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Historiador e contador de histórias

A chuva de boas vibrações que um show de Paulinho da Viola emite parece emanar apenas de sua presença serena no palco. A fala suave, o canto manso e o toque macio no cavaquinho ou no violão são o centro gravitacional de toda a noite, não importa se toque sozinho, acompanhado por um músico ou pela banda completa. Mas há outro elemento central em seus shows que é o fato de estarmos quase sempre assistindo a uma aula sobre a história do samba carioca. Ele nasceu entre sambistas e pode conviver com quase todo o panteão do samba carioca, sendo parceiro de muitos deles e gravando versões de outros, protagonizando ou assistindo de perto a momentos únicos dessa história. Por isso suas apresentações, como a deste sábado no Sesc Pinheiros, são sempre temperadas por explicações informais misturadas com causos sobre grandes nomes dessa história e sua relação com Paulinho. Modestamente, como lhe é de praxe, ele põe-se como espectador ou agente involuntário da história e cita passagens durante a apresentação, falando sobre a centralidade da caixinha de fósforo nas antigas rodas de samba antes de mostrar sambas de Zé Kéti e Elton Medeiros, sobre seu encontro com Capinam, sua parceria com Eduardo Gudin ou como Hermínio Bello de Carvalho não gostava de ser referido como o descobridor de Clementina de Jesus, esta citada como uma oração ao final da apresentação. Falou sobre como foi a primeira pessoa a gravar “Acontece” de Cartola ou quando Hermínio o transformou em coautor de um samba sobre a Mangueira que foi defendido num festival da canção por Elza Soares – e o constrangimento que isso causou em sua escola, a Portela. Mas em quase uma hora de show, o mestre octagenário (que parece não ter envelhecido nada desde que surgiu em nossa história) resolve abrir sua parte dessa história e enfileira clássico atrás de clássico numa sequência desconcertante: “Sinal Fechado”, “Roendo as Unhas”, “Dança da Solidão”, “Coração Imprudente”, “Pecado Capital”, “Coração Leviano”, , “Argumento”, “Bebadosamba”, “Timoneiro”, “Prisma Luminoso” e “Foi um Rio que Passou em Minha Vida”. Somos privilegiados de sermos contemporâneos deste mestre.

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Sobre a música preta no Brasil

A aula nem havia começado e Bernardo Oliveira já erguia as sobrancelhas ao olhar para o material que havia preparado enquanto os alunos entravam na sala: “Matias, não vai dar tempo!”, dizia antes de começar as três horas sem intervalo que havia preparado sobre música negra brasileira dentro do curso História Crítica da Música Brasileira, que estou coordenando no Sesc Pinheiros. Não deu, mas deu: Bernardo nos conduziu rumo a jornada que comparava as culturas de diferentes povos africanos e seu impacto em nossa história – e não apenas cultural. Falando sobre ciência, técnica e tecnologia, mostrou tradições que atravessam séculos mesmo vivendo sob violenta opressão e mostrando como elas moldam o próprio conceito de identidade cultural brasileira. E tome doses pesadas de Clementina de Jesus com audições de rituais de celebração de exu por todo o país, citações de José Ramos Tinhorão, o verdadeiro modernismo do Estácio de Sá, o papel político dos terreiros das tias que abrigavam o samba carioca, loas tecida às transformações em Mario de Andrade e como o termo “funk” está sendo descartado para explicitar a raiz africana deste gênero urbano brasileiro, sendo referido atualmente como “macumbinha”. Bernardo poderia falar mais ainda o dobro de tempo porque assunto e eloquência não faltavam, mas conseguiu condensar as principais problemáticas relacionadas à música negra brasileira, principalmente no que diz respeito ao que pode ser considerado brasileiro ou não. “Racionais é música negra brasileira? Eu acho que é, tem gente que acha que não é”, provocou.

Três horas sem parar só pra começar

Três horas falando sem parar sobre identidade cultural brasileira, cultura e música no século 20, apagamentos e consensos fabricados, “linha evolutiva da MPB”, o próprio conceito de MPB e como isso não tem nada a ver (e ao mesmo tempo, paradoxalmente, tudo a ver) com o conceito de música boa ou música ruim. Assim foi a primeira aula do curso História Crítica da Música Brasileira, que começou neste sábado, no Sesc Pinheiros. O curso ainda tem algumas vagas em aberto (link na bio, povo do céu) e segue nos próximos cinco sábados, sempre às 16h30. A próxima aula terá a ilustre presença do mister Bernardo Oliveira, que conduzirá a conversa sobre música preta brasileira.

