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Falei do projeto do site Radiola Urbana de recriar ao vivo discos clássicos com bandas novas – que ano passado rendeu noites incríveis como o Emicida celebrando Cartola e O Terno reverenciando Arnaldo Baptista – na minha coluna Tudo Tanto na revista Caros Amigos do mês passado.

Clássicos revisitados
A iniciativa do site Radiola Urbana de reunir novos artistas para tocar discos históricos chega ao terceiro ano rendendo ótimos frutos

Há três anos um site paulistano vem desenhando um panorama de discos clássicos reinterpretados por nomes da nova música brasileira que já pode ser considerado histórico. Um programa sem nome definido, pois o mesmo vai mudando de acordo com o ano celebrado. Desde 2012 o site Radiola Urbana, tocado pelos amigos Ramiro Zwetsch e Filipe Luna, volta 40 anos no tempo para homenagear álbuns históricos de artistas célebres, negociando repertório e arranjos com alguns dos maiores nomes da música brasileira deste século.

A ideia do Radiola Urbana começou em 2012 como uma consagração de uma tendência recente que vinha valorizando o ano de 1972 como um dos grandes anos da história do disco, pareando com outros anos clássicos como 1967, 1969, 1977 e 1991. Assim, o site propôs celebrar discos daquele ano no projeto 72 Rotações, que aconteceu no segundo semestre daquele ano, em shows gratuitos no no Centro Cultural da Juventude, na Vila Nova Cachoerinha. Entre os primeiros artistas estavam Bruno Morais (para cantar o mágico Sonhos e Memórias, do Erasmo Carlos), Romulo Fróes (que revisitou Transa de Caetano Veloso), Rodrigo Campos (que se arriscou no clássico funk Superfly, de Curtis Mayfield) e Curumin ao lado da banda Rockers Control (para recriar a trilha sonora de The Harder They Come, de Jimmy Cliff).

No ano seguinte o show foi transposto para o Sesc Santana e subiu um degrau no escalão dos artistas. Era a vez de Karina Buhr, Céu, Cidadão Instigado e Fred Zeroquatro (vocalista do grupo Mundo Livre S/A) homenagearem discos de 1973. Karina aventurou-se pelo primeiro disco do Secos & Molhados, o Cidadão Instigado se desafiou a tocar o Dark Side of the Moon do Pink Floyd, Céu foi convocada para homenagear o primeiro disco de sucesso de Bob Marley, Catch a Fire, e Fred celebrou o homônimo disco de estreia de Nelson Cavaquinho. A edição de 2013 teve um efeito colateral interessante na carreira de três dos artistas escolhidos: tanto Céu, quanto Cidadão Instigado e Karina Buhr passaram a oferecer os shows do evento como alternativa para tocar em lugares que nunca haviam tocado. Ao sair de uma semana na zona norte de São Paulo para várias apresentações espalhadas pelo Brasil, o projeto garantia seu principal intuito: fazer que o público dos novos artistas conhecessem os discos clássicos e os fãs dos álbuns homenageados descobrisse os novos nomes da cena brasileira deste século.

A edição do ano passado aconteceu no calar de dezembro, novamente no Sesc Santana, e mais uma vez surpreendeu. Os homenageados desta vez eram apenas discos brasileiros, todos clássicos absolutos de 1974: o primeiro disco solo do mutante Arnaldo Baptista (Lóki?), a estreia em disco de Cartola, o encontro de Elis Regina com Tom Jobim e o disco psicodélico de Jorge Ben, Tábua de Esmeralda. Para tomar conta de cada um desses discos, artistas de diferentes abordagens. Elis & Tom ficou a cargo do Marco Pereira Trio – um dos grandes conjuntos da nova cena de jazz de São Paulo – ao lado da cantora Luciana Alves e a Tábua de Jorge Ben ficou com o projeto paralelo da Nação Zumbi chamado Sebosos Postizos, que já há anos revisita diferentes músicas do repertório de Babulina nos anos 70.

Os dois shows que vi – dos melhores shows de 2014 – celebravam Cartola e Arnaldo Baptista. Foram shows que intimidaram seus intérpretes. O trio O Terno, liderado pelo filho de Maurício Pereira, Tim Bernardes, ficou responsável pelo mergulho emotivo na obra confessional do ex-Mutante e o rapper Emicida deixou de rimar pela primeira vez para cantar os versos imortais do sambista parnasiano.

O show de Emicida foi um atordoo. Não apenas por colocar o rapper num universo familiar ao seu (o samba) desafiando-o a cantar músicas que fazem parte do DNA do samba. Mas também pelo grupo musical que havia reunido. O desafio, na verdade, foi proposto pelo saxofonista Thiago França, uma das forças da natureza da nova cena musical paulistana. Ele tocou com Criolo e é um terço do Metá Metá, a melhor banda de São Paulo atualmente, além de ter inúmeros projetos paralelos, muitos deles com o compadre Kiko Dinucci, outra usina musical da nova São Paulo. França convocou pesos pesados pra compor o time: da banda de Emicida surrupiou o percussionista Carlos Café, o violonista Doni Jr. e o DJ Nyack. Depois convocou o ás baixista Fábio Sá, o grande Rodrigo Campos para o cavaquinho e guitarra e o próprio Thiago entre o sax, a flauta transversal e outras engenhocas e pedais de efeito.

O resultado foi um show que por vezes soava reverente, mas na maior parte do tempo era abertamente desafiador, levando a obra de Cartola para territórios completamente diferentes – o free jazz, o hip hop mais pesado, a gafieira, um samba mais quadrado e até para releitura quase literais. A curta duração do disco homenageado (pouco mais de meia hora) fez o conjunto estender a homenagem para Adoniran Barbosa (contrapondo “Saudosa Maloca” e “Despejo na Favela” com as desocupações feitas recentemente em São Paulo) e para Candeia (numa versão brutal para “Preciso Me Encontrar”), além do delicioso sambão “Hino Vira Lata”, do próprio Emicida. Um show daqueles de tirar o fôlego.

Dois dias depois era a vez do Terno, no mesmo palco do Sesc Santana, defender sua homenagem ao disco Lóki?, o tocante espasmo emocional traduzido através do piano rock de Arnaldo Baptista, logo que ele saiu dos Mutantes. Um disco de fossa devido ao fim de relacionamento com Rita Lee, mas também um disco de uma psicodelia introvertida, que às vezes sonha alto ou cogita possibilidades impensadas no meio de canções que cortam o coração ao mesmo tempo que provocam sorrisos.

A responsabilidade do Terno não era apenas etária – o guitarrista e vocalista Tim Bernardes deixou seu instrumento em segundo plano para assumir o teclado, mas manteve-se preciso e sem firulas, no mesmo nível de emoção que percorre pelos sulcos do vinil original. O desafio duplo foi vencido com alguma facilidade – mesmo nas músicas tocadas com guitarra, canções feitas originalmente para o piano ganhavam uma desenvoltura de parentesco psicodélico.

Agora é esperar 2015 para ver se (e quais) os artistas do ano passado levarão os shows de 2014 para novos palcos e o que o Radiola Urbana armará para a versão deste ano. “Pensamos em Fruto Proibido (Rita Lee & Tutti Frutti), Horses (Patti Smith), Expensive Shit (Fela Kuti & Afrika 70), Estudando o Samba (Tom Zé)…”, me disse Ramiro, que planeja uma novidade para este ano – voltar 50 anos no tempo em vez de 40. “Aí se virar 65, temos planos malignos e infalíveis para A Love Supreme (John Coltrane), Coisas (Moacir Santos), Highway 61 Revisted (Bob Dylan)…”. De qualquer forma, não tem erro.

