Mais uma primavera, mais um Fora da Casinha. A tradição aos poucos se estabelece quando o velho compadre Mancha – o dono da Casa do Mancha, reduto infalível da música independente em São Paulo – fecha a escalação de seu festival em mais um novo lugar, desta vez na Casa Híbrida, pertinho do metrô Sumaré (depois de passar pelo Centro Cultural Rio Verde, pela Unibes Cultural e pelo Largo da Batata). E, mais uma vez, ele anuncia as atrações da edição do ano em primeira mão aqui no Trabalho Sujo: dia 6 de outubro, véspera da eleição, ele reúne em três palcos diferentes novíssimos nomes, como Goldenloki, Yma, Dingo Bells, Molho Negro, Juliano Gauche, Terno Rei, Garotas Suecas, Betina, Bruno Bruni, Laura Lavieri, OZU, Strobo, além do paraninfo Mauricio Pereira. A discotecagem desta vez não fica apenas comigo e com o Danilo Cabral (que, tradicionalmente, abrimos o festival) e ainda conta com as presenças de Joyce Guillarducci (Cansei do Mainstream), Rafael Chioccarello (Hits Perdidos) e Alex Corrêa (Caverna).
“Mesmo relativamente novo, o festival me faz perceber melhor onde nosso trabalho deságua”, me explica Mancha por email. “Artistas que tocaram no primeiro ano como Boogarins, O Terno, Carne Doce são nomes que hoje se fortaleceram no mainstream, alicerçados por uma estrutura independente/alternativa de mercado da qual faço parte. Ou seja, nosso caminho tem uma coerência mercadológica, está crescendo e com isso ajudando a solidificar um nicho de economia criativa extremamente importante. E o melhor de tudo, sem perder suas características iniciais ou precisar fazer concessões incompatíveis. Uma renovada da fé no poder de transformação da arte, imprescindível pro momento que vivemos.”
Se a volta dos anos 90 já aconteceu ou ainda vai acontecer é uma discussão em aberto, uma vez que a última década do século passado não apenas abrigou diversos nichos estéticos como começou a misturá-los – e as tentativas de ressuscitar a vibe daquele período em inúmeros acontecimentos artísticos (discos, filmes, festas, livros, programas de TV, quadrinhos e até na própria internet, revisitada como um fim e não um meio) não criaram volume a ponto de mexer com o inconsciente coletivo de forma considerável como aconteceu com os anos 70 durante os anos 90 ou os anos 80 na primeira década do século. O grupo paulistano Ozu é um destes inúmeros novos acontecimentos culturais que bebem diretamente daquele período – e não está muito interessado propriamente em soar retrô.
Lançando seu primeiro álbum na próxima quarta no Sesc Pinheiros (mais informações aqui), Inner sucede dois outros trabalhos que pavimentaram sua jornada de forma bem precisa. Tanto The DownBeat Sessions Vol. 1, lançado no ano passado, quanto The Lo-Fi Sessions, no início do ano, apontavam para o trip hop e soul eletrônico inglês do fim do século passado, embora o líder da banda, o tecladista Francisco Cabral, aponte para a corrente oriental do gênero. “Acho que DJ Krush, DJ Kensei, DJ Yas e Kemuri Productions são as influências mais marcantes”, ele explica por email, reforçando outros nomes influenciados por esta cena, “existe um pessoal por aí que vem seguindo essa onda noventista também que gostamos muito como Nymano, Eevee, Unseen Village…”
O grupo é um sexteto mas a origem de suas canções começa nos samples. “São a primeira idéia pra uma música nova”, continua Cabral. “Geralmente, se já não for o caso do sample a bateria e o baixo vem em seguida. O processo básico é construir bases ou beats para adicionar melodias e linhas de voz no final. Isso tudo feito, a banda toca a composição para os ajustes finais”. E faz o contraponto com a banda ao vivo: “O show foge um pouco das repetições do hip hop e abre mais espaço para variações e improvisos criando uma atmosfera um pouco mais pro jazz. Apenas alguns timbres bem pontuais são sampleados, o resto fica bem orgânico mesmo.”
