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Aproveitei o lançamento do trailer do documentário sobre Amy Winehouse – além do próximo documentário sobre Kurt Cobain – pra falar sobre como os ídolos do futuro serão construídos: http://matias.blogosfera.uol.com.br/2015/04/05/amy-winehouse-kurt-cobain-e-a-criacao-dos-idolos-do-futuro/.

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Comentei outro dia sobre o documentário sobre Amy Winehouse e o trailer dele apareceu logo em seguida. Vale ver ou rever:

Dirigido pela mesma equipe que produziu o documentário Senna, o filme sobre a cantora inglesa chama-se apenas Amy e carrega uma forte semelhança com outro documentário que mencionei aqui neste blog, Montage of Heck, sobre os anos de formação de Kurt Cobain.

Já escrevi aqui que a atual fase de ouro do cinema documental inevitavelmente nos trará para questionamentos mais frequentes sobre nosso cotidiano, em vez de remoer o passado. Mas os filmes Amy e Montage of Heck são os exemplos mais recentes de uma longa onda de reinvenção pública de personalidades pop, uma tendência que teve início durante os anos 80, quando novas tecnologias como o videocassete, a fita cassete e o compact disc possibilitaram que a indústria do entretenimento começasse a se reinventar a partir de relançamentos.

Foi quando artistas e autores começaram a entender o valor de suas personalidades públicas na hora de se vender um produto cultural. Os precursores desta tendência foram os Beatles, que aproveitaram a chegada do CD para oficializar sua discografia, determinando a versão britânica de seus discos como sendo o catálogo canônico da banda. Mas só foram os Beatles – e não, por exemplo, Elvis Presley, Miles Davis, Frank Sinatra ou o Led Zeppelin – porque durante os anos 80, o grupo completava aniversários de vinte anos de diferentes efemérides em sua carreira. E sempre que uma geração madura olha para sua adolescência, a diferença entre essas duas fases é de vinte anos, o que faz que ela tenha disposição financeira para gastar com produtos culturais dos tempos em que era jovem – e quase sempre não tinha dinheiro para comprar o que gostaria. A interseção entre as novas tecnologias de registro de áudio e vídeo e o início do revival dos anos 60 deu origem à mitificação de toda uma era, que não era tão gigante em seu próprio tempo.

Não é exagero dizer que todos os clássicos dos anos 60 – sejam bandas de rock, filmes emblemáticos, best-sellers, quadrinhos alternativos – são muito maiores atualmente do que em seu tempo. Daria pra dizer o mesmo sobre ícones de outras épocas, mas os anos 60 são uma década muito mais emblemática culturalmente do que as décadas anteriores. Todo o zeitgeist presente na época – a beatlemania, a literatura beat, o free jazz, a Invasão Britânica, a Jovem Guarda, a psicodelia, o black power, a Swinging London, o existencialismo, o feminismo, a nouvelle vague, a contracultura, os movimentos sociais, o situacionismo, o tropicalismo e qualquer outro movimento daquela época – conseguiu consolidar-se vinte anos depois graças a uma onda de relançamentos que só aconteceu graças ao advento das novas tecnologias, especialmente graças à popularização do CD e do VHS.

Como estas novas tecnologias não nos abandonaram – pelo contrário, foram sendo ampliadas as formas de se registrar e relançar produtos culturais -, a consolidação das décadas que vieram após os anos 60 em nosso imaginário aconteceu à medida em que passavam-se vinte anos de cada uma delas: os anos 90 ajudaram a consolidar os anos 70 (dos Beastie Boys a Quentin Tarantino, Boogie Nights e a disseminação da estética vintage) e a primeira década deste século moldou a imagem que temos dos anos 80 (plásticos, eletrônicos, urbanos e cheios de néon). Estamos, nos anos 10, em pleno período de reavaliação dos anos 90, consolidando a última década do século passado em nosso inconsciente coletivo atual, e prestes a começar a tentar a entender os anos 00, que nem sabemos como chamar.

E é aí que entram os documentários sobre Kurt Cobain e Amy Winehouse. Cada vez mais vamos assistir à consolidação de biografias que moldaram suas reputações a partir de registros culturais – tanto ao ser inspirado por discos, livros e filmes quanto por usar gravadores, filmadoras, celulares, máquinas fotográficas e a internet como dispositivos para registrar suas próprias produções caseiras e, portanto, suas próprias vidas.

Em pouco tempo estaremos assistindo a documentários sobre pessoas que tiveram toda sua vida registrada – seja em milhões de fotos tiradas diariamente pelos pais quanto por registros em redes sociais, canais de compartilhamento de conteúdo digital, troca de mensagens instantâneas, cruzamento de contatos via internet. As infâncias de Kurt Cobain e de Amy Winehouse foram muito mais registradas do que as de John Lennon ou de Billie Holiday. Há um ar de mistério nos velhos ídolos justamente por não termos registros de tudo sobre eles.

Será que se tivéssemos redes sociais nos anos 60 assistiríamos aos shows dos Beatles em Hamburgo pelo YouTube? Ou o Velvet Underground poderia ser bem maior graças à máquina de hype de Andy Warhol? Quem sabe? O fato é que quem quiser conhecer melhor qualquer pessoa pública de nossos tempos antes da fama, basta usar a internet para fazer algumas buscas e descobrir fotos, vídeos e, dependendo da idade do artista, posts em redes sociais que podem revelar muito sobre sua produção atual e também sobre sua personalidade.

