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Uma tradição erudita que torna-se popular

Quando Vítor Araújo dirigiu-se ao público do Sesc Pinheiros no segundo dia da temporada que fez de seu disco Toró neste fim de semana, mostrou-se emocionado ao lotar o teatro Paulo Autran por três noites seguidas e comparou a emoção com a de encher um estádio de futebol. Ao materializar seu disco (originalmente gravado com a Metropole Orkest holandesa em Amsterdã) ao lado da Orquestra de Câmara da ECA-USP neste fim de semana, Vítor subiu o sarrafo de uma tradição secular brasileira – que une a dita música clássica à canção popular brasileira num cânone que reúne compositores como Heitor Villa-Lobos, Antônio Carlos Jobim, Moacir Santos, Eumir Deodato, Arthur Verocai e Rogério Duprat. Ainda não chegou à estatura destes mestres, mas atingiu um feito que, antes de completar 40 anos, atinge um público cada vez maior. Enquanto seus antecessores azeitavam a própria mistura com elementos sinfônicos, jazzísticos, pontos de macumba ou vanguardas eruditas, Vítor deixa evidente a influência do Radiohead, seja ao cantarolar vocalises em falsete, seja nas texturas eletrônicas que surgem vez por outra – referência coerente com sua primeira aparição como prodígio da música de concerto tocando “Paranoid Android” ao piano ainda adolescente, há quase 20 anos. Conta com a percussão pernambucana como arma secreta de seu concerto, a cargo dos compadres Homero Basílio e Amendoim, e nesta apresentação, a participação ilustre do baiano Luizinho do Jêje. Completam sua banda o guitarrista da banda Baleia Felipe Pacheco Ventura e o conterrâneo baterista Arquétipo Rafa. No meio da noite puxou a delicada “Toque nº 4”, feita para sua mãe, à presença da própria, em outro momento emocionante, emendando-a com a forte “Toque nº 6”, que mostra que o Sesc Pinheiros não é o estádio que ele pode lotar (antes disso temos vários Teatros Municipais clássicos pelo Brasil), mas que já planta a semente para, quem sabe um dia, levar sua música a multidões ainda maiores. Ele já tem o que precisa para isso, é só dar tempo ao tempo.

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Um Colinho ainda maior

Casa cheia para assistir ao Colinho de Maria Beraldo ao vivo pela primeira vez no teatro Paulo Autran do Sesc Pinheiros, quase dois anos após o lançamento do segundo disco da cantora e compositora catarinense, que, para fazer jus às dimensões do teatro, chamou dois velhos compadres para agigantar a noite, ao convocar Tulipa Ruiz e Negro Leo para momentos específicos de sua apresentação. Esta continua intacta, tal como fez desde o show de lançamento, no palco do teatro do Sesc Pompeia em janeiro de 2024, à exceção da troca de um dos dois músicos que a acompanham – o baterista Sergio Machado segue junto, mas o baixista e tecladista Fábio Sá saiu para a entrada de Danilo Penteado, sem que isso tirasse a precisão da execução do show, mantendo o mesmo clima chiaroscuro estabelecido pelas luzes então espartanas e monocromáticas de Olivia Munhoz, seguido da comunicação mínima de Maria com o público. Como de praxe, o show começou às escuras, com a forte versão a capella que encerra o disco, com Maria cantando “Minha Missão’ de Clara Nunes, antes de cair no Colinho a partir do início, quase seguindo a ordem das músicas, que só mudou após o primeiro terço do show, quando ela recebeu Negro Leo para dividir uma música de seu primeiro álbum, Cavala, “Amor Verdade”. Depois foi a vez de Tulipa Ruiz entrar dançando ao som de uma versão de sua ‘Físico” e também puxou uma do Cavala (“Tenso”) para dividir os vocais com Maria. Mas quando os convidados não estavam no palco, a tensão e precisão do trio abria espaço para Maria tocar vários instrumentos (do seu clarone ao violão, passando pelo piano de cauda), enquanto Danilo alternava entre o piano, o baixo elétrico e o acústico e Sérgio segurava todos com sua percussão milimétrica. Leo voltou mais perto do fim para cantar a “Quem Sou Eu” que compôs junto com Beraldo e seguiu com sua “Jovem Tirano Príncipe Besta”, das primeiras composições que projetaram Leo para além do Rio de Janeiro. A noite ainda trouxe a versão para “Nobreza” de Djavan, antes que Maria chamasse os dois convidados para voltar ao palco e dividir sua “Truco”. Encerrou a noite, também como de praxe, invocando “Ivy” do Frank Ocean debaixo de um único ponto de luz e, pela primeira vez desde que lançou o disco ao vivo, abriu exceção para um bis, quando, novamente ao lado de Leo e Tulipa, fez todos entrarem no clima de sua “Da Maior Importância”. Fino demais.

