
Na última edição da Galileu em que fui diretor de redação, entrevistei o filósofo italiano Domenico de Masi – e, agora, no fim do ano, lembrei que não a havia republicado aqui. Segue então a entrevista completa, além da edição enxuta que saiu na revista.
A vez do Brasil
Em seu novo livro, Domenico de Masi fala sobre o papel de nosso país
Estamos no rumo certo – pelo menos é o que diz o filósofo italiano Domenico de Masi em seu novo livro, O Futuro Chegou – Modelos de Vida para uma Sociedade Desorientada (Casa da Palavra, R$ 69,90). Nele, ao autor do já clássico O Ócio Criativo debruça-se sobre a história da humanidade para analisar seus principais modelos sociais e como a forma que os cidadãos são tratados foi crucial para o sucesso de sistemas tão diferentes quanto a sociedade grega e o estado comunista, por exemplo.
Mas a empolgação de De Masi é com o Brasil, que ele acredita finalmente ter superado o estigma de “pais do futuro”, cogitado originalmente de forma irônica e depois assumido pela ditadura militar como lema ilusório. Ele crê – e dedica o último capítulo do livro à tal crença – que o Brasil tem o melhor modelo social para este início de século.
Com a chegada da tecnologia digital e do computador, há uma sensação de que o futuro ficou obsoleto. O que você acha disso?
Não concordo. O advento da tecnologia da informação coincide com o da sociedade pós-industrial, que é baseada precisamente em uma projeção de futuro, que consiste de um padrão de vida que, no momento, não existe. Esta é a especificidade da sociedade pós-industrial. Enquanto as anteriores – a grega, a romana, a cristã, a liberal, a comunista, etc. – nasceram a partir modelos pensados anteriormente por profetas, filósofos, economistas ou políticos, a sociedade atual foi criada a partir da superposição de inovações rápidas e espontâneas em todos os setores. Isto resultou em uma desorientação geral, pois já não sabemos o que é bom e o que é mau, o que é direita e o que é esquerda, o que foi e o que é o mercado, que é o homem e o que é a mulher, o que está vivo e o que está morto. Nossa sociedade não apenas espera o futuro, o projeta. Enquanto respondo esta entrevista milhões de criativos, no mundo todo, estão inventando coisas, criando leis, espalhando ideias.
Há uma frase do escritor de ficção científica William Gibson que diz que “o futuro já chegou, só não foi distribuído”.
Concordo plenamente. O futuro depende de inteligência, criatividade, recursos econômicos, honestidade, solidariedade. Separar estes fatores entre si é caprichoso e injusto.
Mas a ficção científica não parece conseguir prever um futuro devido ao excesso de transformações que estão acontecendo agora. Você acha que isso restringe nosso conceito de futuro?
Sim. As transformações ocorridas nas últimas décadas, quando ocorreu a passagem da era industrial para a pós-industrial da sociedade, não dependem apenas de progressos científicos e de tecnologia, mas também da globalização, da disseminação dos meios de comunicação, de educação em massa e de mudanças culturais. Novos progressos futuros afetarão não só a tecnologia e a estrutura econômica, mas também as idéias, o comportamento, a cultura material e social.
O Brasil por muito tempo foi perseguido com a pecha de “país do futuro”. Você acha que isso pode ter causado problemas para a autoestima do país?
Sim. Por um lado isso deu esperança ao povo, mas por outro serviu para que fossem adiadas reformas que só agora foram realizadas. Isso serviu como álibi ilusório para o governo militar alcançar um maior consenso popular. Há uma enorme diferença entre a frase “Brasil, o país do futuro” dita por Jorge Amado com ironia em 1930, a dita com entusiasmo por Stefan Zweig em 1941 e a dita com astúcia por Emilio Garrastazu Médici, no final dos anos sessenta.
Mas você acha que o Brasil é o país do futuro?
Não, acho que o Brasil é o país do presente. Por 120 anos, vocês criaram o melhor modo de vida válido para a sociedade pós-industrial. Não é o melhor de todos os modelos possíveis, mas o melhor modelo já testado. Ainda não é um modelo para o futuro, mas é um modelo válido para já.
O que o Brasil pode ensinar ao resto do mundo?
Infelizmente, o contágio do consumismo nos Estados Unidos já poluiu muitos aspectos da vida urbana no Brasil. A isso devemos acrescer a tentação de ceder às exigências incultas do mercado externo que ceifam aspectos da brasilidade: o excesso de cor e som, a sensualidade desenfreada, o exotismo, a dissipação provinciana do patrimônio natural, que pode ser associada à falta de autoestima, a falta de compromisso público, a astúcia como substituta da inteligência, a falta de confiabilidade.
No entanto, apesar da colonização feita pela Europa e pelos Estados Unidos, o Brasil continua sendo original e os melhores aspectos da brasilidade ainda prevalecem sobre aqueles que são importados.
Escreve Gilberto Freyre: “A mentalidade brasileira não é ofendida pelo jogo de contrastes, comparações, paradoxos, contradições, misturas e sincretismo, a conjugação dos opostos, o Brasil vive um casamento que é irreconciliável à primeira vista”. Essa mistura de muitos fatores diferentes, que em outros contextos seria destrutiva, em seu caso, é benéfica. O conceito de “brasilidade” vem da reunião e remete imediatamente ao relacionamento interpessoal. de relações abrangem indivíduos. E viver significa “ter relações sociais.”
A harmonia do corpo, a sensualidade e a saúde, além de habilidades psicológicas, como a socialização, a simpatia, o senso de hospitalidade, a simpatia, a generosidade, o bom humor, a alegria, o otimismo, a espontaneidade, a criatividade e a fé, como a vida, estão relacionados aos conceitos de tolerância e curiosidade. A paciência, a capacidade de mover-se entre diferentes códigos de conduta e de reinterpretar regras e normas, são atitudes comuns no Brasil, bem como a tendência a considerar fluidas as fronteiras entre o sagrado e o profano, o formal e o informal, o público e o privado, a emoção e a regra.
A sociedade brasileira é unificado pela “língua geral”: o sincretismo cultural, de grandes festivais civis e religiosos incorporados no modo de vida das pessoas, a música, o papel das mulheres na vida social, a sensualidade sem culpa – “Não existe pecado do lado de baixo do Equador “, canta Chico Buarque. Um nível mais intelectual é unificado pela notável capacidade de reciclar atividades culturais através de uma assimilação, adaptação e releitura permanentes – a antropofagia.
O Brasil é aberto ao novo e à mudança. E mesmo nos piores momentos enfrenta a realidade com sentimento positivo. Em comparação com o passado, os brasileiros têm dois novos elementos: sua consciência dos próprios desafios internos – a corrupção, a violência, a desigualdade, os déficits educacionais – está mais difundida e há a percepção de ser um país de ponta, diferente e positivo, mesmo fora sua própria maneira de ser.
Hoje, o Brasil vive uma situação única em relação a seus passado e futuro. Depois de copiar, a Europa por 450 anos e os Estados Unidos por 50 anos, vê esses dois modelos míticos em crise profunda – e pela primeira vez deve pensar, por conta propria, sobre seu futuro. É uma situação que pode parecer perturbadora, mas é o modelo de vida necessário para todas as sociedades pós-industriais.
