
Nesta quarta-feira uma sonda espacial vai tentar pousar num cometa, num feito histórico (se der certo, claro). Falei sobre isso na minha coluna do Brainstorm9 dessa semana – e o que isso tem a ver com a ficção científica.
Pousar num cometa
A Agência Espacial Europeia celebra um feito futuro apostando na ficção científica
Um mago e sua aprendiz tentam criar um sistema solar em miniatura a partir da manipulação da matéria através da mente. Trabalhando em um deserto rochoso, os dois fazem planetas e estrelas nascerem a partir da concentração, reunindo conjuntos de pedras flutuantes que, com a gravidade, tornam-se pequenos planetas. Mas algo está faltando…
Essa é a sinopse do curta Ambition, dirigido pelo polonês Tomek Bagiński e estrelado por Aidan Gillen e Aisling Franciosi. Filmado na Islândia, o filme foi exibido pela primeira vez no dia 24 do mês passado, durante a mostra Sci-Fi: Days of Fear and Wonder (Ficção Científica: Dias de Medo e Admiração), que foi realizada no British Film Institute, em Londres.
O curta é uma coprodução entre a Platige Image (a produtora de Bagiński) e a Agência Espacial Européia (ESA). O motivo da agência ter se envolvido no curta é revelado na metade da história, quando, ao cogitarem um dos motivos do nascimento da vida no planeta Terra, seus dois protagonistas lembram de um passado que ainda não aconteceu. Eles mencionam a Missão Rosetta, da própria ESA, que foi lançada há dez anos e no próximo dia 12 de novembro – também conhecido como amanhã – deve conseguir atingir seu propósito: pousar em um cometa.
Segundo os idealizadores da missão, a intenção do acontecimento é reunir informações e dados que possam falar mais a respeito da origem do sistema solar, da água em nosso planeta e, portanto, da formação da vida. Pode ser uma data histórica caso o pouso aconteça de acordo com o planejado.
“Tantas coisas poderiam ter dado errado”, diz o personagem de Aidan Gillen, conhecido por séries como “The Wire” e “Game of Thrones”. “Por um bom tempo, as origens da água e da própria vida em nosso planeta seguiram como um mistério completo. Foi quando começamos a buscar pelas respostas fora da Terra. Nos voltamos para os cometas. Um trilhão de bolas celestiais de gelo, poeira e moléculas complexas que sobraram do nascimento de nosso sistema solar. Eram vistos como mensageiros da morte e da destruição e ainda assim tão encantadores. Precisávamos pegar um deles: um plano incrivelmente ambicioso.”
A previsão é que a Missão Rosetta lance a sonda Philae para o centro do cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko quando estiver a uma distância de 22 quilômetros de distância, às 5:35 no horário de Brasília, amanhã. Pode ser um feito histórico que pode mudar o que conhecemos sobre a vida, o universo e tudo mais.
Pode ser apenas uma tentativa, já que alguns segundos de erro de cálculo podem colocar todo o trabalho a perder. Mas o importante é que foi feito. E, mais do que isso, que foi imaginado. Como o personagem principal do curta bancado pela ESA, alguém pensou num plano incrivelmente ambicioso. Tão ambicioso quanto pousar na Lua, decifrar nosso DNA ou desenvolver a inteligência artificial.
Ideias que começaram nos livros, nos filmes. A relação entre a ciência e a ficção científica talvez seja o melhor exemplo do ditado “a vida imita a arte”. São inúmeros casos de leitores que começaram a se interessar por física, química, biologia, matemática, astronomia e outros ramos da ciência a partir do contato com as especulações cogitadas por autores de épocas diferentes.
O polonês Wernher von Braun, a cara da NASA durante os anos de conquista espacial, só cogitou a viagem para o espaço após ler os livros de H.G. Wells e Jules Verne e termos como “robótica” e “ciberespaço” apareceram pela primeira vez em clássicos do gênero (“Eu, Robô” de Isaac Asimov e “Neuromancer” de William Gibson, respectivamente).
E talvez toda a magia suposta no curta – que faz dois humanos recriarem o sistema solar como num laboratório – não seja nada mágica. Afinal, como dizia outro mestre da ficção científica, Arthur C. Clarke, “qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível de magia.”
Eis a importância do pequeno filme: instigar a imaginação e a criatividade dos cientistas do futuro.
Na Impressão Digital dessa semana, agora no YouPix, falei sobre uma briga que está acontecendo bem debaixo de nossos narizes e pode mudar completamente a forma como interagimos com a internet.

A guerra do vídeo
A disputa de audiência entre Google e Facebook é só o prenúncio de uma mudança ainda maior – a passagem do texto para o vídeo
Há uma guerra acontecendo nos bastidores da web. Não estou falando de geopolítica digital nem de deepweb, pois essa briga acontece sob nossos narizes e não no submundo da internet. Somos todos cúmplices, vítimas e parceiros das mudanças que vêm ocorrendo – e ela definirá o futuro da web. É a guerra do vídeo.
Desde que a web se popularizou, no início dos anos 90, ela é um meio escrito. Por mais que a possibilidade multimídia já estivesse presente desde os primeiros rascunhos de Tim Berners-Lee, a grande comunicação através da rede acontece no formato de texto. O MP3 e o Flash permitiram que som e vídeo aos poucos entrassem entre os parágrafos, mas nem a popularização da música digital (via pirataria, iTunes ou sites de streaming) nem a aquisição do YouTube pelo Google (na maior transação financeira do mercado digital da década passada) foram suficientes para destronar o texto como principal formato da comunicação online. E-mails, SMS, newsletters, sites e blogs ainda são onipresentes e por mais que as redes sociais tenham assimilado recursos multimídia elas ainda se movimentam por palavras.
Ainda. Um dos grandes termômetros de que há algo prestes a expandir nossa comunicação para além do teclado (seja ele físico ou touchscreen) foi um número que pegou a todos de surpresa: desde o meio deste ano o Facebook exibe mais vídeos do que o YouTube em desktops.
Não é pouca coisa e o gráfico desenhado pela ComScore no mês passado é autoexplicativo: do meio do ano passado para o meio deste ano, o YouTube caiu de quase 16 bilhões de views por mês para pouco mais de 11 bilhões, enquanto o Facebook vem numa ascensão gritante, saindo de menos de um bilhão de views por mês para 12,3 bi em apenas um ano. E, assim, ultrapassando o YouTube em um bilhão de visualizações por mês. Repetindo: não é pouca coisa.

A ascensão do Facebook começou graças a um recurso ridículo que já deve ter saltado a seus olhos por diversas vezes – fazendo, inclusive, você cair no truque e contribuído para o crescimento dos números de Mark Zuckerberg – o autoplay. Vídeos que começam a passar sem que seja preciso clicar na tecla play, mas, espertamente, com o som desligado. Assim, enquanto você está “zapeando” de cima abaixo pela sua timeline, vídeos começam a tocar sozinhos, sem som, e chamam sua atenção a ponto de fazer você clicar no volume para ver aquele filhote de bicho, aquele acidente espetacular, aquela animaçãozinha engraçadinha – e aumentar as estatísticas do Feice.
Mas não é o prenúncio de uma queda, afinal estamos falando apenas de dispositivos fixos. Os números divulgados não computam audiências em tablets ou smartphones, cada vez mais utilizados do que desktops atualmente. O dado também exclui o número de visualizações da plataforma Vevo, a marca que o YouTube mantém ao lado das grandes gravadoras e que funciona como servidor para os grandes sucessos do site de vídeos – clipes de artistas pop. Fora que a reação do YouTube já começou – e não por acaso você está vendo anúncios de alguns canais brasileiros no site, como o Porta dos Fundos, em ambientes offline, como pontos de ônibus e termômetros de rua.
Mas essa guerra não é apenas entre Google e Facebook – e tem tudo a ver com a migração da web de dispositivos fixos para aparelhos móveis. Pois a tendência iniciada com o celular não para por aí – e vai rumo à tal tecnologia “vestível” dos atuais Google Glass e computadores de pulso, cuja tendência é liberar nossas mãos de vez, inclusive da digitação.
A interface acionada por voz dos dispositivos do futuro já vem engatinhando quando conversamos via Facetime ou trocamos arquivos de áudio via Whatsapp em vez de digitar longas mensagens num tecladinho minúsculo. A melhoria das condições de infraestrutura da rede permite não apenas aplicativos de streaming de música, mas que também possamos conversar por áudio ou por vídeo através da internet.
Num outro extremo há a fusão da TV com a internet ainda em câmera lenta – principalmente no Brasil – mas já em andamento. Em pouco tempo o diálogo entre os aplicativos do celular e da TV será fluido e natural na rotina das pessoas, fazendo com que elas utilizem a TV, que em breve vai ter modelos com câmeras, inclusive para conversar com parentes e amigos e, num segundo momento, vlogar-se para o resto do mundo.
Ainda catamos milho em teclados virtuais, usando controles remotos feitos para trocar de canais para digitar a senha do Netflix ou soletrar lentamente nosso email. É um estágio transitório e que verá o smartphone assumindo o papel do controle da TV e, por que não, sua própria câmera. A segunda tela não será apenas textual, composta por comentários ou tweets por escrito – e vamos nos acostumar a ver dois vídeos simultaneamente (há muitos que já fazem isso atualmente).
E quando isso acontecer, talvez parte da nossa interação com a rede – a forma como fazemos buscas, como assinalamos o site para onde queremos ir, senhas e a troca de mensagens no dia-a-dia – não seja mais em texto. E sim em vídeo.
Aí teremos uma nova fase em que, aí sim, vamos descobrir os novos popstars do futuro. Que não são artistas, nem autores, nem celebridades vindas de outras mídias, mas pessoas que transformaram a web em seu próprio reality show. Já conhecemos vários exemplos do tipo atualmente, mas eles ainda não são massivos porque a rede ainda é baseada em texto. E não em vídeo.

Fui convidado para participar do livro Hábitos Culturais dos Paulistas, uma pesquisa feita entre a JLeiva e o Datafolha, para falar sobre as transformações que a tecnologia impôs ao nosso contato com a cultura. A pesquisa é excelente, quebra alguns tabus e abre cenários bem interessantes para um futuro próximo – ela pode ser acessada neste site. Além do capítulo no livro (que ainda conta com textos de Hugo Possolo, dos Paralapatões, José Roberto Toledo, do Estadão Dados, entre outros), também participei de duas mesas de discussão nesta terça e quarta na Pinacoteca, com alguns dos envolvidos no livro (Baixo Ribeiro, da Choque Cultural, em um dia e Pena Schimidt e Alessandro Janoni, do Datafolha, no outro). Abaixo, o texto que escrevi para o livro, que pode ser baixado em PDF aqui.
Um país conectado
Viver no Brasil na segunda década do século 21 é habitar várias épocas ao mesmo tempo. O país atravessou o século passado sob a sombra de um epíteto infame, a frase “O Brasil é o país do futuro”.
Ela foi dita pela primeira vez, com ironia, por um personagem do livro País do Carnaval, de Jorge Amado, nos anos 1930. Virou título do livro ufanista do austríaco Stefan Zweig em 1941 e, no final dos anos 1960, foi transformada em mote nacionalista pelo ditador militar Emílio Garrastazu Médici. Hoje, por linhas tortas, ela parece ter deixado de ser futuro do pretérito para se tornar presente.