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Escrevi sobre a volta do Arquivo X lá no meu blog do UOL e explico porque eu acho que a série poderia ser reinventada se voltasse com outros atores: Reabrindo o Arquivo X.

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Atualização às 15h, dia 24/03/2015: O Hollywood Reporter acaba de confirmar que a Fox produzirá mesmo mais uma temporada de Arquivo X, com seis episódios. “Penso nisso como se fosse um intervalo comercial de 13 anos”, disse o criador da série Chris Carter. “A boa notícia é que o mundo ficou muito mais estranho, uma época perfeita para contar essas seis histórias.”

Tudo indica que Arquivo X vai se rematerializar. A série, que foi para os anos 90 o que Lost foi para a década passada, morreu sem deixar vestígios ou saudades em algum momento da virada do milênio (na verdade, em maio de 2002) e agora volta como a solução mirabolante de algum executivo da Fox para recuperar audiência sempre em queda da televisão tradicional neste século. A volta começou a acontecer em janeiro, quando os principais executivos da emissora norte-americana – Dana Walden e Gary Newman – confirmaram que estavam negociando com o criador da série Chris Carter. E agora, diz o site inglês TV Wise, o criador da série Chris Carter deverá escrever a história da nova safra, David Duchovny e Gillian Anderson já foram convidados e, voltando, a série deve ter entre seis e dez episódios em sua, er, décima (!) temporada. Agora é uma questão de ajustar agendas para definir quando ela retornará à tela de TV.

Arquivo X foi uma série cult que ajudou a fundar o que conhecemos hoje como segunda era de ouro da TV, inaugurada com os Sopranos no ano 2000. Contava a história da dupla de agentes do FBI Fox Mulder (Duchovny) e Dana Scully (Anderson) que lidava com uma divisão do escritório de investigação chamada “Arquivo X”. Este departamento reunia casos extraordinários ou sem explicação que iam de abduções alienígenas a lendas urbanas vivas, que eram catalogados pelo fanático Mulder, um agente que ostentava em seu escritório um pôster com a imagem de um disco voador e a frase “Eu Quero Acreditar”. Scully, que havia sido designada para trabalhar com Mulder por ser cética e pragmática, quase sempre ironiza a crença apaixonada de seu parceiro em uma enorme conspiração que, além de ser a origem dos casos que têm de lidar, também explicam o funcionamento do mundo como um todo, principalmente do ponto de vista político e tecnológico. Aos poucos Scully começa a acreditar em Mulder e os dois desenvolvem uma atração mútua que se estica em tensão sexual não-consumada.

Arquivo X acertou na veia das conspirações e foi, lentamente, tornando-se cult. A série começou a crescer a partir da segunda temporada, em 1994, basicamente num boca a boca que aos poucos dava-se conta de que as estranhas aparições semanais da série não eram apenas monstros e aberrações isoladas. Havia um padrão e, mais do que isso, uma fonte comum para aquelas bizarrices. A grande sacada da série foi equilibrar-se entre histórias semanais e uma grande história de pano de fundo, retomando um formato conhecido dos quadrinhos para a narrativa da TV. Aos poucos os novos fãs reconheciam os episódios isolados (o “monstro da semana”) das histórias que ajudavam a contar a saga da grande conspiração, que envolvia um pacto entre os governos do mundo com uma raça alienígena que havia chegado à Terra há milhares de anos para escravizar a humanidade num futuro próximo. Dá pra entender perfeitamente porque achavam que Mulder fosse louco.

O escopo da conspiração – que começava aparentemente pequena e ia crescendo com o passar da série – ajudou a consolidar uma mudança que David Lynch havia retomado ao formato com sua série Twin Peaks. Arquivo X abandona lentamente a fórmula dos seriados de sucesso da década anterior, em que cada episódio conta uma história fechada e você pode assistir aos episódios em ordem aleatória que os personagens serão os mesmos nas mesmas situações. Aos poucos ele vai convencendo seu público de que é preciso acompanhar a série semanalmente e debruçar-se sobre as pistas deixadas em cada capítulo semana a semana. Era o início da popularização da world wide web e fãs em todo o planeta – não apenas nos Estados Unidos – podiam acompanhar as discussões a respeito da série. Ao mesmo tempo, o VHS começava a ser substituído pela mídia digital e logo temporadas inteiras de Arquivo X poderiam ser acompanhadas sem esperar que a série fosse reexibida na TV (ou comprada por uma emissora, no caso do resto do mundo).

Revivals, adaptações, continuações, reboots e remakes têm sido a regra de Hollywood há pelo menos duas décadas e o próprio Arquivo X passou por isso em dois momentos, quando a série chegou às telonas num longo season finale em 1998 (no filme Fight the Future) e, dez anos depois, quando tentou reaparecer a partir de um outro longa metragem (o filme I Want to Believe), que não resultou em nada. A falta de criatividade que impera nos cinemas agora parece arrastar-se para a TV e, como Arquivo X, vários outros seriados tentam novas oportunidades de voltar à ativa, uns (Dr. Who, Battlestar Gallactica) mais bem sucedidos que outros (24 Horas, Arrested Development). Executivos preocupados com números de audiência preferem apostar na memória e nostalgia do público do que em contar histórias novas, que precisam de tempo para crescer (como todos os recentes sucessos da tal nova era de ouro da TV: Sopranos, The Wire, Lost, Breaking Bad, Mad Men…).

Se tudo der certo, as filmagens do novo Arquivo X começam no meio deste ano. Falta acertar a agenda dos dois protagonistas, ambos envolvidos em duas outras séries (Duchovny em Aquarius, Anderson na ótima The Fall), mas acho que a série funcionaria muito melhor se os dois não estivessem fixos no elenco deste retorno.

Imagine voltar ao universo de Arquivo X com novos agentes descobrindo velhos mistérios, fuçando monstros do passado que foram investigados por Mulder e Scully. Com os velhos protagonistas em cena, todo o passado terá de ser reexplicado em diálogos ou monólogos inúteis à narrativa, que funcionam apenas para contextualizar os novos fãs e que não precisariam ocorrer, pois os envolvidos já conhecem o que estão explicando. Se fossem novos agentes, tudo seria naturalmente explicado e a série original seria motivo para os novos fãs voltarem aos episódios dos anos 90, ganhando uma dimensão inteira de profundidade para os casos investigados hoje em dia. Não que Mulder e Scully ficassem alheios à série. Mas eles funcionariam mais como pontos de referência e fontes de informação do que como protagonistas. Aparecendo em capítulos específicos, aparições surpresa.