Cada vez mais os biógrafos do futuro terão menos dificuldade para acessar a acervos pessoais de seus biografados. Talvez a maior preocupação seja conseguir reunir e assistir a tudo – ver, ler, ouvir, catalogar – para chegar a um produto final.

E não acho que isso seja melhor ou pior do que o que tínhamos antes – é apenas como a cultura de nosso tempo se move.

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O filme que conclui uma das séries mais alto astral que existem vai estrear no meio do ano – e lá no meu blog do UOL eu expliquei porque acho que essa é a deixa perfeita pra você assistir a Entourage: http://matias.blogosfera.uol.com.br/2015/04/04/assista-a-serie-entourage-antes-que-o-filme-estreie-nos-cinemas/.

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Turtle (Jerry Ferrara), Ari Gold (Jeremy Piven), Vincent "Vince" Chase (Adrian Grenier),  Eric "E" Murphy (Kevin Connolly) e Johnny "Drama" Chase (Kevin Dillon)

Turtle (Jerry Ferrara), Ari Gold (Jeremy Piven), Vincent “Vince” Chase (Adrian Grenier), Eric “E” Murphy (Kevin Connolly) e Johnny “Drama” Chase (Kevin Dillon)

A praticidade digital mudou também a nossa forma de assistir TV – e isso é um dos grandes responsáveis pela ótima fase que a produção para o formato vem atravessando, especialmente no que diz respeito a seriados. Tanto que a dúvida sobre que nova série assistir tem se tornado cada vez mais frequente, à medida em que encerramos cada novo ciclo de episódios e temporadas.

Pois se você ainda não viu Entourage, a hilária comédia da HBO sobre os bastidores de Hollywood, a hora certa para tirar esse atraso é agora. O seriado, que foi produzido entre 2004 e 2011, finalmente será concluído este ano, quando um longa metragem funcionará como season finale cinematográfico para uma série sobre cinema. A previsão de estreia do filme no Brasil é o dia 13 de agosto, por isso pode parecer meio inviável assistir a oito temporadas de uma série em menos de um semestre. Mas Entourage é tão legal que seus episódios de menos de meia hora podem ser assistidos enfileirados e em duas horas assiste-se a cinco ou seis episódios sem muito esforço. Culpa da qualidade da série.

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Entourage conta a história de Vincent Chase (vivido pelo galã Adrian Grenier), um ator revelação que sai de Nova York para tentar o sucesso em Los Angeles cercado por sua “comitiva” de amigos, a entourage do título. A premissa da série é o grupo de poucos chegados que cerca qualquer celebridade em seus dias de glória, que no caso de Chase são seus amigos de infância.

O insuportável Eric Murphy (Kevin Connolly) é o melhor amigo de Vincent e por ter um pingo de experiência profissional a mais que seus amigos (foi gerente de uma pizzaria em Nova York) passa a ser o empresário do ator. O patético Johnny Chase é o meio-irmão mais velho do ator que tenta a fama depois do breve sucesso no seriado Viking Quest – enquanto isso não acontece, assume os papéis de segurança, personal trainer e cozinheiro do irmão. O gordinho Salvatore Assante (Jerry Ferrara) completa o time sem ter uma função definida, agregado pela amizade e faz as vezes de motorista ou arruma maconha quando seus amigos precisam. Os três – mais conhecidos pelos apelidos E, Drama e Turtle, respectivamente – são a base de sustentação emocional de Vincent, que não se deslumbra com o sucesso e só quer viver a vida sem se preocupar. O vínculo entre os quatro, que vai crescendo à medida em que as temporadas avançam, é a liga que sustenta a série.

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Além dos quatro, a série também conta com um dos melhores personagens de comédia deste século, o psicótico agente de Chase, Ari Gold, numa performance exemplar de Jeremy Piven que vai melhorando à medida em que a série avança. Piven, um ator de terceiro escalão, aproveitou a oportunidade de viver um personagem exageradamente desbocado e caricato e encontrou o papel de sua vida. Ari Gold é daqueles personagens que pedem uma série só pra ele.

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A série foi produzida pelo ator Mark Wahlberg, cuja turma de amigos inspirou cada um dos personagens. Esta conexão também foi responsável por trazer ao seriado um desfile de atores famosos e personalidades do primeiro time da indústria do entretenimento em participações especiais, em muitas vezes vivendo eles mesmos. Por Entourage já passaram nomes como James Cameron, Sydney Pollack, Kanye West, Dennis Hopper, Michael Phelps, M. Night Shyamalan, Martin Scorsese, Eminem, Stan Lee, Sasha Grey, Bono, Seth Green, Mandy Moore, Peter Jackson, Gus Van Sant, Matt Damon, Mike Tyson e o próprio Wahlberg, várias vezes.

E mais do que uma série divertida, Entourage é alto astral. Quase todos os episódios terminam com os amigos comemorando mais uma vitória, seja um contrato milionário, uma conquista amorosa ou uma festa de arromba. Mesmo quando tudo dá errado, a amizade dos quatro é motivo para que eles continuem fazendo o que fazem.

Ao optar encerrar sua história com um longa metragem, Entourage encerra também as metapiadas sobre o estilo de vida em Hollywood. O seriado sempre ironizou tanto as hipérboles dos blockbusters quanto o purismo artístico de produções independentes, além de exibir caricaturas grotescas de personalidades do mundo do cinema, como atores que vivem bêbados ou chapados, viciados em sexo, empresários vingativos, atores mirins de boca suja, executivos psicóticos, zens de araque, groupies de todos os sexos e alpinistas sociais. Ao ir ele mesmo para a telona, aproveita a mudança de ambiente para atingir patamares ainda mais altos de produção, que se reflete nas carreiras dos personagens, todos vivendo momentos profissionais improváveis para quem os viu no início do seriado. A transição transmídia neste caso ainda tem um toque autorreferencial. O filme é dirigido pelo criador da série, Doug Ellin.