“O futuro já começou” não é mero arremedo da letra do jingle que Marcos Valle compôs para o final de ano da TV Globo nos anos 1970 – a realidade digital para onde estamos sendo tragados desde a popularização da world wide web há vinte anos vem borrando nossa sensação de futuro e nos fazendo crer em um mundo de não ficção científica. Ainda estamos longe dos carros voadores ou de morar na Lua, mas a transformação provocada pela internet na virada do milênio foi colossal e seu impacto talvez seja maior do que a urbanização do planeta, um processo que começou há pouco mais de um século e que atingirá seu auge nas próximas décadas (a ONU estima que, em quinze anos, 70% da população do mundo morará em grandes cidades).
Nossa sensação de futuro foi embaçada pela onipresença da rede e pela miniaturização dos dispositivos de acesso a ela – repare como todo filme de ficção científica produzido até 1994 ficou datado pelo simples fato de não cogitar a existência da internet no futuro.
O que antes chamávamos de “futuro” foi ultrapassado pela realidade de redes sociais e smartphones. Fazemos reservas de restaurante e compramos ingresso para o cinema apenas via celular – e sem usar a voz. O conteúdo sob demanda já está nas TVs e nos sites e logo chegará às rádios. Livros e discos eletrônicos são vendidos diretamente para o aparelho de consumo, mudando a natureza das lojas. Aplicativos nos ajudam a achar o melhor caminho para chegar em casa ou a chamar táxis mais rapidamente. Wi-fi em todo lugar. Movimentações bancárias e comerciais podem ser feitas de casa, por qualquer um, sem haver a menor necessidade de manusear dinheiro. Registramos cada passo de nossos filhos para publicar para amigos e familiares ao descobrirmos que a melhor câmera é aquela que está sempre à mão – ou melhor, no bolso ou nos próprios celulares.
Qualquer dúvida pode ser saciada com uma busca, qualquer endereço pode ser encontrado com poucos cliques, e o celular virou uma mistura de central de entretenimento com controle remoto da realidade. Todos andamos encurvados, tateando fixamente um retângulo preto nas mãos. Em pouco tempo, essa caixinha irá para os óculos e para o pulso, da mesma forma que os computadores tradicionais (notebook ou desktop) estão perdendo espaço para o smartphone. Repare: você já usa mais seu celular do que seu PC.
Nova realidade digital
Calhou de essa nova realidade digital pairar sobre o mundo no mesmo momento em que o Brasil passa a se equilibrar com as próprias pernas. Estamos saindo de nossa adolescência pátria ao mesmo tempo que o mundo se horizontaliza com a internet – e, aos poucos, estamos conquistando o planeta. De repente, “ser brasileiro” ganhou conotações completamente diferentes dos clichês do passado, que figuravam o país em algum ponto equidistante entre Carmen
Miranda, o filme Cidade de Deus, Gisele Bündchen e o funk carioca. Aos olhos estrangeiros, o Brasil sempre foi um animal bonito e exótico, mas o início de nossa maturidade cívica, escancarada nos protestos de junho de 2013, mudou a visão externa sobre o país.
E a forma como usamos a internet é crucial nessa nova abordagem para o resto do mundo. Somos o segundo país que mais consome smartphones e o vice-líder em presença no Facebook, além de dominarmos outras tantas redes sociais com uma presença massiva que só não ultrapassa a dos Estados Unidos. O Brasil é conhecido por ter se embrenhado em diferentes áreas do mundo digital e ter conseguido deter autoridade nos pontos mais remotos desse universo. Do pioneirismo da adoção do software livre em gestão pública ao maior encontro de pessoas conectadas do planeta (a Campus Party de São Paulo ultrapassou a versão original, espanhola, há dois anos), das plataformas de transparência política ao sistema bancário eletrônico (considerado superior ao de países europeus em termos de segurança), do maior festival de cultura da internet do mundo (o YouPix, em São Paulo, reúne quase 20 mil pessoas por ano) a enormes comunidades de gamers on-line, o Brasil é reconhecido constantemente como um gigante digital. E muitos desses hábitos, ainda em transformação, são detectados com clareza nesta pesquisa.
Embora a TV aberta ainda seja o hábito mais comum entre todos os entrevistados, é fácil perceber que esse cenário está mudando drasticamente – basta confrontar a quantidade de pessoas que não acessa a internet (27%, número que tende a cair) com o fato de que metade dos que responderam à pesquisa acessa a rede diariamente, seja para entrar em contato com amigos e familiares, seja para consumir conteúdo, que pode ser tanto informação como entretenimento.
É interessante notar a natureza social da rede. Ela não é usada unicamente para benefício próprio ou interesses individuais, mas é um lugar de diálogo e de relações pessoais. É onde as pessoas mantêm contato mais frequente, ainda que na forma de likes, tuítes, links e vídeos compartilhados. E reforça tanto o caráter gregário quanto o clima de festa típicos da sociedade brasileira, que podem pender essa intensidade para um lado mais depreciativo, ao qual assistimos tanto nos comentários das notícias quanto nas redes sociais. E estamos todos nelas – 90% dos entrevistados que acessam a internet participam de alguma rede social, e 83% deles têm perfil no Facebook, a maior rede social do mundo atualmente.
Pirataria
Uma das particularidades da internet brasileira é a adoção do download ilegal. O Brasil foi um dos primeiros países a abraçar o Napster, software que permite o compartilhamento de arquivos de um computador para outro, sem que ambos estejam conectados a um servidor principal, vivendo o auge da pirataria digital simultaneamente a Estados Unidos e Europa. O país se beneficiou ao ter acesso a esse tipo de conteúdo exatamente quando seus serviços de banda larga começaram a ganhar território, substituindo a obtusa conexão via linha telefônica que dominou a primeira fase de popularização da web, na última década do século passado. O usuário de internet brasileiro médio baixa música gratuitamente mais do que qualquer outro tipo de conteúdo e não se vê pagando por material digital.
Embora seja o principal conteúdo baixado, a música não está sozinha como líder de downloads ilegais. Cada vez mais gente baixa filmes pela internet em vez de assisti-los no cinema. Na pesquisa realizada, quase um em cada cinco entrevistados assiste a filmes que foram baixados da internet. É curioso perceber que não são assistidos no computador em que foi feito o download, mas na própria TV de casa. Seja conectando o computador ao televisor ou usando HDs, consoles de videogame ou pen drives para ter acesso a conteúdo audiovisual, mais da metade dos entrevistados usa um aparelho de televisão para assistir aos filmes baixados ilegalmente.
Da web para a rua
Muito se engana quem acha que uma população conectada é uma população isolada e trancafiada em apartamentos, mesmo porque boa parte das pessoas usa a internet como ponto de partida para a rua. E não se trata apenas dos protestos de junho de 2013, quando o país juntou-se ao momento histórico que reuniu importantes levantes populares, como a Primavera Árabe, os Indignados da Espanha, os tumultos em Londres e o movimento Occupy Wall Street. Mais do que protestar, as pessoas querem desfrutar de eventos culturais – muitos realizados em praça pública e ao ar livre.
Entre os entrevistados, 40% dizem se informar sobre atrações culturais por meio da internet, sendo que 23% de todos ficam sabendo das atrações por meio das redes sociais. Mais da metade dos que usam internet e redes sociais usam portais e sites de mídia para descobrir novidades sobre a programação cultural da cidade e usa as páginas oficiais dos eventos nas redes sociais para descobrir mais informações. Um dado curioso se reflete no ato da compra: a grande maioria ainda prefere adquirir ingressos para esses eventos pessoalmente, na bilheteria, em vez de usar a internet.
O que a pesquisa mostra é que a estrada digital é um caminho sem volta. Os aparelhos continuarão diminuindo até praticamente desaparecer diante de nossos olhos. Um dos melhores exemplos dessa tendência dos aparelhos “vestíveis” parece uma anomalia tecnológica ao acoplar um minimonitor a um par de óculos, mas já nasce com cara de datado, de filme de ficção científica retrô. Essa tendência de aparelhos “vestíveis” é inevitável: basta ver o smartwatch como o controle de interface de nossos smartphones, como uma “filial” do celular. Nem precisaremos tirar o telefone do bolso, basta acioná-lo – muito provavelmente por voz – usando outro pequeno computador, amarrado em seu pulso, substituindo o velho relógio.
É um futuro em que controlaremos as telas sem usar as mãos e em que nos tornaremos cada vez mais independentes do computador de mesa, da escrivaninha e do escritório. A mobilidade digital nos joga para a rua, nos tira de uma zona de conforto que, na verdade, era uma zona de medo. Já estamos retomando as ruas graças às tecnologias disponíveis. E não param de aparecer novidades, portanto, não basta esperarmos que o futuro aconteça. Ele já está acontecendo. É preciso ir ao encontro dele e começar a fazer algo.

Na minha coluna dessa semana no Brainstorm9, falei sobre o vazamento do trailer do Vingadores 2 na semana passada e da forma como a Marvel encarou o contratempo, jogando a seu favor.
Jogando com a internet
Com o vazamento do trailer de “Vingadores 2: A Era de Ultron”, a Marvel aprende que não dá para controlar a internet, mas também ensina como é a melhor forma de lidar com ela
“Maldita Hydra!”, resmungou a conta do Twitter da Marvel na semana passada, horas depois do vazamento do primeiro aguardado trailer do filme “Vingadores 2: A Era de Ultron”.
O trailer estava programado para ir ao ar após o episódio de ontem, terça-feira, dia 28, do seriado “Agents of S.H.I.E.L.D.”, também produzido pela Casa das Ideias. Mas um imprevisto vazamento fez uma versão em baixa qualidade do trailer aparecer no início da noite da quinta-feira passada, dia 23. Em segundos sites de notícias de cinema, quadrinhos e cultura pop linkavam o vídeo pirata com o aviso para que seus leitores assistissem logo, pois o trailer iria sair do ar.
Afinal, esse é o hábito da indústria. Assim que um disco, filme ou seriado aparece online, há exércitos de programadores e advogados prontos para retirar o arquivo do ar, ameaçando sites e derrubando conteúdos através de acordos pré-estabelecidos com redes como YouTube e Facebook.
O YouTube especificamente conta com um algoritmo de reconhecimento de conteúdo alheio que simplesmente impede o dono de uma conta de publicar um vídeo caso ele tenha diagnosticado que aquele vídeo é de uma terceira parte, mesmo que seu publicador não a identifique.
Mas isso não quer dizer que consigam reduzir a pirataria digital. Diminuem o impacto, bloqueando os principais pontos de acesso – mas só para vídeo há dezenas de sites semelhantes ao YouTube que não contam com tecnologia tão ágil para retirada de conteúdo, o que obriga essa ação ser realizada manualmente, com advogados entrando em contato com departamentos jurídicos dos sites.