Quando você acha que as pessoas irão abandonar as regras do trabalho criadas no século 18, como horas de trabalho, dias úteis e horas-extra?
Não sei. Essas regras, que hoje prejudiciais, estão enraizados em nosso inconsciente individual e coletivo. Talvez elas caiam quando a indústria for completamente substituída pela geração digital.
Até quando vamos continuar misturando progresso e prosperidade com crescimento?
Embora Adam Smith tenha descartado a possibilidade de uma ligação direta e automática entre riqueza e felicidade, o liberalismo e o neo-liberalismo sempre focaram na melhoria da qualidade de vida ao considerar ilimitada a disponibilidade de recursos naturais. Da minha parte, concordo com o Kennet Building, que diz que “aquele que acredita no possível crescimento infinito num mundo finito ou é louco ou economista”.
No ano passado, o Instituto Gallup compilou um ranking de 148 países em que pessoas com a idade superior a 15 anos que foram entrevistados a respeito de seu dia anterior – se sentiram satisfeitos, respeitados, revigorados, se sorriram ou aprenderam algo interessante. Os dez países no topo deste ranking são Panamá, Paraguai, El Salvador, Venezuela, Trinidad e Tobago, Tailândia, Guatemala, Filipinas, Equador e Costa Rica. Como você pode ver, oito são da América Latina e todos têm PIB baixo.
O resultado de dois séculos de liberalismo é que um sexto da população mundial foi capaz de crescer às custas do resto do planeta, das gerações futuras, dos consumidores, dos trabalhadores e do terceiro mundo. Hoje, no entanto, todo o planeta está se transformando rapidamente em um grande sistema interligado e o rápido crescimento dos países emergentes – como o Brasil – obriga os países ricos a inverter a sua direção para onde marcham.
Para recuperar o que foi perdido, nos lembra de Serge Latouche, precisamos de “tempo para exercer a cidadania, prazer para a produção livre, o sentido de ter tempo para si, para o jogo, a contemplação, a meditação, a conversa artística e artesanal – ou, simplesmente, a alegria de viver”. Para além destas dimensões Cornelius Castoriadis nos lembra o amor à verdade, o senso de justiça, a responsabilidade, o respeito pela democracia, o elogio à diferença, o dever de solidariedade, o uso da inteligência. Em poucas palavras, a magia da vida.
Na minha quarta coluna na revista Caros Amigos falei sobre o show que Emicida fez há dois meses para lançar a edição em vinil de seu disco mais recente – e como ele está lentamente trilhando seu caminho rumo ao topo. No final ainda reuni uma playlist com os vídeos que fiz no mesmo show:
Emicida em seu lugar
Mais um degrau na escalada do rapper rumo ao topo do pop brasileiro
É nítida a evolução de Emicida como um dos principais nomes da música brasileira hoje. A cada novo passo, Leandro Roque de Oliveira expande seus horizontes e contempla como panorama toda a história cultural brasileira da perspectiva do hip hop paulistano. Já ultrapassou fronteiras municipais e internacionais usando a combinação entre internet, onipresença e disposição para trabalhar, sempre mostrando que pode ir além.
Mais um degrau foi superado no lançamento da versão em vinil de seu primeiro álbum propriamente dito, O Glorioso Retorno De Quem Nunca Esteve Aqui. Mais uma vez o disco seria apresentado a seu séquito fiel no Sesc Pinheiros, em São Paulo, onde foi lançado um ano antes, em setembro de 2013. Naqueles shows era uma ocasião de festa, o disco coroava uma carreira iniciada nas rinhas de improviso de rimas que cresceu distribuindo MP3 gratuitamente e vendendo CDs e mixtapes a cinco reais no metrô, de mão em mão.
O show de lançamento d’O Glorioso Retorno tinha o adjetivo do título do disco espalhado pelo palco e contou com participações ao vivo de quase todos os nomes que apareceram no álbum. Só esse elenco já dava uma idéia da amplitude do futuro do rapper: Pitty vinha do rock, Juçara Marçal representava a música africana, Tulipa Ruiz representava a nova MPB e o Quinteto em Branco e Preto vinha celebrar o samba, além da própria mãe de Emicida, dona Jacira, que cantou o triste documentário ao final de “Crisântemo”.
Um ano e um mês depois, no mesmo Teatro Paulo Autran da mesma unidade do Sesc, Emicida volta para visitar o novo disco, mas não é o mesmo show. Ao contrário da apresentação de lançamento quase não há participações especiais (limitadas à presença do velho sidekick Rael da Rima, agora em carreira solo, e do rapper Lakers, do grupo Código Fatal). O show dessa vez não apenas gira em torno da banda de Emicida como ele a coloca como protagonista da noite. Assim, o rapper assume ser alvo das brincadeiras do percussionista Carlos Café em “Zoião”, tira onda com o violonista e guitarrista Doni Jr., defende a guitarrista Anna Tréa quando ouve um “fiu fiu” vindo do público e sempre mantém a mesma rotina de arengas com seu velho compadre DJ Nyack.
As músicas do disco do ano passado receberam nova roupagem e a ausência das participações especiais não tiraram sua força: Anna Tréa representa o papel de Pitty na pesada “Hoje Cedo”, solando como uma guitarrista de Prince; Doni Jr. faz as vezes do Quinteto em Branco e Preto temperando algumas músicas com cavaquinho ou violão acústico. Todos têm presença de palco o suficiente para não serem apenas coadjuvantes sonoros do rapper, fazendo coreografias, trocando de instrumentos, segurando vocais de apoio, sempre deixando Emicida bem no holofote. “Eu tô igual o Michael Jackson”, disse ao ver sua própria sombra projetada no palco por um facho de luz, antes de improvisar um moonwalk fuleiro, tentando deslizar para trás como o Rei do Pop.
O próprio Emicida não ficou apenas no vocal. Por vezes trocou de instrumento de apoio. Começou o show puxando um improviso tocando apenas um agogô enquanto rimava. Saiu de trás do público, vindo da platéia, em direção ao palco. Depois trocou de instrumento de percussão: por vezes puxava uma caixinha de fósforo, já íntimo o suficiente para chamar atenção do público para um “solo” no pequeno instrumento, por outras pilotou pela primeira vez no palco uma MPC, a bateria eletrônica típica da música deste século. Seja no agogô, na caixinha de fósforo ou na MPC havia uma mensagem cifrada nesta troca de instrumentos: Emicida está aos poucos deixando de ser só um rapper. Não duvide se num próximo show ele possa puxar um cavaquinho, ir para o contrabaixo acústico ou para a bateria. Ele ainda está ensaiando seus primeiros passos como músico – ao vivo, na frente do público.
Uma outra parte do show foi dedicada aos primeiros sucessos de Emicida, muitos que não eram tocados ao vivo há anos, como “E.M.I.C.I.D.A.”, “Rinha” e “Cacariacô”, além da primeira vez que “Papel, Caneta e Coração” foi apresentada em um palco. E não importavam se eram as novas ou as velhas, os quase mil espectadores no teatro sabiam cantar todas as letras de Leandro – por mais extensas e cheias de referências e metáforas que fossem.