O trailer do Entourage, divulgado na semana passada, acaba entregando o destino dos personagens para quem nunca viu a série, mas dá uma boa ideia de qual é a onda do filme, além de enfileirar todas as celebridades que fazem pontas neste enorme último capítulo. Sugiro assistir depois de ver a série inteira.

No Brasil ela pode ser vista através do HBO Go, o serviço de vídeo on demand da HBO.

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Se não deu pro Johnny Marr vir pro Brasil no auge dos Smiths, talvez sua atual fase seja a melhor época de sua carreira – por isso é bola dentro do Festival da Cultura Inglesa. Explico o porquê no meu blog no UOL: http://matias.blogosfera.uol.com.br/2015/04/03/johnny-marr-vem-para-o-brasil-na-hora-certa/

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O Festival da Cultura Inglesa vem se confirmando como um dos principais eventos do calendário cultural de São Paulo graças a uma programação constante e coesa. Fui curador das duas primeiras edições em que o evento começou a trazer artistas britânicos para fazer shows gratuitos na cidade (em 2011 e 2012) e nas ocasiões trouxemos Franz Ferdinand, Miles Kane, Blood Red Shoes, The Horrors, We Have Band e Gang of Four. De lá pra cá o festival seguiu bem seu rumo, trazendo Kate Nash em 2013 e Jesus & Mary Chain no ano passado e, para 2015, sua principal atração é o guitarrista Johnny Marr.

Seu nome não é tão conhecido como seus riffs precisos que funcionavam como espinha dorsal para todas as músicas dos Smiths durante a curta existência da banda nos anos 80. Entre 1982 e 1987, a banda liderada por Morrissey e pelo guitarrista reescreveu a história do rock mundial como uma espécie de antítese à desenvoltura dos Rolling Stones – uma banda doce (nas melodias de Marr) e ácida (nas letras de seu vocalista) que reeducava a música pop para o nascimento da estética roqueira introvertida que com o tempo seria referida como indie.

E tudo isso antes de completar 24 anos – prodígio é pouco! O fato de ser lembrado pelo legado dos Smiths ofusca uma longa carreira como guitarrista convidado e session man que segue a tradição dos velhos músicos do início do século passado, que andavam quilômetros sozinhos apenas com seus instrumentos, prontos para tocar com quem viesse pelo caminho.

Marr tocou e gravou com quem quis: Bryan Ferry, Talking Heads, Paul McCartney, Beth Orton, Everything but the Girl, Oasis, Crowded House, Pet Shop Boys, Pharrell, Beck, Jane Birkin, Cult, Lydia Lunch, Black Uhuru, Sandie Shaw, além de criar grupos passageiros com integrantes de bandas como Radiohead, Pearl Jam, Kula Shaker, Echo & the Bunnymen e o filho de Ringo Starr (Zak). Fundou o Electronic com o Bernard Sumner do New Order, foi integrante oficial por curto período de bandas tão diferentes como The The, Pretenders, Cribs e Modest Mouse e participou da trilha sonora de Inception, de Christopher Nolan.

Ao atingir o primeiro escalão do rock na tenra idade, Johnny Marr saiu dos Smiths e passou a trilhar os caminhos que quis no mundo do topo do pop dos últimos trinta anos. Antes de completar 50 anos, em 2013, assumiu sua carreira solo e desde então lançou dois discos, The Messenger e Playland, este último inspirado no livro Homo Ludens, do historiador holandês Johan Huizinga, que discute a importância do jogo no desenvolvimento da cultura humana. Os discos não são brilhantes mas estão longe de serem medianos e funcionam como credenciais para Marr seguir desbravando o planeta com sua munheca mole conduzindo sua indefectível guitarra. E sem nenhum drama em relação ao passado, sempre tocando hits dos Smiths e do Electronic em suas apresentações.

E assim ele chega mais uma vez ao Brasil, depois de uma grata apresentação à tarde no Lollapalooza do ano passado, desta vez como atração principal de um evento. O timing é perfeito: Marr está escrevendo sua autobiografia (“chegou a hora de contar a minha história”, disse à Rolling Stone) e começa a falar sobre dirigir seu primeiro filme, como revelou à BBC, sem dar maiores detalhes.

Esperto, Marr pode estar preparando também um filme para acompanhar o lançamento da autobiografia, que ele mesmo está escrevendo, sem ghostwritter, como disse na mesma entrevista à BBC em que também falou que já escreveu um terço do livro, que será lançado no segundo semestre de 2016. Marr também revelou que irá “honrar os Smiths” no livro, que ainda não tem título.

Assistiremos, portanto, o show de Johnny Marr num momento de reflexão sobre a própria carreira que pode render bons frutos, como esta recente versão que ele gravou para um clássico de outra banda contemporânea sua, “I Feel You”, do Depeche Mode.

O show de Johnny Marr acontecerá no dia 21 de junho, no Memorial da América Latina, em São Paulo.

