria a síndrome do menino que gritava lobo – e não é mais possível perceber se o que está sendo escrito ou dito é de verdade ou é só uma sacada esperta. Muitos tweets com a hashtag Instagramporescrito caminhavam nesse fio da navalha. Eram tão irônicos que poderiam ser de verdade. Não dava pra saber se o autor estava brincando ou sendo brincado. E assim completavam o loop da ironia – se a ironia é uma volta de 180 graus, a ironia da ironia é a volta completa para continuar no mesmo lugar.

E isso não era exclusividade da hashtag do sábado passado. O humor na internet quase sempre esbarra nesse duplo sentido e o que parece idiota para alguns, para outros é brilhante (exemplos abundam: Cersibon, o humor involuntário do Yahoo Respostas, Homem Aranha Anos 60), pulverizando assim o tal “bom gosto” do fazer rir ao tornar ainda mais tênue a distinção entre a grosseria e o humor politicamente incorreto ao mesmo tempo em que transforma qualquer grosseiro em novo “gênio do humor”.

Essas fórmulas estão se desgastando e o humor como provocação vai perdendo espaço para outro tipo de reação – que não necessariamente parte do humorismo – que também é típica da internet: o nonsense total, o esvaziamento do excesso de referências do século 21. Talvez seja uma redescoberta da ingenuidade ou só uma forma de exorcizar esse loop de significado protagonizado pela ironia da ironia. Não deixa de ser uma boa notícia.