Mas, ao que tudo indica, veremos Mulder e Scully mais uma vez, vinte anos mais velhos, correndo para cima e para baixo de sobretudos pretos, fugindo de alienígenas e mercenários com lanternas e armas na mão. Me dá uma sensação de que vamos ver uma versão filmada do Scooby Doo…

E lembre-se que Twin Peaks volta no ano que vem! Ou seja, essa brincadeira de revival de séries está só começando…

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The Magic Whip, o novo disco do Blur, foi apresentado ao vivo para uma plateia de 300 fãs na sexta passada. E nesta quarta-feira este show será transmitido pelo YouTube, às cinco da tarde no horário de Brasília – e antes do disco vazar. Todo mundo vai conhecer o disco novo do Blur com a banda tocando-o ao vivo. Escrevi sobre essa sacada hoje no meu blog do UOL: http://matias.blogosfera.uol.com.br/2015/03/24/blur-pega-o-mundo-de-surpresa-e-lanca-online-disco-que-so-300-ouviram/

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Há exatamente 50 anos Bob Dylan lançaria o disco que mudaria completamente sua carreira e inaguraria os anos 60 como nós os conhecemos hoje. Escrevi sobre o Bringing it All Back Home na Ilustrada deste domingo, mas o texto inteiro não coube no papel, por isso publico a íntegra abaixo:

Trazendo tudo de volta para casa
Há 50 anos Bob Dylan lançava o disco que mudou sua carreira e a história da música pop, além de inaugurar os anos 60

Bob Dylan entrou no estúdio da Columbia naquele dia 13 de janeiro de 1965 exatamente doze meses depois de mudar drasticamente sua carreira. Há um ano ele lançara o disco The Times They Are a-Changing e e seu encontro com os Beatles, seis meses depois, lhe obrigou a repensar seus próprios rumos. O resultado daqueles três dias de gravação seria um disco que mudaria completamente sua biografia e a história da música pop, além de inaugurar os anos 60 como o conhecemos hoje em dia – Bringing it All Back Home foi lançado há exatos 50 anos, no dia 22 de março de 1965.

No fim de 1963 Dylan começou a abandonar o personagem “gente humilde” com o qual conquistou a cena folk nova-iorquina, que lhe elegeu herdeiro de Woody Guthrie, o bardo folk americano que era o símbolo da música do povo oprimido dos EUA. Em vez de músicas contemplativas e resignadas, ele começara a apontar o dedo desafiadoramente para as autoridades, com músicas que começavam a capturar o inconsciente coletivo norte-americano após o assassinato de John Kennedy, como “Masters of War” e faixa que iria batizar seu terceiro disco, lançado no início do ano seguinte.

Aquele novo repertório mudara completamente a relação de Dylan com seus fãs, que passavam de admiradores a devotos. Em poucos meses ele era eleito voz de sua geração e aos poucos começou a ver que havia se metido em uma enrascada. Para fugir deste papel, deu mais uma guinada, desta vez para dentro, cantando canções de amor mais introspectivas e com uma banda, ainda acústica. A nova fase foi registrada no disco Another Side of Bob Dylan, lançado em agosto daquele ano, que foi suficiente para causar reclamações dos fãs. Eles mal sabiam o que viriam.

No final daquele agosto, no dia 28, Dylan encontrou John, Paul, George e Ringo num quarto do hotel Delmonico em Nova York, onde fumaram um baseado juntos, o primeiro dos Beatles. Os quatro de Liverpool haviam tomado os EUA de assalto, preenchendo o vácuo afetivo do assassinato de Kennedy com gritos, guitarras e muito ritmo. Aquela mudança de sonoridade afetou diretamente Dylan, que antes de tornar-se centro da cena folk nova-iorquina, havia sido filhote dos primeiros dias do rock’n’roll. “Quando ouvi Elvis pela primeira vez”, repetiu em várias entrevistas, “sabia que nunca iria trabalhar na vida e que ninnguém iria ser meu patrão.” Dylan foi líder de bandas de baile nos anos 50 – como Shadow Blasters e Elston Gunn & The Rock Boppers – e desistiu do rock quando Buddy Holly morreu. Mas o sucesso e a energia dos Beatles o reanimaram – sem contar que eles eram ingleses inspirados por música americana. Era hora de trazer aquela energia de volta pra casa.

E foi com essa disposição que entrou no estúdio nova-iorquino em 1965. Na mesa de comando, o produtor Tom Wilson, que havia trabalhado nos discos anteriores de Dylan, estava disposto a fotografar o que quer que Dylan trouxesse. E ele trouxe um calhamaço de canções completamente novas, que misturavam citações bíblicas, a história dos Estados Unidos e poesia francesa do final do século 19, empilhando citações de forma cínica, completamente distante do Dylan heróico do ano anterior.

O primeiro dia de gravação foi um aquecimento, em que Dylan testou formações e sonoridades. Colocou o guitarrista John Sebastian, que nunca havia tocado baixo, para assumir o instrumento, sentou-se ao piano na maior parte do dia, o novato Kenny Rankin para tocar guitarra elétrica, que também nunca havia feito. A torrente de palavras das canções era reflexo de uma viagem de carro pelos Estados Unidos de costa a costa, quando, no banco de trás do carro, Dylan ia datilografando poemas, letras de músicas e comentários aleatórios. As novas canções foram apresentadas por um Dylan sempre de terno preto e RayBan Wayfarer, rindo e sorrindo muito mais do que o normal.

Nos dois dias seguintes, gravou o disco, composto quase inteiro por clássicos, em pouquíssimos takes. Seu lado A, elétrico, começa com a avassaladora “Subterranean Homesick Blues” confundindo completamente os fãs ao misturar política, frases de efeito e a paranoia da guerra fria. Na mesma linha, a cáustica “Maggie’s Farm” e a épica “Bob Dylan’s 115th Dream” (que é interrompida logo no início por uma crise de riso pois a banda não conseguiu acompanhar Dylan) mostravam que a eletricidade e histórias criadas a partir do imaginário norte-americano eram um caminho sem volta.

No lado B, acústico, o disco trazia músicas que mostravam que Dylan, mesmo só ao violão, estava indo muito além do folk, graças a canções como a enigmática “Mr. Tambourine Man” e as cruas “Garden of Eden” e “It’s Alright Ma (I’m Only Bleeding)”. O disco terminava com uma de suas canções mais emblemáticas, “It’s All Over Now, Baby Blue”, que antes de repetir seu título pela última vez, desafia o ouvinte ao mostrar que as regras haviam mudado: “Strike another match, go start anew” – “risque outro fósforo (ou comece mais uma briga), vamos recomeçar tudo de novo.”

Mal sabiam – Dylan e fãs – como tudo iria mudar no decorrer de 1965. “Mr. Tambourine Man” iria parar no topo da parada dois meses depois graças a uma versão dos Byrds que inaugurava o folk rock. Os Rolling Stones gravariam “Satisfaction” inspirados pelo pedal fuzz que Dylan usara em “Subterranean Homesick Blues”. O próprio Dylan gravaria sua canção-símbolo – “Like a Rolling Stone” – em menos de um semestre, além de fechar a tríade de discos que o consagrou (Highway 61 Revisited e Blonde on Blonde) em pouco mais de um ano. O rock começava a deixar de ser visto como música de adolescente e os anos 60 começavam a mudar inesperadamente. E está tudo ali em Bringing it All Back Home.