Além destes, as pessoas têm trocado conteúdo em redes de relacionamento fechadas, emails e fóruns e a versão pirata do trailer de Era de Ultron circulou inclusive via WhatsApp. O próprio YouTube pode ser enganado – e quase sempre o é – quando usuários alteram minimamente a velocidade do arquivo ou invertem horizontalmente a imagem ou a publicam dentro de uma moldura, impossibilitanto a inteligência artificial do site de reconhecer automaticamente a versão. Isso sem contar o mar de torrents, impossível de ser rastreado.
Mas a Marvel fez diferente. Ao twittar o resmungo contra a Hydra – a rede nazista que derrubou a S.H.I.E.L.D. nos filmes do estúdio – ela oficializou a pirataria, ao divulgar em seu próprio canal do YouTube o trailer em alta resolução – com toda a pompa, circunstância, cores e sons que deveria aparecer apenas hoje, na transmissão norte-americana do seriado Agents of S.H.I.E.L.D. Em vez de derrubar as milhares de versões piratas de seu trailer e causar a frustração em milhões de fãs que não conseguiram assistir ao filme, a Marvel baixou a guarda e faturou ela mesma aquela síndrome de atenção.
A Marvel está liderando a construção de uma nova narrativa a longo prazo que foi antecipada pelos delírios transmídia da década passada, quando “Matrix” e “Lost” mostravam as maravilhas que poderiam ser conseguidas quando se misturava a história principal do cinema ou da TV com quadrinhos, desenhos animados, videogames, além de inúmeras pistas espalhadas pela internet e outras tantas cogitadas pelos fãs.
Trabalhando em cima de uma mitologia clássica – seus próprios super-heróis – ela primeiro transpôs de forma bem sucedida os títulos dos quadrinhos para o cinema (com os primeiros filmes do “Homem Aranha”, “X-Men” e “Quarteto Fantástico”) e depois virou ela mesma um estúdio de cinema para produzir seus próprios títulos.
A partir de “Homem de Ferro” começou a contar uma história que se espalhava por outros filmes (“Thor”, “Capitão América”, “Homem de Ferro 2” e “Thor 2”) para culminar com o encontro dos heróis no primeiro Vingadores. O final dessa primeira fase ainda contou com a estreia do seriado “Agents of S.H.I.E.L.D.” que conversou com os filmes do Capitão América e com o segundo filme de Thor nas mesmas semanas em que estas produções estrearam mundialmente.
Estamos agora no meio da segunda fase da Marvel, que termina com o próximo Vingadores e já teve o segundo “Capitão América” e o terceiro “Homem de Ferro” (além de “Guardiões das Galáxias”) como episódios iniciais. O seriado produzido pela ABC também conversará com o fim desta segunda fase. E a terceira fase – anunciada ontem por Kevin Feige, em evento na California – contará com novos heróis e seriados, além de quatro séries estão sendo produzidas em parceria com o Netflix. Confira as datas:

“Capitão América: Guerra Civil” – 6 de maio de 2016
“Doutor Estranho” – 4 de novembro de 2016
“Guardiões da Galáxia 2” – 5 de Maio de 2017
“Thor 3: Ragnarok” – 28 de julho de 2017
“Pantera Negra” – 3 de novembro de 2017
“Capitã Marvel” – 6 de julho de 2018
“Inumanos” – 2 de novembro de 2018
“Avengers: Infinity War – Parte I” – 4 de maio de 2018
“Avengers: Infinity War – Parte II” – 3 de maio de 2019
O incidente envolvendo o trailer novo do segundo Vingadores mostra que a Marvel vem aprendendo a lidar com a internet, que sempre pode estragar a brincadeira ao revelar segredos antes da hora. Mas é didático para outras empresas de produção de conteúdo – não dá para controlar a internet, é preciso trabalhar com ela. Certamente o trailer do novo filme faria mais sentido após a exibição do episódio, que conversaria com o a Era de Ultron. Tanto que a Marvel anunciou que iria exibir uma cena inédita do novo filme junto com o episódio, para tentar diminuir o estrago.
Aos poucos isso vai ser testado com outros filmes e seriados – ainda mais agora que a DC Comics anunciou 10 filmes para compor seu multiverso ao redor dos filmes da Liga da Justiça, com Batman e Super-Homem à frente. Isso sem contar as inúmeras outras mitologias – originais e adaptadas – que serão filmadas nas próximas décadas…


Há tempo venho ensaiando a volta da minha coluna Impressão Digital, que mantinha primeiro no Caderno 2 e depois no Link do Estadão, e agora ela ressurge no YouPix. O tema segue o mesmo: o impacto da cultura digital em nosso comportamento, com mais ênfase na internet porque essa é a área do YouPix. E a pedido da editora do site Bia Granja reestréio a coluna fazendo um balanço das eleições desse ano – de uma perspectiva online.
Eleições 2014: entre a zoeira e o rancor
A internet brasileira superpõe duas realidades – a onipresença do Facebook e a cara violenta do Brasil – rumo ao nosso amadurecimento político
2014 foi um ano bem esclarecedor. Independentemente do resultado do time para quem você estava torcendo, Copa e Eleições em 2014 tiveram o tempero carregado da internet brasileira, metade zoeira, metade rancor. Milhões de brasileiros pendurados no Twitter ou no Facebook, fingiam que estavam trabalhando ou lendo mensagens no celular para ultrapassar o clichê dos 200 milhões de técnicos de futebol ou 200 milhões de analistas de política que a cada quatro anos nos incorpora.
O brasileiro online se move em hordas, grupos de conhecidos que gastam energia pegando pesado entre si e, muitas vezes, despejam bordoadas em semiconhecidos que só estão passando. A voracidade da presença do brasileiro na internet é comemorada não apenas na vice posição das maiores redes sociais do mundo mas também em hypes que vivem auges e depois desaparecem – como o Fotolog, o Formspring, o Old Reader e, aparentemente, há pouco tempo, o Ello.
Mas ela também é lamentada em jogos online por vários jogadores graças à sua natureza destrutiva – são famosos os clãs brasileiros que riem “huehuehuehue” e existem apenas para dizimar as construções de outros jogadores, sem motivo algum. O bullying online é constante nas redes sociais e isso traduz duas realidades que o Brasil vive ao mesmo tempo: a popularidade do Facebook e a história de violência do país.
Esta primeira realidade, que vivemos desde 2010, quando a rede começou a crescer exponencialmente no Brasil, também é a infância digital de milhões de pessoas. Desde os chamados millennials à pessoas da terceira e quarta idade começaram a conhecer a internet em um ambiente em que tudo que é escrito é publicado para todo mundo e quantificado com likes e shares. O Facebook é o primeiro blog, a primeira lista de discussão por email, o primeiro leitor de RSS, o primeiro fórum e o primeiro Flickr ou conta do YouTube de milhões de pessoas. Dezenas de milhões de pessoas.
Gente que vive a internet entre links, imagens, textos curtos ou gigantescos e vídeos que se movimentam entre o Whatsapp, o Facebook, o Twitter, o email e mensagens de SMS – e só. A multiplicidade de funções do Facebook e a onipresença das pessoas na rede social é uma draga de tempo e praticamente isola as pessoas do resto da internet. O que parecia ser uma enorme favela torna-se um feudo cada vez mais fechado, um castelo murado que isola a internet em uma insuportável troca de insultos, amigáveis ou não.
A segunda realidade é da natureza do Brasil. O país erguido sobre o exotique que exalta a exuberância disfarça uma das sociedades mais violentas do mundo. A face sorridente brasileira (Amazônia, mulata, Carmen Miranda, futebol, samba, Copacabana, carnaval) esconde uma história de tortura e sangue, extermínios e massacres, sadismo e crueldade. É um país de feitores, torturadores, bandeirantes, “dotôs delegados”, coronéis, milicianos. Resolver as coisas na base da coerção física sempre foi parte do cotidiano brasileiro e o século 20 foi eficaz em encobrir para debaixo do tapete toda essa história de violência. Mas ela continua aí.
Junte uma web 2.0 em profusão geométrica, com milhões e milhões de pessoas descobrindo a maravilha que é conversar com o mundo inteiro (e sozinho, ao mesmo tempo) com essa tendência a resolver as coisas no braço e eis a internet brasileira em 2014.
Na Copa, a violência ficou reprimida. Pois a simples percepção de que o maior evento do mundo, aquele que sempre crescemos acompanhando à distância, iria acontecer perto de casa criou uma situação de desequilíbrio mental em todos nós. Uma Copa do Mundo sendo realizada no Brasil nos chapou com uma loucura leve e mesmo os mais críticos não resistiram ao contato com os estrangeiros, às situações inusitadas que foram presenciadas nesta que não por acaso consagrou-se “a Copa das Copas”. O VTNC à Dilma no primeiro jogo do evento e o fatídico 7 x 1 foram momentos em que a face violenta do brasileiro ameaçou vir à tona, mas só aquela saraivada de piadas sobre o Podolswki em menos de 24 horas no Twitter já foram o suficiente para mostrar o quanto o país estava inebriado, flutuando no delírio de ser o país sede de uma Copa.
Já as eleições sintonizaram o dial do inconsciente brasileiro no outro extremo. Sim, a zoeira teve mais grandes momentos do que o rancor durante a Copa do Mundo, mas vamos lembrar que a eleição começou pra valer de uma forma trágica e pesada, quando o avião de Eduardo Campos caiu em Santos. A partir daquele 13 de agosto o Brasil entrava numa montanha russa de emoções sem precedentes na história recente – e propulsionada à toda força graças ao volume de troca de informação nas rede sociais.
Assistimos ao doutor Jeckyll da Copa do Mundo transformando-se no senhor Hyde das eleições repetindo a revelação final de Felipe Barreto em O Dono do Mundo – que ele não era bonzinho porra nenhuma e vocês vão ver só. A enxurrada de informação é estarrecedora. Piadas nonsense, trocadilhos afiados, montagens perfeitas, vídeos editados segundos depois de uma notícia ir ao ar, sites de notícias assumidamente falsas, blogs petralhas e blogs reaças, programas humorísticos de telejornalismo, canais no YouTube, páginas no Facebook, texto aplicado em foto, longos artigos exaltando ou condenando um país em que a esquerda é caviar e a direita é coxinha.
Os candidatos a cargos legislativo fizeram a festa nas redes e o Facebook virou o grande palanque de 2014, inclusive para a imprensa, que abraçou as redes sociais ainda mais avidamente que em eleições anteriores. Já os candidatos à presidência foram desconstruídos e reconstruídos dezenas de vezes por centenas de pontos de vista. Dilma, Aécio e Marina passaram por devassas pesadas de suas carreiras enquanto Luciana Genro e Eduardo Jorge deixaram o zoológico dos nanicos para ganhar voz e criaram bases sólidas para suas futuras carreiras políticas. Levy Fidelix saiu do armário do conservadorismo e deixou de ser o seu Barriga do aerotrem enquanto o Pastor Everaldo entrou para a história como a primeira pessoa a confessar ter peidado em um programa de TV no Brasil.