Tidal

Expliquei lá no meu blog do UOL porque eu acho que esse novo serviço de streaming capitaneado pelo Jay-Z – o Tidal – está fadado a dar errado: http://matias.blogosfera.uol.com.br/2015/04/01/por-que-o-servico-de-streaming-de-jay-z-nao-vai-dar-certo/

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Tidal

A semana começou com o anúncio de mais um serviço de streaming de música. O Tidal, gerido pelo rapper Jay-Z, se destaca dos concorrentes ao apresentar seu elenco estelar: Daft Punk, Madonna, Beyoncé, Calvin Harris, Arcade Fire, Nicki Minaj, Jack White, Rihanna, Usher, Chris Martin e Kanye West são alguns dos nobres do mondo pop atual a endossar e participar da nova empresa.

O discurso do press-release é que o novo serviço é “uma plataforma controlada por artistas para reestabelecer o valor à música”. A cantora Alicia Keys falou em nome do grupo: “Queremos criar uma experiência e um serviço melhores para fãs e artistas. Nossa missão vai além do comércio e da tecnologia.” A diferença entre o Tidal e outros serviços atuais que já atuam nesse mercado – Spotify, Deexer, Rdio, Pandora e Napster, são seus principais nomes – é que ele não conta com versão gratuita e é necessário pagar pelo menos 10 dólares por mês para se ter acesso a conteúdos exclusivos dos artistas que Jay-Z, há tempos mais executivo do que rapper, conseguiu convencer a endossar seu novo projeto.

Nas entrelinhas do anúncio vem a mensagem de que os atuais serviços de streaming não remuneram bem os artistas, repassando centésimos de centavos por canções. Esta polêmica foi transformada em notícia quando a atual rainha da música pop Taylor Swift retirou todo seu catálogo do Spotify (o serviço de streaming mais popular do mundo atualmente) para priorizar as vendas físicas de seu ótimo álbum 1989, lançado no final do ano passado. A manobra obrigou os fãs da cantora comprar seus CDs fazendo o álbum atingir a certificação de disco de platina (um milhão de unidades vendidas) – a única concedida em 2014.

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E que estas empresa de tecnologia, que inevitavelmente comprarão os mais bem sucedidos, estão mais interessadas em tráfego de público do que com qualidade – um discurso subliminar tendencioso que acaba amaciando para os detentores dos fonogramas e, em alguns casos, dos direitos autorais: as próprias gravadoras. Não lembro de ter visto nenhuma gravadora reclamando de qualquer serviço de streaming.

Afinal, elas não tem nem porque reclamar: estes serviços garantem um belo dinheiro para estas empresas que negociam execuções públicas. E se há algo de errado, deve estar na elaboração do contrato – e não depois de ambas partes terem assinado.

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O Tidal até oferece um período de teste gratuito e já anunciou os conteúdos exclusivos que estão disponíveis para assinantes: um filme do Daft Punk, uma apresentação na TV do Arcade Fire e playlists assinadas por Beyoncé, Jay-Z, Deadmau5, Coldplay e Jack White. E se você pagar mensalidades de 20 dólares em vez de 10, você ainda recebe todos esses conteúdos em altíssima definição.

20 dólares por mês para ouvir algumas músicas exclusivas com fone de ouvido de celular? Hmmm, acho que isso não vai dar certo…

Boi de piranha
Nossos hábitos culturais têm mudado drasticamente na mesma medida em que a internet torna-se mais onipresente e invasiva em todas as atividades de nosso dia a dia e a música tem o importante papel de apontar os novos rumos, devido a uma série de fatores: você consegue ouvir música fazendo qualquer outra coisa, é muito raro alguém não gostar de música (na mesma proporção que não gosta de outras atividades culturais) e, tecnologicamente, ela é mais leve e fácil de ser transmitida. Estes fatores fizeram a música funcionar como boi de piranha para uma série de transformações que começaram a ocorrer em nossas vidas à medida em que a banda larga começou a se espalhar pelo planeta, no começo do século.

A principal tendência no mercado de música atual são os serviços de streaming de áudio. São aplicativos, redes sociais ou um misto de ambos que permitem que se tenha acesso a entre 20 e 40 milhões de canções tocadas continuamente enquanto houver conexão com a internet. Marcas que ensinam novos ouvintes a fazer listas de músicas para ouvir mais tarde, a experimentar novos artistas recomendados a partir do seu gosto musical e ouvir música enquanto estiver acompanhado por seu celular – o que hoje em dia é o equivalente a dizer “sempre”. Estes serviços em sua grande maioria são gratuitos e oferecem obstáculos para a audição em forma de anúncios ou pela limitação de recursos do sistema. Ao pagar uma mensalidade de menos de R$ 20, o assinante não ouve mais propaganda e tem acesso ilimitado às trocentas milhões de músicas oferecidas em catálogo, como se este número pudesse ser ouvido por qualquer ser humano em uma única vida.

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É um formato que radicaliza o que o hábito de baixar música havia começado. A era do download deixou as importantes obras e informações que emolduravam os discos (capa, contracapa, encarte, letras, ficha técnica, algum texto sobre o disco) como acessórios descartáveis, o importante era baixar as músicas, ponto final. A era do streaming leva esse processo ainda mais ao extremo ao transformar o momento de fruição de uma obra musical em um ato contínuo e a audição torna-se mera trilha sonora para qualquer outra atividade. Não é nem mais preciso procurar por música, ela chega – mas ao contrário da rádio, cada pessoa ouve e vive em sua própria bolha de músicas conhecidas.