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Dentro da capa

  1. A criação da cena da capa do disco de 1965 é considerada transgressora no mercado fonográfico por tratar-se como parte da criação artística e não como rótulo de um produto à venda. Sem esta mudança, capas de clássicos como Sgt. Pepper’s e Dark Side of the Moon seriam bem diferentes.
  2. Foi o primeiro disco de Bob Dylan sem nomes de canções na capa. A gravadora Columbia não gostou da mudança, mas o empresário de Dylan, Albert Grossman, foi categórico e não quis negociar.
  3. É a primeira vez em que Dylan não posa como um personagem do povo, usando roupas de popstar.
  4. Também é o primeiro disco em que Dylan olha para a câmera na foto da capa, dando origem a um padrão reconhecido por seus fãs: que quando Dylan reconhece a grandiosidade de seus discos, ele revela isso olhando para o ouvinte em sua capa.
  5. A mulher que olha desafiadoramente para a capa é Sarah Grossman, esposa do empresário de Dylan. A foto foi tirada na sala de estar da casa de campo do casal, em Woodstock.
  6. Bem antes do Photoshop, o fotógrafo Daniel Kramer criou um aparato para girar lentamente a lente da câmera e embaçar os cantos da foto, para causar a sensação do “universo estar se movendo ao redor” de Bob Dylan.
  7. Espalhados entre Dylan e Sarah estão discos dos Impressions (Keep on Pushing), de Robert Johnson (King of the Delta Blues Singers), de Ravi Shankar (India’s Master Musician), de Lotte Lenya (Sings Berlin Theatre Songs by Kurt Weill) e de Eric Von Schmidt (The Folk Blues of Eric Von Schmidt).
  8. No fundo da cena, seu disco anterior, Another Side of Bob Dylan, está próximo a uma lareira que fica em uma parede cheia de referências do século 19. É como se Dylan dissesse que, alé de pertencer a um passado distante, sua carreira anterior poderia ser jogada no fogo.
  9. Dylan segura um gato cinzento chamado Rolling Stone. Sete meses depois ele gravaria sua maior canção, chamada “Like a Rolling Stone”.

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A notícia de um documentário sobre Amy Winehouse pode ser só uma primeira mudança na tendência de olharmos para o passado. Falo mais sobre isso num post de hoje do meu blog no UOL: Documentários sobre o passado vão nos trazer de volta para o presente.

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Quase toda semana há um novo documentário sobre algum artista, já percebeu? Quando não é um documentário é um filme inspirado na vida de algum nome célebre ligado à cultura. Ou uma peça. Ou um musical. Ou um seriado. Não importa o formato: o fato é que a história da cultura popular do século 20 tem servido continuamente como fonte de inspiração para novas obras – que, por mais que tentem se reinventar, apenas vendem o velho.

A novidade desta semana foi o anúncio do documentário Amy, sobre Amy Winehouse, dirigido pelo mesmo Asif Kapadia que há cinco anos dirigiu o ótimo Senna, sobre o piloto brasileiro. É mais um filme que se debruça sobre milhares de horas de imagens disponíveis sobre seu personagem, inclusive várias que nunca vieram a público, para tentar traçar um perfil psicológico de uma pessoa que vive uma vida comum e em pouco tempo torna-se uma celebridade de primeira grandeza. O filme foi anunciado apenas com um pôster e sua data de estreia foi marcada para julho deste ano. Um trailer aparecerá em breve.

Mas Amy Winehouse, por maior que tenha sido, não chegou ao status de estrela graças apenas à sua personalidade artística. Metade de sua fama veio com os paparazzi, o excesso de exposição e a overdose midiática que acompanha qualquer popstar atualmente. A forma como Amy lidou com esta fama acabou custando-lhe a vida – e até outro dia líamos sobre ela nas páginas dos jornais, das revistas e da internet.

Eis uma mudança neste cenário cultural que revisita ícones do passado com uma frequência cada vez maior: Amy Winehouse morreu há quatro anos. Um documentário sobre sua vida talvez fizesse sentido como item jornalístico logo após sua morte, mas esta velocidade para transformar-se em obra cinematográfica é uma tendência cada vez maior. Afinal, não é um caso isolado – aqui mesmo no Brasil a vida do vocalista do Charlie Brown Jr., Chorão, que morreu há dois anos, já virou o musical Dias de Luta, Dias de Glória.

Há uma variação, portanto, de uma tendência detectada pelo escritor e crítico inglês Simon Reynolds em seu já clássico livro Retromania: Pop Culture’s Addiction to its Own Past (Retrômania: O vício da cultura pop em seu próprio passado, ainda inédito no Brasil), de 2011. Nele o autor flagra uma obsessão com o passado recente da cultura popular em caixas de CD, reedições de luxo, shows que reproduzem discos antigos na íntegra, DVDs cheios de extras. Ele usa o excesso de produções que revivem diferentes épocas de ouro para dizer que a produção cultural do século 21 é vazia e que necessita de referências do passado para validar-se.

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Exagero. Há todo um espectro da cultura de nossos dias que, sim, cita, celebra e repete ícones do século passado, mas eles são quase sempre destinados a uma nova classe de consumidores adultos, que vive num mundo com uma produção cultural cada vez mais intensa e de oferta avassaladora de opções à venda – sem contar as gratuitas. Por isso usar de uma história já conhecida, falar de personagens que não precisam ser apresentados ao público ou recorrer a canções que todo mundo já conhece são recursos que facilitam a captura da atenção do consumidor.

Mas há uma classe de consumidores que nem percebe o que está nas capas de revista ou nas vitrines das megastores. Movimenta-se pela internet e consome conteúdo quase sempre de graça, trocando links, filmes, games, fotos e músicas com a mesma facilidade com que se trocam emails. O que essa nova juventude consome é irreconhecível a esse consumidor adulto que frequenta cinemas nos shoppings e lota shows de artistas que ganham mais dinheiro depois de terem saído da aposentadoria para fazer shows. São vídeos que ensinam a passar de fase em jogos eletrônicos, clipes caseiros que parecem superproduções graças a efeitos especiais, músicas de artistas cada vez mais jovens e desconhecidos, monólogos no YouTube. A “retrômania” detectada por Simon Reynolds diz respeito a uma geração nascida no século 20. Os que nasceram no século 21 – ou alguns anos antes – já estão em outra.

O que é perceptível dentro dessa onda de filmes, musicais, documentários é que por mais que a fonte de novidades a partir de clássicos ou raridades do passado pareça infindável, ela não é. E o fato de estarmos vendo este tipo de produção voltar-se para pessoas que até outro dia estavam nas manchetes dos jornais tentando vender sua própria originalidade mostra que em pouco tempo não precisaremos que estas celebridades morram para que possamos assistir às histórias de suas vidas contadas em grande escala.

Isso colide com uma tendência que tem misturado o jornalismo ao cinema documental, fazendo que profissionais que em outras épocas estavam em redações de jornais, revistas ou emissoras de TV se dediquem à produção de longas metragens de não-ficção. Como essa tendência também faz parte da reclamação sobre “retrômania” detectada por Simon Reynolds, muitos filmes estão sendo produzidos sobre o passado. Mas há uma parcela cada vez maior de documentários sobre o que acontece nos dias de hoje.

Isso pode responder a uma dúvida fundamental em qualquer indivíduo que tenha uma vida digital hoje em dia: o que fazer com tantos vídeos, fotos e gravações das nossas rotinas? Esse excesso de registros vai ajudar os jornalistas-cineastas de um futuro bem próximo a contar histórias de forma mais aprofundada, detectar perfis emocionais a partir de imagens caseiras, afundar-se em personalidades complexas a partir de milhões de registros sobre elas.
Talvez os documentários sejam as matérias de capa de revista no futuro próximo que extingue o consumo de informação através do papel.

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“Blurred Lines” foi considerada plágio de uma música de Marvin Gaye por ter uma ~vibe~ parecida. Como essa decisão judicial pode dar origem a mais processos e frear a criatividade não só na música, mas em todas as áreas da cultura: Uma decisão judicial que pode redefinir o futuro do entretenimento.

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A disputa judicial em que a família de Marvin Gaye acusa Pharrell e Robin Thicke de usarem “Got to Give It Up”, hit disco music do soulman, como base para a irresistível “Blurred Lines” não é só mais um capítulo de uma velha história. Não estamos mais falando de sequências de notas, acordes, métrica ou qualquer outro elemento mensurável dentro do espectro da canção. O juiz que obrigou os dois intérpretes da canção de 2013 a pagar pouco mais de sete milhões de dólares à família Gaye deu sua sentença a partir da semelhança de “sensação” entre as duas canções.