Mas mesmo com a vitória conservadora no legislativo e o país rachado politicamente entre Aécio e Dilma, estes aspectos são coadjuvantes frente a algo que assistimos neste ano – a intensa participação política dos brasileiros e nossos primeiros passos rumo a discussões civilizadas. A nação violenta animou-se com o teclado e passou a cuspir besteiras para quem quisesse se sentir ofendido. Tanto faz qual tendência política – é fácil pensar nas estrelas conservadoras e progressistas que se degladiam em diferentes mídias, encontrando-se nas redes sociais para equiparar links de colunas, programas de TV ou posts nas próprias redes. Essa fúria motiva as pessoas ao menos para se posicionar politicamente, pelos motivos certos ou não, em vez de fingir desinteresse por política para depois aliar-se ao vencedor.
Pois essa é outra característica brasileira: nunca há uma ruptura, um dissenso, uma tensão em qualquer mudança histórica do país. O Brasil tornou-se independente quase como uma herança, a abolição da escravatura foi aceita de imediato, a República também não foi contestada e foram preciso 15 anos para derrubar Getúlio, que voltou dez anos depois. Sua morte também foi assimilada rapidamente assim como a mudança do Golpe de 64 e a Nova República, Collor, Fernando Henrique e o PT. Essa raiva toda na internet não vai nos levar a uma guerra civil como muitos temem, mas faz parte de um processo de amadurecimento político brasileiro que está apenas começando… Por isso 2014 está sendo bem esclarecedor.

Outro dia comentaram comigo sobre essa entrevista que dei para o Portal A&C e que eu ainda não a tinha visto publicada. Copio-a a seguir para quem também não viu:
“Já estamos cercados por tecnologias com inteligência artificial”
Um papo sobre avanços tecnológicos recentes e seus impactos sobre nossas vidas com o jornalista Alexandre Matias
Já parou para pensar no quanto as novas tecnologias têm mudado nossas vidas nos últimos anos? Internet e softwares, com o suporte dos mais variados tipos de dispositivos, têm modificado comportamentos, modos de produção, os fluxos de informação, influenciado o jeito de fazer arte e produzir cultura, transformado a educação e o ensino. E isso parece ser só o começo.
O jornalista Alexandre Matias tem acompanhado tudo isso de perto profissionalmente. Ao longo de sua carreira, foi editor do “Link”, o caderno de tecnologia do jornal Estado de São Paulo, editor chefe da revista de ciência Galileu, além de ter editado umas das primeiras revistas no Brasil a falar de comportamento digital, a “Play”. É também reconhecido pelo seu blog “Trabalho Sujo”. O Portal AeC conversou com Matias sobre os impactos e transformações propiciados pelas novas tecnologias e o convidou a fazer algumas apostas em relação ao futuro.
Você começou sua carreira cobrindo música, foi editor do caderno de tecnologia no Estadão, editor da Revista Galileu e seu blog Trabalho Sujo é referência para muitas pessoas. Como você enxerga hoje a profissão de jornalista? Qual é o papel dele num mundo onde se fala em excesso de informação e um baixo limiar de atenção?
Acho que a chegada da internet é uma fase de transição que parece que tem demorado para passar porque a estamos atravessando desde os anos 90. Mas quem tem 18 anos hoje não sabe o que é o mundo sem internet, provavelmente nem sequer se refere à internet desta forma – não paga contas “online”, apenas paga contas; não compra ingressos “online”, apenas compra ingressos; não sai com alguém que conheceu “online” e sim com alguém que conheceu. A maioria das profissões e dos profissionais entrou em parafuso e ainda tateia na rede – tem muita gente mais velha que a gente que está começando a acessar a rede em 2014, tendo seu primeiro email, abrindo seu primeiro perfil em uma rede social, acreditando naqueles velhos boatos que caímos em 1997 e clicando sem querer em correntes, vírus ou spywares. Tudo isso pra dizer que o cerne da profissão jornalista não mudou muito e é tão necessário (talvez mais) do que antes. É preciso apurar, editar, filtrar, checar, descobrir coisas novas, fuçar em assuntos que ninguém quer se meter – cada vez mais. Se o Facebook (ou a próxima rede social) é o blog de qualquer um e qualquer um com um blog pode ser um jornalista, somos todos jornalistas – mas isso não quer dizer que somos bons jornalistas. Cabe a esses bons separar o joio do trigo e trazer assuntos apurados, checados e analisados. O problema é que a mudança provocada pela internet vem desnudando uma série de veículos e modus operandi que não têm nada a ver com jornalismo, que fazem propaganda (comercial ou política) disfarçada disso. Então uma série de “pilares” do jornalismo vêm caindo ou se segurando para não cair, enquanto os novos nomes ainda estão surgindo, experimentando formatos, vendo como se pagam as contas. É um momento bem interessante e me sinto muito feliz em poder participar tão ativamente desta mudança. Editei uma revista que falava de comportamento digital em 2001 (a Play), editei um caderno que unificou a produção do online e do impresso pela primeira vez numa grande redação brasileira (o Link) e tenho um site que vai mudando de acordo com a minha vontade e as novidades da época (o Trabalho Sujo). São apenas três experiências pelas quais passei entre muitas outras que mostram como estamos mudando e cada vez mais conscientes desta mudança.
Um pequeno exercício de especulação e futurologia para quem acompanha o mercado tech de perto: assim como o filme Minority Report influenciou interfaces touch quando do seu lançamento, fala-se que Ela, de Spike Jonze, pode ter o mesmo impacto na design da experiência do usuário. Ou seja, interfaces menos visuais e com comandos vocais. Você apostaria nisso? Como você enxerga possíveis futuras interfaces?
Não sei, acho que o futuro está cada vez mais imprevisível – procure a internet na ficção científica do século 20 e ela só começa a ser cogitada a partir de 1984, com Neuromancer, quando a internet já existia para além das universidades e laboratórios de tecnologia. Mesmo as interfaces do Minority Report ainda não chegaram – estamos arrastando coisas na tela com o mouse, por mais que nossos dedos já deslizem os celulares e tablets. E as telas no filme de Spielberg não existiam, eram projetadas no vazio, uma interface que ainda vamos ver surgindo. Sobre Ela – e outros filmes e livros que abordam tais interfaces – vamos ver os robôs do futuro não como androides que fazem as coisas pra gente, mas como assistentes pessoais. Mas creio que eles não se tornarão tão humanos como a personagem do filme de Jonze – já conversamos com aparelhos hoje em dia (fizemos uma matéria em 2007 sobre pessoas que batizavam a voz que saía de seus aparelhos GPS). Acho que a tendência de qualquer interface é emular uma interface anterior – não à toa ainda chamamos a área de trabalho de “desktop” (escrivaninha em inglês) ou usamos termos como “pastas” e “arquivos” para nos referir a locais que não se parecem pastas e bits que não nos lembram em nada arquivos. Qual vamos escolher no futuro? Prefiro dizer que já conectaram o computador ao neurônio e que ativar as coisas com o pensamento deverá ser rotina em 20 anos. Por isso não sei se vamos precisar de uma cara ou de uma personalidade para estas coisas…
Você vê chances da inteligência artificial, num futuro próximo, ser tão fantástica e integrada à rotina do cidadão comum, como é no filme Ela?
Sim. Na verdade, já estamos cercados por inteligência artificial. É ela que nos indica amigos no Facebook, livros na Amazon, filmes no Netflix, os melhores caminhos via Waze e descobre a música que está tocando na festa via Shazam. A tendência é que esses algoritmos vão ficar mais complexos e começar a cruzar informações entre si – a ponto de saber que quando sua mãe estiver querendo falar com você, o volume do som ou da TV irão baixar automaticamente. E esse é um exemplo simples que devemos ver funcionando em poucos anos.
A internet vem alterando significativamente a forma como produzimos e consumimos cultura. Do iPod ao Netflix, passando pelo Kindle e pelo ProTools, qualquer um hoje, em teoria, pode criar o próximo best seller sem sair de casa, além de ter acesso quase imediato a tudo que a humanidade já produziu. Como você analisa este momento?
Acho que isso pode significar uma desglamourização do processo artístico, da produção cultural. Hoje qualquer um pode gravar um disco ou escrever um livro a partir de casa, e muitos já conseguem editar filmes inteiros com pouco auxílio de terceiros. Mas estamos falando de filmes, livros, discos – conceitos forjados e popularizados no século 20. Fico muito mais curioso para saber quais são os itens culturais do século 21. Games, sites e experiências interativas são apenas o rascunho do que veremos no futuro. E, com isso, “ser artista” vai ser corriqueiro e deixa de ser mítico, inalcançável. Claro que ainda vão existir grandes artistas – no que diz respeito a tamanho e qualidade – mas eles vão ser cada vez mais raros e provavelmente se lançarão por conta própria.
A internet, também, por meio de suas redes sociais, está dando voz política a cada vez mais pessoas. É chegada a era de uma democracia 2.0?
A minha dúvida maior é sobre o congresso. Como o jornal de papel que chega toda manhã na sua casa com as notícias de ontem, as assembleias legislativas tiveram uma importância fundamental para a história da humanidade. Afinal, era muito difícil saber o que toda uma cidade, um estado ou um país pensavam e queriam, daí escolher representantes pelo voto. Mas é um formato que parece fadado a morrer, mesmo porque já viciou-se em uma série falhas que pouco dizem respeito à sua função original. Mas vamos ter um plenário formado pelas próprias pessoas? Acho inviável um plebiscito para qualquer assunto. Acho que a principal mudança politica diz mais respeito à política do dia a dia, de aos poucos as pessoas perceberem que a calçada quebrada, o buraco na rua, a avenida que engarrafa e o bairro que inunda são problemas de todos e não apenas ficar esperando soluções de cima. Acho que há uma tendência à municipalização das discussões políticas e à retomada da comunidade como unidade de gerência. O escritor de ficção científica Neal Stephenson cogitou em seu livro Nevasca pequenos condomínios autônomos que conversam entre si. Não acho um futuro impossível, embora vai demorar um tempo para chegar.
Atualmente, educação é um setor que tem sido explorado exaustivamente por empresas de tecnologia: cursos via web, universidades e escolas virtuais etc. Ao seu ver, é uma nova fronteira que se abre e de fato transforma o ensino e o aprendizado ou é apenas mais uma tendência do mercado tech como foram tantas outras?
As duas coisas. A escola também foi afetada pela chegada do digital. E era um modelo idêntico ao criado na era industrial. Analisando friamente, a escola nunca foi um local de aprendizado, e sim onde os pais podem deixar os filhos quando vão ao trabalho. Ao mesmo tempo em que os filhos eram doutrinados para entender o trabalho no futuro. A escola imita a fábrica, a sirene do recreio é a mesma do intervalo, há filas, chamada, horários, etc. Mas se o próprio trabalho está mudando, é inevitável que a escola também mude. A duvida, neste caso, é saber onde vamos deixar nossos filhos quando estivermos fazendo outras coisas. E o que eles deverão aprender quando estiverem neste lugar. É melhor aprender a cozinhar ou trigonometria? É melhor aprender a gerir um negócio ou leis da física? Precisamos de uma sala de aula? O professor já não é mais a autoridade do saber que era, um adolescente com um smartphone pode descobrir uma série de enganos perpetrados por um professor de história mal intencionado, algo impossível há vinte anos.
Tendo em mente a tecnologia existe para melhorar a existência humana, para você, qual foi o maior avanço tecnológico dos últimos 10 anos?