Contudo não é apenas a mudança comportamental que vem sendo discutida aqui, mas a remuneração do artista, que parou de receber pelo conteúdo digital quando começou a farra do download gratuito. Agora, principalmente graças aos novos serviços de streaming, o desafio de reverter essa lógica vem sendo cumprido, quando estes serviços oferecem conteúdos mais fáceis de ser acessados – mesmo gratuitamente – do que serem pirateados.

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A entrada de Jay-Z neste jogo com o Tidal não é só parte dessa tendência de aplicativos de áudio. Ela acompanha a irreversibilidade do digital, que, em relatório do ano passado da associação dos produtores de disco dos EUA (a RIAA, na sigla original), ultrapassou pela primeira vez as vendas físicas em faturamento. Foram 32% de discos vendidos contra 37% de downloads e 27% em streaming. Além disso, há a curva ascendente destes serviços desde 2011 (quando tinham 1,8 milhões de assinantes) até o ano passado (com 7,7 milhões).

Mas há outro fator importante para o lançamento da Tidal que foi a transformação do produtor de rap Dr. Dre em magnata da música digital quando sua empresa de headphones, a Beats by Dre, foi comprada pela Apple no ano passado por quase US$ 3 bilhões de dólares. A empresa do produtor do grupo NWA, que lançou nomes como Snoop Dogg, Eminem e 50 Cent, estava começando a rascunhar seu próprio serviço de streaming quando foi comprada pela empresa fundada por Steve Jobs.

Apostaria que Jay-Z está entrando nesse jogo para consolidar o nome de sua empresa (que ele comprou há apenas dois meses) para vendê-la lá na frente, reacendendo a infame rusga entre o rap da costa oeste (Dr. Dre é da região de Los Angeles) e da costa leste (Jay-Z é da região de Nova York) dos EUA agora no campo do big business.

Mas do outro lado do ringue temos um produtor bilionário que já está associado com a Apple…

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Eis a matéria que fiz pra Ilustrada com o Cidadão Instigado sobre seu novo disco, Fortaleza, que sai em breve…

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Cidadão Instigado aposta em rock pesado
‘Fortaleza’, novo disco da banda, bebe na fonte dos anos 70 e traz influências de grupos como Led Zeppelin e Pink Floyd

“Nossas raízes são essas”, explica Fernando Catatau sobre o acento setentista impregnado no quinto disco de sua banda, o Cidadão Instigado. “É o som que a gente sempre quis”. A espera pelo disco, que só para sair, é compensada na afirmação mais pesada do grupo: o épico Fortaleza, que chega à internet e aos palcos neste início de abril. A banda disponibiliza o disco para download gratuito ainda esta semana em sua página do Facebook (/bandacidadaoinstigado) e apresenta-se no palco do Sesc Pompeia na quinta (9/4) e sexta-feira (10/4) da semana que vem.

Fortaleza é o álbum mais ambicioso do Cidadão Instigado, cheio de riffs memoráveis, grooves de rock e coros de platéia. Saem os teclados do ensolarado Uhuuu! (2009) para a entrada de vocais e violões contemplativos. E, embora pesado em sua extensão, ele também traz momentos tranquilos e líricos.

O disco é o resultado final de um processo que começou em janeiro de 2012, quando a banda passou doze dias enfurnada em uma casa de praia de Icaraizinho de Amontada, próxima a Jericoacoara, no Ceará, arranjando as canções de Catatau.

Um ano depois se reencontraram no estúdio paulistano El Rocha onde gravaram as bases. “Continuamos laboratoreando”, emenda Catatau sobre as gravações que se seguiram entre os estúdios caseiros da banda até o início deste ano, quando foram gravados os vocais logo após o carnaval.

“Foi um processo parecido com a mudança entre o Ciclo da De:Cadência (de 2002) e o Método Túfo de Experiências (de 2005), de reinventar tudo”, conta o guitarrista, lembrado pelos outros integrantes sobre a época em que pensou até em mudar o nome da banda.

Mudanças
A mudança desta vez foi na formação: o guitarrista Régis Damasceno foi para o baixo, o baixista Rian Batista assumiu violões e teclados e o tecladista Dustan Gallas tomou conta da segunda guitarra.

Só Catatau, o técnico Kalil Alaia e o baterista Clayton Martin permaneceram nos mesmos lugares. A mudança traz novos e notáveis ares ao grupo.

Nesse processo surgiu o título do disco, que deu o rumo pesado da produção. A banda cita Led Zeppelin, Black Sabbath, Raul Seixas e Thin Lizzy como influências. Além, claro, do Pink Floyd, pois as gravações ocorreram ao mesmo tempo em que a banda fazia apresentações tocando a íntegra do clássico Dark Side of the Moon (1973).

“Começamos a reparar no desenho das músicas, como uma se encaixava na outra e como iam do estúdio para o palco”, explica Régis.

Clayton também fala sobre como mapa de palco do grupo inglês – que toca alinhado horizontalmente – ajudou o Cidadão a se reinventar ao vivo. O Pink Floyd também foi crucial para uma das assinaturas do novo disco, os arranjos vocais quase sempre naquele falsete de soft rock dos anos 70, que ficaram a cargo de Rian.

Declaração de amor
O nome da capital cearense inevitavelmente levou à composição da faixa-título, uma declaração de amor à cidade natal da banda, que ao mesmo tempo questiona os valores da sociedade atual (“Cidade marginal!”, canta dúbio Catatau).