Clique aqui para ouvir “Got to Give it Up”, de Marvin Gaye

Clique aqui para ouvir “Blurred Lines”, de Robin Thicke e Pharrell

Pois repare em ambas. Elas não têm melodia parecida, seus refrões são bem diferentes, as letras não foram inspiradas umas nas outras. O que têm em comum? O ritmo. A levada. O groove. A sensação. Um sentimento inquantificável que faz o ouvido destreinado achar todas as músicas dos Ramones, do Luiz Gonzaga, do AC/DC e de Little Richard idênticas entre si. E é aí que mora o perigo.

A inspiração artística – e não apenas musical – quase que inevitavelmente passa pelo caminho do plágio – ou de primos seus, como a apropriação, a paródia, a imitação, a homenagem, a citação, a colagem. Nem todo mundo copia, mas são raros os criadores realmente originais, que não se inspiram em outros autores, surrupiando ideias e recontextualizando conceitos aqui e ali. A história da arte pode ser contada a partir da história das cópias – e todo grande autor passou, necessariamente, por um período copiador. A frase “talento imita, gênio rouba”, escrita por T.S. Eliot (e atribuída erroneamente a Picasso ou Oscar Wilde) é a síntese desta lógica.

Mas veio o século 20 e com ele as tecnologias de registro e a difusão do conceito de copyright. Se isso garantia retorno financeiro a autores de obras à venda, por outro lado limitava a criação de novos trabalhos a partir de obras já existentes. Acusações de plágio poderiam minar pilares do modernismo, como o Ulysses de James Joyce ou a L.H.O.O.Q. de Duchamp (a Mona Lisa de bigodes). Mas vieram ganhar corpo junto ao negócio da música – mesmo porque é onde ganha-se muito dinheiro.

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A segunda metade do século 20 viu uma série de ações legais contra hits instantâneos, que se agravou ainda mais após a invenção do sampler, nos anos 80. O aparelho permitia usar trechos gravados de músicas já existentes como retalhos na construção de rapsódias de ritmo e foi largamente aceito entre dois novos gêneros, o da música eletrônica e do hip hop. Há discos inteiros no final dos anos 80 e começo dos anos 90 que se aproveitaram da zona cinzenta do direito autoral aberta pelo sampler que se fossem realizados hoje só sairiam após o pagamento de altas cifras.

Mas uma subcultura autoral passou o século 20 inteiro sem a intromissão de cortes legais. Linhas de baixo, cadências rítmicas e levadas cheias de groove ritmos sempre foram sampleados, mesmo antes do sampler existir como recurso tecnológico. A história da música pop do século 20 também é a história da evolução de uma troca de referências musicais entre diferentes países, épocas, artistas e mercados que não corriam o risco de sofrer acusações de cópia pois a origem musical do mercado fonográfico era europeia, uma cultura que sempre deixou percussão e ritmo como parte coadjuvante da musicalidade, dominada pela melodia e pela harmonia.

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Longe dos tribunais, a cultura do baixo atravessou o século 21 transformando o blues em jazz e depois em rock, se esgueirando pelo rhythm’n’blues e pela soul music foi parar na Jamaica onde nasceu primeiro o ska, depois o rock steady, o reggae e finalmente o dub. Unidos pela ascensão global da música pop, funk e reggae deram as cartas que se transformaram primeiro na disco music e, posteriormente, em todo o universo de subgêneros de música eletrônica (house, techno, drum’n’bass, trance) que nasceu a partir da implosão da discoteca no início dos anos 80, entre eles o hip hop. Todos esses gêneros musicais se espalharam pelo planeta de diferentes formas, dando origem a outros subgêneros musicais locais. O fato do ritmo, do groove, da levada não poderem ser registradas deu origem a uma multiplicidade cultural que é a paisagem de nosso cenário atual.

Até a família de Marvin Gaye ter ganho a causa sobre Robin Thicke e Pharrell. Isso abre um precedente perigosíssimo que pode, inevitavelmente, transformar gêneros musicais inteiros em foras da lei só pelo fato de eles se moverem através da apropriação musical de bases rítmicas.

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“O veredito aleija qualquer criador que possa estar fazendo algo que foi inspirado por outra coisa. Isso pode ser aplicado para moda, música, design… tudo. Se perdermos nossa liberdade de sermos inspirados, quando menos percebermos a indústria do entretenimento como a conhecemos estará congelada por processos. Isso diz respeito a proteger os direitos intelectuais de quem tem ideias”, disse o rapper Pharrell em entrevista ao jornal Financial Times.

E para mostrar que não é apenas discurso de perdedor, o produtor de cinema Harvey Weinstein faz coro ao pessimismo de Pharrell com a decisão judicial. “Fico muito preocupado com esta noção”, disse ao mesmo jornal. “Que cineasta não poderia processar outros cineastas por um filme que passe uma sensação parecida com a de outro? É profundamente preocupante. Imagine Roy Lichtenstein e Andy Warhol, que usaram muitas coisas de outras fontes. Nada disso existiria.”

É uma decisão judicial que pode ter desdobramentos nada otimistas para quem trabalha com criatividade e arte. Quais os próximos passos? Patentear cores? Formatos? Palavras?

MMGL

Dois anos depois de Gabriela Deptulski começar a emanar vibrações de Colatina, no Espírito Santo, dá pra ver como seu My Magical Glowing Lens cresceu. Não é mais uma menina num quarto cheio de pedais e guitarras ligadas num computador, virou uma banda, tem gravadora (a gaúcha Honey Bomb Records), fez shows pelo Brasil e agora lança sua primeira música em 2015 com exclusividade no Trabalho Sujo. “Windy Streets” é a faixa-titulo de seu primeiro EP e conta com uma mão do grupo nova-iorquino Post Nobles na parte final da canção.

“Nos conhecemos por causa da banda Tame Impala, no grupo do Facebook relativo a eles. Somos fascinados por essa banda. Kieran O’Leary, o baixista do The Post Nobles, é um multi-instrumentista completamente apaixonado por produção musical. Nos identificamos assim que nos conhecemos e resolvemos lançar dois singles: um comigo fazendo uma participação em uma música deles, que foi lançada semana passada, e outro single com eles fazendo uma participação em uma música minha”, conta Grabriela.

2015 é o ano de transição de seu trabalho, quando ela começa a compor e gravar com a nova banda, que ainda apenas toca as faixas compostas por Gabriela. “Os planos pra esse ano são continuar a fazer show com a banda e dar início à gravação das músicas novas. Dessa vez, quero incluir os novos integrantes do MMGL nesse processo. A produção ainda será minha, mas quero que eles participem das gravações”, explica. Além dela, o MMGL agora conta com Pedro Moscardi (baixo e teclado), Raími Leone (guitarra) e RafaelBorges (bateria).

Tocar ao vivo também tem sido uma novidade pra Gabriela: “Está sendo quase uma experiência mística, o show tem uma vibe absurdamente mágica. O entrosamento entre todos da banda foi praticamente imediato. Todos nós gostamos muito de improvisar, então desde o primeiro ensaio já começamos a transformar os finais de três músicas em jams, de modo que o show é diferente a cada vez. Os meninos são demais, eles tocam muito, mas muito bem. E não só isso, são completamente apaixonados pela intensidade que a música nos fornece quando a tocamos ao vivo, então o show é bem intenso!”