Se fossem dos últimos 20, sem dúvida a world wide web, que tornou a popularização da internet possível. Dos últimos 10, talvez seja a mutação do telefone portátil em computador de bolso. Mas é uma revolução passageira, daqui a dez anos não carregaremos nenhum aparelho no bolso. E acho que o computador de pulso vai ser mais popular que o óculos-computador. Mas vai saber se alguém não inventa o teletransporte ou algo que torne dormir algo obsoleto…

Na minha coluna dessa semana no Brainstorm9 eu segui insistindo no porquê me incomodou tanto a breguice do clipe da BBC, pois esbarrei com uma palestra que o Iggy Pop deu em nome da emissora que tem muito mais a ver com o legado deles do que aquele excesso de fofura do comercial. A transcrição da palestra segue em inglês lá embaixo – se alguém se dispor a traduzi-la eu a publico aqui.
Na minha coluna passada muita gente bateu de frente comigo porque eu desanquei o clipe com a versão de “God Only Knows” dos Beach Boys que a BBC fez para lançar seu novo portal de música, BBC Music. Uns me acusaram de saudosista por comparar com outro clipe, um pouco menos brega, que a emissora estatal britânica fez há 17 anos. Outros simplesmente discordaram porque gostaram do clipe e acharam que eu não podia achar o clipe brega. Uns poucos partiram pro ataque pessoal, essa arrogância agressiva é o que move as ondas das redes sociais.
Vou explicar: o clipe não é ruim. Ele é todo bem produzido, direção de arte caprichada, boa escolha de música e um bom elenco de intérpretes. Mas imagine se a Apple fosse a empresa que lançasse esse comercial? Todo esse panteão rococó destoaria drasticamente da imagem cool e minimalista que é a alma da imagem da empresa de Steve Jobs. Consegue imaginar o Spotify ou o próprio YouTube se vendendo dessa forma, com essa estética? É uma estética que tem mais a ver com a imagem que as grandes gravadoras gostam de passar, essa sensação de que todos os artistas estão juntos cantando uma mesma canção, com efeitos especiais sofisticados e que demonstrem uma certa sensibilidade.
O problema do clipe, na minha opinião, é seu excesso visual. É um apuro visual caro à Hollywood, à direção de arte exagerada dos filmes de Tim Burton, dos filmes que George Lucas fez de Guerra nas Estrelas na virada do milênio, da Asgard dos estúdios Marvel. Reunir vários artistas para cantar um clássico dos Beach Boys não é nada risível quanto ver um tigre saltando sobre o piano de cauda tocado por Brian Wilson, que se apresenta num palco de frente à orquestra que toca entre abajures que piscam. Sério que você não achou brega aqueles diamantes voando ao redor de Stevie Wonder?

Não é essa a imagem que a BBC nos passa. A British Broadcasting Corporation, fundada em 1922, é um ícone britânico tão importante quanto a família real, o ônibus de dois andares, os policiais, a cabine telefônica, o Big Ben, os Beatles e Harry Potter. A estatal é um poço de conhecimento, uma biblioteca multimídia do século 20, que produz jornalismo e entretenimento com uma qualidade tão célebre quanto seu nome. Pouquíssimas empresas têm um nível de exigência tão alto quanto a BBC – e não estou falando apenas de empresas de comunicação.
Essa excelência se traduz esteticamente. Toda uma fleuma, polidez e austeridade típicas do que se reconhece como essências da cultura britânica também são qualidades da emissora, que reforça essa imagem que o Reino Unido quer passar para o resto do mundo. Na BBC isso se traduz com uma paleta de cores contida, um minimalismo nas fontes, a sobriedade e a clareza nas expressões, tudo mínimo e comedido mesmo em seus espasmos de loucura (que não são poucos).
É vasto o legado cultural da emissora, que reúne as célebres BBC Sessions com os maiores nomes da história do pop mundial, os documentários de Adam Curtis e David Attenborough, comédias impagáveis como “Absolutely Fabulous”, “The Young Ones”, “Little Britain”, “Fawlty Towers”, “Coupling”, “Monty Python”, “Spaced”, “The Office” e “The IT Crowd”, programas musicais como o “Old Grey Whistle Test”, “Top of the Pops” e “Later with Jools Holland”, séries clássicas como “Life on Mars”, “The Hour”, “Black Mirror”, “Torchwood”, “Doctor Who”, “Skins” e “Sherlock”. Você não precisa ter visto todos esses programas para saber de sua relevância – e também para ter uma idéia do alto padrão estabelecido pela emissora britânica.
Em se tratando apenas de música, basta falar da importância de um único homem – John Peel. Morto há dez anos, Peel é praticamente um totem à importância da BBC como visionária musical. Por trinta anos DJ da emissora, ele ergueu as bandeiras da psicodelia, do rock progressivo, do rock de garagem, do punk rock, do reggae, do hardcore, da new wave, do pós-punk, da música eletrônica e do indie antes que todo mundo começasse a prestar atenção nos artistas destes gêneros, usando sua prestigiada posição de radialista de uma das principais emissoras de rádio do mundo não para impor regras ou determinar padrões musicais – ele era um farol que buscava o que a contemporaneidade parecia não ver, apontando saudáveis rupturas ao status quo musical.
Suas Peel Sessions reuniram os momentos clássicos de artistas vivendo seus respectivos auges – do Superchunk ao Supertramp, David Bowie e Pixies, Pink Floyd com Syd Barrett e Joy Division, Jimi Hendrix e Nirvana, Peel gravou com todo mundo. Foram 4 mil sessões com mais de dois mil artistas diferentes.
Sua importância é lembrada anualmente pela própria emissora desde 2011, quando a BBC resolveu estender sua participação no evento Radio Festival ao inaugurar a BBC Music John Peel Lecture, uma masterclass em que um nome importante da música lembre de aspectos relacionados à liberdade criativa que Peel tinha na emissora.
O evento acontece todo ano na University of Salford, em Manchester, na Inglaterra, e celebra a cultura do rádio e das transmissões de áudio. A primeira John Peel Lecture, em 2011, foi ministrada pelo fundador do The Who, o guitarrista e vocalista Pete Townshend. A deste ano foi dada por ninguém menos que Iggy Pop, no último dia 13 deste mês.
Foi a primeira palestra que Iggy Pop deu na vida – e o mero convite à palestra é outra amostra do grau de risco que a BBC gosta de correr. Iggy Pop é uma lenda do rock por ter inventado o punk rock bem antes deste ter esse nome, quando numa cidadezinha no subúrbio de Detroit, juntou com uns malucos no final dos anos 60 para tentar imitar o Doors e pariu dois dos discos mais barulhentos da história do rock, The Stooges (nome que também batizava sua banda) e Funhouse.
Desde então seu nome esteve envolvido em bastidores clássicos do rock e situações de perigo extremo sempre envolvendo álcool, sexo, drogas, violência e barulho. Iggy Pop quebrava garrafas no palco e rolava no chão enquanto cantava, saía na porrada com fãs durante os shows, passou algumas décadas – os anos 60, 70 e 80 – sem estar sóbrio. Hoje, quase 50 anos depois daquele tempo, Iggy especializou-se em ser uma lenda viva do rock, fazendo coisas que nunca fez na vida a partir desse novo título. Não por acaso vem apresentando um programa semanal na própria BBC (BBC 6, todo domingo à tarde) e aceitou dar a palestra da semana passada.
Por uma hora Iggy Pop falou sobre o tema escolhido – “Música livre (ou gratuita) em uma sociedade capitalista”, numa palestra que pode ser resumida na importância de se fazer o que se gosta por gostar, nunca por dinheiro. “Se eu quiser fazer música, a esta altura da vida, prefiro fazer o que quero e de graça, que eu faço, ou pelo menos a um preço barato, que eu possa pagar. E banque isso através de outros meios, como um orçamento pra um filme ou um site de moda – já fiz os dois. Isso parece funcionar melhor para mim do que os discos corporativos de empresas de rock’n’roll que eu tenho feito. Desculpa. Se eu quisesse dinheiro, que tal vender seguros de carro?”
Na palestra Iggy falou sobre pequenas gravadoras (citando-as nominalmente como onde encontrar música boa hoje em dia – “XL, Matador, Burger, Anti, Epitaph, Mute, Rough Trade, 4AD, Sub Pop”), sobre Jack Holzman da Elektra e Richard Branson da Virgin, sobre a Vice e o Guardian, critica o U2 e a Apple a aplaude Thom Yorke e o BitTorrent, além de falar sobre o porquê de ouvirmos tanta música ruim no rádio. A palestra dada no Quays Theatre da University of Salford pode ser ouvida em streaming por quatro semanas neste link, baixada neste outro link e a transcrição se encontra neste link e abaixo (se alguém quiser se aventurar à tradução, basta postá-la nos comentários).
Resumo da ópera: a BBC é uma emissora que coloca o maior delinquente da história do rock para dar uma palestra sobre música de graça no sistema capitalista dentro de uma aula magna em homenagem a um ex-funcionário especialista em descobrir músicas que as pessoas iriam ouvir no futuro. E o que se ouve é uma hora de pensamento articulado, claro, bem humorado, mesmo quando quer chocar. Nada a ver com Elton John vestindo um paletó cheio de borboletas vivas.
***
“Hi, I’m Iggy Pop. I’ve held a steady job at BBC 6 Music now for almost a year, which is a long time in my game. I always hated radio and the jerks who pushed that shit music into my tender mind, with rare exceptions. When I was a boy, I used to sit for hours suffering through the entire US radio top 40 waiting for that one song by The Beatles and the other one by The Kinks. Had there been anything like John Peel available in my Midwestern town I would have been thrilled. So it’s an honor to be here. I understand that. I appreciate it
Some months ago when the idea of this talk came up I thought it might be okay to talk about free music in a Capitalist society. So that’s what I’m gonna try to talk about. A society in which the Capitalist system dominates all the others, and seeks their destruction when they get in its way. Since then, the shit has really hit the fan on the subject, thanks to U2 and Apple. I worked half of my life for free. I didn’t really think about that one way or the other, until the masters of the record industry kept complaining that I wasn’t making them any money. To tell you the truth, when it comes to art, money is an unimportant detail. It just happens to be a huge one unimportant detail. But, a good LP is a being, it’s not a product. It has a life-force, a personality, and a history, just like you and me. It can be your friend. Try explaining that to a weasel.
As I learned when I hit 30 +, and realized I was penniless, and almost unable to get my music released, music had become an industrial art and it was the people who excelled at the industry who got to make the art. I had to sell most of my future rights to keep making records to keep going. And now, thanks to digital advances, we have a very large industry, which is laughably maybe almost entirely pirate so nobody can collect shit. Well, it was to be expected. Everybody made a lot of money reselling all of recorded musical history in CD form back in the 90s, but now the cat is out of the bag and the new electronic devices which estrange people from their morals also make it easier to steal music than to pay for it. So there’s gonna be a correction.