História Crítica da Música Brasileira no Sesc Pinheiros

E outubro chegou chegando: a partir do próximo sábado começo mais uma série de aulas do curso História Crítica da Música Brasileira, em que repasso nosso histórico musical do último século – o da música gravada – para mostrar como os cânones e as linhas narrativas que constroem o que chamamos de música brasileira foram criadas. Desta vez o curso acontece no Sesc Pinheiros, sempre aos sábados, a partir das 16h30, e mais uma vez posso contar com a presença dos mesmos queridos intelectuais que ajudaram a tornar a primeira edição tão especial: Bernardo Oliveira, Pérola Mathias, Rodrigo Faour e Rodrigo Caçapa, cada um deles abordando um critério específico da nossa história musical, cultural, social e política. As inscrições já estão abertas e podem ser feitas neste link. Abaixo, a descrição completa do curso:  

“O céu retirado como livro que se enrola”

Ave Waly! Celebramos a obra deste monstro da poesia brasileira de forma intensa nesta quarta-feira, quando apresentamos o espetáculo de som e poesia Waly Salomão: Dito e Lido, em que Joca Reiners Terron, Julia de Carvalho Hansen e Natasha Felix despejaram a verborragia sensível e forte do poeta baiano sobre camadas elétricas de textura e melodia cogitadas pelo encontro das guitarras e pedais de Jadsa e Guilherme Held. Cada poeta teve seu bloco, pontuado pelas canções que eternizaram as letras de Waly apresentadas de forma desconstruída: Julia costurou quatro poemas (entre estes uma inspirada e ritmada versão de “Mãe dos Filhos Peixes”) com os versos de “Mal Secreto” para depois, ao lado de Natasha, perambular pelos versos e notas de “Vapor Barato”, logo depois da cascata de prosa poética despejada por Joca, ao ler um trecho de “Self Portrait”. Natasha emendou “Babilaque” e “Balada de um Vagabundo” para arrematar tudo com “Negra Melodia”, deixando, nas três, sua musicalidade nascer entre as palavras. Uma noite inesquecível.

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Ah Waly!

Jadsa, Guilherme Held, Natasha Félix, Julia de Carvalho Hansen e Joca Reiners Terron: que felicidade reunir um time tão foda para celebrar um dos grandes nomes da cultura brasileira do século passado. Waly Salomão será celebrado nesta quarta-feira no espetáculo Waly Salomão: Dito e Lido, que acontece no Auditório do Sesc Pinheiros a partir das 20h. Nele reverenciamos a alma de suas canções (ele é mais conhecido do grande público como letrista de clássicos da nossa música como “Vapor Barato” e “Mal Secreto”, entre outros), mas caímos de boca em seus poemas, que a partir das vozes destes três poetas tão distintos – e apaixonados por Waly – ganham vida e corpo com suas interpretações ao lado das guitarras dos dois instrumentistas. A apresentação ainda conta com visuais da Carol Costa e o som fica por conta do Bernardo Pacheco. É o segundo espetáculo que dirijo ao lado da comadre Juliana Vettore, com quem criei a série Dito e Lido que, em 2022, homenageou Leonard Cohen. Os ingressos, no entanto, já estão esgotados!

Waly Salomão: Dito e Lido

Satisfação imensa celebrar, na próxima quarta-feira, dia 4 de novembro, a obra deste mestre da cultura brasileira que completaria 80 anos neste 2023. Waly Salomão é mais reconhecido pelas parcerias musicais que fez com nomes como Maria Bethânia, Jards Macalé e Gal Costa, mas no espetáculo Waly Salomão: Dito e Lido mergulhamos em sua poesia com nomes de peso: Jadsa e Guilherme Held entrecruzam suas guitarras para criar o território sonoro em que os poetas Joca Reiners Terron, Natasha Felix e Julia de Carvalho Hansen percorrem os textos deste mestre baiano. É o segundo espetáculo que concebo e dirijo ao lado da Juliana Vettore, da Capivara Cultural e uma das responsáveis pelos encontros Zapoetas, depois de celebrar a vida e obra de Leonard Cohen no ano passado. O espetáculo acontece no auditório do Sesc Pinheiros a partir das 20h e os ingressos já estão à venda neste link. Abaixo, a sinopse que fizemos para esta apresentação:  