Ficamos esperando ela aparecer em São Paulo. Enquanto isso, aumenta o som e boa viagem:

Escrevi sobre o Manifesto Neo-Troglodita do Jarvis Cocker, O Círculo de Dave Eggers e sobre o episódio do final do ano de Black Mirror (o White Christmas) lá no meu blog do UOL: http://matias.blogosfera.uol.com.br/2015/03/16/de-que-adianta-se-desconectar-da-internet/

jarvis-caverna

Jarvis Cocker, vocalista da banda Pulp e um dos comentaristas culturais mais importantes da da virada do século, lançou o “Nu-Troglodyte Manifesto” (Manifesto Neo-Troglodita) na edição deste mês da revista AnOther, um manifesto quase grunhido contra a onipresença da tecnologia e a volta para a idade da pedra. Traduzo-o abaixo:

“Onde você pode encontrar paz?
Onde você pode encontrar silêncio total?
Escuridão completa?
Aqui.
Sem sinal de celular.
Sem wi-fi.
Sem TV.
Sem rádio.
Este é o som de verdade do submundo: (porque, sabe, estamos no submundo de verdade)
Nenhuma influência de fora.
Uma tela em branco.
Quer dizer, não exatamente em branco – olhe para essas paredes: o que você vê quando olha pra lá? Você vê rostos? Padrões? Eles não estão lá, você sabe – do mesmo jeito que não há nenhum escorpião, urso ou caçadores sobrevoando o céu à noite. O universo é aleatório: só o homem que tenta estabelecer um padrão. Fazer que possa significar algo.
Mas esses padrões não são bons o suficiente como são? Sem nenhuma interpretação? E você não adoraria poder fazer algo tão lindo quanto isso? Claro que sim. Mas ninguém fez: apenas aconteceu.
Estalagmites
Estalactites
Qual é qual?
“Tights come down” * (uma maneira crua mas eficaz de lembrar)
Essas coisas levaram 20 mil anos para se formar, sabe.
E eu pensei que eu fosse lento no trabalho…
É uma coinciência que o clube que viu nascer o grupo musical mais influente e significante do século passado chamase-se “A Caverna”?
Não acho.
E por que as melhores casas noturnas ficam em porões escuros e sombrios com tetos baixos?
Fácil:
Porque nos lembra de estar lá… De volta às cavernas, digo – vamos lá: por que você acha que era chamado de música da pedra (rock music) em primeiro lugar?
Foi aqui que tudo começou.
Um antepassado da sua família morou aqui certa vez.
O Des-Res original **
Agora é hora de voltar pra casa
Hora de voltar à fonte
Hora de escapar da tagarelice constante infinita sem sentido que lhe distrai de quem realmente você é e o que você realmente quer fazer.
Não há lugar pra pensar aqui
Lugar pra viver
Entre (cuidado com a cabeça)
Sente-se
Olhe para uma pedra
Vamos começar tudo de novo.”

Jarvis clama para uma volta às raízes da natureza humana quando o homem sequer era homo sapiens, uma espécie de romantismo extremo, transformando a caverna pré-histórica em uma Arcádia bruta e animalesca. Na verdade ele canaliza uma sensação recorrente a todos nós: somos bombardeados por tantos contatos, fotos, mensagens, vídeos e links que a única solução que parece ser possível é largar tudo e fugir para vender coco na praia ou construir seu próprio chalé no campo, longe das barbaridades do século 21.

É um tema cada vez mais frequente na cultura atual – a onipresença da tecnologia em nossas vidas e a ascensão do capitalismo eletrônico criaram um híbrido distópico que reúne os piores pesadelos do século 20. Nem George Orwell em seu 1984 conseguiu imaginar uma sociedade em que as pessoas carregam câmeras e localizadores nos próprios bolsos, deixando rastros digitais por onde andam, sem nem cogitar fugir do Grande Irmão (nome de um dos programas mais populares atualmente). E nem Aldous Huxley conseguiria cogitar distrações tão inacreditáveis em seu Admirável Mundo Novo quanto as que tomam conta de nossa rotina digital, em bipes e luzes nos celulares, números que se acumulam nas redes sociais, abas abertas com todo o tipo de conteúdo disponível, de planilhas de valores a fotos NSFW.

Um dos livros mais importantes de 2013, traduzido ano passado para o Brasil, é O Circulo, de Dave Eggers (Companhia das Letras). É uma distopia disfarçada de entrevista de emprego ou comercial de departamento de RH, em que acompanhamos ascensão e queda de duas amigas no trabalho. Ambas trabalham na empresa que batiza o livro, uma startup que conseguiu ultrapassar Google e Facebook num futuro próximo ao criar um sistema de identificação que aposenta o conceito de senhas e muda nossa relação com a internet – de novo. O livro descreve o maravilhoso campus da empresa – cool, clean, hi-tech e cheio de regalias – ao mesmo tempo em que mostra que a rotina de trabalho dos funcionários se mistura cada vez mais com o tempo livre, tornando a participação social uma exigência quase compulsória. A trajetória das duas principais personagens – Annie e Mae – se diverge à medida em que nos afundamos nos segredos e inovações tecnológicas de uma empresa que tem como lemas frases como “segredos são mentiras”, “compartilhar é cuidar” e “privacidade é roubo”.

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O Círculo é pessimista com o mesmo sorriso que as pessoas dão quando tiram selfies. Seu final assustador mostra que estamos só arranhando uma superfície de perigo, mexendo em campos minados que podem mudar completamente a história de nossas vidas.

(Pra quem já leu o livro, um agrado – viu que lançaram o SeeChange da vida real?)

Ainda mais pessimista foi o especial de natal que a série inglesa Black Mirror, produzida pela BBC, exibiu no final do ano passado. Criado pelo genial Charlie Brooker, um dos críticos culturais mais ácidos na Inglaterra atualmente, a série não conta uma história, apenas pequenos contos sobre nosso relacionamento com a tecnologia. São duas temporadas, cada uma com três episódios com pouco mais de meia hora, que contemplam a alienação, a violência, o deleite, o nojo e a opressão causada pela comunicação digital, em contos tétricos e de um humor pessimista e bizarramente hilário. O título da série é uma referência às telas que olhamos diariamente quando são desligadas, revelando um espelho negro que reflete todos nossos anseios. É o mais próximo de um Além da Imaginação produzido para o século 21 que se tem notícia.

O especial de natal, batizado de Black Mirror: White Christmas, é especialmente aterrador. Mistura realidade aumentada, implantes nos olhos, armazenamento externo de lembranças pessoais, serviços de relacionamento, inteligência artificial, prevenção de crimes, ordens de restrição. Protagonizado pelo Don Draper de Mad Men (o ator Joe Hamm), o episódio se passa num futuro próximo mas faz referências a várias tecnologias que já estão sendo usadas em nosso dia a dia. Ele apenas cogita a possibilidade de popularização destas, quando todas as pessoas usarem tudo que já é disponível hoje – além de um tiquinho de ficção científica.

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Mais livros, filmes e discos (e sites e perfis em redes sociais e aplicativos e plugins) surgirão para nos alertar sobre os perigos do mundo digital, a insegurança da vida na internet, a necessidade de desconexão da rede. É uma mudança inevitável. Não dá para desplugar a internet ou voltarmos às máquinas de escrever, telefones fixos e fotos que precisavam ser reveladas sem que colocar o mundo em colapso. As vantagens da era eletrônica justificam sua existência até agora, mas precisamos aprender a usá-la.