Mas além de falar de seu presente e passado, Emicida olhou para os lados ciente de que seu papel depende do contexto – e não apenas de si mesmo. Além de cantar a música que dividiu com o funkeiro paulista MC Guimê em seu último disco (“País do Futebol”), Emicida ainda saudou os papas do R&B paulistano (Sampa Crew, com “Eterno Amor”), a dupla mais conhecida do funk carioca (Claudinho e Buchecha, com o clássico “Nosso Sonho”), seus ancestrais no hip hop brasileiro (no já tradicional medley com músicas de Xis, De Menos Crime, Doctor MC’s, Sabotage e Racionais MCs) e os contemporâneos do Código Fatal (com “Minha Vida”). Mais do que isso, reverenciou o passado da música brasileira cantando “Marinheiro Só”, “Trem das Onze”, imitando Roberto Carlos em uma canção romântica e celebrando Jair Rodrigues em outra. Ele não separa música pop de música popular, não há diferença entre o toca no rádio, o que vem da TV, o que se vende em lojas de discos ou o que chega pela internet. Música brasileira é uma coisa só – e Emicida parece saber.
Ao final da noite, logo que as luzes se acenderam, João Donato numa gravação de 1975 cantava “Emoriô”.

“Não tenho vocação para herói”
Tire 20 minutos para assistir a esse discurso sensacional do grande José Mujica, em seus últimos dias como presidente do Uruguai, ao receber uma condecoração no Equador no início deste mês. Uma fala sobre política no sentido bruto, sobre a intensidade apaixonante do viver, como deixamos este sentimento ficar em terceiro plano e como só depende de nós para deixarmos de sermos vistos como mercadorias. Um texto apaixonante, inspirador e otimista, para que a depressão de fim de ano (e seus intermináveis jingle bells) não se abata sobre nós:
Colei a transcrição do La vida es… Ahora! abaixo, se alguém se dispor a traduzir para o português, basta postar nos comentários que eu colo aqui.
Você já deve ter ouvido falar nesse podcast sensação chamado Serial, né? A Gi Ruaro tá tão viciada no programa que pediu pra escrever sobre ele pra cá – afinal, faltam apenas dois episódios pro fim da primeira temporada. Fala Gi:

“Support for Serial comes from Mailchimp. Mailchimp. Mail-kimp?” Todas as quintas-feiras mais de um milhão e meio de pessoas ao redor do mundo esperam ansiosamente o iTunes atualizar e ouvir a frase acima. É o começo do podcast-fenômeno Serial, que em dois episódios chegará ao final da primeira temporada. O equivalente ao “Previously, on Lost” de 2014.
Dos mesmo produtores de This American Life, Serial é um podcast sobre um crime que aconteceu em 1999. Hae Min Lee, estudante na cidade de Baltimore, Estados Unidos, foi encontrada morta e seu ex-namorado, Adnan Syed, foi considerado culpado e condenado a prisão perpétua. A jornalista americana Sarah Koenig investiga o que aconteceu no dia da morte de Hae e como que Adnan foi sentenciado.
A construção da narrativa, sem utilizar imagens, apenas vozes, entrevistas e storytelling no seu momento mais cru, é hipnotizante. Como se fosse uma amiga te contando uma história, Sarah compartilha sua investigação, conclusões e dúvidas em tempo real.
Em uma internet que está migrando para o vídeo, o podcast Serial faz parte de um novo movimento de storytelling. Alguns chamam de a Renascença do Podcast. Não importa o meio, o que nos fascina mesmo são as histórias de gente como a gente. E nenhuma história é mais fascinante do que a de um rapaz, preso em prisão perpétua, que jura que não cometeu o crime. Que tinha 17 anos. Que era que nem eu e você: estudava, tinha namorada, bebia de vez em quando, fumava de vez em quando, aprontava, mas era uma pessoa boa, tinha família e amigos que o amavam. Que não tinha motivo para matar a ex. Que jura que não a matou. E mesmo assim, acabou na prisão. Como?
São várias os envolvidos em Serial. São várias as versões do dia em que Hae Lee morreu. Temos Adnan, Jay, Asia, Jenn… Mas depois de 15 anos, é difícil lembrar o que aconteceu em uma época em que não existia mídias sociais, celulares eram raros, pagers eram o meio de comunicação mais popular. Quando Adnan foi preso, seis semanas tinham se passado desde o crime. Você lembra o que fez seis semanas atrás? Com quem falou no telefone? Qual caminho fez ao trabalho? Com quem falou no caminho do trabalho? Sobre o que falou? Mas lembra mesmo? Tem certeza? Poderia contar o seu dia em detalhes na frente de um júri? Difícil.
Outro motivo que ajudou Serial e virar fenômeno foi o reddit. Envolvido em outros casos controversos de detetivão da internet, o subreddit /r/serialpodcast se tornou o ponto de encontro dos fãs Serial e também o local ideal para postar e discutir as mais variadas teorias sobre o caso. A maior parte das discussões são sobre Adnan ser culpado ou inocente. Tem usuário ali que está achando pêlo em tartaruga, mas a popularidade do reddit chegou até a família de Hae e de amigos de Adnan. Todos querem dar seu pitaco e contar a sua versão dos fatos.
O podcast não é mais de SK (como reddit chama Sara Koenig), mas de todos. A história já era pública, os detalhes não são de posse somente dos produtores, a internet virou o grande e incontrolável fórum de debate. Somos todos SK, todos queremos saber o final, todos queremos saber se Adnan é culpado ou inocente. No episódio nove e dez de Serial, SK fala que com ajuda de e-mails e novas informações, ela pôde tirar dúvidas da narrativa. Serial precisa dos detetives reddit tanto quanto a recíproca.
Outro motivo da popularidade de Serial é a conexão que podemos fazer com outros fenômenos da cultura pop. Você sabia que os detetives que investigaram o crime também trabalharam como consultores da série The Wire? E a cena em que Bunk e Lester procuram por corpos no meio da mata foi filmada no mesmo local em que o corpo de Hae Lee foi encontrado. Outra coincidência é que o filme Blair Witch Project foi filmado no mesmo parque. Coincidência? Para alguns redditors, é motivo para mais uma teoria de conspiração.
Há vários artigos contra Serial, contra os artigos contra Serial, mas a maior verdade que podemos tirar desta história é: a vida não é, nem nunca será preto no branco. Acho difícil que SK chegue a uma conclusão satisfatória no último episódio, que saberemos finalmente se Adnan é inocente ou não. E teremos que viver com isso, para sempre. Que nem o final de Lost.
(Mas graças ao Mailchimp e uma vaquinha online, teremos uma segunda temporada. Novo caso, novos personagens. Eu estou mais empolgada com a segunda temporada de Serial do que True Detective!)
Acompanho o trabalho da Juliana de Faria mesmo antes de ela lançar o site Think Olga, que faz parte de um novo movimento feminista no Brasil que aos poucos consegue voz usando a internet como plataforma. Foi através do Think Olga que a Ju fez a pesquisa Chega de Fiu Fiu, sobre a tênue linha entre a cantada e o assédio sexual, mostrando como esse tipo de abordagem é mais frequente do que imaginávamos e transformando a pesquisa em campanha. Há menos de um mês ela lançou um convite via crowdfunding para transformar o resultado da campanha em um documentário e em menos de 24 horas conseguiu bater a primeira meta – mas ainda há outras metas pela frente.