De outra dimensão

Sobrenatural a apresentação que Tiganá Santana fez de Milagre dos Peixes neste domingo no Sesc Pinheiros. O cantor baiano releu o disco cinquentenário de Milton Nascimento há três anos, quando o registrou ao lado dos comparsas Sebastian Notini (percussão e sax) e Ldson Galter (contrabaixo), e nunca havia tocado o disco ao vivo no Brasil. Esta primeira apresentação contou com os músicos Cauê Silva (percussão), Marcelo Galter (pianista irmão do baixista) e Juninho Costa (o Junix, guitarrista do BaianaSystem) e com a presença intensa de Conceição Evaristo, que pontuou a apresentação com comentários sobre música. Tiganá também aproveitou o momento para celebrar dois outros clássicos que também completam 50 anos em 2023 quando resgatou a eterna “Na Linha do Mar” do mágico Marinheiro Só de Clementina de Jesus e “Estácio Holy Estácio” do disco de estreia do nobre Luiz Melodia. “Viva a arte preta do Brasil!”, saudou antes de encerrar a apresentação com a arrebatadora “Cais”. Viva!

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Trupe azeitada

A Trupe Chá de Boldo está em ponto de bala! Depois do recolhimento do período pandêmico, o grupo paulistano voltou aos palcos em 2023 para lançar o resultado deste tempo fora de cena, o ótimo Rua Ria, que pode lançar no Sesc Pinheiros nesta sexta-feira. E é tão bom ver quando uma banda tão numerosa – são doze integrantes! – funciona de forma tão orgânica e sincronizada, incluindo as trocas de funções durante o show: o vocalista Gustavo Galo vai para a guitarra em alguns momentos, enquanto Tomás Bastos e Gustavo Cabelo revezam-se entre o baixo e a guitarra e o percussionista Rafael Werblowsky troca de lugar com o baterista Pedro Gongom e o outro percussionista Guto Nogueira vai para a frente assumir os vocais. As três vocalistas – Ciça Góes, Julia Valiengo e Leila Pereira – são a alma da banda, entrelaçando seus vocais com os de Galo e Guto e com direito a momentos solo deslumbrantes, enquanto o trio de saxes Marcos Grinspum Ferraz, Remi Chatain e Juliene Bellingeri (esta última gravidaça!) dá o molho que engrossa o groove da banda. Passaram por várias faixas do disco mais recente mas não deixaram músicas de outros discos de fora. Bem bom!

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Pelo fim da cultura popular

“Eu tenho pensado em como abordar a cultura popular, porque há uma grande contradição, profunda, que é a contradição do nosso país, que é o fato de quando a gente elogia, defende e gosta da cultura popular, a gente sabe que essa cultura é a cultura dos condenados da terra, dos oprimidos, das pessoas que não tiveram nada”, Siba interrompeu a festa que fez com a Fuloresta nesse fim de semana no Sesc Pinheiros para salientar a disparidade entre a celebração que conduzia no palco e a realidade que faz essa folia existir. “E parece que a gente quer que continue existindo gente condenada nesse país pra que continue existindo cultura popular, então talvez seja o caso de olhar lá para o horizonte e defender o fim da cultura popular, ou seja, que a cultura popular seja a cultura desse país”. Um fim de semana concluiu o reenlace do mestre pernambucano com seus companheiros e mestres de Nazaré da Mata, com quem já percorreu todo o país e viajou pelo exterior. O reencontro aconteceu há poucos meses, no Pernambuco, e as duas apresentações ocorridas em São Paulo só vieram reforçar a importância deste novo momento, principalmente a partir da perspectiva destes anos de trevas que atravessamos. E mais do que a felicidade de poder brincar ao som dessa música, que é tradicional e moderna ao mesmo tempo (teve que nem reparasse que eles puxaram “Barbie Girl”, do Aqua, entre outros temas pop, em um determinado trecho do show), foi incrível rever mestres como Barachinha, que engatou dois embates de rimas com Siba, um deles dando uma volta ao redor do público do Sesc, e Mané Roque, dançando e pulando mais feliz que todos os outros músicos reunidos, fazendo o que fazem de melhor. A festa não pode parar!

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