Tiramos fotos de nós mesmos sem parar, postamos tudo que fazemos nas redes sociais, usamos aplicativos pra tudo em qualquer instante porque são novidades que nos foram apresentadas agora. Estamos nos lambuzando de tecnologia e de internet porque até outro dia tais facilidades não existiam. É como se estivéssemos gastando o que dá antes que tudo se acabe.

Mas é uma questão de hábito, uso e educação – esse é o nosso desafio para com as ferramentas digitais que estão moldando sim uma nova cultura. Não há escapatória – este novo romantismo é tão reacionário quanto o primeiro, que achava que a era industrial ia destruir uma paz no campo que só existe na cabeça de quem nunca morou no campo. Já escrevi inclusive sobre como essa venda de cocos na praia ou essa choupana rural é ilusória se isolada do resto da sociedade. Esse Walden só é possível mentalmente e talvez seja isso que Jarvis Cocker esteja pregando no manifesto neo-trogolodita: a volta para a caverna da mente.

* Duas N. do T. em relação ao texto de Jarvis Cocker: A frase “tights come down” (“calças caem”) não faria sentido ao ser traduzida literalmente porque é parte de uma brincadeira fonética em inglês para decorar a diferença entre estalagmites (que saem do chão) e estalactites (que saem do teto). A expressão completa é “Mites come up, tights come down” e é traduzida literalmente como “insetos sobem, calças descem” para lembrar a direção de ambas formações a partir de seu sufixo: “mites” lembra “estalagmite” e “tight” lembra “estalactite”.
** A segunda nota se refere ao acrônimo “Des-Res”, usado pelo mercado imobiliário inglês para explicitar que determinado imóvel (especialmente após reformas) é uma “residência desejável” (“desirable residence”, “des res”).

Aproveitei o lançamento do trailer do Demolidor pra falar, lá no meu blog do UOL, como a Marvel tem acertado direitinho ao aplicar a narrativa transmídia ao seu plano de dominação do entretenimento do futuro: http://matias.blogosfera.uol.com.br/2015/03/14/o-experimento-transmidia-da-marvel/

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A Marvel finalmente mostrou a cara do novo Demolidor, que agora é um seriado, que estreia através do Netflix no dia 10 de abril. O trailer que conta a história de Matt Murdock, advogado cego que atua como vigilante à noite, interpretado por Charlie Cox, parece indicar que as adaptações dos personagens da chamada Casa das Ideias seguem cada vez mais criteriosas e próximas das expectativas dos velhos e novos fãs em relação a personagens que já habitam o nosso inconsciente coletivo há mais de meio século. Mas não é só isso que a Marvel vem fazendo em sua escalada no mundo do cinema que agora começa a dominar a TV. O estúdio está colocando em prática – com maestria e numa escala bilionária – uma lógica de contar histórias que foi comemorada em diferentes momentos da cultura pop recente, sempre apontada como sendo o futuro do entretenimento e da produção cultural. Grande parte do sucesso da Marvel vem da aplicação prática e consciente do conceito de comunicação transmídia.

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Essa lógica hoje em dia é simples de entender devido à própria natureza da fragmentação de nosso cotidiano e consiste em contar uma história em diferentes plataformas. O conceito de narrativa transmídia ganhou essa denominação há pouco mais de uma década ao ser popularizado pelo comunicólogo norte-americano Henry Jenkins em seu livro Cultura da Convergência (Ed. Aleph), mas já vinha sendo aplicado há décadas em diferentes ocasiões e situações, cada uma com sua distinção particular. É importante não confundir com o simples conceito de marketing, que leva um personagem ou ícone para diferentes produtos. A narrativa transmídia pressupõe que a história seja contada em diferentes mídias – em que o maior desafio é desmembrar a história em vários outros roteiros menores sem que seja obrigatório desfrutar tudo para que se compreenda a história.

Os exemplos mais bem sucedidos disso talvez sejam a saga Guerra nas Estrelas, de George Lucas; a trilogia Matrix, dos irmãos Wachowski, e a série Lost, de J.J. Abrams. A história do clã Skywalker começou em 1977 como um filme que gerou continuações, mas desdobrou-se em livros, games, quadrinhos e merchandising sempre com um cuidado enciclopédico em preservar a própria mitologia. Matrix, de 1999, resolveu apostar neste formato até pela natureza de sua história, que se passa entre dois um universos – um cru e real, outro digital e fictício, e além dos três filmes que compunham a história original também teve desdobramentos em livros, quadrinhos, desenhos animados e games, sempre trazendo mais informações para a história principal de Neo, contada nos filmes. A série de J.J. Abrams, de 2004, aproveitou-se da popularização da internet do início do século e da invenção de novas plataformas digitais, como o YouTube, as redes sociais e os blogs para contar a história do que aconteceu com o voo 815 da Oceanic.

Nos três casos, havia uma história principal (contada nos filmes e na série) que era amparada por historietas paralelas e desimportantes para a trama principal. Afinal um dos pressupostos da narrativa transmídia é não obrigar o público a consumir tudo, permitir que a história possa ser acompanhada apenas na principal plataforma.

A Marvel dá um passo além nessa jornada e consciente. Sua transição para as telas de cinema teve que sacrificar os direitos autorais de pelo menos três grandes franquias da editora de quadrinhos (Homem-Aranha, Quarteto Fantástico e X-Men) em parcerias com estúdios de Hollywood que funcionaram como estágio para a Marvel dar seu principal salto como empresa e transformar-se ela mesma num estúdio. E desde o primeiro Homem de Ferro (2008), a empresa sabia que não estava simplesmente contando histórias de seus personagens em separados em filmes diferentes e sim contando uma longa história em diferentes filmes.

Não eram mais apenas continuações de filmes de super-herói. Cada filme contava a história de um super-herói até que, no finzinho, graças a um detalhe que virou marca registrada dos filmes da Marvel, Samuel L. Jackson aparecia como o Nick Fury imaginado por Mark Millar na série de quadrinhos The Ultimates (Os Supremos, no Brasil), a versão século 21 para os Vingadores, o grupo de super-heróis que reúne Thor, Hulk, Capitão América, Homem de Ferro, entre outros. Logo no primeiro Homem de Ferro, Fury fala de uma certa “iniciativa Vingadores”, que muito bem poderia ser um codinome para a estratégia bolada pelo estúdio.

Veio o primeiro Homem de Ferro e depois o segundo em 2010, o primeiro filme do Thor e o primeiro filme do Capitão América, ambos em 2011. Cada um contando a história de um dos heróis, mas sempre com a participação final de Nick Fury ou de um de seus agentes, Coulson (Clark Gregg), que fazia a amarração entre os filmes até o final apoteótico que reuniu os quatro super-heróis no mesmo filme, o bilionário Vingadores, de 2012, que tornou-se o terceiro filme que mais ganhou dinheiro na história do cinema, ultrapassando Harry Potters, Guerra nas Estrelas, Transformers, Batmans, Piratas do Caribe e ficando atrás apenas de Avatar e Titanic.