Conversei com a Ju por email sobre o Think Olga, o Chega de Fiu Fiu e sobre jornalismo.
Queria que você começasse falando de como começou o Think Olga e como vocês chegaram à conclusão que deu origem à pesquisa do Chega de Fiu Fiu.
Wow! Essa é uma longa história. Hehe. Vou tentar resumir. Sou jornalista e me especializei em jornalismo feminino. Em determinado ponto da minha carreira, senti que minhas ideias de pautas já não tinham mais espaço nos veículos femininos tradicionais. Decidi então criar a Olga não apenas para publicar as matérias que tinha vontade de escrever, mas também queria criar um espaço para discutir o espaço da mulher na sociedade, o feminismo e, principalmente, a forma como a representatividade na mídia. Bem, e como falei minhas propostas de pautas eram rejeitadas por não conversar com a linha editorial das revistas. E uma delas era sobre assédio sexual. Eu havia até mesmo sugerido criar, gratuitamente, a Chega de Fiu Fiu para uma revista. Como foi rejeitada, achei que valia a pena tocar por conta própria mesmo.A internet foi crucial para a divulgação e realização da pesquisa, mas vocês esperavam a resposta do jeito que ela aconteceu?
Ao longo de toda a jornada da Olga e da Chega de Fiu Fiu, fui constantemente surpreendida por reações cada vez maiores e mais engajadas das participantes. No entanto, quando você para para pensar, não é tão surpreendente assim. Estamos atacando um problema que atinge muitas mulheres, mas que sempre foi tolerado. E conectar em torno de um mesmo problema, de uma mesma questão é basicamente a essência da internet.Queria que você falasse um pouco também de como os temas começam a ser postos de forma extrema quando discutidos textualmente na internet. Presumo que vocês tiveram que lidar com radicais de todos os tipos. Como é lidar com isso?
Pessoalmente, sempre é muito difícil. Você tenta fazer um trabalho que pode de alguma forma mudar a situação da violência contra as mulheres e precisa enfrentar pessoas, algumas delas conceituadas, que distorcem sua mensagem e muitas vezes te ofendem. Mas é claro que você não vai conseguir tirar o privilégio de milênios de alguns grupos sem incomodar algumas pessoas. O interessante é ver como homens supostamente inteligentes e liberais se transformam rapidamente em conservadores ao perceber que há sim gente batalhando para equiparar os privilégios de uma minoria com o da maioria em que estão inseridos.Por que fazer um documentário?
Foi o desenvolvimento natural da campanha. Acreditamos que o documentário pode ser uma chance de nos aprofundarmos no tema, assim como usa-lo, quando pronto, como ferramenta de informação acessível e gratuita para a população.E depois do documentário feito, como vai ser sua divulgação?
Queremos que o documentário seja uma ferramenta acessível a todos. Nossa ideia é disponibilizá-lo gratuitamente na internet, de forma a ser exibido por escolas, universidades, ONGs e instituições públicas. Queremos também que ele seja utilizado em formações de advocacy. Além disso, já há canais de TV interessados também em exibi-lo. 🙂Vocês já ultrapassaram a cota sugerida. Quanto tempo demorou para isso ser atingido entre a divulgação e o cumprimento da meta?
Em 19 horas, batemos nossa meta. Nosso financiamento coletivo para o documentário foi o 4º projeto que mais arrecadou nas primeiras 24 horas de existência em toda a história do Catarse – e o 1º no ranking da categoria Cinema & Vídeo. É uma conquista enorme, pois se trata de um projeto feminista, que fala sobre violência contra a mulher — tópicos que normalmente geram polêmica, não geram o interesse que merecem ou causam uma resposta extremamente violenta por pessoas mais, digamos, conservadoras. Além disso, oferecemos pouquíssimas recompensas materiais. Ou seja, as pessoas estão apoiando, pois sabem que é um assunto que deve ser debatido e solucionado com urgência. Ficamos muito felizes!Quais os próximos projetos do Think Olga?
Nosso próximo passo é começar a trabalhar com empresas, ONGs e instituições governamentais para aumentar a representatividade das mulheres. Sentimos que em todos os meios de comunicação a mulher costuma ser retratada de uma maneira tradicional que não condiz mais com a realidade.Isso é jornalismo? Como você vê o jornalismo que está sendo produzido no Brasil hoje, dentro e fora das redações?
A Olga lida com colaboração, comunidades online, conteúdo em várias midias e com um propósito muito honesto e bem definido. Sem dúvida, pro público que a segue, é uma publicação relevante e confiável. Não sei se é o futuro do jornalismo, mas acredito que podemos tirar boas lições disso que estamos fazendo 🙂
Thurston Moore montou um mini-Sonic Youth para gravar seu novo disco solo, The Best Day. Primeiro veio o próprio Steve Shelley na batera, velho escudeiro de discos anteriores. Para o baixo chamou uma mulher (ninguém menos que que Debbie Googe, ex-My Bloody Valentine) tão experimetalista em seu instrumento quanto sua ex-mulher, Kim Gordon. E para a outra guitarra chamou um clone inglês de Lee Ranaldo, o inglês James Sedwards, um instrumentista educado no rock clássico (o glam era evidente em certos trechos de seu instrumento), mas completamente inserido no contexto de noise e microfonia proposto pelo velho indie.
Mas em sua recente apresentação em São Paulo, esse formato foi quebrado devido a um problema de saúde – Steve Shelley descobriu, no Brasil, que havia descolado a retina e por isso tinha de se afastar das baquetas. E o quanto antes, tanto que nem pode subir no palco do Cine Jóia. Em vez dele a produção chamou o baterista que acompanha Jair Naves, Babalu, que foi pego de surpresa com o convite e recebeu aulas de bateria do próprio Steve Shelley durante o ensaio (que deveria ser apenas uma passagem de som). O Lucio, que organizou o show, conta como foi a saga sônica de um baterista desconhecido para o palco com um dos grandes nomes do underground mundial.
Babalu entrou completamente em sintonia com o trio e, apesar do (natural) ar de insegurança no início do show, não comprometeu em nenhum momento, seguindo a cartilha que havia aprendido na mesma tarde à risca. Profissa. À sua frente, três veteranos das cordas elétricas duelavam-se entre espasmos de ruído e delicados dedilhados. O fio condutor foi basicamente o Best Day que Thurston acaba de lançar – a única fuga deste script foram “Pretty Bad” e “Ono Soul”, de seu primeiro disco solo, Psychic Hearts, a última também a única música de outro disco que ele tocou quando trouxe seu Demolished Thoughts ao mesmo palco paulistano há dois anos e meio (além de “It’s Only Rock’n’roll (But I Like It)”, dos Rolling Stones).