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Boneca Russa revelada

Rômulo Fróes sabe do ás que ele tem na manga e ao chamar Marcelo Cabral para produzir e arranjar seu disco recém-lançado Boneca Russa acrescentou mais uma camada de sentido a um disco feito após um divórcio. Samba-réquiem lançado cirurgicamente na quarta-feira de cinzas deste ano, o disco conta apenas com o baixista como coadjuvante, papel que eleva-se para além do protagonismo principal quando o disco se materializa ao vivo, como aconteceu nesta quarta-feira no pequeno auditório do Sesc Pinheiros. E por mais que Rômulo seja o personagem principal – embora, liricamente, sujeito oculto do disco -, ao deixar Cabral transformar seu baixo acústico em uma usina de som, colocando pedais e loops a serviço do ruído que, às camadas, verte-se em música, ele joga o holofote para o lado e guia seu disco de pesar para a inventividade sônica do compadre e, com isso, à musicalidade de seus sambas e, portanto, seu sentimento para além das letras. Tocado na ordem do disco e terminando com a música que batiza sua filha (composta quando ela nasceu), Boneca Russa ao vivo é o disco em sua natureza bruta, emoção intensa que, se no registro fonográfico fica contida, no palco se esparrama, mas sem nunca entornar. Se puder ver esse show, assista.

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Letrux deita e rola… mesmo na tristeza

“Feliz Páscoa para todo mundo”, disse Letícia Novaes ao saudar o público que lotou o teatro do Sesc Pinheiros no domingo depois de enfileirar, sem conversa, as três primeiras músicas do novíssimo quarto álbum de seu Letrux, SadSexySillySongs, “e se vocês olharem embaixo da cadeira de cada um… não vai ter nada!”, arrematou arrancando gargalhadas. E não tem como. Apesar de ser um disco de fossa, a versão ao vivo de seu novo álbum não consegue fugir do território do humor, que ela sempre passeou com fluidez – até brincou que havia começado no stand-up comedy junto com Paulo Gustavo, Marcus Majella e Fábio Porchat, “podia estar milionária”. Mas as brincadeiras rápidas entre as músicas eram só o conforto momentâneo para um repertório que é uma faca no coração – e além das músicas do novo álbum, ela ainda visitou faixas de seus discos anteriores (“Leões”, “Abalos Sísmicos” e “Flerte Revival”) que também caminham no mesmo território pensativo e triste do novo disco e outras de outros autores, como a eterna “Pra Dizer Adeus” (de Edu Lobo e Capinam, pinçada via Maria Bethânia, a quem ela rezou para cantar sua música seguinte, “Ornamentais”), uma Alanis Morissette em versão brasileira (“You Learn” que virou “Tu Aprende”) e a clássica latina “Piel Canela”, além de outra música sua de outra encarnação, quando cantava no Letuce, “Seresta Quentinha”. Mas a principal mudança deste novo universo musical não é lírica – embora ela tenha aberto uma faixa no final da noite para enfatizar sua ênfase na letra – e sim o fato que Letícia não conta mais com a mesma banda que a acompanhou nos três primeiros discos. Ela segue solta no meio do palco, mas em vez de liderar uma banda com guitarra, teclado, baixo e bateria, vem ladeada de dois músicos – o guitarrista (e produtor do disco) Thiago Rebello e a violonista Cris Ariel -, que a erguem entre beats e camas pré-gravadas de áudio e suas cordas, que por vezes estão na raiz da música brasileira, outras conversam com o blues, noutras com o rock e em outras com o jazz. Assim a apresentação ganha ares de cabaré (principalmente pelas belíssimas luzes de Felipe Leo Pardo), algo que é escorraçado cenicamente de cara, quando vimos, logo que sobe a cortina, uma cama de casal no meio do palco, em que ela, literalmente, deita e rola..