When I started The Stooges we were organized as a group of Utopian communists. All the money was held communally and we lived together while we shared the pursuit of a radical ideal. We shared all song writing, publishing and royalty credits equally – didn’t matter who wrote it – because we’d seen it on the back of a Doors album and thought it was cool, at least I did. Yeah. I thought songwriting was about the glory, I didn’t know you’d get paid for it. We practiced a total immersion to try to forge a new approach which would be something of our own. Something of lasting value. Something that was going to be revealed and created and was not yet known.
We are now in the age of the schemer and the plan is always big, big, big, but it’s the nature of the technology created in the service of the various schemes that the pond, while wide, is very shallow. Nobody cares about anything too deeply expect money. Running out of it, getting it. I never sincerely wanted to be rich. There is a, in the US, we have this guy “Do you sincerely wanna be rich? You can do it!” I didn’t sincerely want to be rich. I never sincerely felt like making anyone else that way. That made me a kind of a wild card in the 60’s and 70’s. I got into the game because it felt good to play and it felt like being free. I’m still hearing today about how my early works with The Stooges were flops. But they’re still in print and they sell 45 years later, they sell. Okay, it took 20 or 25 years for the first royalties to roll in. So sue me.
Some of us who couldn’t get anywhere for years kept beating our heads against the same wall to no avail. No one did that better than my friends The Ramones. They kept putting out album after album, frustrated that they weren’t getting the hit. They even tried Phil Spector and his handgun. After the first couple of records, which made a big impact, they couldn’t sustain the quality, but I noticed that every album had at least one great song and I thought, wow if these guys would just stop and give it a rest, society would for sure catch up to them. And that’s what’s happening now, but they’re not around to enjoy it. I used to run into Johnny at a little rehearsal joint in New York and he’d be in a big room all alone with a Marshall stack just going “dum, dum, dum, dum, dum” all my himself. I asked him why and he said if he didn’t practice doing that exactly the way he did it live he’d lose it. He was devoted and obsessive, so were Joey and Deedee. I like that. Johnny asked me one day – Iggy don’t you hate Offspring and the way they’re so popular with that crap they play. That should be us, they stole it from us. I told him look, some guys are born and raised to be the captain of the football team and some guys are just gonna be James Dean in Rebel Without a Cause and that’s the way it is. Not everybody is meant to be big. Not everybody big is any good.
I only ever wanted the money because it was symbolic of love and the best thing I ever did was to make a lifetime commitment to continue playing music no matter what, which is what I resolved to do at the age of 18. If who you are is who you are that is really hard to steal, and it can lead you in all sorts of useful directions when the road ahead of you is blocked and it will get blocked. Now I’m older and I need all the dough I can get. So I too am concerned about losing those lovely royalties, now that they’ve finally arrived, in the maze of the Internet. But I’m also diversifying my income, because a stream will dry up. I’m not here to complain about that, I’m here to survive it.
When I was starting out as a full time musician I was walking down the street one bright afternoon in the seedier part of my Midwestern college town. I passed a dive bar and from it emerged a portly balding pallid middle aged musician in a white tux with a drink in one hand and a guitar in the other. He was blinking in the daylight. I had a strong intuition that this was a fate to be avoided. He seemed cut off from society and resigned to an oblivious obscurity. A bar fly. An accessory to booze. So how do you engage society as an artist and get them to pay you? Well, that’s a matter of art. And endurance.
To start with, I cannot stress enough the importance of study. I was lucky to work in a discount record store in Ann Arbor Michigan as a stock boy where I was exposed to a little bit of every form of music imaginable on record at the time. I listened to it all whether I liked it or not. Be curious. And I played in my high school orchestra and I learned the joy of the warm organic instruments working together in the service of a classical piece. That sticks with you forever. If anyone out there can get a chance to put an instrument and some knowledge in some kids hand, you’ve done a great, great thing.
Comparative information is a key to freedom. I found other people who were smarter than me. To teach me. My first pro band was a blues band called The Prime Movers and the leader Michael Erlewine was a very bright hippy beatnik with a beautifully organized record collection in library form of The Blues. I’d never really heard the Blues. That part of our American heritage was kept off the major media. It was system up, people down. No Big Bill Broonzy on BBC for us. Boy I wish! No money in it. But everything I learned from Michael’s beautiful library became the building blocks for anything good I’ve done since. Guys like this are priceless. If you find one, follow him, or her. Get the knowledge.
Once in secondary school in the 60’s some class clowns dressed up the tallest guy in school in a trench coat, shades and a fedora and rushed him in to a school dance with great hubbub proclaiming “Del Shannon is here, Del Shannon is here.” And until they got to the stage we all believed them, because nobody knew what Del Shannon looked like. He was just a voice on some great records. He had no social ID. By the early 60’s that had really changed with the invasion of The Beatles and The Stones. This time TV was added to the mix and print media too. So you knew who they were, or so you thought anyway. I’m mentioning this because the best way to survive the death or change of an industry is to transcend its form. You’re better off with an identity of your own or maybe a few of them. Something special.
It is my own personal view having lived through it that in America The Beatles replaced our assassinated president Kennedy, who represented our hopes for a certain kind of society. Didn’t get there. And The Stones replaced our assassinated folk music which our own leaders suppressed for cultural, racial, and financial reasons. It wasn’t okay with everybody to be Kennedy or Muddy Waters, but those messages could be accepted if they came through white entertainers from the parent culture. That’s why they’re still around.
Years later I had the impression that Apple, the corporation, had successfully co-opted the good feelings that the average American felt about the culture of the Beatles, by kind of stealing the name of their company so I bought a little stock. Good move. 1992. Woo! But look, everybody is subject to the rip off and has to change affiliations from time to time. Even Superman and Barbie were German before America tempted them to come over. Tough luck, Nietzche.
So who owns what anyway. Or as Bob Dylan said “The relationships of ownership.” That’s gates of Eden. Nobody knows for long, especially these days. Apparently when BBC radio was founded, the record companies in England wouldn’t allow the BBC to play their master recordings because they thought no one would buy them for their personal use if they could hear them free on the radio. So they were really confused about what they had. They didn’t get it. And how people feel about music. ‘Cause it’s a feel thing, and it resists logic. It’s not binary code. Later when CD’s came in, the retail merchants in American all panicked because they were just too damn tiny and they thought that Americans want something that looks big, like a vinyl record. Well they had a point but their solution was a kind of Frankenstein called “The Long Box.” It didn’t fool anybody because half of it was empty. It had a little CD in the bottom. You’d open it up and it was empty. Now we have people in the Sahara using GPS to bury huge wads of Euros under sand dunes for safe keeping. But GPS was created for military spying from the high ground, not radical banking so any sophisticated system, along with the bounty it brings, is subject to primitive hijacking.
I wanna talk about a type of entrepreneur who functions as a kind of popular music patron of the arts. It’s good to know a patron. I call him El Padron because his relationship to the artist is essentially feudal, though benign. He or she (La Padrona) if you will, is someone, usually the product of successful, enlightened parents, who owns a record company, but has had benefit of a very good education, and can see a bigger picture than a petty business person. If they like an artists’ style and it suits them, they’ll support you even if you’re not a big money spinner. I can tell you, some of these powerful guys get so bored that if you are fun in the office, you’ll go places. Their ancestors, the old time record crooks just made it their business to make great, great records, but also to rip off the artist 100%, copyright, publishing, royalty splits, agency fees, you name it. If anyone complained the line was “Pay you? We worship you!” God bless Bo Diddley.
By the time I came along there was a new brand of Padron. People like this are still around and some can help you. One was named Jack Holzman. Jack had a beautiful label called Elektra Records, they put out Judy Collins, Tim Buckley, the Doors and Love. He’d started working in his family record store, like Brian Epstein. He dressed mod and he treated us very gently. He was a civilized man. He obviously loved the arts, but what he really wanted to do was build his business – and he did. He had his own concerns, and style, and you had to serve them, and of course when he sold out, as all indies do, you were stranded culturally in the hands of a cold clumsy conglomerate. But he put us in the right studios with the right producers and he tried to get us seen in the right venues and it really helped. This is a good example of the industry.
Another good guy I met is Sir Richard Branson. I ended up serving my full term at Virgin Records having been removed from every other label. And he created a superior culture there. People were happier and nicer than the weasels at some other places. The first time he tried to sign me it didn’t work out, because I had my sights set on A&M, a company I thought would help make me respectable. After all they had Sting! Richard was secretly starting his own company at the time in the US and he phoned me in my tiny flat with no furniture. He said he’d give me a longer term deal with more dough than the other guys and he was very, very polite and soft spoken. But I had just smoked a joint that day and I couldn’t make a decision. So I went with the other guys who soon got sick of me. Virgin picked me up again later on the rebound. And on the cheap. Damn. My own fault.
Another kind of indie legend who is slightly more contemporary is Long Gone John of the label Sympathy for the Record Industry. Good name. John is famous with some artists for his disinterest in paying royalties. He has a very interesting music themed folk art collection – its visible online – which includes my leather jacket. I wish he’d give it back. There are lots of indie people with a gift for organization who just kind of collect freaks and throw them up at the wall to see who sticks. You gotta watch ‘em.
When you go a step down creatively from the Padrons who are actually entrepreneurs you get to the executives. You don’t wanna know these guys. They usually came over from legal or accounting. They have protégés usually called A&R men to do their dirty work. You can become a favorite with them if your fame or image might reflect limelight on their career. They tend to have no personalities to speak of, which is their strength. Strangely they’re never really thinking about the good of their parent company as much as old number one. Avoid them. If you’re an artist, they’ll make you sick or suicidal. The only good thing the conglomerate can do for you – and they’ve done it recently for me – is make you really, really ubiquitous. They do that well. But, when the company is your banker, then you are basically gonna be the Beverly Hill Billies. So it’s best not to take their money. Especially when you’re young. These are very tough people, and they can hurt you.
So who are the good guys?! They asked me when they read this thing at BBC 6 Music. Well there are lots of them. If fact, today there are more than ever and they are just about all indies, but first I want to mention Peter Gabriel and WOMAD for everything they’ve done for what seems like forever to help the greatest musicians in the world, the so called world musicians to gain a foothold and make a living in the modern screwed up cash and carry world. Traditional music was never a for profit enterprise, all the best forms were developed as a kind of you’re job in the community. It was pretty good, it was “Yeah, I’m a musician, I’m gonna skip like doing the dishes or taking the trash out.” It’s not surprising that all the greatest singers and players come from parts of the world where everybody is broke and the old ways are getting paved over. So it’s crucial for everyone that these treasures not be lost. There are other people of means and intelligence who help others in this way like Philip Glass through Tibet House, David Burn with Luaka Bop, Damon Albarn through Honest John Records. Shout out to Hypnotic Brass Ensemble. Almost all the best music is coming out on indies today like XL Mattador, Burger, Anti, Apitaph, Mute, Rough Trade, 4 A D, Sub Pop, etc. etc.
But now YouTube is trying to put the squeeze on these people because it’s just easier for a power nerd to negotiate with a couple big labels who own the kind of music that people listen to when they’re really not that into music, which of course is most people. So they’ve got the numbers. But the indies kind of have the guns. I’ve noticed that indies are showing strength at some of the established streaming services like Spotify and Rhapsody – people are choosing that music. And it’s also great that some people are starting their own outlets, like Pledge Music, Band Camp or Drip. As the commercial trade swings more into general show biz the indies will be the only place to go for new talent, outside the Mickey Mouse Club, so I think they were right to band together and sign the Fair Digital Deals Declaration.