Thurston e sua guitarra já são um só faz muito tempo, então ele nem sequer precisa pensar para levá-la de um extremo a outro – é sua assinatura de palco, ao lado de seu grave vocal quase balbuciado e seu ar de criança de dois metros de altura. Esticando músicas do disco desse ano para além dos 10 minutos, ele inevitavelmente caía em breaks instrumentais em que desafiava os outros músicos a sair do formato canção, por mais bruta que fosse sua versão, quebrando-se em tsunamis de microfonia e marolinhas ambient, regendo seus músicos com o braço de seu instrumento. Um show catártico, conciso, intenso e reconfortável, uma vez que sempre podemos reconhecer os mesmos traços que desenharam a discografia de um grupo tão importante para aquele meio quanto o Sonic Youth. Venha mais, Thurston!
Abaixo os vídeos que fiz do show:
Conforme prometido, eis o texto que escrevi sobre o clássico disco duplo do Sonic Youth para a seção Discoteca Básica da falecida revista Bizz. Esse texto foi publicado na edição 178, em maio do ano 2000.
Felizmente, os anos 90 serviram para rachar os muros preconceituosos que a década de 80 carinhosamente erigiu. E foi entre julho e agosto de 1988 que uma banda nova-iorquina iniciou ó terremoto, capaz de chacoalhar os alicerces da música pop, convergindo rap, pop inglês e rock underground americano para um mesmo objetivo (em 1991, Nevermind, do Nirvana, selaria o fenômeno). Depois que o Sonic Youth derrubou todas as barreiras entre as diversas vertentes do rock, usando a microfonia como aríete, ele nunca mais foi o mesmo.
Antes, o Sonic Youth era apenas um dos principais representantes da cena pós¬punk nova-iorquina, uma geração com mais de um rótulo – pigfuck, noise, no wave – que primava pelo barulho fora de controle como principal idioma. Ao lado do Big Black, Minutemen, Pussy Galore e Butthole Surfers, o Sonic Youth tinha uma grande reputação entre os seguidores daquela geração. Mas foi a partir da entrada do baterista Steve Shelley, que completou para sempre o trio formado pelo casal Thurston Moore e Kim Gordon, mais o guitarrista Lee Ranaldo, que o grupo começou a desequilibrar. Discos como EVOL e Sister antecipavam um grande abalo sísmico, capaz de destruir todas as noções atuais dos limites da guitarra – sempre um tabu na história do rock.
Com o duplo Daydream Nation, o quarteto nova-iorquino atingiu o rock como uma bomba atômica subterrânea sob os pilares do que conhecíamos por rock. Os três vocalistas cuspiam letras como palavras de ordem, misturando literatura marginal e rock’n’roll primitivo, preocupados mais em atingir seu alvo do que com a sujeira que o tiro poderia causar. Mas o centro do álbum são as gui¬tarras: um enxame de microfonia que consegue soar caótico, melódico, bucólico, aterrador e brutal- muitas vezes em poucos minutos, como na introdução de “Cross the Breeze” e o meio de “The Wonder”.
Propulsionado por um dos mais subestimados bateristas do pós-punk, o trio central do grupo (que se identificava com símbolos no rótulo do disco, à Led Zeppelin) atravessava terrenos tão diferentes quanto hardcore, vanguarda, heavy metal, folk, pós-punk inglês, progressivo, psicodelia e punk rock, com suas guitarras e baixo citando referências sonoras como se contassem a sua versão da história do rock, abrangendo todos os gêneros como frutos do mesmo som. Um ruído incômodo, que incomoda ao mesmo tempo que provoca, que está no centro do melhor rock, seja de que tipo for.
Na minha terceira coluna para a Caros Amigos, escrevi sobre o show que vi de João Donato no Beco das Garrafas – e falei sobre sua influência na música deste século. Também fiz uns vídeos desse show, numa playlist que segue lá embaixo.
Ave Donato!
João Donato se apresenta no renascido Beco das Garrafas e mostra que sua influência na música brasileira é cada vez maiorFui para o Rio de Janeiro meio no susto no mês passado e da mesma forma fiquei sabendo que o mítico Beco das Garrafas estava voltando a funcionar como casa de shows. Uma viela sem saída que corta a Rua Duvivier, em Copacabana, logo no início, o Beco atingiu o status legendário ao funcionar como casa das máquinas da cena musical carioca que viu nascer a bossa nova.
Influenciados pelo jazz norte-americano, instrumentistas, compositores e intérpretes se revezavam nos minúsculos palcos de bares chamados Bottle’s, Baccará, Ma Griffe e Little Club para a ira dos vizinhos, que não suportavam as jam sessions que varavam as madrugadas e saudavam os músicos com garrafas jogadas do alto. Foi Sergio Mendes quem batizou a viela de “Beco das Garrafadas”, que na versão que pegou ficou apenas com as garrafas.
Por ali passaram mestres do samba, da bossa nova e do samba-jazz, como Luís Carlos Vinhas, Chico Batera, Dom Um Romão, Airto Moreira, Bebeto Castilho, Baden Powell, Wilson das Neves, Johnny Alf, Jorge Ben e intérpretes históricas como Elis Regina, Alaíde Costa, Dolores Duran, Nara Leão, Sylvinha Telles, Leni Andrade, Claudette Soares e Wilson Simonal.
Depois dos anos 60, o beco foi esquecido, suas casas viraram ruínas de um passado histórico até que Amanda Bravo, filha de um dos músicos frequentadores daqueles palcos, Durval Ferreira, resolveu resgatar o Beco do passado. Conseguiu uma empresa (a cervejaria Heineken) que bancasse a revitalização, que transformou as quatro pequenas casas. O Bottle’s e o Baccará foram transformados em um só ambiente (para 80 pessoas) e o Little Club (para 50 pessoas) virou uma pista de dança com apresentações de DJs. Para tomar conta da programação musical Amanda chamou o produtor Kassin, um dos principais nomes da nova música brasileira deste século, que organizou um mês de apresentações reunindo destaques de uma geração mais nova que a dele, incluindo nomes como as bandas Letuce e Ultraleve, o músico Lucas Arruda, as cantoras Tiê e Alice Caymmi além de encontros entre titãs da velha guarda como João Donato e Marcos Valle e divas da nova safra como Emanuelle Araújo e Camila Pitanga, além do grupo francês Nouvelle Vague. Para o Little Club, Kassin chamou os DJs Marcelinho da Lua, o coletivo Vinil é Arte e Maurício Valladares para discotecar sets inspirados na bossa nova e no jazz brasileiro do início dos anos 60.
Tive o privilégio de assistir à apresentação de João Donato, que pouco a pouco tem sua importância resgatada, principalmente por conta desta nova leva de músicos brasileiros. Donato é precursor da bossa nova e já cantava baixinho antes de João Gilberto ser apresentado a Tom Jobim. A influência de Donato no pai da bossa nova e em seus primeiros filhotes é evidente, bem como seus discos suaves e ousados que gravou nas décadas seguintes. O próprio Kassin, que ensinou o grupo Los Hermanos a tirar o pé do rock, é uma espécie de neto musical de Donato, que é reverenciado por todos os nomes que se apresentaram na curta nova temporada do Beco das Garrafas quanto por novos músicos de todas as cepas, seus 80 (!) anos foram celebraos no Circo Voador em agosto com a presença de nomes tão distintos quanto Caetano Veloso, Luiz Melodia, BNegão e Paula Morelenbaum; em fevereiro deste ano comemorou o aniversário de 40 anos de seu Quem é Quem num show com músicos da banda Bixiga 70, Tulipa Ruiz, Mariana Aydar e Marcos Valle. Assisti o show na microplatéia do novo Bottle’s Bar entre Jards Macalé e o guitarrista Gabriel Muzak, que toca com os Seletores de Frequência de BNegão, além de ter seu próprio trabalho solo.