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Os Vingadores era só o fim da primeira fase, como se diz nos videogames. Ou da primeira temporada, como no mundo das séries. Ou do primeiro arco, como se chama nos quadrinhos, uma grande história contada em diferentes revistas. O conjunto de cinco filmes que inaugurou o estúdio Marvel era uma longa obra contada em diferentes produções, que funcionam de modo independente. Finda a primeira fase, o estúdio deu início à segunda, que começou com o segundo filme do Thor (O Mundo Sombrio), em 2013, o segundo filme do Capitão América (O Soldado Invernal) e pelos Guardiões das Galáxias, ambos do ano passado e conclui com o segundo filme dos Vingadores (A Era de Ultron) e a estreia do Homem Formiga (estrelado por Paul Rudd), em maio e julho deste ano, respectivamente. A terceira fase é a mais ambiciosa será inaugurada ano que vem com um terceiro filme do Capitão América (Guerra Civil) e o primeiro filme do Doutor Estranho (com Benedict Cumberbatch), segue em 2017 com o segundo Guardiões das Galáxias e o terceiro Thor (Ragnarok); continua em 2018 a primeira parte do terceiro filme dos Vingadores (Guerra Infinita), a estreia do Pantera Negra (o primeiro protagonista negro de um filme da Marvel) e do filme da Capitã (!) Marvel (a primeira mulher protagonista de um filme da Marvel) e conclui em 2019 com o filme dos Inumanos e a segunda parte de Guerra Infinita. Ufa!

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Mas isso tudo é só cinema. As histórias em quadrinhos deram origem aos filmes, mas foram adaptações de roteiros existentes, não havia diálogo entre HQs e filmes. O experimento transmídia da Marvel começou mesmo ao final da primeira fase nos cinemas, quando foi anunciado a série Agents of S.H.I.E.L.D., que começou em 2013 e contava a história da agência secreta de inteligência liderada por Nick Fury. Coadjuvante na história principal dos filmes no cinema, o agente Coulson foi catapultado ao papel de protagonista e na primeira temporada da série produzida em parceria com a emissora ABC, ela fazia coro simultâneo com os filmes da segunda fase – personagens de Thor apareceram na série quando o segundo filme de Thor chegou aos cinemas e referências semelhantes aconteceram em relação ao segundo filme do Capitão América e, na segunda temporada, com Guardiões da Galáxia. E certamente farão isso no próximo Vingadores e no Homem Formiga.

A segunda série da Marvel, Agente Carter, se passa após a Segunda Guerra Mundial e parece estar desconectada da linha principal das histórias, mas sua protagonista (a primeira mulher a encabeçar o elenco de uma produção do estúdio, Hayley Atwell) foi namorada do Capitão América (que ficou congelado e foi reanimado nos dias de hoje, essa é a mitologia básica do personagem) e ela é amiga de Howard Stark (o personagem inspirado em Howard Hughes que é o pai de Tony Stark, o Homem de Ferro) e de seu mordomo Edwin Jarvis (cujo nome batiza a inteligência artificial que toma conta da vida de Tony). Além disso, ela trabalha na S.S.R., uma agência de espionagem que pode se tornar a S.H.I.E.L.D. num futuro próximo.

Demolidor é uma das novidades da Marvel na TV para este ano – e muda também uma das formas de contar a história ao associar-se com o Netflix e não com um canal de TV tradicional. Seguindo o formato das séries do serviço de assinatura de filmes online, todos os episódios da primeira temporada do seriado estrearão no mesmo dia, 10 de abril. Ainda este ano veremos a segunda série da Marvel com a Netflix, A.K.A. Jessica Jones, e mais outras três estarão sendo produzidas, Punho de Ferro, Cage e Defensores, esta última reunindo os quatro primeiros personagens numa só série.

Ou seja, eles estão fazendo exatamente o que fizeram nos cinemas com a TV: apresentando personagens em obras isoladas (desta vez, séries, não filmes) para reuni-los numa mesma série depois e, certamente, interligá-los com outros filmes e séries que virão.

Há uma diferença estética e de proporção nestes seriados da Marvel com a Netflix em relação às obras do cinema: são heróis mais humanos que sobre-humanos, que lutam habilmente mas não têm propriamente superpoderes. Também são heróis de determinadas vizinhanças. Os Defensores não conseguiriam lidar com uma invasão alienígena como os Vingadores fizeram em seu primeiro filme. Por isso vai ser interessante cogitá-los como coadjuvantes de filmes cujos super-heróis protagonistas não são tão conhecidos do grande público (o que não é um problema para a Marvel, que emplacou os Guardiões da Galáxia até com facilidade), como Inumanos, Pantera Negra ou a Capitã Marvel.

Olhando de fora, parece que são vários filmes e séries de super-herói, mas o que a Marvel quer fazer com o audiovisual é o que fez, há muito tempo, nos quadrinhos: interligar personagens e histórias para gerar interesse do público para novos produtos, criando uma mitologia própria que consagrou a reputação da editora. E com isso ela pode mexer seriamente com as distinções entre TV e cinema. A associação com o Netflix deixa isso muito claro: ela sabe que o futuro é digital e online.

E apesar de parecer um jogo de grandes cifras, o experimento da Marvel pode servir como inspiração para outros universos transmídia que não necessariamente passem por Hollywood, produções milionárias ou astros ricaços. Não custa lembrar que parte dos formatos que nos referimos quando falamos de cultura (filmes, programas de rádio e de TV, discos e canções, fotografias) são invenções do século 20 originadas e delimitadas por novas invenções. A internet interliga diferentes mídias e o digital acelera a transmissão de conhecimento – é inevitável que assistamos à criação de novos formatos que contemplem a fragmentação multiplataforma de nossos dias.

O experimento transmídia da Marvel é só o começo.

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Escrevi pra Elle do mês passado sobre três pequenos artistas que podem crescer neste ano: a australiana Courtney Barnett, a norte-americana Meghan Trainor e os cariocas do Séculos Apaixonados.

Meghan Trainor

O hit “All About That Bass” concorreu ao Grammy de melhor música de 2014 e explodiu em quase 60 países no ano passado. O talento da norte-americana Meghan Trainor já havia despontado desde a pré-adolescência, quando participou de grupos de jazz e frequentou conservatórios musicais. Mas foi no pop que ela se encontrou, primeiro como compositora (para artistas como Rascall Flats e Sabrina Carpenter) e depois com a pérola grudenta em que canta “mamãe sempre me disse para não ligar para o meu tamanho/ Os garotos gostam de mais quadris”.

Apesar da safadeza, o hit é doce como o melhor soul, e Meghan convenceu o CEO da gravadora Epic a lançá-la tocando a canção apenas em um ukulele. Seu primeiro disco saiu no início de 2015 e promete catapultar uma cantora que tem pitadas de Adele, um quê de Katy Perry, muito ritmo e personalidade.

Uma curiosidade: a blogueira brasileira Camila Coutinho participa do clipe de “Lips Are Movin”, outra canção candidata a hit.

Courtney Barnett

Irônica e ácida nas letras, a australiana Courtney Barnett enverniza seus comentários sobre relacionamentos frustrados com partes iguais de folk rock clássico, indie dos anos 1990 e country – além da personalidade divertida, que parece ser uma de suas principais forças rumo ao topo.

Seu EP duplo A Sea of Split Peas foi lançado em 2013, quando se tornou queridinha dos blogs especializados. Ela passou 2014 colhendo os frutos do sucesso. Em breve, será lançado seu novo disco, gravado no fim do ano passado.

Séculos Apaixonados

Depois do fim do Dorgas, uma das bandas mais promissoras do Rio de Janeiro, o produtor Guerrinha entou em uma trip existencialista, que o levou aos anos 1980 de sua infância – época marcada pelos timbres sintéticos utilizados pela produção de Liminha para artistas pop, como Marina Lima, Gilberto Gil e Lulu Santos, e pelas trilhas sonoras de programas jovens da Globo.

Com nova banda formada, de nome Séculos Apaixonados, já tem um disco, Roupa Linda, Figura Fantasmagórica, lançado no fim de 2014 pela gravadora Balaclava, a mesma de nomes como Holger, Single Parents e Supercordas.