Gui Amabis mostra o belo disco Miopia neste domingo a partir das 18h no Centro Cultural São Paulo e convida Juçara Marçal e Rodrigo Campos (mais informações aqui).
Depois de um dos discos de estreias mais festejados desta década, a cantora e compositora carioca Mahmundi conseguiu dar uma continuidade à altura de seu primeiro disco ao lançar o ótimo Para Dias Ruins no inicio do semestre. Mantendo o clima pra cima do primeiro disco, ela conseguiu melhorar ainda mais o astral e deixar o sol entrar neste turbulento 2018 com um disco delicado e dançante, sensível e pop, suave e com uma ótima vibe. É um processo natural do trabalho dela, que começou fora dos palcos, trabalhando como técnica no Circo Voador, e aos poucos foi mostrando seu pop eletrônico quase timidamente no Soundcloud há seis anos, quando a chamei para participar do elenco de 2012 do saudoso Prata da Casa do Sesc Pompeia, quando fui curador daquela programação. É neste mesmo palco que ela se apresenta nesta sexta-feira, mostrando o novo disco pela primeira vez ao vivo, e aproveitei para trocar uma ideia com ela sobre os processos que a trouxeram até aqui.
Como foi o processo de composição e gravação deste disco?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/mahmundi-2018-como-foi-o-processo-de-composicao-e-gravacao-deste-disco
O que veio primeiro: a vibe das canções ou o título do disco?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/mahmundi-2018-o-que-veio-primeiro-a-vibe-das-cancoes-ou-o-titulo-do-disco
Faz sentido se pensar em álbum ainda em 2018?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/mahmundi-2018-faz-sentido-se-pensar-em-album-ainda-em-2018
Como mudou sua carreira do disco anterior até este?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/mahmundi-2018-como-mudou-sua-carreira-do-disco-anterior-ate-este
Como é este disco ao vivo?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/mahmundi-2018-como-e-este-disco-ao-vivo
Este ano perdemos o Miranda. Queria que você falasse da influência dele no seu trabalho.
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Você acompanhou a evolução da cena independente brasileira bem de perto. O que melhorou bastante e o que ainda pode melhorar?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/mahmundi-2018-como-voce-ve-a-evolucao-da-cena-independente-brasileira
Quais são seus próximos passos, uma vez que este disco foi lançado?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/mahmundi-2018-quais-sao-seus-proximos-passos-uma-vez-que-este-disco-foi-lancado
Quatro anos separam o lançamento dos discos mais recentes do percussionista Guilherme Kastrup – quatro discos e uma Elza. Quando lançou Kastrupismo, em 2014, ele era um nome conhecido principalmente entre músicos e instrumentistas, mas a partir do ano seguinte, quando dirigiu o disco Mulher do Fim do Mundo, que reativou a carreira de Elza Soares, ele tornou-se um nome mais conhecido, fazendo com que seu próximo disco ficasse num futuro distante. Desde então, excursionou com a musa do samba pelo Brasil e no exterior, gravou um novo álbum de Elza reunindo jovens artistas mais uma vez e finalmente teve tempo para lançar seu novo trabalho, Ponto de Mutação, que começa a existir a partir desta sexta, quando o primeiro single, “Reaction”, chega às plataformas digitais. Mas o músico antecipou a faixa, que, como o disco, tem fortes conotações políticas (além de samples de Noam Chomksy e Malcolm X), em primeira mão para o Trabalho Sujo – o disco será lançado dia 12 de outubro e ele apresenta o show de lançamento dia 17 de outubro, no Sesc Pompéia.
“É um disco bem diferente do Kastrupismo – talvez eles se assemelhem pela busca da construção de uma música imagética, que provoque a construção de um filme na cabeça do ouvinte. Mas as cenas que Ponto de Mutação evoca já tem outro espírito”, ele me explica por email. “Como reflexo dos nossos tempos turbulentos, a sonoridade é muito mais densa e intensa. É majoritariamente instrumental, como o anterior, mas usa muito mais a palavra, seja ela cantada, falada ou sampleada.”