There are just so many ways to screw an artist that it’s unbelievable. In the old vinyl days they would deduct 10% “breakage fees” for records supposedly broken in shipping, whether that happened or not, and now they have unattributed digital revenue, whatever the **** that means. It means money for some guy’s triple bypass. I actually think that what Thom Yorke has done with Bit Torrent is very good. I was gonna say here: “Sure the guy is a pirate at Bit Torrent” but I was warned legally, so I’ll say: “Sure the guy a Bit Torrent is a pirate’s friend” But all pirates want to go legit, just like I wanted to be respectable. It’s normal. After a while people feel like you’re a crook, it’s too hard to do business. So it’s good in this case that Thom Yorke is encouraging a positive change. The music is good. It’s being offered at a low price direct to people who care.
I want to try to define what I am talking about when I say free. For me in the arts or in the media, there are two kinds of free. One kind of free is when the process is something that people just feel for you. You feel a sense of possibility. You feel a lack of constraint. This leads to powerful, energetic, sometimes kind of loony situations.
Vice Media is an interesting case of this because they started as a free handout, using public funds, and they had open, free-wheeling minds. Originally a free handout was called Voice and these kids were like “Just get rid of the old! I don’t wanna be Vice, yeah!” Okay. By taking an immersive approach with no particular preconceptions to their reporting, they’ve become a huge success, also through corporate advertising, at attracting big, big money investment hundreds of millions of dollars now pumped into Fox Media and a couple of others bigger than that in the US. And they get it because they attract lots of little boy eyeballs. So they brought us Dennis Rodman in North Korea. And it’s kind of a travesty, but it’s kind of spunky. It’s interesting that capital investment, for all its posturing, never really leads, it always follows. They follow the action. So if it’s money you’re after, be the yourself in a consistent way and you might get it. You’ll at least end up getting what you are worth and feel better. Just follow your nose.
The second kind of freedom to me that is important in the media is the idea of giving freely. When you feel or sense that someone that someone is giving you something not out of profit, but out of self-respect, Christian charity, whatever it is. That has a very powerful energy. The Guardian, in my understanding, was founded by an endowment by a successful man with a social conscience who wanted to help create a voice for what I would call the little guy. So they have a kind of moral mission or imperative. This has given them the latitude to try to be interesting, thoughtful, helpful. And they bring Edward Snowden to the world stage. Something that is not pleasant for a lot of people to hear about, but we need to know.
These two approaches couldn’t be more different. To justify their new mega bucks Vice will have to expand and expand in capital terms. Presumably they’ll have to titillate a dumb, but energetic audience. Of course all capitalist expansions are subject to the big bang – balloon, bust, poof, and you’re gone. As for the Guardian I would imagine that the task involves gaining the trust and support of a more discerning, less definable reader, without spending the principal. There is usually an antipathy between cultural poles, but these two actually have a lot in common in terms of the energy and nuisance to power that they are willing to generate. I wish red and blue could come together somehow.
Sometimes I’d rather read than listen to music. One of my favourite odd books is Bootleg: The Secret History of the Other Recording Industry by Clinton Heylin. I bought the book in the 90’s because a couple of my bootlegs were mentioned. I loved my bootlegs. They did a lot for me. I never really thought about the dough much. I liked the titles, like Suck on This, Stow Away DOA or Metalic KO. The packaging was always way more creative and edgy than most of my official stuff. So I just liked being seen and heard, like anybody else. These bootleggers were creative. Here are two quotes from the dust jacket by veteran industry stalwarts on the subject of bootlegs in 1994.
“Bootleg is the thoroughly researched and highly entertaining tale of those colorful brigands, hapless amateurs, and true believers who have done wonders for my record collection. Rock and roll doesn’t get more underground than this.” – that was David Fricke, the music editor of Rolling Stone.
“I think that bootlegs keep the flame of the music alive by keeping it out of not only the industry’s conception of the artist, but also the artist’s conception of the artist.” – that was Lenny Kaye from the Patti Smith group, musician, critic and my friend. Wow!! Sounds heroic and vital!
I wonder what these guys feel about all of this now, because things have changed, haven’t they? We are now talking about Megaupload, Kim Dot Com, big money, political power, and varying definitions of theft that are legally way over my head. But I know a con man when I see one. I want to include a rant from an early bootlegger in this discussion because it’s so passionate and I just think it’s funny.
This is Lou Cohan “If anybody thinks that if I have purchased every single Rolling Stones album in existence, and I have bought all the Rolling Stones albums that have been released in England, France, Japan, Italy, and Brazil that if I have an extra $100 in my pocket instead of buying a Rolling Stones bootleg I am going to buy a John Denver album or a Sinead O’Conner album, they are retarded.”
So the guy is trying to say don’t try to force me. And don’t steal my choice. And the people who don’t want the free U2 download are trying to say, don’t try to force me. And they’ve got a point. Part of the process when you buy something from an artist. It’s a kind of anointing, you are giving people love. It’s your choice to give or withhold. You are giving a lot of yourself, besides the money. But in this particular case, without the convention, maybe some people felt like they were robbed of that chance and they have a point. It’s not the only point. These are not bad guys. But now, everybody’s a bootlegger, but not as cute, and there are people out there just stealing the stuff and saying don’t try to force me to pay. And that act of thieving will become a habit and that’s bad for everything. So we are exchanging the corporate rip off for the public one. Aided by power nerds. Kind of computer Putins. They just wanna get rich and powerful. And now the biggest bands are charging insane ticket prices or giving away music before it can flop, in an effort to stay huge. And there’s something in this huge thing that kind of sucks.
Which brings us to Punk. The most punk thing I ever saw in my life was Malcolm McLaren’s cardboard box full of dirty old winkle pinkers. It was the first thing I saw walking in the door of Let It Rock in 1972 which was his shop at Worlds End on the Kings Road. It was a huge ugly cardboard bin full of mismatched unpolished dried out winkle pickers without laces at some crazy price like maybe five pounds each. Another 200 yards up the street was Granny Takes a Trip, where they sold proper Rockstar clothes like scarves, velvet jackets, and snake skin platform boy boots. Malcolm’s obviously worthless box of shit was like a fire bomb against the status quo because it was saying that these violent shoes have the right idea and they are worth more than your fashion, which serves a false value. This is right out of the French enlightenment.
So is the thieving that big a deal? Ethically, yes, and it destroys people because it’s a bad road you take. But I don’t think that’s the biggest problem for the music biz. I think people are just a little bit bored, and more than a little bit broke. No money. Especially simple working people who have been totally left out, screwed and abandoned. If I had to depend on what I actually get from sales I’d be tending bars between sets. I mean honestly it’s become a patronage system. There’s a lot of corps involved and I don’t fault any of them but it’s not as much fun as playing at the Music Machine in Camden Town in 1977. There is a general atmosphere of resentment, pressure, kind of strange perpetual war, dripping on all the time. And I think that prosecuting some college kid because she shared a file is a lot like sending somebody to Australia 200 years ago for poaching his lordship’s rabbit. That’s how it must seem to poor people who just want to watch a crappy movie for free after they’ve been working themselves to death all day at Tesco or whatever, you know.
If I wanna make music, at this point in my life I’d rather do what I want, and do it for free, which I do, or cheap, if I can afford to. I can. And fund through alternative means, like a film budget, or a fashion website, both of which I’ve done. Those seem to be turning out better for me than the official rock n roll company albums I struggle through. Sorry. If I wanna make money, well how about selling car insurance? At least I’m honest. It’s an ad and that’s all it is. Every free media platform I’ve ever known has been a front for advertising or propaganda or both. And it always colors the content. In other words, you hear crap on the commercial radio. The licensing of music by films, corps, and TV has become a flood, because these people know they’re not a hell of a lot of fun so they throw in some music that is. I’m all for that, because that’s the way the door opened for me. I got heard on tv before radio would take a chance. But then I was ok. Good. And others too. I notice there are a lot of people, younger and younger, getting their exposure that way. But it’s a personal choice. I think it’s an aesthetic one, not an ethical one.
Now with the Internet people can choose to hear stuff and investigate it in their own way. If they want to see me jump around the Manchester Apollo with a horse tail instead of trying to be a proper Rockstar, they can look. Good. Personally I don’t worry too much about how much I get paid for any given thing, because I never expected much in the first place and the whole industry has become bloated in its expectations. Look, Howling Wolf would work for a sandwich. This whole thing started in Honky Tonk bars. It’s more important to do something important or just make people feel something and then just trust in God. If you’re an entertainer your God is the public. They’ll take care of you somehow. I want them to hear my music any old which way. Period. There is an unseen hand that turns the pages of existence in ways no one can predict. But while you’re waiting for God to show up and try to find a good entertainment lawyer.
It’s good to remember that this is a dream job, whether you’re performing or working in broadcasting, or writing or the biz. So dream. Dream. Be generous, don’t be stingy. Please. I can’t help but note that it always seems to be the pursuit of the money that coincides with the great art, but not its arrival. It’s just kind of a death agent. It kills everything that fails to reflect its own image, so your home turns into money, your friends turn into money, and your music turns into money. No fun, binary code – zero one, zero one – no risk, no nothing. What you gotta do you gotta do, life’s a hurly-burly, so I would say try hard to diversify your skills and interests. Stay away from drugs and talent judges. Get organized. Big or little, that helps a lot.
I’d like you to do better than I did. Keep your dreams out of the stinky business, or you’ll go crazy, and the money won’t help you. Be careful to maintain a spiritual EXIT. Don’t live by this game because it’s not worth dying for. Hang onto your hopes. You know what they are. They’re private. Because that’s who you really are and if you can hang around long enough you should get paid. I hope it makes you happy. It’s the ending that counts, and the best things in life really are free.”
Escrevi a capa da revista Sãopaulo, da Folha, neste domingo – uma matéria sobre grupos de moradores de São Paulo que utilizam a internet para fazer política com as próprias mãos.

Cidadania digital
Mobilizações conectadas à internet redesenham a política da cidade
Depois de facilitar a vida do paulistano –que pode chamar um táxi, escapar do trânsito ou encontrar rapidinho um restaurante próximo–, a migração da internet para o celular passou a colaborar com a transformação do espaço público da cidade. Com acesso de qualquer lugar, as pessoas estão se mobilizando mais rapidamente e colaborando com mais frequência.
“Estamos nas ruas e vendo a internet, e não vendo as ruas pela internet. Somos o oposto dos ativistas de sofá”, afirma a arquiteta e produtora Laura Sobral, 29.
Com a ajuda da rede para divulgar atividades e criar um fórum de discussão, Laura fundou, em janeiro deste ano, um movimento para ocupar o árido largo da Batata, em Pinheiros, região oeste. Todas as sextas-feiras à noite, membros e simpatizantes do grupo A Batata Precisa de Você, que já beira 4.000 integrantes no Facebook, se reúnem no largo para conversar, ouvir música ao vivo e discutir por quais melhorias a área pode passar.