Todos reverenciando um monstro da suavidade, um senhor de oito décadas de música que se comporta como um menino travesso ao piano, aumentando o tom de voz apenas para falar “água!”, seu código para encerrar as músicas. No palco do Bottle’s Bar, tocando um teclado elétrico, o acreano vinha acompanhado por uma das melhores cozinhas de jazz brasileiro em atividade, o contrabaixo elegante do cearense Jorge Helder e a bateria atrevida do carioca Robertinho da Silva, além de um naipe de metais de respeito – o sax de Roberto Pontes e o trompete de Jessé Sadoc. Juntos, enveredavam por temas clássicos de Donato como “Capricorn”, “Emoriô”, “Bananeira”, “Gaiolas Abertas”, “Vento no Canavial” e “Café com Pão”, além de três números com a participação da cantora baiana Emanuelle Araújo (“A Paz”, “A Rã” e “Sambou, Sambou”), em pouco mais de uma hora de viagem no tempo que, mesmo bebendo no passado, apontava para um futuro exemplar para a música brasileira. Ave Donato!
Entrevistei o físico Randall Munroe, também conhecido como Xkcd, para a capa da Ilustrada de hoje – falei com ele algumas horas antes de ele acompanhar o pouso da nave no cometa, assunto que dominou o final da conversa. Meio tímido e meio sem graça, ficamos quase meia hora falando sobre cultura pop, quadrinhos, internet e ficção científica. Um dia eu publico a íntegra dessa conversa.
Eureka!
Ex-funcionário da Nasa e um dos principais autores da era da internet, o físico e quadrinista Randall Munroe conversou com a Folha sobre o livro em que responde, usando ciência, a perguntas inusitadas enviadas por seus leitoresFaltavam poucas horas para o módulo Philae desconectar-se da sonda Rosetta e pousar no cometa Churyumov-Gerasimenko e Randall Munroe, 30, não conseguia disfarçar sua animação. “Vou ficar acordado à noite toda para assistir a isso, quero ver se tudo vai dar certo”, disse em entrevista por telefone com a voz tímida e quase sem graça, como se fosse apenas um sujeito qualquer assistindo a um evento corriqueiro.
E isso o físico e quadrinista mais conhecido como Xkcd, que acaba de lançar seu E Se? – Respostas Científicas para Perguntas Absurdas (Companhia das Letras, R$ 39,90) no Brasil, não é. Seu traço é simples até o limite do conceitual, reduzindo minimanente tudo a bonequinhos de palitinhos, mas ele lida com temas de escopo épico, medindo tudo com a grande régua da ciência.
Suas tirinhas – publicadas no site xkcd.com a cada dois ou três dias – compilam comentários ácidos e diálogos perspicazes sobre assuntos correlatos à ciência, como a cultura da internet, nossa relação com a tecnologia, linguagem e a natureza da ficção científica. Em uma delas, observou que tweets sobre terremotos chegavam mais rápido que as próprias ondas sísmicas a regiões ao redor do epicentro do tremor, sendo possível ler sobre o terremoto antes de senti-lo – e o comentário foi comprovado cientificamente pouco depois da publicação do quadrinho.
A tira começou em 2005, quando Munroe ainda trabalhava na área de robótica da Nasa, a agência espacial norte-americana. “Meus primeiros quadrinhos foram desenhados ainda na escola, quando deveria estar prestando atenção nas aulas, sempre rabiscava algo nos cantos dos meus cadernos. Depois de um tempo resolvi escaneá-los, mas não sabia o que fazer com eles e os coloquei em meu site”, explica.
O nome do site foi inventado a partir de uma observação que ele havia feito quando ainda era criança, de que um nome poderia perder seu sentido com o tempo: “Então inventei uma linha de texto que não significa nada e que seria só minha. E também um nome curto, pois achei que seria mais fácil se precisasse digitá-lo bastante no futuro.”
Não demorou muito para o quadrinho autodescrito como “um webcomic sobre romance, sarcasmo, matemática e linguagem” começasse a fazer sucesso, atingindo em poucos meses um público mensal de 70 milhões de pessoas, como registrou a revista Wired no final de 2007. Foi quando Munroe começou a explorar as possibilidades do formato quadrinho na internet.
A seção E Se? (What If) foi um dos primeiros experimentos com a interatividade digital. Reunidas pela primeira vez em livro em 2014, as respostas elaboradas visualmente por Munroe vinham de perguntas absurdas enviadas por seus leitores. No livro, ele responde a perguntas inusitadas como “se minha impressora conseguisse literalmente imprimir dinheiro, o impacto no mundo seria muito grande?”, “quanto espaço físico a internet ocupa?”, “se um asteroide fosse bem pequeno mas superdenso, seria possível morar nele como o Pequeno Príncipe?” e “de que altura você teria que soltar um bife para ele chegar ao chão cozido?” Mas a inspiração veio na sala de aula.
“Há um programa no MIT em que qualquer pessoa pode ser voluntária para dar aulas num fim de semana sobre qualquer assunto para estudantes de segundo grau”, lembra. “Eu nunca havia dado aulas antes e vi como é difícil manter os alunos interessados naquilo que você está querendo ensinar. Então pensei numa questão sobre Guerra nas Estrelas e quanta energia que Yoda conseguiria produzir através da Força e de repente todos começaram a ficar interessados. E seguiram a lógica, fazendo perguntas do tipo sobre outros filmes e logo em seguida sobre coisas da vida real. Eles ficam bem mais interessados quando as perguntas não são abstratas.”
Ele adaptou essa lógica para o seu site e começou a receber uma avalanche de perguntas improváveis. “Não consigo ler todas, são muitas”, confessa. Alguma delas são bizarras o suficiente para que ele nem pestaneje em pensar na resposta (“Dá para impedir uma erupção vulcânica depositando uma bomba (termobárica ou nuclear) debaixo da terra?”) ou que nem comece a cogitar a possibilidade de respondê-las (“A que velocidade um ser humano teria que correr para ser cortado ao meio, na altura do umbigo, por um arame de cortar queijo?”).
Depois da seção E Se?, Randall começou a experimentar cada vez mais em escala (o quadrinho “Money” trabalha proporcionalmente todo o dinheiro que existe no mundo), com geolocalização (certa vez publicou uma brincadeira de primeiro de abril que variava de acordo com a localização geográfica de cada leitor), com espaço (no vasto universo digital de “Click and drag”, um desenho interativo que se fosse impresso ocuparia uma área de 14 metros de largura), culminando na contemplativa “Time”, que ganhou o prêmio Hugo, maior reconhecimento na área de ficção científica, deste ano (leia abaixo).