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Em transformação

Com duas datas lotadas no teatro do Sesc Pinheiros neste fim de semana, Ana Frango Elétrico brincou que estava fazendo uma microtemporada de um show de transição ao fazer a estreia no sábado e o encerramento no domingo. Mas realmente não dá pra dizer que os shows que aconteceram nestes dias são os mesmos que ela vinha fazendo até o final do ano passado ao divulgar seu terceiro álbum, Me Chama de Gata Que Eu Sou Sua, de 2023. Mais próximo de um show de carreira – passando por seus três álbuns – do que de um dedicado ao disco mais recente, a apresentação já começava diferente ao isolar Ana no meio dos músicos, reforçando seu papel de intérprete e performer, mais do que o de band leader. Seu papel de instrumentista mesmo ficou em segundo plano, ainda que tenha tocado guitarra parte considerável do show, preferindo ornar sua figura à luz deslumbrante de Olívia Munhoz, que optou por degradês de tonalidades intensas projetadas sobre um telão ao fundo, emoldurando a figura da cantora em Rothkos de luz coloridas (quase sem verde, principal cor do show anterior). Trocando poucas palavras com o público, sem fazer bis e emendando uma música na outra, ela deixou os fãs – que cantavam todas as letras – enfeitiçados, mesmo em trechos que desconheciam, que podem apontar os próximos rumos musicais da artista, como as versões que fez para “O Leão e o Asno” de seu compadre e guitarrista de sua banda Vovô Bebê e de “Cérebro Eletrônico”, de Gilberto Gil. Um show intenso que ainda contou com assinaturas do show do disco anterior, como “A Sua Diversão” e o mashup de “Não Tem Nada Não” de Marcos Valle com “Gyspsy Woman” de Crystal Waters (marca registrada dos show do Me Chama de Gato…), além de novos arranjos para músicas já conhecidas e uma versão furiosa para “Mulher Homem Bicho”, que encerrou o show. Ana está pegando fogo!

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Ana Frango Elétrico em transição

Viram que Ana Frango Elétrico vai fazer dois shows no Sesc Pinheiros no fim deste mês? Segundo a própria, enquanto as novidades não pintam, ela aproveita para dar uma geral no repertório de seus três discos. Demais, hein.

Ninguém segura os Boogarins!

É impressionante como estar numa banda pode elevar o estado de espírito coletivo de seus integrantes a ponto de fazê-lo conectar-se com o de todos os presentes – e em todo show dos Boogarins eles chegam nesse ponto. A simbiose entre seus integrantes já transcende a fala e o gesto de tanto que eles dominaram a arte do improviso coletivo, usando ganchos pontuais de suas canções como marcações sonoras para atravessar diferentes pontos da noite em seus shows. Quando o mapa da noite é longevo Manual, segundo disco da banda que começou a festejar sua primeira década de existência no final do ano passado, essa conexão entre músicos e plateia talvez chegue em sua sintonia perfeita. Primeiro porque esse é o álbum que forjou o som da banda até hoje, em que seus atuais quatro integrantes participaram de todas as etapas e cujas canções refletem tanto o início de sua maturidade musical tanto como compositores quanto como instrumentistas. Essa força decana do disco conecta-se inclusive com a nova geração de fãs da banda goiana, contemporâneos de suas lives durante a pandemia, dos dois volumes da compilação Manchaca, da retomada aos palcos depois do período de trevas do início da década e da criação e lançamento de seu disco mais recente, Bacuri, tido como obra-prima para essa nova safra de adeptos do som da banda. Fpra, estes que em sua maioria lotaram o teatro Paulo Autran neste sábado em mais uma apresentação em homenagem ao disco de 2015, quando o grupo visitou o álbum como deve ser – seguindo-o na ordem e com direito a longos trechos improvisados, o que rendeu momentos catárticos para o público. Depois de agradecer a presença de todos e reforçar a importância de existir por causa da música, o grupo emendou um bis com duas músicas do disco mais recente (“Amor de Indie” e a faixa-título) e uma do disco Lá Vem a Morte de 2017 (a canção-assinatura “Foi Mal”) para coroar um show que ainda teve a já tradicional prancha do baixista Fefel, quando ele abandona sua peruca, e uma mudança significativa na parte técnica da banda, fazendo inclusive iluminação e telão funcionarem em harmonia perfeita. Se o show de abertura desta turnê no Cine Joia já tinha sido impressionante, este mais recente subiu ainda mais o patamar. Ninguém segura os Boogarins!