“O princípio do processo criativo foram sessões de improviso livre, sem nenhuma regra ou briefing, com alguns grandes parceiros como Kiko Dinucci, Marcelo Cabral e Rodrigo Coelho. Música livre e espontânea. Somente depois dessa fase é que peguei esse material bruto e comecei a selecionar e editar”, ele continua. “Em meio a esse processo, ganhei de presente da Arícia Mess o livro O Ponto de Mutação, do físico Fritjof Capra, que mexeu muito comigo, e me abriu uma nova forma de olhar para tudo isso que estamos vivendo. Como gosto muito da ideia de que um álbum seja como um filme, com enredo, princípio meio e fim, usei a inspiração do livro para desenhar um ‘mapa’ que ilustra o caos social de nossos dias e a curva de ascensão para uma nova era. Esse mapa serviu de esqueleto para que eu esculpisse as composições a partir desse roteiro. Nesse sentido, é um álbum temático. O tema é a transformação da nossa civilização e a prece esperançosa para que essa seja uma virada para fase mais iluminada. Que a força do feminino nos ajude a sair dessa decadência do sistema capitalista, machista-branco e hétero-dominante… Axé!”, ora o percussionista, antes de citar o I-Ching: “Ao termino de um período de decadência, sobrevém o ponto de mutação. A luz que fora banida ressurge…”
“Reaction é a primeira faixa do disco, e dentro do roteiro que falei acima, retrata esse momento de caos e decadência do sistema capitalista atual – na voz do pensador Noam Chomsky sampleada do filme Réquiem para o Sonho Americano”, ele continua. “Ela foi naturalmente escolhida como single pois, além de ser a introdução para o nosso enredo, tem uma sonoridade intensa gerada pelos modulares do pernambucano Rodrigo Coelho e os violoncelos de Jonas Moncaio.” A capa do disco, abaixo, também em primeira mão para o Trabalho Sujo, foi feita em conjunto´pelo diretor de arte do disco, Vinicius Leonel.
Ele continua falando sobre o single, desta vez com ênfase no clipe. “Foi o resultado do feliz encontro com o cineasta carioca Christian Caselli, que concebeu e editou minuciosamente o clipe a partir de imagens de arquivo, muitas delas de nosso jornalismo alternativo e ativista, além das imagens do próprio filme, cedidas gentilmente pela produtora PFPictures e pelo próprio Chomsky – que me respondeu pessoalmente ao e-mail em menos de 24 horas, confirmando a lenda de que responde a todos os e-mails que recebe! O trecho que escolhi foi um que Chomsky fala dos ciclos viciosos de poder, onde as grandes corporações financiam os políticos que, por sua vez, criam leis que guinam o fluxo financeiro todo de volta às corporações, e conclui com o recado importantíssimo: ‘Se não houver reação popular, é isso que vai continuar acontecendo’. Penso que esse trecho tem uma ligação direta com os últimos fatos políticos no Brasil, e qualquer semelhança com o golpe de 2016, de contornos fascistas em 2018, não são mera coincidência! Achei que era importante trazer esse recado para a nossa realidade.”
Peço para ele me contar sobre a importância de seu trabalho com Elza Soares durante a realização deste novo disco. “A Mulher do Fim do Mundo foi uma experiência espiritual. Me senti o tempo todo envolto e empurrado por energias poderosas. Costumo dizer que eu entrei no furacão Elza – e nada é igual ao que era antes! Foi muito especial conviver com ela, como artista gigante e pessoa maravilhosa que é, e ainda ter a oportunidade de aprofundar a relação com esse grupo do Rômulo Fróes, Rodrigo Campos, Marcelo Cabral e Kiko Dinucci, especialmente, com quem fizemos também o Deus é Mulher, e que considero alguns dos maiores artistas dos nossos tempos. Além de tudo isso, adentrei muito mais de perto às questões dos movimentos negro e feminista, que Elza é uma grande porta-voz. Toda essa pororoca artística desse encontro provocou um turbilhão que virou minha vida de ponta a cabeça.”