“Não é uma música só sobre Fortaleza, fala do que aconteceu com o mundo todo, essa cara de banheiro de shopping de Miami. Eu sou o único paulistano da banda e vi isso acontecer no meu bairro, a Moóca”, reforça o baterista Clayton sobre a música que ainda conta com a participação do guitarrista Dado Villa-Lobos, do Legião Urbana, nos violões.

A referência à capital cearense quase trouxe o arcano hotel Iracema Plaza, para a capa do disco. Mas, como explica Regis, “o título não é um nome próprio, é um substantivo” e a banda optou pela capa preta com o nome da banda escrito em letras pontiagudas para enfatizar sua raiz rock e exigir o trono do gênero no Brasil. As credenciais estão à mostra.

FORTALEZA
Artista | Cidadão Instigado
Gravadora | independente
Quanto | grátis (www.facebook.com/bandacidadaoinstigado)
Shows | 9 e 10/4, às 21h30, Sesc Pompeia, r. Clélia, 93; tel. (11) 3871-7700; de R$ 9 a R$ 30.

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Fortaleza dissecada

“Até que Enfim”
Baixo e bateria recebem o ouvinte com um galope à Saucerful of Secrets que ganha ares de velho oeste à entrada da guitarra e ao violão.

“Dizem que Sou Louco por Você”
Uma canção de amor que abre com um riff mortal e fecha com outro pesadaço.

“Os Viajantes”
Uma balada psicodélica com um solo cortante e vocais de Doobie Brothers.

“Perto de Mim”
“Ah se fosse assim eternamente eu só chorava…” Uma triste canção ao violão, que ganha ares de space rock graças às entradas das guitarras, teclados e vocais.

“Ficção Científica”
A paranoia de Catatau com os avanços tecnológicos traduz-se em uma faixa com várias facetas – pesada, dançante, lírica e alucinógena.

“Fortaleza”
“Minha Fortaleza ‘réia’ o que fizeram com você?”, pergunta o épico repente elétrico, apontando dedos para “os governantes” e “a elite” que desfiguraram a capital cearense.

“Besouros e Borboletas”
O “lado B” do disco abre com uma avalanche de groove lisérgico, que torna-se uma pacata canção para tocar na rádio AM, com todos os “u-uhs” e “a-ahs” que tem direito.

“Dudu Vivi Dada”
A bela balada melancólica – que também tem suas doses de riffs e arranjos vocais – é um dos melhores momentos do disco.

“Land of Light”
Um reggaeinho aparentemente inofensivo, é uma das gratas surpresas do disco – e ainda puxa a levada do samba-reggae em seu último minuto.

“Green Card”
Refrão para ser cantado em uníssono, riff de metal que conversa com timbres eletrônicos e guitarras que solam à distância, a faixa ironiza a fila para conseguir cidadania norte-americana.

“Quando a Máscara Cai”
Outra faixa bem pesada, é a segunda parte da faixa “Zé Doidim” do disco O Ciclo da Dê:Cadência, de 2002.

“Lá Lá, Lá Lá Lá Lá…”
O disco termina como se os Beatles fizessem uma faixa vocal sem letras para cantar o por – ou o nascer – do sol.

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Uma sensação de paz intensa tomou conta do pequeno teatro do Sesc Belenzinho, quando poucos puderam submeter-se ao volume sonoro do sexteto instrumental Ruído/mm, em mais uma apresentação de lançamento de seu ótimo Rasura, um dos grandes discos brasileiros do ano passado. Impassíveis no palco, os seis músicos curitibanos conduzem o público a um transe coletivo a partir de camadas de microfonia que vão superpondo-se e retraindo-se à medida em que oscilam entre o silêncio e o volume ensurdecedor, transitando entre estes em solos dedilhados, acordes expansivos, melodias ao teclado, gritos, galopes de baixo e bateria.

É o jardim elétrico cultivado pelo My Bloody Valentine e pelo Sonic Youth nos anos 80 que ergueu-se sem voz com o codinome de pós-rock na década seguinte, aglomerando influências vindas do free jazz, da música eletrônica, de trilhas sonoras de filmes, do pós-punk e da música erudita contemporânea. A massa viva de som habitada pelo Ruído/mm é uma densa floresta de improvisos musicais em que o grupo extrai recortes específicos de uma musicalidade que quase sempre recaem naquele universo instrumental de ruído branco do que preguiçosamente convencionamos chamar de indie rock: a psicodelia estática branca que une os devaneios instrumentais do Cure, o lado contemplativo do Low de David Bowie, as extensas incursões instrumentais do Yo La Tengo, os espasmos de guitarra do Radiohead e do Built to Spill, os longos caminhos percorridos pelo Spiritualized e pelo Galaxie 500.

No palco, o grupo encarna essas diferentes personalidades. Os três guitarristas quase que de forma didática dividem suas influências no vestuário casual, cada um levemente pendendo para um lado. À esquerda, André Ramiro de camisa xadrez e boné equilibra-se entre espasmos de eletricidade e solos cortantes que entregam influências do shoegaze, hardcore e do noise; ao centro, Ricardo Oliveira, de camisa e cabelos compridos, burila seu instrumento conduzindo-o para planetas musicais tão diferentes quanto National, Radiohead e Sigur Rós; à direita, o recém-regresso Felipe Aires, vestindo uma camiseta do Lost, vai da psicodelia tradicional dos solos de David Gilmour no Pink Floyd a climas de filmes de velho oeste. Os três na linha de frente quase sempre sentam-se no palco entre as canções para ajustar pedais e brincar com a microfonia. Na linha de trás, o tecladista Alexandre Liblik conversa com o baixista Rafael Panke e o baterista Giva Farina criando camas de timbres ou ritmos intensos propícios para cada diferente incursão. A formação mudou poucas vezes, apenas com Felipe assumindo um theremin digital para contrapor ao canto em falsete de Ricardo em “Penhascos, Desfiladeiros e Outros Sonhos de Fuga”, ou André e Alexandre tocando chocalhos ao final de “Bandon”.