Atualmente ele descansa da turnê de lançamento de seu livro na Europa e cogita conhecer o Brasil: “Nunca fui ao Hemisfério Sul, mas sei que tenho muitos fãs aí.” Ele não detalha projetos para o futuro pois faz muitas coisas ao mesmo tempo (“sou muito desorganizado”), mas antecipou que quer fazer algo com os “3.2 GB de dados do genoma humano”, que baixou no início do ano.
Logo depois da entrevista, ele transmitiu o pouso do módulo Philae no cometa Churyumov-Gerasimenko através de seu próprio site, publicando um quadrinho a cada cinco minutos, criando uma animação que reunia as informações que conseguia conectar enquanto acompanhava as informações que obtinha no site da Esa (agência espacial europeia).
Projetos recentes ampliam ideia de interação entre público e obra
Dois dos projetos mais ambiciosos de Randall Munroe exploram as possibilidades de interação entre a obra de arte e o público de formas bem distintas. “Click and drag” (“clique e arraste”, que pode ser visto em http://xkcd.com/1110/), por exemplo, é o ápice de seu trabalho com mapas e tabelas, como já havia feito ao criar o mapa da internet ou do sistema solar. A obra de 2012 é uma tira cujo último quadrinho permite que o leitor explore dimensões improváveis dentro de um único painel. “Quando você está num videogame de carro e olha no horizonte, você vê algumas montanhas, mas se tenta dirigir o carro para fora da pista, há uma espécie de parede invisível que não permite que você chegue às montanhas. É um universo que parece ser muito grande, mas é muito pequeno. Eu queria fazer um quadrinho que tivesse o efeito oposto, que parecesse muito pequeno mas que fosse muito grande”, conta seu autor.
A obra também foi inspirada em um passatempo comum em nossa rotina digital: passear por mapas através da internet. “Eu achava um rio perto de casa e começava a clicar e arrastar o mapa para seguir o rio até o oceano e isso levava meia hora, passava por várias cidades e dava uma sensação de estar explorando. Mas eu não queria que você pudesse dar zoom para fora, pois isso seria como trapacear”, explica.
“Time” (que pode ser lida aqui http://xkcd.com/1190/) era um experimento com tempo e nele Randall convidava o leitor a acompanhar uma história que teria um novo quadrinho publicado a cada meia hora por 123 dias. “Era como se fosse algo entre uma tira na internet e um filme. Porque uma tira de internet é atualizada uma vez por dia ou por semana enquanto um filme é uma espécie de tira de internet que é atualizada 24 vezes por segundo. Eu queria contar aquela história, que era sobre o tempo, e achei que seria uma forma interessante e única de contá-la”, conclui. “Time” ganhou o prêmio Hugo de “melhor história gráfica” deste ano e a premiação foi aceita pelo escritor Cory Doctorow que, a pedido de Munroe, disse que iria ler o discurso de agradecimento falando uma palavra por hora.
P: Quanta Força o Yoda consegue gerar?
R: É óbvio que vou ignorar as prequels. A maior demonstração de força de Yoda na trilogia original se deu quando ele ergueu a X-wing de Luke do pântano. No que concerne a movimentar objetos fisicamente, esse foi sem dúvida o maior dispêndio de energia através da Força que vimos em qualquer momento da trilogia. A energia necessária para erguer um objeto até certa altura é igual à massa do objeto vezes a força da gravidade vezes a altura a que se queira erguer. (…) Por fim, precisamos saber da força da gravidade em Dagobah. Aqui fico sem ter para onde ir, pois mesmo que os fãs de ficção científica sejam obcecados, não tem como existir um catálogo das mínimas especificações geofísicas de cada planeta que aparece em Star Wars, né? Não. Subestimei os fãs.A Wookieepedia tem esse catálogo e nos diz que a gravidade superficial de Dagobah é de 0,9 g. (…)
(O resultado de 19,2 kW) é potência suficiente para energizar um quarteirão de casinhas no subúrbio. Também é equivalente a 25 cavalos-vapor, que é quase a potência do motor do Smart Car elétrico. Aos preços atuais de energia elétrica, Yoda valeria aproximadamente dois dólares por hora. (…) com o consumo de eletricidade mundial na faixa dos 2 terawatts, precisaríamos de 100 milhões de Yodas para cumprir a demanda. Somando tudo, adotar “Yodanergia” não ia valer a pena — mas é incontestável que seria energia verde.P: Quando, se é que um dia, o Facebook terá mais perfis de mortos do que de vivos?
R: Vai ser ou nos anos 2060 ou 2130. Não tem muito morto no Facebook. A razão principal é que tanto a rede social quanto seus usuários são jovens. O usuário médio do Facebook envelheceu com o passar dos anos, mas o site ainda é mais utilizado — e com frequência bem maior — pelos mais jovens. Com base na taxa de crescimento do site, e na estratificação etária de usuários ao longo do tempo,2 cerca de 10 a 20 milhões de pessoas que criaram perfis do Facebook já morreram.P: Dá para construir um propulsor a jato (jetpack) usando metralhadoras que atirem para baixo?
R: Eu fiquei meio surpreso quando descobri que a resposta é positiva! Mas para fazer direito, você vai ter que conversar com os russos. O princípio é bem básico. Se você atira uma bala para a frente, o coice empurra você para trás; então, se atirar para baixo, o coice vai lançar você para cima. A primeira pergunta a responder é: “Tem como uma arma erguer seu próprio peso?”. Se uma metralhadora pesa 4 kg mas o coice dela ao disparar é de 3 kg, ela não vai conseguir se erguer do chão, muito menos erguer ela mesma mais uma pessoa. No mundo da engenharia, a razão entre a potência de um veículo e o peso é chamada de, veja só, relação peso-potência. Se for menor que 1, o veículo não consegue se erguer. O Saturno V tinha uma relação peso-potência, para a decolagem, de aproximadamente 1,5
Apesar de eu ter crescido no sul dos Estados Unidos, não sou especialista em armas de fogo. Por isso, conversei com um conhecido do Texas para ajudar na resposta.
Aviso: por favor, POR FAVOR, não tente fazer isso em casa.
Acompanho o trabalho dos Arctic Monkeys desde que eles eram revelação no MySpace, mas só fui respeitá-los de verdade a partir do show deles no Lollapalooza Brasil de 2012, quando começavam a rascunhar sua obra-prima AM, o melhor disco de 2013. Naquele show deu para sacar que Alex Turner não ficava só na teoria e encarnava um personagem arquetípico do rock – o rebelde galã que envelhece sem esmorecer como Elvis Presley. Apesar de não ter nem 30 anos, ele pisava firme como rocker clássico, misto de Gene Vincent com Johnny Cash, Joe Strummer com Brian Setzer, um Montgomery Clift com a sensibilidade de Buddy Holly. O completo domínio da platéia era semelhante ao que tinha de seu instrumento, tratando-o com reverência e desdém às vezes ao mesmo tempo. Os fãs de Queens of the Stone Age que me perdoem, mas considero os Arctic Monkeys a principal banda de rock na ativa – e grande parte desse título vem da postura de astro de seu frontman.