#boogarins #sescpinheiros #trabalhosujo2026shows 010

Um monumento ao Brasil

Que maravilha o show que Mônica Salmaso e André Mehmari fizeram neste fim de semana no teatro Paulo Autran do Sesc Pinheiros, revisitando o monumento à música brasileira que é o disco Elis & Tom que Elis Regina e Tom Jobim forjaram juntos – a princípio na marra e depois por prazer – em 1974. Celebrando a força desse encontro histórico, os dois optaram por não seguir a formação original do disco – que além da dupla ainda trazia uma banda (e que banda! César Camargo Mariano, Hélio Delmiro, Oscar Castro-Neves, Luizão Maia, Paulo Braga e Chico Batera, além dos gringos Bill Hitchcock, Hubert Laws e Jerome Richardson) – e fizeram uma versão minimalista e exuberante para esse conjunto de canções que fala à alma do nosso país. Optando por seguir a ordem original do disco, como um bom tributo a um álbum tem que ser, os dois só alteraram o final da noite, ao jogar “Inútil Paisagem” para o meio do show e não encerrar com uma música tão desoladora. Mônica até brincou com a carga dramática do disco, mencionando que a música mais animada chama-se “Triste”, e além de cantar passeou por alguns instrumentos de percussão, sempre no tom mínimo que escolheram para a homenagem, idealizada pelo compadre e bamba Lucas Nóbile. Tinha visto a cantora no meio do ano, no festival Jardim Sonoro, em Inhotim, celebrando a obra do maestro carioca ao lado de João Camareiro e Teco Cardoso, e sua voz parece ter sido talhada para o rigor de Jobim, bem diferente da carga dramática de Elis, que Tom achava exagerada antes de trabalhar com ela. Acompanhada apenas do virtuosismo delicado de Mehmari, Mônica estava completamente à vontade para seguir sua celebração de um dos pais do jazz brasileiro e a intimidade e longa amizade com André parecia pedir inclusive novas incursões por outros momentos da carreira de Tom. E além de hinos nacionais como “Águas de Março”, “Fotografia”, “Chovendo na Roseira”, “Corcovado”, “Modinha”, “Retrato em Branco e Preto”, “Pois É”, “Só Tinha de Ser Com Você” , “Brigas Nunca Mais”, “O Que Tinha de Ser”, “Por Toda Minha Vida” e as já citadas “Triste” e “Inútil Paisagem”, a dupla ainda voltou para um bis em que visitaram “Aos Pés da Cruz” (pérola gravada por Orlando Silva e eternizada por João Gilberto) e “Desde Que o Samba É Samba” (que Gilberto Gil e Caetano Veloso compuseram para o segundo volume do Tropicália), ambas contando com a participação do público. Foi maravilhoso – e tomara que tenham outros.

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Mercado independente, internet, tecnologia digital e o impacto nos livros sobre música do século 21

E para encerrar o curso Bibliografia da Música Brasileira que estamos dando no Sesc Pinheiros nesta quarta-feira, eu e Pérola falamos de movimentações extramusicais que mexeram não apenas na produção musical brasileira da virada do século como impactaram nas publicações deste mesmo período. Voltamos para o início dos anos 80 para mostrar como São Paulo começou a protagonizar uma mudança na produção quando casas de shows como o Lira Paulistana e lojas de discos como a Baratos Afins começaram a lançar artistas rejeitados pelas gravadoras multinacionais – que trabalhavam cada vez mais em bloco, forçando sucessos comerciais na marra -, criando, sem perceber, o mercado independente. Este foi ágil em perceber o potencial da internet e abraçou a rede desde o primeiro momento, bem como as novas tecnologias digitais, que permitiam que mais artistas tivessem como gravar seus discos e distribuí-los. Essas transformações também mexeram no mercado editorial e sua abordagem em relação à música no período, com a consolidação de novas editoras independentes, o surgimento de autores que começaram a publicar textos e livros online e a facilitação do acesso aos livros seja em PDFs piratas ou em livros digitais gratuitos. É sempre bom ministrar esse curso, pois além de um mergulho na história da nossa música, também mostra como os livros que contam essa história apenas refletem as características – políticas, estéticas e estruturais – de diferentes períodos dessa trajetória. Já estamos com vontade de dar mais aulas! (📷: @sescpinheiros)

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E tudo se expande no final do século

Retomamos eu e Pérola nesta quarta-feira o curso Bibliografia da Música Brasileira que estamos ministrando no Sesc Pinheiros e depois de falar da genealogia da MPB, chegamos ao final do século 20, quando o rock brasileiro dos anos 80 inicia um processo de descentralização da música do país que ecoa em outras praças e outros gêneros musicais, como a axé music de Salvador, o sertanejo do interior do país, a lambada de Belém do Pará e a música eletrônica, o rap e o pagode paulistano, que aos poucos preparam o terreno para a expansão ainda maior, que acontece a partir da chegada da internet, assunto para a próxima aula, a última deste curso. (📷: @onlyfarelos)

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