Arquitetos conscientes de pequenas catedrais de som, eles poderiam esticar cada uma de suas músicas por mais de dez minutos, mas quando muito elas ultrapassavam os cinco (uma ou outra quase chegou nos dez). O grupo explora bem silêncios e estica temas instrumentais o suficiente para serem memorizados pelo público sem repeti-los à exaustão, como se enfatizassem a eficácia matemática explícita no “por mílimetro” de seu nome. Tocando a íntegra do novo disco e apenas uma canção de seus discos anteriores, o sexteto de Curitiba fez uma apresentação impecável que apenas reforça sua reputação, que já tem mais de uma década.

Filmei o show inteiro abaixo – ponha os fones e aperte o play.

Arquivo X 2015

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David Duchovny e Chris Carter começaram a esboçar como vai ser a curta décima temporada de Arquivo X, que começa a ser filmada no meio do ano. Comentei sobre entrevistas dadas pelos dois lá no meu blog do UOL: http://matias.blogosfera.uol.com.br/2015/03/29/o-que-podemos-esperar-do-novo-arquivo-x/

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David Duchovny e Gillian Anderson na encarnação mais recente da dupla Mulder e Scully, no filme feito em 2008

David Duchovny e Gillian Anderson na encarnação mais recente da dupla Mulder e Scully, no filme de 2008

Nem bem foi confirmada pela emissora norte-americana Fox na semana passada e a nova temporada de Arquivo X já começa a ser desenhada em nossa frente. Duas entrevistas recentes, com o criador da série Chris Carter e seu protagonista David Duchovny anteciparam algumas expectativas em relação ao que podemos esperar desta décima safra de episódios – seis, numa curta temporada, que começa a ser produzida no meio do ano.

E em Vancouver, no Canadá, onde foram filmadas – por questões de orçamento – as cinco primeiras temporadas da série. Foi uma das revelações que David Duchovny fez a Jeremy Egner, do blog ArtsBeat do jornal New York Times. Ele ainda contou que os seis episódios terão tanto histórias que serão iniciadas e terminadas num mesmo programa quanto terão relação com o extenso imaginário da série. “Vamos fazer ambos, mas eu tenho certeza que começará e terminará com a mitologia”, contou o ator, que atualmente está envolvido na produção do seriado Aquarius.

Duchovny também está ansioso para voltar ao personagem depois de evoluir como ator: “Se eu voltasse ao primeiro ou segundo ano do programa, eu não atuaria como aquele cara. Eu sou capaz de fazer melhor. Ela (Gillian Anderson, sua parceira de investigação na série no papel de Dana Scully) é capaz de fazer melhor. Será interessante ver os mesmos personagens com atores melhorados.” Duchovny também riu sobre a possibilidade da volta do clássico personagem Fumante (também conhecido por Canceroso), vivido por William B. Davis. “Ele será o Mascador de Chiclete”, disse brincando.

A outra entrevista da semana passada, que Chris Carter deu ao site X Files News, revelou ainda mais detalhes da produção. O criador da série contou que a nova versão se passará nos dias de hoje e explicará, entre outras coisas, porque a colonização alienígena, agendada para acontecer no final de 2012 segundo a série original, não foi realizada. Ele só não sabe o quanto esta explicação tomará conta dos novos episódios: “Não sei como irei abordar: se de uma forma grande, discreta ou moderna, se menciono ou se é um ponto no roteiro”, explicou.

Carter também conta que tem ideias para todos os personagens e que estão conversando com Mitch Pileggi (o diretor Walter Skinner), Annabeth Gish (a agente Monica Reyes) e Robert Patrick (o agente John Doggett) para que eles possam voltar aos velhos papéis, além da participação de Davis como o próprio Canceroso. A situação atrás das câmeras é semelhante e Carter já está falando com velhos produtores e roteiristas, como Glen Morgan (já confirmado), Darin Morgan, Jim Wong (quase confirmados) e Frank Spotnitz (em negociação).

A nova temporada também costurará os acontecimentos do filme de 2008 (Arquivo X: Eu Quero Acreditar) com a mitologia original da série e o novo material deste ano. “Estamos fazendo de tudo para que a espera tenha valido a pena”, comemorou Carter.

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Conversei com o Tricky, um dos papas do trip hop, que finalmente põe os pés no Brasil durante o festival paulistano Nublu, que acontece neste fim de semana no Sesc Pompéia. Confira a entrevista lá no meu blog do UOL: http://matias.blogosfera.uol.com.br/2015/03/28/tricky-como-antidoto-ao-lollapalooza/

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Se você não tem pique nem paciência para encarar as dezenas de horas e artistas que desfilam pelo Lollapalooza Brasil neste fim de semana, uma alternativa de porte menos adolescente é o Nublu Jazz Festival, que chega a sua quinta edição neste fim de semana, com apresentações em unidades do Sesc em São Paulo (no Sesc Pompeia) e em São José dos Campos.