Aproveito para lhe perguntar sobre o mercado independente brasileiro de música: “É um dos maiores do mundo. A produção é gigantesca e nós ainda somos um dos povos que mais consomem a própria música. As grandes questões ainda são a formação de público e o repasse do rendimento que essa música gera. Acho que estamos crescendo e nos profissionalizando em nossas redes, e temos bons exemplos disso como a Tulipa Ruiz, a Liniker e o Criolo, entre tantos outros que formaram e consolidaram seus públicos sem o suporte das grandes gravadoras. Ainda temos muito a crescer, pois o mercado é enorme, mas entendo que estamos caminhando bem nesse setor. Talvez o maior desafio seja contornar novamente o intermédio usurpador das majors, que migraram para as redes de streaming, e agora repassam ainda menos do que repassavam pela vendagem de discos. Acredito que havendo repasse justo de dividendos, a música independente é totalmente autossustentável.”
Outra questão específica relacionada ao seu trabalho é o fato de ele ser majoritariamente instrumental. “O Brasil é muito concentrado na canção. A canção aqui é uma entidade soberana! Novamente o problema maior é a formação de público. É conseguir furar o bloqueio das grandes mídias, das rádios e TVs, e chegar a quem tem real interesse, e formar um público novo que não consegue o acesso – se antes por falta de informação, agora por excesso dela. Já houve épocas em que atenção a música instrumental no Brasil foi muito grande. Na minha adolescência, Hermeto Pascoal, Naná Vasconcelos e Egberto Gismonti, por exemplo, lotavam grandes palcos como o Parque Lage e o Circo Voador. Agora, temos bandas como o Bixiga 70 que rejuvenesceram o seu público e abrem novas picadas nesse caminho. Esse mundo é dos persistentes e apaixonados. Continuamos seguindo. Persistentes e apaixonados.”
A banda de pagode Art Popular toma conta da Sala Adoniran Barbosa nestas quinta, sexta e sábado com o show Breakdown Partido Alto(mais informações aqui).
Lê Almeida segue explorando os rumos do próximo disco de sua nova banda, Oruã, e entrega em primeira mão para o Trabalho Sujo sua ótima versão para “Mother Sky”, do grupo alemão Can. “Já faz um tempo que tamos gravando o nosso segundo disco, Romã, e em meio a shows e sessões de gravação no Escritório começamos a gravar esses covers. O primeiro deles é ‘Mother Sky’ do Can, que já tocamos em alguns shows e quase sempre não funciona muito, até pessoas próximas dizem que não entendem muito bem, porém na nossa gravação acho que conseguimos soar o tanto pesado e agressivo que queríamos”, explica o herói do indie fluminense, que abre seu Escritório mais uma vez para comemorar o aniversário do baterista Phill neste sábado (mais informações aqui), quando lançam oficialmente sua versão do grupo kraut.
E Lê já anuncia que outra versão vem aí. “O próximo cover que vamos lançar vai sair num split em tributo ao Charlie Brown Jr. junto com a Marianaa, um conjunto amigo nosso lá de Campo dos Goytacazes”. Vamos ver.
Lana Del Rey lança mais uma música nova – a mágica “Venice Bitch” tem nove minutos e a música mais etérea que ela já gravou – e anuncia que seu próximo disco, agora batizado de Norman Fucking Rockwell, sairá no início de 2019. Produzido pelo mesmo Jack Antonoff que fez 1989 e Reputation de Taylor Swift, Melodrama de Lorde e Masseduction, de St. Vincent, a faixa segue a linha da música que lançou na semana passada, “Mariners Apartment Complex“, que aos poucos retira Lana do mood dos anos 50, mas desta vez a traz para os anos 70, com blips sintéticos retrô e uma atmosfera ainda mais hipnótica que a faixa anterior. É uma das melhores músicas de Lana, embora demore pra você perceber isso.