O movimento Minha Sampa também quer uma cidade mais aprazível. Criado em fevereiro deste ano, o grupo desenvolve ferramentas on-line para incentivar mobilizações e pressionar autoridades diretamente. Um desses instrumentos é o site de reivindicações Panela de Pressão (paneladepressao.nossascidades.org), que reúne propostas de usuários para transformar a cidade, entre elas uma que sugere que a avenida Paulista seja fechada aos domingos, como acontece com o Minhocão. Se concordar com a ideia, o usuário pode enviar na hora um e-mail à CET e ao prefeito Fernando Haddad para engrossar o coro.
Ao navegar no “Panela”, dá para ver as iniciativas consideradas vitoriosas pela plataforma, como o impedimento do vagão exclusivo para mulheres nos trens (vetado pelo governador Alckmin) e a proteção dos teatros pequenos ameaçados pela especulação imobiliária (em andamento na prefeitura).
“Damos suporte às mobilizações iniciadas por cidadãos, da concepção ao acompanhamento de resultados”, afirma Anna Livia Arida, 30, diretora do Minha Sampa. O projeto é irmão mais novo do Meu Rio, movimento criado há dois anos que reúne 130 mil cariocas, a maioria jovens.
Na mesma onda, o Hey! Sampa promove debates, passeios e atividades culturais para “valorizar o patrimônio da cidade e difundir a história dos bairros para seus moradores”. “As ferramentas digitais facilitam tanto para chamar a atenção da comunidade como para cobrar o poder público”, conta Paula Dias, 29, cofundadora da plataforma.
Outra iniciativa é o Wikipraça, movimento que pretende conclamar on-line pessoas para utilizar espaços públicos. O primeiro alvo é o largo do Arouche, na região central, onde um grupo encarou o calorão do sábado retrasado (11/10) para construir bancos de madeira. “Mais do que para se comunicar, a internet é um espaço para se organizar”, conta Bernardo Gutierrez, do Wikipraça.
Veterano se comparado a alguns exemplos citados nesta reportagem, o site SP Honesta virou hit ao mapear restaurantes bons e baratos. A página, criada no auge da discussão sobre os preços abusivos na cidade, no ano passado, é produzida com informações de usuários e deve virar aplicativo para celular.
Na rua, na praça ou no restaurante, o discurso é de união por uma cidade “colaborativa”. “A internet torna mais fácil a reunião de pessoas com interesses em comum. Sozinho é muito difícil fazer política. Mas, quando você tem pessoas ao seu redor, concretizar essas iniciativas fica muito mais fácil e divertido”, afirma Tatiana de Mello Dias, 28, uma das criadoras do SP Honesta.
Para a economista Ana Carla Fonseca, as relações entre público, privado e sociedade civil estão cada vez mais porosas. “É um movimento natural de pessoas, empresas e instituições que unem dois traços: trabalham na fronteira da vanguarda, ou seja, não esperam, e entendem que é preciso ser protagonista ou coprotagonista da mudança que defendem, em vez de passar a lista para os outros”, diz ela, que dirige a Garimpo de Ideias, empresa que gere conteúdos, projetos e iniciativas ligados à economia criativa.
Telefone sem fio
Três em cada quatro celulares vendidos no Brasil são smartphones. Dos quase 18 milhões de aparelhos que deixaram as lojas entre abril e junho de 2014, 4,6 milhões eram celulares simples e 13,3 milhões tinham acesso à internet. Não há dados da cidade de São Paulo. “Embora o brasileiro ainda fale mais ao celular do que utilize a internet no aparelho, esse hábito vem mudando”, diz João Paulo Bruder, gerente de telecom da consultoria IDC Brasil.
Mas cadê a internet sem fio e de graça? Embora ainda tímido se comparado a outras capitais do mundo, o projeto Praças Wi-Fi, da Prefeitura de São Paulo, quer estimular a ocupação de 120 praças públicas da cidade a partir da utilização da internet gratuita (veja lista em wifilivre.sp.gov.br). Atualmente, 65 estão em operação.
Outro projeto, da MobiLab (Laboratório de Mobilidade da SPTrans), fundado em parceria com a USP, quer transformar os 15 mil ônibus da frota da cidade em pontos de acesso à rede sem fio. Por enquanto, apenas 20 deles estão em circulação.
Em setembro de 2013, São Paulo se tornou a primeira cidade na América Latina a abrir integralmente e em tempo real os dados do GPS dos ônibus para desenvolvedores.
“Já são mais de 60 aplicativos utilizando essa informação para melhorar o uso do transporte público”, afirma Ciro Biderman, chefe de gabinete da SPTrans.
Biderman diz que pretende implantar o wi-fi também nos 17 mil pontos de ônibus da capital paulista, mas o projeto ainda não saiu do papel. “Seria ainda mais impactante. Além de serviço mais estável do que nos coletivos em movimento, funcionaria durante 24 horas.”

Minha incansável busca pelo Bloody Mary perfeito via Instagram começou de brincadeira e foi parar na matéria de capa do caderno Comida da Folha de São Paulo de hoje. Segue o texto:
Na busca do drinque perfeito, o que importa é a própria busca
Desceu tão bem que eu tive que registrar. Era véspera do Natal de 2012 em Nova York eu fui com minha mulher comer no bistrô Artisanal, na Park Avenue.
Vinha de um ano embalado em bloody marys feitos em casa, na minha primeira e quase irônica tentativa de voltar a cozinhar —fazendo um drinque.
Mas quando tomei o bloody mary daquele lugar, puxei o celular discretamente para lembrar-me da cara dele. Ao chegar de volta ao hotel, marquei a foto com uma hashtag de brincadeira, que deu origem a uma caça: #embuscadobloodymaryperfeito.
Sabia da contradição. Afinal, ao contrário da maioria dos drinques, o bloody mary não tem receita específica —e até sua origem histórica é uma das mais imprecisas entre as bebidas modernas.
Ele vai ao gosto do barman, que por vezes prefere mais encorpado, outras mais suave, umas vezes mais discreto e outras mais marcante. Não há bloody mary perfeito e sim aquele que cai do jeito certo na hora certa (como os do Sub Astor, do Epice, do Bravin, do Jacarandá, do Mimo, do Ecully, do Ici ou do Spot).
Já desdenhei da mistura como troçava meu mestre da cozinha, o saudoso Fred Leal, que sempre ria ao ver o drinque e pedia para “jogar logo uma carne moída pra agilizar esse bolonhesa!”. Mas o bloody mary bateu naquela hora mágica —a da ressaca.
A mistura embrenha-se nas entranhas e na cabeça com a mesma intensidade, acalentando enquanto arde, despertando e desopilando —e, de repente, o estalo que faz tudo aquilo fazer sentido.
Sigo em busca do cálice inalcançável. Atrás do equilíbrio exato dos sabores do tomate, do álcool e do limão, da espessura densa do suco de tomate feito em casa, do ponto perfeito entre a ardência da pimenta e o salgado do molho inglês, sal de aipo na borda do copo, sem muita frescura na decoração (basta só uma rodela de limão…) e, de preferência, um canudo preto. Sem bacon, sem guarda-solzinho, sem aquela triste cenoura ornamental.
O que importa é a busca, afinal.
Alexandre Matias, 39, é jornalista e busca o bloody mary perfeito em sua conta no Instagram @trabalhosujo

Na minha segunda coluna na Caros Amigos eu falei do projeto Goma Laca, cuja edição de 2014 teve Letieres Leite comandando disco e show com Lucas Santtana, Karina Buhr, Juçara Marçal e outros recuperando pérolas esquecidas da música brasileira registradas em discos de 78 rotações. Fiz uns vídeos desse show:
MP3 em 78 rotações
Projeto Goma Laca resgata canções da primeira metade do século passado nas vozes de novos nomes da música brasileira

Quem chegasse no Centro Cultural São Paulo (CCSP), próximo à Estação Vergueiro do metrô paulistano, no início da noite do dia 23 de agosto poderia achar que a nova música brasileira estivesse celebrando João Donato. Numa banda comandada pelo maestro Letieres Leite, o mago baiano dono da Orkestra Rumpilezz, Lucas Santtana, Duani e Karina Buhr repetiam os versos de “Cala a Boca, Menino” que Donato eternizou em seu clássico Quem é Quem, de 1973.
Mas “Cala a Boca, Menino”, embora tenha sido popularizada por João, não é nem de Dorival Caymmi, cujo crédito estampa o rótulo do velho vinil. Na verdade suas origens remontam à capoeira do início do século passado e o primeiro registro musical desta canção não apareceu sequer em vinil. A faixa foi registrada pelo mítico Almirante em 1938, na mesma época em que o sambista levou pela primeira vez ao rádio um instrumento “rudimentar e bárbaro” (palavras da época) chamado berimbau.
A faixa foi regravada na terceira edição do projeto Goma-Laca, núcleo de pesquisas sobre a música brasileira da primeira metade do século 20 desenvolvido pelo jornalista Ronaldo Evangelista e pela pesquisadora Biancamaria Binazzi. Desde 2009 a dupla fuça velhas bolachas que rodam a 78 RPM e desenterra pérolas para serem regravadas por novos nomes da música nacional.
A pesquisa é feita principalmente na discoteca Oneyda Alvarenga, do próprio CCSP, que conta com um acervo de mais de 44 mil discos brasileiros e uma das maiores coleções de discos em 78 rotações do Brasil. “Chamamos a discoteca de ‘Casa do Goma-Laca’, não só pelo acervo mais por seu conceito”, explica Biancamaria. “Ela foi criada em 1935 pelo Mário de Andrade, quando ele era diretor do departamento de cultura de São Paulo e a ideia dele era criar um espaço para músicos, que permitisse acesso à música ‘estranha aos ouvidos’. Ele queria promover o acesso à música regional do Brasil e à musica de concerto contemporanea, ir muito além do que tocava no rádio, o que de certa forma é o que fazemos com o Goma Laca. Como dizia o próprio Mário: ‘buscar fazer coisa nova, desencavando passados’”.
A edição de 2014 além da gravação e único show também se materializou em disco (as outras edições só foram disponibilizadas em MP3) e focou especificamente no que eles rotulam de “afrobrasilidades”. O disco reuniu Karina Buhr, Lucas Santtana, Russo Passapusso (que não pode comparecer ao show e foi substituído pelo carismático Duani) e Juçara Marçal para que eles pudessem reviver músicas com títulos como “Minervina”, “Babaô Miloquê”, “Guriatã” e “Passarinho Bateu Aza” (com ‘z’ mesmo), tudo sob a batuta – a flauta, no caso – suingada do maestro compenetrado e possuído que é Letieres Leite, que releu as velhas e ingênuas canções com um groove denso e ancestral, mas sem perder o vínculo com a tradição.
O disco pode ser comprado pelo site www.goma-laca.com, que ainda conta com as faixas das edições anteriores em MP3 para quem quiser apenas ouvi-las – além das versões originais imortalizadas em discos prensados numa mistura de cera de carnaúba com pó de goma laca. O núcleo de pesquisas segue à toda: “A ideia é continuar fazendo shows, rodas de escuta, programas de rádio, discos e o que pintar relacionado a esse universo setenteônico”, conclui Biancamaria.