O Nublu é um pequeno clube de jazz em Nova York que realiza festivais itinerantes na cidade, em São Paulo e em Istambul na Turquia, cidade-natal de seu seu dono, o saxofonista Ilhan Ersahin. Ele é o idealizador do evento que reúne titãs do groove do passado e novos talentos da música brasileira. Em edições anteriores desfilaram, lado a lado, nomes como Headhunters, o DJ Nuts, a Sun Ra Arkestra, Tulipa Ruiz, o trio Marginals, o baterista Karriem Higgins, Kassin, Guizado, Roy Ayers e o Marcos Paiva Sexteto, além dos projetos de Ersahin, como Love Trio e Wax Poetics.

A grande atração deste ano, no entanto, não vem propriamente do jazz. Desconhecido pelo seu próprio nome, Adrian Thaws é um dos pioneiros da cena de música urbana negra que começou a despontar em Bristol, na Inglaterra, no final dos anos 80. Entre o início do jungle e um hip hop cada vez mais desacelerado, com acento no jazz e funk dos anos 70 e larga reverência à toda a música jamaicana, esta cena deu origem ao soundsystem Wild Bunch que, influenciado pela nova cena dance do segundo verão do amor londrino, virou o Massive Attack. Adrian começou a rimar e participou do primeiro disco do Massive Attack, o clássico Blue Lines, de 1991. À época ele já assinava seus trabalhos como Tricky.

No ano seguinte deixou o Massive Attack e em 1995 lançou seu primeiro disco, Maxinquaye, batizado a partir do nome de sua mãe, e atingiu o nível dos mestres, fechando, ao lado do Massive Attack e do Portishead, a santíssima trindade do trip hop. O gênero, que evolui da desaceleração da acid house dos anos 90 e da absorção de referências mais orgânicas serviu como contraponto à cada vez mais veloz música eletrônica daquela década.

Vinte anos depois de Maxinquaye, Tricky finalmente chega ao Brasil, um ano após lançar um disco batizado com seu próprio nome, o festejado Adrian Thaws. “Sempre quis ir para o Brasil e algumas vezes quase fui”, me conta em entrevista por email. “Eu tenho muitos amigos que estiveram aí e me dizem que é um lugar incrível, por isso estou realmente animado de conhecer e descobrir. Não tenho nenhuma expectativa, série, só quero eu mesmo ver, sabe.” Uma ponte já foi feita, pois o rapper regravou a canção “Something in the Way”, que havia gravado com Francesca Belmonte no ano passado, com a brasileira Mallu Magalhães. Ele comentou sobre a parceria e seu último disco, entre outros assuntos, na entrevista abaixo.

Seu último disco tem seu próprio nome.
Sabe, eu venho usando o nome Tricky por anos e meu primeiro disco foi lançado com o nome da minha mãe, então é como se eu fechasse um ciclo, voltasse ao começo. Tirei cinco anos de folga quando fui morar em Los Angeles, então estou de volta agora. É como se fosse o próximo capítulo. Maxinquaye me pariu e também pariu a minha carreira, porque foi a base de toda a minha carreira. Minha mãe me deu, Adrian Thaws, a luz, e com isso eu fecho o ciclo e começo o segundo capítulo.

Como serão seus shows no Brasil?
Todo tipo de música, velha, nova, um pouco de tudo. Sou eu, minha vocalista Kamila Bleax, um baterista e um guitarrista.

Você gravou uma música com a Mallu Magalhães. Vai gravar mais algo com ela?
Sim, eu adoraria. Ela tem uma voz incrível. É tão… delicada. Uma voz linda. Desta vez ela me mandou os vocais, mas eu adoraria ir para o estúdio com ela. Seria ótimo.

O que você gosta na música pop atual?
Sabe, tudo é muito comercial. Mas tem um cara, Sam Smith. Eu não curto essa música muito comercializada, mas Sam Smith está trazendo a música pop de volta, dando um nome ao pop. Ele não é um Sam Cooke, não me entenda mal, não é um Bob Marley, nada desse tipo, mas ele tem canções lindas. Ele é bom para o pop, acho. Prefiro ele que o Justin Timberlake.
Eu escuto muito hip hop velho, quase nada novo. Muito do hip hop atual é música pop e eu não curto isso. Sabe, quando escuto hip hop eu não quero ouvir pop. Eu não quero ouvir o 50 Cent. Eu ouço hip hop underground, ou mais hardcore. Nunca gostei de música pop.

E como você escuta música atualmente?
Eu escuto CDs ou ouço no YouTube, com fones de ouvido. Quando escuto música, tenho que ouvir muito alto – ou com fones. Não tem meio-termo. Música pra mim é como uma conversa, é uma coisa muito pessoal.

E o que você tem achado deste novo cenário da música digital?
É bom, mas também é ruim. Por exemplo, se as pessoas baixam música de graça. Sabe, tem gente que não entende, mas é assim que você tira seu sustento, como você consegue fazer sua música. As pessoas deviam ao menos apoiar isso. Sabe, podem até baixar músicas de graça, mas então apoia de alguma outra forma, compra algumas músicas no iTunes ou coisa do tipo, sei lá…
As pessoas deviam apoiar mais os artistas. Eles têm a ilusão que os artistas estão ganhando dinheiro o tempo todo. Quer dizer, se você é enorme, você ganha sim. Mas aí, pra começar, você tem que que tocar no rádio. Eu não toco no rádio, não sou milionário nem nada. Se quiser baixar de graça, baixa a Madonna. Não é um grande problema pra ela, ela tem tanto dinheiro que não precisa. Mas artistad como eu, que colocam tudo em seu próprio trabalho, acho que deveriam ser apoiados.

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