Por isso foi inevitável animar-se para assistir a um terceiro show deles aqui no Brasil – ao mesmo tempo que foi inevitável desanimar-se quando foram divulgados os preços dos ingressos. Pior não é apenas o valor das entradas, mas a existência dessa nefasta pista vip, um enorme curral de endinheirados que separa a banda de seu público de verdade. Paguei o vip para assistir ao show do Cure no Anhembi ao lado de um monte de gente que não estava nem aí pro show, conversando no celular, paquerando e tirando foto com os amigos. Dias depois, em Buenos Aires, sem a opção da pista vip, os verdadeiros fãs da banda haviam chegado no meio da tarde para garantir seu lugar na grade. Cercados por fãs de verdade, que cantavam todas as músicas de cor, a banda de Robert Smith se empolgou bem mais em Buenos Aires do que no show de São Paulo. Por isso quando soube do preço da área vip dos Monkeys em São Paulo resolvi gastar esse dinheiro num ingresso comum em Santiago, pagando bem menos pela entrada e usando o resto da grana para pagar parte da passagem de avião, usando a banda como desculpa para curtir um fim de semana esticado na capital chilena.
E as surpresas da noite começaram pelo local do show, o ginásio Movistar Arena, fechado, com seu teto abobadado como um globo e no meio de um parque, que além de ter tudo funcionando bonitinho (banheiro, filas, entrada) ainda proporcionou alguns momentos espetaculares graças à sua construção. Uma arena circular, ela é cercada por uma arquibancada à meia altura, que permite que se assista ao show da altura do palco principal. O Hives nem chegou a ser uma surpresa pois por mais desprezível que a banda possa ser em termos de importância, ela se garante em presença de palco, principalmente devido ao carisma de seu líder tagarela Pelle Almqvist, protagonista da segunda surpresa ao exibir um espanhol fluente o suficiente para desfilar piadas inteiras para o público chileno. Este por sua vez era uma surpresa ainda maior – já que a faixa etária do local não ultrapassava os 18 anos. O público do Arctic Monkeys no Chile era muito mais novo que a própria banda e a tratava com uma reverência religiosa, erguendo câmeras e celulares para registrar poucos frames daquele momento de catarse coletiva.
Calcado no disco do ano passado, o show é um desfile quase integral dos hits do disco preto e seu palco é ornado com globos de discoteca à frente de um enorme neon que reproduzia a onda de frequência que estampa a capa de AM. A iluminação e a disposição dos instrumentistas no palco deixava Alex Turner claramente no olho do furacão, com o baixista Nick O’Malley, o guitarrista Jamie Cook e o baterista Matt Helders assumindo algum protagonismo em certos vocais de apoio ou solos de seus instrumentos. A estrela da noite é o vocalista da banda, sua principal força-motriz, que domina o público enquanto canta suas baladas roqueiras. O show começa logo após de uma versão instrumental para uma nada acidental “Are You Lonesome Tonight?” e abre com três mísseis do disco do ano passado: “Do I Wanna Know?” já estabelece o clima pesaroso e grave da noite, acompanhado pelos fãs cantando o riff da música – uma tradição do rock latino. Mas basta Alex começar a cantar para nos lembrar que estamos em frente a um ídolo juvenil – e a imensa massa de vozes de adolescentes grita nos intervalos das letras de todas as músicas. O refrão da primeira faixa – “crawling back to you…” – é cantado como o refrão de uma missa. Mas qualquer ar messiânico ou clima religioso é deixado para trás a cada vez que Alex aponta para o público ou desvia o olhar como se estivesse desinteressado.
“Snap Out of It” segue cantada em uníssono pelo público, mas flutua no éter, numa câmera lenta lynchiana que pouco lembra a dinâmica pontiaguda da versão do disco. É no meio da faixa que o vocalista pela primeira vez interage com o público, arriscando algumas palavras em espanhol. De blaser azul e um topete impecavelmente engomado, Turner já não é mais o rebelde à James Dean que parecia encarnar há dois anos. Há uma segurança adulta, um ar de crooner e uma empáfia como se fosse um gângster júnior – quando larga a guitarra para cantar “Arabella” segurando apenas o microfone e seu cabo, ele caminha como um Chris Moltisanti dos Sopranos ou o Ray Liotta em Goodfellas: cheio de si, cercado por amigos de confiança, ele é o dono do pedaço, o rei da noite, um conceito de popstar bem diferente daquele que nos acostumamos a ver. Como se Elvis não tivesse engordado na fase Las Vegas e fosse o rei de lá até hoje, uma espécie de Frank Sinatra do rock. E isso é mais desconcertante quando lembramos que o sujeito é inglês. Antes da faixa acabar ele retoma a guitarra como se estivesse apenas experimentando a vida sem seu instrumento nativo.
E emenda uma sequência de hits de discos passados que começou com uma acelerada “Brianstorm”, passou pela lenta “Don’t Sit Down ‘Cause I’ve Moved Your Chair” (com direito à coreografia discreta de macarena quando a canção é citada), uma versão quase latinizada para “Dancing Shoes” e “Teddy Picker” emendada com “Crying Lightning”. Depois foi a vez de voltar a AM com “No. 1 Party Anthem” protagonizando um dos momentos mágicos do show, quando o público tirou seu celulares para acender lanternas para o alto enquanto balançava os braços para acompanhar a balada. Não havia a referência do isqueiro aceso dos anos 70 para aqueles adolescentes, não era citação nem ironia, simplesmente a vontade de fazer parte de um instante apaixonado com milhares de fãs ao redor. E assim a Movistar Arena se iluminou como um céu estrelado, transformando-se num enorme bailinho dos anos 50. “Knee Socks” aproveitou-se do transe para impor seu ritmo marcial e a costura de guitarras em outro grande momento do show.
“All My Own Stunts” abriu outra sequência de músicas do passado e Alex deixou o blaser de lado, chamando devagar o hit “I Bet You Look Good on the Dancefloor”, que ligou o público na tomada, deixando-o em ponto de bala para “Library Pictures”, quando Turner provocou o público, chamando o “Chi, Chi, Chi!” da torcida de futebol para que este repondesse com “le, le, le!”. Daí para o final foi uma série imbatível de clássicos modernos, começando com a irresistível “Why’d You Only Call Me When You’re High?”, passando pelo hino “Fluorescent Adolescent” e terminando a primeira parte do show com a reverente “505”, uma música que parece sintetizar essa fase adulta vivida atualmente pela banda.
O bis é o suprassumo do disco do ano passado e começa com a forte “One for the Road”, passa pela apaixonante “I Wanna Be Yours” (e em outro momento mágico da noite, os holofotes apontam para os globos de discoteca, transformando o ginásio em uma casa noturna dos sonhos) e termina com os golpes de machado desferidos no riff de “R U Mine?”, todas convocando o público para cantar em uníssono e desprender-se naquele universo frio e escuro do disco de 2013.
As luzes se acenderam e Joe Cocker começa a cantar “With a Little Help from My Friends” nas caixas de som, provocando um efeito dúbio, pois não sabemos se estamos vivendo um momento clássico como o Woodstock que registrou a versão definitiva para a música dos Beatles ou se acordamos de um flashback de um passado que não vivemos, como o Kevin Arnold de Anos Incríveis. Uma noite memorável, um dos grandes shows do ano, uma das grandes bandas deste século.
Abaixo os vídeos que fiz do show.







